domingo, 14 de agosto de 2011

O Dia da Inauguração do Primeiro Transporte Coletivo em Fortaleza

A inauguração do bonde velho marcou época na vida de Fortaleza. Num domingo, dia 25 de abril de 1880 a Companhia Ferro Carril do Ceará inaugurou as linhas da Estação e do Matadouro Público.


Às 7 horas da manhã, quatro bondes embandeirados partiram da frente do Mercado Público, no Largo  da Assembleia, e foram até o Matadouro; e, de volta, chegaram à Estação do Depósito, na estrada de Messejana.
No primeiro bonde iam o Presidente da Província, José Júlio (1878-1880) e convidados; nos dois seguintes, acionistas da Ferro Carril e no último, a banda de música da Polícia.  Ao chegarem à Estação do Matadouro, houve apresentação da banda do 15° e queima de fogos. 

Seguiu-se uma sessão solene da diretoria, da qual era presidente o engenheiro José Pompeu de Albuquerque Cavalcante, diretor secretário o Dr. Rufino Antunes de Alencar e tesoureiro o comerciante João Cordeiro. Lavraram uma ata especial, consignando o memorável acontecimento, assinada pelo presidente da Província e pelos diretores da Ferro Carril.

 Praça do Ferreira com grande aglomeração na parada do bonde. No local havia um quiosque da Companhia de Bondes. (arquivo Nirez) 

Mesma Praça do Ferreira em 1905. No centro, o quiosque da Ferro Carril (Nirez) 

O engenheiro José Pompeu declarou, então, abertas ao tráfego as duas linhas inauguradas e agradeceu ao Presidente José Júlio os favores dispensados à empresa.
Às 9 horas da manhã, voltaram; e a convite do presidente José Júlio, quase toda a comitiva se dirigiram ao palácio onde foi oferecido um almoço comemorativo, ao qual se seguiram discursos e brindes.

As linhas inauguradas foram as da Estação e do Matadouro.
A primeira, partindo de frente do Mercado, no Largo da Assembleia (Praça Capistrano de Abreu), passava em frente ao prédio da Assembleia, ganhava a Rua da Boa Vista (Floriano Peixoto), dobrava na de S. Bernardo (Pedro Pereira) e, entrando por um beco, hoje desaparecido, cortava a Rua da Alegria (outro trecho da atual Floriano Peixoto);  passava ao lado Norte e em frente aos Artigos Bélicos e pela Rua Conde d’Eu entrava no Largo do Garrote (Cidade da Criança), onde, pela Estrada da Messejana ( Av. Visconde do Rio Branco), ia em linha reta, à Estação construída em 1879.

O ramal do Matadouro começava no cruzamento da Rua da Boa Vista (Rua Floriano Peixoto) com a de São Bernardo (Pedro Pereira). Seguia por esta até a Rua Amélia (Senador Pompeu), pela qual subia até a Praça de Pelotas. Dobrando na esquina do Formiga, seguia pela Rua do Livramento (Av. Duque de Caxias), atravessava em diagonal a Praça de S. Sebastião (Praça Paula Pessoa) e entrando pela Estrada do Soure (Bezerra de Menezes), chegava ao Matadouro. 

Em 1° plano o Forno Crematório da Municipalidade, onde hoje funciona a SER I, na Rua D. Jerônimo, esquina da Praça dos Libertadores. Ao fundo, o Matadouro Público, final da linha do bonde, na Estrada do Soure (Nirez)

O bonde de Pelotas seguia esse mesmo itinerário, partindo porém do Mercado, a fazer ponto naquela praça, junto à Rua General Sampaio. A extensão total destas duas linhas era avaliada em 7.500 metros.

Um anúncio avisava o público de que os carros partiam do Mercado, de meia em meia hora, e enquanto houvesse passageiros. A passagem custava cem reis, a bitola era de 1,40m, e tração animal. Os carros eram desiguais: havia os de 4, de 5 e de 7 assentos, com as lotações correspondentes a 16, 20 e 28 passageiros.


Os trilhos constavam de longarinas de madeira, pregadas nos dormentes, forradas por cima de cantoneiras de ferro sobre cuja face plana superior,  corriam as rodas. Foram depois substituídos por trilhos de ferro tipo Vignole.

A planta de Fortaleza de 1888 consigna as alterações feitas nas linhas inauguradas em 80 e os ramais então existentes.  Logo depois, foram inauguradas as linhas do Outeiro e da Porangaba.

Estrada Fortaleza-Porangaba (Av. João Pessoa), ficou sem pavimentação até 1929 (Nirez) 

Antes da inauguração do bonde, a carne vinha pela tarde, do matadouro para a feira, em lombo de burros tangidos pelos magarefes, que vestiam longas batas vermelhas e traziam gorros da mesma cor. 

No inicio da noite, voltando do Mercado, montados e em disparada, que fazia tinirem os ganchos de ferro em que haviam trazido a carne, aqueles homens negros vestidos de vermelho, metiam medo aos meninos, que corriam às léguas diante da visão dos magarefes que neles viam demônios matadores.

A Ferro Carril acabou com este transporte anti-higiênico da carne verde, construindo bondes fechados especiais, destinados a esse fim.
Já muito tempo depois de inaugurada a nossa viação urbana, apareceram os bondes chamados joão-cotoco. Eram carros sem coberta, com uma lanterna multicor em cada frente, que só trafegavam à noite, especialmente nas noites de luar.

Eram nesses bondes que os notívagos andavam acima e abaixo, contando anedotas e desfrutando a fresca da noite, como acontecia aos que demoravam até tarde, nas antigas rodas de calçadas.


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