terça-feira, 26 de agosto de 2014

As Calçadas de Fortaleza

Segundo dados do IBGE (2010), no Brasil cerca de 30% dos deslocamentos de rotina são realizados a pé, principalmente em função do alto custo do transporte público. Além da importância para a mobilidade, as calçadas funcionam também como um "sensor" da qualidade de urbanização de uma cidade.
Enfim, cidades são feitas para pessoas, e estas primordialmente caminham. A necessidade de calçadas de qualidade vale para todos: jovens, adultos, crianças, idosos e pessoas com deficiência física, que demandam pavimentos bem nivelados, sem buracos, livres de obstáculos, dotados de rampas de acesso para cadeiras de rodas.
Calçadas devem ser suficientemente largas e, sempre que possível, protegidas por arborização para conforto de quem anda sob o sol. E bem iluminadas, para quem caminha à noite. 

Calçada que margeia o Lago Jacarey

Há uns três anos  foi divulgada uma pesquisa que colocava Fortaleza em primeiro lugar  por ter as melhores calçadas entre 12 capitais avaliadas. O  resultado da pesquisa soou como uma piada em meio a população, porque boas calçadas, é tudo que Fortaleza não tem. Segundo o estudo, entre as 12 capitais avaliadas,  Fortaleza teve o maior destaque com pontuação de 7,60, e a melhor calçada foi a da Avenida Bezerra de Menezes - classificada com 9,13. Essa mesma pesquisa apontou que a melhor calçada do Brasil fica em São Paulo, mais especificamente na Avenida Brigadeiro Faria Lima: é espaçosa, sem obstáculos, tem jardins, rampas para cadeiras de roda e piso especial para orientar deficientes visuais.

Praça Francisco Moreira de Sousa, no Meireles 
Locais com urbanização mais recentes têm observado as normas que se aplicam ao espaço, e construído calçadas que facilitam o acesso a todo tipo de público.  
 
 Avenida Monsenhor Tabosa, na Praia de Iracema
Apesar de recentes, as calçadas da Avenida Monsenhor Tabosa não preenchem todos os requisitos na questão da acessibilidade. O piso tátil, universalmente utilizado para orientar deficientes visuais, foi colocado de forma inadequada e mais confunde do que orienta. A colocação de obstáculos em forma de bolas, para evitar que veículos estacionem em cima das calçadas, também serve de entrave a portadores de necessidades especiais, como cadeirantes e deficientes visuais.
                     Segundo o Código de Posturas da Prefeitura de Fortaleza:
Art. 605
– Todos os proprietários de imóveis edificados ou não, com frente para vias públicas, onde já se encontrem implantados os meios-fios, são obrigados a construir ou reconstruir os respectivos passeios e mantê-los em perfeito estado de conservação e limpeza, independentemente de qualquer intimação.

 construção na Aldeota: cadê a calçada?

 esse imóvel invadiu o espaço destinado ao passeio, aos pedestres restou a pista de rolamento.
Art. 611

– No caso dos passeios serem danificados por execução de serviços de entidades públicas ou companhias ou empresas concessionárias de serviços públicos, a obrigatoriedade de reconstrução ou conserto dos passeios ficará a cargo dessas entidades.
Art. 613
– Quaisquer obras ou serviços a serem executados nos passeios deverão ter autorização prévia do órgão municipal competente.
§ 1º - Não serão permitidos jardineiras, posteamentos, caixas de luz e força, telefone ou similares, que ocupem mais de um terço da largura dos passeios, respeitado e máximo de 0,70m (setenta centímetros), contados a partir do meio-fio, devendo o espaçamento entre esses equipamentos obedecer a determinações do órgão competente da Prefeitura, sem prejuízo das normas técnicas oficiais vigentes.



calçada do Instituto Dr. José Frota, o maior hospital de urgência e emergência do Ceará. 

§ 2º - As jardineiras de que trata o parágrafo anterior terão a altura máxima de 0,20m (vinte centímetros), contados a partir do nível do meio-fio, devendo a vegetação ser mantida dentro dos seus limites.
§ 3º - Não será permitida a colocação de trilhos ou de quaisquer outros elementos de proteção, nos passeios dos logradouros públicos.


 Rua Senador Pompeu, centro 

§ 4º - Não serão permitidas a colocação ou construção de degraus de acesso a edificações, fora dos limites dos respectivos terrenos.
§ 5º - Não será permitido amarrar ou apoiar postes, paredes, edificações ou quaisquer instalações, mediante cabos de aço ou vigas de aço ou concreto, inclinados sobre passeios e nestes presos ou fincados.
§ 6º - Não será permitido que os portões existentes nos alinhamentos das vias sejam abertos sobre passeios. 
Alguns pensadores afirmam que se pode medir o nível de civilização de um povo pela qualidade das calçadas de suas cidades. Então analisem as calçadas de Fortaleza e tirem suas próprias conclusões.

 
Fontes:
http://www.mobilize.org.br/campanhas/calcadas-do-brasil/levantamento
http://g1.globo.com/jornal-nacional
http://www.fortaleza.ce.gov.br/sites/

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A Tragédia das Secas: o dia dos mil mortos


Atualmente Fortaleza possui aproximadamente 12 cemitérios, incluindo os localizados na Região Metropolitana. Mas o que aconteceria, em termos de atendimento e funcionamento de infraestrutura, se por um infortúnio, morressem, num único dia, mais de 1000 pessoas na cidade?
Acreditem Fortaleza já passou por uma situação como essa, numa época em que os serviços funerários não existiam e as vítimas de epidemia eram sepultadas num único cemitério. 

 Rua do Centro fins do século XIX/início do Século XX (Arquivo Nirez)
 
A grande seca de 1877-1879 não apenas secou os reservatórios de água, como trouxe graves efeitos sanitários para a cidade. Desde 1845 a província do Ceará não era assolada por este tipo de fenômeno climático. Nos três anos em que perdurou, a estiagem expulsou mais de 100 mil sertanejos para a Capital, então com cerca de 30 mil habitantes. A maior parte desses retirantes ficou em abarracamentos nos subúrbios. Sofrendo com o calor tórrido, expostos às intempéries e vivendo em condições sub-humanas, a multidão foi atingida por uma violenta epidemia de varíola, que ameaçou se alastrar pela cidade.

 Estação de Iguatu no ano de 1877, uma multidão de flagelados aguarda o trem para Fortaleza 

Segundo Rodolfo Teófilo, farmacêutico que testemunhou e registrou detalhadamente o cotidiano de horror causado pela varíola, em apenas 2 meses do ano de 1877, a epidemia vitimou 27.378 retirantes no interior e nos arrabaldes de Fortaleza; no ano seguinte, 24.849 foi o total de mortos. O trecho abaixo dá uma ideia da imagem fúnebre que se abateu sobre a capital:
"Tinha Fortaleza o aspecto de sombria desolação. A tristeza e o luto entravam em todos os lares. O comércio completamente paralisado dava às ruas mais públicas a feição de uma terra abandonada. Os transeuntes que se viam eram vestidos de preto ou eram mendigos saídos dos lazaretos com os sinais recentes da bexiga confluente que lhes esburacou a cara e deformou o nariz."
Em apenas 1 dia do mês de dezembro de 1878, o cemitério do Lazareto da Lagoa Funda recebeu 1004 cadáveres. Aquele 10 de dezembro ficou conhecido como “o dia dos mil mortos”. Foram contratados 40 populares para fazer os sepultamentos e os trabalhos entraram pela noite adentro. Ainda assim mais de 100 corpos tiveram de esperar o dia seguinte para serem enterrados.(O Lazareto da lagoa Funda ficava acerca de 3 km a noroeste da cidade, no atual Jacarecanga).

grande número de retirantes se concentram na Praça da Estação em Fortaleza, em busca de trabalho, alimentos e assistência social
A Cidade não estava preparada para tamanha calamidade. Apesar de o governo provincial não poupar despesas e contratar todos os médicos da cidade, não foi possível interromper a marcha epidêmica. O Lazareto de lagoa Funda, com capacidade para 300 enfermos, logo ficou lotado. Outros lazaretos foram improvisados, permitindo mesmo precariamente, que 5 mil pessoas fossem recolhidas e tratadas, noite e dia por médicos e voluntários.
O farmacêutico Rodolfo Teófilo, fundamentado nos preceitos que regiam a medicina urbana, reprovava alguns dos procedimentos adotados durante a vigência da epidemia, como o de transportar os cadáveres dos subúrbios para o cemitério do Lazareto, passando pelas ruas centrais da cidade; reconhecido como inadequado, o trajeto da praia passou então a ser utilizado para o traslado dos corpos. 

vítimas da seca
 Teófilo censura também os carregadores que fazia o trabalho de condução dos cadáveres, arregimentados no seio das camadas urbanas mais pobres e que recebiam diária de mil réis, comida e aguardente. Ordinariamente embriagados, os carregadores descansavam das cargas deixando à vista dos que chegavam às janelas, a visão dos esquifes estendidos na calçada.
A epidemia também ceifou vidas entre os habitantes  de Fortaleza, mesmo estando distantes do museu de horrores em que se transformaram os arrabaldes e postos sanitários onde os flagelados eram atendidos. No final de dezembro de 1878, a mulher do presidente da província faleceu vítima da varíola. A partir daí ninguém mais se julgava seguro e a peste fazia vítimas entre gentes que viviam completamente isoladas.
A partir de 1879 algumas chuvas caíram e isso contribuiu para que a epidemia diminuísse. Em janeiro o número de mortos baixou para 204; em fevereiro, caiu para 176. Finalmente, o inverno de 1880 pôs fim à seca e cessou a epidemia.
 
imagem UOL
 Mas a varíola permaneceu endêmica, uma vez que alguns casos continuaram ocorrendo nos anos seguintes. Com o término da catástrofe a maioria dos retirantes voltou para o sertão ou emigrou para os seringais da Amazônia, porém muitos ficaram a mendigar pela Cidade. Eram facilmente identificados pelas marcas deixadas pela doença em seus corpos. O número de cegos pela varíola era incontrolável. Entre a turba de esmoleres, grande número de crianças, pequeninos, órfãos de pai e mãe que em companhia de mulheres vadias, de quem eram o ganha-pão, esmolavam cantando.
A varíola e a seca retornaria a Fortaleza em 1888 e 1900, mas não fez muitas vítimas entre os milhares de retirantes que novamente vieram para a Capital. O que não significa que o Lazareto da lagoa Funda não voltou a ter toda a lotação esgotada por doentes.
Após a seca de 1900, o presidente do Estado o médico Pedro Augusto Borges, mandou fechar o Lazareto da Lagoa Funda em razão do alto índice de impregnação infecciosa do prédio e do seu cemitério anexo.


Extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque – reformas urbanas e controle social – 1860-1930
fotos Google

         


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

As paradas de ônibus


O desenvolvimento dos meios de transporte favoreceu o crescimento da cidade e o surgimento de novos bairros. Não importa o quão longe seja o local de moradia ou de trabalho, se passar um ônibus por perto, o acesso e a mobilidade estão garantidos. 

 Praça José de Alencar 1981 
(foto de Gentil Barreira do livro "Viva Fortaleza") 

De acordo com o portal G1, o sistema de transporte público de Fortaleza conta com 296 linhas, 579 itinerários e 4.807 paradas de ônibus, com uma frota diária de 1.812 veículos circulando na cidade. Toda essa estrutura transporta aproximadamente 1 milhão de passageiros que utilizam diariamente o transporte público.
Fortaleza é também a 6ª. Capital do Brasil e a primeira do Nordeste a oferecer serviço de consulta de itinerários de ônibus pelo Google Maps. O usuário acessa a ferramenta, informa o trajeto que quer seguir e obtêm dados como as linhas que fazem o percurso, rotas, horários de partida e chegada, quantidade de paradas, distâncias e valor da tarifa.

Na tentativa de melhorar a viagem e garantir mais conforto aos passageiros, foi lançado o Programa de Implantação de ar-condicionado nos ônibus. A  a Prefeitura estabelece o prazo de seis anos para que toda a frota de coletivos da cidade tenha esse dispositivo. A partir de dezembro deste ano, todo novo veículo adquirido pela frota deverá contar com ar-condicionado. A cada ano, pelo menos 12,5% da frota de ônibus serão substituídos por veículos com ar-condicionado. 
Apesar da propaganda em torno do sistema de transportes e da tecnologia para obtenção de informações sobre percursos, o transporte coletivo é de péssima qualidade, com veículos sujos, quentes, superlotados, insuficientes e quase sempre atrasados em relação ao horário estabelecido.
Outro grande problema, que aflige os usuários do transporte, são os locais escolhidos para a parada dos coletivos. Das alegadas 4.807 paradas, a maioria absoluta se resume a uma placa indicativa da Etufor, sem qualquer infraestrutura, sem segurança, sem cobertura. 

 





Mesmo os pontos de ônibus dotados de equipamentos, são muitos deles, desconfortáveis, com material inadequado, como esses com coberturas transparentes, que não protegem do sol, e com assentos muito baixos.


fotos de Rodrigo Paiva 
 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Fortaleza na Era Vitoriana - A Corrida do Algodão

Nunca houve na história da Inglaterra uma época tão esplendorosa como a Era Vitoriana. No Século XIX a Grã-Bretanha quase duplicou os domínios de seu extenso império que, desde 1763, já era a primeira potência colonial do mundo. A partir da segunda metade desse século, o mundo seria ofuscado com o brilho do império britânico.
A revolução Industrial foi a principal causa e seu aceleramento, o resultado do progresso técnico e das transformações ocorridas na Inglaterra. Com a expansão da civilização industrial, novas descobertas científicas e técnicas encontraram suas aplicações práticas no prodigioso mundo vitoriano. O desenvolvimento das telecomunicações começou com o telégrafo de Morse, em 1837. Estabeleceu-se em 1851, a primeira comunicação telegráfica submarina. Quinze anos mais tarde realizou-se a primeira transmissão transoceânica.

 Rua Major Facundo, ano de 1893 

A pequena Fortaleza, tão distante do brilhante mundo inglês, viveu em sua versão própria a Era Vitoriana (em alusão à Rainha da Inglaterra Alexandrina Vitória que reinou por 64 anos, entre 1837 a 1901). Importante entreposto na exportação de algodão, a capital cearense passou a manter relações comerciais regulares com o continente europeu a partir de 1831.  Atraídos por esse comércio, ingleses, portugueses e franceses, nascidos quando se propagava em ondas a Revolução Industrial na Inglaterra, se estabeleceram em Fortaleza e tornaram-se prósperos comerciantes.
O historiador Raimundo Girão refere-se a eles como “homens afeitos às exigências das grandes cidades europeias, e por esta razão, finos cavalheiros no meio que mal saía dos hábitos mais rudimentares.

 Rua Floriano Peixoto, 1910 

A capital do Ceará não passava então de um acanhado povoado com menos de dez mil habitantes. Recentemente elevado à categoria de cidade, sua parte urbanizada não excedia a um quadrilátero formado por seis quarteirões. As  casas em geral eram baixas, escuras, com telhado de beira e bica. As ruas não eram calçadas, o abastecimento de água era muito precário e não havia iluminação pública. Na cidade observavam-se os costumes simples do sertão, com uma rotina triste e monótona. Aracati, Sobral e, sobretudo, Icó, eram mais adiantados e populosos que a pequena Fortaleza de Nova Bragança.
Com o propósito de sanear a economia e finanças do Ceará, o senador José Martiniano de Alencar então no governo da província, criou o Banco Provincial do Ceará, o primeiro a funcionar no Brasil depois do Banco do Brasil, criado por Dom João VI. Entre as obras públicas, Alencar abriu estradas, como a que ligava Fortaleza a Icó e a Sobral; construiu açudes e distribuiu terrenos entre os colonos para povoar e cultivar as terras devolutas da província, fornecendo instrumentos e condições adequadas para o seu trabalho.
Por esta época Robert Singlehurst fundou em Fortaleza a famosa Casa Inglesa, que já centenária, encerraria suas atividades como propriedade da família Salgado. Robert Singlehurst foi seguido pelos concorrentes Kalkmann, Brunn, John F. Graf, Louis Sand e J.U.Graff, que instalariam seus negócios, trazendo mudanças aceleradas na vida da cidade,  dedicando-se à importação e exportação, Henry Ellery construiu seu próprio trapiche para embarque e desembarque de mercadorias.

 fábrica Philomeno 

A Guerra de Secessão (1860-1865) trouxe a riqueza algodoeira para o Ceará. No período mais glorioso do Império britânico, quando o comércio  mundial crescia num ritmo sem precedentes, a indústria  ficou ameaçada de entrar em colapso devido ao  impedimento da exportação do algodão dos Estados Unidos, em decorrência dessa guerra. Com a corrida do algodão, o Brasil por suas condições favoráveis, tornou-se o maior produtor mundial dessa fibra, sendo o algodão cearense preferido entre os demais por sua qualidade, alvura e asseio. Iniciou-se então uma fase particularmente propícia ao desenvolvimento econômico do Ceará.

 maquinário para beneficiamento de algodão da Casa Boris 

Ao final de 1860, podiam-se contar quinze casas comerciais estrangeiras na cidade, fora as portuguesas. Entre esses comerciantes europeus, os Borges estavam entre os primeiros que aqui chegaram. Seu patriarca Martinho de Borges requereu ao rei D. João VI um passaporte para o Ceará. Na parte ocidental da atual Praça do Ferreira construiu seu palacete residencial, que posteriormente serviria de residência ao Barão de Aquiraz. Adquiriu o antigo Palácio dos Governadores, na então Rua dos Mercadores, atual Conde D’Eu, instalando ali sua casa comercial. 

 Casa Boris, 1909 

José Smith Vasconcellos, o futuro Barão de Vasconcellos chegou em 1831, em companhia do seu meio-irmão John William Studart, que se tornaria vice-cônsul britânico no Ceará e pai do Barão de Studart. Em Fortaleza, esta família juntou-se aos Mendes da Cruz Guimarães, aos Hughes, aos Ridgway, aos Moreira da Rocha e aos Albano. Maranguape abasteceria Fortaleza com as lavouras dos açorianos Amaral e Correia de Melo.
Ao lado de outras famílias tradicionais, oriundas de troncos lusitanos dessas época, estão: Amaral, Bastos, Theóphilo, Correia de Melo, Almeida, Nunes de Mello, Gouveia, entre muitas outras que ajudaram a construir esta cidade, como a família Mamede que, já em 1842 instalou a Farmácia Mamede. Do velho mundo vieram os Justa; da França Henrique Cals e vindos da Alsácia-Lorena, os Gradvohl, os Boris e os Meyer, que tantos benefícios trariam à economia e à cultura cearense.


Extraído do livro ideal Clube, história de uma Sociedade
De Vanius Meton Gadelha Vieira  
fotos do Arquivo Nirez e FIEC   

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Inauguração do Cinema São Luiz


A inauguração do Cinema São Luiz foi um evento de porte em Fortaleza. Iniciada em 1938, a construção só foi concluída no final da década de 50. O Cine São Luiz teria sua inauguração solene a 26 de março de 1958, às 21h30min, apresentando o filme  Anastácia. 
Para a imprensa e alguns convidados especiais, a Empresa Luiz Severiano Ribeiro concedera o privilégio, dois dias antes da abertura oficial, de conhecerem o cinema, quando foi exibido o filme “Suplício de uma Saudade”. A inauguração oficial é mostrada nesse documentário feito pela Atlântida.  Reparem no aeroporto, nas autoridades da época, nos vestidos de noite, nos nomes em evidência e verão um recorte fiel da elite de Fortaleza de 1958. 



  

sábado, 2 de agosto de 2014

O Culto do Afrancesamento

O Hotel de France acompanhava a tendência de afrancesamento da época; o Passeio Público, que teve como modelo os  jardins públicos europeus, acolhia as elites da cidade.
 
Paris, capital do século XIX, segundo a expressão de Walter Benjamin, não só estava na moda como ditava modas para o mundo ocidental estabelecendo os modelos e figurinos a serem seguidos para se poder estar em dia com os novos tempos. E assim foi na Europa, em São Paulo, Rio de Janeiro e em Florianópolis. Em Fortaleza não foi diferente, seduzindo os novos grupos afluentes, ansiosos por novidades que lhes deleitassem e demarcassem a superioridade social e estética. O afrancesamento, sinal de prestígio e refinamento, tornou-se uma febre na capital, nas mais variadas formas e sentidos.

 Rua Major Facundo, esquina com a Guilherme Rocha anos 20. No local onde  funcionava o Café Riche hoje está o Excelsior Hotel.  

Era elegante utilizar termos e nomes franceses onde fosse possível. O caso mais evidente era o das próprias lojas que vendiam objetos de desejo mundano vindos de Paris. Assim, não era à toa que as mesmas passassem a ostentar títulos como Rendez-vous de Dames, Au Phare de La Bastille, Paris des Dames, Paris n’America, Bom Marché, Maison Moderne, Louvre; e também Hotel de France, Restaurant Entaminet Europeu, café Riche, Confeitaria Maison Art Nouveau, Notre Dame de Paris, além de Farmácia Francesa e Farmácia Pasteur. Em suas vitrines, o atraente acervo de artigos europeus constituídos de tecidos, sapatos, perfumes, chapéus, bijuterias, conservas, bebidas, maquinários e peças de automóveis.

Propaganda da Farmácia Pasteur, fundada em 1894 e vendida em 1905, para a empresa que fez esse anúncio

Havia no ofício de fotógrafo a superstição dos nomes franceses. Fotógrafo com nome nacional ficava sem trabalho. O velho e moreno Moura passou a ser Moura Quineau. O Eurico Bandeira transformou-se em Eurico Bandière.
Alguns casos de mudança de nomes nacionais por franceses não se deram por objetivos mercadológicos, mas pela espiritualidade popular que a tudo satirizava, e que não poderia deixar passar sem gozação, tamanha compulsão pelas coisas da França. Foram os casos do Bembém Garapeira, chamado de “Bien-Bien Garapiere” e do Dr. Aurélio de Lavor que se tornou “Monsieur Laveur”. 


 Garapeira do Bembém, localizada na antiga Praça Carolina e José de Alencar, atual Waldemar Falcão. foto de 1909.

Bembém era o proprietário de um quiosque de madeira no centro da Cidade que vendia garapa de cana-de-açúcar. Seu pequeno estabelecimento divertia o público pelas brincadeiras do seu dono e por conter coisas bizarras, como cabeças feitas pelo próprio garapeiro em quengas de coco. De tanto ouvir falar da França, o garapeiro passou a cultivar o sonho de conhecer Paris. Instruído por Alfredo Salgado, um dos mais ricos comerciantes da cidade, Bembém economizou dinheiro e um belo dia, para surpresa geral, viajou para a França. Seu relato da viagem é uma das mais hilariantes histórias que a Capital já ouviu. Quem conta é Otacílio de Azevedo, no seu “Fortaleza Descalça”.
Bembém foi e voltou radiante. Lamentava apenas ter ido tão tarde, não podendo assistir a decapitação de Maria Antonieta... Aquilo é que é cidade!, dizia entusiasmado. No hotel onde me hospedei fui obrigado a escrever meu nome. Como a língua era outra, escrevi: “Bien-Bien” e mais embaixo: Garapiere. E completava: Olha, lá eu só andava com um homem chamado Cicerone que falava Português como eu. Terra adiantada aquela: todo mundo falando francês, até mesmo os carregadores chapeados, as crianças e as mulheres do povo! Bembém não se cansava de falar da França e completava declarando que lá, a única palavra em português que ouvira fora “mercibocu”... a conselho de um intelectual perverso, mandou imprimir um cartão para distribuir com amigos e fregueses: 

 BIEN-BIEN – Garapière
Fortaleza – Ceará.

Já o caso do Dr. Aurélio de Lavor é uma ilustração contundente de que a mania de afrancesamento da época às vezes beirava o patético, e por isso mesmo, logo percebido e transformado em gozação pública. O médico em questão, após viagem à Europa, não descuidava de usar impecáveis fraques, calça listrada, sapatos de verniz e cravo branco à lapela. Seu exagero se completava com a compulsão de sempre falar em francês em qualquer conversação. Em face disso, o ferino jornalista João Brígido nas páginas do seu jornal Unitário resolveu mudar o nome de Aurélio de Lavor para Monsieur Laveur, alcunha pilhérica que ganhou fama na cidade.
No meio literário a admiração pela França também se fez presente, afinal era a pátria de escritores estimados pelos literatos brasileiros. Dentre os muitos literatos cearenses que cultivavam o encantamento francês, sobressaía-se Antônio Sales, um dos principais escritores do começo do século. Vibrava quando falava na França que era uma espécie de segunda pátria para ele.


Fachada da loja Torre Eiffel, localizada na Rua Major Facundo 88. Anos 20

Recitar versos em francês era comum nas rodas literárias, principalmente entre a jovem boemia literária que vigorou intensamente na cidade, perpetrando suas aventuras urbanas em cafés, tabernas, serestas, comícios e através de pequenos jornais que não cansavam de publicar e que, em geral não passavam do 3º número.
Nesse grupo uma dos que mais se destacou pela vivência boêmia foi William Peter Bernard, profundo conhecedor das obras de poetas franceses ditos malditos, como Baudelaire, Verlaine e Rimbaud. Figura singular, Bernard costumava andar arrastando um grande bode holandês, recitava poesias com ardor enquanto se embriagava nos cafés do centro e nas bodegas e botequins mais reles, quando o dinheiro escasseava.
Certa feita, ao se deparar com dezenas de flagelados da seca de 1915 em tumulto com policiais na praia, Bernard e seus companheiros promoveram uma passeata com os retirantes dali até a Praça do Ferreira, bradando “Pão ou Revolução”. Dela só desistiu quando veio o recado do Presidente do Estado de que as frentes de serviço na estrada de ferro estavam reabertas e que o Dispensário dos Pobres receberia verba especial para atender os retirantes. No dia seguinte foi intimado para ir prestar explicações à Polícia. 

 Restaurante do Clube Iracema, que funcionava no Palacete Ceará, atual Caixa Econômica, na Praça do Ferreira, década de 1920 

Todos esses indicativos de um forte referencial francês na constituição do comércio importador-exportador, no viver mundano, nas letras e ciências em Fortaleza, consubstanciam aspectos da ardente vontade de instaurar na Cidade uma nova ordem sócio-urbana, onde as classes dominantes pudessem auferir os benefícios de uma sociedade produtiva, aformoseada, civilizada e higienizada. O afrancesamento foi, nessa perspectiva, uma vivência e uma das frentes  de persuasão tentadas para romper com a tradição e o provincianismo da cidade.

Extraído do livro
Fortaleza Belle Epoque reformas urbanas e controle social – 1860-1930
De Sebastião Rogério Ponte
pesquisa:
Cronologia Ilustrada de Fortaleza
de Miguel Ângelo de Azevedo
fotos do Arquivo Nirez