segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Greve dos Portuários (1904)

Rua Floriano peixoto, início do século XX

O ano de 1904 começou agitado em Fortaleza. Desde o dia 1° corria o boato de que os trabalhadores do porto entrariam em greve. A população começou a ficar inquieta, as famílias dos trabalhadores foram tomadas de verdadeiro pânico. O motivo da paralisação segundo se afirmava, era a execução da lei do sorteio militar. (Polêmica lei que instituía o serviço militar obrigatório e por sorteio. Seus defensores alegavam que só trabalhadores braçais e sem qualificação se apresentavam para servir ao exército. Com a adoção do sorteio, todas as classes sociais passariam a ser recrutadas).


Na manhã do dia 3 de janeiro, um domingo, chegara o paquete Maranhão. Notava-se no porto de desembarque, uma movimentação fora do normal, uma agitação, um corre-corre de populares e de homens do mar. As sete horas, explodiu o movimento paredista. Aderiram, logo no início, os catraieiros e demais empregados no tráfego marítimo. Os que não aderiram espontaneamente, foram forçados pelos grevistas.

Em pouco tempo, a rebeldia estava generalizada. Os 300 passageiros do Maranhão tiveram de ficar a bordo, sem possibilidade de pisar em terra por falta de condução. Em razão disso, avisado do ocorrido, o capitão-tenente Luís Lopes da Cruz - apelidado de De La Croix pelo jornalista João Brígido - Comandante dos Portos, homem violento e de temperamento exaltado, não contemporizou. Em vez de tentar um entendimento com os grevistas, para tentar resolver o problema, optou por pedir auxílio da força armada.

Às 8 horas, o comandante De La Croix determinou, mesmo naquele ambiente tenso, carregado de revolta geral, que a baleeira da capitania seguisse em direção ao navio, a fim de providenciar o desembarque dos passageiros que lá se encontravam retidos. 

O gesto do comandante foi recebido como uma afronta pelos catraieiros; aglomerados, em represália, impediram a saída do bote, que foi virado, e teve os remos quebrados. Sentindo-se desacatado em sua autoridade, o comandante requisitou força armada para manter sua determinação.

Imediatamente seguiu para o porto um contingente de soldados do Batalhão de Segurança, sob o comando do coronel Cabral da Silveira. A baleeira, guardada pela polícia conseguiu deixar a ponte em direção ao Paquete Maranhão.

Mas no retorno, se deu o confronto: catraieiros armados de facas, pedaços de paus e achas de lenha, exaltados ao extremo, tentaram impedir o desembarque. Em resposta, os soldados abriram fogo contra os manifestantes. A fuzilaria irrompeu violenta, durou alguns minutos, suficientes para deixar um saldo de três mortos e quarenta feridos, todos trabalhadores do porto. Terminado o tiroteio, a ponte e o mar estavam vermelhos de sangue.

Naquela noite a cidade ficou em vigília, o conflito abalou a população, houve protestos em todos os setores da sociedade. No dia seguinte, uma multidão acompanhou o sepultamento dos catraieiros que morreram no confronto. Na tarde daquele mesmo dia é que se deu o desembarque dos passageiros do Maranhão, por meio de escaleres da Polícia, e da Alfândega.

vista aérea da Praia de Iracema, com a Ponte Metálica, a Ponte dos Ingleses e as marcas dos vários trapiches que funcionaram por lá. década de 50 

A greve continuou acirrada, e os jornais em longos editoriais, faziam pesadas críticas ao Capitão dos Portos que mandara fuzilar os trabalhadores em greve. Na praia, manteve-se um contingente policial durante todo o dia, com o objetivo de manter a ordem. Na Secretaria de Justiça foi instaurado rigoroso inquérito para apurar as responsabilidades.

E uma verdadeira romaria se formou na porta do Palácio do Governo, onde várias autoridades foram protestar junto ao presidente do Estado, Dr. Pedro Borges (12 de julho de 1900-12 de julho de 1904), pelo massacre dos trabalhadores do porto.
Naquele mesmo mês o Governo Federal mandou demitir o Comandante dos Portos e ordenou sua imediata saída de Fortaleza.

Alguns anos depois, o ex comandante foi assassinado com dois tiros, em plena capital federal, a porta do Clube Naval por alguém que nunca foi identificado.

fonte: 
Coisas que o Tempo Levou, de Raimundo de Menezes
fotos do Arquivo Nirez



sábado, 8 de abril de 2017

Os Flagelados da Seca e a Construção do Porto do Mucuripe


Corria o ano de 1932, e o Ceará passava por mais um ano de estiagem. O Governo Federal, através do Ministério da Viação e Obras Públicas, andava preocupado com a extensão da seca que atingia todo o Nordeste, especialmente com o Ceará, onde cerca de 90% do seu território se encontrava em situação crítica. 

antes do porto

Não chovia desde o ano anterior. Faltava tudo, alimentos, água, remédios, estradas e campos de pouso para acelerar o socorro. Sobravam homens desesperançados, vagando pelas estradas e cidades, brigando para sobreviver. Eram os flagelados. Getúlio Vargas, então presidente do brasil, autorizou o início de dezenas de obras no Nordeste.

O Ministro da Viação e Obras Públicas, José Américo de Almeida, era um paraibano extremamente identificado com os problemas da região. Foi o responsável por uma série de ações para minimizar os efeitos da seca. Dois anos antes, a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas – IFOCS – tinha definido que seu foco de atuação seria nas obras de irrigação e açudagem, sendo excluídas de sua competência a construção de ferrovias, rodovias e serviços portuários.

Homem de visão, o Ministro José Américo não costumava tomar decisões dentro do gabinete, no Rio de Janeiro. Fazia questão de acompanhar in loco, visitando as frentes de serviços, solucionando problemas na hora. Numa dessas viagens sofreu grave acidente, quando perderam a vida dois dos seus acompanhantes: Antenor Navarro, então interventor da Paraíba, e Artur Fragoso de Lima Campos.


Exatos 30 dias após o acidente, o Ministro José Américo nomeou o engenheiro paranaense Edgard de Souza Chermont, dos quadros do Departamento Nacional de Portos e Navegação para assumir interinamente a fiscalização do Porto do Mucuripe, cujas obras nem tinham sido iniciadas.

Por trás da nomeação, havia a decisão do governo de dar prosseguimento aos estudos e instalar o processo licitatório para a construção do Porto do Mucuripe, e na medida do possível, contratar flagelados para trabalhar na obra.  Em missão anterior, Chermont tinha estudado a viabilidade da transposição das águas do Rio São Francisco para irrigar áreas secas do Nordeste.


Chermont deveria, ainda, acompanhar a construção da ferrovia Fortaleza-Mucuripe, a modificação e instalação das oficinas dentre outras atribuições, como serviços de fixação das dunas do Mucuripe. O engenheiro contratou 600 flagelados que perambulavam pelas ruas de Fortaleza, os quais, com suas famílias, representavam aproximadamente 2.400 pessoas. Como sua competência abrangia todos os portos do Ceará, igual medida foi tomada em Camocim, onde contratou mais 400 flagelados, representando mais de 1.600 pessoas.

Todos os esforços empregados enfrentaram, no entanto, dificuldades quase intransponíveis, como a incapacidade física da maioria dos flagelados para execução de trabalhos pesados e o atraso no pagamento desses trabalhadores que chegou a nove meses.


A construção da ferrovia Fortaleza-Mucuripe com 6.700 metros, mais um desvio de 700 metros, iniciada em julho de 1932 e concluída em 1933 foi o primeiro passo para garantir um mínimo de sustentabilidade às obras do Porto do Mucuripe. É que não existiam opções para chegar ao porto as pedras necessárias para sua construção. A RVC preparou uma locomotiva especial para essas obras.

Os serviços de transporte para a construção dessa linha foram extremamente onerosos, não só pela grande perda de tempo verificada no percurso dos trens entre Monguba e Fortaleza, mas também pelas frequentes panes das máquinas. O percurso entre a Estação João Felipe e o Mucuripe, que geralmente levava duas horas, sempre era feito em quatro horas.


Essa linha saía da Estação Central, descia uma duna na altura do Hotel Marina, tomando o rumo da Praia de Iracema, passava em frente ao prédio da Alfândega, onde existia uma parada obrigatória para receber mercadorias e os passageiros, e daí se arrastava quase pela beira da praia até o Mucuripe.

A linha Fortaleza-Monguba (pedreira localizada em Pacatuba), passava pelas estações de Otávio Bonfim, Couto Fernandes, Parangaba, Mondubim, Pajuçara e Maracanaú, num total de 28.334 metros. Centenas de flagelados foram contratados para limpar a área da pedreira e afim de garantir o acesso e a manobra dos trens. Faziam de tudo, escavavam a terra, recolhiam as pedras pequenas, limpavam as áreas de acesso, mantinham a vigilância do lugar e pintavam as suas poucas máquinas.

Extraído do livro Caravelas, Jangadas e Navios, uma história portuária
De Rodolfo Espínola   
fotos do arquivo Nirez, IBGE e do livro citado na fonte

terça-feira, 4 de abril de 2017

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Pelas Ruas Onde Andei (Nomes Antigos de Algumas Ruas)

Praça da Sé (antigas Praça do Conselho, Largo da Matriz e Praça Caio Prado)

As principais ruas da Vila de Fortaleza partiam da praça principal – chamada de Praça do Conselho, e posteriormente, Praça da Sé. Para a direita, acompanhando a margem esquerda do Pajeú, a atual Conde D’Eu, nome adotado em 06 de abril de 1870; antes disso, teve várias denominações, como Rua de Baixo, Nova dos Mercadores, da Matriz, e do Riacho Pajeú. Desde o início da colonização, fazia ligação com a Vila de Messejana, através da Estrada de Messejana, hoje Avenida Visconde do Rio Branco, aberta em 1796.

Av. Visconde do Rio Branco, antigos Calçamento de Messejana e Estrada de Messejana

Para a esquerda a atual Avenida Alberto Nepomuceno, chamada inicialmente de Caminho da Praia, por fazer ligação com a então Praia do Peixe (atual Iracema). Em 1856 mudou a denominação para Rua da Ponte, devido a existência de uma ponte sobre o riacho Pajeú que cortava a via; em 1889 passou a ser chamada de Rua Sena Madureira. Na gestão do Prefeito Ildefonso Albano, recebeu meio-fio e arborização. A atual denominação ocorreu após o falecimento do maestro Alberto Nepomuceno em 1920.

Para o lado Leste, encontra-se a Rua São José, antiga Rua das Almas – que ligava o Centro ao Outeiro, formado pela área que ficava entre a Heráclito Graça e a Rua do Seminário e entre a margem direita do Pajeú e a fronteira leste do Colégio Militar.

Rua Governador Sampaio, inicialmente Rua do Norte, Rua Nova do Outeiro. Em 1813 a ruela mudou para Rua do Sampaio; foi a primeira a utilizar tijolos na construção das casas. A Rua Governador Sampaio reverencia o português Manoel Inácio de Sampaio, governador da Província do Ceará (1812-1820)

Lado Oeste, sempre tendo como parâmetro a Praça da Sé, temos a Rua Dr. João Moreira, inicialmente uma ruela com o nome de Travessa da Fortaleza; depois Travessa da Misericórdia. Sofreu algumas mudanças de nomes como Rua Nova da Fortaleza, Travessa do Quartel, Rua da Misericórdia e General Tibúrcio. O nome atual se refere ao médico Dr. João Moreira, médico sanitarista, que prestava serviços na Santa Casa de Misericórdia.

Rua Castro e Silva – inicialmente Travessa da Matriz; em 1859 mudou para Rua das Flores e depois Rua Manuel Bezerra. Era a rua por onde seguiam os enterros, saídos da Sé em direção ao Cemitério de São João Batista. O nome atual homenageia o médico sanitarista José Lourenço de Castro e Silva.

Rua General Bezerril – denominação de 1888. Teve vários nomes – Rua do Quartel ou da Cadeia (a Cadeia do Crime ficava nos baixos do quartel de 1ª. Linha); rua do Oitizeiro, homenagem ao Oitizeiro do Rosário que ficava atrás da igreja. José Freire Bezerril Fontenele foi governador do Ceará no período de 1892 a 1896.

Rua Floriano Peixoto – possuía três nomes: da Travessa da Fortaleza até a atual Rua São Paulo, era Rua das Belas; da São Paulo até o sul da Praça do Ferreira, Rua da Pitombeira; e depois da praça, era a Rua da Alegria. As três formaram depois a Rua da Boa Vista, mudada para Floriano Peixoto, segundo presidente do Brasil no período republicano. Nunca esteve no Ceará, e nem há registro de qualquer benefício que tenha feito ao Estado.

Rua São Paulo – homenagem ao Estado de São Paulo; inicialmente Rua das Belas, começava na Rua dos Mercadores indo até a Rua das Belas, depois foi chamada de Travessa da Tesouraria e Rua da Assembleia.

Rua Guilherme Rocha – iniciava na Rua do Quartel com o nome de Travessa Municipal. Em 1912 foi denominada Rua 24 de janeiro devido a queda do governo Accioly. Foi a que teve seu primeiro trecho transformado em rua exclusiva para pedestre, entre a Praça José de Alencar e a Praça do Ferreira. Guilherme César da Rocha, foi vereador, coronel da Guarda Nacional, presidente da Câmara Municipal, vice-presidente do Estado e Intendente Municipal de 1892 a 1912.
  

Rua Major Facundo – aberta em 1814, pelo boticário Bernardo José Teixeira com o nome de Rua Nova Del Rei. Em 1842 teve o nome modificado para Rua da Palma, no trecho que ia até a Rua Guilherme Rocha e Rua do Fogo, o trecho seguinte. Em 1888 recebeu o nome de Major Facundo em homenagem ao ilustre morador da esquina noroeste com a Rua São Paulo, barbaramente assassinado no dia 8 de dezembro de 1841. 


Rua Barão do Rio Branco – antiga Rua Formosa; nome atual em homenagem ao intelectual, jurista, político e diplomata brasileiro, José Maria da Silva Paranhos Junior.

Rua Senador Pompeu, antiga Rua D’Amélia. No início do século XIX era o limite Oeste da parte edificada da cidade. Foi chamada informalmente de Rua dos Jornais, devido ao grande número de periódicos que tinha endereço na rua. Nome atual em memória de Thomaz Pompeu de Souza Brasil, fundador do Liceu do Ceará, escritor, político e professor.

Rua General Sampaio, antiga Rua da Cadeia, teve seu nome mudado a  partir de 1900, com a instalação do monumento ao General Antônio de Sampaio, herói da Guerra do Paraguai.

Rua 24 de maio

Rua 24 de Maio – até 1857 era chamada de Rua D. Afonso, filho de Dom Pedro II; depois virou Rua do Patrocínio, devido a proximidade com a Igreja do mesmo nome; a denominação atual é uma homenagem ao dia 24 de maio de 1866, data da batalha do Tuiuti, na Guerra do Paraguai, onde muitos cearenses fizeram parte e o General Sampaio foi ferido e morto.
  
Avenida Tristão Gonçalves – inicialmente, Rua da Lagoinha, devido a existência de uma lagoa que foi aterrada que ficava nas proximidades. Mais tarde, assou a ser chamada de Rua do Trilho de Ferro, por receber a linha férrea. O nome atual homenageia Tristão Gonçalves de Alencar, filho de Bárbara de Alencar, revolucionário que participou da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador, em 1824. Foi assassinado pelas forças imperiais no interior do Ceará em 1825. 
  
Rua Pedro Pereira – antigas Travessa Amélia e São Bernardo, por passar ao lado da Igreja de São Bernardo. O nome atual presta homenagem a Pedro Pereira da Silva Guimarães, promotor público, de Fortaleza, juiz de órfãos, professor, escritor e político.

Avenida Duque de Caxias – antigo Boulevard do Livramento devido a existência da capela do Livramento onde hoje se encontra a Igreja do Carmo. Homenagem a Luís Alves de Lima e Silva, patrono do Exército Brasileiro.

Rua Meton de Alencar antiga Rua São Sebastião, por passar próxima à Capela de São Sebastião. Parte da antiga rua passou a chamar-se Rocha Lima. Meton de Alencar foi um médico cearense, que participou como voluntário na Guerra do Paraguai. Foi diretor da Santa Casa de Misericórdia por longos anos.

Rua Solon Pinheiro antigas Rua da Trindade, e Rua da Alegria. Manoel Solon Rodrigues Pinheiro foi jornalista, advogado e político. Nascido em Cachoeira, no Estado do Ceará, o município teve seu nome mudado para Solonópole, em sua homenagem em 1943.

Rua Barão de Aratanha – antiga Rua do Lago, uma referência à Lagoa do Garrote; no início do século, chamava-se rua Pero Coelho. José Francisco da Silva Albano, o barão de Aratanha era Coronel da Guarda Nacional e comerciante.

Rua Jaime Benévolo – antiga Rua do Açude – referência ao Açude Pajeú, construído na 1ª. Administração do Senador Alencar na área onde hoje se encontra o Parque Pajeú; também foi chamada de Rua da Cruz, devido a ermida existente no local no século XIX. Jaime Benévolo era Militar e professor, nascido em Maranguape em 1854.

Rua Pedro Borges – Antiga Rua do Cajueiro. Pedro Augusto Borges foi governador do Ceará entre 1900 e 1904.

Rua Pereira Filgueiras antiga Rua do Paço devido a existência do palácio do Bispo. José Pereira Filgueiras foi um dos principais revolucionários da Confederação do Equador, movimento que tinha como proposta estabelecer a República do Brasil.

Rua Costa Barros – principal acesso da Aldeota ao Centro. Antiga Rua da Aurora e Rua do Sol. Pedro José da Costa Barros nasceu em Aracati, a 7 de outubro de 1770. Para o historiador R. Batista Aragão, Costa Barros pode ser considerado como o homem das realizações inacabadas: ainda estudante, aluno do curso de engenharia da Universidade de Coimbra, foi obrigado a abandonar os estudos por motivo superior; 

Eleito deputado à Constituinte Portuguesa, deixa de seguir para Lisboa, preferindo ficar no Rio de Janeiro; eleito em 1822, deputado para a Constituinte Brasileira, foi impedido de tomar posse. Por ocasião da abertura da sessão inicial, encontra-se processado, por envolvimento em processo sobre acontecimentos no ano anterior. Absolvido, assume o cargo, e vê a Assembleia ser dissolvida pelo Imperador. Foi nomeado Ministro da Marinha, mas não exerceu o cargo; guindado ao posto de governador do  Ceará, não pode cumprir o mandado em razão de dificuldades diversas.


Avenida Almirante Tamandaré – principal acesso à Ponte Metálica, antigo porto de Fortaleza, a construção da via só foi possível graças ao desmonte de uma duna existente próximo à alfândega. Foi inaugurada em 1916 com o nome de Avenida Atlântica; em 1920 mudou para Epitácio Pessoa; em 1932, foi chamada de Avenida Três de Outubro em homenagem à revolução de 1932. Joaquim Marques Lisboa, o Almirante Tamandaré, foi um militar da Armada Imperial Brasileira que atingiu o posto de almirante. Herói nacional, é o patrono da Marinha de Guerra do Brasil e o dia de seu nascimento, 13 de dezembro, é lembrado como o Dia do Marinheiro.
Rua 25 de Março -  antigas Ruas do Outeiro e do Pajeú. O nome da via corresponde a data da libertação dos escravos no Ceará.

Rua Coronel Ferraz – travessa do Colégio, por passar ao lado do Colégio da imaculada Conceição; depois Travessa São Luís e Figueiras de Melo. Luiz Antônio Ferraz foi o primeiro governador do Ceará no período republicano (1889-1891). Antes era comandante do 11° Batalhão de Infantaria de Fortaleza.

Avenida Santos Dumont - imagem Ítalo Sales

Avenida Santos Dumont antiga Rua do Colégio (da Imaculada Conceição). A partir de 1932, quando começou a expansão da parte leste da cidade, tornou-se Avenida Santos Dumont, homenagem ao pai da aviação, Alberto Santos Dumont.


Fontes:
Caminhando por Fortaleza, de Francisco Benedito
A História do Ceará passa por esta rua, de Rogaciano Leite Filho
fotos Google, arquivo Nirez e postais antigos

segunda-feira, 27 de março de 2017

Uma Casa Chamada Boris

prédio da Casa Boris Frères, localizado na antiga Travessa da Praia 

Em 1869 foi fundada no Ceará a Casa Theodore Boris e Irmão, cujos sócios eram os franceses Alphonse e Theodore Boris, nascidos na província de Lorena. Alphonse, o mais velho, tinha chegado primeiro, de navio, procedente do Rio de Janeiro, com a missão de fazer um reconhecimento da praça. 

Em menos de um ano de funcionamento, a Casa Theodore Boris já visualizava, a partir de Fortaleza, amplas perspectivas comerciais, a partir da identificação de produtos locais com ampla aceitação na França. Depois da guerra franco-alemã, entre 1870/1871, os dois irmãos voltaram para a França cheios de ideias, quando fundaram em Paris, com outro irmão mais novo Isaie Boris, a Boris Freres.

Nessa época, Theodore retornava a Fortaleza, na companhia de outros dois irmãos, os gêmeos – Adrien e Achille, estabelecendo-se na Rua da Palma, no centro comercial de Fortaleza. Experimentando um rápido crescimento, em menos de dois anos, a empresa  já mantinha relações de comércio com as principais praças da Europa e dos Estados Unidos e possuía ramificações em quase todo o Ceará e Estados vizinhos.

No início faziam de tudo, como autênticos mascates, visitando Estados e Municípios, rua por rua, de porta em porta, vendendo tecidos, roupas , perfumarias, artigos de decoração e mobílias, material para cozinhas e, papelaria, material de escritório além de uma infinidade de outros produtos importados.


Numa etapa seguinte passaram a comercializar maquinário, cimento, carvão, madeira para obras, gêneros alimentícios, material fixo e rodante para estradas de ferro e um mundo de objetos diversos, entre os quais estruturas de ferro. A estrutura do Theatro José de Alencar, por exemplo, foi importada da Europa por essa empresa, embora esse operação de importação tenha levado quase dez anos até ser concluída. 

Paralelamente a Boris iniciou as primeiras exportações de algodão, cera de carnaúba, couros, peles, borracha, café, penas de ema, cacau, madeiras tintoriais e preciosas e sementes de oiticica. O estabelecimento, transformou-se depois na firma Boris Frères, com sede em Paris e endereço em Fortaleza na antiga Travessa da Praia, atual Rua Boris. 

Em 1878, mais um dos irmãos – Isaie Boris – veio residir no Ceará, o que deu mais prestigio, respeito e credibilidade ao estabelecimento. O nome Boris virou sinônimo de confiança, garantia de seriedade nos negócios. O espírito popular começou a chamar o Mar de Açude do Boris; qualquer impasse que surgia em determinada situação, o gracejo é que seria resolvido pelo Boris; à Justiça deram a alcunha de mãe do Boris, significando que até os tribunais eram influenciados pelos comerciantes franceses. 

máquina de prensar couro e algodão, importada e utilizada pela Casa Boris. Hoje faz parte do acervo do Museu da Indústria 

Isaie Boris tornou-se Vice-cônsul da França e elevou-se mais ainda na consideração e estima da sociedade fortalezense, do comércio e dos poderes públicos. Coordenou e foi presidente da comissão Organizadora quando da participação do Ceará na Exposição Internacional de Chicago em 1892-93, elaborando o catálogo de produtos cearenses que deveriam figurar na exposição. Com o afastamento de Isaie Boris, a firma Boris Frères passou a ser administrada em Fortaleza por Achille Boris, outro grande empreendedor.

máquina de prensar algodão, em operação na Casa Boris Frères 

A tal ponto chegou a influência e a atuação dos Boris em Fortaleza, que algumas vezes, teve a Fazenda do Estado de recorrer ao seu financiamento para atender as carências monetárias dos cofres públicos. Por conta dessa crescente ingerência da Casa Boris nos negócios e na vida da cidade, essa influência foi se acentuando, e ficou ainda maior com as viagens à Europa, de preferência à França, de várias personalidades cearenses, algumas acompanhadas das famílias, onde às vezes se demoravam meses e anos, segundo dizem, as expensas da Casa Boris. Muitos foram os cearenses que estudaram, se graduaram médicos, engenheiros na França, e casaram com damas francesas.

Isaie Boris, hoje é nome de rua em Fortaleza 

Os irmãos Boris chegaram a tal grau de integração cultural, que conheceram Padre Cícero,  acolheram o beato José Lourenço na fazenda Serra Verde em Caririaçu (depois do massacre de 1936), e receberam na mesma fazenda , a visita de Patativa do Assaré, em 1956, que os presenteou com versos improvisados , por ocasião do aniversário da esposa de um deles.


Extraído do livro
Caravelas, Jangadas e Navios, uma história portuária de Rodolfo Espínola


quinta-feira, 9 de março de 2017

Dona Fideralina – A Matriarca do Sertão



As matriarcas são personagens semi-lendárias, proprietárias de terra e gado no interior do sertão, longe das pretensões fidalgas das Casas Grandes da zona açucareira. Levavam uma vida rústica relativamente distante dos padrões culturais europeus que, na época, moldavam as sociedades do litoral nordestino. No sertão, exerciam grande poder de liderança, tendo controle total de seus feudos regionais. 

O poder das matriarcas não era necessariamente vinculado ao poder político ou econômico da região, ainda que, subsidiariamente, tenham desenvolvido atividades e ocupado posições de controle nessas áreas. De forma sintomática surgem elas em cena a partir da posição ocupada na estrutura familiar. São chefes de família, ou melhor, tornam-se chefes de família devido à ausência do patriarca, por morte, ou por viagens constantes. Raramente são solteiras ou sem família. A manipulação de filhos, parentes e agregados, parece ser o foco inicial do poder e do raio de influência das matriarcas.

Começam a exercer seu controle em um âmbito mais restrito, o familiar, e terminam por englobar a rede de poderes que liga, de forma bastante específica no interior do Nordeste, o Estado, a Igreja e a família.

 O refúgio da matriarca - Sítio Tatu, em Lavras da Mangabeira 
(imagem do Blog do Sanharol)
http://blogdosanharol.blogspot.com.br/

 Casa Grande do Sitio Tatu atualmente
(imagem do blog Cariri Cangaço)
http://cariricangaco.blogspot.com.br/

Dona Fideralina reuniu no Sítio do Tatu, cem cabras que havia conseguido juntar com a ajuda de outros coronéis da região. Deu ordens para que seguissem rumo a Princesa, na Paraíba. O grupo de cangaceiros iria vingar a morte de seu neto, Ildefonso Lacerda Leite, médico que logo após formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, começou a exercer a profissão em Princesa, terra de seu pai, Luís Leônidas Lacerda Leite (legítimo ladrão de Lavras – dizia o povo), marido de Joana Augusto Leite, filha de Fideralina.

Lá, Ildefonso casou-se com Dulce Campos, filha de um chefe político do município, coronel Erasmo Alves Campos. Com esse casamento, o doutor precipitava a própria sorte. Manoel Florentino desejava ter Dulce por esposa. Enraivado vendo-a casar-se com o forasteiro Ildefonso, resolveu vingar-se. Junta-se a José Policarpo, ex-aluno do Seminário da Paraíba, ligado ao vigário de Princesa, Manoel Raimundo Donato Pinto. O vigário se opunha ao doutor, acusando-o de ateu.

Em 6 de janeiro de 1903, feriado do Dia de Reis, Florentino e Policarpo mataram, com uma punhalada no peito e um tiro no coração, o neto de Fideralina. O moço ia à farmácia providenciar remédios para acudir sua mulher. Após o crime tentaram os criminosos enterrar o cadáver. Mas, por imperícia, deixaram o corpo com os pés de fora.

Vingança maior aguardava a dupla de assassinos. A velha "Fidera do Tatu" despachara o seu estranho exército com a incumbência de lhe trazer as orelhas de cada um dos assassinos do neto. Não era à toa que se dizia nas Lavras que a velha do Tatu rezava toda noite num rosário feito das orelhas de seus inimigos mortos: queria aumentar a coleção.

Esse crime de Princesa, marca o início da projeção de dona Fideralina para além dos sertões do Cariri, e a extensão da sua influência junto ao governo do Estado. Nascida em 1832, em Lavras, batizou-se por Fideralina Augusto Lima, graças aos entusiasmos republicanos, provocados pelos movimentos revolucionários no Nordeste, no Levante de 1817 e na Confederação do Equador em 1824.

Familiarizou-se desde cedo com o poder. Era a mais velha de doze irmãos; o pai, chefe político na região de Lavras, João Carlos Augusto, descendia de família poderosa. A mãe de Fideralina também se envolvia com política. Isabel Rita de São José, a Zabilinha, era neta de Francisco Xavier, segundo capitão-mor e comandante geral da vila de Lavras, sesmeiro da ribeira do rio Salgado, proprietário de grandes extensões de terra.

Se o pai, João Carlos Augusto, era afilhado do presidente da Província, o batismo de Fideralina já é prenúncio de sua força de vontade, de seu desprezo por regras estabelecidas, de seu temperamento forte, de só fazer o que desejava. O padrinho da filha podia não ser de igual importância, mas em compensação o celebrante da cerimônia foi o padre Verdeixa, figura antológica e curiosíssima dos sertões nordestinos. Pai de família, era o Padre Verdeixa nascido no Crato, ou em Goiana, ou em Olinda; foi vigário de Lavras de 1830 a 1832. Mestre em ações indecorosas, fazia propostas imorais às noivas dos casamentos que celebrava. Chegou a ser espancado por um noivo que não pôde suportar os excessos do padre.

Quando João Carlos Augusto morreu, aos 56 anos, vítima de um atentado político, Fideralina, já estava casada; sendo a mais velha de três irmãos fracos e de oito irmãs que não viam a mulher em posição de mando, assumiu o poder como herança maior.


Casara-se nova, aos 15, 16 anos, com Ildefonso Correa Lima, major da Guarda Nacional, nascido em Várzea Alegre, distrito de Lavras, filho do tenente Raimundo Duarte Bezerra e de Ana Correa Lima, donos de muitas fazendas. Recém-casada, Fideralina já tinha fama de mandona, tanto que a família do marido não aprovou a união. Eram contra, não queriam ver Ildefonso submisso à mulher. Mas não foi uma submissão duradoura. Ele morreu ainda jovem, aos 42 anos, depois de ser presidente da Câmara de Lavras. Deixou uma dúzia de filhos e um certo poder político que logo foi assumido pela mulher.

Rua Major Ildefonso, em Lavras da mangabeira - década de 50 (acervo IBGE)

Herdeira de dois grandes chefes, acostumada a mandar, não admitia oposição. Sendo preciso, esqueceria a religião e lutaria até contra a Igreja. Monsenhor Miceno Clodoaldo Linhares, vigário em Lavras por 49 anos, que ousou opor-se a Fideralina, provou-lhe o ódio. O vigário era conhecido pela sua retidão de caráter, pela facilidade para o discurso, tinha a admiração do clero. Mas tinha uma mancha na vida. Quando jovem, tivera uma filha em Tauá. Fideralina tomou a si a tarefa de tornar público o erro do vigário. Monsenhor Miceno, ao partir de Lavras, profetizou que as crianças daquela época veriam a queda de Fideralina. Errou: passou-se muito tempo até o dia em que ela, ou os seus, não conseguiram eleger o prefeito. Mesmo o sucessor de Monsenhor Miceno, Padre Raimundo Augusto Bezerra, sobrinho-neto de Fideralina e líder oposicionista, sofreu muito nas mãos de Fidera. As piores calúnias foram levantadas contra ele.

Mas Fideralina não tinha inimigos só entre os estranhos, a família também a enfrentava. Seu filho, Honório Correa Lima, foi uma das vítimas da ira materna. Após certo tempo na prefeitura de Lavras, foi eleito deputado, tendo que permanecer longo tempo em Fortaleza. E Honório acreditava estar perdendo suas bases políticas com as longas estadas na capital. Assim, com o prestígio conseguido junto ao presidente da província, articula, à revelia da mãe, sua nomeação para retornar à prefeitura de Lavras. Para isso seria necessária a deposição do prefeito Manuel José de Barros, homem da confiança da matriarca.

Estava criada a confusão. A velha, com o orgulho ferido e influenciada por um outro filho, Gustavo Augusto, tenta primeiro convencer Honório a abdicar do cargo. Apela para os nove meses em que o carregou na barriga. O argumento não surtiu efeito. Honório respondeu que, se o problema era o tempo de gestação, poderiam fazer um trato: ela que afinasse a cabeça para lhe entrar pela “traseira”, e ele a carregaria durante nove meses sem reclamação.

Mas Fidera era incansável. Teimou em convencer o filho até o dia em que ele tomou de um rifle e apontou para a barriga da mãe. Essa afronta, somada à morte de Ernesto Rolim, cabra de confiança da velha, atribuída a Honório, e às ameaças de Honório ao irmão Joaquinzinho, a quem proibiu de aparecer na casa da mãe, por acreditar que fosse ele a origem das atitudes da velha, levaram-na a reunir um bando de cabras com os coronéis mais fortes do sertão.

Os jagunços, eram em grande parte recrutados no Sertão de Pernambuco – Serra do Araripe, região do Riacho do Navio, Pajeú de Flores; eram homens que faziam do cangaço sua vida, e foram os responsáveis pela deposição do “Torto”, apelido de Honório, que era caolho. Escorraçaram-no de Lavras, com mulher e filhos; mudou-se para Fortaleza, e posteriormente para Caririaçu. É a primeira vez em que a misericórdia dá mostras de existir em Fideralina. Em casos de deposição, matava-se o deposto. Mas, na deposição de Honório, os homens tiveram ordem expressa de não acertar sequer um tiro no Prefeito. A velha Fidera avisou que quem o fizesse pagaria com a própria vida. Ninguém desobedeceu.

Desse mesmo episódio deriva a briga de Fideralina com a irmã Pombinha. Era privilégio da matriarca orientar os casamentos da família; destinou ela a Honório e Gustavo, as filhas de Pombinha, Petronila e Joaninha, primas em primeiro grau. E, para azar de Fideralina, o filho que ela escorraçara de Lavras era o genro preferido de Pombinha, que jamais lhe perdoou a ofensa. Na primeira vez em que Fideralina perdeu o poder no município, para os rabelistas, a irmã atravessou a cidade de joelhos, em direção à igreja. Defronte ao altar de São Vicente, ficou beijando o chão, em sinal de agradecimento. E quando, antes de morrer, Fideralina pediu a presença da irmã, obteve fria e dura resposta: “Se ela quer me pedir perdão, diga que perdoo. Mas ir vê-la, diga que não vou”.

Igreja Matriz de São Vicente Ferrer, em Lavras da Mangabeira (acervo IBGE)

Voltando às intrigas políticas de Fideralina; com o intuito de afastar o filho Gustavo da Prefeitura, sob desculpa de honrar a palavra dada, reconduziu Manuel José de Barros ao antigo lugar, retirado por Honório; convenceu Gustavo a concorrer como deputado estadual. Depois, vencido o mandato de Gustavo, ela lhe daria todo apoio para que fosse prefeito; e com ele passou a dividir todo o poder acumulado até então. Mas Gustavo, após pouco tempo frente à Prefeitura de Lavras, sofreu uma tentativa de deposição. Tratava-se, na verdade, de um complô contra a sua mãe.

O poder herdado do pai e do marido foi habilmente mantido. Fidera conseguia sempre estar bem com os governos. De monarquista converteu-se em republicana; o que lhe interessava era dominar a região de Lavras da Mangabeira. Mas por volta de 1911 surgiram movimentos contra as oligarquias no Ceará. A derrubada da família Nogueira Acioli levou de roldão Fideralina e os coronéis do Sertão do Cariri. Pombinha, seus filhos, genros e aliados, queixosos desde a queda de Honório, insurgiam-se contra a tirania da matriarca; davam resposta a tudo que até então tinham ouvido calados.

Proprietária de alguns sítios, todos situados na região árida e pobre, intermediária entre o Sertão Seco e a rica área verde do Cariri, a família Augusto quando ainda unida, vivia no Sítio do Tatu. Era uma propriedade comum: casa grande com alpendre, açude, engenho, uma fileira de casas de taipa para os negros e uma das únicas da região a ter uma capela. O sitio era também a área de maior concentração de escravos nos sertões, a ponto de existirem quadrinhas abordando esse estranho recorde: 



O Tatu pra criar negro 

Sobradim pra criação, 
São Francisco pra fuxico, 
Calabaço pra algodão, 
Caraíba é prata fina 
Sussuarana, ouro em pó 
Xique Xique é mala véia 
E o Tatu é negro só.

Talvez o grande número de escravos no Sítio do Tatu se devesse ao fato de Fideralina possuir um grupo de escravas que eram usadas como parideiras de moleques, que após algum tempo eram vendidos ao aparecer comprador. 

Uma das histórias de crueldade de Dona Fideralina versa sobre uma dessas negras parideiras e o filho que seria vendido, embora já estivesse com ela há mais de um ano. A escrava, agarrada à criança, correu para o mato, mas Fideralina deu ordem para que fossem atrás e trouxessem o menino. Na tentativa de proteger o filho, a negra foi apunhalada; ainda correu para casa, e lá, a patroa mandou que mãe e filho fossem embebidos com querosene, e ela própria lhes ateou fogo. A escrava, soltando o filho, debateu-se até morrer. Conta-se que as marcas de sangue da negra não saíam nunca da parede, mesmo que a caiassem continuamente. O reboco teve que ser retirado, e um outro feito em seu lugar.

Soma-se a essa história, o episódio de Luís Preto, um escravo, que aos oito anos de idade, junto com os filhos da Senhora, ousou tomar banho na cacimba de água limpa de onde Fideralina bebia. Levou tamanha surra que, durante os mais de cem anos que viveu, nunca mais tomou banho e não saía de casa quando ameaçava chover.

Entre os negros da fazenda do Tatu, quatro deles, dos mais fortes, deviam estar sempre prontos para carregar a liteira de Dona Fideralina, nas suas idas à cidade. Corpulenta, medidas avantajadas, quadris largos, rosto cheio, bonita – diziam, trocou a liteira pelo cabriolé e depois de velha, estranhamente, começou a andar a cavalo, inspirando uma crônica ao juiz Álvaro Dias Martins, assustado com a vitalidade da velha cavaleira.

Temida pelo povo, não era só medo que ela despertava nas pessoas. Quando viajava de Lavras para Iguatu, onde tomava o trem para Fortaleza, e se hospedava na casa do chefe político da cidade, despertava imensa curiosidade. O povo ia à casa do coronel para vê-la, corria às calçadas a fim de lhe assistir a passagem e, na hora do embarque, uma multidão se comprimia na plataforma da estação ferroviária para ver aquela mulher perigosa, valente, cheia de coragem, que mandava matar gente.

Essas viagens faziam parte de seu relacionamento com o Presidente da Província. Mas Fideralina abusava às vezes dessas boas relações. Chegou a exigir em carta ao Presidente que nomeasse um amigo analfabeto para o posto de professor de grego do Liceu de Fortaleza. Provavelmente era ela mesma quem escrevia as próprias cartas. Tinha uma bela letra e assinava Federalina, com a letra E no lugar do I, como era conhecida.

Graças a seu poder político e econômico, Dona Fideralina podia manter certos hábitos interditos à mulher. Falava o que lhe viesse à cabeça, usava palavrões em qualquer oportunidade, alteava a voz com os homens. Conta-se que, hospedada na casa do filho mais moço, Chico Correa, em Lavras, não mais de duas léguas do Tatu, pôs-se a tomar a fresca, vestida com uma espécie de camisa, quando o cunhado, tenente Raimundo Tomás de Aquino, marido de sua irmã Florípes, disse-lhe que não era hora de rapariga estar na janela. Rapidamente recebeu sua resposta: “Nem de homem macho estar na rua”.

Os hábitos da matriarca não diferiam muito dos costumes do coronelato da região: tinha um grupo de cabras para proteger a propriedade e garantir a família, andava sempre com um bacamarte sobre as pernas, ou ao alcance das mãos, tinha um filho cujo padrinho era o Padre Cícero, e era muito religiosa. Rezava diariamente, com a família e as escravas, o rosário, – provavelmente o folclórico, confeccionado de orelhas – que, segundo parentes, não foi acrescido das orelhas dos assassinos de seu neto. É que quando o bando chefiado por Zuza Lacerda, cangaceiro renomado, chegou à cidade de Princesa não encontrou mais os criminosos. Haviam padecido de estranha febre epidêmica. No entanto, os adversários de Fideralina, bem como o povo, juram que essas orelhas vieram a enriquecer o seu famoso rosário.

Ficou como tradição a frase sacramental dos matadores enviados por Dona Fideralina no momento em que atacavam os inimigos da velha senhora: “Tá aqui que Dona Fideralina mandou”.

Talvez viesse desse estranho rosário a capacidade que a velha possuía de atrair e manter o poder. O tempo em que ele fugiu de suas mãos, após a queda dos Aciolly, quando seus parentes, partidários do oposicionista Franco Rabelo, mandaram em Lavras, foi insignificante em relação ao período em que esteve com ela. Depressa retomou o domínio da situação, tornando a fazer jus a certas quadrinhas populares.

“O Belém manda no Crato
Padre Cícero em Juazeiro
Na Missão Velha, Antônio Rosa
Barbalha, Neco Ribeiro
Das Lavras, Fideralina
Quer mandar no mundo inteiro.”

Em 1914 reuniu cabras, armas e munições, e enviou, aos cuidados do filho Gustavo, como ajuda a seus partidários, numa tentativa de retomar o poder, apoiando a “Revolução de 14″. O episódio, vitorioso, chamado pelos rabelistas “A Sedição de Juazeiro”, devolveu o poder às oligarquias antigas, dele alijadas após o movimento popular ocorrido por volta de 1911.

Estação ferroviária de Lavras, em 1922 

Dois anos antes de morrer, a sua grande influência fez chegar a Lavras a via férrea que tornariam mais fáceis e menos lentas as viagens à capital. No dia da inauguração da estação, a velha mostrava-se alegre, forte; com o imenso corpo jogado numa cadeira de balanço conversava em altos brados. Sempre gritou. Na primeira vez em que baixou a voz, teve-se a certeza de que realmente chegara a doença que a levaria à morte, aos 87 anos.

Em agosto de 1919 termina a história de Fideralina, mas não a do seu reinado. Gustavo substituiu a mãe, dando lugar a seus próprios filhos, João Augusto e Raimundo Augusto, fortes e violentos. A oligarquia só largou o poder – e por força dos acontecimentos – mais de meio século após a morte da matriarca. Na década de 70, pela primeira vez, os Augusto não conseguiram eleger o prefeito de Lavras. 


Extraído do artigo: Matriarcas do Ceará – D. Federalina de Lavras
Rachel de Queiroz e Heloisa Buarque de Hollanda