sábado, 4 de dezembro de 2021

Irapuan Lima, O Chacrinha do Ceará, Rei do Carnaval e da Televisão Cearense

 


Para início de conversa, já que o assunto é o passado da TV, necessário em primeiro lugar, esclarecer quem é o Chacrinha original, o cidadão Abelardo Barbosa, o “velho guerreiro”, o apresentador escrachado que inventou as chacretes, oferecia (e jogava) bacalhau na e para a plateia, mandava um alô para a Teresinha e comandava a massa buzinando os calouros e lançando cantores que se tornaram ídolos nacionais. Chacrinha apresentava seu programa semanalmente, passou por todas as emissoras de TV existentes (uma por vez), entre o final da década de 50 até 1988, quando apresentou seu último programa. Chacrinha foi referência na TV e inspirou diversos apresentadores que seguiram sua linha de apresentação. Um desses artistas, era o Irapuan Lima.




O programa do Irapuan Lima, apresentado nas tardes de sábado, era muito mais modesto, tanto em termos de atrações, quanto ao montante de recursos empregados. A proposta era também de revelar novos talentos, os famosos calouros e mostrar shows de variedades. Irapuan veio do rádio, dos programas de auditório da Rádio Iracema. Mas foi na televisão que ele alcançou seu maior sucesso e ficou no ar por 17 anos, de 1975 a 1992, passando por três emissoras, TV Ceará, Cidade e Manchete. No palco do programa, um grupo de dançarinas, identificadas como “Irapuetes”e um júri que avaliava os candidatos. Os participantes do show de calouros levavam como prêmio um frango e um pacote de macarrão.




Era daqueles apresentadores que se impunha, “apesar de não ser bonito, de não ser charmoso, de não ter uma voz agradável (daquelas dos velhos locutores de rádio), de se  vestir de modo cafona", dizia o professor Gilmar de Carvalho. Irapuan tinha preferência por programas ao vivo, chegando a ter quatro horas e meia de duração; não seguia roteiros, tinha apenas um guia que lhe dava muita liberdade para improvisos. Ele mesmo era o produtor do programa, quem criava os quadros e decidia como tudo ia acontecer.


Versátil como era, Irapuan Lima, antes de se popularizar como apresentador de televisão, foi o Rei Momo do Carnaval Cearense nos anos 1959, 1960, 1961. Desistiu depois de ter presenciado (e quase participado) de um grave incidente ocorrido na segunda feira gorda, nas dependências do Country Clube, agremiação fundada por ingleses, localizada na Aldeota. Na segunda feira todos os clubes elegantes suspendiam seus respectivos bailes de carnaval, só havia o do Country. O clube recebia todos os foliões dos clubes chiques. Era o baile mais animado, mais famoso, o mais prestigiado, e a cidade não falava de outra coisa.




O Rei Momo e sua corte iniciaram a noite visitando os clubes de subúrbio que só paravam na quarta feita de cinzas. No percurso, o Santa Cruz – nas imediações do Cemitério São João Batista, o Ícaro – o clube da Base Aérea no Joaquim Távora, o Marajaique. Quando chegaram no Country Clube já era madrugada e a festa estava parada. Estava em curso uma fiscalização promovida pelo Juizado de Menores, acompanhados de policiais. Queriam que os menores de idade fossem retirados. Como autoridades e diretores não chegaram a um acordo, acabaram se formando dois grupos dentro do grande salão de baile; de um lado, os foliões; do outro, a polícia e os funcionários do juizado.


bloco de carnaval em um dos clubes da cidade

Do nada, alguém teve a ideia de jogar um copo na direção dos policiais. O que se seguiu foi uma chuva de copos, atirados de todos os lados, sobre as cabeças dos policiais, que reagiram com tiros de metralhadora. Para o alto, diga-se de passagem. Mas a correria foi grande. Irapuan Lima, vestido de Rei Momo, com cetro e coroa, não sabe como, conseguiu pular o muro do clube, e caiu na calçada, bem do lado de um carro da Rádio Patrulha. O sargento até que foi amistoso, e aceitou levar o rei Momo até sua casa. Mas, já dentro da viatura, Irapuan raciocinou que estava em um carro de polícia e corria perigo (por causa da confusão no clube). Alegou que ficaria ali mesmo, que estava perto da casa de uma parenta, e acabou indo para casa a pé, sozinho, de madrugada. No dia seguinte, na terça-feira, o Rei não desfilou mais. Mandou colocar uma faixa preta no carro alegórico, e encerrou seu reinado.


Irapuan Lima interrompeu suas atividades na televisão por conta de uma cirurgia na vesícula, que evoluiu para uma pancreatite. Depois disso, ele fez apenas aparições em comerciais na TV e faleceu, em 2002, por conta de uma embolia pulmonar. O programa que Irapuan comandava não era muito diferente dos outros da época, com auditório sempre cheio e apresentadores cativantes. Sua grande audiência decorria de ele se mostrar como uma pessoa comum, com quem o público se identificava. Ele era espontâneo, carismático e muito criativo. 


Fontes: 

A imaginação de uma criança e as lembranças de um vovô contam a história de um “reinado " Disponível emhttp://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/35236/1/1999_art_ilima.pdf

Irapuan Lima: o Chacrinha do Norte disponível emhttp://www.impressoesdigitais2ed.ufc.br/index.php?option=com_content&view=article&id=17

Jornal o Povo

Fotos da Internet

         

terça-feira, 23 de novembro de 2021

A Zona do Mucuripe

Mucuripe - anos 30

Zona era o termo usado até por volta dos anos 60 para designar a região dos prostíbulos da cidade. Era onde estavam localizadas as pensões alegres, cabarés, casas de tolerância, boates, lupanares e mais uma variedade de nomes que ao fim e ao cabo, designavam o mesmo tipo de estabelecimento que explora a prostituição. Fortaleza tinha algumas zonas famosas: a do Mucuripe, do arraial Moura Brasil, do Centro, e outras menores, dispersas nos bairros.


Jangadas do Mucuripe - provável anos 50

O Mucuripe já era conhecido por causa de sua colônia de pescadores, e das aventuras dos jangadeiros Manoel Jacaré, Tatá, Jerônimo, Manoel Preto que no dia 14 de setembro de 1941, partiram rumo ao Rio de Janeiro, então capital federal, em busca de reconhecimento dos direitos de sua categoria. Na ponta do Mucuripe, meia dúzia de casas de palhas, dunas alvíssimas, muitos coqueiros e cajueiros. Seus habitantes viviam única e exclusivamente da pesca, que era farta e diversificada. Na orla, algumas casas de pescadores, muita vegetação, a igrejinha de São Pedro e um grande pedregal na frente, onde moradores locais faziam ponto.

Os equipamentos no Mucuripe eram poucos naquela época: havia o símbolo maior do Mucuripe, o velho farol, já inativo quando a zona de prostituição ensaiava os primeiros passos; o prédio do SERVILUZ – Serviço de Luz e Força, Usina de que abastecia a cidade de energia elétrica, inaugurada no dia 23 de março de 1955; seis meses depois entrava em funcionamento experimental o Moinho Fortaleza, do grupo J. Macedo; e o promissor Porto do Mucuripe, que acabou se tornando uma fonte inesgotável de novos clientes para as prostitutas, vindos de terras diversas e distantes: os marinheiros estrangeiros.

A prostituição no bairro surgiu praticamente com o início das atividades do Porto, inaugurado em 1947. Em 1952 cerca de 600 mulheres foram ameaçadas de despejo pelas Secretaria de Polícia, em razão da pressão exercida por grupos familiares, que exigiam a transferência dos prostíbulos para outros lugares. Os botequins e a prostituição eram acusados de promover a degradação do lugar.

A zona de baixo meretrício do Mucuripe teve seu apogeu a partir da década de 60, quando a rua principal do então distante bairro, com inúmeros e movimentadíssimos cabarés, com músicas bregas e luzes coloridas, chegou a ser conhecida como a “Las Vegas do Ceará”. As atividades foram incrementadas com a chegada de centenas de meretrizes que ocupavam a região litorânea, ao longo da denominada “Rua de Frente”, que foram intimadas a deixar seus estabelecimentos por determinação da prefeitura, para construção da atual Avenida beira-Mar.


A ocupação do entorno do farol ocorreu em maior escala por volta do início dos anos 60, quando teve início a construção da avenida Beira-Mar. Cerca de 1.200 mulheres, que atuavam no ramo da prostituição foram removidas da zona de praia para aquela região

As mulheres se estabeleceram na região portuária, nas proximidades do porto, e enfrentaram resistência tanto por parte das famílias residentes, quanto por parte das outras prostitutas, que já atuavam no local, temerosas com o aumento da concorrência. Após este primeiro momento, de transferência do meretrício do Mucuripe, a zona do Farol receberia outros grupos de mulheres, das pensões do Centro da cidade, do Curral, e da zona da rua Franco Rabelo, todas expulsas de seus locais originais pela Secretaria de Polícia.

Nesta época o Porto do Mucuripe recebia embarcações com bandeiras de várias nacionalidades, de forma rotineira. A circulação constante de marítimos de diversas culturas, a e a proximidade com o porto, acabou se tornando uma grande vantagem para os prostíbulos, que prosperaram, e se multiplicaram.


Farol do Mucuripe nos anos 70

No Mucuripe, essas mulheres constituíram família, criaram filhos enquanto continuavam exercendo a profissão mais antiga do mundo. algumas se casaram com antigos clientes estrangeiros e foram embora do País; algumas retornam regularmente, para visitar as amigas e relembrar a vida que deixaram para trás. Hoje, a prostituição não é mais setorizada, a zona está na cidade toda, e o Mucuripe, desmembrado em vários bairros, ainda enfrenta velhos e novos problemas, desde o abandono de equipamento histórico como o velho farol, a problemas ambientais e sociais, até a exagerada especulação imobiliária na orla da Beira-Mar.


Fontes: 

Memórias de mulheres e amigos: interesse e afeto no meretrício de Fortaleza (1960-1980) - Érika Bezerra de Meneses Pinho (UFC) – Autora Cristian Paiva (UFC) – CoAutor Francisca Ilnar de Sousa – CoAutora Disponível em  http://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/21738/1/2012_eve_ebmpinho.pdf  -

Mucuripe: Verticalização, Mutações e resistências no Espaço Habitado Lidiane Costa Ramos – Dissertação de Mestrado >disponível em <http://repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/16718/1/2003_dis_lcramos.pdf

Jornal o Povo

http://www.fortalezaemfotos.com.br/2013/05/em-nome-da-moral-e-dos-bons-costumes.html

fotos: IBGE, Anuário do Ceará, Ah, Fortaleza!


 

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Fortaleza e Eu – crônica de Milton Dias

 



Numa tarde destas, à hora do sol poente, contemplei do alto com incansável olhar de amante, cobiçoso e comovido, orgulhoso e feliz, esta Fortaleza minha muito amada – e tive direito ao espetáculo mais generoso e mais grato, o que mais me toca e mais me fala – e abracei com o coração está cidade que é um poema feito em pedra e cal, em cimento e ferro, vegetação e sensibilidade, onde o sol dá festa diária e o mar uma permanente companhia.

Lá embaixo, bem perto, o Pajeú que cantarola cantigas aprendidas muito antigamente, guardião da história da cidade, testemunha discreta e humilde, cantante e constante, andejo como o povo que vive às suas margens. E em torno deste Pajeú que foi Marajaig, razão da escolha do local da cidade, os quintais verdes plantados por mãos que já se foram, velhas árvores que abasteceram de fruta e de sombra outras gerações, restos de casas senhoriais que aos poucos vão desaparecendo, mansões de parapeitos pretenciosos, alguns sobrados e casas térreas modestas, amorosamente construídas por homens que provavelmente dormem na sua paz definitiva. Estas moradas todas, imagina-se, tiveram dias laboriosos e noites indormidas, viveram romances e dramas, fracassos e glórias, vida paixão e morte, foram todas cenários de festas e de lutos, saudaram véu de noiva e festejaram vitórias, se engalanaram e se enlutaram, receberam o médico nas horas aflitivas, acolheram o padre para as comemorações dos batizados, para as bençãos das bodas ou para a extrema-unção.


atual Parque Pajeú, com o riacho ainda não canalizado no trecho 


Lembra-me Anatole France: aquelas casas sabem muito sobre a vida e sobre a morte, elas nos diriam coisas que nos fariam chorar, que nos fariam rir, se as pedras falassem. Mas as pedras falam àqueles que sabem ouvi-las. Assim como as estrelas do poeta.

E em torno das velhas casas, num contraste evidente, como protesto contra o que passou, cabeças de edifícios voltadas para o futuro voltadas para o futuro, desafiando o céu, marca do presente, olhando do alto as tímidas construções que ainda se conservam de pé, como se lhes incomodasse a vizinhança, numa velada pretensão de despejar, destruir, acabar tudo para começar uma cidade nova, no sentido vertical.

Como eu dizia, vi a cidade do alto, justamente na hora em que o dia se encerrava, as filas dos ônibus engrossavam, os carros ruidosos abriam impacientes, caminhos pelas ruas cheias, os pedestres voltavam para casa numa pressa que aqui parece desnecessária, e os anúncios luminosos que começavam a se multiplicar, davam a nota entre o fim da província e o início da metrópole.

Fiquei a imaginar como seria. Nesta mesma hora de sol posto, há cento e cinquenta anos, o espetáculo tranquilo que se abriria aos olhos dum habitante desta cidade, que de repente chegasse à sua janela: o sino tocando as ave-marias, a população demandando a casa no começo da escuridão, a igrejinha no centro duma praça, e em frente dela, o pelourinho e a forca. Num ângulo, o forte de madeira e no outro a Casa dos Jesuítas, algumas moradias, umas cobertas de telha, outras de palha. E fechando o quadro, ao poente, a Casa de Câmara, que chamavam Conselho.


primeira planta da Vila de Fortaleza, 1726


Foi assim que nasceu a Vila a que chamaram de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, depois elevada à categoria de Cidade de Fortaleza de Nova Bragança, a 17 de março de 1823.

Foi assim que começou a cidade, embalada desde o princípio e agora e sempre com as graças que Deus lhe deu. Nasceu na areia, em casa de palha, nasceu pobre e altiva, plantou uma cruz, protegeu-se com um forte, preparou-se para as artes da paz e da guerra – que de muitos olhares de inveja e de cobiça foi sofrida – e com trabalho, com inteligência, com fé e com amor se levantou e se fez.

Muito tempo passou desde então. E enrolado no tempo passou índio, passou negro, passou o branco português, passou o holandês louro,  apareceu a mulata, as raças se caldearam, muita estória aconteceu, estórias que os livros contam, que estão na boca do povo, estão nos versos, na prosa, estão na alma da gente, memórias de muitas lutas, lembranças de correr sangue, correr lágrima e correr vida, estórias de valentia, sagas de amor, de bravura, senzala, eito, chicote, protesto e revolução, alforria pros escravos, aula de abolição que o Ceará deu primeiro para o resto do Brasil.

E muita água correu no leito do Pajeú, desde aquele dia 17 de março de 1823. No princípio éramos três mil na Fortaleza de Nova Bragança. Agora somos um milhão. Ou mais.


Praça da Imprensa - anos 70


A crônica de Milton Dias vive na Fortaleza de 1976. E nos fala de uma cidade mais calma, com poucos edifícios, ainda com as velhas residências senhoriais, que não sobreviveram aos ditames da modernidade, que na sua pretenciosa busca pelo novo, esqueceu seu passado e tem sido negligente com o presente. A população de Fortaleza em 1976, era de 1.176.000 habitantes. Hoje, em 2021, somos 2.700.000, meu poeta. Ou mais.

José Milton de Vasconcelos Dias nasceu em Ipu, no dia 29 de abril de 1919. Faleceu em Fortaleza, em 22 de março de 1983. O Livro “Fortaleza e eu”, foi lançado quando Milton Dias recebeu o título de Cidadania, concedido pela Câmara Municipal de Fortaleza

“venho de muitos caminhos e chego à vossa casa, para esta festa de generoso acolhimento, iluminado pela graça do vosso gesto e reconhecido a vossa desvanecedora decisão, que me torna Cidadão de Fortaleza...”  


extraído do livro Fortaleza e eu/ Milton Dias - Fortaleza: Imprensa Universitária da UFC, 1976.

fotos: postais dos anos 70, Anuário do Ceará. 

   

terça-feira, 8 de junho de 2021

O Excelsior é o primeiro edifício de Fortaleza

 

Com 7 andares e um terraço – um espanto para a época – o primeiro arranha-céu de Fortaleza foi inaugurado no último dia do ano de 1931, e assinalou o início da construção de prédios altos na cidade. O projeto, de autoria desconhecida, foi inspirado num edifício de Milão, executado por Natale Rossi, irmão de Pierina Rossi, esposa do proprietário do edifício, o comerciante Plácido de Carvalho.



No acabamento foram utilizados materiais de primeira linha, importados da Europa, já que aquela época era praticamente inexistente esse tipo de produtos com alta qualidade, de procedência local. Em estilo eclético O Excelsior começou a ser construído como um prédio de alvenaria de tijolos de três pavimentos por volta de 1928/1929.  No decorrer das obras, o proprietário, Plácido de Carvalho, entendeu de elevá-lo para oito. Houve alerta dos engenheiros sobre os riscos de tal mudança. Em consequência, o proprietário contratou o engenheiro Archias Medrado, o qual calculou uma estrutura de concreto armado complementar. Os pilares, vigas e lajes foram construídos com a utilização de trilhos de trens adquiridos da Santa Casa da Misericórdia.




A portaria com a entrada para os elevadores ficou localizada na Rua Guilherme Rocha, enquanto o restante do pavimento térreo foi destinado a instalação de lojas e outros comércios. No primeiro andar funcionavam o restaurante, a barbearia, a cozinha, a adega, e o depósito de utensílios. Do segundo ao sexto pavimento ficavam os apartamentos, confortáveis, decorados, com água corrente, alguns completos com banheiros e outros avulsos.  No sétimo andar, a “joia da coroa”, um terraço com vistas para a cidade e o Bar Americano, cenário de festas, bailes elegantes, e do célebre “carnaval do sétimo céu”, movido a socialites, marchinhas, lança-perfumes, confetes e serpentinas.

O staff do hotel – gerente, copeiros, cozinheiros, garçons, camareiras – vieram do sul do país, devidamente treinados. O mobiliário também foi adquirido na Europa: espelhos bisotados, vidraças, lustres e móveis no estilo Art-Nouveau, lençóis e toalhas de linho irlandês, e para o salão de jantar, um piano de cauda Dooner. 



os antigos elevadores ainda funcionam

Fortaleza ainda não tinha descoberto seu potencial turístico e os meios de hospedagens, desde as pensões populares aos hotéis de várias categorias, eram todos no centro. Foram hóspedes do Excelsior, artistas que vinham em turnês, políticos, e famosos de todas as áreas, como a aviadora américa Amélia Earhart, o presidente Juscelino Kubitschek, o cineasta Orson Welles, a cantora lírica Bidu Sayão, o jogador de futebol Pelé, empresários, comerciantes, vendedores...


Plácido e Pierina

Os proprietários - Plácido e Pierina -  residiam no castelinho do Outeiro, construído na década de 1920. Depois que o hotel foi inaugurado, passaram a alternar entre o castelo e o Excelsior. Em 1933 a família decide se mudar para o Excelsior, porque Plácido precisava de cuidados médicos e o hotel oferecia maior facilidade de acesso. E foi num dos quartos do hotel que Plácido veio a falecer, no dia 5 de junho de 1935, aos 60 anos de idade. A viúva não voltou a morar no castelo do Outeiro, que ainda nos anos 30 foi alugado ao Serviço de Malária, órgão subordinado ao governo federal.


Plácido e Zaíra, filha de Pierina, no castelo do Outeiro

Pierina Rossi em seu castelo

No ano seguinte Pierina contrata os serviços do arquiteto húngaro Emilio Hinko para construção de seis casas para aluguel ao redor da edificação principal na quadra entre as avenidas Santos Dumont, ruas Carlos Vasconcelos, Monsenhor Bruno e Costa Barros. Alguns anos depois, Pierina e Hinko se casam e passam a morar numa dessas casas. Pierina faleceu em 11 de dezembro de 1958, e o hotel encerrou as atividades em 1° de outubro 1964, após 33 anos de intenso movimento.


Emilio Hinko

Mais tarde, Emilio Hinko passou a residir num dos apartamentos do Excelsior, em companhia de alguns familiares húngaros. Ele viveu no hotel até falecer no dia 04 de janeiro de 2002, aos 100 anos de idade.


Na época em que o Excelsior fechou, a pretexto de realizar reformas, o Centro ainda aglutinava os negócios e comércios importantes da cidade. Grandes lojas, os maiores cinemas, bancos, instituições; os maiores hotéis ainda estavam localizados no centro, exceto o Iracema Plaza que havia sido inaugurado na Praia de Iracema nos anos 50.


Hotel Savanah, na Praça do Ferreira

A inauguração do Hotel Savanah, em 12 de abril de 1964, instalado na vizinhança, na Rua Major Facundo, de frente para a Praça do Ferreira, com dez suítes e 128 apartamentos, distribuídos em treze andares, deu uma ideia da concorrência que o Excelsior viria a enfrentar. O Savanah foi a primeira torre hoteleira da cidade, e chegou a conquistar o posto de melhor e maior hotel de Fortaleza, arrebatando o título que até então pertencia ao Excelsior.



O Excelsior, que não é mais hotel, ainda tem o térreo ocupado por lojas e prestadores de serviços. No período natalino, se enfeita de vermelho e recebe as crianças do coral natalino,  compondo o Natal de Luz da Praça do Ferreira. Fica na Rua Guilherme Rocha, 172, centro.


A partir do início dos anos 70, a hotelaria começa a se expandir rumo ao litoral, na Avenida Beira-Mar e arredores, dentro da nova vocação turística que a cidade se inseriu; as lojas, cinemas, lanchonetes, bares e restaurantes, buscaram os grandes centros comerciais e os shoppings centers; e os órgãos de administração pública também buscaram novos endereços na parte leste da cidade. 

Desde então, os estabelecimentos com endereço no Centro, pagam o preço da expansão da cidade e da falta de políticas de revitalizações,  que possam tornar o local atrativo para novos empreendimentos, e que contemplem a ocupação de tantos espaços vazios.


Os grandes hotéis que fecharam no Centro

Palace Hotel – 1927 – 1971

Excelsior – 1931 – 1964

Lord Hotel – 1956 – 1992

San Pedro Hotel – 1959 – 1990

Hotel Savanah – 1964 – 1992

Premier Hotel – 1969 – década de 90

Hotel Sol – 1971 – 2001 

            

fotos: Arquivo Nirez e Fortaleza em Fotos

Fontes: Jornal O Povo, Anuário do Ceará, Guia Turístico da Cidade. 


quinta-feira, 22 de abril de 2021

Assembleia Provincial - Palácio Senador Alencar

 


A ideia de construção do prédio hoje denominado Palácio Senador Alencar, surgiu no dia 1° de setembro de 1855, quando o presidente Joaquim Vilela de Castro Tavares, em seu relatório de obras públicas, ressaltava a necessidade de uma casa que fosse condizente com as funções exercidas pelos legisladores da província, visto que a que funcionava como tal, parecia destinado às sessões de alguma municipalidade de aldeia. Nesse mesmo ano, a assembleia votou e destinou o orçamento para início da obra.

No ano seguinte, o presidente Vicente Pires da Mota mandou levantar a planta da casa da Assembleia, e não havendo terrenos devolutos, encarregou ao presidente da câmara municipal, Antônio Rodrigues Ferreira para comprar o terreno ocupado com as casas denominadas quartos da Agostinha, (segundo consta, Agostinha era uma ex-escrava de Luís Ribeiro de Vasconcelos). Nos quartos da preta Agostinha funcionavam alguns estabelecimentos comerciais onde eram vendidos gêneros alimentícios, fumo, rapadura e aguardente. Os cômodos foram adquiridos pelo governo e demolidos em seguida. Foi autorizado o pagamento pelo cofre da municipalidade para posterior indenização pela província. Sendo preciso mais terrenos, compraram mais casas e mais terras com três braças de frente.


A obra foi iniciada em 25 de outubro de 1856, com projeto de Adolfo Herbster, em estilo neoclássico, ficando determinado que o edifício abrigaria a Assembleia Provincial e o Liceu. Depois deliberou-se que o estabelecimento de ensino seria instalado em outro local. A construção foi paralisada em 1857, pelo presidente Antônio Marcelino Nunes Gonçalves e recomeçada em maio de 1860. A partir de 1865 os serviços de finalização ficaram a cargo do engenheiro Adolfo Herbster (até então estavam sob responsabilidade do engenheiro José Antônio Seifert). A obra foi finalmente entregue no dia 3 de março de 1871.


 sede da Assembleia Legislativa, com trincheiras abertas pelos simpatizantes de Franco Rabelo, eleito governador em 1912,Em novembro do mesmo ano, tentaram realizar uma sessão na Assembleia, com a finalidade de depor o novo governador, mas tiveram suas pretensões rejeitadas pelos rabelistas, que impediram o acesso dos deputados ao plenário

Algumas instituições funcionaram no local, concomitantemente com a Assembleia: em 1895 os Correios foram instalados no térreo, onde ficou até 1895; depois entre 1937 e 1947, abrigou a sede da Universidade de Direito Livre do Ceará, a Biblioteca Pública, o TRE e o Instituto do Ceará e Academia Cearense de Letras. Em 1991, passou a sediar o Museu do Ceará.     

O palácio da assembleia permaneceu sem uma denominação oficial até fins da década de 40, quando entrou em debate a escolha de um nome para o edifício. O nome do senador José Martiniano de Alencar, foi proposto e defendido por um deputado. Alencar teve seu nome aprovado por unanimidade, como patrono da Assembleia Legislativa do Ceará.

Localizada no quadrilátero entre as ruas São Paulo (frente principal), General Bezerril, Floriano Peixoto e Travessa Morada Nova, a Assembleia Provincial, mais tarde Assembleia Legislativa funcionou a partir de 1871 e permaneceu no Palácio Senador Alencar até o dia 10 de maio de 1977, quando se mudou para o novo endereço na Avenida Desembargador Moreira.





"Causo" na Assembleia (um de muitos) 


Osiris Pontes era presidente da Assembleia do Ceará. Vilmar Pontes e Pontes Neto também eram deputados. Os três eram irmãos. Uma tarde Osiris Pontes presidia a sessão quando Vilmar Pontes foi à tribuna e começou a atacar violentamente, o governador Parsifal Barroso. Pontes Neto pediu um aparte:

– não admito que V. Excelência fique aí, atacando um homem honrado.

Vilmar Pontes gritou lá da tribuna:

– honrado coisa nenhuma! Honrado só para um empreiteiro marmeleiro como V. Excelência!

Começou a confusão. Vilmar Pontes querendo descer da tribuna, Pontes Neto querendo subir. A turma do deixa-disso segurou os dois. Lá de cima, na presidência, Osiris Pontes tocou forte a campainha e berrou: 

– se vocês continuarem brigando, vou chamar a mamãe! Acabou a briga.



extraído do livro: Folclore político; 1950 histórias de Sebastião Nery 

Fontes: Descrição da Cidade de Fortaleza, de Antônio Bezerra de Menezes – introdução e notas de Raimundo Girão

A Praça e o Povo, de Alberto S. Galeno

Caminhando por Fortaleza, de Francisco Benedito

Fotos IBGE e Arquivo Nirez