domingo, 3 de fevereiro de 2019

O Otávio Bonfim que eu conheci


Rua Justiniano de Serpa, próximo à Domingos Olímpio. Ao fundo, à esquerda, o muro do convento dos Franciscanos. Anos 70 - Acervo particular

Um dos mais antigos de Fortaleza, o bairro que tem nome oficial de Farias Brito – em homenagem ao filósofo nascido em São Benedito – é mais conhecido pelo apelido: Otávio Bonfim, nome de um engenheiro que trabalhou na estação ferroviária do bairro. Assim, a antiga Estação do Matadouro, recebeu o nome do engenheiro, que segundo dizem, faleceu num acidente rodoviário. Como naquela época a estação era o equipamento mais importante do bairro, acabou virando Otávio Bonfim. A estação nem existe mais, contudo, o nome ficou para a posteridade.

Sobre a estação, inaugurada em 1922, há uma crença equivocada que a mesma recebeu retirantes da seca de 1915, história contada pela própria Rachel de Queiroz, no seu romance best-seller “O Quinze”.

No mesmo atordoamento chegaram à Estação do Matadouro. E, sem saber como, acharam-se empolgados pela onda que descia, e se viram levados através da praça de areia, e andaram por um calçamento pedregoso, e foram jogados a um curral de arame onde uma infinidade de gente se mexia, falando, gritando, acendendo fogo. Só aos poucos se repuseram e se foram orientando. 
(Rachel de Queiroz - O Quinze, pág. 39)


Foto do site Estações Ferroviárias - anos 70

Conforme o site “Estações Ferroviárias, até 1917 a linha instalada pela antiga Estrada de Ferro Baturité passava por outro trajeto, que corresponde hoje a Avenida Tristão Gonçalves, até a Estação Central. A partir daí os trilhos foram arrancados e um novo trajeto foi estabelecido mais a oeste do centro, cortando os bairros do Jacarecanga, Otávio Bonfim e Porangabuçu, chegando até Couto Fernandes. Portanto, a Estação do Matadouro não teve esse protagonismo que lhe foi atribuído nesse período. 
  
As principais diversões do bairro tinham origem em dois locais: a Igreja das Dores e o Cine Familiar. A Senhora das Dores estava sempre no centro dos acontecimentos. Nos meses de Junho e Outubro, promovia as trezenas de Santo Antônio e as novenas de São Francisco, respectivamente. No último dia da festa, o dia do santo propriamente dito (13 de junho – Santo Antônio; 4 de outubro – São Francisco), havia o encerramento em grande estilo: a missa era campal, os sinos tocavam alegremente e se formava uma grande procissão, que se arrastava pelas ruas do bairro.


Igreja de N. S. das Dores ainda sem o relógio na torre,e sem o Salão Paroquial, construído ao lado da igreja em 1959. A Pracinha em frente recebeu o nome de Praça de Otávio Bonfim em 1941, e na época da foto, quase não tinha arborização. No lugar da estátua de Farias Brito, que hoje se encontra no centro da praça, existia esse busto do Almirante Tamandaré, que tinha um pedestal que imitava uma proa de navio. A praça era bem menor em relação ao seu tamanho atual. Foto do Arquivo Nirez, dos anos 50

No cortejo, um andor ricamente enfeitado, o padre e os coroinhas todos paramentados, banda de música, uma chusma de anjinhos vestidos à caráter, e todas as irmandades, com estandartes, portando suas fitas coloridas num misto de fé e comemoração: fitas vermelhas do Apostolado da Oração, Fita azul das Mães Cristãs, fita amarela para os meninos da Cruzada, uma opa marrom para os membros da Ordem Terceira Secular. 

Encerrada a parte religiosa, começava o capítulo da arrecadação de recursos, quando no pátio externo era armado um palanque de madeira para a realização de leilão. As prendas para o leilão eram arrecadadas junto aos moradores, geralmente bolos, galinhas cheias (de quê?) e outras guloseimas, e alguns objetos, tudo embalado em colorido papel de seda.
  
Cine Familiar, ficava vizinho à Igreja das Dores - foto do Arquivo Nirez

O leiloeiro era o Irapuan Lima, e acho que já era figura conhecida naquela época (anos 60), porque alguns se admiravam dele estar sempre lá, trabalhando de graça para engordar os cofres da igreja. Outro que vivia por ali no sereno dos leilões, sempre acompanhado de suas duas filhas, era o ainda hoje conhecido Vavá, atualmente proprietário do Cine Nazaré. Naquela época, Vavá era o responsável pelo funcionamento do Cine Familiar, e acho que ele ajudava (ou fazia tudo) na iluminação do pátio e instalação do som, onde se realizava o leilão. Outra tradição da Igreja, era a distribuição do pão de Santo Antônio, às 3as. Feiras. Vinha gente de longe, para receber o alimento.   

Na esquina da praça de Otávio Bonfim com Rua Dom Jerônimo, ficava a sede da SUMOV – Superintendência Municipal de Obras e Viação, órgão da prefeitura encarregado das obras e embelezamento da cidade, e que ocupava o terreno onde outrora funcionou o matadouro. A SUMOV foi extinta em 1997 e deixou um clube de futsal na orfandade. 

Rua Justiniano de Serpa, com o muro do Convento dos Franciscanos à direita. Foto do Arquivo Nirez

Na Rua Justiniano de Serpa, num larguinho no cruzamento com a Rua Bela Cruz ficava a primitiva Capela de São Sebastião, desativada desde a inauguração da Igreja das Dores, no início dos anos 30. Os moradores a chamavam de “igrejinha”, e era bastante singela, erguida em uma calçada alta, com três portas em arcos na fachada principal, uma porta lateral em cada lado, e uma cruz no alto. No seu interior, alguns bancos de escola onde eram ministradas aulas de catecismo para os meninos que estavam sendo preparados para a primeira comunhão. E num nicho meio esquecido, uma pequena imagem (ou seria um quadro?) de um São Sebastião com o corpo traspassado de flechas. Essa igrejinha, antecessora das Dores, foi demolida por volta dos anos 80. No seu lugar, construíram um arremedo de praça que deram o nome de Praça Frei Teodoro, um franciscano alemão, morador do convento, que militava nas causas sociais da igreja, e tinha grande empatia não só com os fiéis, mas com muitos moradores do Otávio Bonfim.

Cruzamento das ruas Justiniano de Serpa e Bela Cruz, local da igrejinha demolida nos anos 80. Atual Praça Frei Teodoro. imagem google

Na mesma Rua Justiniano de Serpa, antiga Estrada do Gado, havia várias bodegas, precursoras dos atuais supermercados, cujos proprietários eram bastante populares em razão do seu ofício e por causa das facilidades que ofereciam: cadernetas de fiado e vendas a retalhos, estavam sempre na ordem do dia. Um dos mais antigos, atendia em uma casa com duas portas na fachada, vendia carvão e outros artigos hoje totalmente obsoletos. O proprietário faleceu junto com sua mulher num acidente automobilístico na Avenida João Pessoa, engrossando a estatística da via que já era conhecida por “Avenida da Morte”. O casal tinha alugado um carro no Posto Onze, que funcionava na pracinha em frente à igreja das Dores, e se dirigia para o aeroporto, quando aconteceu o acidente. 

Mas, além dessa, que algum tempo depois voltou a funcionar com outro proprietário, ainda havia várias bodegas que quebravam o maior galho dos lisos da época. Havia a bodega do "Seu" Antônio, famoso pela limpeza das instalações, que tinha umas prateleiras que ocupavam uma parede inteira com garrafas de cachaça, todas iguais, com os rótulos rigorosamente no mesmo ângulo, onde se lia “Aguardente de Cana Idealista”. Seu Antônio era casado com a dona Anísia (uma das mais fervorosas colaboradoras dos leilões) a "galinha cheia ofertada pela dona Anííísia" conforme anunciava o leiloeiro, era uma das prendas mais cobiçadas, tanto que ficava quase sempre, para o final do leilão. 

Havia ainda a Bodega de "Seu Batista", esse sim bodegueiro de carteirinha. Vendia do fumo de rolo à meia barra de sabão. Passava o dia de pijama e sapato e a dona Judite, a esposa, era um poço de antipatia. A bodega dos dois ficava justamente na esquina da igrejinha.

Arquivo Nirez

A Avenida Bezerra de Menezes já existia, mas não chegava até o nosso bairro. Na época o trecho entre o Mercado São Sebastião até o então Grupo Escolar Presidente Roosevelt, atual E.E.E.P. Presidente Roosevelt, chamava-se Rua Juvenal Galeno. Logo no início da Juvenal Galeno alguém construiu um pequeno açude, formado pelo represamento das águas do riacho Jacarecanga. O açudinho, como era chamado, assumia ares de grande reservatório, ganhava corpo e mostrava força quando no período de chuvas. Era bastante frequentado pelos meninos da vizinhança e alguns afogamentos foram registrados lá. Ficava no local onde hoje está a empresa Aço Cearense, quase em frente ao Mercado São Sebastião. 

Em seguida, vinham os jardins Japonês e o São José, que eram atravessados por um filete de água corrente, imagino que proveniente do sangradouro do açudinho. Esses dois jardins ocupavam todo o quarteirão onde hoje se encontra o supermercado Assaí, no início da Bezerra de Menezes. 

Havia outros estabelecimentos comerciais na Rua Juvenal Galeno, como a Fábrica Siqueira Gurgel/Usina Ceará, na esquina com a Avenida José Bastos, e na outra esquina, em frente a fábrica, estava a farmácia da Dona Rosélia, acho que a única do bairro. Em 1967, inauguraram a nova avenida Bezerra de Menezes, e o piso rústico e irregular daquele trecho, sumiram junto com a Rua Juvenal Galeno, e a nova avenida revista e ampliada, passou a ter início no Mercado São Sebastião. Deve ter sido por essa época que o açudinho foi aterrado.

início da Avenida Bezerra de Menezes. à esquerda da foto, onde estão as palmeiras, ficava o Jardim Japonês. O jardim ficava abaixo do nível da via. Foto do Arquivo Nirez 

Depois da inauguração da Avenida Bezerra de Menezes, não sei se foi o Otávio Bonfim que, pouco a pouco, começou a perder sua identidade, ou se fui eu que, como diria Milton Nascimento, “parti por outros assuntos”. O fato é que muita gente se mudou, muito comércio novo apareceu, os jardins fecharam e deram lugar ao primeiro supermercado da área – o Mercantil São José – a Siqueira Gurgel também virou supermercado, a Renovadora de Pneus Batista, que ficava na esquina da Justiniano de Serpa com a Rua Larga, ardeu numa monumental fogueira de fumaça preta, que chegou a clarear a noite do bairro, e causou enorme apreensão por causa da proximidade com o posto de gasolina, localizado em frente, do outro lado da avenida. O Cine Familiar deixou de exibir as chanchadas da Atlântida nas manhãs de domingo, e por isso, virou colégio, o Padre Champagnat. O discreto piso de mosaico da Igreja das Dores foi substituído por um espalhafatoso porcelanato branco, obra de um vigário sem noção, que deixou o templo com cara de shopping center. 

foto Fortaleza em Fotos/2011

Hoje, andando por lá, não reconheço quase nada e apenas algumas poucas pessoas. O Otávio Bonfim que eu conheci, perdeu-se nas brumas do passado.  


domingo, 27 de janeiro de 2019

Bairro do Papicu

fotos facebook - Google

Antônio Diogo de Siqueira, industrial ligado a diversas atividades econômicas no Ceará, adquiriu de seu genro Waldemiro Maia, uma grande gleba de terra, que compreendia a área limitada pelo Rio Cocó, por trecho do ramal ferroviário que se destinava ao Porto do Mucuripe e pelo Oceano Atlântico, do Mucuripe até a foz do Rio Cocó. Essa área em finais do século XIX representava uma enorme extensão de terras com finalidade agro-pastoril – local para criação de gado e salga de carne para exportação. A área tinha bom valor comercial pela existência de salinas.

Quando a lucratividade do negócio do gado começou a cair, a família Diogo vislumbrou a possibilidade de comercialização de grande faixa daquelas terras. Assim, na primeira metade do século XX, dois loteamentos foram lançados: o loteamento “Moderna Aldeota” situado onde hoje está a Avenida Santos Dumont, chegando à Avenida Engenheiro Santana Júnior e o bairro do Papicu, e outro loteamento junto ao Porto do Mucuripe, chamado "Praia do Futuro". O empresário Waldyr Diogo Vital Siqueira, filho de Antônio Diogo Siqueira, marcou o início da urbanização da região, com a primeira intervenção naquelas terras virgens através da construção da Estrada Dioguinho, ainda em 1949, que se tornou num marco de separação entre a Praia do Futuro e o Papicu.

Avenida Dioguinho, construída em 1949 - de um lado, Praia do Futuro; do outro, Papicu (foto Anuário do Ceará - 1979)

Até meados da década de 1960, a região do atual bairro do Papicu era uma extensa sequência de dunas – entrecortadas pelo Rio Cocó, por duas lagoas maiores, a do Papicu e a do Gengibre e várias outras, menores, temporárias. Nesse deserto de areias brancas e águas cristalinas, os soldados do quartel do 23º BC, praticavam tiro ao alvo e treinavam exercícios militares.

Hospital Geral à época da inauguração (foto: site do HGF)

O primeiro equipamento de porte a se instalar no loteamento "Moderna Aldeota" foi o Hospital Geral de Fortaleza, inaugurado em 23 de maio de 1969, com uma área construída de 15.000 m² e 200 leitos. Daquela época, os moradores mais antigos lembram que foi a Cialtra a primeira empresa de ônibus a interligar o HGF (antes denominado de INSS) a outros pontos da Capital cearense. A Lagoa do Gengibre ainda não tinha sido soterrada, e o Papicu ainda era contornado por uma densa vegetação e protegido por dunas gigantescas.

Cervejaria Astra/Brahma no Papicu - no entorno, dunas e lagoas
imagem facebook/LeandroMaia 

Logo depois instalou-se no bairro, a Cervejaria Astra, Empresa do Grupo J. Macedo, inaugurada em 1970, na Rua Lauro Nogueira, 1355. No ano seguinte, a Astra se associou à Brahma, que assumiu o controle acionário da marca. A instalação da cervejaria no Papicu trouxe benefícios ao local, pois para funcionar, tal indústria precisou de melhorias de infraestrutura no seu entorno, a fim de viabilizar suas operações. Entre essas melhorias, estão  abertura e pavimentação de ruas, a ampliação da rede elétrica, dentre outras. 



O terreno que pertenceu à cervejaria sendo preparado para receber o Shopping Rio Mar, com vista da lagoa e da favela do Pau Fininho. Fotos de 2012 - Fortaleza em Fotos

As instalações que serviram à cervejaria foram abandonadas e assim ficaram por longos anos, até serem implodidas em 2010, após o terreno ter sido vendido ao grupo econômico que construiu o Shopping Rio Mar no mesmo local

Mas o que deu ao bairro ares de endereço residencial foi a instalação do Conjunto residencial Cidade 2000, no ano de 1970. O conjunto foi construído com recursos do antigo BNH (Banco Nacional de Habitação), e inaugurado em 1970, numa região ainda despovoada, dividido em 46 quadras com duas alamedas cada uma, que levavam o nome de flores. A construção do loteamento destruiu dunas, aterrou várias lagoas, inclusive a do Gengibre - no período chuvoso as águas ressurgem no meio das ruas, assombrando os moradores, comprometendo a qualidade de vida e a segurança das moradias. 

A Cidade 2000 atraiu centenas de moradores para o local, povoou o Papicu com escolas, igrejas, linhas de ônibus, e pequenos comércios e motivou a realização das obras de prolongamento da Avenida Santos Dumont, que até então terminava no entorno do Hospital Geral. Em 1976, a Santos Dumont foi prolongada até a Avenida Dioguinho, na Praia do Futuro, para facilitar o acesso à Cidade 2000. 

Avenida Pontes Vieira, ao centro cruzamento com a Avenida Desembargador Moreira. A esquerda, o bairro Dionísio Torres: à direita, o São João do Tauape. Ao fundo, as salinas do Cocó e a Cidade 2000. Foto de Nelson F. Bezerra - 1973

Com essa facilidade de acesso, ocorreu uma expansão do sistema viário para o leste, e um acelerado processo de especulação imobiliária, abrindo-se novos loteamentos, sem nenhum acompanhamento do poder público municipal, e sem nenhuma infraestrutura, construindo-se residências de alto padrão em grandes lotes.

No início dos anos 80, o Papicu ganhou sua primeira favela, a comunidade do Pau Fininho, parte dela instalada na Área de Preservação Permanente – APP do Papicu. Trata-se de um conjunto de moradias precárias, sem esgotamento sanitário ou abastecimento de lixo, localizadas às margens da lagoa. A comunidade é constituída por cerca de 622 famílias, totalizando 1.861 pessoas.



Mas a região onde se localiza o Papicu é uma das que mais cresceram em face da especulação imobiliária.  O fenômeno que explicaria a grande movimentação imobiliária no Papicu estaria, em parte, no apelo do verde, e por outro lado, a existência de muitos terrenos vazios. A aproximação com o Parque do Cocó implica numa valorização do metro quadrado, que tem se aproximado de valores das demais áreas nobres da cidade. Embora haja uma predominância de construções com fins residenciais, houve também uma expansão da oferta de serviços e comércios, fazendo com que o lugar se tornasse ainda mais atraente para diferentes segmentos sociais.


O bairro Cidade 2000 foi criado oficialmente no dia 1° de julho de 2009, através do Decreto Legislativo n° 382.


Fontes:
Revista do Instituto do Ceará – As múltiplas facetas de um marchante: a vida empresarial de Antônio Diogo de Siqueira de Carlos Negreiros Viana 09/2009.
Uso e Ocupação do Solo  Futuro da Praia do Futuro – Dissertação de Mestrado Pedro Itamar de Abreu Júnior – UFC/Prodema 2005
Jornais O Povo e Diário do Nordeste
IBGE - Wikipedia - 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Jacarecanga e Benfica – Os Primeiros bairros elegantes de Fortaleza


Na Fortaleza de hoje temos os bairros do Meireles, Aldeota e alguns emergentes como Cocó, Guararapes e Lourdes como os mais valorizados e consequentemente, os mais elegantes da cidade, já que esse atributo – elegância – sempre esteve ligado, primordialmente, ao poder aquisitivo dos moradores e ao alto padrão das edificações.
Mas no início do Século XX, outros bairros detiveram esse status de “mais elegantes”, levando em conta os mesmos parâmetros usados hoje.



fotos Fortaleza em Fotos

Tudo começou quando o Centro da cidade, então local de moradia das classes mais abastadas, se afirmava como núcleo comercial e administrativo, e as elites elegeram novos espaços para construírem suas residências. Essa dinâmica foi possível graças ao surgimento do automóvel como meio de transporte daquele segmento da sociedade, que facilitou a mobilidade e possibilitou o surgimento dos dois primeiros bairros elegantes de Fortaleza: O Jacarecanga e o Benfica.

O Jacarecanga localizado na zona Oeste da cidade, próximo à área central, nasceu nas proximidades do riacho do mesmo nome, onde se aglutinaram em sobrados, os representantes das elites comercial e agrária, tornando-se um local privilegiado, com mansões e chácaras com plantas e fachadas copiadas de revistas e publicações especializadas europeias.  A partir do cruzamento com a Avenida Imperador, a Travessa Municipal formava um corredor diferenciado pelo seu conjunto de luxuosas residências. Era o início do bairro. A continuação da Travessa Municipal, depois Rua Guilherme Rocha é a atual Avenida Francisco Sá, antiga Avenida Demóstenes Rockert.   


Uma das mais suntuosas residências do Jacarecanga, foi construída em 1924, planta copiada de um imóvel de Portugal, em estilo art-nouveau, para moradia de Thomaz Pompeu Sobrinho. Tem 38 cômodos em quatro andares feitos com materiais importados da Europa. Tem porão habitável, salão de festas, quartos e salas com as dimensões de alguns apartamentos atuais. imagem Fortaleza em Fotos

Na Avenida Philomeno Gomes ainda resiste a residência da família do advogado Raimundo Pinheiro de Melo. Construída em 1920, é cópia de uma casa da Normandia, obtida de uma revista francesa. A casa continua praticamente inalterada, exceto o alto muro de proteção que hoje ostenta. A outra casa visível, uma mansão de três andares, era a moradia do empresário do ramo de transportes, Oscar Pedreira. Foto Arquivo Nirez

Na Rua Guilherme Rocha,1055, erguia-se um dos mais importantes símbolos dos tempos de fausto do Jacarecanga: a Itapuca Villa. Cercada por imenso jardim, com gradis artísticos, a vila foi erguida com dois pavimentos, copiados das construções inglesas, na Índia. A edificação tinha um vistoso trabalho em madeira: na parte superior existiam imensas varandas com circulação livre. Na edição de O Povo, de 11/11/1989, era noticiada a demolição do imóvel que se encontrava em ruínas. A Itapuca Villa pertencia ao comerciante Alfredo da Rocha Salgado. 
 Imagem: óleo sobre tela do artista plástico Tarcísio Garcia

na esquina da Praça Gustavo Barroso (Praça do Liceu) com a Avenida Philomeno Gomes, ficava a casa da família do advogado e professor Luiz Moraes Correia e Dona Esmerina. Depois que a família deixou o imóvel funcionou no local uma repartição pública.  Suas duas fachadas de ornamentos, sacadas e escadas, com tantos elementos decorativos não foram respeitadas pelas picaretas do progresso: a casa foi demolida para construção de um galpão. Foto Arquivo Nirez

Hoje, a maioria das residências construídas no período do apogeu, foi demolida,  descaracterizada ou se encontra em precário estado de conservação. O Jacarecanga perdeu sua condição de área nobre a partir de meados do século passado, quando a sua avenida principal, a Avenida Francisco Sá, começou a ser ocupada por uma série de indústrias de transformação e com a instalação do ramal ferroviário e das oficinas da Rede Viação Cearense. Os novos equipamentos atraíram vizinhos de menor poder aquisitivo, que se alojaram em vilas operárias ou ocuparam irregularmente as terras situadas entre a principal avenida do bairro e a zona litorânea, dando origem ao que viria ser a maior favela de Fortaleza, o Pirambu.


Imóvel na Avenida Francisco Sá (imagem Fortaleza em Fotos)

Quase que ao mesmo tempo em que o Jacarecanga se firmava como bairro dos ricos, o Benfica, bem mais distante do centro, também passou a ser cobiçado pelos que desejavam fugir do então agitado centro de Fortaleza. Antes da formação do bairro, o local era conhecido por sitio Benfica,  localizado na Estrada de Arronches, fora dos limites urbanos de Fortaleza. Começou a ser valorizado quando uma epidemia de cólera-morbus assolou a cidade. Devido a distância do núcleo urbano, as terras do sítio foram consideradas aptas para resolver o problema de abastecimento de água, por estarem distantes de qualquer foco de contaminação dos cemitérios e por contar com inúmeras fontes de águas limpas.

Igreja dos Remédios foto Arquivo Nirez

Em 1878, com o Benfica ainda com uma ocupação insipiente, foi iniciada a construção da primeira igreja do lugar, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Mas quem verdadeiramente iniciou o processo de ocupação e desenvolvimento do Benfica foi o banqueiro e empresário José Gentil Alves de Carvalho, que em 1909, adquiriu de João Antônio Garcia, uma chácara localizada na Avenida Visconde de Cauípe (atual Avenida da Universidade), que remodelada em 1918, perdeu as feições rurais e virou palacete.



Casal José Gentil e Dona Melinha com seus 15 filhos em frente a casa antiga da chácara - 1909
e o Palacete de 1918, atualmente ocupado pela reitoria da UFC, proprietária do imóvel.  Fotos Arquivo Nirez 

Em torno da construção principal, José Gentil loteou terrenos e construiu uma vila moderna e aprazível, amplamente arborizada, com residências dotadas de esgoto e água encanada, que recebeu o nome de Gentilândia. Boa parte das construções do Benfica e da Gentilândia viriam a ser incorporadas ao patrimônio da Universidade Federal do Ceará.


Antigo prédio do Colégio Santa Cecília, na Avenida da Universidade, que foi adquirido e demolido pela UFC - acervo do MAUC

Na década de 1950, quando as famílias mais ricas estavam de mudança para a zona leste da cidade, e os imóveis estavam sendo colocados à venda, o palacete da família Gentil foi adquirido pela Universidade Federal do Ceará, que havia sido criada em dezembro de 1954, e estava se instalando em Fortaleza. Depois da aquisição do casarão dos Gentis, a Universidade comprou vários outros imóveis ao longo da principal avenida.


Rua N. S. dos Remédios - imagem Fortaleza em Fotos

A chegada da Universidade ao Benfica em 1956, repercutiu sobre o espaço físico natural e construído do bairro. Muitos imóveis de belíssimas arquiteturas que poderiam ter sido preservados, não o foram, e muitas árvores foram abatidas, inclusive para  construção da Concha Acústica, inaugurada em 1959. 


Fontes:
Lira Neto. História Urbana e Imobiliária de Fortaleza: uma biografia sintética/Lira Neto, Cláudia Albuquerque – 1ª ed. – São Paulo: Editora Braba, 2014.
Revista Universidade Pública ano 8 n° 45 – Set/Out 2008.    

sábado, 22 de dezembro de 2018

Os Caminhos de Ferro da Estrada de Baturité (1870 - 1909)


A Estrada de Ferro Baturité foi criada no dia 25 de junho de 1870, projeto de iniciativa de uma sociedade composta pelo senador Tomaz Pompeu de Sousa Brasil, o coronel Joaquim da Cunha Freire (Barão de Ibiapaba), o bacharel Gonçalo Batista Vieira (Barão de Aquiraz), o engenheiro José Pompeu de Albuquerque Cavalcante, e o comerciante inglês Henry Blockhurst, da firma inglesa R. Singlereust e Co. O projeto original previa a construção de uma ferrovia ligando a Capital do Estado até a Vila de Pacatuba, tendo um ramal até Maranguape.


Após o contrato de cooperação firmado entre a companhia e o Governo Provincial do Ceará, passou a denominar-se Estrada de Ferro de Baturité, e passou a ter como ponto final à cidade de Baturité, na região produtora de café. O objetivo principal do empreendimento, era o transporte da produção serrana para o Porto de Fortaleza. Antes da ferrovia, os produtos eram transportados no lombo de cavalos e jumentos.


No dia 1° de julho de 1873, foram iniciados os trabalhos de assentamentos dos trilhos. A EFB iniciou suas atividades quando a locomotiva Fortaleza fez o percurso da Estação até a parada do “Chico Manoel”, na então Rua do Trilho (atual Tristão Gonçalves) esquina com a Rua Liberato Barroso. Em seguida foi inaugurado o trecho até a estação da Parangaba, antiga Arronches,  em 30 de setembro de 1873. Depois, foram inauguradas as estações de Mondubim, Maracanaú, em 1875, e em 1876, foi inaugurada a estação de Pacatuba.

A Estação Central, em Fortaleza, mais tarde denominada Estação João Felipe teve o lançamento da pedra fundamental em 30 de novembro de 1873, mas as obras só foram iniciadas em 1879, sendo concluídas em 1880. O motivo da interrupção dos trabalhos foi a terrível seca que assolou o Estado no período de 1877 a 1879, que abalou a situação financeira da companhia. Tanto a estrada de ferro quanto a estação central foram construídas utilizando a mão-de-obra de retirantes dessa estiagem catastrófica.

O local escolhido para a construção da Estação Central foi o antigo Campo da Amélia, atual Praça Castro Carreira – conhecida por Praça da Estação – no terreno que corresponde ao extinto Cemitério de São Casimiro. A partir de 1865, o campo santo ficou em completo abandono até que, em 1877 se resolveu sua demolição. As autoridades mandaram exumar alguns restos e os recolher ao Cemitério de S. João Batista. Em 1878 já estava quase tudo em ruínas: túmulos desmoronados, grades quebradas, ossos dispersos pelo chão, onde animais pastavam tranquilamente.  A Estação Central foi construída sobre esses túmulos remanescentes. 

E a Estrada de Ferro seguiu rumo ao interior do Estado, em busca da serra, integrando cidades e comunidades, levando mercadorias e pessoas, trazendo progresso, riqueza e mobilidade.  Foi de grande importância para o desenvolvimento do Ceará e muito influenciou na criação das cidades por onde ela cruzava.  Não apenas fez surgir novos núcleos de povoamento, mas também fez surgir novas ruas, novos traçados, novos hábitos, novos horizontes. A inauguração de uma nova estação, movimentava o comércio local e todo tipo de mercadoria era vendida na chegada do trem, principalmente comidas, frutas e peças de artesanato local, aproveitando a nova freguesia que chegava a bordo dos trens de ferro. As vendas feitas nos trens passaram a ser a principal fonte de renda de muitas pessoas. Suas idas e vindas mexiam com tudo por onde passava, movimentava pessoas, cargas, lugares, vidas e sonhos.
Por meio do Decreto nº 6.918, de 1 de junho de 1878, o Governo Imperial, assumiu  a parte construída da ferrovia e os direitos da Companhia de prolongar os caminhos de ferro até o município de Baturité. Em dois anos de trabalho, enquanto durou a estiagem, a estrada de ferro empregou cerca de 50 mil retirantes cearenses na sua construção. Assim, seguindo a linha tronco ou Linha Sul, rumo a Baturité, foram implantadas as seguintes estações:
Guaiuba - 1879/1880 

A Estação de Guaiuba foi a primeira do prolongamento da estrada de ferro desde Pacatuba, rumo à Baturité. A cidade cresceu a partir da estação. O até hoje distrito de Guaiuba, Água Verde, teve sua estação ferroviária inaugurada em 1879. No ano seguinte, 1880, foi inaugurada a Estação de Baú, mais tarde João Nogueira.

Acarape – 1879
O local em que a estação foi construída chamava-se Calaboca e já existia antes da chegada da ferrovia. Depois, com divisões municipais e anexações de distritos, passou a Redenção e Acarape, que por sua vez, era o nome original do município no qual se situava o povoado de Calaboca. A estação foi desativada em 1988. 

Canafístula - 1880 
A Estação foi inaugurada em 1880, ao pé da Serra do Vento, entre Fortaleza e Baturité. Na década de 1940 o lugar passou a se chamar Antônio Diogo.  

Aracoiaba – 1880
A estação foi inaugurada com o nome de Canoa. Aracoiaba tem, na verdade, duas estações: em algum momento, a velha, a original, que ficava no bairro de Santa Teresa, foi substituída por uma mais nova, no bairro São José, que é que hoje está ao lado dos trilhos. Possivelmente esta estação original tenha sido a de Canoa, aberta em 1880.

Baturité – 1882


A estação de Baturité foi inaugurada em 1882, permanecendo oito anos como ponta da linha. Era ela o objetivo inicial da ferrovia.  Ao lado do prédio da estação, sobre um monumento, foi colocada uma antiga locomotiva - Maria Fumaça, em comemoração aos cem anos do empreendimento. Ainda podem ser observados os antigos armazéns e as antigas linhas que serviam para a manobra dos trens. Baturité foi elevado à categoria de cidade desde 1858. 

Capistrano – 1890
Os trabalhos de prolongamento da estrada ficaram paralisados por 8 anos depois que a ferrovia chegou à Baturité. Em 1890 as obras foram retomadas com a inauguração da estação de Capistrano, à época um simples povoado denominado Riachão, subordinado ao município de Baturité. A estação de Riachão foi a primeira feita para escoamento da madeira produzida na região. Com a estrada de ferro, Riachão logo prosperou, ativando seu comércio com outras localidades, conquistando o título de povoado, concedido pela Câmara Municipal de Baturité. O distrito foi criado em 1896. Em 1931, o seu nome foi alterado para Capistrano de Abreu, em homenagem ao historiador brasileiro.  Foi elevado à categoria de município com a denominação de Capistrano, pela lei estadual nº 1153, de 1951.

Caio Prado – 1890  

A estação de Cangaty foi inaugurada em 1890, quando a localidade ainda era distrito de Baturité. Em 1944 seu nome foi alterado para Caio Prado. Caio Prado é distrito de Itapiúna desde 1953.

Itapiúna – 1891
A estação de Itaúna foi inaugurada em 1891. Mais tarde seu nome foi alterado para Itapiúna. O prédio atual foi construído entre os anos 50 ou 60 substituindo o original.

Quixadá – 1891

No ano de 1891, Quixadá passou a contar com duas estações ferroviárias, nos distritos atualmente denominados Muxiopó e Juatama. A estação do Junco foi inaugurada em 1891, com o nome da fazenda dos Queiroz, que já existia à época. Nos anos 1940 teve o nome alterado para Muxiopó. Em 1961, o nome foi alterado para Daniel de Queiroz. A estação de Juatama foi inaugurada no mesmo ano, 1891. 

Quixeramobim – 1894.

Duas estações ferroviárias foram inauguradas em Quixeramobim no mesmo ano, 1894: uma na sede do município e a outra no distrito de Uruquê, esta denominada Estação Francisco Sá. Em 1899, em um povoado, foi inaugurada a terceira estação ferroviária de Quixeramobim, que recebeu o nome de Prudente de Morais. 

Redenção – 1896
A estação de Itapaí foi inaugurada em 1896, na subida da serra entre Fortaleza e Baturité. Em 1922 era apenas uma parada. Na década de 1940 seu nome foi mudado para Amaro Cavalcante. 

Vicente de Castro – 1899
A estação de Sebastião de Lacerda foi inaugurada em 1899. Mais tarde teve o nome alterado para Vicente de Castro. Não há uma definição exata sobre qual localidade foi instalada a estação, mas os mapas ferroviários a situam entre os municípios de Quixeramobim e Senador Pompeu.

Senador Pompeu – 1900

O trem chegou à vila de Humaitá em 1900, com a inauguração da estação homônima. Em 1901, Humaitá foi elevada à categoria de município com o nome de Senador Pompeu, um dos idealizadores da estrada de ferro, em 1870.

Piquet Carneiro - 1907
A estação de Girau foi inaugurada em 1907. Sua inauguração mereceu até uma nota do jornal O Estado de S. Paulo de 16/11/1907, talvez por ser, então, ponta de linha - condição que manteve até meados do ano seguinte. O nome foi mais tarde alterado para Piquet Carneiro, homenagem ao engenheiro Bernardo do Piquet Carneiro, que dirigiu a Rede de Viação Cearense, chefiou a comissão encarregada de concluir o Açude Cedro em Quixadá e construiu outros Açudes públicos no Ceará.  Uma segunda estação, a de Miguel Calmon foi inaugurada em 1908, no local correspondente ao atual distrito de Ibicuã. Mais tarde seu nome foi alterado para o nome do Distrito.
  
Acopiara – 1910
A estação Afonso Pena foi inaugurada em 1910, no povoado de Lajes, à época subordinado ao município de Iguatu.  Lajes começou a se desenvolver justamente em razão da chegada da estrada de ferro. O município foi criado em 1921, desmembrado de Iguatu, e elevado a categoria de Vila; em 1938, foi elevado à categoria de Cidade. Em 1943 passou a se chamar Acopiara. Apesar de só ter sido inaugurada em 1910, em janeiro de 1909, o jornal O Estado de São Paulo publicava a noticia dando conta da conclusão do prolongamento da estrada de ferro, no trecho correspondente a cerca de 27 quilômetros entre as estações de Miguel Calmon e Afonso Pena. E que a inauguração dependia de acerto entre governo e arrendatários.

Tendo a estrada de ferro sido arrendada em 1898, o arrendatário assumiu o compromisso de concluir os trabalhos de construção até Humaitá, que se achavam paralisados.  Em 9 de Maio de 1898, começaram os trabalhos, na extensão de 51,920 quilômetros e a 14 de Julho de 1899 inaugurava-se a estação de Sebastião de Lacerda, ficando toda a linha entregue ao tráfego em 2 de Julho de 1900, até a estação de Humaitá, hoje denominada Senador Pompeu.  O Governo decidiu continuar o prolongamento da estrada e com esse intuito inaugurou os trabalhos de construção a partir de Senador Pompeu, em 18 de Setembro de 1903. 


Estação de Camocim, inaugurada em 1881, construída pela Estrada de Ferro Sobral  

Em 1878, o governo imperial determinou com seus próprios recursos, a criação de uma outra ferrovia no Ceará – a Estrada de Ferro Sobral – ligando Camocim a Sobral, na qual também foi usada a mão-de-obra sertaneja. O trecho Camocim-Granja foi inaugurado em 1881 e em dezembro de 1882, foi inaugurada a estação de Sobral.
Em 1909, quando a ferrovia estava na cidade de Acopiara, a Estrada de Ferro Baturité foi juntada com a Estrada de Ferro Sobral e criada a Rede de Viação Cearense.



Fontes:
IBGE
http://www.estacoesferroviarias.com.br/
Revista Fortaleza, fascículo 3.
História do Ceará, de Airton de Farias
Fotos: Estações Ferroviárias, IBGE e Fortaleza em Fotos, Arquivo Nirez e Brasiliana Fotográfica