terça-feira, 19 de setembro de 2017

O Legado da Oligarquia comandada pelo Governo Accioly


A partir de 1896, com a posse do Comendador Antônio Pinto Nogueira Accioly na presidência do Ceará, recrudesceram os investimentos na normatização urbano-social de Fortaleza. Guilherme César da Rocha, Intendente de Fortaleza desde 1892, permaneceria no cargo até 1912, sendo a sua a mais longa administração de Fortaleza.
Durante este período, o intendente embelezou a cidade copiando modelos franceses. Sua primeira grande obra foi a conclusão do Mercado de Ferro, em 1897. Fabricado na França por Guillon Pelletier, de Orleans, de acordo com projeto do arquiteto Lefevre. O novo mercado iniciava uma série de melhoramentos na cidade, sob influência da cultura francesa, com seu espírito de progresso e civilização apoiado no senso de solidez e elegância.


Depois do mercado, vieram as remodelações das três principais praças da cidade: a do Ferreira, em 1902, a Marquês de Herval em 1903, e a Caio Prado, em frente à Igreja da Sé, todas inauguradas com grandes festejos populares.

Nestes logradouros foram introduzidos canteiros de flores, avenidas, réplicas de estátuas gregas, vasos importados, chafarizes e largos pavilhões para ocorrência de retretas, patinação e ginástica. A regeneração das praças, portanto, vai muito além do mero aformoseamento: facilitava a circulação e determinava novas regras de convivência e utilização do espaço público, além de estimular a prática de exercícios físicos nos jovens e estudantes, tidos como saudáveis aos costumes e à saúde.

Praça do Ferreira 
Praça José de Alencar
Praça Caio Pado (Praça da Sé)

Atento e vigilante ao embelezamento da cidade, Guilherme Rocha também procurou fazer cumprir o Código de Posturas de 1893, que prescrevia a adoção de uma padronização formal nas platibandas, obrigatórias nas fachadas de frente, bem como nos vãos de portas e janelas externas. Para manter a harmonia do conjunto urbano, tentou impedir as construções que não obedecessem às linhas gerais definidas pelo Código. Com base no artigo 12 do Código, o intendente exigiu que as esquinas fossem cortadas em dois ângulos obtusos, o que provocou reação da oposição.

Outra importante iniciativa desse período, foi a criação da Faculdade Livre de Direito do Ceará, instalada oficialmente em 1° de março de 1903.  O curso passou a funcionar no primeiro andar do prédio da Assembleia Legislativa (atualmente ocupado pelo Museu do Ceará), sendo aclamado primeiro Diretor o Dr. Antônio Pinto Nogueira Accioly, que nessa época, embora não ocupasse o cargo de presidente do Estado, interferia direta e decisivamente em todas as decisões políticas.


No período entre 1900 a 1904, o Estado foi governado por Pedro Borges. A administração Pedro Borges nasceu sob o signo da oligarquia comandada por Accioly. O vínculo político que o mantinha ligado ao Dr. Nogueira Accioly fez de sua administração um elo partidário ligado a corrente que governou o Ceará por longo período, uma continuação da administração de Accioly. Quase nada ficou registrado em termos de realização.

Nogueira Accioly voltou ao posto de presidente, num segundo mandato, em 1904, administrando os conflitos registrados no interior, principalmente com relação às desavenças entre os coronéis. Não se interessou pelos problemas sociais, nem investiu no progresso do Estado, limitando-se aos interesses políticos.

Accioly foi novamente eleito, para um terceiro mandato iniciado em 1908. Nesse mesmo ano foi iniciada a construção do que seria a maior realização do longo governo Accioly: o Teatro José de Alencar. Inaugurado oficialmente no dia 17 de junho de 1910, a casa de espetáculos foi entregue ao público da província pelo Presidente do Estado, com direito a longo discurso proferido por Júlio César da Fonseca, e um concerto pela Banda de Música do Corpo de Segurança do Estado, sob as batutas dos maestros Luis Maris Smido e Henrique Jorge.


O Teatro José de Alencar, raro espécime de arquitetura eclética foi erguido entre dois outros edifícios, uma escola (Escola Normal) e um quartel de polícia (Batalhão de Segurança). Além da sala de espetáculos, em ferro fundido e madeira importada da Europa, compunham o teatro um primeiro prédio que o guardava do contato da praça, e uma caixa de cena em tijolo e madeira, com inovações técnicas até então inusitadas para o teatro local.

Nogueira Accioly e o Intendente Guilherme Rocha encerraram suas carreiras políticas e seus longos mandatos a frente do Estado e da Prefeitura no ano de 1912, quando uma grande revolta popular transformou Fortaleza num campo de batalha. Deposto, o ex-presidente embarcou para o Rio de Janeiro, onde fixou residência, até seu falecimento em 14 de janeiro de 1921.Decorridos 105 anos do fim da Oligarquia comandada por Nogueira Accioly, algumas de suas realizações ainda marcam presença na cidade.  

mercado dos Pinhões e da Aerolândia (foto Fortaleza em Fotos e G1)

O Mercado de Ferro era constituído de dois pavilhões idênticos, com uma “avenida” coberta unindo-os. A partir do início dos anos 30 começou a perder sua função de centro de abastecimento de produtos frescos, e foi desmontado em 1938, na gestão do Dr. Raimundo de Alencar Araripe. Um dos pavilhões foi transferido para a Praça Visconde Pelotas, e é conhecido por “Mercado dos Pinhões”. A outra metade foi montada na Praça São Sebastião, e posteriormente, novamente desmontado e levado para a Aerolândia, às margens da BR-116, onde permanece até hoje. Foi recuperado recentemente e encontra-se em pleno funcionamento.  


a Faculdade de Direito foi federalizada em 9 de abril de 1934, sem nenhum ônus para os cofres da União. Em 12 de maio de 1938, o Curso foi oficialmente reconhecido pelo Governo Federal através do Decreto-Lei Nº 421. Em 8 de dezembro de 1935 foi assentada a pedra fundamental do prédio da Faculdade de Direito, na então Praça de Pelotas, depois Praça da Bandeira, atual Praça Clóvis Beviláqua.  A inauguração ocorreu quase três anos depois, no dia 12 de março de 1938.

portaria do Teatro José de Alencar (foto Fortaleza em Fotos)
Teatro José de Alencar (imagem portal G1 - agência Diário)

O Teatro já foi restaurado diversas vezes desde a sua inauguração em 1910. Jardim do Paisagista Burle Marx, que conta com palco ao ar livre, foi inaugurado em 1975 e reinaugurado em 1991. Com plantas nativas, tem a cara da terra de Iracema: cajueiros, jucás, juazeiros, oitizeiros, palmeiras e pau brasil. Tem a maior cascata verde do Ceará, com mais de 10 metros de altura. É até hoje, um dos mais belos teatros do Brasil.

fotos: Arquivo Nirez e Ah, Fortaleza!


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Os Clubes de Subúrbios

A elite e a classe média dividiam espaço no recesso dos clubes elegantes da Fortaleza durante  décadas, até por volta dos anos 60/70:  Ideal, Náutico, Iracema, Diários, Maguary, Comercial e Massapeense. Os grandes eventos e os encontros de amigos aconteciam no ambiente distinto e seguro das maiores agremiações.

Ideal Clube 

Fortaleza, porém, não era feita apenas do mundo elegante. Outros segmentos tinham seu espaço próprio e participavam ativamente de animadas reuniões festivas, especialmente nos finais de semana. Em muitos bairros existiam clubes, a maioria pequenos, mas não menos movimentados. Alguns típicos de classe média, outros, de classes menos favorecidas, mas, todos vivendo uma fase de grande efervescência. Eram os chamados "suburbanos", clubes localizados nos bairros, fora do circuito dos clubes elegantes (Aldeota, Meireles, Praia de Iracema).  

O Clube de Regatas, localizado na Barra do Ceará, imediações da foz do Rio Ceará, era o maior deles. Iniciou suas atividades nos anos 60. No lançamento, os proprietários fizeram uma ação de marketing para a venda de ações, com a planta do clube e seus diversos atrativos. Assim, o Regatas tinha associados na Capital e no Interior.

Projetado pelo arquiteto Ivan Bezerra, em modernas instalações, contava com piscina, quadra de tênis, garagem para embarcações, e salão nobre com um imenso lustre de cristal comprado em São Paulo. O Clube de Regatas não foi pensado nem se destinava ao lazer das pessoas mais humildes da região que já começava a se proletarizar. Em sua origem era frequentado por pessoas que vinham de outras regiões. Os sócios do clube que moravam em áreas mais distantes, enfrentavam areal, piçarra e areia frouxa para chegar ao Regatas. 

Clube de Regatas Barra do Ceará
O Clube de Regatas foi palco para shows de artistas de renome nacional, bailes de formatura e festas de confraternização de empresas, empresários ou políticos. Outro atrativo interessante do Regatas eram os bingos com prêmios que iam de automóveis a passagens aéreas passando por eletrodomésticos. O Regatas entrou em declínio já no final da década de 60, quando os clubes sociais começaram a competir com outras formas de lazer.

Os militares de patentes mais baixas, suboficiais e sargentos, frequentavam suas próprias agremiações: o Clube General Sampaio congregava o pessoal do exército. Tinha sede no Benfica, com bar e restaurante organizados, sempre com boa freqüência. Encerrou as atividades em 1964; Os sargentos da Aeronáutica tinham seu ambiente especial no Ícaro, na Avenida Visconde do Rio Branco, bairro de Joaquim Távora, com festas de grande prestígio aos sábados e domingos.

No mesmo bairro Joaquim Távora, bem próximo ao Ícaro, ficava o Suerdieck, que viveu uma fase de grande esplendor, promovendo bailes monumentais, inclusive patrocinando concursos para a escolha da "Miss Suburbana", uma espécie de miss Ceará alternativa.

Ainda na Visconde do Rio Branco já próximo ao centro, estava o 24 de Maio, que aliava sua condição de time de futebol de muita força na Segunda Divisão, a uma intensa atividade social em sua sede, onde às festas costumavam comparecer centenas de jovens.

Clube Santa Cruz na Rua Padre Mororó (google)

Havia o Santa Cruz, que teve como presidente Francisco Dutra, um dos primeiros sócios do Ferroviário e antigo árbitro de futebol da Primeira Divisão do futebol cearense. Apesar da proximidade com o Cemitério São João Batista, promovia grandes bailes de carnaval e festas nos finais de semana, com muitos frequentadores.

Não menos animados eram os bailes do Jabaquara, onde a presença mais notada era a de Valfrido Coelho, o “Pimpolho” ex-jogador de futebol, folião de primeira hora, e um dos criadores do famoso Cordão das Coca-Cola. O Jabaquara teve seus tempos áureos quando mantinha sede na Avenida Carapinima, no Benfica.

Clube Secai, no Pirambu - imagem: Antônio Viana

Também no Benfica ficava o Gentilândia Futebol Clube, onde a freqüência, notadamente a masculina era predominantemente de alunos da Universidade, daí o apelido de dado pela imprensa de time dos acadêmicos.

Localizado no Bairro Nossa Senhora das Graças (grande Pirambu), o SECAI foi fundado em 14 de setembro de 1960 e destacou-se pela atuação na área de esportes, lazer, qualificação profissional, junto aos jovens moradores do bairro. 

Sede do Clube Vila União - (Fortaleza em Fotos)

Na Fortaleza provinciana também havia festas animadas nos salões do Terra e Mar, no Mucuripe, do Rio Branco, no Antônio Bezerra, do Trilho, na Volta da Jurema, no Romeu Martins no Montese, no Vila União, no bairro homônimo, no Tiro e Linha, no Mênfis Club, no Clube Recreativo Aerolândia, no Tiradentes, e em inúmeros outros pequenos e médios clubes suburbanos, que agitavam fins de semana e períodos carnavalescos, hoje, alguns em plena atividade e outros, há muito desaparecidos. 


Fontes:
Sessão das Quatro, cenas e atores de um tempo mais feliz
Blanchard Girão
Do Clube de Regatas Barra do Ceará ao Cuca Che Guevara
David Aragon disponível em 
 <http://www.ujsceara.org.br/2009/08/do-clube-de-regatas-barra-do-ceara-ao.html>
 


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Relembrando o Curral das Éguas

Quem tem boa memória decerto haverá de se lembrar do Curral das Éguas – na Praia Formosa – no bairro então denominado Arraial Moura Brasil, nos anos de 1920 a 1960. Quem descia aquela ladeira da Rua General Sampaio, ao lado da Estação Central e da Casa de Detenção em direção à praia, sabia, sem dúvida, que perderia a castidade e a inibição. 

Rua General Sampaio, a parte final da rua desapareceu em função da construção da Avenida Leste-Oeste

À primeira vista de quem olhava do alto da ladeira, tinha-se a visão de um arraial feericamente iluminado. As casas, estilo chalés, situadas do lado esquerdo de quem descia a rua inclinada, guardavam os ninhos do amor vendido a granel, onde as moças escondiam seus tesouros. Lá predominava a mancebia entre jovens que se acautelavam das doenças venéreas, comuns na mocidade, e para uns, principal sinal de virilidade.

No Curral do Arraial Moura Brasil tinha de tudo e mulher para todo gosto. A variedade de tipos, vindas de todo o interior do Ceará e até de outros Estados, com o ar, costumes, trajes e sotaque caipira, mas com a brejeirice sertaneja, atendia às mais diversas simpatias e preferências que exigiam o rigor do amor.

Era um mundo diferente para as moças simples, chegadas do interior, que ali se apresentavam para fazer o seu meio de vida assumindo a profissionalização. Na pensão, onde fixavam residência, a primeira providência da madame – a dona da pensão -  era apresentar a hóspede na Chefatura de Polícia, para abrir uma ficha e receber a carteira, registrando-a com prontuário de ocorrência sanitária. A burocracia obrigava a rapariga a comparecer mensalmente, para revalidar o documento e passar por exames para saber se tinha pegado “coruba” ou “doença do mundo”, muito comuns naquela época.Era a juventude que comandava os dias daquelas mulheres, desfrutando o que a vida proporcionava, e se deixando dominar pela lascívia e o prazer de viver num mundo de fantasias e ilusões. 

 A Subdelegacia de Polícia da Rua Franco Rabelo (que também desapareceu) atendia ocorrências na zona de prostituição 

No local destinado a dança – Salão Bola Preta, dancing de primeira classe, com verdadeira orquestra, aconteciam animadas noitadas, passando pelos mais variados ritmos e contando com a presença de representantes masculinos da fina flor da sociedade, que compareciam às escondidas das mulheres e namoradas.

Com o passar do tempo vieram outros salões em épocas diferentes, como o “Rancho Fundo”, “Salão Azul” e o popular “Salão da Farinhada”, cuja iluminação era a base de gás carbureto, onde os frequentadores usavam tamancos por pertencerem à classe proletária, embora a alegria fosse a mesma de um salão grã-fino.

Um dos pontos altos da noite no Curral era o clássico trottoir: as damas da noite vestiam roupas de seda, subiam e desciam os dois primeiros quarteirões da Rua General Sampaio, a fim de atrair os fregueses que se postavam na parte mais alta da rua, ou sentados nos botequins da ladeira, a soltar galanteios para iniciar o rápido romance, que as vezes terminava na alcova.

Com trocas de olhares, nesse vai-e-vem subindo e descendo a ladeira, o jovem se aproximava da dama e logo se envolviam num ligeiro diálogo, para adentrar o pequeno quarto do lupanar reservado para o encontro, que não durava mais que meia hora. Terminada a função e recebido o pagamento, separavam-se com atenciosa despedida ou promessa de novos encontros em dia aprazado. A mulher já saía do quarto com traje diferente do que usara antes, para não ser reconhecida pelos circunstantes, porque precisava reiniciar sua batalha em busca de novo freguês.

Fora do trabalho, seu mundo se resumia a um pequeno dormitório da pensão alegre, pagando diária para ter direito ao almoço, jantar, guarda-roupa, e uma penteadeira repleta de adornos, bibelôs, perfumes, objetos de toucador, e um pequeno lavatório num tripé de ferro, acoplando bacia, jarra de ágata e saboneteira com o infalível sabonete Eucalol, pequena toalha, e “caxeiro” para os rapazes, que as mulheres faziam assepsia.

Não se falava de AIDS nem de preservativos. A rapaziada se curava nas prodigiosas mãos dos enfermeiros Mundico, Dr. França, Almeida e Varejão, que tinham seus ambulatórios no Centro, faziam ligeiras intervenções cirúrgicas, e de certa forma, praticavam a medicina profilática da juventude que se iniciava sexualmente. Eram os doutores das “doenças do mundo”, como eram popularmente conhecidos. Os casos mais graves iam para o Dr. Olavo Rodrigues ou Dr. José Oswaldo Soares – os grandes urologistas do Ceará, tudo em segredo, evitando que o assunto chegasse ao conhecimento da família – das namoradas, nem sonhar, acabava-se até casamento, se fosse noivo. 

 trecho do bairro Moura Brasil que desapareceu com a construção da Avenida Leste-Oeste

Ao lado do Curral das Éguas havia outras pensões – o conhecido Oitão Preto e a Pensão da Olímpia, que por ser de outra categoria, não se misturava com a plebe do Curral. Assim, nesse ambiente de atmosfera pesada, havia também os tipos folclóricos, que preenchiam lacunas de excentricidade. Iniciava a lista uma doida de pedra chamada de “Barra Azul”, que ao ouvir o apelido, “soltava os cachorros”; "Siri", "Ferrugem" e "Tristeza", afora as doidivanas que compareciam para dançar e aproveitar o tempo.

A ordem era mantida por um delegado de polícia muito rigoroso – Rodrigues, assessorado pelos policiais Pedro Moura e Chico da Usina e um destacamento de cavalaria que assegurava a tranquilidade na área. Havia muitos bares e botequins que serviam refeições ligeiras e bebidas alcoólicas até as 22 horas, abastecendo o território mundano do velho Curral, que no final dos tempos nada legou à posteridade.

Avenida Leste-Oeste,  postal dos anos 70 

De lembrança, ficou a igrejinha de Santa Teresinha, ali, ao lado da Leste-Oeste, para remir os pecados dos endiabrados frequentadores da zona que virou cinza, e o tempo levou deixando apenas recordações.


Extraído do artigo 
Histórias da Fortaleza Antiga, de Zenilo Almada
publicado na Revista do Instituto do Ceará - 2004  
fotos do arquivo Nirez                         

terça-feira, 25 de julho de 2017

Lojas Antigas - Quando a Cidade Cabia no Centro - parte 2

Todas as grandes lojas ficavam no Centro, eram raros os endereços na Aldeota ou nos bairros; as lojas tinham uma oferta de produtos muito diversificada, onde uma mesma loja vendia desde confecções até televisores e peças de carros. O advento dos shoppings centers praticamente impôs  a especialização nos artigos ofertados por cada unidade comercial. Boa parte dos estabelecimentos comerciais citados neste post e no anterior, de mesmo título, foram à falência durante os anos 80 e 90, vítimas dos mirabolantes planos econômicos implantados com pompa e circunstância no decorrer desse período, os quais, vias de regra, resultaram em retumbantes fracassos. Alguns desses estabelecimentos ainda estão em funcionamento e constituem um restrito grupo que compõem as casas comerciais mais antigas de Fortaleza.   
 
Ocapana


Inaugurada em Fortaleza ainda na década de 50, a Ocapana comercializava moda jovem, feminina e masculina. Em 1979 inovou no mercado ao lançar o cartão de compras, criando planos especiais de créditos, desenvolvendo uma agressiva política de direct-mail, destacando-se como a empresa cearense mais criativa daquele ano. 
A Ocapana também inovou na cobrança aos inadimplentes:
Um recurso criado pela agência Publicinorte virou moda e fez escola na propaganda em Fortaleza. Foi a criação do anjinho que cobrava os clientes inadimplentes. Em lugar das cartinhas ameaçadoras, que eram enviadas, às vezes, por engano, até aos bons pagadores, a Ocapana passou a enviar cartas bastante amáveis que em nenhum momento ameaçava ou constrangia o cliente.  

No   primeiro aviso o “anjinho Ocapana” muito feliz, lembrava o dia do vencimento;  No segundo, já com o pagamento atrasado, o anjinho  demonstrava preocupação, mas prometia segurar o pessoal da cobrança para que o nome do cliente não fosse inscrito no SPC. Solicitava porém, que o devedor providenciasse  o pagamento, pois estava com dificuldades de cumprir a promessa. Na terceira carta, o "Anjinho" aparecia triste dizendo que tinha feito tudo para segurar o pessoal da cobrança, mas como o cliente não havia efetuado o pagamento o SPC iria ser informado do débito. Mas, se ele pagasse imediatamente, o "Anjinho" prometia segurar o pessoal mais um pouquinho.Essa ideia fez um grande sucesso, muita gente elogiava a maneira de cobrar da Ocapana e o departamento de cobrança passou a ter menos trabalho.Com a loja matriz localizada na Rua Barão do Rio Banco, contava com filiais no centro, na Aldeota, e nas cidades de São Luís, Teresina, Salvador e Teresina. 

Livraria Comercial


Fundada em 1926 por iniciativa de Meton de Alencar Gadelha Quinderé, estava localizada inicialmente na Rua Major Facundo, 430. Estabelecimento tradicional no ramo de papelaria, material didático e artigos de escritório, ampliou sua área de atuação ao mudar-se alguns anos mais tarde para sua sede própria na Rua Floriano Peixoto, 523, de frente para a Praça do Ferreira.

King Joia


 Com sede em Fortaleza, A King Joia atuava no ramo de joias, relógios e óculos, com seis lojas em nossa capital e 8 filiais espalhadas em várias cidades do Norte-Nordeste. Fundada em dezembro de 1968, pelo empresário José Alzemir França, a King Joia tinha seu escritório central à Rua Barão do Rio Branco, 1071.

Casas Pernambucanas


Com sede e escritório central localizado na Avenida Almirante Barroso, 500, na Praia de Iracema, a Casas Pernambucanas, empresa do Grupo Lundgren Tecidos, era um dos gigantes do varejo: 130 lojas sendo 25 magazines, espalhadas por todo o Norte e Nordeste, 5100 empregados só no Estado do Ceará, operando com ramo misto: tecidos, confecções, cama e mesa, utensílios, móveis, brinquedos, eletrodomésticos e utilidades do lar, tapetes e artigos para decoração.

Milano Roupas

 imagem: Diário do Nordeste

Com sua filial Di Roma, eram lojas especialistas em moda masculina. A Milano foi fundada por Oscar Roque Bezerra, Anselmo Roque Bezerra, Expedito Leite e Venício Prata, em 31 de agosto de 1965, ficava na Rua Major Facundo, com frente para a Praça do Ferreira. A loja encerrou as atividades há cerca de 2 anos.

Carvalho Borges 

Fundada em 1951, por Paulo Roberto Carvalho, vendia eletrodomésticos, móveis, máquinas para escritório, brinquedos, artigos para decoração, discos, artigos para carros e muito mais. Tinha várias filiais espalhadas pelo Centro e matriz na Rua Pedro Pereira, 460.

Casa Bicho

De propriedade do comerciante português José Rodrigues Bicho, a loja vendia produtos masculinos e era especialista em chapéus, tinha até um slogan: “Casa Bicho, o rei dos chapéus Cury e Ramenzoni”. Os chapéus masculinos eram largamente usados em Fortaleza até por volta dos anos 60. Fundada em 1954, tinha endereço na Rua Major Facundo, 377. 

BD Sports


A organização Eládio Bedê foi criada em 10 de setembro de 1959, instalando-se no número 814 da Rua Major Facundo, voltada para a venda de artigos esportivos, confecções, instrumentos musicais e brinquedos. O Grupo empresarial que tinha sua matriz na Rua Pedro Pereira, 464, contava com 5 filiais, espalhadas pelo Centro, Aldeota e Bairro de Fátima. A empresa ainda se encontra em pleno funcionamento.

Relojoaria Cruz de Ouro

Propriedade de Petrônio de Aguiar Andrade, a Cruz de Ouro foi fundada em 10 de agosto de 1939, atuando no ramo de joias, óculos e relógios. Tinha nove lojas em Fortaleza, todas no centro e mais um Centro Óptico, que supervisionava a confecção das lentes.Ainda em atividade.

Lojão Anfisa



Empresa do grupo Ângelo Figueiredo, o lojão Anfisa foi fundado no dia 7 de julho de 1961, com endereço à Rua General Sampaio, 791, e se transformou num dos maiores e mais diversificados empórios de Fortaleza, comercializando materiais de construção, eletrodomésticos, móveis residenciais e de escritório, motores e bombas hidráulicas, bicicletas e acessórios, e mais de 30 mil outros artigos.  

Rouvanni

A loja Rouvanni Roupas, de moda masculina, estava instalada no local da antiga Broadway, esquina da Rua Major Facundo com a Guilherme Rocha, na Praça do Ferreira. Na década de 1950, a loja promoveu um dos maiores escândalos em Fortaleza: expôs em uma de suas vitrines uma camisa vermelha, o que causou ajuntamento de pessoas que entre incrédulas e horrorizadas, paravam para ver a peça. Era uma camisa de modelo convencional em tecido de algodão, a polêmica toda era devido a cor vermelha. Homem usando camisa vermelha, em Fortaleza, nos anos  50? Nem pensar. 

Lojas Brasileiras – Lobrás



A Lobrás era uma das chamadas lojas de departamentos e tinha filiais em vários Estados brasileiros. A filial de Fortaleza foi inaugurada em novembro de 1941, na Rua major Facundo, vizinha ao Edifício Majestic. Era chamada de 4.400 e incendiou-se em 1955, no mesmo sinistro que atingiu o Cine Majestic. Em 1957 foi inaugurada a 2ª. Lobrás, na Rua Major Facundo com a Travessa Pará, em frente ao Abrigo Central. Nesta loja, foi instalada a primeira escada rolante de Fortaleza. Encantados com a novidade, o povo formava fila, esperando a vez de utilizar a escada.

Casa Parente



A Casa Parente é uma das lojas mais antigas de Fortaleza ainda em funcionamento. Foi inaugurada no dia 10 de junho de 1914, por Inácio Parente, instalada no velho sobrado do Comendador Machado, no local onde hoje se encontra o edifício do Excelsior Hotel. Em 1936 mudou-se para o Edifício Parente, construído pelo arquiteto Sylvio Jaguaribe Ekman. Em sua nova sede a Casa Parente funcionava em 5 andares e comercializava confecções, perfumes, cama e mesa, e mais uma infinidade de produtos.

Parte 1
http://www.fortalezaemfotos.com.br/2015/12/as-lojas-antigas-quando-cidade-cabia-no.html

pesquisa:
Anuário do Ceará 1972 e 1979
Marciano Lopes - Os Dourados Anos
Gilmar de Carvalho - O Gerente Endoidou - ensaios sobre publicidade e propaganda 
fotos Anuário do Ceará e Arquivo Nirez


terça-feira, 27 de junho de 2017

Os primeiros ônibus Urbanos



Os bondes elétricos foram desativados em 1948, quando o prefeito Acrísio Moreira da Rocha, atendendo aos reclamos dos usuários do transporte coletivo, com relação ao péssimo serviço prestado pela Ceará Tramway Light and Power, num ato unilateral, cassou a concessão, rompeu o contrato com a empresa inglesa e encampou todo o seu patrimônio.

bonde do Jacarecanga

A partir daí os ônibus, que já funcionavam simultaneamente aos bondes, passaram a dominar o transporte coletivo da cidade. Mas as reclamações quanto à qualidade do serviço, continuaram, visto que os ônibus deixavam muito a desejar – eram velhos, mal conservados, superlotados, frota reduzida e passagens caras. De todos os serviços urbanos de Fortaleza, o transporte coletivo era o mais debatido pelos fortalezenses, especialmente porque era usado por todas as classes sociais, uma vez que só os mais abastados tinham automóveis. 


Os aumentos nos preços das passagens – normalmente vinculados ao aumento de preços dos combustíveis – provocavam grandes debates na Câmara dos vereadores e na imprensa, ocorrendo constantes manifestações populares, em sua maioria organizadas e dirigidas pelos estudantes do Liceu, que apedrejavam os ônibus.

Na tentativa de suprir as deficiências do sistema surgiram as auto-lotações, camionetas que passaram a servir alguns bairros, sobretudo os mais distantes e pobres, como o da Floresta (na Avenida Francisco Sá), composto por trabalhadores da Viação Cearense e operários das indústrias. 

parada de ônibus na Praça do Ferreira - anos 60

Algumas linhas de ônibus só funcionavam, até às 20 horas. Filas enormes e tumultos para pegar os ônibus eram comuns nas paradas. Comumente, os ônibus deixavam de circular, prejudicando a população por falta de peças de reposição ou por pressão dos empresários para forçar o aumento das passagens. 

Em 1948, a Empresa São Jorge inaugurou seus ônibus amarelos na base vermelha, lançando um modismo que ficou marcado na memória da cidade: os ônibus coloridos. Tempos depois, surgiram os veículos verde-branco da Autoviária São Vicente de Paula e da Angelim, os alaranjados da São Francisco, o estranho vermelho-e-preto da Gerema, o vermelho-amarelo da Nossa Senhora da Salete e muitos outros.

Nos pontos, os passageiros esperavam que as cores do seu ônibus aparecessem no emaranhado urbano, descobrindo de longe a hora de subir. Não precisavam ler painéis nem decorar números de linhas, porque sabiam, pela cor do ônibus, quem servia ao seu bairro.

Praça José de Alencar - anos 70

Os veículos mais elegantes, modernos mesmo eram os ônibus da Empresa São Jorge, dos Otoch. Inauguraram em Fortaleza a era dos circulares fazendo interligação entre bairros e lançando as portas automáticas e as campainhas elétricas. Tinha quem viajasse nesses transportes coletivos pelo simples prazer, de apertar nas campainhas e esperar que a porta fosse aberta pelo motorista com um pequeno apertar de botão. E os carros da São Jorge trocavam dinheiro por fichas plásticas, as quais eram colocadas na urna ao lado do motorista, no momento da descida. 

E todos se deslocavam para o Centro da cidade ou para os bairros, utilizando o transporte coletivo, num tempo em que os carros, particulares eram difíceis; sem vendas a prestação e os de corrida, hoje táxis, como os Packards do posto Mazine, eram para os mais abonados.


O Circular Dom Manuel

Ônibus Dodge da Empresa São Jorge, com portas automáticas e campainhas elétricas 1949

Os ônibus da Empresa São Jorge, do Grupo Otoch entraram em circulação em 1947, ocupando o vazio deixado com a retirada dos bondes. Os veículos eram de cor amarela, da marca Dodge, representados no Ceará pela firma Kalil Otoch. Conta o memorialista Blanchard Girão, que à época, ele morava na Avenida do Imperador, defronte a garagem da São Jorge, e acordava com a barulheira em frente, que começava por volta das 4 da manhã. 

Os ônibus cumpriam um itinerário circular, refazendo os caminhos que até poucos meses antes, eram feitos pelos barulhentos tramways da Light. Uma dessas linhas mais afreguesadas, era o Circular Dom Manuel, quando essa avenida representava um dos pontos limítrofes da área urbana de Fortaleza. (O quadrilátero do chamado centro limitava-se ao norte pela Rua Dr. João Moreira, a leste pela citada Dom Manuel, ao sul pela Avenida Duque de Caxias e a oeste, Avenida do Imperador.

O conceito de distância era bem diferente do atual, posto que, quem mora atualmente na Dom Manuel não espera mais transporte para dirigir-se à Praça do Ferreira, distante apenas algumas quadras. Mas naquele ano remoto de 1947, a Dom Manuel era longe, e já não havia o bonde da Aldeota, com trajeto pela Santos Dumont, que atendia a todos que viviam naquelas imediações, nem também o da Prainha, a serviço das pessoas que se deslocavam para o Seminário e adjacências.

Nos Ônibus do Circular São Jorge pagava-se a passagem com direito a rodar todo o percurso, sem interrupção. Conta o memorialista que, por conta disso, um companheiro daqueles tempos, frequentador contumaz do Bar da Brahma as sábados, quando sentia que as pernas não lhe garantiam a locomoção, subia no Circular Dom Manuel e ia ficando até melhorar o pileque. 

Numa dessas ocasiões, dormiu profundamente. E o ônibus a rodar, no seu giro rotineiro. O trocador e o motorista, numa silenciosa homenagem ao rapaz – figura mais ou menos conhecida naquela linha – foram permitindo a sua permanência.
Em suma: o rapaz acordou de madrugada, em meio à escuridão da garagem, quando motoristas e trocadores estavam voltando para mais uma jornada de trabalho. Saiu de mansinho, cabeça baixa, no rumo de casa, onde a família o aguardava, aflita e preocupada com o seu “desaparecimento”.  



Fontes:
Fortaleza:  uma breve história, de Artur Bruno e Airton de Farias 
Sessão das Quatro – cenas e atores de um tempo mais feliz, de Blanchard Girão
FortalBus