segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Carvalho Motta, o homem por trás do Palacete



Antônio Frederico de Carvalho Motta nasceu em Granja, em 26 de março de 1856 e faleceu no Rio de Janeiro, no dia 2 de fevereiro de 1927. Filho do coronel Francisco de Carvalho Motta, iniciou-se no comércio em sua terra natal gerenciando a firma Carvalho Motta e Irmão. Mudou-se para Fortaleza provavelmente em 1927, e já desligado comercialmente do irmão, transferiu a sociedade nos negócios de Granja para um antigo auxiliar. 

Casado com Dona Regina Ribeiro Motta, teve 8 filhos: Waldemar, Artur, Anésia, Cleonice, Carmen, Alaíde e mais outros dois, falecidos na infância. Na Capital, a princípio integrado no comércio de exportação, passou a dedicar-se ao setor bancário, tornando-se diretor e depois presidente do Banco do Ceará.

Carvalho Motta era considerado homem de fino trato, um capitalista, e não um coronel do interior. Em Granja, onde havia exercido o comando do batalhão de infantaria da Guarda Nacional, já era considerado um exemplo de requintado comportamento social. Participava com destaque na sociedade e política cearense, figurando como deputado estadual pertencente à poderosa facção comandada pelo comendador Antônio Pinto Nogueira Accioly. Mantinha portanto, um relacionamento com a oligarquia, a qual, dominando o Ceará desde a proclamação da República, foi destituída pela rebelião popular de janeiro de 1912, ocasião em que Motta ocupou o cargo de 3° Presidente do Estado.
A construção original sem as ampliações  foto Revista do Instituto do Ceará

Em 1907, aos 50 anos de idade, se muda para o palacete que acabara de erguer no cruzamento das ruas General Sampaio com Pedro Pereira. A nova residência estava localizada no primeiro circuito periférico ao centro urbano, a dois passos da Praça Marquês de Herval, logradouro que havia sido ajardinado e urbanizado pelo intendente coronel Guilherme Rocha. Entre a praça e a casa, ocupando metade do quarteirão, localizava-se a sede do Batalhão de Segurança. Na outra metade da quadra, havia casas amplas, entre as quais a morada do poeta Juvenal Galeno.

Sede do Batalhão de Segurança - ao fundo, com janelas ovais, estava a residência do presidente Nogueira Accioly - foto Arquivo Nirez

É provável que antes de se mudar para o palacete, Carvalho Motta estivesse residindo numa casa térrea, na Rua Formosa, de sua propriedade. A então Rua Formosa, em particular nesse trecho no qual se levantavam os sobrados de maior porte, apresentava-se como a via mais elegante da cidade, embora alguns estabelecimentos comerciais já se misturassem as residências, prenunciando com grande antecipação o futuro tipo de ocupação da área. Carvalho Motta, ao procurar uma zona ainda não integrante do centro comercial da cidade para morar, percebia e prestigiava as alterações que estavam por vir no zoneamento urbano de Fortaleza.   

Inaugurado festivamente o palacete, no entanto, Carvalho Motta mal pôde desfrutá-lo, porque a 17 de fevereiro de 1908, faleceu sua filha caçula, a menina Alaíde, de 13 anos, vítima de apendicite. A menina faleceu às 10:30 horas e foi sepultada no mesmo dia às 17 horas, no Cemitério São João Batista. Tudo transcorrera com total surpresa, já que a doença acamara a menina por pouco tempo. Tendo em vista a elevada posição social de Carvalho Motta, pode-se avaliar a repercussão do desenlace, noticiado no órgão da imprensa governista, impregnado de referências sentimentais, tão ao gosto da época.

O duro golpe da perda da filha desnorteou Carvalho Motta que logo abandonou o palacete indo morar no Jacarecanga, na Rua Municipal (atual Guilherme Rocha). Após a deposição e renúncia de Nogueira Accioly, seguida renúncia de Graccho Cardoso, 1° vice-presidente do Estado e com a ausência de José Bastos, 2° vice-presidente, Carvalho Motta, na condição de 3° vice-presidente, assumiu a direção dos negócios do Estado, num dos momentos mais graves da história política cearense. Ficou à frente do governo do Ceará de 24 de janeiro a 12 de julho de 1912. 

Apesar de pertencer ao partido aciolino, o coronel Carvalho Motta era um espírito moderado, contra quem não havia animosidade pública. Pode assim, assumir o governo livremente, sem protestos ou manifestações contrárias. Com a eleição de Franco Rabello, empossado em 14 de julho de 1912, desmotivado e desiludido com a política, Carvalho Motta decidiu sair do Ceará. Pouco antes de se mudar, vendeu o palacete à Inspetoria de Obras contra as Secas que já o ocupava desde 1909.

O imóvel situado na Rua General Sampaio n° 94-B, foi vendido em 23 de maio de 1913 por 150 contos de réis, pagos a Carvalho Motta e sua mulher, pela Fazenda Nacional. De acordo com a respectiva escritura o terreno media 58 palmos por 250 palmos, isto é, 12,76 metros por 55 metros, medidas que não coincidiam exatamente com aquelas obtidas no levantamento gráfico executado pelo DNOCS.

No Rio de Janeiro onde passou a residir, Carvalho Motta construiu sua nova casa em Botafogo, na Rua Marquês de Olinda. Anos depois essa casa seria demolida e em seu lugar seriam erguidas as instalações da Editora José Olympio. Na Capital Federal, já idoso, Carvalho Motta foi atropelado por um automóvel, vindo a falecer em 3 de fevereiro de 1927.

O Palacete Carvalho Motta

O Palacete foi concluído em 1907 para abrigar a família do coronel Antônio Frederico de Carvalho Motta, situado na antiga Rua da Cadeia, atual General Sampaio, em terreno medindo cerca de 700 m². Possui estilo eclético, numa mistura de elementos neoclássicos e art nouveau. Tem dois andares com janelas e portas em arco batido.

foto dos anos 20, já ampliado pelo IFOCS - foto Revista do Instituto do Ceará

Erguido em gleba contígua ao centro urbano, voltava-se para uma rua valorizada pela passagem de uma linha de bondes à tração animal que demandava o arrabalde do Benfica. Distava apenas um quarteirão da Praça Marques do Herval. Em 1909 o solar foi alugado à Inspetoria de Obras Contra as Secas – IFOCS, à qual seria vendido em 1913. Reformado e ampliado por volta dos anos 1920, foram mantidos os seus traços gerais de forma a não transparecer as alterações a que foi submetido.

Anos 20 - Foto IPHAN

Ao longo dos anos o palacete abrigou as instalações da IFOCS, posteriormente DNOCS, vindo a ser desocupado, apenas, ao final da década de 70 com a construção da nova sede da Diretoria Regional do Ceará.

Em 1983, o imóvel foi restaurado com base em projeto elaborado pelo IPHAN, tendo por objetivo a instalação do Museu das Secas, o qual abrigaria o acervo da instituição. Sem a devida manutenção as instalações do denominado Museu das Secas que viria a ocupar uma área relativamente pequena do prédio, terminaria por não ter condições de atender ao público que buscava visitá-lo. O Museu das Secas sobreviveu entre 1985 e 2004.

Do tempo de funcionamento do Museu das Secas herdou todo o acervo do Dnocs. Lá, debaixo da poeira, servindo de pasto às traças e cupins, estão, por exemplo, os documentos do projeto e construção do Açude do Cedro, a primeira grande obra hídrica do Brasil, presente do imperador Pedro II ao Ceará.

Foto de 2014 - Fortaleza em Fotos

Com uma área construída total de 1.344,20 m², o Palacete Carvalho Motta está localizado no centro de Fortaleza no cruzamento das ruas General Sampaio e Pedro Pereira. Tombado pelo IPHAN em 19 de maio de 1983, o imóvel de 113 anos está fechado há quase 16 anos, sem utilidade, sem manutenção, sem nenhuma importância que justifique o investimento que a requalificação vai exigir.

Matéria publicada pelo jornal O Povo, em 2017, dá uma ideia da extensão da deterioração do imóvel nas dependências internas: prédio tem áreas sem eletricidade, alguns cômodos estão tomados por mal cheiro e as obras de arte que sobraram estão colocadas no chão. Revela ainda que as paredes têm manchas pretas e amarelas, marcas da deterioração. Em alguns pontos, a infiltração derrubou as camadas mais externas de tinta e reboco. 

Foto de 2014 - Fortaleza em Fotos

A falta de manutenção também enfraqueceu o teto de algumas salas. Há rombos pelos quais é possível ver a laje do primeiro andar. Devido à extensão dos cômodos, as lâmpadas são insuficientes para iluminar todo o Palacete. Do teto ao chão há teias de aranha que grudam naqueles que tentam caminhar pelo espaço. No centro do edifício, uma antiga cacimba foi tapada com restos de madeiras e pedaços de tábuas. Barras de ferro, tijolos e uma mesa quebrada impedem que as pessoas caiam no buraco.

O que se pode deduzir é que, como quase todos os tombamentos patrimoniais de Fortaleza, o Palacete Carvalho Motta é só mais um que está na fila do tombamento de fato, cujo processo, esse sim,  já se encontra bem adiantado. 


Fontes consultadas: 
O Palacete Carvalho Motta, de José Liberal de Castro. Disponível em https://www.institutodoceara.org.br/revista/Rev-apresentacao/RevPorAno/2013/03_art03.pdf

Degradado e fechado há 15 anos, Museu das Secas é candidato às chamas – disponível em https://www.focus.jor.br/

Fechado há 14 anos, Museu Das Secas padece com falta de manutenção. Disponível em https://www.opovo.com.br/jornal/vidaearte/2017/08  

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Os Pracinhas da FEB em Campanha na Itália


A 2ª. Guerra Mundial começou em 1939, quando a Alemanha nazista liderada por Adolf Hitler invadiu a Polônia. Para os Estados Unidos o início do conflito foi a 7 de dezembro de 1941, quando a Marinha Imperial Japonesa atacou a base americana de Pearl Harbor, localizada no Havaí.

antes de embarcarem, os pracinhas desfilaram na Rua Barão do Rio Branco, no centro de Fortaleza

Para o Brasil começou no dia 31 de agosto de 1942, quando Getúlio Vargas declarou guerra ao Eixo (formado por Alemanha, Itália e Japão), depois que submarinos alemães, objetivando acabar com as rotas comerciais marítimas que ligavam Brasil e Estados Unidos, atacaram e levaram a pique, diversos navios mercantes brasileiros. A partir de então o Brasil passou a fazer parte da guerra, mas antes de ir à luta, precisaria formar um exército, treiná-lo, armá-lo e mandá-lo para um front.

antes de embarcar para o front, os brasileiros precisaram passar por um treinamento militar nos moldes dos soldados norte-americanos. Em Fortaleza o treinamento foi no 23 BC

Ficou acertado que o Brasil enviaria três divisões de soldados, e tudo que envolvesse uniforme, armamento, treinamento, além do envio das tropas para o campo de batalha, seria de responsabilidade dos americanos já que eles estariam comandando as tropas brasileiras.

E começou o alistamento: sorteados e voluntários passariam por uma inspeção médica para avaliação das condições de saúde dos futuros combatentes. Dos 200 mil convocados, cerca de 60 mil deveriam estar aptos. Das exigências básicas para seleção estavam: pesar mais de 60 kg, altura mínima de 1,60 m e ter no mínimo 26 dentes.

A Força Expedicionária Brasileira e a divisão da força aérea, combateram na Itália sobre os Apeninos Tosco-Emilianos. Os sucessos mais significativos foram a conquista de Monte Castello, no território Bolonhês de Gaggio Montano, a libertação de Montese e a captura entre Solecchio e Fornovo na província de Parma, da 148ª divisão alemã.

O maior número de perdas aconteceu em Montese e Monte Castello. A FEB era comandada pelo general João Batista Mascarenhas de Moraes e foi agregada ao 5º exército americano comandado pelo general Mark W. Clark. Contava com 25.334 homens, dos quais 15.069 participaram ativamente dos combates. Chegaram à Itália, no dia 16 de julho de 1944.

Depois de ocuparem algumas localidades na zona de Camaiore, os brasileiros que começaram como força auxiliar ou de apoio, foram designados, em novembro do mesmo ano, para um novo setor de guerra, o vale do Rio Reno, encontrando-se na linha de frente. Monte Castello que se encontrava sob domínio alemão, resistiu a quatro ataques das forças aliadas e foi conquistado pelos brasileiros, no dia 21 de fevereiro de 1945. No dia anterior, os homens da 10ª divisão de montanha haviam expulsado os alemães do vizinho e mais importante monte, o Belvedere. Tomada a encosta, os aliados pararam o avanço.

Do alto daquelas montanhas controlavam parte do vale do rio Reno e parte do vale do rio Panaro. A vizinha Montese cuja montanha Montello ao norte declinava velozmente de encontro à planície com as cidades de Modena e Bologna estavam nas mãos dos alemães. O ataque a este centro, que era mais uma “cidade fantasma” porque a população fora deslocada para outros locais, aconteceu no dia 14 de abril. Na madrugada daquele dia iniciaram intensos bombardeios. Era o prelúdio de um ataque que se iniciou as 13:30hs. Com pouco menos de duas horas do início da batalha, os soldados brasileiros entraram na cidade de Montese.

Naquele momento o principal objetivo era a conquista das vizinhas elevações ao norte, montes Buffone e Montello. Passaram outros três dias de luta, com dezenas de mortos de ambas as partes. Na noite entre os dias 18 e 19, os alemães se retiraram. O cume do Monte Buffone tornou-se terra de ninguém e Montello nunca foi conquistado pelos aliados.

Na Itália, o comandante da tropa, general Mark Clark e o comandante da FEB, general Mascarenhas de Moraes

Em 21 de abril, os soldados da FEB conquistaram Zocca e prosseguiram para Vignola, Maranello, Sassuolo, Scandiano, e Montecchio. Chegaram às colinas da região de Parma antes da Planície do rio Pó. De 26 a 30 de abril, entre Colecchio e Fornovo, bloquearam a estrada onde se encontravam unidades alemãs pertencentes a 148° divisão, que foram atacados pelos flancos, pela resistência que descia os montes rumo ao norte.

Juntamente com as tropas entregaram-se o general Otto Fretter Pico, comandante da 148° Divisão e o general Mario Carloni, comandante da divisão da República Social Italiana. Em rápida marcha, a FEB prosseguiu rumo a Placenza e Alessandria. Alguns grupos chegaram à fronteira com a França.

Ao final de 239 dias de campanha na Itália, as tropas brasileiras registraram 465 mortos, 2.722 feridos, 35 prisioneiros e 16 desaparecidos; capturaram 20.573 homens. Montese foi um dos municípios pertencentes a província de Modena, a mais devastada durante a guerra, com 833 casas destruídas das 1.121 existentes, 189 civis mortos, além de 700 feridos ou mutilados em explosões de minas e outros tipos de armas bélicas.

pracinha Sebastião Alves do Prado, em seu uniforme da FEB, na Itália em 1945. Participou ativamente da Batalha do Montese. Retornou ao Brasil logo depois do fim do conflito.

De volta ao Brasil, os combatentes foram recebidos com honras e homenagens. Passada a euforia pela volta, os agora ex-soldados queriam retomar suas vidas, seguir em seus empregos de antes, voltar às suas rotinas. Porém, participar de uma guerra não é um fardo leve para muitos homens, e logo surgiram problemas como dificuldades de relacionamento não só no seio da família, mas também em sociedade.

Ao contrário de outras nações aliadas, as autoridades brasileiras não se planejaram para dar assistência e trabalho aos ex-combatentes. Os que eram militares de carreira sofreram algumas dificuldades de adaptação, mas retomaram seus cargos e patentes, com todos os direitos e benefícios que a carreira militar assegurava.

Quanto aos expedicionários civis o tratamento dispensado foi outro: apenas promoveram a dissolução e desmobilização das unidades, e deixaram os homens sem trabalho, sem assistência médica ou psicológica, com as famílias desestruturadas. Foram abandonados pelo governo. Muitos anos após a volta para casa é que conseguiram direito a uma pensão que pode ser estendida aos herdeiros. 


De acordo com dados fornecidos pela Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira – ANVFEB – Regional de Fortaleza, o efetivo da FEB foi de 25.334 homens do Exército e da Aeronáutica. Desse total morreram 465 entre oficiais e praças, dentre estes seis cearenses: 

Hermínio Aurélio Sampaio, 2° sargento do Exército, natural de Crateús. Faleceu no dia 12 de dezembro de 1944, na batalha de Monte Castello. 

Francisco Firmino Pinho, 2º sargento do Exército, natural de Quixeramobim. Faleceu no dia 11 de novembro de 1944, na localidade de Valdidura. 

Edson Sales de Oliveira, 3° sargento do exército, natural de Jaguaruana. Faleceu no dia 14 de abril de 1945, na batalha de Montese. 

Francisco de Castro, 3º sargento do Exército natural do antigo Distrito de São Bento, hoje município de Amontada. Faleceu no dia 22 de abril de 1945 em ação de combate no povoado de Zocca. 

João Custódio Sampaio, soldado do Exército, natural de Caucaia. Faleceu no dia 22 de maio de 1945, em Parola, 20 dias depois do término da guerra para os brasileiros na Itália. 

Cloves da Cunha Pais de Castro, soldado do exército, natural de Assaré. Faleceu em ação de combate, no dia 24 de janeiro de 1945, próximo a Vastelnuovo quando participava de uma patrulha de reconhecimento de posições nazistas. Foi enterrado em cova rasa pelos alemães, junto a outros dois companheiros.  



Fontes:
Ximenes, Raimundo Nonato. De Pirocaia a Montese: fragmentos históricos. Fortaleza: 2004. 388p.
Soldados do Vale: a história de homens do interior do Ceará que lutaram na Segunda Guerra Mundial. Autor Antônio Marloves Gomes Vieira Júnior. Disponível em >http://uece.br/eventos/eehce2014/anais/trabalhos_completos/103-9148-30072014-205757.pdf< consulta em 06/11/2019
fotos do livro "De Pirocaia a Montese e sites da Internet 


sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Histórias não Contadas dos Americanos no Ceará


Decorridos 74 anos do fim da segunda Guerra Mundial (1939-1945) ainda permanecem em segredo alguns aspectos do conflito, embora a grande maioria de suas causas e efeitos sejam do conhecimento público, uma vez que os prazos para manutenção do sigilo estejam vencidos, mas nem tudo foi suficientemente esclarecido,  como por exemplo, a presença de uma guarnição americana em Fortaleza.

Base Aérea do Cocorote

Dados não oficiais indicam que passaram em operação pelo aeroporto do Cocorote durante a guerra, cerca de 50 mil aviões dos mais variados tipos e tamanhos e aproximadamente 250 mil soldados americanos. Os vestígios da passagem desse contingente são mínimos, quase nenhum, estando apenas na memória daqueles que de uma forma ou de outra, estiveram próximos das ações.

As provas documentais sobre o que faziam, o que fizeram, quando chegaram, quantos eram, quando saíram e o que deixaram, são igualmente desconhecidas. Não se sabe quem era seu comandante (ou comandantes), permitindo por isso, eventuais deslizes, versões deturpadas ou fantasiosas. Não se tem notícias, por mais breves que sejam, de documentação norte-americana. O pouco que sobrou como fontes primárias faz parte apenas da presença brasileira no conflito.

Festa dos soldados americanos no Estoril/USO - dançando com as Coca-Colas

De certeza, sabe-se apenas que os primeiros americanos que chegaram ao Ceará desembarcaram na pista da Base Aérea construída na década de 1930, entre março e abril de 1940, com o objetivo de encontrar uma área que lhes permitissem construir uma pista para pousos e decolagens.

Nos arquivos da antiga Rede de Viação Cearense existem registros indicando que o ramal Mucuripe-Parangaba foi construído entre fins de 1940, início de 1941 e inaugurado às 17 horas do dia 28 de janeiro de 1941, pelo interventor Menezes Pimentel, em plena guerra.

De concreto sobre a presença americana em Fortaleza no tempo da guerra sabe-se apenas que eles construíram duas bases aéreas, uma no Pici, e outra no Cocorote, para dar sustentação ao seu plano de vigilância e proteção aos navios civis e militares brasileiros e aos aliados nesta parte do Atlântico, uma vez que as forças do Eixo estavam posicionadas nesta direção.

Vista áerea do bairro do Pici em 1972 - imagem Prefeitura de Fortaleza

A base do Pici, construída no segundo semestre de 1941, em 45 dias, foi usada por pouco tempo porque era difícil a chegada de combustível para seus aviões e para os seus tanques. Do ponto de vista aeronáutico, não oferecia boas condições para pousos e decolagens. Foi transformada então, em base de estacionamento dos Blimps.

Para o funcionamento dessas duas bases, existiu uma terceira, uma base naval, uma área de apoio para recebimento de combustível e um cais, localizado no interior da enseada do Mucuripe. Contam os mais velhos que, além dos depósitos para acumular combustíveis, havia edificações administrativas para guardar armamentos e munições. Das duas bases existem alguns poucos resquícios, mas nem tudo que veio dos Estados Unidos para movimentá-las, retornou.

Há informações de centenas de máquinas de escrever e de aparelhos de comunicação (precursores do telex) enterrados até hoje, em fossas localizadas no interior da Base Aérea de Fortaleza. Do pacote enterrado, também faziam parte armamentos, motores e peças de reposição para aviões.  Em face da ausência de documentos comprobatórios, tais notícias ficam na conta das especulações, dos boatos não comprovados. Mas há quem assegure tais informações com extrema convicção.


Porto do Mucuripe no início dos anos 40 - Na área assinalada ficavam os galpões e os tanques de combustível para abastecer os veículos americanos 

Porto do Mucuripe anos 40/50 imagem IBGE

Em fins de 1940 o Porto do Mucuripe já contabilizava a presença sempre crescente de navios em seu cais comercial. Ao seu lado, apenas meia dúzia de casas de palhas e dunas de areias alvíssimas, muitos coqueiros e cajueiros. Seus poucos moradores, sobreviviam exclusivamente da pesca, que era farta e diversificada. Na atual avenida Beira-Mar já existiam algumas casas de pescadores, a igrejinha de São Pedro e uma grande quantidade de pedras na sua frente, onde os moradores se encontravam e se divertiam.

Mucuripe final dos anos 30

Enquanto isso, os soldados e oficiais americanos trabalhavam freneticamente na Ponta do Mucuripe, dando suporte às duas bases aéreas de apoio, localizadas no Pici e no Cocorote. Exerciam uma função estratégica: eram responsáveis pelo recebimento, armazenamento e distribuição de combustível para seus veículos e aviões nas duas unidades, cujo transporte se fazia em tambores lacrados de 200 litros, colocados nas carrocerias dos caminhões ou nos vagões da RVC - Rede de Viação Cearense, para o Cocorote.

Até o desembarque do primeiro americano em Fortaleza, os trens da RVC corriam apenas em duas direções: da Praça Castro Carreira em direção a pedreira da Monguba, em Pacatuba fazendo paradas em Otávio Bonfim, Couto Fernandes, Parangaba, Mondubim, Pajuçara e Maracanaú, e do Mucuripe, pela beira da praia. Existia até uma locomotiva para as “obras do porto do Mucuripe”.

Os americanos construíram em tempo recorde um pequeno cais medindo entre 80 e 100 m de comprimento, para receber material e combustível para abastecimento dos aviões. Os navios de maior porte ficavam ancorados no meio da enseada, de onde através de uma operação precisa, colocavam os tambores em chatas motorizadas, que os levavam até o cais. Os menores, os petroleiros, atracavam sem problemas. Testemunhas relatam que eles trabalhavam dia e noite, retirando tambores de óleo e gasolina, transportando-os para os tanques instalados na base onde depois foi instalado a Lubnor.

Ramal Ferroviário Parangaba-Mucuripe - imagem IBGE

Desse cais que hoje está soterrado, bem como da pequena estrada de asfalto que dava acesso aos depósitos, não existe mais nem sinal. Ambos eram vigiados por homens armados de metralhadoras. Depois da guerra esses tanques passaram para a Esso e esta para a Petrobrás.  Centenas de tambores ainda com gasolina foram distribuídos entre as empresas americanas instaladas no Mucuripe, visto que não era negócio levá-los de volta, para os Estados Unidos.

Um antigo funcionário da Lubnor e professor de História, relatou que a gasolina azul, que chegava para os americanos, era procedente de uma base americana instalada em Aruba. Sobre os vestígios dessa unidade, ele lembra de tê-los visto “próximos da bacia de decantação do tanque F-201 para o lado da estação, onde se fazia a mistura de diluente com asfalto. Se não as derrubaram, ainda estão lá”. 

No período da 2ª Guerra, o Brasil se encontrava sob a ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945). Com o golpe do Estado Novo, as Casas Legislativas foram fechadas; o Governo Federal escolhia os governadores do Estado, e estes, nomeavam os prefeitos. No Ceará estavam no comando o Interventor Menezes Pimentel (1935-1945), e o chefe da municipalidade era o prefeito Raimundo de Alencar Araripe (1936-1945). Ambos foram eleitos pelo voto popular, e após o golpe de 1937, foram mantidos nos cargos por Getúlio Vargas.
   
O governo de Menezes Pimentel, seguindo uma tendência (orientação) do que ocorria a nível nacional, foi marcado pelo autoritarismo, perseguição aos adversários políticos, destituição de prefeitos e funcionários públicos que não apoiassem o seu grupo político. Cerca de duas mil pessoas foram presas em Fortaleza neste período. E a transparência não fazia parte desse governo.

É possível que as autoridades norte-americanas tenham prestado todas as informações cabíveis, acerca de suas operações na cidade; é possível que os governantes locais soubessem quem estava no comando das ações americanas; é possível até que interagissem com os estrangeiros. Mas, devido a natureza singular da situação – guerra mundial – ditadura local – pode ser que essas autoridades tenham julgado conveniente manter-se calados com relação aos detalhes, mesmo depois de passado o prazo para guarda do sigilo. Ou talvez não tenha mesmo documentação alguma, eles vieram e se foram sem se reportar a ninguém; Seja como for, ainda há muitas respostas que não foram dadas e muitas perguntas que não foram feitas.

Fontes: 
Caravelas, Jangadas e Navios, uma história portuária de Rodolfo Espínola
História do Ceará, de Airton de Farias
O Povo
Fotos do livro Caravelas, Jangadas e Navios