quarta-feira, 10 de agosto de 2016

No escurinho do cinema (Memórias da Fortaleza dos anos 50)

O cine São Luiz completou 50 anos no dia 26 de março de 2008. Estava com 15 anos quando o São Luiz abriu suas portas. Grande expectativa. A construção durou 20 anos. Foi interrompida por causa da guerra. A obra foi retomada em 1952 e concluída em 1958.

O cinema, criado pelo arquiteto Humberto da Justa Menescal, surgiu no coração de Fortaleza todo em mármore e com lustres tchecos iluminando a sala de espera. A imensa sala de exibição, com mil e duzentas poltronas e uma decoração exuberante, ganhou logo um apelido do “Ceará moleque”: Bolo Confeitado.


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Fortaleza, na época com 500 mil habitantes, parou. As pessoas saíram de casa, lotaram os ônibus, foram ver a festa de inauguração. O Pedão, no Abrigo Central, nunca vendeu tanto sanduíche de carne moída e coentro com abacatada. O Pega-Pinto do Mundico teve que colocar mais água no aluá para atender tanta gente. A Leão do Sul, do seu Dimas, pai do Pedro Jorge, não parou de vender caldo de cana com pastel à noite toda. Uma Banda de Música tocava em frente ao São Luiz. A rua, fechada para os automóveis, foi ocupada por uma multidão que queria ver a chegada dos mil e duzentos convidados. Era o sereno.


Na noite de gala foi exibido o filme "Anastácia, a Princesa Esquecida". Dirigido por Anatole Litvak, tinha como estrela a sueca Ingrid Bergman. O cinófilo Jose Augusto Lopes contou, em matéria no Diário do Nordeste, que o filme mostrava a história de uma sobrevivente do massacre de 1917 contra a família do Czar russo.

A praça do Ferreira, que já era famosa pelo seu ventinho que levantava a saia das meninas, ganhava nova atração graças a Luiz Severino Ribeiro. Este filho de Baturité era dono da maior rede de cinemas do país. Só no centro de Fortaleza ele tinha o Diogo, o Majestic, e o Moderno. Acho que o Rex, Nazaré e outros mais populares também pertenciam a ele.

O Majestic era imenso. Tinha o formato de um teatro, com vários andares e geral lá em cima. A entrada para a geral, que tinha o preço mais barato, era por uma porta independente. O pessoal era obrigado a deixar os tamancos na entrada para não fazer barulho no piso de madeira. Na volta, os mais sabidos trocavam seus tamancos velhos por pares mais novos. A grande confusão que se criava só parava com a chegada da polícia. O Moderno, tinha a tela virada para a entrada. O Diogo, na Barão do Rio Branco, até então era o melhor e passou a ser o segundo da cidade depois da abertura do São Luiz.


O jornalista Lustosa da Costa tinha por habito almoçar na Loja de Variedades, aquela que tinha entradas pelas ruas Major Facundo e Barão do Rio Branco. Era o primeiro “self-service” da cidade. Depois ia cochilar no cine Diogo, que tinha mil lugares. Muita gente passou a fazer a mesma coisa no São Luiz, que tinha um sistema de ar condicionado muito mais possante.

Geralmente, nos dias da semana, à tarde, os 1.200 lugares do cinema nunca estavam ocupados. Muitos jornalistas, que naquele tempo cobriam a Assembleia Legislativa, almoçavam no restaurante do Alfredo, que ficava entre a AL e a praça do Ferreira, e depois iam fazer a sesta no cinema. Alguns deputados também aderiam ao conforto das poltronas e roncavam, embalados pela música do filme que estivesse em cartaz. 


Com o paletó no braço, gravata no bolso, eu costumava pegar o Circular 24 ou 25 da empresa São Jorge. Naquele tempo, na minha rua, só o engenheiro José Lino da Silveira, o advogado Aldy Mentor e o médico Mário Mamede tinham automóveis. O ônibus passava em frente minha casa, na Avenida Padre Ibiapina e me deixava no Abrigo Central. Lá mesmo colocava a gravata, vestia o paletó e ia, animadamente, pegar a fila. Ninguém reclama da demora. Um dia, a namorada do Chico Moura, a Norma, desmaiou na fila.

Uma amiga ainda lembra a tensão que vivia nas filas do São Luiz. Era uma coisa tão marcante que chegou a ter pesadelos. Sonhava que estava na fila, sem calcinha maliciosa. Não era difícil se ouvir o grito de uma mulher reclamando de algum engraçadinho que se aproveitava da confusão da fila para tirar casquinha. Um dia prenderam um tarado que se exibia para uma freira que enfrentava a fila para assistir Marcelino, Pão e Vinho.

O Cine São Luiz tinha algo além do conforto. As superproduções como "Trapézio", "Nunca é Tarde para Esquecer", "Sansão e Dalila", eram exibidas em tela panorâmica. O som estereofônico eletrizava o ambiente, aproximando os casais de namorados e inspirando os gaiatos que faziam piadas em voz alta para alegria da galera. Faz lembrar a Rita Lee com a sua música “No escurinho do cinema....”

A exigência de paletó fez surgir um comércio de aluguel. Os caras guardavam o paletó no Café Cearazinho, na Guilherme Rocha. Reza a lenda da Praça do Ferreira que ganharam muita grana alugando paletó para quem decidia, de última hora, ir ao cinema.
Os lanterninhas do São Luiz estavam atentos para evitar excessos. Um dia, o jornalista Silvio Leite, assim que acabou o filme, resolveu tirar o paletó, os lanterninhas chegaram junto para obrigá-lo a vestir. Silvio, irreverente, perguntou o que eles fariam se ele não colocasse o paletó.
- Você será expulso do cinema - vociferaram.
- Então, me expulsem.

Ora, como todo mundo já estava de saída mesmo, teria sido apenas cômico se os lanternas não tivessem partido para obrigar o jornalista a vestir o paletó. E ele acabou saindo, sem vestir o paletó. Não esqueço a Polícia Estadual, na entrada do cinema, pedindo documento para descobrir falso estudante pagando meia ou menor de idade tentando ver filme impróprio. Sonhava em ser um deles para me exibir para as meninas.

O progresso sempre chega acabando com o tradicional. Descentralizou o comércio. Os bairros ganharam shoppings, os shoppings abriram praças de alimentação, salas de exibição. Ao mesmo tempo, a televisão foi conquistando cada vez mais espaço e tempo das pessoas, provocando uma mudança de habito que afetou a vida das cidades.


A sessão das 21h30, nas noites de domingo, verdadeiro desfile de moda parece coisa de ficção. Há cinquenta e oito anos, homens de terno, mulheres com os últimos lançamentos da moda, usavam a fila do São Luiz como passarela, O povão, em frente, elogiando, criticando, aplaudindo e vaiando. O São Luiz faz parte do patrimônio histórico do Ceará e suas histórias estão tombadas também, em nossa memória.


Memórias de autoria do jornalista Wilson Ibiapina
Disponível em http://www.casadoceara.org.br/index.php?arquivo=pages/blog/perfil_wilson/e0508.php
fotos do arquivo Nirez e do Anuário do Ceará


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A Imprensa Partidária

Na primeira metade do século XIX os engenhos movidos a tração animal para aproveitamento da cana, oficinas com teares ou para o preparo da carne eram as atividades manufatureiras que funcionavam no Ceará. A única atividade a empregar maquinário e desenvolver uma produção regular é a composição e impressão nas tipografias.

Somente com a intensificação das relações sociais, comerciais e culturais em Fortaleza na segunda metade do século, que os jornais vão ganhar vida mais longa. A Vila, já transformada em capital da província, experimenta uma infraestrutura mais moderna. Mantém contatos com os portos estrangeiros a partir da exportação de algodão. Fomenta a circulação de ideias e supera o relativo isolamento, repercutindo no crescimento da imprensa. Os jornais de facções partidárias começam a ser impressos, seguidos de outros periódicos, panfletos, revistas e folhas literárias de jovens intelectuais.

As gazetas e revistas cumpriram destacado papel na difusão das ideias nas últimas décadas do século XIX ampliaram o número de leitores, tornaram possível o acesso a lista e extratos de obras e a divulgação de livros editados no exterior. O período fica marcado pela efervescência jornalística. Um desses jornais foi o Jornal do Ceará.

Jornal do Ceará

O Jornal do Ceará era dirigido por Agapito Jorge dos Santos, onde o poeta Américo Facó escrevia uma seção diária com o título “Olho da rua”, que intrigava a toda gente. O jornal fazia oposição ao governo de Nogueira Accioly e publicava, de vez em quando, uma famosa poesia contra o velho Accioly, que terminava assim:

“hei de açoitar-te a cara branca
Como se açoita a anca
Dum mau cavalo, para pô-lo a trote”.

O resultado disso foi terrível: ao entardecer do dia 21 de dezembro de 1907, dois soldados de polícia à paisana, deram uma violenta surra no poeta, nas imediações da praça Marquês de Herval (atual José de Alencar). Salvou-lhe talvez a vida, a interferência do Capitão do Exército Castelo Branco, morador das proximidades, que foi atraído pelos gritos. 

Após deixar o hospital, Américo Facó retirou-se para o interior; reapareceu no carnaval de 1908, em Fortaleza nas batalhas de confetes da Praça do Ferreira, usando barbas. Os estudantes que haviam se indignado com a violência oficial, estavam certos que o agredido tomaria alguma atitude, mas tiveram uma grande decepção. Facó deixou a cidade e o emprego no Jornal do Ceará, sendo substituído por Gustavo Barroso.

Depois de deposto, Nogueira Accioly (de cartola) deixa Fortaleza em um bote que o levará ao navio rumo ao Rio de Janeiro 

No dia da posse de Accioly, reeleito Presidente do Ceará, a 12 de julho de 1908, a polícia agredira cruelmente, abandonando como morto no bairro do Outeiro (atual Aldeota), o gerente do jornal do Ceará, Antônio Clementino de Oliveira. Em 1912, quando o Presidente, deposto pelo povo de Fortaleza, rumava para o Rio de Janeiro com sua família, num paquete do Loyd, o gerente do jornal foi a bordo, no porto de Natal, tentar uma desforra. Morreu no confronto mais assassinou o filho de Accioly, Antônio Pinto Nogueira Accioly Filho. Ainda assim, Nogueira Accioly chega ao Rio, onde residiu até falecer em 14 de abril de 1921.  

fontes:
O Consulado da China, de Gustavo Barroso
Revista Fortaleza - fascículo 11- jun/2006     


sábado, 30 de julho de 2016

Enterros em tempos antigos

Até 1848 aqui em Fortaleza, se faziam os sepultamentos nas igrejas ou nos seus arredores; as lápides funerárias, que antigamente podiam ser vistas nas paredes do Rosário e da demolida Igreja de São José (antiga Sé), bem como as ossadas encontradas nas reformas da Igreja do Rosário, são os atestados deste costume, que de resto, era seguido em todo o Brasil.


Padre Mororó, Pessoa Anta, Carapinima e a escrava Bonifácia, executados no Passeio Público, foram sepultados na antiga Sé, que ainda servia de cemitério em 1845.Ainda existe até hoje na Igreja do Rosário, cobertos pelo assoalho, os compartimentos regulares que serviam de sepultura, e é tradição que a esposa do presidente Morais Sarmento ali tivera um desmaio, em consequência de exalações cadavéricas.

Por esse motivo aquele presidente resolvera fundar o cemitério do Croatá, para onde passaram os enterramentos em 1848. Tal decisão foi recebida como falta de religiosidade. Os sepultamentos se faziam à noite e os convidados levavam velas acesas, protegendo-as contra o vento com lanternas de papel.  Eram lúgubres essas cerimônias noturnas, mas não tanto quanto as célebres procissões de penitentes, que desde 1850, deixaram de ser realizadas.


Local onde foi construído o Cemitério do Croata (ou São Casimiro). Depois que o cemitério foi desativado, construíram a Estação Central da Estrada de Ferro Baturité. 

Saíam alta noite, e de uma delas se contava que, ao recolher ao Rosário, alguns penitentes se deitaram no chão, em frente a porta da igreja, formando uma espécie de esteira, para que os outros, entrando no templo, os pisassem.

Os rituais que antecediam o sepultamento eram igualmente sombrios. Ministrava-se a o Sacramento ao moribundo, com um cerimonial caído em desuso por volta do final do século XIX. O Cura da Sé era chamado, e logo em seguida, os sinos da Sé começavam a tocar. A Irmandade do Santíssimo Sacramento buscava as opas encarnadas e atendia ao apelo, qualquer que fosse a hora.

A Igreja do Rosário era inicialmente o espaço dos escravos. Depois passou a ser frequentada por todos. Muitos foram sepultados no piso do templo.

À irmandade seguia-se o Cura, que debaixo de um pálio trazia os objetos próprios para a ocasião, seguido do povo, que sempre acompanhava o Santíssimo, cantava um bendito especial. O Santíssimo nunca voltava pelo mesmo caminho por onde tivesse ido visitar um moribundo, era costume.

Assim que se verificava o óbito, os sinos da Matriz tocavam a finados e a cidade inteira sabia de pronto, quem era que já estava com Deus. Os sinos pelos falecidos foram abolidos em 1878, para que não se afligisse mais a população, já torturada por tanta seca, tanta epidemia e tantas mortes.

O velório era em casa, geralmente na sala principal, sem o aparato de funerárias. Marcava-se a porta do morto com um largo pano preto, que tinha ao centro uma grande cruz amarela; os convites para o enterro que se adquiriam na Livraria Oliveira eram impressos em larga folha de papel tarjado com figuras e dizeres de acordo com a situação. Em baixo da página via-se um cemitério e uma sepultura com o texto – aqui jaz – e ao lado, um homem e uma mulher ajoelhados.

Os enterros eram verdadeiras procissões, que se estendiam por mais de um quarteirão. Abria o cortejo uma cruz negra com franjas douradas; as Irmandades marchavam em longas filas, solene e silenciosamente. Precedido pelo pároco da Sé, vinha o féretro, levado por quatro empregados da Misericórdia, vestidos de preto, com cartolas de oleado reluzente, casacas e calças debruadas de amarelo.

O caixão era colocado sobre duas travessas, cujas pontas repousavam sobre largas correias, que os condutores traziam a tiracolo. Eram estes os “gatos pingados”, pobres homens ridicularizados que, aliás prestavam um grande serviço aos vivos e mortos, posto que não era pequeno o esforço de percorrer dois ou mais quilômetros em marcha lenta, carregando peso, vestidos como iam, e as vezes, sob um sol escaldante. (Depois da inauguração do cemitério, os sepultamentos passaram a ser feitos durante o dia).


O Cemitério de São João Batista foi inaugurado em 1866, mesmo inacabado (seria concluído em 1880), para ali sendo removidos alguns mortos do Croatá. (foto Diário do Nordeste)

Vestidos de luto, parentes e amigos acompanhavam; se fosse pessoa de posses ou a posição social do morto permitisse, uma banda de música acompanhava o cortejo, o qual ao se aproximar da Sé, era recebido com sinos sobrados ou singelos.  Até a catedral todos iam descobertos, mas daí até o cemitério, todos se cobriam porque o corpo já estava encomendado.

Após o percurso de 1300 metros, pela Rua das Flores (atual Castro e Silva), ali se chegava esbaforido, mas de tal caminhada ninguém se queixava, dado o sentimento da ocasião. Na verdade, era um sacrifício para um homem, ir da matriz ao cemitério, vestido de preto, sol das 4 horas pela frente, sobre um péssimo calçamento.


O cortejo saía da Igreja da Sé, percorria a Rua das Flores a pé, por cerca de 1300 metros até a entrada do Cemitério de São João Batista.

As visitas de pêsames eram uma tortura, especialmente para as viúvas que, em exposição nas suas salas, tinham que repetir exaustivamente aos visitantes, o histórico da doença e como se deu o desenlace. 

Os alunos do Seminário da Prainha acompanhavam os enterros dos padres, e numerosos soldados com suas espingardas de boca para baixo, seguiam, compassadamente, os enterros de oficiais ou de seus companheiros de farda.

Em contrapartida a toda essa liturgia dos adultos, eram alegres e risonhos os enterros de anjinhos; os sinos da Sé repicavam festivamente e a família do anjinho convidava quantos meninos pudessem para acompanhar a saída. Não havia encomendação do corpo; saiam direto para o cemitério, num alegre bando, não raro acompanhado por músicos que tocavam, durante o trajeto algumas peças alegres.


Em “A Normalista” de Adolfo Caminha, o autor descreve o enterro do presidente do Estado, personagem inspirado no governador Antônio Caio da Silva Prado, nomeado presidente da província do Ceará por carta imperial de 25 de março de 1888. Nascido em São Paulo, de família rica e tradicional, irmão do renomado escritor Eduardo Prado, foi educado na Europa, cursou Engenharia na França e formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo. Caio Prado assumiu o governo do Ceará em 21 de abril de 1888, cercado de admiradores e elogios de simpatizantes. No entanto, ao tomar posse no cargo, revelou todo o seu despreparo e desconhecimento de como lidar com os problemas que assolavam o Ceará, e com os quais nunca convivera.
No seu governo, o Ceará enfrentava mais um período de secas, e para completar a tragédia da falta de chuvas, proliferou-se uma violenta epidemia de febre amarela, agravando o quadro de miséria para milhares de pessoas. Com a epidemia instalada no Estado, o próprio presidente foi uma das vítimas; acometido da doença, faleceu em 25 de maio de 1889. Caio Prado foi sepultado no Cemitério de São João Batista. 

Governador Caio Prado em tela de Pedro Américo (1889) acervo do MASP.


“ O enterro do presidente passava na esquina, caminho do cemitério. Maria do Carmo assistia com a respiração suspensa e um nó na garganta o desfilar do préstito, o caixão levado por seis homens de preto, cobertos de galões dourados, debaixo da chuva miúda, o acompanhamento – uma comparsaria dispersa de gente de todas as classes de chapéu-de-chuva aberto, marchando resignadamente ao som da música do batalhão, que tocava à funeral.Os padres já tinham passado, na frente com seus acólitos, muito graves, olhando para o chão evitando as poças d’água. Um carro seguia atrás, todo fechado, devagar. E a chuva a cair e a música a tocar o funeral, deixando por onde passava uma tristeza vaga, que lembrava um dia de finados entre sepulturas...." (Pag.115/116).


Fontes:
Fortaleza Velha, de João Nogueira
A Normalista, de Adolfo Caminha
fotos arquivo Nirez, wikipedia, DN

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A Vida Cotidiana na Vila de Fortaleza

Nos seus primórdios Fortaleza era uma terra afastada do reino, vista com reservas pelos homens de maior poder econômico. Um lugar inóspito, sujeito a reveses climáticos, como as secas periódicas e onde os colonos estavam expostos aos ataques de índios ostensivamente hostis aos portugueses. 

Barra do Ceará - desenho de Franz Post, 1645 

O período anterior à emancipação da vila, permite elucidar não somente o lento processo de ocupação dessas terras, como também os desafios enfrentados nas paragens distantes da colônia portuguesa. Amplo espaço, população rarefeita, fauna e flora desconhecidas, extrema sujeição ás intempéries, dificuldade de transporte, comunicação incerta e morosa com os principais núcleos da administração colonial, são alguns dos aspectos que marcaram as condições em que viviam os contingentes que vieram à Capitania do Ceará nos séculos XVII e XVIII.

O cotidiano daqueles primeiros colonos, em sua maioria soldados da guarnição, era marcado pela rusticidade do meio, a instabilidade dos assentamentos e a dura obtenção da subsistência. Além da caça e da pesca e coleta de frutas, os pioneiros plantavam roçados de milho e feijão, criavam animais de pequeno porte e aprendiam com os nativos o emprego de certos recursos da natureza tropical, notadamente ervas medicinais, buscando fazer frente a enfermidades, venenos e peçonhas, desconhecidas em terras europeias.

Nas modestas casas de farinha e nos engenhos se beneficiava a mandioca e a exígua cana-de-açúcar era usada no fabrico de rapadura, que em 1783 o governador Montauri,(João Baptista de Azevedo Coutinho de Montauri/1780-1789),  pouco afeito as iguarias locais, descreveria como “uns pães de um açúcar muito mascavado e de ínfima qualidade, mais para incitar o nojo, que de servir ao paladar”. 

As habitações eram em sua maioria, de chão batido, feitas de taipa e cobertas de palha, com madeiramento extraído da carnaúba, atestando a grande simplicidade do padrão das construções e a falta de acesso a materiais duradouros, como pedra, telha e tijolo.

A vila era um lugar pobre. No século XVIII um viajante mais desavisado encontraria dificuldades para pisar na nossa Vila. Se viesse por mar, que era o mais comum, teria que encarar as dificuldades imediatas do porto de desembarque, à época, localizado na Prainha. A embarcação ancorava a uma distância considerável, depois o viajante descia para um paquete menor que o conduzia para o mais próximo possível da praia. Então, vinham dois escravos altos e fortes, com uma cadeira sobre os ombros; o viajante sentava na cadeira e era transportado pelos cativos, desviando das ondas mais rebeldes.

Praia de Iracema - final do séc. XIX

Para alcançar a parte alta da Vila, onde ficava a fortaleza e as principais construções, o viajante tinha que subir por um caminho arenoso – já que a vila ainda não era pavimentada – com fortes ventos e sol escaldante. E chegando no alto, iria encontrar construções toscas, com alguns prédios em pedra-e-cal. Quase não existiam calçadas, as ruas eram arenosas, e constantemente entrecortadas por carros de boi, que traziam produtos para serem vendidos em Recife.

Caso fosse convidado para entrar em uma casa, o viajante se depararia com uma mobília escassa, com muitas redes amarradas e poucas cadeiras para sentar. À noite a escuridão era companheira inseparável daqueles que se aventuravam pelas ruas, pois não existia qualquer tipo de iluminação pública. As casas, quando necessário, costumavam ter seus poucos aposentos iluminados por velas de sebo ou candeeiros de óleo de peixe, o que não tornava o odor agradável.

Em 1695, o povoado do forte contava com mais ou menos duzentos habitantes, subjugados à vontade suprema do capitão-mor e desassistidos do alcance efetivo da lei. Tal era o predomínio do arbítrio, do abuso da força, o imperativo da autoridade, que na Carta Régia de 1699, mandando erguer uma vila no Ceará, era salientado o propósito de controlar os abusos cometidos pelas autoridades e administrar melhor a justiça. Após uma série de disputas, a vila foi instalada em Aquiraz. Mesmo quando Fortaleza recebeu igual honraria, em 1726, manteve-se o aspecto de abandono e pobreza que lhe caracterizava. Em tudo pairava um certo ar de desolação, isolamento e senso de contingência ante as adversidades do ambiente. Compondo um traço fundante dessa colonização, a violência era o instrumento usual de resolução dos conflitos e sujeição do povo.

Rua Sobral

Na precariedade material que saltava a vista, com arruamentos grosseiros, casario modesto, mobiliário parco, padrão técnico rudimentar, carência de estradas e pontes, um forte em ruínas – se colhiam indícios de um modo de vida permeado pela improvisação e acomodações provisórias. Como se as coisas e os espaços fossem feitos para não durar além de duas ou três gerações, transmitindo aquela impressão de fragilidade constitutiva que emanava dos núcleos estabelecidos nas bordas do empreendimento colonizador.


Extraído dos artigos
Entre a Reta e o Círculo, de Antônio Luiz Macêdo e Silva Filho
O Encontro marcado com o Tempo, de Antônio Otaviano Vieira Filho
     Publicados na Revista Fortaleza, fascículo 14, de 13 de abril de 2006 
fotos (arquivo Nirez) meramente ilustrativas
     


sábado, 9 de julho de 2016

Os Sete Pecados da Capital

Inspirado em um artigo do Prof. José Borzacchiello da Silva de 06.05.2001

1 – Violência urbana

Passeio Público: cadê a estátua?

De repente, andar pelas ruas e exercer o básico direito de ir e vir, tornou-se atividade de risco em Fortaleza. Portar relógios, celulares, bolsas e objetos de valor, ou nem tanto, nem pensar. Os números da violência em Fortaleza são assustadores e atingem a todos os bairros e todos os segmentos sociais. Uma pesquisa realizada por uma ONG Mexicana, coloca Fortaleza como a cidade mais violenta do Brasil e 12ª mais violenta do mundo.  Outra, mais recente, aponta que Fortaleza é a capital brasileira com o maior Índice de Homicídios de Adolescentes (IHA), segundo estudo do Programa de Redução da Violência Letal Contra Adolescentes e Jovens, divulgado no dia 28 de junho deste ano. O mais preocupante é ver as autoridades do Estado minimizando o problema, questionando a metodologia utilizada pelas ONG’s, contestando os números que eles mesmos contabilizam.  E seguem reafirmando que as forças policiais estão aparelhadas e preparadas para atuarem fortemente no combate à criminalidade e em prol da segurança. Mas o que vê, e o que resta comprovado é que essa intervenção não tem produzido os resultados desejados. Dados da Secretaria de Segurança Pública do Ceará indicam que entre janeiro e junho de 2016, 1.746 pessoas foram assassinadas no Estado. Fortaleza não era assim, nem merece esses títulos. 

2 – Desigualdade social


Bairro Bom Jardim com o Rio Maranguapinho - foto maio/2013

A abissal diferença de renda que separa ricos e pobres em Fortaleza, a colocou como a 5ª cidade mais desigual do mundo, de acordo com o relatório das Nações Unidas State of the World Cities. Ainda de acordo com o relatório, 7% da população de Fortaleza detém 26% de toda a riqueza da cidade. Entre as cidades do Brasil, Fortaleza é a segunda mais desigual, atrás apenas de Goiânia. Em seguida aparecem Belo Horizonte, Brasília e Curitiba. Ainda segundo o relatório da ONU, o nível de aglomeração urbana na capital cearense deixa a população em nível de risco "muito alto" em inundações, deslizamento de terra e outros desastres naturais.
Estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE) nos 119 bairros de Fortaleza mostra que a renda média dos moradores do bairro mais rico da capital, o Meireles, é 15,3 superior aos dos residentes no bairro mais pobre, o Conjunto Palmeiras. O estudo, mostra ainda que 7% da população de Fortaleza vive nos 10 bairros mais ricos e que os 44 bairros de menor renda concentram 49% da população da capital cearense. Para completar o quadro de indigência social de uma parcela não contabilizado da população, os moradores de rua, os sem teto, os mendigos e similares, abandonaram seus guetos na periferia e ocuparam as praças centrais de Fortaleza. A miséria exposta aos olhos de quem passa, exibe também a ineficiência das políticas públicas voltadas para esse segmento de baixa renda. 

3 – A Violência no trânsito


foto G1

O Ceará é o terceiro Estado do País com o maior número de óbitos no trânsito, atrás somente de São Paulo e Minas Gerais. Um total de 11.132 mortes no Ceará foram contabilizadas entre 2001 e 2012 e estão apresentadas no Retrato da Segurança Viária no Brasil 2014, relatório desenvolvido pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV). Os dados ainda apontam que entre as dez cidades mais populosas do país, as que possuem a maior taxa de mortes por 100 mil habitantes são Fortaleza, ocupando a segunda colocação com 27,1 e em primeiro lugar, Recife, com 34,7 por 100 mil habitantes.
De acordo com estatísticas da AMC e Detran, as causas mais comuns de acidentes são: 1º lugar, falha humana; 2º dirigir sob efeito de álcool e substâncias entorpecentes; 3° trafegar em alta velocidade sem a devida experiência; 4° problemas mecânicos e 5° má conservação das vias de tráfego.    
As motocicletas estão envolvidas em metade das mortes, onde a frota é a terceira do País. Os acidentes são causados por motociclistas, muitos sem habilitação, que realizam travessias perigosas inclusive nas rodovias e que não usam capacete, segundo o chefe de comunicação da PRF, indicando que o não uso de capacete pelo condutor aumenta em cinco vezes o risco de morte, em caso de acidente.

4 – A Cidade sem memória


busto na Praça Cristo Redentor: quem?

Em abril de 2016, Fortaleza completou 290 anos. Como a data escolhida faz referência a sua elevação à categoria de Vila (13 de abril de 1726), é fácil concluir que a cidade é de fato, bem mais antiga. No entanto, considerando apenas os 290 anos, encontramos apenas duas edificações que sobreviveram a implacável busca de modernidade, e atestam o seu tempo de existência: O Forte de N.S. de Assunção – construído em 1649, portanto, 367 anos em 2016 – e a Igreja de N.S. do Rosário fundada em 1730, com 288 anos. Lembrando que as duas edificações foram levantadas em taipa e palha e passaram por reformas que lhes deram a aparência atual. A fortaleza de N.S. Da Assunção foi reconstruída em alvenaria em 1816, no governo de Manuel Inácio Sampaio (1812-1820), com projeto do engenheiro Silva Paulet. Já Igreja do Rosário, ameaçando ruir em 1753, foi reconstruída a pedra e cal, com a utilização de recursos doados pelos fiéis. Todas as demais edificações, monumentos, e outras referências que contavam a origem e a evolução da cidade, foram destruídos ou radicalmente modificados. Mesmo as vias públicas foram e continuam sendo renomeadas com tanta frequência, que suas denominações não tem qualquer significado para a população, que não conhece os homenageados e nem o que representaram para a cidade. Suas origens, seu passado, sua arquitetura, seus símbolos, vem sendo sistematicamente apagados, transformando Fortaleza numa cidade sem memória, que não lembra nem sente saudade. 

5 – Descaso com o patrimônio histórico e cultural


Ponte Metálica, primeiro porto de Fortaleza

Basta olhar o estado de conservação de nossas praças, estátuas, logradouros públicos, boa parte dos equipamentos culturais, edifícios históricos, para ver o descaso com que são tratados o nosso patrimônio. Até os bens imóveis protegidos sofrem com o abandono, pois o tombamento não garante sua manutenção. A situação é mais notória no Centro, parte mais antiga da cidade, que concentra a maior incidência de abandono do patrimônio histórico e cultural, a exemplo do que acontece com o Teatro São José, criado em 1914, protegido por lei municipal, que se encontra em ruínas, apesar das reiteradas promessas de recuperação, por parte de sucessivos gestores municipais. Na mesma situação está o prédio da antiga Escola Jesus, Maria, José, localizado na Rua Coronel Ferraz, também tombado e também abandonado. Nos monumentos, bustos e estátuas – em sua maioria – não constam datas, nem identificação do homenageado, nem do autor da obra. Estão sempre mal cuidados, pichados e anônimos. 

6 – O desrespeito ao meio ambiente


Riacho Pajeú, no trecho atrás do Mercado Central, no centro

Sendo Fortaleza uma cidade de clima quente, com temperatura média anual de 27º, situada próxima a linha do Equador, com sol brilhando forte praticamente o ano inteiro, era de se esperar que fossem tomadas todas as medidas necessárias, para evitar que intervenções ambientais mal planejadas viessem a agravar as condições climáticas por si só, tão adversas. Mas não é bem assim: a prática tem demonstrado que não há nenhuma preocupação com os elementos que poderiam minimizar o desconforto provocado pelas altas temperaturas. Historicamente, Fortaleza é a capital das lagoas aterradas, dos riachos canalizados e aprisionados embaixo de pistas de concreto por onde correm os automóveis. Além disso os moradores e os que se deslocam a pé ou em bicicletas e motos e outros, sofrem com a retirada desenfreada da cobertura vegetal. Arvores de grande porte, são impiedosamente eliminadas por qualquer pretexto. Nos últimos cinco anos, logradouros importantes como as Avenidas Dom Luiz, Santos Dumont, Bezerra de Menezes, Paulino Rocha, Alberto Craveiro e outras, perderam toda a cobertura vegetal, em nome de um progresso desvairado - crimes ambientais praticados por quem não aprendeu a conciliar crescimento com preservação ambiental - para abrir espaços para construção de viadutos, túneis e alargamento de vias. Como se não bastasse, Fortaleza é uma cidade tomada pelo lixo, a coleta é insuficiente, não há varrição nem capinagem de ruas nos bairros, nem cooperação dos moradores. Os recursos hídricos que ainda sobrevivem, estão repletos de lixo, descartados pela população.

7 -  O abandono do Centro



A história de Fortaleza começou no Centro; as primeiras igrejas, as praças mais antigas, os edifícios mais representativos que contam a trajetória da cidade, estão no Centro. No Centro estão o Museu do Ceará, o Teatro José de Alencar, com seus jardins projetados por Burle Marx, a Catedral Metropolitana, o Paço Municipal, a sede da Academia Cearense Letras, o Palácio da Luz, construído no final do século XVIII, e a farmácia mais antiga, a Oswaldo Cruz. Mas o Centro foi abandonado à própria sorte, a partir do momento em que os serviços públicos se retiraram de lá. O Governo do Estado, o Fórum, a Assembleia Legislativa, várias repartições estaduais e municipais. Depois vieram os Shopping Centers e levaram com eles as grandes lojas ligadas à moda do vestuário e calçados, os cinemas e as lanchonetes. Mais tarde, os hotéis se mudaram para a orla marítima da Praia de Iracema e do Meireles, assim, os hotéis do centro ficaram esvaziados e fecharam (quebraram). Com a saída desses agentes, o local ficou entregue ao comércio popular, e na falta de diretrizes, e regras a serem observadas, criaram suas próprias formas de ocupação, o que gerou uma desorganização espacial jamais vista. O Centro praticamente não recebe mais investimentos públicos, as praças, apesar de bem frequentadas, estão sujas, com bancos quebrados, piso esburacado, iluminação precária, ocupadas por moradores de rua; as calçadas estão tomadas por camelôs que se instalam em qualquer lugar, espalham suas mercadorias ao bel-prazer, sob os olhos complacentes dos gestores. Uma boa parte dos edifícios mais antigos, construídos no século XIX, foram demolidos para virarem estacionamento ou estão fechados. 



Urbanistas defendem que, a valorização do Centro de Fortaleza, passa por uma reocupação dos espaços, atribuindo-lhe funções administrativas, artísticas, culturais, lazer e habitacional, o que é pouco provável, pois grandes setores econômicos privados não têm interesse na região. Atualmente é relativamente pequena a quantidade de imóveis residenciais efetivamente ocupados. O Centro de Fortaleza está encolhendo. Um dia some.   


Consultados:
jornais O Povo, Diário do Nordeste, O Nordeste
Portais Tribuna do Ceará e G1
fotos: Fortaleza em fotos