quinta-feira, 12 de abril de 2018

Fortaleza, 292 anos


quarta-feira, 7 de março de 2018

A Justiça de Pires da Mota


O padre Vicente Pires da Mota, um dos notáveis estadistas do Império, nasceu em São Paulo a 1° de setembro de 1799 e ali faleceu, aos 83 anos de idade, no dia 30 de outubro de 1882. Presbítero secular, quando se fundaram as academias de Direito no Brasil, foi um dos primeiros matriculados, na de São Paulo, onde recebeu o grau de doutor. Foi professor e diretor desta Faculdade. Administrou sua província natal, assim como as do Paraná, de Minas Gerais, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul e do Ceará (1854-1855).

Deixou no Ceará, que governou com independência, alheio às maledicências e intrigas duma politicagem mesquinha, fama de justiceiro e enérgico. E as histórias que se contavam do governante, refletiam seu caráter.


Reformou o velho casarão da Praça General Tibúrcio, ao lado da Igreja do Rosário, que servia de sede do governo do Estado, desde que fora trocada com a câmara municipal pela residência colonial murada dos governadores da Capitania do Siará Grande, na antiga Rua de Baixo. Mais tarde o casarão foi batizado de Palácio da Luz. Seu pátio interno, com uma galeria coberta de tipo colonial, foi obra do padre Vicente Pires da Mota.

Palácio da Luz - 1908

Estava ele uma tarde fiscalizando o trabalho dos pedreiros nesse pátio, quando um contínuo da secretaria do governo passou se esgueirando rente à parede, de chapéu enterrado na cabeça, tentando não ser visto. De gênio irritado, o padre avançou para o empregado e com um safanão e estas palavras, atirou longe o chapéu:
 – então, seu cachorro, já não se tira mais o chapéu ao presidente da Província?!

Ao bater o chapéu no chão de tijolo, da sua copa se derramaram um bocado de feijão, um embrulho rasgado de farinha de mandioca e uns pedaços de carne seca. O dono dos víveres permanecia lívido e imóvel. Pires da Mora dominado o ímpeto, perguntou-lhe:  – que é isso?
– Senhor presidente, explicou humildemente o contínuo, eu sou muito pobre e moro longe da cidade; por isso todas as tardes vou ali ao mercado e compro o jantar para minha mulher, minha mãe e meus quatro filhos. É pouca coisa, porque ganho uma miséria. Como sou funcionário do Palácio, não me fica bem sair de lá levando embrulhos de comida, para que não pensem que vivo dos restos do sr. Presidente, escondo as minhas compras dentro do chapéu... Por essa razão não me descobri e nem cumprimentei V. Ex.ª como era do meu dever.

O homem fez menção de abaixar-se para apanhar o chapéu e o que dele caíra. Pires da Mota deteve-o segurando-lhe o braço: 
– não senhor! Absolutamente! Quem derramou fui eu, eu é que devo apanhar e desculpar-me, pois não podia adivinhar, não é verdade? 

O presidente juntou as compras do contínuo na copa do chapéu e entregou-lhe com um sorriso no rosto:
 – vá com Deus para sua casa e não volte amanhã nem depois. Dou-lhe dois dias de folga e vou tratar de aumentar-lhe o salário. E empurrando o homem que chorava e queria beijar-lhe a mão, ordenou ríspido: – suma daqui seu diabo! 


Certa manhã, o padre-presidente recebeu a visita de uma velha magra e mal vestida, no Palácio do Governo. A mulher disse ao ajudante de ordens que precisava falar com o presidente com urgência. Pires da Mota recebeu-a e ouviu esta queixa misturada com lágrimas: era viúva, pobre, vivendo de costuras e rendas de almofada numa casinha da lagoa de Jacarecanga. Criava uma neta, filha única de seu único filho falecido, sendo a menina orfã de pai e mãe, a qual acabara de completar 16 anos.   

Um barbeiro, que trabalhava na Travessa das Hortas e morava no seu bairro, arrastara a asa à menina e a desencaminhara. Agora se negava a reparar o mal. Depois de tentar todos os recursos, desesperada, ela vinha apelar para o sr. Presidente, a fim de ver se era possível fazer-lhe justiça.

Se o que me conta for verdade, respondeu Pires da Mota, farei a justiça que a senhora deseja e rápida. Volte amanhã, nessa mesma hora e traga sua neta. Mal a mulher se retirou, mandou chamar a autoridade policial, para que fosse investigada a veracidade do fato. À noite, já estava informado de ser tudo verdade.

Lagoa do Jacarecanga

No dia seguinte, a avó compareceu com a neta, uma jovem alourada e débil, gravidez bastante avançada. Mandou-as sentar e mandou chamar na sala o tal barbeiro, autor da façanha. Era um mulato com jeito de malandro, bem vestido, que de início teve um sobressalto diante das duas mulheres, mas logo se dominou e assumiu uma postura petulante.

O presidente perguntou-lhe se era o pai da criança. O homem aquiesceu com a cabeça. – então, porque não casa com a moça?
-- Porque ganho pouco e não posso sustentar família. 
– bem, falou o padre, eu lhe arranjo um emprego. 
– é o senhor pode arranjar, mas eu não quero me casar. 
– por que, meu filho? 
– porque não fui o primeiro, embora não negue que o filho é meu.
– isso dizem todos os que fazem o que você fez, tornou Pires da Mota. 
– pode ser, porém não vou me casar, declarou o barbeiro. 
– está bem! E dirigindo-se ao ajudante de ordens, o presidente ordenou: 
– capitão, sente-se aqui na minha mesa e vá escrevendo o ofício que vou ditar. E recitou, articulando bem as palavras “Ilm.º sr major comandante do Corpo Fixo da Província do Ceará, no Quartel da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção... tenho a honra de apresentar-lhe o cidadão...” 
– como é seu nome meu filho? 
– Felisberto Martins. 
Muito bem, prossiga “... o  cidadão Felisberto Martins, que vai recrutado por minha ordem e deverá ser embarcado para o sul pelo primeiro paquete...” 
– é o mais que v.ex.ª me pode fazer, interrompeu o mulato, assentar-me praça? Não quero outra coisa” 
– é o mais? Já vai ver se é o mais... e ditou: 
– logo após ter verificado praça no dito Felisberto Martins, ordeno, como comandante das Forças da Província, que sejam aplicadas no mesmo, 250 chibatadas, com a tropa formada em quadrado, por ter faltado ao respeito devido ao presidente da mesma província, dentro do Palácio do Governo...”

O barbeiro ficou lívido. Atirou-se aos pés de Pires da Mota 
– sr presidente me perdoe, eu caso... e começou a chorar. O padre levantou-o com brandura 
– pois é, não precisa chorar rapaz, você casa e faz muito bem. Eu serei padrinho do casamento e lhe arranjarei um emprego. Se você tratar bem essa menina, ficaremos amigos para sempre... mas não diga nunca que isso é o mais que eu posso fazer, porque ainda posso fazer muito mais, seu tolo!.

Era assim a justiça patriarcal dos velhos estadistas do Império.

Extraído do livro
À Margem da História do Ceará, de Gustavo Barroso
fotos: Álbum de Vistas do Ceará - arquivo Nirez               


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Talento de Eurícledes Formiga


Nos anos 40, aportou em Fortaleza um poeta e declamador de nome Eurícledes, vindo de Brejo das Freiras, na Paraíba, trazido pelo também poeta Rogaciano Leite. Tinha uns 23 anos de idade, estatura baixa, branco, magro, voz um tanto rouca. Boêmio e aventureiro, chegou sem um vintém, confiado apenas no seu talento.

Em Fortaleza passou a viver do jornalismo e das demonstrações que executava nos recitais, mas o que arrecadava era tão pouco que mal dava para sustentar suas bebedeiras e as três carteiras de cigarro que fumava diariamente. Dormia nas dependências do jornal Gazeta de Notícias, em cima das mesas ou das bobinas de papel.

Rua Senador Pompeu, ano 1935 - Foto arquivo Nirez

Aos domingos, frequentava o Violão Clube, uma associação de boêmios seresteiros que se reunia nos altos do café do Zé Cavalcante, na Rua Senador Pompeu. Poeta espontâneo, era o espetáculo numa mesa de bar ou numa reunião, fazendo versos de improviso ou recitando qualquer autor nacional, desde que fossem versos de apelo direto. Poesia para ele tinha que ter rima ou, pelo menos, ritmo e cadência. Bebia cachaça, tirando gosto com cajá ou pitomba.

Era impressionante como conseguia ser escutado atentamente num boteco, recitando poemas, até por pessoas sem nenhum embasamento literário; já os boêmios artistas, que também faziam versos, ficavam extasiados diante do seu show, não se atrevendo a interrompê-lo. Certa vez desafiou Rogaciano Leite a repartir com ele um recital de improviso no Teatro José de Alencar, e este recusou, declarando-se incapaz de competir com o amigo. Eurícledes conseguia compor um soneto de métrica perfeita, sobre qualquer tema proposto, de improviso.

Teatro José de Alencar  - foto do Arquivo Nirez

Mas o momento maior de Eurícledes Formiga eram os recitais em que demonstrava sua prodigiosa capacidade de memorização. As testemunhas declaravam que o que viram o poeta fazer era inacreditável. Coisa do diabo. Ou um milagre de Deus.
Formiga abria o espetáculo com um poema de sua autoria. Já ganhava a plateia. Pedia em seguida, que citassem um poeta de língua portuguesa, qualquer um, e pedissem um poema. Obtido o título, declamava-o na hora, com todos os pontos e vírgulas. Entrava pela poesia popular, as pelejas do Cego Aderaldo, os motes mais interessantes dos desafios famosos. Depois, pedia que lhe dessem temas para improvisar, contava histórias de Lampião. Sabia todas as façanhas do célebre cangaceiro.

A assistência ficava boquiaberta, mas o talentoso Formiga não tinha chegado ao ponto culminante de sua apresentação. Era a última parte. Ele solicitava dos presentes, que escrevessem uma produção da autoria própria, podia ser um soneto, a letra de uma música, de preferência inéditos, e numerassem todas as palavras da composição (enquanto escreviam, um músico desenvolvia um número ao piano ou ao violino).
Quando o primeiro aprontava seu material, Formiga pedia que lesse, de viva voz, uma única vez, o texto produzido. Concentrado, de olhos fechados, ele ouvia atentamente. Terminada a leitura, repetia o que ouvira, palavra por palavra, imitando inclusive, a entonação do autor. Mas ele não terminara. Para espanto geral, anunciava que iria repetir o texto de trás para frente, como numa leitura hebraica.

Uma vez a façanha foi executada na Casa de Juvenal Galeno, com um soneto de Moreira Campos. Os versos tinham sido feitos para sua esposa Zezé, nos tempos de namoro e nunca tinham sido publicados. Formiga os recitou pra diante e pra trás, saltando uma linha, saltando palavras, enquanto Moreira Campos esfregava os olhos, sem acreditar no que estava vendo. Parecia uma mágica.

Casa de Juvenal Galeno, na Rua General Sampaio
imagem: http://www.casadejuvenalgaleno.com.br

De Fortaleza, Formiga mudou-se para a Bahia. Depois para o Rio de Janeiro. Com a construção de Brasília, mudou-se para lá; depois obteve um cargo importante na Justiça Federal (era formado em Direito) e mudou-se para São Paulo.

Às vésperas da inauguração de Brasília, o Presidente Juscelino reuniu um grupo de amigos numa ilha do Rio de Janeiro para dividir suas emoções e expectativas. Aproveitou para apresentar em primeira mão, o discurso que faria na ocasião e pedir opiniões. A bela peça oratória fora redigida pelo poeta Augusto Frederico Schmidt, que era o redator-fantasma de JK.

Um amigo comum levara o Formiga e o apresentara ao presidente como um “poeta do Nordeste”. JK dramatizou a leitura, como se já estivesse no momento solene da inauguração da nova capital. E quando terminou, quis saber a opinião dos amigos. 

Formiga, já instruído pelo amigo, pediu a palavra. Considerava aquele um belo discurso. Só que o texto já era do conhecimento público, pois circulava há mais de uma semana entre intelectuais do Rio de Janeiro e São Paulo. E tanto era verdade, que ele, Formiga, iria ler naquele instante a cópia que trazia. E tomando uma folha de papel em branco, que fingia ler, passou a recitar: “Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país, e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino...”

O presidente JK estava mudo de espanto e decepção. Então o patife do Schmidt o traíra vergonhosamente? Agora não poderia mais pronunciar aquele discurso! Quando a situação começava a se tornar constrangedora, o amigo do Formiga contou tudo. O poeta era um gênio da memorização. Não vira o discurso antes, decorara-o enquanto era lido pelo presidente.

inauguração de Brasília (acervo O Globo) 

Juscelino suspirou aliviado, embora ainda um tanto incrédulo do que acabara de ouvir. Eurícledes Formiga passou então a demonstrar sua capacidade e deu um espetáculo, sendo testado de todas as formas. Leram vários textos, poemas e até memorandos, e ele, tranquilo, repetia na íntegra.

Ganhou, na hora, o presidente. Tornou-se seu amigo e companheiro de viagens, pois JK costumava pregar peças em seus amigos de Minas. Passou a andar com o Formiga a tiracolo para armar situações semelhantes a que tinha passado. Depois deu-lhe um cargo na Justiça Federal.

Um dos amigos das antigas foi um dia a São Paulo para um tratamento de saúde e, casualmente, foi avistado pelo Formiga na rua. Reconhecendo o velho amigo dos tempos de Fortaleza, gritou do seu carro chamando-o pelo nome: “Murici, seu velhaco, o que fazes em São Paulo?”
Depois dos abraços, foi levado no Cadilac do velho parceiro de farras no Curral das Éguas, para sua residência, um bairro de elite. Era uma mansão, os filhos distintos, a bela esposa, a piscina, a criadagem. O homem era rico. “E os versos, Formiga, como vão os versos? – estão fracos e raros, meu amigo. Poeta só produz com talento quando passa fome.

Eurícledes Formiga morreu aos sessenta e poucos anos em 1983. Um câncer na laringe, por excesso de poesia, cigarro e bebida; ou devido a um problema cardíaco, segundo outra versão. 

Extraído do livro
Sábado – estação de viver
De Juarez Leitão


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

As moradas dos Ricos de Fortaleza (Século XIX/Início do Século XX)


Até o final do século XVIII, Fortaleza, apesar de ser a capital da Capitania, não se destacava em relação a outras vilas cearenses. Poucas ruas eram pavimentadas, as edificações residenciais eram de uma singeleza que se ofuscavam diante das casas assobradadas de Aracati, ou quando comparadas com a qualidade dos materiais utilizados nas construções de Icó.

Com a separação de capitania de Pernambuco, em 1799, Fortaleza, por sua localização e pela qualidade do seu porto, rivalizou com outras vilas a possibilidade de centralizar a exportação de algodão e couro, como também de se destacar enquanto centro importador. Esse período assistiu à mudança do significado político da cidade, que passou a ser a capital econômica da província.

Porto de Fortaleza - década de 1910

Ocorreram mudanças em algumas residências que ganhavam sobrados, no estabelecimento de construção destinados à inspeção do algodão exportado e no porto, que recebia um volume cada vez maior de embarcações portuguesas e inglesas. O comércio e a arquitetura começaram a se diferenciar em comparação com outras localidades cearenses. A partir de 1840, uma série de empresas europeias se instalaram, e intensificaram o comércio com a América com a exportação de produtos agropecuários.

A lenta transformação pela qual a cidade passava, era indicada por um crescimento arquitetônico registrado em 1841, pelo viajante americano Daniel Kidder. Em sua fala o americano não deixava de ressaltar que a população ainda preferia construções mais simples e rápidas de serem erguidas, não sendo usual a edificação de casas mais caras e trabalhosas. As ruas continuavam sem pavimentação até 1857, quando foi efetivado o projeto de calçamento que contou com a contratação de “calceteiros” das Ilhas de Açores.

O sobrado erguido em 1825 por Francisco José Pacheco de Medeiros foi o primeiro imóvel de tijolo e telha a levantar-se em Fortaleza. Em 1831 a Câmara comprou o prédio mudou-se para a nova sede em 1833, dividindo o sobrado com a cadeia pública. Mais tarde, com a saída da Casa de Correção, o prédio foi ocupado pela Intendência Municipal. Foi demolido em agosto de 1941 

A explosão comercial, o aumento da presença de estrangeiros na cidade, o incremento da circulação de produtos e hábitos europeus, poderiam ser considerados alguns dos fatores que contribuíram para uma tímida mudança na arquitetura interna e nos significados dos domicílios de Fortaleza. Essas transformações não alcançavam toda a sociedade, era restrita a um grupo social mais abastado.

Um cronista da época, o conhecido Boticário Ferreira, em 1843 deixava claro que segmento social estava relacionado diretamente com essas transformações: a elite. A cidade era quase toda de casebres. Na maioria das ruas só se encontravam casas baixas e estreitas, de porta e janela, sem rótulas ou persianas. O material empregado era a taipa e a palha (paredes de taipa de sopapo e cobertas de folha de palmeiras eram amplamente utilizadas pela população mais pobre), sendo este o tipo mais comum de edificação.

De beira e bica, a primitiva residência dos governadores, estava localizada na Rua Direita dos Mercadores, atual Sena Madureira. Construção despojada, dos primórdios da cidade, quando ainda não se arrematam os beirais com platibandas.

O desenvolvimento da cidade e o surgimento de famílias com mais recursos financeiros, permitiram um novo padrão de moradia; e entre as simplórias casas de taipa e palha, foram sendo erguidas residências de maior porte, de alvenaria, edificadas com materiais mais duradouros, com o uso de tijolos, assentados com argamassa de cal de ostras e areia e cobertas com telhas. Tudo sem requintes, sem ornamentos nas fachadas, sem platibandas, todas de beira e bica. Aos poucos, a lenta evolução da província ia permitindo aqui e ali, alguma construção de maior vulto, até atingir o período em que senhores de vastas posses, muitas deles detentores de títulos e brasões, traziam da Europa, os projetos para suas moradias.

Mais tarde, a cidade começou a ser dividida em bairros, onde se destacavam casas de grande porte, palacetes e mansões. Alguns desses ricos proprietários até se permitiam o luxo de trazer do Velho Mundo os materiais necessários às suas construções, sem falar nos acabamentos. Foi quando as rústicas telhas de barro, produzidas nos arredores da cidade, foram substituídas pelas delicadas telhas de Marselha e até por ardósia importada da Franca, para as construções mais suntuosas.

Palácio Guarani construído em 1908, cópia de um imóvel europeu. Foi modificado algum tempo depois para retirada do telhado de ardósia. Era de propriedade do Barão de Camocim. O imóvel bastante modificado, fica na Rua Barão do Rio Branco esquina com Senador Alencar.

E os telhados ganharam status de obra-de-arte, motivo de admiração de uma população desacostumada a essas novidades. Da Inglaterra vinham as louças sanitárias (os vasos, as banheiras, os lavatórios). Portugal mandava as pinhas, os jarrões, as estátuas e os ladrilhos de faiança. Algumas casas utilizavam madeiras europeias e o agora raro pinho de riga. Era usado em assoalhos, portas, janelas e bandeirolas. Em muitos casos, até o cimento era importado.    
conhecida por "Casa da Normandia", foi construída em 1920, copiada de uma revista francesa. Permanece praticamente inalterada. Fica na Avenida Filomeno Gomes, no bairro Jacarecanga. 

Outro ponto que distinguia as casas dos mais abastados, era a mobília. Em geral, em casas de pobres, nas vilas, nas cidades e nas zonas rurais, as mobílias das casas eram sintetizadas na presença de redes, malas, algumas cadeiras e mesas rústicas. Já em Fortaleza, começavam a aparecer as mobílias mais pesadas, caras, com o claro objetivo de proporcionar conforto e requinte.

Sofás, cadeiras, mesa de centro, castiçais, lanternas, jarras, cômodas, foram alguns dos itens anunciados pelo leiloeiro Victoriano Borges, objetos oferecidos em leilão por uma família de mudança para o Pará. No armazém de Rocha Junior, eram vendidos canapés com assento de palhinha, mesa de sala, cômodas grandes e pequenas, lavatórios, camas e oratórios.


O requinte da mobília cresceu proporcionalmente ao luxo dos casarões. Tapetes, jarros, pratarias, lustres, quadros, móveis e outros elementos de decoração, passaram a ser importados da Europa.

Fontes:
Entre Paredes e Bacamartes – de A. Otaviano Vieira Jr 
Mansões, Palacetes, Solares e Bangalôs de Fortaleza – de Marciano Lopes 
fotos Arquivo Nirez


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Incríveis Histórias da Fortaleza Antiga: O Boêmio Suicida e o Bode Poeta



Paulo de Castro Laranjeira era um engenheiro fiscal das obras do Estado no final do século XIX. Morava na Rua do Trilho e tinha 29 anos de idade. Boêmio e seresteiro, fazia versos, cantava e tocava piano. Nas noites enluaradas saía com sua turma de amigos, todos bons de copo e de voz, para as serenatas nas portas dos sobrados da Rua do Imperador e da Rua Formosa. Usavam violões, banjos, bandolins e, algumas vezes, até um piano alemão, que era transportado por quatro homens numa espécie de padiola, com muita dificuldade.

antiga Rua do Trilho de ferro, atual Avenida Tristão Gonçalves


Naquele ano de 1897, o seresteiro estava apaixonado. Uma figura esbelta, mãos finas e palidez romântica, abundantes madeixas e verdes olhos de mar passara diante dele, acompanhada da criada e, a partir dali, nunca mais fora o mesmo. A mulher entrara-lhe de alma adentro e se apossara de seus sentimentos, não lhe dando tréguas para pensar noutra coisa que não fosse o desejo avassalador, de namorá-la, de casar-se com ela.


Mas era um amor unilateral, não correspondido, a moça não lhe daria a menor atenção. A família não permitiria o romance nem em sonhos, e a própria desejada fazia restrições à sua delirante pretensão. A fama de boêmio inveterado, que o engenheiro tinha construído com tanta devoção, seria a causa da rejeição. Nenhuma moça casadoira, mesmo naquele tempo, sendo bela, rica e detentora de um bom dote, aceitaria se casar com um dissoluto, cujas noites eram preenchidas com serestas, violões e bebedeiras, sobrando para a esposa, apenas a irremediável solidão. Decididamente, ele não tinha a menor chance. 

Praça do Ferreira com o Café do Comércio


Mas o poeta não se deu por vencido. Noite após noite, lá estava ele, embaixo da janela do sobrado onde a moça residia, gemendo a sua paixão, numa obstinação que só os amigos, por fidelidade canina, compreendiam. O amor desvairado passou a comprometer o trabalho, já não rendia o mesmo em suas tarefas. Tornou-se um homem triste, amargo, macambúzio. 

Um dia chegou para o seu amigo e parente Raimundo Nonato e disse que tinha feito uns versos para ele musicar. A canção deveria se chamar “Teu Desprezo”. Depois dos devidos ensaios, eis o trovador, na noite seguinte, à porta da amada, desfiando os versos adocicados de lamúrias e os repetindo duas ou três vezes, embora sem sucesso algum: a donzela não abriu a janela do sobrado.


Café Java - Praça do Ferreira

Laranjeira foi-se abatendo cada vez mais. Certa tarde chegou ao Café Java e solicitou ao Mané Côco que preparasse quinze garrafas de champanhe para aquela noite. Alegou o dono do quiosque que para tão avultada compra, precisava de um pequeno prazo. Dias depois, a bebida pronta, enterrada na serragem com areia molhada, foi entregue no local combinado, que não era outro se não a calçada da casa da inspiradora de Paulo Laranjeira. 

Os violões entraram em ação e o poeta cantou mais uma vez o “Teu Desprezo”, que como das outras vezes, não teve nenhuma resposta. Então ele serviu o champanhe e abraçou emocionado os amigos com efusivas despedidas, para, de súbito, ante a estupefação de todos, puxar um revólver e detonar um tiro no ouvido. Eram 11:30 da noite de 14 de fevereiro de 1897.


No dia seguinte, com grande acompanhamento, Paulo Laranjeira era sepultado no São João Batista e o jornal “A República” fazia extenso necrológio do boêmio. A família do engenheiro, dias depois, através do jornalista Benedito Sidou, procurou tornar menos patético seu ato suicida, afirmando que ocorrera em sua própria residência e “não no meio da rua, como andam dizendo”. O povo, no entanto, preferiu a versão mais dramática. 

Praça do Ferreira - Postal dos anos 20


Os companheiros de boemia de Paulo Laranjeira passaram a comemorar o seu aniversário, em 08 de junho, todos os anos, ocasião em que cantavam repetidas vezes a triste canção do malfadado seresteiro. Começavam a beber na Praça do Ferreira, por volta das quatro da tarde e, lá pelas nove, saíam em serenatas, fosse ou não noite de lua. Decorridos 18 anos, um fiel grupo de devotados continuava a cultuar a memória do amigo. 

E aqui é que começa o inusitado da história:
Certa tarde, em plena seca do quinze, um grupo de flagelados chega na praça conduzindo um bode, que mais tarde viria ser conhecido como Bode Yoyô. O grupo queria vender o bode para comprar feijão, farinha e rapadura. O gerente da empresa inglesa Rossbach Brazil Company, mostrou-se interessado e acabou comprando o animal.

imagem: facebook/Histórias e Estórias de Fortaleza, do Ceará e do Brasil


A estampa do bode tinha alguma coisa de especial. À beleza plástica aliava-se uma elegância natural e um olhar que parecia querer ir além da mudez, da irracionalidade. O bode, diziam os boêmios, parecia gente. Foi essa aparência peculiar que salvou Yoyô da imolação. Seus proprietários resolveram deixa-lo solto, e o animal, sem cerimônia, se pôs a perambular pela cidade, indo e vindo da Praia de Iracema, onde ficava a Rossbach Company, para a Praça do Ferreira, coração fervilhante da cidade.


Um dia, festejava-se mais uma vez, o aniversario de Paulo Laranjeira, in memoriam. À determinada altura, o seresteiro Xavier de Castro, começou a cantar a música “Teu Desprezo”. O que aconteceu em seguida, deixou a todos impressionados: o bode Yoyô deu um salto violento e caiu esparramado no chão, entrando em convulsão. Parecia apoplético, o olhar vesgo, a língua mordida em diagonal. Uma gosma descia-lhe da boca e ele resfolegava nos estertores.


Assustados, os boêmios e transeuntes da praça esperavam apenas o último suspiro do caprino quando, de repente, ele começou a melhorar. Logo depois, para alivio geral, estava completamente restabelecido, embora persistisse uma certa tristeza em seu olhar. Os boêmios e outros seresteiros que assistiram o fato, desconfiaram que a reação de Yoyô tinha sido provocada pela canção do suicida. Então fizeram o teste e não deu outra: tão logo começaram a cantar “Teu Desprezo” o bode empinou-se todo e desabou no chão novamente. – É o Laranjeira, gritaram eufóricos, “O bode Yoyô é o nosso amigo Paulo Laranjeira!” Nascia uma lenda.


Padre Quinderé (Diário do Nordeste)

No dia seguinte, o padre Quinderé apareceu na Praça do Ferreira “fumando numa quenga” e censurando severamente os boêmios, que, por beberem demais, estavam agora vendo coisas e inventando histórias absurdas, que além de serem mentirosas, intentavam contra os princípios da igreja Católica. Não bastava o caso de Juazeiro com o tal de Boi Santo? Queriam agora inventar um bode poeta? E Dom Manuel, o arcebispo, proibiu qualquer comentário na imprensa sobre o estranho episódio.


Indiferente à querela, o Bode Yoyô continuou sua vidinha de folgado, comendo, bebendo e fumando, participando ativamente dos movimentos cívicos. Em 1930, já velho, ainda teve forças para comandando os vitoriosos aliancistas, invadir o Palácio da Luz para depor o governador Matos Peixoto. 


Teu Desprezo


Eu te consagro, ó mulher os meus afetos

Meu viver só consiste em te adorar

Para que foges, assim, de quem te ama?

Eu fui um louco, ó mulher, em te amar

Teu desprezo me arrasta lentamente

Para a campa solitária vou partir

E a morte será minha vingança

Para que serve ó mulher, eu existir

São tantos males que torturam minha vida

O meu pranto não cessa um só instante

Sofro tudo por ti, mulher querida

Mas, por Deus eu te juro ser constante

Quando ouvires os dobres de um sino

São sinais por um pobre que morreu

Deita ao menos uma lágrima em lembrança

Por aquele que por ti tanto sofreu

Quando fores um dia ao cemitério

Uma campa bem triste lá verás

Não perturbes, ó mulher, por piedade

O sono mortuário de um rapaz

Se fitares meu sepulcro esquecido

Ó tu, a quem tanto idolatrei

Deita sobre meu túmulo uma saudade

Em troca do amor que te jurei.

   


Extraído do livro
Sábado, Estação de viver – histórias da boemia cearense, de Juarez Leitão
fotos: facebook, google, DN e arquivo Nirez