segunda-feira, 18 de agosto de 2014

As paradas de ônibus


O desenvolvimento dos meios de transporte favoreceu o crescimento da cidade e o surgimento de novos bairros. Não importa o quão longe seja o local de moradia ou de trabalho, se passar um ônibus por perto, o acesso e a mobilidade estão garantidos. 

 Praça José de Alencar 1981 
(foto de Gentil Barreira do livro "Viva Fortaleza") 

De acordo com o portal G1, o sistema de transporte público de Fortaleza conta com 296 linhas, 579 itinerários e 4.807 paradas de ônibus, com uma frota diária de 1.812 veículos circulando na cidade. Toda essa estrutura transporta aproximadamente 1 milhão de passageiros que utilizam diariamente o transporte público.
Fortaleza é também a 6ª. Capital do Brasil e a primeira do Nordeste a oferecer serviço de consulta de itinerários de ônibus pelo Google Maps. O usuário acessa a ferramenta, informa o trajeto que quer seguir e obtêm dados como as linhas que fazem o percurso, rotas, horários de partida e chegada, quantidade de paradas, distâncias e valor da tarifa.

Na tentativa de melhorar a viagem e garantir mais conforto aos passageiros, foi lançado o Programa de Implantação de ar-condicionado nos ônibus. A  a Prefeitura estabelece o prazo de seis anos para que toda a frota de coletivos da cidade tenha esse dispositivo. A partir de dezembro deste ano, todo novo veículo adquirido pela frota deverá contar com ar-condicionado. A cada ano, pelo menos 12,5% da frota de ônibus serão substituídos por veículos com ar-condicionado. 
Apesar da propaganda em torno do sistema de transportes e da tecnologia para obtenção de informações sobre percursos, o transporte coletivo é de péssima qualidade, com veículos sujos, quentes, superlotados, insuficientes e quase sempre atrasados em relação ao horário estabelecido.
Outro grande problema, que aflige os usuários do transporte, são os locais escolhidos para a parada dos coletivos. Das alegadas 4.807 paradas, a maioria absoluta se resume a uma placa indicativa da Etufor, sem qualquer infraestrutura, sem segurança, sem cobertura. 

 





Mesmo os pontos de ônibus dotados de equipamentos, são muitos deles, desconfortáveis, com material inadequado, como esses com coberturas transparentes, que não protegem do sol, e com assentos muito baixos.


fotos de Rodrigo Paiva 
 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Fortaleza na Era Vitoriana - A Corrida do Algodão

Nunca houve na história da Inglaterra uma época tão esplendorosa como a Era Vitoriana. No Século XIX a Grã-Bretanha quase duplicou os domínios de seu extenso império que, desde 1763, já era a primeira potência colonial do mundo. A partir da segunda metade desse século, o mundo seria ofuscado com o brilho do império britânico.
A revolução Industrial foi a principal causa e seu aceleramento, o resultado do progresso técnico e das transformações ocorridas na Inglaterra. Com a expansão da civilização industrial, novas descobertas científicas e técnicas encontraram suas aplicações práticas no prodigioso mundo vitoriano. O desenvolvimento das telecomunicações começou com o telégrafo de Morse, em 1837. Estabeleceu-se em 1851, a primeira comunicação telegráfica submarina. Quinze anos mais tarde realizou-se a primeira transmissão transoceânica.

 Rua Major Facundo, ano de 1893 

A pequena Fortaleza, tão distante do brilhante mundo inglês, viveu em sua versão própria a Era Vitoriana (em alusão à Rainha da Inglaterra Alexandrina Vitória que reinou por 64 anos, entre 1837 a 1901). Importante entreposto na exportação de algodão, a capital cearense passou a manter relações comerciais regulares com o continente europeu a partir de 1831.  Atraídos por esse comércio, ingleses, portugueses e franceses, nascidos quando se propagava em ondas a Revolução Industrial na Inglaterra, se estabeleceram em Fortaleza e tornaram-se prósperos comerciantes.
O historiador Raimundo Girão refere-se a eles como “homens afeitos às exigências das grandes cidades europeias, e por esta razão, finos cavalheiros no meio que mal saía dos hábitos mais rudimentares.

 Rua Floriano Peixoto, 1910 

A capital do Ceará não passava então de um acanhado povoado com menos de dez mil habitantes. Recentemente elevado à categoria de cidade, sua parte urbanizada não excedia a um quadrilátero formado por seis quarteirões. As  casas em geral eram baixas, escuras, com telhado de beira e bica. As ruas não eram calçadas, o abastecimento de água era muito precário e não havia iluminação pública. Na cidade observavam-se os costumes simples do sertão, com uma rotina triste e monótona. Aracati, Sobral e, sobretudo, Icó, eram mais adiantados e populosos que a pequena Fortaleza de Nova Bragança.
Com o propósito de sanear a economia e finanças do Ceará, o senador José Martiniano de Alencar então no governo da província, criou o Banco Provincial do Ceará, o primeiro a funcionar no Brasil depois do Banco do Brasil, criado por Dom João VI. Entre as obras públicas, Alencar abriu estradas, como a que ligava Fortaleza a Icó e a Sobral; construiu açudes e distribuiu terrenos entre os colonos para povoar e cultivar as terras devolutas da província, fornecendo instrumentos e condições adequadas para o seu trabalho.
Por esta época Robert Singlehurst fundou em Fortaleza a famosa Casa Inglesa, que já centenária, encerraria suas atividades como propriedade da família Salgado. Robert Singlehurst foi seguido pelos concorrentes Kalkmann, Brunn, John F. Graf, Louis Sand e J.U.Graff, que instalariam seus negócios, trazendo mudanças aceleradas na vida da cidade,  dedicando-se à importação e exportação, Henry Ellery construiu seu próprio trapiche para embarque e desembarque de mercadorias.

 fábrica Philomeno 

A Guerra de Secessão (1860-1865) trouxe a riqueza algodoeira para o Ceará. No período mais glorioso do Império britânico, quando o comércio  mundial crescia num ritmo sem precedentes, a indústria  ficou ameaçada de entrar em colapso devido ao  impedimento da exportação do algodão dos Estados Unidos, em decorrência dessa guerra. Com a corrida do algodão, o Brasil por suas condições favoráveis, tornou-se o maior produtor mundial dessa fibra, sendo o algodão cearense preferido entre os demais por sua qualidade, alvura e asseio. Iniciou-se então uma fase particularmente propícia ao desenvolvimento econômico do Ceará.

 maquinário para beneficiamento de algodão da Casa Boris 

Ao final de 1860, podiam-se contar quinze casas comerciais estrangeiras na cidade, fora as portuguesas. Entre esses comerciantes europeus, os Borges estavam entre os primeiros que aqui chegaram. Seu patriarca Martinho de Borges requereu ao rei D. João VI um passaporte para o Ceará. Na parte ocidental da atual Praça do Ferreira construiu seu palacete residencial, que posteriormente serviria de residência ao Barão de Aquiraz. Adquiriu o antigo Palácio dos Governadores, na então Rua dos Mercadores, atual Conde D’Eu, instalando ali sua casa comercial. 

 Casa Boris, 1909 

José Smith Vasconcellos, o futuro Barão de Vasconcellos chegou em 1831, em companhia do seu meio-irmão John William Studart, que se tornaria vice-cônsul britânico no Ceará e pai do Barão de Studart. Em Fortaleza, esta família juntou-se aos Mendes da Cruz Guimarães, aos Hughes, aos Ridgway, aos Moreira da Rocha e aos Albano. Maranguape abasteceria Fortaleza com as lavouras dos açorianos Amaral e Correia de Melo.
Ao lado de outras famílias tradicionais, oriundas de troncos lusitanos dessas época, estão: Amaral, Bastos, Theóphilo, Correia de Melo, Almeida, Nunes de Mello, Gouveia, entre muitas outras que ajudaram a construir esta cidade, como a família Mamede que, já em 1842 instalou a Farmácia Mamede. Do velho mundo vieram os Justa; da França Henrique Cals e vindos da Alsácia-Lorena, os Gradvohl, os Boris e os Meyer, que tantos benefícios trariam à economia e à cultura cearense.


Extraído do livro ideal Clube, história de uma Sociedade
De Vanius Meton Gadelha Vieira  
fotos do Arquivo Nirez e FIEC   

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Inauguração do Cinema São Luiz

video

A inauguração do Cinema São Luiz foi um evento de porte em Fortaleza. Iniciada em 1938, a construção só foi concluída no final da década de 50. O Cine São Luiz teria sua inauguração solene a 26 de março de 1958, às 21h30min, apresentando o filme  Anastácia. 
Para a imprensa e alguns convidados especiais, a Empresa Luiz Severiano Ribeiro concedera o privilégio, dois dias antes da abertura oficial, de conhecerem o cinema, quando foi exibido o filme “Suplício de uma Saudade”. A inauguração oficial é mostrada nesse documentário feito pela Atlântida.  Reparem no aeroporto, nas autoridades da época, nos vestidos de noite, nos nomes em evidência e verão um recorte fiel da elite de Fortaleza de 1958. 



  

sábado, 2 de agosto de 2014

O Culto do Afrancesamento

O Hotel de France acompanhava a tendência de afrancesamento da época; o Passeio Público, que teve como modelo os  jardins públicos europeus, acolhia as elites da cidade.
 
Paris, capital do século XIX, segundo a expressão de Walter Benjamin, não só estava na moda como ditava modas para o mundo ocidental estabelecendo os modelos e figurinos a serem seguidos para se poder estar em dia com os novos tempos. E assim foi na Europa, em São Paulo, Rio de Janeiro e em Florianópolis. Em Fortaleza não foi diferente, seduzindo os novos grupos afluentes, ansiosos por novidades que lhes deleitassem e demarcassem a superioridade social e estética. O afrancesamento, sinal de prestígio e refinamento, tornou-se uma febre na capital, nas mais variadas formas e sentidos.

 Rua Major Facundo, esquina com a Guilherme Rocha anos 20. No local onde  funcionava o Café Riche hoje está o Excelsior Hotel.  

Era elegante utilizar termos e nomes franceses onde fosse possível. O caso mais evidente era o das próprias lojas que vendiam objetos de desejo mundano vindos de Paris. Assim, não era à toa que as mesmas passassem a ostentar títulos como Rendez-vous de Dames, Au Phare de La Bastille, Paris des Dames, Paris n’America, Bom Marché, Maison Moderne, Louvre; e também Hotel de France, Restaurant Entaminet Europeu, café Riche, Confeitaria Maison Art Nouveau, Notre Dame de Paris, além de Farmácia Francesa e Farmácia Pasteur. Em suas vitrines, o atraente acervo de artigos europeus constituídos de tecidos, sapatos, perfumes, chapéus, bijuterias, conservas, bebidas, maquinários e peças de automóveis.

Propaganda da Farmácia Pasteur, fundada em 1894 e vendida em 1905, para a empresa que fez esse anúncio

Havia no ofício de fotógrafo a superstição dos nomes franceses. Fotógrafo com nome nacional ficava sem trabalho. O velho e moreno Moura passou a ser Moura Quineau. O Eurico Bandeira transformou-se em Eurico Bandière.
Alguns casos de mudança de nomes nacionais por franceses não se deram por objetivos mercadológicos, mas pela espiritualidade popular que a tudo satirizava, e que não poderia deixar passar sem gozação, tamanha compulsão pelas coisas da França. Foram os casos do Bembém Garapeira, chamado de “Bien-Bien Garapiere” e do Dr. Aurélio de Lavor que se tornou “Monsieur Laveur”. 


 Garapeira do Bembém, localizada na antiga Praça Carolina e José de Alencar, atual Waldemar Falcão. foto de 1909.

Bembém era o proprietário de um quiosque de madeira no centro da Cidade que vendia garapa de cana-de-açúcar. Seu pequeno estabelecimento divertia o público pelas brincadeiras do seu dono e por conter coisas bizarras, como cabeças feitas pelo próprio garapeiro em quengas de coco. De tanto ouvir falar da França, o garapeiro passou a cultivar o sonho de conhecer Paris. Instruído por Alfredo Salgado, um dos mais ricos comerciantes da cidade, Bembém economizou dinheiro e um belo dia, para surpresa geral, viajou para a França. Seu relato da viagem é uma das mais hilariantes histórias que a Capital já ouviu. Quem conta é Otacílio de Azevedo, no seu “Fortaleza Descalça”.
Bembém foi e voltou radiante. Lamentava apenas ter ido tão tarde, não podendo assistir a decapitação de Maria Antonieta... Aquilo é que é cidade!, dizia entusiasmado. No hotel onde me hospedei fui obrigado a escrever meu nome. Como a língua era outra, escrevi: “Bien-Bien” e mais embaixo: Garapiere. E completava: Olha, lá eu só andava com um homem chamado Cicerone que falava Português como eu. Terra adiantada aquela: todo mundo falando francês, até mesmo os carregadores chapeados, as crianças e as mulheres do povo! Bembém não se cansava de falar da França e completava declarando que lá, a única palavra em português que ouvira fora “mercibocu”... a conselho de um intelectual perverso, mandou imprimir um cartão para distribuir com amigos e fregueses: 

 BIEN-BIEN – Garapière
Fortaleza – Ceará.

Já o caso do Dr. Aurélio de Lavor é uma ilustração contundente de que a mania de afrancesamento da época às vezes beirava o patético, e por isso mesmo, logo percebido e transformado em gozação pública. O médico em questão, após viagem à Europa, não descuidava de usar impecáveis fraques, calça listrada, sapatos de verniz e cravo branco à lapela. Seu exagero se completava com a compulsão de sempre falar em francês em qualquer conversação. Em face disso, o ferino jornalista João Brígido nas páginas do seu jornal Unitário resolveu mudar o nome de Aurélio de Lavor para Monsieur Laveur, alcunha pilhérica que ganhou fama na cidade.
No meio literário a admiração pela França também se fez presente, afinal era a pátria de escritores estimados pelos literatos brasileiros. Dentre os muitos literatos cearenses que cultivavam o encantamento francês, sobressaía-se Antônio Sales, um dos principais escritores do começo do século. Vibrava quando falava na França que era uma espécie de segunda pátria para ele.


Fachada da loja Torre Eiffel, localizada na Rua Major Facundo 88. Anos 20

Recitar versos em francês era comum nas rodas literárias, principalmente entre a jovem boemia literária que vigorou intensamente na cidade, perpetrando suas aventuras urbanas em cafés, tabernas, serestas, comícios e através de pequenos jornais que não cansavam de publicar e que, em geral não passavam do 3º número.
Nesse grupo uma dos que mais se destacou pela vivência boêmia foi William Peter Bernard, profundo conhecedor das obras de poetas franceses ditos malditos, como Baudelaire, Verlaine e Rimbaud. Figura singular, Bernard costumava andar arrastando um grande bode holandês, recitava poesias com ardor enquanto se embriagava nos cafés do centro e nas bodegas e botequins mais reles, quando o dinheiro escasseava.
Certa feita, ao se deparar com dezenas de flagelados da seca de 1915 em tumulto com policiais na praia, Bernard e seus companheiros promoveram uma passeata com os retirantes dali até a Praça do Ferreira, bradando “Pão ou Revolução”. Dela só desistiu quando veio o recado do Presidente do Estado de que as frentes de serviço na estrada de ferro estavam reabertas e que o Dispensário dos Pobres receberia verba especial para atender os retirantes. No dia seguinte foi intimado para ir prestar explicações à Polícia. 

 Restaurante do Clube Iracema, que funcionava no Palacete Ceará, atual Caixa Econômica, na Praça do Ferreira, década de 1920 

Todos esses indicativos de um forte referencial francês na constituição do comércio importador-exportador, no viver mundano, nas letras e ciências em Fortaleza, consubstanciam aspectos da ardente vontade de instaurar na Cidade uma nova ordem sócio-urbana, onde as classes dominantes pudessem auferir os benefícios de uma sociedade produtiva, aformoseada, civilizada e higienizada. O afrancesamento foi, nessa perspectiva, uma vivência e uma das frentes  de persuasão tentadas para romper com a tradição e o provincianismo da cidade.

Extraído do livro
Fortaleza Belle Epoque reformas urbanas e controle social – 1860-1930
De Sebastião Rogério Ponte
pesquisa:
Cronologia Ilustrada de Fortaleza
de Miguel Ângelo de Azevedo
fotos do Arquivo Nirez
    
  

quinta-feira, 31 de julho de 2014

A Influência dos Estádios de Futebol

video

Quando o Estádio Presidente Vargas foi inaugurado em 1941, era chamado de Estádio Municipal, e podia receber cerca de 6,5% da população de Fortaleza, ou seja, 12 mil dos 182 mil habitantes.
Quando surgiu em 1973, o Castelão era capaz de reunir uma percentagem um pouco menor da população: 5,8%, pois o estádio tinha capacidade para 70 mil lugares, enquanto 1,2 milhões de pessoas já moravam em Fortaleza. As duas construções consideradas monumentais para o porte da capital cearense ao seu tempo, impressionaram muita gente. Tanto que para alguns memorialistas, os dois estádios causaram uma intervenção urbana sentida até os dias de hoje.

Estádio Presidente Vargas na década de 40 (Arquivo Nirez)

O bairro em que  foi construído o Estádio Plácido Aderaldo Castelo – Castelão, recebeu também o nome de Castelão. Com a sua inauguração, apareceu toda uma comunidade no entorno, formada por gente que de alguma maneira tentava sobreviver com a maior exposição daquela área, de acordo com o pesquisador Cristiano Câmara.
Antes da construção do estádio, cujas obras duraram quatro anos, a região se chamava Boa Vista, mas também era conhecida pelo nome original, Mata-Galinha.

 Castelão no dia da inauguração (postal da época)

O terreno de 25 hectares (500x500 metros) em que foi erguido foi desapropriado da Santa Casa de Misericórdia pelo Governo do Estado. A construção no local rendeu muita polêmica na época, já que ficava muito distante do centro. Pelo esforço empreendido pelo governador Plácido Castelo (1966-1971), o estádio recebeu seu nome.
Há quem discorde, no entanto, que o surgimento de estádios tenha causado alguma influência na formação urbana de Fortaleza. Para o professor Liberal de Castro, a única coisa que o Castelão fez foi acelerar a construção e a pavimentação de vias que dão acesso ao estádio, como as Avenidas Silas Munguba (antiga Dedé Brasil), Paulino Rocha e Alberto Craveiro.


Extraído da Revista Fortaleza, fascículo 8, de maio de 2006