sexta-feira, 23 de junho de 2017

Quando Fortaleza ficou refém dos Rabos-de-Burro


Praça do Ferreira com o Abrigo Central e o Edifício São Luiz em construção. Assim era a praça no tempo dos rabos-burro.


Na então pacata Fortaleza do início dos anos 50, que contava menos de 300 mil habitantes, a bebida da moda era Ron Montila com Coca-Cola, dançava-se ao som do bolero e da música romântica em geral. Muitas paixões, encontros e desencontros, marcaram as idas e vindas do agregado familiar nos clubes, em busca de diversão, desafogo e sobretudo, de romances e casamentos. Num tempo de tanto romantismo, a cidade deparou-se com um fenômeno de violência urbana absolutamente discrepante de sua existência tranquila.

Nessa época, a população assistiu estarrecida o surgimento de um bando de desordeiros que ficariam conhecidos por “rabos-de-burro”, jovens endiabrados e rebeldes, pertencentes às classes média e alta. Os rabos-de-burro perturbavam as festas, os cabarés, o trânsito. Ostentavam lambretas e carrões da moda importados, que o Brasil ainda não tinha indústria automobilística.

A ação desses desordeiros não representava nenhum movimento de contracultura ou rebeldia sem causa, era apenas e simplesmente, molecagem de “filhinhos de papai”, insubmissos às regras do ordenamento social e policial do seu tempo.

Famílias atingidas buscavam sem êxito, a proteção policial. Os “meninos” de luxo, fortes, saudáveis, bonitos e em sua maioria ricos, pertenciam a classes abastadas, andavam em reluzentes cadilacs, que fascinavam as moçoilas do seu mesmo estamento social e varavam os quatro cantos da cidade na prática dos mais absurdos e inacreditáveis desmandos.

Enquanto a maioria, temerosa e impotente se encolhia; enquanto os pais de família da burguesia, minimizava e acobertava a ação de seus filhos marginais; enquanto a Polícia e a justiça revelavam sua face ostensivamente classista, os “meninos” avançavam mais e mais em suas arruaças.

Já não mais se limitavam às perturbações que promoviam nas famosas "sessão das quatro" do Diogo, ou das ruidosas matinês do Cine Rex, na Rua General Sampaio. Ao contrário, eles atuavam com uma crescente violência: acabavam com festinhas de 15 anos, entrando como penetras, na marra, afrontando e agredindo os donos da casa e seus convidados, truncavam sessões de cinema com sua algazarra, jogavam seus automóveis sobre logradouros públicos, inclusive em plena Praça do Ferreira. Batiam e feriam desafetos nas pensões alegres, costumeiramente depredadas por eles, de modo particular a Gaguinha, a Santa e a Margô, as mais elegantes daquela fase de Fortaleza. 

prédio da antiga Escola Normal atual Colégio Justiniano de Serpa


Alunas de estabelecimentos de ensino tradicionais como Escola Normal, Colégio da Imaculada Conceição e outros viviam em polvorosa diante da possibilidade de serem vítimas do próximo ataque. A preocupação dos pais com a segurança das filhas era constante.

Em 1954 uma vereadora pedia uma resposta concreta da policia ao terror implantado na cidade pelos chamados rabos de burro, especialmente com relação aos estabelecimentos de ensino mais atingidos por esses indivíduos.

Ninguém estava livre da sanha dos desordeiros: certa noite, no auge da movimentação das quermesses da Igreja de São Benedito – festa ao ar livre promovida pelas igrejas em datas festivas – aportou uma turma de rabos-de-burro, chefiada por um elemento dado a arruaças, valentão e perigoso, mas que exercia indiscutível liderança entre os que, como ele, se dedicavam a desordens e confusões. Tratava-se de um jovem de classe média alta, filho de um empresário.

À chegada deles se instalou o caos. Praticaram toda sorte de desmandos. Quebraram mesas e cadeiras, agrediram rapazes, desrespeitaram mulheres e crianças e os que tentavam contê-los em sua fúria. Como sempre acontecia quando eles chegavam, a festa acabava.

Os fatos de tal gravidade, começaram a ganhar espaços nos jornais, a princípio através de tímidas notinhas na seção de queixas e reclamações, depois em registros de notícias policiais.

Em outra ocasião, os baderneiros promoveram um violento quebra-quebra no boate Tabariz, casa noturna localizada na Praia de Iracema, que costumava receber figuras de certa expressão social na cidade. Os rabos-de-burro resolveram destruir a conhecida casa noturna. Não deixaram nada em pé, bateram forte em homens e mulheres, num desvario realmente estarrecedor. 

A Boate Tabariz funcionava na Avenida Pessoa Anta, 120, na Praia de Iracema. Era de propriedade do famoso Zé Tatá, alcunha de José Vicente de Carvalho 


A destruição da Tabariz chegou às manchetes dos jornais, ao noticiário das emissoras de rádio. E a partir daquele acontecimento, os jornais, especialmente os da rede “Associada” – Correio do Ceará e Unitário – decidiram declarar guerra aos delinquentes grã-finos. A questão tornou-se assunto diário, obrigatório das folhas, e o Correio do Ceará escalou alguns dos seus melhores repórteres para escrever matérias de profundidade, uma espécie de jornalismo investigativo, denunciando as ações das quadrilhas e exigindo ação das autoridades policiais que continuavam omissas.

O acobertamento das desordens, a omissão da polícia (havia ao que se sabe, relações de parentesco entre altas autoridades e membros das gangues de rabos-de-burro), e a impunidade assegurada provocaram a proliferação desses bandos. Surgiram outros, autênticas quadrilhas – genericamente cognominados de rabos-de-burro: desordeiros da Aldeota, do Jacarecanga, do Benfica, do Alagadiço, de toda parte, vinham se agregar ao grupos do “Pinduca”, do “Cabeção” e de outros chefetes da malta de delinquentes milionários que infernizavam a vida citadina.

Os desmandos dos rabos-de-burro atingiram seu clímax com o espancamento e morte de um rapaz em plena praça do Carmo. O moço desafiara a truculência do bando e foi covardemente assassinado. Trata-se de um bancário chamado Vanir, e o crime obrigou a polícia a agir com mais rigor na realização do inquérito, de modo a punir os autores. Três ou quatro arruaceiros acabaram condenados a penas relativamente suaves, de dois a três anos, recuperando cedo a liberdade. 

A ação foi arrefecendo e teve, mais tarde, um desfecho trágico: um dos principais líderes daquela turma de baderneiros viria a ser morto num manhã de Domingo na Praia de Iracema, vítima da vingança de outro jovem, que horas antes ele havia surrado num cabaré. Aquele fato, já no ano de 1957, marcaria o fim da carreira de violências de um numeroso grupo de jovens bem-nascidos, que tiveram um período de vida assinalado pela turbulência de suas ações. 

Fontes:
Girão, Blanchard. Sessão das Quatro cenas e atores de um tempo mais feliz. ABC: Fortaleza, 1998.
JUCÁ, Gisafran Nazareno Mota. Verso e reverso do perfil urbano de Fortaleza (1945-1960) São Paulo: Annablume; Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará, 2000
fotos IBGE, Anuário do Ceará e Arquivo Nirez


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Ceará, Molecagens e Tipos Populares

Rua Major Facundo - trecho Praça do Ferreira - início do século XX

Nas primeiras décadas deste século, Fortaleza conheceu e vivenciou muitos tipos populares, figuras curiosas que desfilaram pelas páginas de cronistas da época e que fizeram parte da história jocosa do Ceará. 

A notoriedade dessas figuras singulares advinha de várias razões: uns se destacavam pelos adereços e indumentárias, outros pelas atitudes estranhas e anomalias de comportamento. Eram sempre pessoas sui generis que despertavam a atenção por suas excentricidades. Sua presença em público, era de imediato, motivo para aglomeração ou cortejos, que não raro, terminavam em aplausos ou vaias. Pessoas de destaque e molecada misturavam-se geralmente em torno desses personagens, que saíam pelas ruas e praças, passeando sua descontração, sua esquisitice. Alguns reagiam enraivecidos, coléricos, apopléticos; outros passavam sobranceiros, garbosos, indiferentes.

Orgulha-se o Ceará de três coisas que Deus lhe deu: a inteligência, o sol e a molecagem. Essa última dádiva é como que a sua filosofia de vida ”de tanto não ter pena de si mesmo em face da sina ou da sorte o homem (cearense) acaba por não ter comiseração para com o seu semelhante. De tanto testemunhar a própria dor, o homem passa a observar a dor alheia e descobrir facetas cômicas” – diz Abelardo F. Montenegro.

O Cruzeiro da Sé era o palco de um desses tipos estranhos, o  Tertuliano. O homem usando vestes talares, escalava o cruzeiro da catedral, onde se amarrava de braços estendidos, a fingir o Cristo no Calvário. Não havia jeito de tirá-lo de lá, onde permanecia horas a fio.

Foi essa concepção filosófica que popularizou vasto elenco desses vultos de rua: Chagas dos Carneiros, chapelão de palha, monarquista ferrenho, sempre acompanhado de três carneiros pintados de anilina; José de Sales, excêntrico, de jaquetão avermelhado, empunhando seu bandolim; Bem-Bem, com a garapeira, de cujo teto pendiam grotescas esculturas feitas por ele mesmo,  de quengas de coco; o negro Mestre Arcanjo, velho sapateiro, extraordinariamente trapalhão; o hilariante Chico Coruja que todo dia tinha uma anedota nova para contar; o Casaca de Urubu, gritando palavrões e se esmurrando; o De Rancho, que portava uma carabina enferrujada e se achava constantemente em pé de guerra; Capitão Pirarucu, brandindo a bengala, empregando a rima que todos já esperavam; Tertuliano, metido em indumentária de profeta, considerando-se um enviado de Deus; Fabrício, o calendário o ambulante; o mendigo Tostão; o Jararaca, o Pilombeta; o Zé Levi... 

O Zé Levi ocupava o coreto da Praça do Ferreira, onde pronunciava inflamados discursos, com palavras desconexas, que faziam a festa dos desocupados que paravam para ouvi-lo.

As mulheres também compareciam na lista das excêntricas criaturas que faziam a alegria e a festa do Ceará Moleque: Mimosa, Noiva do Tempo, Teodora, Chica Pinote, Iaiá-tem-ovos, Mucurana, Ferrugem...

Até animal, nesta terra descontraída e galhofeira, ganhou foros de popularidade: o bode Ioyô. Era uma espécie de mascote da capital, uma figura obrigatória na pacatez da cidade provinciana. Todos o estimavam. Inclusive os fiscais da prefeitura tinham recomendação para não o importunar. Perambulou imune e admirado, de 1915 a 1931. Ao morrer, teve seu necrológio estampado em jornais e seu corpo embalsamado. A cidade era pródiga em tipos populares: tinha para todos os gostos, para os da intelectualidade e os do canelau.

Manoel Cavalcante Rocha, jocosamente conhecido pela alcunha de Manezinho do Bispo, pernambucano, nascido em 12 de maio de 1856, porteiro por muitos anos do Palácio Episcopal, foi uma das figuras mais curiosas e populares da Fortaleza antiga.

Nesse cenário de irreverência e galhofa, o personagem talvez mais relevante, que desfrutou de larga popularidade por mais de 30 anos, notadamente no meio cultural, foi o Manezinho do Bispo. Vestia-se com um paletó preto-cinza de alpaca que lhe alcançava os joelhos e que deixava aparecer os longos punhos da camisa outrora branca. Nos bolsos do jaquetão, verdadeiros alforjes, folhetos e jornais. Tinha seus escritos publicados na seção Ineditoriaes, do Jornal Correio do Ceará. Quando M.C. Rocha não escreve – diziam – o jornal não vale um vintém.

A filosofia da gozação é que empurrou, com a barriga do sadismo, o Porteiro do Palácio Episcopal para a linha de frente do folhetinismo, das colunas dos jornais e dos auditórios transformando-o em figura notória.

Hoje, mudaram-se os parâmetros de julgamento em que se apoiam as pessoas para aferir popularidade. Fortaleza cresceu, e na obesidade populacional de mais de 2,5 milhões de habitantes, não há mais lugar para esse tipo de humor.


Extraído do livro
O Porteiro do Palácio (ou as estripulias literárias do Manezinho do Bispo), de Waldy Sombra


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Histórias de Cinema


 
Desde a evolução do cinema como sétima arte até o apagar das luzes da década de 1940, o maior exibidor cinematográfico do país era o cearense Luiz Severiano Ribeiro, dono de uma poderosa cadeia de salas exibidoras espalhadas por todo o país, principalmente no Rio de Janeiro, então Capital Federal.

Em Fortaleza, à exceção de duas ou três salas pertencentes a irmandades religiosas, todos os cinemas eram monopólio da Empresa Ribeiro, que contava com mais de duas dezenas de cinemas em nossa capital; a Severiano Ribeiro reinava absoluta, sem concorrência que a incomodasse.
Pouco a pouco os seus concorrentes, inclusive os cinemas de bairros conhecidos como “poeiras” foram sendo eliminados pelo poder de expansão do grupo. A empresa de Clóvis Janja mantinha os cinemas Rex - que fechou e foi reaberto anos mais tarde pela Empresa Severiano Ribeiro - o Odeon, na Praça de Otávio Bonfim  e o Santos Dumont. O Cine Diogo que era considerado o mais luxuoso da cidade,  também foi adquirido pelo grupo Severiano Ribeiro. Antes, do Diogo, o Majestic fora a atração dos que buscavam diversão. Tornara-se conhecido como cinema popular e por isso, proporcionava boa renda. Era bastante quente, principalmente durante o dia, pois não dispunha de ventiladores. 

Cine Diogo na Rua Barão do Rio Branco

O Moderno, também pertencente ao grupo, inaugurado 4 anos depois do Majestic, também era bastante frequentado e dispunha de ventiladores, mas  em pequeno número. O Diogo na sua fase inicial dispunha de boa ventilação, mas posteriormente, só se fazia sentir no trecho próximo a tela, local que passou a ser disputado pelos espectadores.

Fora do centro, havia ainda alguns poucos cinemas que atendiam os bairros, como o Cine Familiar, no Otávio Bonfim, o Benfica, na Avenida Visconde de Cauipe e o América, com fundo correspondente ao Colégio Juvenal de Carvalho, no Jardim América.

A esperança de modernização dos cinemas de Fortaleza se concentrara na inauguração do Cine São Luiz, cujo edifício fora iniciado desde o final da década de 1930. A demora no andamento da obra repercutia nas discussões da Câmara Municipal, de onde partiam requerimentos solicitando aceleração das obras. A polêmica acerca da lentidão em se concluir o cinema ampliava-se através dos jornais. O prédio inacabado era tido como “o aleijão que enfeia a Praça do Ferreira”. A critica lembrava o contraste entre a exigência de concessão de licenças para que as residências fossem pintadas, enquanto o amontoado de material de construção permaneceu cercado, durante anos, no centro da cidade.

Cine Cristo-Rei na Avenida Santos Dumont 

No interior dos cinemas, a molecagem da plateia constituía-se motivo de preocupação frequente da Polícia, que chegou a organizar uma campanha de vigilância: “já se pode assistir a uma fita sem ouvir as piadas de mau-gosto, os gritos e assobios. Ontem, onze pessoas foram presas acusadas de promover anarquia”. A ação repressora da polícia também recebia apoio da Câmara Municipal, que se preocupava com a falta de decoro de ocorria nos cinemas da cidade, “onde atuam pessoas mal-educadas e moleques”. O vereador Manoel Lourenço solicitara ao secretário de Polícia para intensificar o policiamento dos chamados cinemas elegantes, a fim de por termo a molecagem que se observava principalmente aos domingos.  

O depoimento de frequentadores assíduos dos cinemas, revelava os problemas enfrentados por eles, alguns bastante curiosos, que ultrapassavam as costumeiras reclamações contra o calor ou condições inadequadas. Em 1951, um dos impasses enfrentados prendia-se ao final das projeções. A pressa da plateia inquieta, em retirar-se do cinema ao final da exibição: “ os mais apressados se levantavam, levando outros espectadores a fazerem o mesmo. Por isso, muitos fãs de Ingrid Bergman não puderam ver os momentos finais do filme “Sob o Signo de Capricórnio”. 

Rua Barão do Rio Branco com o edifício Digo em 1939

Em fevereiro de 1950, os alicerces da possante indústria foram abalados com a inauguração do Cine Jangada, que veio quebrar o monopólio do grupo já consolidado. Idealizado pelo  empresário Amadeu Barros Leal, o Cine Jangada era na verdade a primeira de treze salas de exibição  que deveriam ser implantadas em Fortaleza pela Empresa Cinematográfica do Ceará (CINEMAR).

Funcionando numa sala adaptada, estreita e comprida, o Cine Jangada não tinha decoração requintada nem os luxos dos concorrentes. A única originalidade ficava por conta da sala de espera, que ficava localizada nos fundos. Na verdade, nem era uma sala, era um terraço-jardim com bancos e palmeiras. Ali também ficavam os sanitários.

Sem hall para as bilheterias, estas foram montadas logo à frente, quase na rua, e os espectadores, tão logo entravam no cinema, já estavam dentro da sala de projeção, e de frente para o público. A tela, portanto, servia de fundo para as bilheterias e para o painel de cartazes. Era exigido aos homens, o uso de paletó e gravata, a exemplo do que já fazia o sofisticado Cine Diogo.

edificio São Luiz, em construção na Praça do Ferreira

Em 1957 o prédio do São Luiz ainda em construção era visita obrigatória de muitas pessoas que frequentavam o Centro. Em fase de acabamento, o prédio atraía curiosos que comentavam admirados sobre os detalhes da construção: a sala de projeção com pintura em alto relevo, tapetes, lustres, paredes e pias de mármore. O São Luiz foi finalmente inaugurado com grande solenidade e a presença muitos convidados, no dia 26 de março de 1958.

fontes:
Fortaleza: cultura e lazer (1945-1960) de Gisafran Nazareno Mota Jucá
Os Dourados Anos, de Marciano Lopes 
fotos do arquivo Nirez

terça-feira, 30 de maio de 2017

Santa Casa da Misericórdia


A Santa Casa da Misericórdia é uma instituição internacional, fundada em 15 de agosto de 1498 em Portugal, pelo monge Frei Miguel de Contreiras, da Ordem da Santíssima Trindade e Redenção dos Cativos de Portugal, com o apoio da rainha Dona Leonor de Lencastre, a qual em 1508, doou seus próprios bens para constituir o patrimônio da instituição.

Em Fortaleza, a ideia da criação foi lançada em 1839, pelo bispo de Recife e Olinda em visita a Fortaleza, Dom João da Purificação Marques Perdigão. A ideia não vingou. Em 1845 o presidente da Província Inácio Correia de Vasconcelos, após receber ajuda da sociedade para tal, ordenou a construção de um hospital no Largo do Paiol, em terreno doado por Dona Maria Guilhermina Gouveia. O início da obra só aconteceu em 1847, sob a responsabilidade do boticário Antônio Ferreira, presidente da Câmara dos Vereadores e Intendente Municipal e uma comissão formada pelos comendadores Joaquim Mendes da Cruz Guimarães, Antônio Telles de Menezes e João Batista de Castro e Silva.

Avenida Caio Prado, com o prédio da Santa Casa ao fundo. Nessa época o prédio tinha apenas um pavimento. Foto de 1908

O prédio foi concluído com apenas um andar, e denominado Hospital da Caridade, contando 80 leitos; mas passou muito tempo sem ser utilizado por falta de material e condições de funcionamento. Enquanto isso o presidente da Província autorizou a cessão de salas e enfermarias para o Liceu do Ceará, que permaneceu ali até 1861. 

A história do hospital só começou realmente em 1860, quando foi autorizada a criação e a instalação da Irmandade da Misericórdia. Foi a associação religiosa de maior importância durante o império, tendo à frente o Presidente da província como provedor e congregando a elite fortalezense.Assim o Hospital da Caridade foi inaugurado no dia 14 de março de 1861, sob o comando da Irmandade da Misericórdia, com a denominação de Santa Casa da Misericórdia.

Em 1869 foi assinado contrato com as Irmãs da Ordem das Vicentinas do Rio de Janeiro, as quais cuidariam dos serviços de enfermagem, cozinha, limpeza e outros; as primeiras freiras Vicentinas chegaram em janeiro de 1870.

Além das funções hospitalares, a Santa Casa da Misericórdia era a administradora do Cemitério São Casimiro, e do seu sucessor, o Cemitério São João Batista. A partir de 1876 passou a administrar os serviços funerários da cidade, com os rendimentos revertidos para a construção do Asilo de Alienados, para atender os loucos que perambulavam pelas ruas de Fortaleza, sem lar e sem nenhuma assistência.


O Asilo de Alienados São Vicente de Paulo foi construído em 1886, na distante Vila de Arronches (atual Parangaba) e abrigava doentes mentais de ambos os sexos, vindos de vários lugares do Estado, tanto da Capital quanto do Interior. Hoje se chama Hospital Psiquiátrico São Vicente de Paulo e é administrado pela Santa Casa da Misericórdia até os dias atuais. 

O primeiro médico a prestar serviços na Santa Casa foi o Dr. Joaquim Antônio Alves Ribeiro, formado pela Universidade de Harvard, na Inglaterra, em 1853, nomeado no dia 12 de março de 1861. Pertencia à família Mendes da Cruz Guimarães, e era casado com sua prima Adelaide Smith de Vasconcellos, irmã do 2° barão de Vasconcellos.


Outro médico da mesma família foi o Dr. Antônio Mendes da Cruz Guimarães, filho do Comendador Joaquim Mendes da Cruz Guimarães. Formado em Medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro. Antônio Mendes foi médico da Santa Casa de Misericórdia, ingressando em 1873.

Após a nomeação de Joaquim Antônio Alves Ribeiro, outros médicos assumiram cargos na Santa Casa, durante os três primeiros decênios de seu funcionamento, como Meton da Franca Alencar (que atendia também no Asilo São Vicente de Paula) e João da Rocha Moreira. A partir dos anos 1880, foram nomeados os médicos João Guilherme Studart, Joaquim Antônio da Cruz, José Pacífico da Costa Caracas, Francisco Peregrino Viriato Medeiros, Pedro Augusto Borges, Guilherme Studart (Barão de Studart) e Helvécio da Silva Monte.

A partir de 1890 registram-se os nomes de João Marinho de Andrade, José Lino da Justa, Eduardo da Rocha Salgado, Antônio Pinto Nogueira Brandão, Duarte Pimentel, Gentil Pedreira, Venâncio Ferreira Lima, e Joaquim Anselmo Nogueira, admitido em 1899.


A partir de 1915 a Santa Casa deixa de ser tutelada pelo Estado, passando à condição de autônoma sob o patrocínio do Arcebispo de Fortaleza. A nova situação da entidade fez com que a confraria passasse a solicitar ajuda da sociedade, tendo sido criada nessa ocasião, pela Câmara Municipal, a Taxa de Caridade – cobrança de 10% do valor dos ingressos vendidos nas casas de diversão. Esse vínculo com a arquidiocese de Fortaleza durou até 1971.

Nesse mesmo ano a entidade teve o número de pacientes triplicado em razão da grande seca de 1915, quando passou a atender retirantes vindos do interior do Estado. Em 1920 a Santa Casa mandou demolir metade do prédio antigo e construir outro, de 2 pavimentos.

A Santa Casa da Misericórdia foi durante muito tempo o único hospital de Fortaleza. Atualmente, apesar de ser o maior hospital filantrópico do Estado, vive de doações e repasses do SUS, que paga valores muito defasados pelos procedimentos realizados na instituição. Só em 2016, foram 35 mil atendimentos na emergência e mais de 50 mil consultas ambulatoriais. Por isso, a instituição precisa de ajuda financeira.


A Santa casa da Misericórdia fica na Rua Barão do Rio Branco, (a antiga Rua Formosa) s/numero, Centro de Fortaleza. 

fontes: 
Caminhando por Fortaleza, de Francisco Benedito
Ideal Clube - história de uma sociedade de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos:  arquivo Nirez e Fortaleza em Fotos


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Colégios Desativados de Fortaleza


Os excelentes resultados obtidos pelos colégios particulares de Fortaleza em olimpíadas de ciências exatas e os altos índices de aprovação em vestibulares difíceis, como o do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), um dos mais concorridos do País, impressionam. Os números colocam o ensino privado da capital cearense entre os melhores do País. O talento para aprovar, contudo, é bem menor do que o talento para administrar.


 Só nos últimos dez anos, nada menos de 2262 escolas de ensino básico foram à falência no Ceará - uma média de mais de 200 por ano. Em Fortaleza está a maior parte desses estabelecimentos: 1318. Essas empresas sucumbiram diante da concorrência acirrada, do alto índice de inadimplência e da alta carga tributária, mas, principalmente, pela falta de habilidade para gerir seus negócios. Alguns deles: 

Colégio Evolutivo 


Surgiu em 1980 com o nome de Colégio Positivo, e passou a ser Colégio Evolutivo, em 1992. Chegou a ter nove sedes em Fortaleza e 15 mil alunos no mesmo ano. Após 32 anos de serviços prestados à comunidade, o Colégio Evolutivo chegou a representar um dos maiores grupos educacionais do Estado, se destacando no cenário local pela ampla oferta de bolsas e preços mais acessíveis que os praticados pelo mercado da época. A instituição fechou as portas em 2012, alegando dificuldades financeiras. Os prédios que abrigaram os colégios tiveram destinos diferentes. Alguns foram transformados em outros estabelecimentos comerciais, e outros, como a sede da Parangaba, agora abriga uma faculdade. 

Colégio GEO 


Com sedes espalhadas por mais de cinco bairros da Capital, além de cidades do interior do Ceará e de outros estados, a rede GEO foi referência na educação privada do Estado, de 1979  até o início dos anos 2000. As escolas com estrutura de clube e com oferta de diversas atividade extracurriculares atraíram mais de 5 mil matrículas, em balanço parcial. Após o fechamento, também motivado por questões administrativas, as unidades foram vendidas e transformadas em outras escolas. A sede Dunas, uma das maiores da rede, foi transformada em Faculdade. 

Colégio Agapito dos Santos 


Estava localizado na Avenida Tristão Gonçalves, 1409, propriedade dos professores Mozart Sobreira Bezerra, Lauro de Oliveira Lima e Ivan Vieira Ramos.  Foi oficialmente extinto em fevereiro de 2006. De acordo com documento oficial do Conselho de Educação do Ceará, a escola era de “grande tradição” no Ceará, dirigida por Lauro de Oliveira Lima. 

Colégio Cearense


O Colégio Marista Cearense Sagrado Coração foi fundado no dia 4 de janeiro de 1913. Funcionou inicialmente na Rua da Amélia n° 146 (atual Rua Senador Pompeu), Rua 24 de Maio e na Praça José de Alencar, onde depois esteve a Rádio Iracema. Mais tarde mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco, no local onde hoje está o edifício Diogo. Por fim, em 1917, foi para o prédio próprio na Avenida Duque de Caxias. A partir de 1916 a administração do Colégio Cearense passou para os Irmãos Maristas. Na década de 80, os estabelecimentos de ensino, dirigidos por religiosos, viveram seus melhores dias, com grande procura por vagas, em razão da excelência do ensino que ofereciam.  O Colégio Marista Cearense ficou pequeno para comportar tantos alunos, eram 4.500, divididos em três turnos. A partir dos anos 2000, tudo mudou:  o aumento da inadimplência, a redução de matrículas, o surgimento de grandes conglomerados educacionais, que tornaram a educação um ramo de negócio altamente rentável, determinaram o fechamento de outros colégios religiosos e comprometeu o futuro do Colégio Cearense, que encerrou suas atividades no dia 31 de dezembro de 2007. 

Ginásio Capistrano de Abreu/Colégio Zênite 


Localizado na Rua Luís de Miranda, no Benfica. Consta que o prédio onde funcionou o antigo ginásio, era uma propriedade rural denominada Sitio Barro Preto, propriedade do Coronel Antônio Felinto Barroso, pai do escritor Gustavo Barroso. O escritor vinha de sua residência urbana, na Rua Formosa, de bonde de burro, descia na Fundição Cearense e caminhava até essa casa de campo, rústica, em terreno arborizado, de onde saía a passear montado no seu cavalo predileto, exibindo-se pelo centro da cidade e indo até a praia. O Colégio Capistrano de Abreu foi criado em outubro de 1966 e posteriormente, passou a chamar-se Colégio Zênite. Com única sede, situada no bairro Benfica, o colégio Zênite encerrou as atividades em 2012.  O prédio, que foi vendido para outro grupo escolar, faz parte da história do bairro universitário. 

Colégio Tony 

Surgiu nos anos 70, como um cursinho de matemática preparatório para vestibulares, cujas aulas eram ministradas pelo próprio professor Tony.  A Rede de Ensino Tony, também ficou conhecida em razão desses cursos preparatórios para vestibular e concursos, teve grande destaque no mercado local até a primeira metade dos anos 2000. Com sedes em vários bairros, a instituição foi responsável pela formação de mais de 5 mil alunos por ano. 

Colégio Júlia Jorge 


O colégio foi inaugurado no dia 24 de junho de 1966, com a presença do presidente da República, do Governador do Estado, e outras autoridades. Foi instalado na esquina das ruas General Piragibe com a Azevedo Bolão. Estabelecimento de ensino da rede cenecista, o Júlia Jorge foi a grande opção de escola de boa qualidade para moradores dos bairros da Parquelândia, Parque Araxá, Monte Castelo e vizinhanças.  Em 2007, fechou, encerrou as atividades, segundo dizem, por falta de alunos. Depois, o prédio foi vendido a uma imobiliária, e logo começou a ser demolido. No local, foram construídos vários edifícios residenciais. O mesmo destino teve o Colégio João Pontes, também da rede cenecista, localizado no bairro do Jacarecanga, à rua Antônio Bandeira, n° 50. 

Colégio Redentorista


Localizado no bairro Rodolfo Teófilo, a instituição foi administrada por padres da Congregação do Santíssimo Redentor, mais conhecidos como redentoristas. Com o fechamento do colégio, o prédio abrigou outra instituição escolar. O prédio onde funcionou o colégio foi erguido em 1963, na rua Delmiro de Farias, 900, no bairro Rodolfo Teófilo, por missionários redentoristas para abrigar, a princípio, confrades em Fortaleza. Em carta enviada ao Provincial, o Padre Jaime detalhava a casa a ser construída: “Devido ao clima daqui, é necessário ter chuveiros nos quartos. Os corredores dos dois lados dos quartos também são necessários por causa do clima. Em algumas partes do mosteiro, haverá combogó”. O Colégio Redentorista foi fundado em 1966 e funcionou até 1999. 

Colégio das Doroteias 


Em 1915, o Colégio N. S. do Sagrado Coração – das Irmãs Doroteias – instalou-se em edifício próprio na Avenida Visconde do Rio Branco, com grande prestigio na cidade. A criação deveu-se a recomendação de D. Manuel da Silva Gomes, o terceiro bispo do Ceará e o primeiro arcebispo metropolitano de Fortaleza. Sua direção foi entregue às Irmãs da Congregação de Santa Doroteias, e construído de acordo com quatro referenciais importantes, nesse momento, para a educação da elite feminina do Ceará: os ideais católicos; os pressupostos patrióticos baseados na República recém instaurada; preparação para o casamento, à família e o lar e, por fim, a criação de um ambiente condizente com o bem-estar saudável e civilizador oferecido pela arquitetura monumental do prédio que se estabelecera. 

Colégio General Osório


Quando foi fundado em 1970, era o Curso General Osório, um preparatório para exame de admissão ao Colégio Militar. Seu diretor, Major Asthon, animado com os resultados alcançados pelos seus alunos, decidiu fundar o colégio. Em maio de 1971 iniciou as quatro primeiras séries, e gradativamente, foi implantando novas turmas, até ser transformado em escola de 1° e 2°graus. Ficava na Avenida Santos Dumont. 

Colégio São João


O Colégio São João surgiu em 1930, sob direção do professor César Adolpho Campello, e patrocínio de seu cunhado João da Frota Gentil e instalou-se na antiga Villa Adolpho Quixadá, na Avenida Santos Dumont. O imóvel foi construído por Adolfo Quixadá e foi utilizada como residência dos presidentes de Estado. Em 1976 o colégio foi vendido para a Organização Farias Brito. 

Colégio Stella Maris


 foto de Erikson Salomoni 

O Colégio Stella Maris, foi fundado em 1952, uma cinquentenária instituição educacional, responsável pela educação de milhares de membros da elite da sociedade cearense. Com o encerramento de suas atividades, o respeitado Colégio fechou sua sede, localizada à Rua Antônio Justa. O prédio foi demolido. 

Colégio Salesiano Dom Lustosa 

A escola da rede salesiana, localizada na Avenida João Pessoa, foi declarara extinta em 07 de junho de 2013. O prédio que abrigava a instituição foi vendido ao SESC/Ceará. 

Colégio Santa Maria Goretti 

O Colégio Santa Maria Goreti, instituição ligada às irmãs de caridade da ordem das Vicentinas,  foi construído na Avenida do Imperador, com entrada pela Avenida Domingos Olímpio, em terreno doado pelo bispo Dom Manuel da Silva Gomes. Fazia parte da mesma entidade mantenedora do Patronato Nossa Senhora Auxiliadora (também extinto) e a Escola Doméstica São Rafael, atual Colégio São Rafael. O Santa Maria Goretti encerrou as atividades em 2004.

fontes: Jornal O Povo, Verdinha, Diário do Nordeste, IG-Último Segundo, Wikipédia 
fotos Anuário do Ceará,O Povo, Verdinha, Portal IG