sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Fortaleza no Tempo dos Bondes

Em 1880 Fortaleza começava a tentar se recuperar das consequências de uma das maiores secas da história do Ceará, a de 1877/1879. Nessa época era impossível se determinar o número de moradores da cidade, por conta da enorme população flutuante que se encontrava na capital, ainda em decorrência da tragédia provocada pela estiagem prolongada. Muitos que estavam em Fortaleza, voltariam mais tarde para seus locais de origem; outros permaneceriam aqui. Em meio a esse cenário de muitas dificuldades, a cidade ensaia seus primeiros passos visando a superação dos problemas advindos com a seca. 

A primeira grande conquista do período pós estiagem foi a inauguração do transporte coletivo urbano. Os bondes começaram a circular em Fortaleza no dia 25 de abril de 1880, num empreendimento de propriedade do Coronel Tomé A. de Mota, denominada Companhia Ferro Carril do Ceará. Eram 25 veículos, de 25 lugares cada um, movidos a tração animal, que cobriam 4.210 metros de percurso, contemplando inicialmente, as linhas do Matadouro e da Estação. Com o tempo, novas linhas foram ativadas.

Dirigidos por um boleeiro, e puxados por dois burros, os bondes trafegavam quase o dia inteiro, das 6 da manhã às 9 da noite. Partiam da Praça do Ferreira para todas as linhas. O último deixava a praça ao tocar a corneta nos quartéis anunciando o recolher. Naquela época as atividades comerciais eram encerradas ao cair da noite. A Cidade se recolhia cedo e o direito de locomoção era restrito: a polícia não permitia trânsito de pessoas depois das 9 horas da noite. Nessa hora tocava o recolher no quartel do corpo fixo, e o som da corneta era ouvido nos pontos mais afastados da então pequena cidade.


Rua Floriano Peixoto, com os postes de iluminação e os trilhos do bonde - arquivo Nirez

O pioneiro meio de transporte já encontrou as ruas iluminadas. Em 1848 o presidente Casimiro José de Moraes Sarmento contratou com Vitoriano Augusto Borges a instalação de 44 lampiões, que deveriam ser acesos das 6 horas da tarde até que amanhecesse o dia, ou que saísse a lua. Seriam alimentados a azeite de peixe e colocados ou suspensos nas esquinas de modo a iluminar duas ruas que se cruzassem.

Mais tarde, em 1866, esse tipo de iluminação seria substituída pelo gás carbônico em algumas ruas e residências. A companhia inglesa Ceará Gás Co. Ltd. foi a contratante. No dia 13 de dezembro de 1867 a iluminação a gás foi parcialmente inaugurada em alguns logradouros. Naquele período o perímetro urbano ainda era bastante limitado: ao Norte os limites eram as Ruas da Praia e da Misericórdia; a Leste, a Rua de Baixo (Conde D’Eu); ao Sul, Ruas Dom Pedro e D’Amélia (Senador Pompeu).
Fora dessa área, excetuando-se o Palácio do Bispo, o Colégio das Irmãs e o Seminário, tudo mais eram areias, casas de palha, uma  ou outra casa de tijolos. Assim, bem poucas casas e ruas tiveram o privilégio da iluminação a gás carbônico.


Antiga Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco) em 1910 - postal antigo 

Os trilhos dos bondes foram assentados em ruas pavimentadas, uma vez que a partir de 1857, aquelas ruas de areia solta começaram a cobrir-se de calçamento de pedra tosca, vinda do Mucuripe e trabalhadas por operários improvisados. 

Os telefones chegaram logo depois dos bondes, em fevereiro de 1883, serviço contratado com o comerciante Confúcio Pamplona. No dia acertado, a Casa Confúcio, situada na Rua Major Facundo n° 59, onde estava o primeiro aparelho, estava apinhada de gente. Entre os convidados, comerciantes, autoridades e muitos curiosos, que para lá se dirigiram, para assistir a inauguração solene do primeiro telefone que Fortaleza ia ter. O sistema já havia sido testado e apresentado resultados satisfatórios.

O instalador e técnico da engenhoca, complicadíssima para a época, era o holandês John Peter Bernard. O outro aparelho estava instalado na praia, na residência de José Joaquim Farias, no Largo da Alfândega. O centro telefônico era na Praça do Ferreira. À hora aprazada deu-se a primeira ligação. Foi um sucesso indescritível, a emoção era grande entre todos os assistentes. 


Posto central da Ferro Carril na Praça do Ferreira (do livro História da Energia no Ceará-1912)

Em 1888 mais 1.518 metros de linhas são incorporados ao serviço local de transporte coletivo, com os bondes trafegando entre a Praça de Pelotas (atual Clóvis Beviláqua) e o Benfica. O governo formalizaria ainda duas novas concessões para empresas que efetivamente se instalaram em Fortaleza. A Companhia Ferro-Carril de Porangaba, fundada a 10 de outubro de 1894, de propriedade de Gondim e Filhos, dirigida pelo Coronel Arlindo Gondim, estabeleceu sua estação e sede em Porangaba, explorando uma linha que passava pelo bairro Damas e finalizava no Benfica.


No dia 12 de outubro de 1896, era inaugurada a Ferro-Carril do Outeiro, de propriedade de membros da família Accioly, que atendia o bairro do Outeiro (atual Aldeota). A empresa tinha realizado durante cinco meses o assentamento dos trilhos e construído instalações de apoio, como sua estação, localizada na Rua Guajiru (atual Gonçalves Ledo). A linha percorria um pequeno trecho entre a Praça do Ferreira até as proximidades do atual Colégio Militar de Fortaleza. 

Os bondes de burros pararam de circular em 1913, quando foram substituídos pelos bondes elétricos.

Fontes:
Fortaleza e a Crônica Histórica – de Raimundo Girão
História da Energia no Ceará – de Ary Bezerra Leite 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A Primeira Cadeia Pública de Fortaleza

Em maio de 1835, o presidente da província Martiniano de Alencar, criou a Casa de Correção, acatando sugestão da Assembleia provincial. O estabelecimento deveria funcionar como uma espécie de cadeia, onde os presos prestariam serviços à comunidade. Apesar de dispor de mão-de-obra barata e utilizar o trabalho como forma de controle social, a referida Casa de Correção apresentava, por ocasião de sua criação, um sério problema em seu edifício, uma vez que a edificação não havia sido projetada para esse mister. Como solução para o problema, o administrador sugeria uma ampliação. Quatro anos após a sua inauguração, em 1939, o problema persistia, o próprio presidente da província reconhecia sua inadequação, aliada ao fato de estar localizada no Centro da Cidade e sem as comodidades próprias.



O sobrado onde funcionou a Casa de Correção e a Câmara Municipal (Casa de Câmara e Cadeia), foi erguido em 1825 por Francisco José Pacheco de Medeiros sendo o primeiro imóvel de tijolo e telha a levantar-se em Fortaleza. Em 1831 a Câmara comprou o prédio mudou-se para a nova sede em 1833. Mais tarde, com a saída da Casa de Correção, o prédio foi ocupado pela Intendência Municipal. Foi demolido em agosto de 1941, juntamente com todo quarteirão que ficava entre as ruas Major Facundo, Pará, Floriano Peixoto e Guilherme Rocha, na Praça do Ferreira.

Mas cumpria sua função de cadeia: nesse mesmo ano a Casa de Correção contava com 31 detidos, entre eles seis mulheres e dois escravos presos a pedido de seus proprietários até encontrarem compradores. Também figuraram entre os presos dois “filhos-família” (indivíduo, geralmente adulto, descendente de família abastada e financeiramente sustentado por ela. Era uma expressão bastante usada em documentos oficiais da época),um em 1836 e outro em 1838. Apesar de precária, a Correção não deixava de receber pessoas de diferentes origens, de sexos variados, de escravos a filhos-família. 


Entre 1° de abril e 30 de junho de 1841 foram relacionados 18 presos na Casa de Correção de Fortaleza. Dos detidos, oito eram mulheres. Entre as condenadas, sete foram julgadas por assassinato e uma por causar ferimentos, um forte indício de que a violência não era exclusividade masculina. As viúvas eram seis, todas acusadas de assassinato. Todas as mulheres também foram classificadas como “sem ofício”, evidenciando uma classificação administrativa que apartava a mulher de trabalhos reconhecidos institucionalmente como tais.

O número significativo de mulheres alertava para a necessidade de espaços específico para elas. Detentas sem marido e com dificuldades para produzir suas próprias receitas aumentavam as despesas da Correção, e ao mesmo tempo serviam como interessante mapeamento da violência cotidiana no Ceará: estas mulheres poderiam ser mais que vítimas, também poderiam ser agentes. Em relação as despesas, curiosamente quatro mulheres traziam para a Correção uma receita. A origem desse capital era imprecisa, talvez fosse fruto de trabalhos desenvolvidos dentro da prisão ou de ajuda de familiares. O fato de as presas – com uma exceção – não terem marido poderia significar que as suas vítimas foram seus próprios maridos, ou que a ausência da figura masculina expunha as mulheres a situações mais conflituosas.

Entre os demais condenados, nove respondiam por assassinato e um por estupro. Esse perfil inicial dos presos evidenciava a complexidade das relações travadas no espaço da Casa de Correção, principalmente por uma prisão que abrigava presos de ambos os sexos, com forte inclinação a violência. Estes homens, pela debilidade da edificação, acabavam convivendo proximamente com as presas. Traziam no rol dos crimes cometidos e nas penas imputadas (entre seis e vinte anos de prisão) um estigma social.

A naturalidade dos condenados era diversa, havia gente do Rio Grande do Norte, de Icó, de Sobral, de Aracati, do Crato, e outras localidades. Essa variedade poderia decorrer em razão da atração exercida por Fortaleza em relação a população de outras vilas e cidades, o que intensificava o fluxo de pessoas de várias origens na Capital. Também podia significar que os condenados de outras localidades fossem mandados para Fortaleza na esperança de encontrarem uma melhor opção de reclusão e correção.

A existência entre os condenados de ofícios que fossem reconhecidos pelos administradores provinciais já seria alvo de preocupação em 1835, por ocasião da inauguração da Correção. O trabalho emergia como possibilidade de readequação social e aumento das receitas da cadeia. Assim, em 1841, os ofícios que mais apareciam entre os prisioneiros eram os de carapina, de sapateiro e ferreiro. Ao lado do ofício aparecia a despesa do preso e a receita por ele produzida. Todos os presos que traziam receita para a instituição cobriam suas próprias despesas e geravam um saldo extra. Dos sete condenados que apresentaram receita, três eram homens: dois carapinas e um ferreiro. 

Os motivos da preocupação com a obtenção de receitas para a Casa de Correção eram simples: os recursos da província eram escassos, não havendo verbas suficientes para construir ou reformar prisões. Assim, até o salário do inspetor fora reduzido, a fim de ficasse assegurado, pelo menos, o vestuário e a alimentação dos presos. 
Em 1843 as limitações continuavam e a Correção foi mais uma vez classificada como imprópria para suas funções, o que tornava urgente a reforma do espaço. As mudanças não seriam de grande vulto, seriam basicamente às divisões internas das celas e reparos com caráter de conservação. Mais as tais pequenas alterações ainda teriam que esperar, pois pelo orçamento de 1843, a verba destinada aos reparos das cadeias provinciais, fora utilizada em outras coisas consideradas mais urgentes.

A Casa de Correção estava situada na Rua da Pitombeira (atual Floriano Peixoto), defronte a casa do comendador José Antônio Machado, que fora vendida em 1847 para o governo provincial, e passou a abrigar o quartel de polícia da Capital. A presença desse destacamento em frente a prisão tinha também a intenção de garantir maior segurança contra a fuga de presos e diminuir o gasto com vigilância.



O edifício onde funcionou o Quartel da Polícia, e mais tarde o Café Riche e o Hotel Central, (ambos instalados em 1913), era o sobrado mandado construir em 1825, pelo Comendador José Antônio Machado, na esquina das Ruas Guilherme Rocha com Major Facundo. A construção do sobrado derrubou um mito: na época existia a crença de que aquelas areias frouxas, no solo arenoso de Fortaleza não suportaria uma construção com mais de um pavimento, razão pela qual a decisão de construir foi considerada temerária; até os pedreiros se mostravam receosos, mas foram obrigados a levantar a obra com o auxílio dos presos da Cadeia do Crime. O sobrado foi demolido em 1927, quando já se encontrava na posse e domínio do capitalista Plácido de Carvalho, que ergueu no local o Excelsior Hotel. 

Em 1848 também era denunciada a fragilidade da casa do Comendador para abrigar o quartel. Principalmente devido à ausência de uma enfermaria, de um lugar seguro para guardar as armas e de uma prisão segura para os soldados. O quartel, tal e qual a Casa de Correção, precisava de reformas, o que não era possível devido a exiguidade dos recursos e a existência de outras prioridades.


A antiga Cadeia Pública, que sucedeu a Casa de Correção, foi projetada em 1850, levando cerca de 16 anos para ter suas obras concluídas, em 1866. Localizado no centro, na Rua Senador Pompeu, 350, hoje abriga o Centro de Turismo do Ceará.

Em 31 de dezembro de 1849, foram alocados recursos para o início da construção de uma nova Casa Penitenciária. Mas enquanto o novo estabelecimento não era construído, foram feitos alguns reparos emergenciais na Casa de Correção. Até 1850 a situação do prédio público ainda era precária, devido principalmente, a falta de recursos que dificultavam investimentos na infraestrutura da cidade.

Extraído do livro
Entre o Futuro e do Passado – Aspectos urbanos de Fortaleza (1799-1850) Antônio Otaviano Vieira Jr.
fotos: do arquivo Nirez e postais antigos


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O Pré-Carnaval dos anos 60

Muitos acreditam que o pré-carnaval de Fortaleza é coisa recente, iniciada nos anos 80 com os blocos que desfilam na Praia de Iracema e no Benfica. Ledo engano. Lá pelos anos 60, o Bloco Prova de Fogo já fazia a festa no bairro Otávio Bonfim e adjacências. Quer saber como era? então leia a crônica do Tarcísio Garcia. 
  
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O ENSAIO DA PARADINHA
 (Tarcísio García)

No começo do ano começava a festa. Lá de casa dava para ouvir o baticum. Os ensaios de janeiro eram um pouco tímidos devido à falta de entrosamento dos músicos, afastados desde o ano anterior. À medida que se entendiam na execução, porém, passavam a tocar com mais desenvoltura, fazendo uma verdadeira algazarra que atraía a atenção dos moradores de toda a redondeza. Aos primeiros acordes da noite a gente se entreolhava, largava o que estava fazendo e começava a frenética e animada preparação para nossa participação no ensaio. Num entra e sai sem fim, driblávamos a vigilância dos pais e escondíamos no jardim de muro baixo, os saquinhos de carteira de cigarro com o material garimpado especialmente para a ocasião.


No repertório revezavam-se dois estilos distintos: marchinha e samba. No primeiro predominava o som dos metais, que se ouvia a quilômetros. No outro, o samba, onde todo arranjo deixava a música parecida com “eu vou pra Maracangalha”, do Dorival Caymmi. Só tinha uma diferença: em todo samba eles botavam uma paradinha, tivesse ou não no original. Até hoje acho graça sozinho quando ouço uma paradinha. Era assim: faziam a introdução, cantavam a letra e depois de um caprichado solo de cornetas, o mestre da bateria dava três apitos e a charanga fazia um breque. Mais dois apitos e novo breque. Mais dois apitos e novo breque. Por último, mais dois apitos, novo breque, dessa vez acompanhado de um frivião no repique, e só então o samba recomeçava.

O cidadão comum, morador de subúrbio não contava ainda com o feitiço da televisão que o anestesia e imobiliza na cadeira, de modo que as noites nesta época, eram dedicadas ao convívio social e à vadiação. Quem não estudava à noite, divertia-se com conversas, flertes e brincadeiras ao ar livre. Velhos, adultos, adolescentes e crianças, todos ocupavam democraticamente as beiras de calçadas. Nossa rua tinha uma posição estratégica que fazia dela um corredor bastante concorrido, ligava a Av. Treze de Maio à antiga Rua Juvenal Galeno, hoje, Bezerra de Menezes. Além disso, passava por ali toda sorte de novidades; de prosaicas boiadas a caminho do matadouro, a tropas de soldados do 23º BC, que iam acampar nas dunas do Papicu.


Nos meses de maio, junho e outubro, por ocasião das festas da igreja, os moradores cortavam as flores dos seus jardins e jogavam os ramalhetes na via pública para enfeitar a passagem das procissões de Nossa Senhora das Dores, Santo Antônio e São Francisco. Com uma vocação cultural dessas, nada passava despercebido ao olhar treinado dos moradores. Até o mais inocente vendedor de algodão doce com sua indefectível lamparina, era avistado de longe, parado pela freguesia e só liberado quando acabava a última colherada de açúcar.

Pois bem... nas semanas que antecediam o carnaval, o Bloco "Prova de Fogo" saía às ruas para corrigir as falhas do desfile, com destaque para a coreografia da paradinha, que depois de exaustivamente ensaiada no coração da Praça Tabajara, passava então para a etapa final da preparação: o ensaio em movimento. Neste propósito, o bloco enchia as noites do Otávio Bonfim com o mais autêntico e acalorado pré-carnaval. O primeiro sinal de que o bloco ia sair do Beco dos Pintos e passar na rua, era o volume do som, que de repente mudava de direção. Estava longe, ficava perto, sumia e voltava, como se estivesse sendo tangido pelo vento. Ficava mais nítido e ia se aproximando gradativamente até alguém na calçada anunciar sua visualização e a dúvida se transformar em certeza, despertando a vontade incontrolável de correr porta afora.


No abre alas, vinha o estandarte preto, enfeitado de espelhos e ostentando o nome do bloco. Carregada pelo porta-bandeira, uma caveira de uns três metros, sacudia braços e pernas de madeira ao sabor das evoluções. Os passistas veteranos seguiam na frente mostrando o estilo para aos jovens aspirantes a folião. Trajavam calça branca, blusa vermelha de mangas compridas e um colete preto adornado com lantejoulas vermelhas. Na cabeça, outro símbolo: um artefato metálico que lembrava ao mesmo tempo, um elmo das armaduras medievais e um capacete de bombeiro. Envolto numa nuvem de poeira, iluminado pelos faróis dos carros que pediam passagem, lá vinha o ensaio da "escola", solto na buraqueira, tomando conta da rua, arrastando a multidão.


Da calçada era possível avistar a silhueta do cortejo se aproximando. Uma piracema de gente acompanhava o desfile, correndo, pulando e achando graça, somando-se aos que se posicionavam em suas casas para ver de perto a performance dos passistas. Num crescendo medonho, o som da charanga cada vez mais alto, invadia todos os espaços, sacolejava a caixa dos peitos, afrouxava o risador. As cadeiras das calçadas eram recolhidas para dar passagem, as mulheres casadas corriam para as janelas pra evitar as mãos bobas, os muros das casas transformavam-se em camarotes cheios de gente de todas as idades. Crianças de braço eram alçadas às cacundas dos pais, as maiores fervilhavam de contentamento, os cachorros latiam inutilmente, os adultos se dividiam: uns torciam a cara achando aquilo uma fuleiragem, outros se empolgavam com a fanfarra e dançavam na calçada. A atmosfera cheirava a poeira, sovaco e cloretil, e o Prova de Fogo agora estava passando na porta de casa.  O povo acompanhava disputando um lugar perto da orquestra. A rua invadida. A música troando. Não sobrava lugar para uma pitomba. 

Ao som ensurdecedor dos tambores e das cornetas, a gente grelava os olhos nos passistas que dançavam de olho grelado no maestro, que no tempo certo da música levantava a batuta e regia a paradinha: pi- pi- piiiiiiiii!!! E todo mundo se abaixava: pi- piiii! Davam um pulinho e mudavam de pose: pi- piii! Mudavam de novo:  pi- pi- paracatum-paracatum-paracatum...e saíam saracoteando alegremente movidos por uma força misteriosa que lhes revigorava o ânimo. Felizes da vida seguiam pela Rua Justiniano de Serpa afora, indiferentes à nossa provocativa participação: uma chuva de areia provocada pelos saquinhos que eu e meus irmãos jogávamos sobre o desfile toda vez que os passistas se abaixavam ensaiando a paradinha.

fotos do arquivo Nirez e Diário do Nordeste
Tarcísio Garcia é cearense de Fortaleza, artista plástico e escritor, autor dos livros
Nó na Língua (1998)
Dicionário do Ceará - as palavras, as expressões e como usá-las - (2000) 
Auto-ajuda na Ruma - neurolinguística cearense (2000)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Os Amigos da Praça José Valdez Botelho

A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor.

(Castro Alves)

A praça pode ser definida como qualquer espaço público urbano, livre de edificações que propicie convivência ou recreação para os seus usuários. É por excelência o local de encontros e sociabilidades. Os espaços livres existentes nas cidades e marcados pelas aglomerações humanas estavam geralmente relacionados à existência de mercados populares (comércio) ou ao entorno de igrejas. Foi somente no século XIX, que o desenho de praças entrou em cena, preconizado pelo trabalho de profissionais como Frederick Law Olmsted, que projetou o Central Park de Nova Iorque.

Praça Marquês de Herval (atual José de Alencar), 1908

Esse espaço, existente há milênios, utilizado por civilizações de maneiras distintas, nunca deixou de exercer a sua mais importante função: a de integração e sociabilidade. Mas ultimamente, as praças têm perdido essas funções de aproximação e encontros entre pessoas por razões várias, a principal delas, sem dúvida, a violência urbana. 

Violência que se traduz não apenas na ameaça à integridade física, mas na destruição dos equipamentos, nas pichações, no vandalismo de estátuas e monumentos, bancos e fontes (quando tem). Por conta de tantos percalços, a população deixou de frequentar um espaço feito para ela e por ela.

Praça José de Alencar em 2015 (imagem Diário do Nordeste)

Um exemplo são as praças do centro de Fortaleza, tradicionais, centenárias, históricas, tomadas por moradores de rua, que ali vivem, dormem, fazem suas necessidades e ali mesmo descartam todo o lixo que produzem; ou ocupadas por ambulantes, vendedores de toda sorte de quinquilharias, que se apoderaram do espaço e também produzem sujeiras e depredações. A Praça do Ferreira, tradicional reduto de aposentados, intelectuais, e um sem número de frequentadores habituais, perdeu muito desse público, hoje é considerado local de risco principalmente à noite. 

Em alguns bairros as praças continuam sendo apropriadas pelos moradores, para caminhadas e conversas rápidas, porque a mesma violência que ameaça o centro, também se faz presente nos bairros. Mas há uns três ou quatro anos, moradores do bairro Luciano Cavalcante, resolveram mudar essa história. 



Começou com um pequeno grupo que se sabiam vizinhos, mal se conheciam, e se viam durante a caminhada diária que faziam ao redor da Praça José Valdez Botelho. Um dia combinaram fazer um café da manhã, para se conhecerem melhor e trocar umas ideias. O local do evento seria a própria praça. 


A Praça José Valdez Botelho recebeu o nome em homenagem póstuma ao Vice-Reitor da Universidade Federal do Ceará, falecido em 2001. 

Cada um se encarregou de levar um componente para o café: (pães, bolos, sucos, tapioca, frutas, etc). No início eram cerca de 15 pessoas. Com o passar do tempo, a adesão foi aumentando, e os eventos foram sendo ampliados para praticamente todas as datas comemorativas: São João, Natal, Páscoa, aniversariantes do mês, etc.

Também promovem bingos e rifas para angariar recursos para fazer a decoração alusiva à data, como São João. Além dos comes e bebes, os participantes levam ainda mesas, toalhas e cadeiras, e ao final, todos ajudam a recolher o lixo. Devido a interação agora todos se conhecem e se ajudam nas necessidades individuais.



Eis um bom exemplo de apropriação do espaço público, uma espécie de “volta ao começo”. Como é um espaço relativamente novo, a Praça José Valdez Botelho não tem muitos equipamentos, e ainda ostenta uma vegetação nativa com árvores de grande porte. Mas vem cumprindo com brilhantismo a antiga e sempre atual função para a qual a praça foi inventada: um local de encontros e sociabilidades. 

obra consultada:
Praças Públicas: origem, conceitos e funções – autores: Verônica Crestani Viero & Luiz Carlos Barbosa Filho
Disponível em > http://www.ceap.br/material/MAT1511201011414.pdf< 
fotos do grupo cedidas pelo "amigo da praça" Tarcísio Garcia

domingo, 18 de dezembro de 2016

Fortaleza em Tempos de Belle Époque



No final do século XIX, com cerca de 50 mil habitantes, Fortaleza passava por um processo de transformações urbanas que intensificaram sua condição de principal cidade do Ceará. As autoridades, conforme o conceito dominante de "progresso e civilização” da Belle Èpoque, direcionavam a administração municipal para o aformoseamento e a higienização de ruas e praças, bem como para o controle das crescentes e miseráveis camadas populares.



 

De 1892 a 1912 o Coronel Guilherme Rocha ocupou continuadamente o posto de Intendente de Fortaleza, representando sempre o esquema oligárquico de Accioly. Como se inspirava nas reformas urbanas ocorridas em Paris, a oposição, com desdém, chamava Guilherme Rocha de “Nosso Haussmann” (o Barão de Haussmann administrara e embelezara a capital francesa), já que sua obsessão modernizadora parecia querer fazer de Fortaleza uma Paris.

No final do século XIX, com cerca de 50 mil habitantes, Fortaleza passava por um processo de transformações urbanas que intensificaram sua condição de principal cidade do Ceará. As autoridades, conforme o conceito dominante de ”progresso e civilização” da Belle Èpoque, direcionavam a administração municipal para o aformoseamento e a higienização de ruas e praças, bem como para o controle das crescentes e miseráveis camadas populares.

De 1892 a 1912 o Coronel Guilherme Rocha ocupou continuadamente o posto de Intendente de Fortaleza, representando sempre o esquema oligárquico de Accioly. Como se inspirava nas reformas urbanas ocorridas em Paris, a oposição, com desdém, chamava Guilherme Rocha de “Nosso Haussmann” (o Barão de Haussmann administrara e embelezara a capital francesa), já que sua obsessão modernizadora parecia querer fazer de Fortaleza uma Paris.