terça-feira, 23 de junho de 2015

Os antigos hotéis de Fortaleza

Os antigos hotéis de Fortaleza ficavam todos no centro da cidade. Era no centro que se concentravam todas as atividades comerciais, e os meios de hospedagem estavam ligados ao comércio, aos negócios. Não havia  em Fortaleza nenhuma atividade voltada para o turismo nem havia perspectiva para tal. Os donos de hotéis compartilhavam dessa visão. Dentre os pioneiros os maiores, como o Excelsior e o Palace Hotel, recebiam personalidades importantes, como artistas, políticos e autoridades. 


Os menores hospedavam vendedores, caixeiros-viajantes, responsáveis pelo abastecimento da cidade. As pensões acolhiam estudantes vindos do interior para estudar na capital, e visitantes mais modestos.  Alguns dos hotéis que acolheram os visitantes de Fortaleza: 

Sede do Grande Hotel do Norte, atualmente, Museu da Indústria do Ceará
 
Grande Hotel do Norte – foi um dos primeiros hotéis de Fortaleza, instalado em novembro de 1882, no sobrado na esquina das Ruas Floriano Peixoto com Dr. João Moreira. No ano de sua inauguração recebeu como hóspede ilustre D. Maria do Patrocínio, esposa do libertador José do Patrocínio. O hotel pertenceu a Silvestre Rendall, que mais tarde o vendeu  para o francês Norberto Golignac. Alguns anos depois o prédio do Grande Hotel do Norte foi vendido ao Correio que em 1935 o vendeu para a Light, a então concessionária de luz e força para a Cidade. Atualmente o prédio abriga o Museu da Indústria do Ceará. 

 Na antiga sede do Clube Cearense, funcionaram o Hotel de France e o Palace Hotel. Hoje é a sede da Associação Comercial do Ceará. 

Hotel de France – O hotel de France, de propriedade de Isidor Brown foi inaugurado nos tempos áureos da belle epoque, quando Paris era o modelo a ser seguido, e o idioma francês era quase a linguagem corrente na cidade entre as elites. Funcionou na luxuosa sede do Clube Cearense, na Rua Floriano Peixoto esquina com a Rua Dr. João Moreira, em frente ao Passeio Público. 

Palace Hotel – Depois que o Hotel de France desocupou o prédio, O Palace Hotel se instalou na mesma antiga sede do Clube Cearense, na esquina da Rua Floriano Peixoto com a rua Dr. João Moreira, no Passeio Público. O Palace Hotel funcionou entre 1927 e 1971. Hoje o edifício abriga a sede da Associação Comercial do Ceará. 

o que restou do prédio do Hotel Avenida depois do incêndio 
  
Hotel Avenida – O Hotel Avenida funcionava na Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), esquina com a Rua da Municipalidade (atual Guilherme Rocha), de propriedade de um comerciante chamado Abílio, que morava lá com a mulher. Eram três andares: o térreo, mais dois, onde ficavam os quartos e um mirante.  Apesar do nome, o prédio não tinha nada de hotel, era na verdade uma casa de cômodos. Não servia nem café, e os quartos que acolhia os hóspedes – estudantes, em sua maioria – eram separados por tabiques de madeira. Em setembro de 1929, irrompeu um grande incêndio a partir do térreo. O fogo começou de baixo para cima e rapidamente tomou conta de todo o prédio. O incêndio começou de madrugada, enquanto todos dormiam e o proprietário saiu batendo de porta em porta, alertando os hóspedes. O incêndio do Hotel Avenida foi o maior incêndio que houve até então em Fortaleza, e não havia corpo de bombeiros na época, que só foi criado depois, e por causa desse incêndio.  Além do Hotel Avenida foram atingidas a Casa Primor, a Fascinadora, a Alfaiataria Job e a Relojoaria Cancão, deixando anda grandes prejuízos na Casa Zenith e em A Samaritana. O local é onde hoje funciona a Loja A Esmeralda. 

Hotel Brasil – inaugurado no dia 17 de março de 1945, no Palacete Brasil, na esquina da Rua General Bezerril com Travessa Morada Nova, na Praça General Tibúrcio. O hotel pertencia a firma Alexandre e Quintana, e foi construído por Rodolfo F. da Silva e Filho. 


Excelsior Hotel – O Excelsior Hotel – o maior e mais luxuoso do seu tempo – foi inaugurado no último dia do ano de 1931, na Praça do Ferreira, numa iniciativa de Plácido de Carvalho. O hotel foi erguido na Rua Guilherme Rocha n° 172, esquina com a Rua Major Facundo, no local antes ocupado pelo sobrado do Comendador Machado, onde funcionou o Hotel Central e o Café Riche.  O projeto do hotel, de autor desconhecido, foi inspirado num edifício de Milão e construído pelo arquiteto Natali Rossi. A decoração interna foi feita por Pierina Rossi, utilizando material de primeira linha, importado da Europa. Em estilo eclético, foi o primeiro arranha-céu da cidade construído em alvenaria – pilares, vigas e lajes feitos com a utilização de trilhos de trem comprados da Santa Casa de Misericórdia. O Excelsior encerrou suas atividades no dia 1° de outubro de 1964, após 33 anos de funcionamento. 

Hotel Bitu – Iniciou suas atividades na categoria “Pensão”, propriedade de Bartolomeu de Oliveira (Bitu), depois passou a ser chamado Hotel Bitu, com os sócios Manuel Dias Branco e Tomás Pereira. Ficava localizado a Praça da Sé nº 88. 

San Pedro Hotel, na Rua Castro e Silva. No local atualmente funciona o CREA-CE

San Pedro Hotel – Instalado na esquina das Ruas Castro e Silva com Floriano Peixoto, o San Pedro Hotel foi inaugurado no dia 29 de maio de 1959, com dois restaurantes, um no primeiro, outro no sétimo andar. Pertencia ao empresário Pedro Lazar. 

Astoria Hotel – propriedade de Pedro Philomeno Gomes foi inaugurado no dia 7 de agosto de 1941, na esquina das Ruas Barão do Rio Branco com Liberato Barroso, n° 171. O prédio do hotel construído em 1937, foi demolido em abril de 1962. 

Fortaleza Hotel – o dia 16 de julho de 1938 marca a inauguração do Fortaleza Hotel, na Rua Senador Pompeu n° 706, da empresa Fortaleza Hotéis Ltda., de Francisco Pires Holanda e Zaide Ramos Holanda. 

Lord Hotel – Inaugurado em 1956, num prédio de 8 andares, com cerca de 120 apartamentos. Considerado um exemplar da arquitetura moderna cearense, o Lord Hotel teve seu auge nas décadas de 60 e 70, período em que recebeu artistas famosos,  personalidades da cena brasileira e até a Seleção Brasileira de Futebol. Em 1992 foi fechado e transformado em apart hotel. Nos últimos anos, estava praticamente abandonado, sendo desapropriado em 2001 pelo Governo do Estado, e tombado pela Prefeitura de Fortaleza em 2006. Desde então, passa por reformas. 

Hotel Savanah, na Praça do Ferreira. prédio está desocupado

Hotel Savanah – O Savanah foi o último hotel de grande porte a ser inaugurado no centro, em 12 de abril de 1964, iniciativa de Pedro Lazar, instalado no Edifício Jereissati. Localizado na esquina da Rua Major Facundo com Travessa Pará, no térreo funcionava a Lojas Brasileira, que inaugurou a primeira escada rolante de Fortaleza. Em 1992, foi à falência, vítima do esvaziamento do centro e das mudanças urbanas que levaram negócios, lazer, e turistas para a orla marítima. O prédio de propriedade da família Jereissati, está abandonado, exceto o térreo ocupado por uma grande loja de departamentos. 

Iracema Plaza Hotel – Foi a primeira edificação da orla de Iracema, com a fachada inspirada em hotéis de Miami. No térreo funcionou o restaurante “Panela”, que durante muito tempo, serviu como ponto de encontro da elite local e de personalidades que visitavam a cidade. O edifício não foi concebido para abrigar um hotel, a transformação decorreu de um encontro realizado em Fortaleza, promovido pela junta comercial, que não contava com uma rede hoteleira capaz de atender as necessidades. O hotel que deu início ao ciclo de construção de hotéis na orla marítima, foi desativado na década de 1970, encerrando um ciclo de luxo e requinte nos tempos áureos da Praia de Iracema. 

O Prédio do Esplanada Hotel está em processo de demolição

Hotel Esplanada – Inaugurado em 1978, o Hotel Esplanada era naquela época o edifício mais alto da Praia de Iracema, com 18 andares, 2.724 metros quadrados de área e 230 apartamentos. Foi o primeiro hotel 5 estrelas de Fortaleza. Em 2004, o hotel foi vendido ao grupo português Dorisol Hotels, que fechou o hotel temporariamente para uma grande reforma. Com o grupo proprietário endividado, a data de reinauguração foi sendo adiada, e o hotel jamais foi reaberto. Em 2014 o que restou do edifício foi adquirido por um grupo local, que pretende demolir a edificação. 

fotos: Arquivo Nirez, IBGE


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Bens Relevantes e Desprotegidos


Fortaleza é uma cidade sem memória, que não preserva, não sente saudades nem faz questão de conservar sua história.  Oficialmente completou em 2015, 289 anos, desde a sua elevação à categoria de Vila, em 13 de abril de 1726. Mas o povoado, nascido à sombra do forte, é muito mais antigo. 

Mas, ao se analisar as construções ou monumentos da cidade, constata-se que há no máximo, duas edificações que atestam esse passar dos anos: O Forte de Nossa Senhora de Assunção (1649), e a Igreja do Rosário (1730).  No mais, se depender do testemunho do seu patrimônio edificado, Fortaleza tem pouco  mais de cem anos. O  resto foi destruído. 


De acordo com definição da SECULT, "tombamento é o reconhecimento de um bem material, de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e/ou simbólico para uma comunidade, protegendo-o de descaracterização ou de destruição através da aplicação de legislação específica. Finalizado o processo de Tombamento, o bem é inscrito no Livro de Tombo". 

O processo não garante a preservação – é só olhar os casos da Escola Jesus, Maria, José, o Teatro São José, e outros, que são tombados, mas estão em ruínas. Não garante nem mesmo a sua sobrevivência, haja vista o que aconteceu com o prédio do Centro Artístico Cearense, na Avenida Tristão Gonçalves, que era tombado, mas foi demolido em razão do péssimo estado de conservação. E Essa vem sendo a tática empregada: deixar arruinar até que a recuperação fique inviável, quer pelo alto custo, quer pela ausência de prioridade. O Teatro São José está passando por esse processo. 


E é considerando essa cultura da demolição, que várias edificações e equipamentos deveriam ser protegidos por meio de tombamento, por serem de reconhecida  relevância no aspecto arquitetônico, histórico, artístico e cultural. Esses bens correm sérios riscos de desaparecerem de cena, de forma sumaria, arbitrária e definitiva.  Apesar de assinalado, o número de anos não é primordial para o tombamento.

Ponte Metálica – Localizada na Praia de Iracema – 109 anos.


Inaugurada em 1906, a ponte serviu como porto de Fortaleza por mais de vinte anos. Era dotada de escada móvel para subida e descida de passageiros – que não oferecia a menor segurança – e de guindastes para as cargas. Os navios ficavam ao largo, enquanto botes e lanchas faziam o percurso entre as embarcações e a ponte. Desgastada pelo uso e pela ação da maresia, foi reconstruída na década de 1920, sendo inaugurada em 1928, com o nome de Viaduto Moreira da Rocha, já em concreto armado. Atualmente, encontra-se em péssimo estado de conservação e corre sério risco de desabamento.

Castelinhos da Avenida Santos Dumont - localizados na Praça Luiza Távora, na Aldeota  – 77 anos 


Os castelinhos, em número de seis, foram construídos em 1938, pelo arquiteto Emilio Hinko, em estilo eclético, a pedido de sua mulher Pierina, viúva do comerciante Plácido de Carvalho. Pierina e Plácido ficaram casados até a morte deste, em 1935.  Mais tarde Pierina contraiu núpcias com o arquiteto húngaro Emilio Hinko, que construiu uma série de casas para aluguel em torno do palacete principal. O casal Pierina e Hinko morou em diversas casas em Fortaleza, inclusive em duas das que compunham o complexo do castelo, sem jamais ocuparem a edificação central, demolido na primeira metade dos anos 70. Atualmente os castelinhos abrigam alguns órgãos da Administração Estadual.

Sobrado do Pastor - Localização: Praça do Ferreira esquina das ruas Floriano Peixoto e Guilherme Rocha – 101 anos


Projeto do desenhista José Moreira concluído em 1914. Dois anos mais tarde passou a ser ocupado pela Chefatura de Polícia. Desde 1993 funciona no local o restaurante L’ Escale. O proprietário Eduardo Pastor, proveniente do Pará, investiu na obra como uma alternativa de negócio, uma vez que a borracha estava em decadência. Em estilo art-nouveau, o edifício teve ao longo dos anos vários usos, sendo ocupado por órgãos públicos e casas comerciais, perdendo parte das características arquitetônicas, principalmente na parte térrea da fachada.

Palacete Guarani – localização: esquina das Ruas Barão do Rio Branco com Senador Alencar – 107 anos


Erguido em terreno adquirido pelo Barão de Camocim, que construiu o palácio, em 1908. Foi ocupado sucessivamente pelo Bank of London, (1910) Banco dos Importadores (1925) a Boate Guarani, o Clube dos Diários, o Banco do Estado do Ceará, e uma empresa de telecomunicações. Cópia de um imóvel europeu, passou por diversas reformas, inclusive no telhado de ardósia original, que era fortemente inclinado, que servia para escorrer neve. 

Prédio da Escola Pio X – localização: Avenida Duque de Caxias com a Rua Barão de Aratanha – 107 anos


Fundada por Frei Mansueto em 1908. O prédio foi construído em terreno doado pelo padre João Augusto da Frota, na esquina sudeste do Boulevard do Livramento (atual Avenida Duque de Caxias) com a Rua Pero Coelho (atual Barão de Aratanha). Na outra esquina estava o convento dos capuchinhos. Os recursos para construção foram obtidos através de campanhas movidas pelas várias confrarias religiosas. Foi inaugurado em 5 de julho de 1908, mantido e dirigido pelos frades capuchinhos; era uma obra das vocações missionárias, mista e gratuita.  O prédio passou por reforma e ampliação em 1924, quando foi construído o segundo pavimento. Atualmente o imóvel está alugado a uma faculdade. Lá funcionou o Cinema Pio X, instalado no prédio da Escola em 3 de fevereiro de 1923, era frequentado pelos moradores das redondezas e exibia filmes lançados no Cine Moderno. Cinema mudo, instalado graças aos esforços dos capuchinhos, funcionou no andar térreo até 1937, enquanto no andar superior funcionava a escola para meninos pobres. 

Praça Portugal – localização: confluências das avenidas Dom Luiz e Desembargador Moreira, na Aldeota – 47 anos


foto de Muhammad Said

A criação da Praça Portugal foi autorizada na administração do procurador fiscal Jorge Moreira da Rocha à frente da Prefeitura de Fortaleza entre abril e dezembro de 1947. A oficialização do ato se deu pelo Decreto-lei n° 202, de 23 de maio de 1947. Mas a Praça Portugal só foi inaugurada no dia 6 de abril de 1968, na gestão do prefeito José Walter Cavalcante, ocupando uma área de 13.440m². Foi construída pela SUMOV (Superintendência Municipal de Obras e Viação), ostentando um lago artificial e um grande obelisco. A praça contava ainda com uma fonte, uma ponte, postes e bancos. Durante a construção, empresários portugueses aqui estabelecidos doaram material para a obra e contribuíram financeiramente para sua construção. Atualmente corre grande risco de demolição porque a prefeitura de Fortaleza tem novos projetos para a área, e deseja suprimir a Praça Portugal com a alegação de que o espaço atrapalha o trânsito de veículos da região. 


terça-feira, 2 de junho de 2015

Os Negócios realizados em Armazéns e Praças

Planta Exacta da Capital do Ceará, de Adolfo Herbster

O comércio de Fortaleza se estabelece no Centro. Armazéns, e prédios como os da Alfândega, Receita Estadual, e da administração municipal foram erguidos próximos ao porto. Com o desenvolvimento desta indústria exportadora, organizavam-se casas comerciais, como a Fábrica Philomeno Gomes nas Avenidas Francisco Sá e Sargento Hermínio. As ruas do centro adquiriram funções especializadas: determinada via concentrava o comércio de linhas e fios, outras de peças, um modelo evidente até hoje para quem percorre vias como as Ruas Pedro I e Castro e Silva.

Alfândega
O comércio se desenvolvia também na Avenida Alberto Nepomuceno e Rua Conde D’Eu. O Mercado São José coletava produtos do interior e os armazéns da Rua Governador Sampaio formavam o polo especializado na movimentação portuária. A cidade crescia na perspectiva do Riacho Pajeú: Catedral, Palácio da Luz, Assembleia Provincial, o porto e a produção de energia, e o Parque da Liberdade na saída da cidade.
Existiam territorialidades diferenciadas no centro da cidade: na Praça do Ferreira acontecia a feira da elite, mais selecionada. Naquela porção do centro tinha-se a distinção clara entre lazer e trabalho. O ócio era desfrutado no Passeio Público e os negócios eram feitos na Praça do Ferreira. A cidade se expandia, mas o Centro ficou restrito ao que foi projetado por Adolfo Herbster, na Planta Exacta do Ceará, em 1875.


Praça do Ferreira década de 1940


A feira popular acontecia na Praça Carolina, junto ao Mercado Central, na região onde hoje se encontra o Palácio do Comércio. A Praça do Ferreira exercia ainda uma função hoteleira, mas nada ligado a atual perspectiva de Fortaleza como cidade turística. Era a rota comercial que justificava a rede hoteleira. Hotéis como o Savanah recebiam os caixeiros viajantes, responsáveis pelo abastecimento da idade. Traziam artigos do Rio de Janeiro, Recife e de outras cidades maiores. Tornavam Fortaleza interessante, mas com uma sociedade de consumo limitado. Só com a abertura da Avenida Beira Mar nos anos 60, é que a cidade recebe equipamentos hoteleiros na praia com foco no turismo, hoje um dos  principais destinos turísticos do País.

 Até a década de 40 a cidade dava as costas para o mar e os deslocamentos tinham a ver com as visitas à familiares, idas às igrejas e as escolas. Fortaleza tinha formato estelar, com saídas para os eixos Bezerra de Menezes, Parangaba, através do Benfica, Estrada do Gado, pelo Montese; eixo Atapu, para Messejana e eixo Mucuripe, na região onde hoje fica o corredor comercial da Avenida Monsenhor Tabosa.

Outro fator interessante é que a parte do dinheiro arrecadado com o crescimento comercial foi utilizada para fazer melhorias na cidade, como a construção de chafarizes, colocação de um novo sistema de iluminação pública e o calçamento de ruas.



Extraído da revista Fortaleza – fascículo 3, de 23/04/2006 
fotos do IBGE e arquivo Nirez 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Capitalismo de Fé: As Capelas dos Shoppings Centers

Os Shoppings Centers constituem os chamados “templos de consumo”, na definição consagrada de um autor. Apareceram no Brasil a partir de 1966, quando foi inaugurado em São Paulo, o Shopping Center Iguatemi.

Depois, esse tipo de empreendimento se espalhou pelo país afora, na maioria nas capitais dos Estados e nas grandes cidades do interior.  Os shoppings centers foram criados em razão do declínio do comércio do centro das cidades, que aglutinava todo tipo de atividades, produtos e serviços.  Quando  os consumidores passaram a residir nas periferias das cidades, cada vez mais longe do centro, e cada vez mais dependentes de transportes, esses centros comerciais, com seus problemas de  fluxo  de  tráfego,  estacionamento e insegurança, começaram  a  perder  negócios.  Os  comerciantes situados nos centros das cidades começaram a abrir  filiais em  shopping  centers  regionais,  e  o  declínio dos centros comerciais se acentuou.

Center Um - o primeiro shopping de Fortaleza em 1974 (foto do livro Viva Fortaleza) 

Em Fortaleza o primeiro shopping center foi o Center Um, inaugurado em 1974, que tinha como loja âncora um supermercado. Tinha estacionamento e mais de 48 lojas e lanchonetes.

Hoje, os Shoppings Centers estão espalhados por toda a cidade, e tem na diversidade na oferta de bens, serviços e lazer sua principal característica. São frequentados por pessoas de classes sociais diversas, que vão ao shopping por motivos também diversos. Mas, como nem só de consumismo vive o ser humano, os shoppings resolveram investir em um espaço que destoa do espírito do empreendimento: as capelas religiosas. 

São pequenos recantos, com iluminação discreta, alguns símbolos religiosos, localizados em áreas reservadas. São frequentadas por clientes em busca de sossego, de meditação ou por quem procura simplesmente um pouco de descanso entre uma e outra atividade.  Não se sabe ao certo quando ou qual shopping lançou a moda em Fortaleza, mas o fato é que vários deles, inclusive os maiores, já conta com esses espaços, a exemplo do Iguatemi e do recém-inaugurado Rio Mar, no bairro Papicu.


No Shopping Iguatemi - capela ecumênica Dom Lorscheider


 No Shopping Del Paseo - Capela Mãe de Deus. A capela fecha bem antes do horário de funcionamento do shopping (segunda a sábado das 10 as 19 hs; domingo das 14 às 20 hs) 



 No Shopping Benfica - Capela de Nossa Senhora


Fontes consultadas:
Shopping Centers e suas Peculiaridades Contratuais
De Silvana Martinazzo
Disponível em http://www.secal.edu.br/revista/pdf/140%20a%20164%20shopping.pdf
wikipédia
fotos de Rodrigo Paiva

terça-feira, 26 de maio de 2015

Borós: Os títulos de crédito do Século XIX

Os borós, criação genuinamente cearense, nasceram e circularam nos tempos antigos, quando havia absoluta falta de troco. Eram vales de pequenos valores, aos quais eram atribuídos os mesmos valores das moedas, e que eram aceitos, como se fossem legais.


Encheram toda uma época e tiveram assim a sua história dentro da vida comercial da cidade. Foram emitidos a torto e a direito. Grassou como uma verdadeira epidemia, qualquer um se achava no direito de lança-los. E surgiram aos montes, de todos os formatos, de todas as cores, de todos os tamanhos, impressos ou escritos à mão, valendo ora 100 Réis, ora 200, e ensaiaram resolver a difícil questão da falta de troco. O museu Rocha, do professor Dias da Rocha, possuía para mais de 400 espécimes, em interessante coleção, os quais hoje, não são mais encontrados pelos colecionadores.

Os Borós que circularam com melhor aceitação foram os emitidos pela Câmara Municipal de Fortaleza, em 1896, quando era Intendente Guilherme Rocha. Foram lançados para custear a construção do Mercado de Ferro, desmontado em 1938. Dentro da urna, quando da colocação da pedra fundamental, Guilherme Rocha ajuntou um punhado desses vales, amarrou-os e escreveu por fora a seguinte frase: “com isto, fiz isto”.

Mercado de Ferro, construído pelo Intendente Guilherme Rocha utilizando Borós como meio de pagamento. 

Havia Borós muito curiosos, pitorescos, até. A propósito de tudo, e mesmo sem propósito algum, apareciam os vales, cujos dizeres eram mais ou menos os seguintes, às vezes escritos pelo próprio punho do emissor: “João Pinto, deve ao portador por falta de troco, quinhentos réis”. Ou ainda:  “A Comissão do Comércio abaixo assinada garante ao portador a quantia de 100 réis. Baturité, setembro de 1893: ou ainda com um simples carimbo, onde se lia “Fernando do Amaral. Devo 100 réis. Milagres – Ceará”. No mais das vezes o vale era desprovido de qualquer prolixidade: “vale um quilo de carne”, e com esses dizeres simples corria a praça, tendo o seu valor.Ainda emitiram borós, as companhias de bondes de burro: Empresa Ferro Carril do Ceará, Ferro Carril do Outeiro e Companhia de Bondes de Porangaba.

As empresas de transporte Ferro Carril também emitiram Borós, de modo que a passagem podia ser paga com esses vales

Conta-se que certa vez, um ambulante da feira de Fortaleza inventou, como toda gente, borós de sua emissão com a seguinte inscrição: “vale uma tigela de arroz doce”, e a coisa chegou aos ouvidos do Intendente, que proibiu a circulação dos mesmos e determinou seu recolhimento pelo negociante, pois só os da Câmara tinham, então, valor circulatório. Aquele, porém, à proporção que os resgatava, depositava-os na lata do lixo. A meninada esperta descobriu a mina e comeu muito arroz doce gratuitamente, com os vales que, por descuido do vendedor ambulante, voltaram a circular.

Muitos comerciantes foram à falência por emitir borós sem possuir o necessário lastro e o resultado era fatal: o resgate não se dava. O caso de um proprietário de um sítio em Baturité ficou famoso:  o homem, chamado Clementino, para facilitar o pagamento dos seus assalariados, emitiu borós o quanto pode. Em partidas mais que dobradas, quadruplicadas. Mais tarde, ou porque não fosse oportuna a época da quitação, ou porque o lastro não fosse suficiente, tal resgate não se deu. Veio o descrédito. Ninguém queria aceita-los. E os contratempos apareceram. Até um cego pedinte, que esmolava em Cangati, cantarolava ao som da viola: 

Eu peço por caridade
Pelo seu Senhor Divino
Eu só não quero boró
Que seja do Clementino

Aracati - os Borós foram largamente usados também em cidades do Interior do Estado 

Os borós tiveram sua época de ouro e depois, com o passar do tempo, ficaram desacreditados. Tendo sua origem no Ceará, todavia foram copiados por alguns Estados brasileiros, entre os quais o Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Bahia e Minas Gerais, que também os emitiram, larga e profusamente.


Extraído do livro de Raimundo Menezes
Coisas que o Tempo Levou – crônicas históricas da Fortaleza antiga
fotos do Arquivo Nirez