terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Parangaba – sob As Bênçãos do Bom Jesus dos Aflitos

A região onde hoje fica o bairro da Parangaba foi formada a partir de um aldeamento, também chamado de missões, áreas em que se erguiam espécies de aldeias indígenas artificiais –  diferentes das aldeias originais dos nativos – para onde os jesuítas conduziam e mantinham os índios da região, no intuito de convertê-los ao catolicismo. 
Sua história começa em 1607, quando os jesuítas Francisco Pinto e Luiz Filgueiras vieram de Pernambuco e fundaram pequenas aldeias, inclusive a de Porangaba.


Em 1609 foi construída uma capela para guardar os ossos do jesuíta Francisco Pinto que fora trucidado pelos índios tucurijus. Foi a primeira capela da região. Depois, é fundada a primeira igreja, com o nome de Nossa Senhora das Maravilhas. A Igreja de Bom Jesus dos Aflitos foi sendo estabelecida a partir de 1664, durante o processo de  instalação dos aldeamentos jesuítas e da ocupação indígena no Ceará, mais precisamente quando os padres jesuítas Jacob Cócle e Francisco de Cassali deslocaram os índios Potiguaras, que se encontravam na região do rio Ceará, para Porangaba, formando o aldeamento homônimo.

Nessa ocasião construíram uma capela, com a colaboração dos índios chefiados por Antônio Felipe Camarão, sob a invocação de Bom Jesus dos Aflitos, devoção oriunda da angústia do povo que recorreu ao Senhor Bom Jesus durante a batalha do Pico do Cascalho entre tropas de Portugal e Espanha, em 1582. Ao redor da igreja, a comunidade cresceu, a princípio em chácaras, depois transformadas em área nobre com imensos casarões.


Quando os jesuítas foram expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal, já na segunda metade do século XVIII, os aldeamentos foram transformados em vilas. Os jesuítas tiveram seus bens sequestrados e deixaram a administração das vilas indígenas, que ficaram a cargo de diretores. A Lei do chamado Diretório Pombalino era de 1758, mas foi implementada no Ceará no ano seguinte.  A partir desse fato surgiram as vilas de Viçosa do Ceará, Vila Nova de Soure, e Vila Nova de Arronches, em 1759. No ano seguinte – 1760 – foi criada a Vila Nova de Messejana, e em 1764, as Vilas de Monte-mor-Novo (Baturité) e Crato. Eram as chamadas “vilas de índios”. Três dessas vilas ficavam nos arredores de Fortaleza: Soure (Caucaia), Arronches (Parangaba) Messejana (Paupina).


Quando a Vila Nova de Arronches foi incorporada a Fortaleza, a Igreja do Bom Jesus dos Aflitos ficou impedida de funcionar, ficando nessa condição até 1875, ocasião em que, segundo a Secultfor, foi edificada a estrutura atual da igreja. A imagem de Cristo Crucificado, ainda é a original do tempo dos Jesuítas.

Arronches foi incorporada a Fortaleza pela lei n° 2, de 13 de maio de 1835 com o nome de Porangaba. No final de 1835, o município foi restaurado e em 1921 foi extinto pela última vez. Passou a ser distrito, época em que abrigou uma experiência pioneira: a instalação de ônibus elétricos com um terminal que funcionava nos fundos da igreja matriz.


É na Parangaba que ainda resiste uma das mais antigas manifestações culturais do Ceará. Não se sabe ao certo quando a famosa Festa dos Caboclos começou, mas é anterior a 1816, quando a Porangaba ainda era um aldeamento indígena. A peregrinação dos caboclos saía à cata de esmolas para a festa do Bom Jesus, orago da Vila. Saíam no último domingo de outubro, em procissão, com a coroa de espinhos do Bom Jesus dos Aflitos. A frente ia um tambor, despertando os ecos de montanhas e caatingas, avisando da aproximação do cortejo, que é recebido com alvoroço pelas povoações e lugarejos nos quais o dia de sua chegada é considerado santo. 

Passavam por Porangaba até Maranguape, protegidos pelo terço de viagem (rezado em algum lugar de passagem) e pelo terço da noite (cantado nas casas de pernoite). Retornavam à aldeia próximo do Natal; os oito Caboclos, vestidos à moda sertaneja, vinham queimados por muitos sóis. Segundo a tradição, D. João V teria doado a imagem de Bom Jesus aos índios, e a de N.S. das Maravilhas às índias. A peregrinação envolvia outras cidades, como Maranguape e Viçosa do Ceará. Como era feita a cavalo ou a pé, a manifestação durava meses. Durante o percurso, donativos eram recolhidos para a Igreja.

Atualmente, a Festa dos Caboclos é chamada de Festa da Coroa de Bom Jesus dos Aflitos. Ela acontece, anualmente, entre os meses de setembro e dezembro. A coroa de ferro passa por diferentes capelas da região e volta à igreja matriz no dia 23 de dezembro, quando sobe de volta ao altar e é postada acima da imagem de Jesus Cristo. A festa do Bom foi recuperada nos anos 80 pelo padre Marcelino Zanela. 


O grande patrimônio ambiental do bairro, é a Lagoa da Parangaba, cujas águas limpas que já serviram para o lazer e abastecimento dos moradores, deram lugar a águas poluídas, turvas e mal cheirosas. De acordo com o levantamento realizado pela prefeitura de Fortaleza, a Lagoa da Parangaba é uma das que têm maior profundidade, o que favorece a atividade da pesca. Mas segundo especialistas em meio ambiente, a lagoa está poluída, coberta de aguapés, cercado de lixo e precisa de ações urgentes para acabar com os esgotos clandestinos. 

Segundo relato de moradores mais antigos ao jornal "O Povo", a Lagoa de Parangaba já chegou secar totalmente. Durante a 2ª Guerra, quando foi montada uma base americana no Pici, e o Estado atravessava um período de estiagem. Os americanos retiravam grande volume de água da lagoa, que era transportada em caminhões, para utilizarem na base. Até que um dia a lagoa secou.
Outros afirmam que onde hoje existe a lagoa, havia apenas um riacho, a lagoa só teria surgido depois do aldeamento, porque muita areia foi retirada daquele local, para construção das casas. 
  

No entorno da lagoa, funciona a famosa "feira da Parangaba", onde se encontra de tudo, desde o comércio clandestino de aves silvestres, peças de artesanato, artefatos de metal e plástico e revenda de veículos.

 No endereço da fábrica Gesso Chaves S/A...
Está o Shopping Parangaba, um gigante do comércio varejista na região
 a antiga estação de trem ficou aprisionada entre as estruturas do novo transporte modal...
 o Metrofor

Distrito Parangaba
Limites
Norte – Montese, Demócrito Rocha e Itaoca
Sul – Maraponga
Leste – Itaperi e Dendê
Oeste – Joquei Clube, Bom Sucesso e Vila Peri
População – 30.947 habitantes em 9.225 domicílios
 

Fontes:
História do Ceará, de Airton de Farias
Revista Fortaleza – fascículo 8
Jornal O Povo
http://mapa.cultura.ce.gov.br/espaco/274/ 
Anuário de Fortaleza - 2012/13
fotos: Brasiliana Fotográfica, Arquivo Nirez, IBGE, Fortaleza em Fotos (2013)

  

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Avenida Francisco Sá - o Primeiro Polo Industrial de Fortaleza

O nome da avenida homenageia o deputado provincial, ministro de Viação e Obras Públicas dos governos Nilo Peçanha e Artur Bernardes, e da Agricultura, Indústria e Comércio de Nilo Peçanha, deputado geral, deputado federal e senador de 1906 a 1927, Francisco Sá casado com Olga Nogueira Pinto Accioly, filha do presidente do Estado Antônio Pinto Nogueira Accioly. Começa na Avenida Filomeno Gomes, no Jacarecanga e termina na Avenida Coronel Carvalho, na Barra do Ceará, próxima ao limite Fortaleza/Caucaia. Tem aproximadamente 6,5 quilômetros de extensão e mais de 7 mil números.

Ponte sobre o riacho Jacarecanga - 1919

A Avenida Francisco Sá é hoje a continuação da Rua Guilherme Rocha, que termina na esquina com a Avenida Filomeno Gomes. Mas nem sempre foi assim. Até por volta de 1912, a Rua Guilherme Rocha acabava na então Praça Fernandes Vieira (atual Praça Gustavo Barroso a partir de 1960, mais conhecida como Praça do Liceu), e o caminho era interrompido devido a presença de várias casas, inclusive a do antigo intendente de Fortaleza, Coronel Guilherme Rocha.
 
Para além da Praça Fernandes Vieira havia um estreito caminho de terra que seguia até o ponto em que hoje se encontra a Avenida Dr. Theberg, onde havia um sítio denominado Santo Antônio da Floresta, de propriedade do Coronel Antônio Joaquim de Carvalho que assinalava o final da via. Com a revolta urbana de 1912, que depôs o presidente Nogueira Accioly, as residências do oligarca e de todos seus aliados e colaboradores foram incendiadas, inclusive a do intendente Guilherme Rocha, que fechava a Rua Guilherme Rocha. Removidos os escombros, a rua foi aberta, ligando-se ao caminho de areia.

Em 1926 uma lei municipal denominou a continuação da Rua Guilherme Rocha, a partir da Praça Fernandes Vieira, de Avenida Demóstenes Rockert, nome de um antigo diretor da Rede de Viação Cearense, que elaborou todo o projeto para a construção da nova oficina da RVC que seria construída na via.

A oficina foi construída em terras do Sítio Santo Antônio da Floresta, doadas pelo coronel Antônio Joaquim de Carvalho, que tinha interesse em valorizar suas terras. O empreendimento ficou conhecido como “Oficina do Urubu” porque havia nas proximidades um grande aterro de lixo, que atraía muitas aves da espécie. A própria avenida era chamada informalmente de “Estrada do Urubu”. Dois anos antes da conclusão das obras, já se discutia a necessidade de uma artéria mais moderna para a região. A reivindicação foi atendida em 1931, quando o então prefeito Antônio Urbano de Almeida, inaugurou a pavimentação da avenida Demóstenes Rockert, toda em pedra. Com 2600 metros, o novo acesso unia o bairro do Jacarecanga ao Hidroporto Condor, na Barra do Ceará.

Uma das mais belas residências daquela região, foi construída em 1924, planta copiada de um imóvel de Portugal, em estilo art-nouveau, para ser a moradia de Thomaz Pompeu Sobrinho. Com 38 cômodos em quatro andares feitos com materiais importados da Europa, tinha porão habitável, salão de festas, quartos e salas com as dimensões de alguns apartamentos atuais. Atualmente abriga a Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho. 

Por essa época, já havia muitos moradores no trecho inicial da avenida, a maioria egressos do centro da cidade, que começava a ganhar ares mais comercial. Esses novos moradores ocuparam os primeiros quarteirões da Avenida Demóstenes Rockert, com residências de alto padrão e chácaras de veraneio, todas em amplos terrenos e com dois pavimentos, muitas delas, réplicas de imóveis europeus. Muitos dos casarões, dos bangalôs e das antigas construções, ainda estão lá, com outros usos, alguns conservados, a maioria não. Contam a história de uma época em que o Jacarecanga era o espaço predileto das elites de Fortaleza. 

Residência de Pedro Philomeno Gomes, na esquina das avenidas Francisco Sá e Philomeno Gomes, com suas escadarias, seus terraços e seus portões de ferro batido. depois  foi reformada e perdeu todos os detalhes decorativos. Mais tarde, foi demolida e construído no local um prédio de apartamentos.

Com a melhoria da via de acesso, vieram as indústrias, como o empreendimento de Pedro Philomeno Ferreira Gomes e das famílias Frota e Siqueira, que depois passaria a se chamar Fábrica de Tecidos São José, que se mudou para a “estrada do urubu” em 1926. Logo depois, em 1927 veio a Indústria Têxtil José Pinto do Carmo. A existência da linha férrea, responsável pelo escoamento da produção agropecuária, que atraiu estabelecimentos fabris no período da crise nas exportações de algodão, foi um dos principais atrativos para a instalação de indústrias na região; também pesou a questão dos custos logísticos, que caíam consideravelmente com um número maior de empresas localizadas no mesmo corredor comercial. Por fim, outro fator motivador,  era a abundância de mão de obra disponível naquela parte da cidade.

 Fábrica Brasil Oiticica, que instalou-se na Francisco Sá em 1934

Instalada em 1926, a Fábrica de Tecidos São José,  foi durante muitos anos a maior fabricante de redes do Brasil. A empresa possuía um parque fabril que ocupava área de 26.000 metros quadrados, empregando mais de mil operários.

Aconteceu que o número de empresas instaladas aumentou exponencialmente, e a concentração de empresas atraiu a classe trabalhadora e vários serviços para a área, mais espantou as famílias ricas para a Aldeota, Praia de Iracema e Benfica. Com o passar do tempo muitas dessas empresas se mudaram da Francisco Sá em busca de melhores condições em outras zonas industriais, como a de Maracanaú, deixando grandes áreas vazias.

Ultimamente, pouco a pouco, novos comércios e empreendimentos começaram a movimentar a região dando um novo perfil a avenida, com a instalação bancos, lojas, supermercados, farmácias, condomínios e pequenas fábricas. Em 1936, a Avenida Demóstenes Rockert, a velha "Estrada do Urubú" passou a ser chamada oficialmente de Avenida Francisco Sá.

fotos: Fortaleza em Fotos, Arquivo Nirez, IBGE, Brasiliana Fotográfica   
   

domingo, 29 de outubro de 2017

Bairro São Gerardo

Localizado na área da Secretaria Regional I (SER I) O bairro São Gerardo foi criado em 1930, e herdou o nome da Igreja de São Gerardo, onde no lugar da igreja atual havia uma capela originalmente construída em 1925, quando o lugar era conhecido por Alagadiço Grande.



Certa vez um padre italiano acusou os artesãos cearenses de inventarem nomes de santos que não existiam, e no caso de São Gerardo, parece que a alegação procede. O nome do Santo é Geraldo Majela, nascido em Muro Lucano, Itália, no dia 6 de abril de 1725. De constituição física muito frágil, cresceu sempre adoentado, aprendendo com o pai seu ofício de alfaiate. A vocação religiosa sempre latente, foi relegada a 2° plano porque não era aceito pelas ordens religiosas, só conseguindo seu intento em 1749, quando ingressou na Ordem dos Padres Redentoristas, sendo enviado para o convento de Deliceto, em Foggia. De saúde delicada, Geraldo Majela faleceu no dia 16 de outubro de 1755, aos 30 anos de idade. Foi beatificado em 1893 e canonizado em 1904 pelo Papa Pio X. 

paróquia de São Gerardo (imagem http://fecappes.blogspot.com.br)

A exemplo de muitos outros bairros e até cidades no Ceará, o São Gerardo se formou no entorno da igreja. A primeira capela dedicada a São Gerardo nasceu da iniciativa de um grupo de catequistas que conseguiram a doação de um terreno localizado na Avenida Bezerra de Menezes, por parte do casal Gaudioso e Donatila de Carvalho, no ano de 1924. Obtido o terreno, passaram a trabalhar para arrecadar recursos para a construção da capela, cuja pedra fundamental foi lançada no dia 25 de agosto do mesmo ano. Em 18 de outubro de 1925 o templo foi inaugurado e recebeu a primeira benção. No dia 19 de julho de 1934, a pequena capela, reformada e ampliada, foi elevada ao status de Paróquia de São Gerardo Majela pelo Arcebispo Dom Manoel da Silva Gomes.


Mas a capela de São Gerardo, não foi a primeira daquela região. Bem antes, em 1865, foi erigida a capela de São Francisco de Paula, na Avenida Bezerra de Menezes, número atual 2590, construída em pagamento de uma promessa feita por Antônio Francisco de Góis e sua mulher Angelina de Castro Góis, por não terem nenhum membro da família entre as vítimas da epidemia de cólera que atingiu o Ceará no século XIX. Localizada na então Vila Góis, a capela foi a primeira edificação da avenida Bezerra de Menezes.
Em 1928 o templo ganhou reforma e ampliação patrocinadas por Braz de Francesco Ângelo, que foi cônsul da Itália e nomeia uma rua próxima a igreja, no cruzamento com a Bezerra de Menezes. 
  
Avenida Bezerra de Menezes - anos 30

Por esse tempo a Bezerra de Menezes era uma via muita larga, com pavimentação tosca e irregular, repleta de pés de fícus benjamins, árvores de grande porte, de copa densa, centenárias, que ali cresceram e naturalmente se postaram ao longo da via formando canteiros e alamedas no centro, que dividiam a avenida, fazendo a separação em toda a sua extensão.

As árvores que sombreavam a avenida serviam de abrigo e proteção contra o sol forte para os passageiros do bonde do Alagadiço, que fazia o maior percurso de linha e tinha parada em frente a capela. A avenida foi modernizada na gestão do prefeito Murilo Borges (1963-1967) e perdeu seu antigo charme da avenida extensa, sombria, com árvores envelhecidas e frondosas.As residências eram em sua maioria constituídas de sítios, chácaras e mansões, dotadas de porões e enormes quintais com mangueiras e onde se cultivavam frutas e hortaliças.

Villa Meton localizada nas imediações onde hoje se encontra a Secretaria de Agricultura na Avenida Bezerra de Menezes. Na vizinhança, João Tibúrcio Albano escolheu para nome de seu sítio "Ville Nous Autres", chácara que foi objeto de curiosidade e apreço pela distinção da família que a habitava. (imagem do livro Ideal Clube - história de uma sociedade)

Hoje o bairro é considerado de renda média alta, com alta valorização de imóveis e com forte perfil comercial, tendência que ficou acentuada desde 1991 com a inauguração do North Shopping, o maior daquela região. A instalação do shopping atraiu um sem número de novos comércios e prestadores de serviços dos mais variados. Outro estabelecimento tradicional no São Gerardo é o Colégio Santa Isabel, prestigiada instituição de ensino, presente no bairro desde 1938.


Em dezembro de 2015 foi concluído um custoso processo de intervenção, visando a melhoria da qualidade ambiental com a recuperação da Lagoa do Alagadiço. Durante muito tempo o ecossistema formado pela lagoa ficou esquecido pela população, encoberto pelo lixo e pelo matagal. Com a recuperação, voltou à vista a beleza paisagística do lugar transformado em uma grande área de lazer. Com a conclusão dos serviços de desassoreamento e dragagem, o volume de armazenamento da lagoa passou a ser de aproximadamente 150.000m³. A lagoa do Alagadiço é formada pelas águas do Açude João Lopes e de afluentes do Rio Maranguapinho, como o riacho Alagadiço.
          

Outro importante equipamento do bairro, é o Polo de lazer da Avenida Sargento Hermínio, originalmente instituído como um bosque, na gestão do prefeito Evandro Aires de Moura, em 1975. O bosque é a única área de preservação situada na Regional I, além de ser a maior área verde na bacia hidrográfica do riacho Alagadiço. É localizado oficialmente no bairro do São Gerardo, dentro de uma área correspondente a 39.259,53 m² (4 hectares), caracterizando-se como Zona de Preservação Paisagística.  As obras duraram 5 anos e o local só foi inaugurado em 1981. Em 2008 foram iniciadas obras de requalificação do polo de lazer que se encontrava praticamente abandonado. O projeto foi concluído em 2016. 

Limites
Norte – Avenida Sargento Hermínio, Avenida Canal e Rua Cassimiro Montenegro; Sul – Avenida Bezerra de Menezes e Rua Azevedo Bolão;
Leste – Rua Téofilo Gurgel e Padre Graça; 
Oeste – Avenida Humberto Monte e Rua Joaquim Marques.
População: 14.200 habitantes em 4.414 domicílios (IBGE-2010)

fotos: Arquivo Nirez, Fortaleza em Fotos, O Povo. 



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A Adesão do Ceará à Proclamação da República

Não havia nada de positivo, de real, sobre os acontecimentos da Corte. Os boatos, no entanto, fervilhavam. Dizia-se alto e em bom som – não se fazia mistério, nem se pedia reserva – que a Monarquia caíra, e no Rio de Janeiro, fora proclamada a República. Tudo, porém, vago, incerto, de origem duvidosa.

Proclamação da República em tela de Benedito Calixto

A primeira comunicação, pelo fio, fora para importante casa comercial, cujo chefe em pessoa, a levara ao presidente da Província, coronel Jerônimo Rodrigues Morais Jardim (11/10/1889-16/11/1889). Ainda assim, o despacho telegráfico era um tanto lacônico, confuso em suas entrelinhas. Não parecia verdadeiro. Era natural, portanto, que fosse recebido com cautela. Dizia apenas que graves acontecimentos se desenrolavam na capital do país.
“o Ministro da Marinha, Barão de Ladário, fora mortalmente ferido por tiros e golpes de sabre ao entrar no Arsenal de Marinha. O Marechal Deodoro se colocara à frente do exército e agia contra o governo”.
Era o primeiro anúncio do levante republicano. Correu célere como um raio. Em poucos minutos Fortaleza em peso se manifestava. Nas praças, nas ruas, nos botequins e nos cafés era o assunto obrigatório entre os populares. O coronel Morais Jardim, como medida acauteladora, convocou uma reunião em palácio. Dela participaram as pessoas mais em evidência no meio político e social.

Deodoro da Fonseca liderou o movimento para implantar a República; foi o primeiro presidente e renunciou em 1891.

O presidente expôs a situação, gravíssima naquele momento. Falou com lealdade e franqueza, sobre o que sentia e o que pensava. Confessou pesaroso, em face dos boatos insistentes, as circunstâncias especiais em que se encontrava, afirmando por fim que precisava do auxílio de todos para manter a ordem pública. E aconselhou que aguardassem, prudentemente, os acontecimentos.

As 2 horas da tarde de 16 de novembro de 1889, aconteceu uma grande reunião no Passeio Público, com acalorados debates sobre o polêmico assunto. Manuel Bezerra de Albuquerque, o principal indicador e promotor dessa reunião, João Cordeiro, João Lopes, Barbosa Lima, Joaquim Catunda, Lobato de Castro, Bezerril Fontenele, e outros ali se encontraram.

Todos confraternizados com a Guarnição de 1ª. Linha e sob a indicação do primeiro citado, proclamaram “bem e legitimamente constituído o governo provisório instalado no Rio de Janeiro, sob a presidência do Marechal Deodoro da Fonseca. E considerando a Província do Ceará – Estado da República – aclamaram chefe do Poder Executivo neste Estado, o tenente-coronel Luiz Antônio Ferraz, que era então, comandante do 11° Batalhão de Infantaria.  

O Passeio Público era bastante conhecido da população. Tinha o seu passado emocionante e glorioso. Havia sido o local onde tombaram, vítimas da rememorada Comissão Militar, Mororó, Pessoa Anta, Carapinima, Ibiapina e Azevedo Bolão, cujas figuras sintetizam o tributo de sangue que coube ao Ceará na temerária adesão à Confederação do Equador.

Foi nesse logradouro, segundo uma testemunha do fato, que em um dos bancos estava uma bandeira com a haste respectiva, notando-se que ao invés da coroa imperial que nela existia, havia sobreposto o símbolo da nova forma de governo. 

Palácio da Luz - 1908 (arquivo Nirez)

Em passeata, Ferraz foi conduzido ao palácio, e ao som da banda de música do batalhão de seu comando. Lá chegando, Manuel Bezerra dirigiu-se ao presidente da Província: – “Coronel Jardim, o povo e a tropa de mar e terra , reunidos na praça pública, acabam de aclamar governador do Estado Livre do Ceará, o cidadão coronel Luiz Antônio Ferraz.”

Não houve relutância da parte do coronel Morais Jardim. O velho militar, soldado experiente, com trinta e cinco anos de caserna, compreendeu a gravidade do momento. Qualquer resistência seria inútil. Não contava mais com o apoio do povo. Estava só.
Além do mais, o governo central nada lhe dissera. Silêncio profundo. Sua provocação oficial, perguntando com insistência o que se passava na metrópole ficara sem resposta até aquela hora. Não havia outro remédio senão entregar-se a discrição dos seus antagonistas.

Passeio Público em 1908

Num discurso incisivo, eloquente, Morais Jardim referiu-se a situação crítica da Província. Apelou para o patriotismo dos cearenses, que no seu modo de ver, deviam manter a ordem pública a fim de evitarem problemas maiores. Declarou por fim, ceder à vontade do povo imposta daquele modo.

Os ânimos, porém, já estavam por demais exaltados. Quando o coronel Jardim discursava perante a multidão que o cercava, em justificativas do seu modo de agir, em face do imprevisto daqueles fatos, que era o advento de um novo regime, um incidente desagradável ao extremo, perturbou por alguns instantes a serenidade do ato.

Dom Pedro II aos 44 anos de idade. Tinha 64 quando foi deposto.

Um Oficial de Polícia, de nome Artur Saboia de Alencar, subiu numa cadeira, sacou de um punhal e rasgou em contínuos golpes, o retrato de Dom Pedro II que ornava a galeria do Palácio, atacando assim a figura varonil do velho monarca, grande benfeitor do Ceará, que ele tanto serviu e desejava próspero e feliz. O que vale, ressaltam os jornais da época, é que o ato de tão vil, não encontrou apoio na multidão. Todos o censuraram.

Morais Jardim, acabrunhado, deixou o Palácio recolhendo-se à casa do seu grande amigo conselheiro Rodrigues Júnior. E assim foi a adesão do Ceará ao triunfante movimento republicano de 1889.

Revista do Instituto do Ceará, artigo de Eusébio de Sousa
1934.