quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Energia Elétrica na Iluminação Pública de Fortaleza


 Apesar de perder consumidores residenciais, numa difícil disputa de mercado, a Ceará Gaz Company prosseguia com a iluminação pública, mantendo em ruas e praças, 2554 lampiões a gás no início dos anos 30. 

Até a primeira metade da década de 30, a capital cearense permaneceu com suas ruas e praças iluminadas por nostálgicos lampiões a gás. Tudo por força da lei de 1911 que prorrogou a concessão firmada em 1865, concedendo a Ceará Gaz Brasil esse privilégio até 1958. As diretrizes do governo revolucionário que se implanta no Brasil em 1930 levam à revisão de todos os contratos para prestação de serviços públicos em vigor, e nesse caso, finalizaria os direitos da empresa de gás, antecipadamente, para 30 de junho de 1934. Foi uma reviravolta surpreendente. A prefeitura de Fortaleza, por ordem do prefeito interino, bacharel Ubirajara Coelho de Negreiros, estabelece pelo Edital n° 24, de 5 de julho de 1934, condições para que as firmas apresentassem propostas de fornecimento de energia elétrica, pelo período de um ano, para iluminação de ruas e logradouros públicos. 


Antecederam a essa medida, vários estudos alternativos. Foi recusada a proposta da Ceará Gaz de reduzir o custo mensal do contrato, na moeda da época, de 65 para 55 contos de réis. Também já não mais se cogitava, por desistência do proponente, a contratação do suprimento dos 125 kw requeridos pela iluminação pública pelo valor de 50 contos. Descarta também o governo local a ideia de resolver o problema assumindo ele próprio um serviço municipal de iluminação pública, desestimulado pelo alto custo do investimento inicial. Restou a opção de contrato provisório de iluminação, animado pela oferta da Ceará Light de cobrar o quilowatt a 757 réis, enquanto o consumidor particular pagava 1$200 réis pelo mesmo. 

usina no Passeio Público
 O contrato provisório favorecia a única empresa capacitada para a prestação desse serviço, a Ceará Tramway Light and Power, que desde 1913, por concessão em vigor até 1987, explorava os serviços de tramways e fornecia energia elétrica aos consumidores particulares na área de Fortaleza, atendendo ainda o setor industrial. Com estrutura administrativa  e potencial de geração necessários para ampliar seu atendimento, a Light esperava apenas que se lhe abrisse o novo mercado de consumo. As obras de instalação da The Ceará Tramway Light and Power, foram iniciadas em 1912, ocupando o terreno no nível do terceiro plano do Passeio Público para montar suas usinas. 
 

construção da usina da Ceará Tramway Light and Power, no Passeio Público em 1912

Com a obtenção dos serviços de iluminação pública, a Light voltou a investir no seu parque de geração, adquirindo várias máquinas e equipamentos. As mudanças ocorridas na iluminação pública, na passagem do lampião a gás para a iluminação incandescente, foram para a cidade um salto qualitativo no seu progresso urbano. Toda a área central e grande parte dos bairros alcançados pelo melhoramento determinaram o aumento do consumo residencial de energia elétrica, entre 1944 e 1946, fato que não é acompanhado nos dois anos seguintes, notadamente em 1947, quando há crise de fornecimento de energia em razão dos constantes defeitos nas turbinas.
O custo do combustível usado nas caldeiras, a lenha, foi um fator crucial para a Ceará Light. Na sua fase final, o consumo diário representava 25 vagões ferroviários de lenha, transportada do interior pela Rede Viação cearense. Custos ascendentes foram enfrentados com os fornecedores, dos quais o maior deles foi o lusitano José Maria Cardoso, que ficaria conhecido pela construção de sua residência no bairro Damas, popularizada como Casa do Português, objeto  de noticiário até na BBC de Londres, por seus excessos arquitetônicos.

 José Maria Cardoso, proprietário da "Casa do Português" era um dos fornecedores de lenha para a usina da Ceará Tramway Light and Power 

O reflexo nocivo no meio ambiente, pelo desmatamento, não era ainda preocupação, visto que não eram discutidas as questões ecológicas. Mesmo assim, no citado relatório do interventor da Light, o problema é levantado: o efeito calamitoso do emprego desse combustível na devastação de nossas florestas é por demais evidente, não necessitando de demonstração.
Havia ainda as dificuldades decorrentes da II Guerra Mundial, que reduziu as possibilidades de ligação marítima com a Europa.  os graves problemas tornaram-se insustentáveis. É esse quadro que a interventoria reconhece e atribui toda a culpa pelas dificuldades à própria Light, que mesmo contando com justos lucros, preferia enviá-los à sede em Londres, ao invés de aplica-los na concessionária cearense. Numa síntese realista, o interventor descreve a situação, para que ficasse claro que o desmoronamento do empreendimento decorreu pela natureza própria da companhia termoelétrica e pelas condições do meio (combustível difícil e caro; salários elevados; obrigações sociais onerosas e pobreza do meio).

 Ante esse quadro de crise extrema, restou então à direção da Ceará Tramway Light and Power, solicitar a intervenção do governo federal como recurso para continuar operando. Efetivada a intervenção em 1° de junho de 1946, segue-se a ela, 14 meses depois, a autorização para encampação pelo governo municipal em ato assinado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, em 1948. É o fim da presença britânica nos serviços públicos na capital cearense.

Extraído do livro História da Energia no Ceará
De Ary Bezerra Leite 
fotos do livro acima citado e do Arquivo Nirez
   

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Os Primeiros Clubes Sociais

sede própria do Clube Cearense em frente ao Passeio Público. Mais tarde funcionou no prédio o Hotel de France 

O Clube Cearense foi o primeiro clube social de Fortaleza, fundado ainda no segundo império, foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1867, com um grande baile, reunindo o melhor da sociedade desse tempo. Não completou 35 anos de existência , mas durou o tempo suficiente para tornar-se uma referência para as associações que o sucederam.
Nas primeiras décadas do século XX, dois clubes sociais realçavam o estilo de vida da chamada alta sociedade fortalezense: o Clube Iracema e o Clube dos Diários. 
 


Festa de 50anos do Clube Iracema

O Clube Iracema foi fundado no dia 28 de junho de 1884, como reação democrática contra o elitista Clube cearense, marcando seu início como centro atividades políticas e sociais, voltado para a militância dos movimentos abolicionistas e republicanos. Era a resposta social da burguesia emergente associada à parcela da alta classe média, contra a aristocracia da terra, numa época em que a cidade crescia de população, já próxima de 35 mil habitantes, vivenciando um tempo de mudanças na estrutura econômica e política da província.
Durante vinte dias, um grupo de jovens comerciantes e intelectuais preparou o baile inaugural que seria realizado no dia 19 de julho. O Clube Iracema privilegiou as atividades culturais, registrando em seus salões intenso movimento artístico-literário. Ali nasceu o gabinete de Leitura, o Instituto do Ceará, a Fênix Caixeiral, a Padaria Espiritual, a Sociedade Perseverança e Porvir, a Academia Cearense de Letras e a Sociedade Libertadora Cearense. 

baile no Clube Iracema 

Depois do encerramento do Clube Cearense, muitos de seus antigos associados passaram a frequentar o Iracema. Intensificaram a vida social do clube e o lhe conferiram o status de mais importante dentre as agremiações sociais de Fortaleza. Admiráveis festivais foram realizados no Clube Iracema, conduzidos por músicos como Arthur Napoleão, Dalmau, Galiani, Landau Teixeira e Alberto Nepomuceno. Por muitos anos o Clube Iracema ocupou vários casarões do centro da cidade. Em 1922 sediou-se no Palacete Ceará, na Praça do Ferreira de propriedade do coronel José Gentil de Carvalho.

Em 1939 o Clube Iracema instalou sua sede em prédio próprio na Praça dos Voluntários. Este prédio, um dos mais belos exemplos de estilo art-deco da cidade, foi desapropriado em 1947 pela Prefeitura de Fortaleza para ali instalar seu centro administrativo. 


Clube dos Diários

Em consequência de uma dissenção na sociedade do Clube Iracema, surgiu em 18 de março de 1913, o clube dos Diários, aquele que seria o mais requintado do período da Belle Epoque de Fortaleza. Desde sua inauguração, instalou-se no Palacete Guarany, na antiga Rua Formosa, hoje Barão do Rio Branco. 

 reunião da diretoria do Clube dos Diários no Palacete Guarany - 1954 

Mais tarde foi construída uma nova sede social, na Aldeota, entre as ruas Barão de Aracati e Carlos Vasconcelos, numa área hoje ocupada pelo edifício da Receita Federal. O Clube dos Diários preenchia a vida social de Fortaleza com charme e elegância. Bailes grandiosos, apresentações musicais, exposições de arte ocorriam em seus salões. Acompanhando o desenvolvimento tecnológico, sua diretoria procurava oferecer aos associados o que havia de mais moderno na área de lazer e entretenimento.                                      
 
anúncio em jornal dos anos 60
Até o final dos anos 20, a vida social e elegante da cidade era conduzida pelos dois clubes: Iracema e Diários. Esses rivalizavam nas festas e bailes carnavalescos. Na segunda metade do século XX, o Clube dos Diários, numa forme de sobrevivência, fundiu-se com o Clube Iracema constituindo o Clube Diários-Iracema.

Ceará Country Club


Um terceiro clube, o Ceará Country Club inaugurado já nos fins da Belle Epoque, congregava quase que exclusivamente a colônia inglesa da cidade até 1956. A partir daí houve uma abertura no seu quadro social, com aquisições de ações por membros da sociedade fortalezense.
Fundado em 23 de abril de 1924, com a intenção de promover o esporte entre britânicos e americanos residentes no Ceará, o Country Club tinha o inglês como idioma oficial da diretoria. Seus terrenos foram adquiridos de Dona Maria Teresa de Souza Accioly, viúva do Comendador Antônio Pinto Nogueira Accioly mediante escritura pública de 1922. Abrangiam duas quadras entre a Avenida Santos Dumont, Ruas Silva Paulet, Pereira Filgueiras e Avenida Barão de Studart. A sede do clube foi edificada em estilo normando, pelo arquiteto Sylvio Jaguaribe Ekman.
No tempo da administração dos ingleses, todos os bailes do Ceará Country Club findavam com a valsa “Daisy Bell”, cujo refrão dizia:



“Daisy, Daisy, give me your answer, do!
I’m half crazy, all for the love of you!
It won’t be a stylish marriage,
I can’t afford a carriage,
But you’ll look sweet upon the seat
Of a bicycle buit for two!

O refrão dessa canção vitoriana fez parte da história dos jingles da rádio brasileira, participando, assim, da evolução radiofônica, iniciada em 1931, que abriu o Brasil para o mundo, conduzindo-o à Era das Comunicações de Massa.
Uma das mais importantes propagandas da época, anunciava o produto farmacêutico fitoterápico “Phymatosan”, que tinha como slogan “A sentinela dos pulmões”. A partir do tempo de ouro do rádio nacional, em todas as emissoras do país, por anos a fio, um afinado coral acompanhava a valsa , num ritmo arrastado. Esse antológico jingle, teve seus versos confirmados pelo pesquisador Cristiano Câmara, que propalava:

Phymatosan, quando você tossir,
Phymatosan, se a tosse resistir
Renova seu apetite
Acabando com a bronquite
Phymatosan, melhor não tem
É o amigo que lhe convém.

  
extraído do livro
Ideal Clube - história de uma sociedade - memórias, documentos, evocações
de Vanius Meton Gadelha Vieira 
fotos dos livros Ideal Clube, Ah, Fortaleza! e do Arquivo Nirez


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Padre Mororó, herói da Revolução

Gonçalo Ignácio de Loiola Albuquerque e Mello, que acrescentou Mororó ao seu nome durante a Confederação do Equador, nasceu no dia 24 de julho de 1778, na povoação do Riacho Guimarães, em Sobral, filho do alferes Félix José de Souza e Oliveira – escrivão e vereador da Câmara de Sobral – e Theodósia Maria de Jesus Madeira. Depois de infância dedicada ao estudo da gramática latina, segue para Pernambuco, matriculando-se, com 22 anos, no Curso de Teologia, onde se aprofunda também em ciências físicas e história natural. Ordenou-se sacerdote em 1802, no Seminário de Olinda.

 Igreja matriz de Sobral

De volta ao Ceará celebra a primeira missa na Matriz de Sobral e exerce atividades religiosas em várias cidades do interior, especialmente em Boa Viagem, Santa Quitéria e Quixeramobim. Durante três anos foi professor de latim, em Aracati.
Em 1816 profere sermão de Ação de Graças em Fortaleza, nas comemorações da elevação do Brasil à categoria de reino, ocorrida através do decreto de 16 de dezembro de 1815. A atuação eloquente de padre Mororó chama a atenção do então governador Sampaio, que o convida para participar dos “oiteiros”, reuniões literárias e artísticas, nascendo daí uma estreita amizade.
Alguns anos depois Mororó se envolve com ideias liberais, motivado principalmente pelas leituras do jornal “Correio Braziliense” publicado em Londres por Hipólito da Costa. Em 1821 Padre Mororó já demonstra afinidade com o movimento. Onde passa residir, elege-se vereador. Com a notícia da dissolução da Assembleia Constituinte, ocorrida em 12 de novembro de 1823, o padre lidera movimento de repúdio à medida autoritária do Imperador, na Câmara de Quixeramobim. O jornalista João Brígido, em trabalho publicado em 1889, na Revista do Instituto do Ceará, afirma que a Câmara, em sessão de 9 de janeiro de 1824, declarou a deposição do trono do imperador e seus descendentes. Deliberou ainda que se curasse dos meios de substituir a forma de governo convidando as demais câmaras da província para cooperarem na organização de uma república.

 Rua Conde D'Eu, antiga Rua dos Mercadores e Rua de Baixo

Por esse tempo, a exemplo de outros, o padre Gonçalo, substituiu seu cognome, de Mello para Mororó, planta brasileira. Vêm dessa época os apelidos de Araripe, Ibiapina, Sucupira, Buriti, Antas, Sussuarana e tantos outros, que se perpetuaram na província e traduzem adesões à independência.
Em 1° de abril de 1824 surge o “Diário do Governo do Ceará”, o primeiro jornal publicado na província. Padre Mororó é escolhido diretor e redator do principal veículo de divulgação dos ideais republicanos. Por esta razão, Padre Mororó é considerado o patrono da imprensa cearense.
No dia 16 de agosto de 1824, em Fortaleza, na sessão do Grande Conselho do Ceará, cujo secretário é Padre Mororó, sob a presidência de Tristão Gonçalves, proclama-se a República, em total adesão ao movimento iniciado em Pernambuco, que culminou com a Confederação do Equador. Apesar dos esforços militares de Tristão Gonçalves e Pereira Filgueiras, as forças imperiais retomam o poder em violenta contra-revolução. Inicia-se então, a perseguição aos revoltosos.
Preso em Fortaleza na antiga Rua dos Mercadores, hoje Conde D’Eu,  Padre Mororó é condenado à pena de morte pela Comissão Militar presidida por Conrado Jacob de Niemeyer. A pena deveria ser morte por enforcamento, tendo como carrasco um preso comum, na forma estipulada no código de Processo Criminal do Império. 

 Passeio Público em 1907 - vista do 2º plano, espaço hoje ocupado pelo quartel da 10ª região Militar. 

Mas nenhum preso aceitou o papel de carrasco do Padre Mororó. Jacob Bernardo, aborrecido com a recusa dos presos, resolve eleger para verdugo Agostinho Vieira, condenado pela justiça comum. Este, no entanto, recusa a indicação, atraindo para si imediato castigo. Dois soldados invadem a prisão, autorizados pelos carcereiros, espancam o preso até deixa-lo estendido no chão. Usando métodos ainda mais eficazes, colocam a ferros dois prisioneiros, que são ferozmente espancados, mas ainda assim,  nada conseguem. 
Indignado, Niemeyer resolve o impasse convertendo verbalmente, o suplício da forca para fuzilamento. A data da execução fica marcada para a manhã do dia 30 de abril de 1825, quando também seria executado Pessoa Anta, outro implicado na rebelião. 

 Quartel da 10ª Região Militar, antigo Quartel de 1ª. linha na Av. Alberto Nepomuceno em 1933. 

Barão de Studart relata o início da cerimônia de fuzilamento de Padre Mororó e Pessoa Anta: “saíram os dois do oratório no andar superior do quartel de 1ª. Linha, guardados por grossa leva de soldados comandados por dois oficiais, em direção à Igreja do Rosário, onde ouviram missa celebrada pelo Frei Luiz do Espírito Santo Ferreira. O cortejo viera pela Rua dos Mercadores ou Rua de Baixo (hoje Conde D’Eu), e concluído o ato religioso, seguiu pelo trecho da hoje Rua Guilherme Rocha, dobrando na Rua Major Facundo e prosseguindo até o Largo de Fortaleza, lado norte do Campo da Pólvora, hoje Passeio Público, local marcado para o sacrifício".

 Igreja do Rosário, em 1908

Numa manhã de sol claro, Mororó terá a primazia. Colocado em posição de tiro, recusa a venda e pede para que não ponham no peito a fita indicativa do local de mira. Os carrascos o atendem. Em seguida, sem perder a fleuma do mártir resignado, coloca sobre o coração a mão direita e resolutamente diz: “Camaradas, o alvo é este, atirem certeiro para que não me deixem sofrer muito”. Temia certamente o conhecido “tiro de misericórdia”, suplício muitas vezes continuado e de extremo padecer. Nesse momento, as carabinas ecoam, três dedos da mão rolam por terra e o herói tomba sem vida.

Extraído do livro A História do Ceará passa por esta rua,
de Rogaciano Leite Filho
fotos do Arquivo Nirez

terça-feira, 26 de agosto de 2014

As Calçadas de Fortaleza

Segundo dados do IBGE (2010), no Brasil cerca de 30% dos deslocamentos de rotina são realizados a pé, principalmente em função do alto custo do transporte público. Além da importância para a mobilidade, as calçadas funcionam também como um "sensor" da qualidade de urbanização de uma cidade.
Enfim, cidades são feitas para pessoas, e estas primordialmente caminham. A necessidade de calçadas de qualidade vale para todos: jovens, adultos, crianças, idosos e pessoas com deficiência física, que demandam pavimentos bem nivelados, sem buracos, livres de obstáculos, dotados de rampas de acesso para cadeiras de rodas.
Calçadas devem ser suficientemente largas e, sempre que possível, protegidas por arborização para conforto de quem anda sob o sol. E bem iluminadas, para quem caminha à noite. 

Calçada que margeia o Lago Jacarey

Há uns três anos  foi divulgada uma pesquisa que colocava Fortaleza em primeiro lugar  por ter as melhores calçadas entre 12 capitais avaliadas. O  resultado da pesquisa soou como uma piada em meio a população, porque boas calçadas, é tudo que Fortaleza não tem. Segundo o estudo, entre as 12 capitais avaliadas,  Fortaleza teve o maior destaque com pontuação de 7,60, e a melhor calçada foi a da Avenida Bezerra de Menezes - classificada com 9,13. Essa mesma pesquisa apontou que a melhor calçada do Brasil fica em São Paulo, mais especificamente na Avenida Brigadeiro Faria Lima: é espaçosa, sem obstáculos, tem jardins, rampas para cadeiras de roda e piso especial para orientar deficientes visuais.

Praça Francisco Moreira de Sousa, no Meireles 
Locais com urbanização mais recentes têm observado as normas que se aplicam ao espaço, e construído calçadas que facilitam o acesso a todo tipo de público.  
 
 Avenida Monsenhor Tabosa, na Praia de Iracema
Apesar de recentes, as calçadas da Avenida Monsenhor Tabosa não preenchem todos os requisitos na questão da acessibilidade. O piso tátil, universalmente utilizado para orientar deficientes visuais, foi colocado de forma inadequada e mais confunde do que orienta. A colocação de obstáculos em forma de bolas, para evitar que veículos estacionem em cima das calçadas, também serve de entrave a portadores de necessidades especiais, como cadeirantes e deficientes visuais.
                     Segundo o Código de Posturas da Prefeitura de Fortaleza:
Art. 605
– Todos os proprietários de imóveis edificados ou não, com frente para vias públicas, onde já se encontrem implantados os meios-fios, são obrigados a construir ou reconstruir os respectivos passeios e mantê-los em perfeito estado de conservação e limpeza, independentemente de qualquer intimação.

 construção na Aldeota: cadê a calçada?

 esse imóvel invadiu o espaço destinado ao passeio, aos pedestres restou a pista de rolamento.
Art. 611

– No caso dos passeios serem danificados por execução de serviços de entidades públicas ou companhias ou empresas concessionárias de serviços públicos, a obrigatoriedade de reconstrução ou conserto dos passeios ficará a cargo dessas entidades.
Art. 613
– Quaisquer obras ou serviços a serem executados nos passeios deverão ter autorização prévia do órgão municipal competente.
§ 1º - Não serão permitidos jardineiras, posteamentos, caixas de luz e força, telefone ou similares, que ocupem mais de um terço da largura dos passeios, respeitado e máximo de 0,70m (setenta centímetros), contados a partir do meio-fio, devendo o espaçamento entre esses equipamentos obedecer a determinações do órgão competente da Prefeitura, sem prejuízo das normas técnicas oficiais vigentes.



calçada do Instituto Dr. José Frota, o maior hospital de urgência e emergência do Ceará. 

§ 2º - As jardineiras de que trata o parágrafo anterior terão a altura máxima de 0,20m (vinte centímetros), contados a partir do nível do meio-fio, devendo a vegetação ser mantida dentro dos seus limites.
§ 3º - Não será permitida a colocação de trilhos ou de quaisquer outros elementos de proteção, nos passeios dos logradouros públicos.


 Rua Senador Pompeu, centro 

§ 4º - Não serão permitidas a colocação ou construção de degraus de acesso a edificações, fora dos limites dos respectivos terrenos.
§ 5º - Não será permitido amarrar ou apoiar postes, paredes, edificações ou quaisquer instalações, mediante cabos de aço ou vigas de aço ou concreto, inclinados sobre passeios e nestes presos ou fincados.
§ 6º - Não será permitido que os portões existentes nos alinhamentos das vias sejam abertos sobre passeios. 
Alguns pensadores afirmam que se pode medir o nível de civilização de um povo pela qualidade das calçadas de suas cidades. Então analisem as calçadas de Fortaleza e tirem suas próprias conclusões.

 
Fontes:
http://www.mobilize.org.br/campanhas/calcadas-do-brasil/levantamento
http://g1.globo.com/jornal-nacional
http://www.fortaleza.ce.gov.br/sites/

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A Tragédia das Secas: o dia dos mil mortos


Atualmente Fortaleza possui aproximadamente 12 cemitérios, incluindo os localizados na Região Metropolitana. Mas o que aconteceria, em termos de atendimento e funcionamento de infraestrutura, se por um infortúnio, morressem, num único dia, mais de 1000 pessoas na cidade?
Acreditem Fortaleza já passou por uma situação como essa, numa época em que os serviços funerários não existiam e as vítimas de epidemia eram sepultadas num único cemitério. 

 Rua do Centro fins do século XIX/início do Século XX (Arquivo Nirez)
 
A grande seca de 1877-1879 não apenas secou os reservatórios de água, como trouxe graves efeitos sanitários para a cidade. Desde 1845 a província do Ceará não era assolada por este tipo de fenômeno climático. Nos três anos em que perdurou, a estiagem expulsou mais de 100 mil sertanejos para a Capital, então com cerca de 30 mil habitantes. A maior parte desses retirantes ficou em abarracamentos nos subúrbios. Sofrendo com o calor tórrido, expostos às intempéries e vivendo em condições sub-humanas, a multidão foi atingida por uma violenta epidemia de varíola, que ameaçou se alastrar pela cidade.

 Estação de Iguatu no ano de 1877, uma multidão de flagelados aguarda o trem para Fortaleza 

Segundo Rodolfo Teófilo, farmacêutico que testemunhou e registrou detalhadamente o cotidiano de horror causado pela varíola, em apenas 2 meses do ano de 1877, a epidemia vitimou 27.378 retirantes no interior e nos arrabaldes de Fortaleza; no ano seguinte, 24.849 foi o total de mortos. O trecho abaixo dá uma ideia da imagem fúnebre que se abateu sobre a capital:
"Tinha Fortaleza o aspecto de sombria desolação. A tristeza e o luto entravam em todos os lares. O comércio completamente paralisado dava às ruas mais públicas a feição de uma terra abandonada. Os transeuntes que se viam eram vestidos de preto ou eram mendigos saídos dos lazaretos com os sinais recentes da bexiga confluente que lhes esburacou a cara e deformou o nariz."
Em apenas 1 dia do mês de dezembro de 1878, o cemitério do Lazareto da Lagoa Funda recebeu 1004 cadáveres. Aquele 10 de dezembro ficou conhecido como “o dia dos mil mortos”. Foram contratados 40 populares para fazer os sepultamentos e os trabalhos entraram pela noite adentro. Ainda assim mais de 100 corpos tiveram de esperar o dia seguinte para serem enterrados.(O Lazareto da lagoa Funda ficava acerca de 3 km a noroeste da cidade, no atual Jacarecanga).

grande número de retirantes se concentram na Praça da Estação em Fortaleza, em busca de trabalho, alimentos e assistência social
A Cidade não estava preparada para tamanha calamidade. Apesar de o governo provincial não poupar despesas e contratar todos os médicos da cidade, não foi possível interromper a marcha epidêmica. O Lazareto de lagoa Funda, com capacidade para 300 enfermos, logo ficou lotado. Outros lazaretos foram improvisados, permitindo mesmo precariamente, que 5 mil pessoas fossem recolhidas e tratadas, noite e dia por médicos e voluntários.
O farmacêutico Rodolfo Teófilo, fundamentado nos preceitos que regiam a medicina urbana, reprovava alguns dos procedimentos adotados durante a vigência da epidemia, como o de transportar os cadáveres dos subúrbios para o cemitério do Lazareto, passando pelas ruas centrais da cidade; reconhecido como inadequado, o trajeto da praia passou então a ser utilizado para o traslado dos corpos. 

vítimas da seca
 Teófilo censura também os carregadores que fazia o trabalho de condução dos cadáveres, arregimentados no seio das camadas urbanas mais pobres e que recebiam diária de mil réis, comida e aguardente. Ordinariamente embriagados, os carregadores descansavam das cargas deixando à vista dos que chegavam às janelas, a visão dos esquifes estendidos na calçada.
A epidemia também ceifou vidas entre os habitantes  de Fortaleza, mesmo estando distantes do museu de horrores em que se transformaram os arrabaldes e postos sanitários onde os flagelados eram atendidos. No final de dezembro de 1878, a mulher do presidente da província faleceu vítima da varíola. A partir daí ninguém mais se julgava seguro e a peste fazia vítimas entre gentes que viviam completamente isoladas.
A partir de 1879 algumas chuvas caíram e isso contribuiu para que a epidemia diminuísse. Em janeiro o número de mortos baixou para 204; em fevereiro, caiu para 176. Finalmente, o inverno de 1880 pôs fim à seca e cessou a epidemia.
 
imagem UOL
 Mas a varíola permaneceu endêmica, uma vez que alguns casos continuaram ocorrendo nos anos seguintes. Com o término da catástrofe a maioria dos retirantes voltou para o sertão ou emigrou para os seringais da Amazônia, porém muitos ficaram a mendigar pela Cidade. Eram facilmente identificados pelas marcas deixadas pela doença em seus corpos. O número de cegos pela varíola era incontrolável. Entre a turba de esmoleres, grande número de crianças, pequeninos, órfãos de pai e mãe que em companhia de mulheres vadias, de quem eram o ganha-pão, esmolavam cantando.
A varíola e a seca retornaria a Fortaleza em 1888 e 1900, mas não fez muitas vítimas entre os milhares de retirantes que novamente vieram para a Capital. O que não significa que o Lazareto da lagoa Funda não voltou a ter toda a lotação esgotada por doentes.
Após a seca de 1900, o presidente do Estado o médico Pedro Augusto Borges, mandou fechar o Lazareto da Lagoa Funda em razão do alto índice de impregnação infecciosa do prédio e do seu cemitério anexo.


Extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque – reformas urbanas e controle social – 1860-1930
fotos Google