quarta-feira, 4 de março de 2015

O Abandono do Centro


A Praça do Ferreira,  oficialmente declarada  em 2001 “Patrimônio Histórico e Patrimonial de Fortaleza”, está visivelmente abandonada pelo poder público: bancos quebrados, arborização mal cuidada, fonte desligada e sem manutenção,  invadida por moradores de rua, que ali dormem, fazem suas necessidades, jogam restos de alimentos. Sob o olhar complacente dos gestores, a Praça do Ferreira, o coração de Fortaleza, amarga a perda de sua importância histórica e agoniza diante de olhos desatentos e indiferentes.   


Abandonado pelas camadas de alta renda e esvaziado no que se refere a atividades de lazer, cultura e administração, o Centro de Fortaleza foi apropriado pelas camadas populares. Nos anos 1980/90, tornou-se uma área tipicamente comercial e de serviços, direcionada à população de menor poder aquisitivo. Suas praças, antes voltadas para o lazer dos segmentos mais abastados, foram sendo convertidos em terminais de ônibus – Praça José de Alencar, Praça Castro Carreira, Praça do Coração de Jesus – ou em mercados informais (Praça da Lagoinha, Praça José de Alencar, Cidade da Criança).

A consolidação da Aldeota a partir da década de 1980, como local de lazer e comércio e a construção dos shoppings centers na Aldeota e no Cocó contribuíram para a decadência do centro. 

Um dos indícios mais claros de como os shoppings ajudaram a esvaziar o centro de Fortaleza foi o fechamento dos cinemas da região: o Cine Diogo encerrou as atividades em 1997; o Jangada em 1996; o Fortaleza, em 1999. 0 São Luiz, depois de alguns anos inativo, foi reaberto recentemente.

No Centro as calçadas não servem mais aos pedestres: quase todas estão ocupadas pelos camelôs
   

Para desgosto dos setores dominantes, as ruas do centro foram invadidas por milhares de camelôs, com suas barraquinhas onde são vendidos inúmeros produtos populares, vários deles de procedência duvidosa.A questão da ocupação do Centro pelos camelôs não é nova nem inédita. Em trecho do romance “A Normalista” Adolfo Caminha descreve o comércio ambulante nas ruas de Fortaleza em torno de 1870.   

A principio, as autoridades enfrentaram o problema do comércio informal como uma questão afeta à área da saúde. Somente após 1970, o poder público passou a ar atenção ao comércio ambulante através de adoção de medidas repressivas e disciplinadoras baseadas em questões relativas à higiene e ao trânsito. No final dos anos 70 foram adotadas políticas de urbanização relacionadas ao uso do espaço público, visando implementar medidas que promovessem o controle e o ordenamento daquelas práticas comerciais populares.


Assim, por diversas vezes, a Prefeitura Municipal procurou controlar esse processo de apropriação do espaço público, através do cadastramento dos comerciantes ambulantes,  restrições de áreas que podem ser ocupadas e mesmo o deslocamento para outras áreas, o que porém, nunca resolveu nem acabou com o problema – ao contrário, a quantidade de ambulantes só aumentava. As tentativas de transferências são sempre fortemente recusadas pelos vendedores, num sinal claro da importância do Centro para esse tipo de comércio popular, em razão da grande concentração de consumidores de baixa renda. Além da resistência dos camelôs em abandonarem a área, acrescenta-se ainda a transformação de praças e ruas em pontos terminais de ônibus, o que leva a concentração de muitos eventuais consumidores. 

Sem a presença das classes dominantes, a área central da cidade foi negligenciada pelo Estado, se deteriorando: calçadas estreitas, totalmente ocupadas pelos comércios, intensa poluição visual e sonora, falta de higiene, de segurança, pobreza das fachadas dos imóveis, ausência de limpeza pública. Muitos dos antigos casarões desmoronaram e foram transformados em estacionamentos para veículos. Criou-se um ciclo vicioso de segregação espacial e deterioração: ao consolidar-se como área de comércio para pobres, o Centro teve suas possibilidades reduzidas com relação a uma possível melhoria  na  qualidade espacial, visto que as camadas populares não exercem pressão nesse sentido.

Nas fotos, moradores de rua na Praça do Ferreira, e o comércio ambulante na Praça José de Alencar, na calçada do teatro. 


Urbanistas defendem que, a valorização do Centro de Fortaleza, passa por uma reocupação dos espaços, (re)atribuindo-lhe funções administrativas, artísticas, culturais, lazer e habitacional, o que é pouco provável, pois grandes setores econômicos privados não têm interesse na região. Atualmente é relativamente pequena a quantidade de imóveis residenciais efetivamente ocupados. 


extraído do livro: Fortaleza: uma breve história
de Artur Bruno e Airton de Farias
fotos do acervo do blog  

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A Primeira Sessão de Cinema

A primeira sessão cinematográfica no Brasil teria ocorrido em 1896, no Rio de Janeiro. Projeções itinerantes aconteceram por esse período país afora, inclusive em Fortaleza – os filmes eram exibidos como curiosidades nos intervalos das apresentações de circo ou em locais públicos, a exemplo de praças, cafés e parques de diversões. Depois, surgiram as salas fixas de exibições. 
Cinema Rio Branco
O primeiro cinematógrafo de Fortaleza teria surgido em 1908, instalado pelo italiano Vitor di Maio, vindo do Rio de Janeiro – onde também inaugurara o primeiro cinema brasileiro. A seguir, outros cinematógrafos surgiram na capital cearense, como o Rio Branco, do italiano Henrique Mesiano, e o popular Cassino Cearense, de Júlio Pinto, ambos de 1909. 

Júlio Pinto, nascido em Icó, foi um comerciante e industrial dos mais ativos no Ceará no começo do século passado, parente de Nogueira Accioly. Em 1911 aparecia o Cine Polytheama, de José de Oliveira Rola. Havia outras pequenas salas de exibição pela periferia. 

Durante a apresentação dos filmes, que eram mudos, um pianista tocava. Em 1932 chegava à cidade o cinema falado. De início os filmes eram voltados para as camadas populares, como uma diversão barata. O público, sobretudo o masculino, lotava as pequenas salas de exibição. Depois a diversão tornou-se mais elitizada, direcionada para os setores abastados e com filmes dirigidos também para as mulheres. Deixou de ser mera curiosidade para virar um negócio lucrativo. Apesar das salas terem se tornado um espaço elitizado, eram comuns as reclamações quanto à gritaria e molecagens do público, além do forte cheiro de cigarro durante as sessões. 

Cine teatro Majestic Palace 
foi construído pelo comerciante Plácido de Carvalho, com endereço na Rua Major Facundo. Encerrou suas atividades em 1968, quando um grande incêndio destruiu a sala de projeção. 

Cine Moderno
Ficava na Rua Major Facundo vizinho ao Majestic. Foi construído por Plácido de Carvalho, inaugurado em 1922 e explorado comercialmente por Luiz Severiano Ribeiro. Também encerrou as atividades em 1968, em decorrência de um incêndio em suas instalações. 

Em 1917 surgiria o Majestic Palace, o primeiro grande e moderno cinema da capital, situado na Praça do Ferreira. Também ocorria ali a apresentação de peças teatrais, de artistas e até luta de boxe! No ano de 1921 apareceu o Cine Moderno. Somente em 1940 e 1958 surgiriam cinemas de igual porte, o Diogo e o São Luiz respectivamente. Eram prédios luxuosos, visando atender ao bom gosto das elites em seu lazer. Os citados cinemas e luxo foram criados por um dos negocistas mais conhecidos no País no ramo de exibições cinematográficas: Luiz Severiano Ribeiro.


Nascido em Baturité, no ano de 1895, Luiz Severiano Ribeiro conseguiu destaque no comércio de Fortaleza como proprietário de livrarias e papelarias. Buscando diversificar os negócios, entrou para a atividade de exibição de filmes – em 1915 inaugurava o Cine Riche, em parceria com Alfredo Salgado, rico comerciante local.

Cine Diogo 
Instalado no térreo do Edifício Diogo, foi inaugurado em 1940, na Rua Barão do Rio Branco. Era propriedade de Luiz Severiano Ribeiro.

Cine São Luiz
 inaugurado em 26 de março de 1958, construído por Luiz Severiano Ribeiro. Foi o maior e o mais luxuoso cinema do centro.  

Fundou vários cinemas, especialmente os luxuosos, que eram uma tendência da época em outras cidades do mundo – com um público mais abonado. Os lucros também seriam maiores. Os cinemas concorrentes acabaram falindo e Severiano Ribeiro passou a monopolizar a atividade, não só de exibição, mas também de distribuição de filmes nos anos 1920. Chegava a pagar aos concorrentes para manterem suas salas fechadas. 

Logo expandiu os negócios e o monopólio para outros estados do País – mudou-se para o Rio de Janeiro em 1926. Em sociedade com empresas cinematográficas dos EUA, conseguiu o direito de exibir com exclusividade os lançamentos de filmes em seus cinemas (depois, as películas iriam para outras salas de exibições). Nesse lucrativo esquema, edificou um verdadeiro império de cinemas. Faleceu em 1971.

Extraído do livro 
História do Ceará, de Airton de Farias. 
fotos do Arquivo Nirez 
       

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O Bairro do Jacarecanga que eu Conheci


 Francisco José Lustosa da Costa  

Adolescente solitário, nos fins de semana, à tarde, tomava o ônibus da empresa do Oscar Pedreira, na Barão do Rio Branco (ou ia a pé?), rumo da Praça do Liceu, no Jacarecanga. Fazer o que, não sei. Talvez turismo, para conhecer a cidade. Passava pela mansão Itapuca, de Alfredo Salgado, construída com material importado da Europa a que olhava, com olhos deslumbrados. Descia naquela leitaria, esquina com Guilherme Rocha, localizada próxima à casa do radialista Paulino Rocha, pois, a este tempo, bebia leite e coalhada. Ainda não se inventara o iogurte. Olhava a prontidão do quartel do Corpo de Bombeiros que interessava menos pela rotina dos soldados do fogo que pelo fato de ser o local onde se guardavam os doutores, gente importante – que não podia ir para a Cadeia Pública, feita só para os pobres – quando em prisão especial. O silêncio das salas do Liceu, que era ainda a grande instituição de ensino do Ceará, só iria acabar com a fundação da Universidade Federal, quando os seus professores viraram professores universitários e não tiveram substitutos. Seus alunos era rapaziada valente que tomava parte em manifestações políticas e quebrava os ônibus do Oscar Pedreira, quando a Câmara de Vereadores elevava o preço das passagens. Gostaria de conhecer o Bom Pastor que acolhia as moças que haviam perdido a virgindade e tentavam recompô-la através de preces e de recolhimento. Claro que era impossível. A Escola de Aprendizes de Marinheiros, com a brancura intocada de seus muros, não pichados nem mesmo nas campanhas eleitorais. O Asilo dos Velhos, encargo do Torres de Melo. 

 Casa de Thomaz Pompeu Sobrinho, na Avenida Francisco Sá


Prédio do Liceu do Ceará

Havia belas casas apalacetadas, as de Florival Seraine, Brasil Pinheiro, Thomaz Pompeu Sobrinho, Luiz Morais Correia, avô do deputado Carlos Virgílio, Pedro Sampaio e, principalmente, as da família de Pedro Philomeno Gomes, filhos e genros. O antigo fabricante de  cigarros de Sobral se tornara disparado o homem mais rico do Ceará. Dono da fábrica de tecidos e de redes São José, responsável pela plantação racional de caju e pela construção do primeiro hotel de praia, o Iracema Plaza Hotel, não ganhara tanto dinheiro, brincando. Ao contrário, tinha por ele muito respeito. Dele se contava que tomou uma vez, carro de praça no centro rumo da fábrica. Ao chegar, perguntou ao motorista qual o preço da corrida. Ao ouvir que custava  vinte e cinco cruzeiros, estrilou. O chofer, então, tentou desmontar sua choradeira, dizendo-lhe: – seu filho Chico Philomeno não acha caro. Porque me dá uma nota de cinquenta e me manda guardar o troco. Sem saber o que dizer, saiu-se com esta? “é que ele tem pai rico. Eu não”.

Residência de Pedro Philomeno Gomes, na esquina das Avenidas Francisco Sá e Coronel Philomeno Gomes. Este imóvel foi demolido.
 

Um dos seus operários encontrou, no pátio da fábrica, nota de quinhentos mil réis que, àquele tempo, equivalia a um bom dinheiro. Veio lhe entregar e ficou esperando a gorjeta. Nada. Despedindo-o rápido, Pedro disse: “Vá andar mais, para ver se o sô acha mais dinheiro. Isto é lá dinheiro que se ache. É muito pouco”.   

Um dos seus capatazes era chamado com frequência à Polícia, para  responder a acusações de defloramento. Pedro recriminou-o: “O sô está faltando muito. O sô está querendo mudar minha fábrica? Minha fábrica é de tecidos, não é de menino não”.

Doutra feita, para estimular os operários que trabalhavam numa obra de construção civil, na fábrica, disse-lhes naqueles tempos de guerra fria: “trabalhem direito, que quando o comunismo vier, tudo isto será de vocês”.

 Fábrica de tecidos São José na esquina das Avenidas  Philomeno Gomes com Tenente Lisboa

Viciado em trabalho, Pedro Philomeno Gomes tinha um genro, Acrisio Moreira da Rocha, duas vezes prefeito de Fortaleza, que não cultivava a mesma devoção. Até tentou sim, bem que tentou. Chegou mesmo a adquirir moderno consultório odontológico. Aconteceu-lhe comprar, ao mesmo tempo, possante motocicleta em que gastava os dias, passeando. Anos depois, feito alcaide, doou o consultório todo embalado à Casa do Estudante.

Mais tarde, Acrisio não deixava o fundo da rede quando ia à fazenda, por dinheiro nenhum do mundo. Adquirira moderno binóculo, através do qual observava o movimento do gado. Dizia-se que, com preguiça de contar as reses, negociava, vendia-as por minutos. Um comprador, certa vez, convidou-o a dar uma cavalgada para olhar as vacas, Acrisio recusou-se terminantemente a acompanha-lo: “se é você quem vai comprar, porque tenho de ver o gado?”.

Quando prefeito era acusado de passar meses, sem ir à sede da Prefeitura, sem despachar. Um secretário, Nilo Porfírio Sampaio, imitava, com perfeição, sua assinatura que deitava nos atos oficiais, poupando o prefeito do labor caligráfico. Voltemos, porém, a seu Pedro e ao folclore que inspirava. 

Praça Gustavo Barroso (Praça do Liceu)

Aquele tempo, a utopia comunista estava arrebanhando adeptos. Conta-se a propósito, que um botador d’água por ela se deixara seduzir e, nas folgas do seu trabalho de venda da mercadoria a domicilio, desenvolvia seu apostolado. Neste fim de tarde em que ocorreu a estória que ora conto, mais uma vez, tentava fazer a cabeça de um compadre, momentaneamente desempregado, enquanto seus três jumentos roíam a escassa grama das alamedas da Praça Fernandes Vieira. Olhando para a casa de Pedro Philomeno, dizia: “Seu Pedro possui centenas de casas. Pra quê? Pode morar em mais de uma? Quando o comunismo vier, fica com a sua e distribui as outras com os necessitados. O Oscar Pedreira iria aonde com tantos ônibus? Fica com o seu e dá os outros pros seus motoristas”.

Fez uma pausa. O compadre olhando cúpido, os três jegues que retouçavam a relva seca, pergunto de súbito: “E quem tem três jumentos? Distribui dois com os mais carecidos?”

O compadre teve bastante presença de espírito para liquidar, logo, a quimera distributivista do outro, dizendo-lhe: “compadre, nessa questão de comunismo, jumento não toma parte não...”


crônica de de Lustosa da Costa
extraída do livro "A Louvação de Fortaleza" (1995)
fotos do Arquivo Nirez, Marciano Lopes e Fortaleza em fotos