segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Igreja de Jesus Crucificado (Capela de Donaninha)


foto de Muhammad Said

Quem passa pela CE-065, no trecho entre Guaramiranga e Pacoti, avista a margem da rodovia, uma velha capela de bela arquitetura, completamente abandonada.  As inúmeras pedras que estão pelas paredes do local informam tratar-se de um templo erguido no início dos anos 40, pelo comendador Ananias Arruda, em memória de sua esposa Ana Custódio dos Santos Arruda. 

Igreja de Jesus Crucificado

Construída por Ananias Arruda, em frente ao lugar, onde na manhã de 19-1-1941, foi chamada ao seio de Deus súbita e inesperadamente, sua querida e inesquecível consorte Donaninha – Ana dos Santos Arruda. Solenemente benta e inaugurada em 19-1-1942 pelo Sr. Arcebispo Metropolitano D. Antônio Lustosa. Com assistência do esposo, filhos, pai, irmãos, cunhados, sobrinhos, primos; do interventor Menezes Pimentel, secretários de Estado, jesuítas, salesianos, salesianas, franciscanos, capuchinhos, franciscanas, lazaristas, irmãs de caridade, associações religiosas, imprensa, grande número de sacerdotes, autoridades, famílias de Pacoti, Baturité, Fortaleza e Saboeiro e grande massa popular, havendo pregação preparatória de 3 dias, missas, grande número de comunhões.  Exéquias de 1° aniversário de falecimento.
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Ananias Arruda pede a todas as pessoas que visitarem esta igreja, uma prece a Deus pela maior glorificação no céu de sua querida e inesquecível consorte Donaninha dos Santos Arruda.
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Ana dos Santos Arruda

Saudosa consorte de Ananias Arruda
Nasceu – Saboeiro – 31-3-1895
Casou-se – Baturité – 17-9-1911
Faleceu – Pacoti – 19-1-1941
Sepultou-se – Baturité – 20-1-1941
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Suas virtudes foram por todos aclamadas após seu trapasse ao céu.
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A esposa de Ananias Arruda faleceu na manhã do dia 19 de janeiro de 1941, e a capela foi inaugurada um ano depois do falecimento, no dia 19 de janeiro de 1942, em solenidade celebrada pelo então Arcebispo Metropolitano de Fortaleza, Dom Antônio de Almeida Lustosa, na presença de autoridades de Baturité, Pacoti, Saboeiro, e Fortaleza, a exemplo do interventor Menezes Pimentel.

A Capela de Donaninha fica no sitio Arvoredo, município de Pacoti, a cerca de 1 quilômetro da sede. Ana Custódio residia em Baturité e costumava se hospedar no Colégio Instituto Maria Imaculada  em Pacoti, quando sofreu um infarto fulminante falecendo naquele local. 

Muito triste com a partida de sua amada, Ananias Arruda resolveu erguer um monumento para que todos que por ali passassem pudessem lembrar o grande amor que ele sentia por ela. Dessa forma mandou construir a Igreja de Jesus Crucificado réplica da capela que existia na casa onde viviam em Baturité. 




Como se tratava de homem de muita influência, recebeu a visita do arcebispo do Rio de Janeiro e de muitos políticos influentes na inauguração e nos anos que se  seguiram. Durante muitos anos a capela foi palco de romarias e missas.

Com a morte do comendador, em 1980, como o casal não teve filhos, a herança passou para mãos de parentes que abandonaram aquele belo monumento. A Capela contava com algumas imagens de santos que foram retirados após a ação de vândalos e atualmente se encontram em um museu de Baturité.




Pela presença de colunas e muros no outro lado da estrada, fica evidente que o imóvel já ocupou um espaço maior do que o que ocupa atualmente. 
Em 2010 foi apresentado um projeto, pela Prefeitura de Pacoti, que contemplava a recuperação do monumento, visando transformá-lo num centro de atração turística. Pela situação atual do imóvel, pode se concluir que a proposta não encontrou o apoio necessário. 

site pesquisado: 
http://api.convenios.gov.br/siconv/dados/proposta/1547476.html
fotos Rodrigo Paiva - jan/2015

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O Clube das Damas

O bairro das Damas seguia-se ao elegante bairro residencial do Benfica, que disputava a preferência da elite com o então aristocrático Jacarecanga. A linha do bonde do Benfica terminava em frente ao Dispensário dos Pobres, uma instituição de caridade, ainda hoje dirigida pela Ordem das Irmãs de Caridade de São Vicente de Paula. 

Ao lado do Dispensário, num casarão localizado em um recanto pitoresco, funcionava o Café do Pedro Eugênio, famoso pela reunião de boêmios e pelas serestas. Posteriormente, esse local seria ocupado pela Mercearia do Rabelo, tendo a sua frente, o Cine Benfica. A partir daí, estendia-se a estrada de concreto que levava ao Arronches.  

Avenida João Pessoa - 1949
Dessa parada final do bonde, até a sede do novo clube, que se preparava para ali se instalar, percorria-se uma distância de cerca de 2 quilômetros, por isso o automóvel era o transporte preferido para cumprir a distância. Os carros de praça cobravam seis mil réis para fazer o percurso do centro da cidade  ao clube.

O antigo sítio de Luiz Gonzaga Flávio da Silva, medindo 435 palmos de frente por 350 de fundos, com suas construções e benfeitorias, localizado no lado poente da antiga estrada de Arronches, antigo nome de Parangaba, foi o local escolhido para sede da agremiação.
De areia batida até o ano de 1929 a Estrada de Parangaba recebeu pavimentação de concreto durante o governo de Washington Luiz, último presidente da República Velha. Tornou-se uma referência à avançada tecnologia e valorizou sobremaneira aquela área de Fortaleza.

No início, a avenida que pretendia adentrar pelos sertões e atingir Guaramiranga, foi chamada de Avenida Washington Luiz. Mas após a deposição do presidente na Revolução de 30, a população revoltada arrancou as placas que ainda conservavam o antigo nome, substituindo-as por outras. Depois passou a ser chamada de Avenida João Pessoa, em memória de um dos líderes do movimento, tragicamente assassinado quando governava a Paraíba.

A presença do Ideal Club – e a iminência de sua inauguração, estimulava o progresso do bairro das Damas, conforme afirmava o jornal "O Povo" nas edições do mês de outubro de 1931. Os terrenos ao longo da estrada valorizavam-se principalmente nas proximidades do clube; novas residências foram surgindo. Toda a cidade se movimentava. Os jornais publicavam reclames das lojas apresentando seus refinados produtos e oferecendo-os para serem usados no baile de inauguração. 

A tradicional loja A Cearense, de Aprígio Coelho, oferecia meias, musselines, seda natural, retilínea; a Loja Maranguape, de Luiz Vieira, alardeava seu estoque variado de sedas, próprias para a feitura de vestidos de baile. 



 dependências do Ideal Club no bairro Damas
 
A inauguração aconteceu na noite de sábado, no dia 3 de outubro de 1931, com grande baile. O afastado Damas, com noites clareadas pelas lamparinas e pela luz do luar, viu-se invadido por um inusitado brilho. A iluminação do parque, em volta do clube, foi acrescida de inúmeros refletores. 

A Avenida João Pessoa em toda a sua extensão, desde o seu início no Benfica, até a sede do clube, foi especialmente iluminada, por deliberação do gerente da Ceará Tramway Light and Power. 

Frente ao clube uma multidão se apinhava no sereno para apreciar a festa, um grande desfile da elite da cidade. A festa inaugural constou de uma sessão magna, seguida de um grande baile, que teve início às 22 horas e se prolongou até às 5 horas da manhã.

Atualmente descaracterizado por lojas comerciais, a área onde se instalou a primeira sede do Ideal Club pode ser localizada no espaço entre as ruas Antônio Martins e Dondon Feitosa, perpendiculares à Avenida João Pessoa. 

A Rua Apolo, uma ruela que se abre equidistante às duas ruas paralelas, formou-se da antiga aleia que se seguia ao portão de entrada do clube. Através dessa alameda chegava-se, pelo lado esquerdo, à sua parte social: o pavilhão de festas e dependências de serviços; à direita chegava-se à parte esportiva com o campinho de golfe, as quadras de tênis, na parte anterior e mais trás, as piscinas. No fundo deste terreno localizava-se o Cassino.


O Ideal Club ficou no bairro Damas até 1939, quando foi inaugurado o restaurante da sede atual, localizada no bairro do Meireles.

Extraído do livro Ideal Clube – história de uma sociedade
De Vanius Meton Gadelha Vieira 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A Criação do Rotary Club de Fortaleza

O Rotary Club é definido como um clube de serviços à comunidade local e mundial sem fins lucrativos, filantrópico e social. É uma organização de líderes de negócios e profissionais, que prestam serviços humanitários, fomentam um elevado padrão de ética em todas as profissões, através da Prova Quádrupla e ajudam a estabelecer a paz e a boa vontade no mundo.

O Rotary Internacional tem mais de 1,2 milhão de associados, em 211 países. No Brasil, há quase 53 mil rotarianos, em 2326 clubes, 33 deles no Ceará. O Rotary é uma entidade sem fins lucrativos, que se destaca em ações humanitárias, educacionais e culturais, como a campanha mundial pela erradicação da paralisia infantil. 

O objetivo do Rotary é estimular e fomentar o ideal de servir como base de todo empreendimento digno, bem como a ajuda ao próximo, promovendo e apoiando: O desenvolvimento do companheirismo como elemento capaz de proporcionar oportunidade de servir; O reconhecimento do mérito de toda a ocupação útil e a difusão das normas de ética profissional; A melhoria da comunidade pela conduta exemplar de cada um na sua vida pública e privada; A aproximação dos profissionais de todo o mundo, visando a consolidação das boas relações, da cooperação e da paz entre as nações.

Edifício do Excelsior Hotel, onde foi realizada a sessão preliminar para fundação do Rotary Club de Fortaleza, em 1933

Em 22 de dezembro de 1933 foi realizada a primeira sessão preliminar para fundação do Rotary Club de Fortaleza, no salão do Excelsior Hotel, tendo como primeiro presidente Pedro Philomeno Gomes. A entidade foi inaugurada alguns meses depois, no dia 07 de maio de 1934, em sessão festiva no Palace Hotel. No evento presidido pelo governador do Distrito, Dr. Lauro de Andrade Borba, foi empossada a primeira diretoria  e lançado o primeiro número do Boletim do Rotary Club. 
O primeiro conselho Diretor, eleito por aclamação, ficou assim constituído: Presidente: Pedro Philomeno Ferreira Gomes; Primeiro Secretário: Raimundo Girão; Segundo Secretário: Edgar Dutra Nunes; Tesoureiro: José Thomé de Saboia e Silva; Diretor de Protocolo: Clóvis de Alencar Matos; e Vogal:  Carlos da Costa Ribeiro.

Jantar do Rotary Club no salão do Palace Hotel em 1936. 
No canto do salão, uma bandeira do Brasil ao lado da bandeira da suástica, lembrando que, à época da foto, não havia animosidades nem restrições com relação ao futuro símbolo do nazismo.   

O Rotary de Fortaleza foi filiado ao Rotary Club Internacional, idealizado pelo americano Paul Harris, através de Carta de Agregação, de 12 de julho de 1934. Foi o primeiro Rotary Club no Estado do Ceará e o 5° fundado no Nordeste.
Em cumprimento de suas ações filantrópicas, já em 1942, o Rotary Club contribuiu decisivamente para a fundação da Sociedade de Assistência aos Cegos, atual Instituto dos Cegos. O Rotary Fortaleza completou 80 anos de fundação em 2014.


fotos do arquivo Nirez
 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O Antigo Boulevard Visconde de Cauhype


O antigo Boulevard Visconde de Cauhype, localizado na Rua do Benfica, ou Sítio Benfica integrava o antigo Caminho do Arronches. Iniciava-se na Praça de Pelotas e se estendia em direção às Damas, daí continuando como estrada para o antigo arraial de índios, em Arronches, núcleo da futura vila de Parangaba. O nome Visconde de Cauhype homenageava Severiano Ribeiro da Cunha, nascido em Cauípe, próximo à Caucaia, em 1831.
A viscondessa de Cauhype, Eufrásia Gouveia da Cunha era filha do Comendador Manuel Caetano de Gouveia e se sua esposa Francisca Agrela de Gouveia. Os viscondes de Cauhype foram sogros do Barão de Studart.

Solar das Liras, construído no início do século XX. Uma das alterações feitas na reforma feita nos anos 70 foi a colocação do portão de ferro na entrada, feito de ferro dobrado e montado com parafusos, adquirido na antiga sede do Jockey Club do Rio de Janeiro. Uma interferência inglesa na arquitetura colonial portuguesa do prédio.

O Solar das Liras era o primeiro imóvel da avenida, e foi conservado pela iniciativa privada, que investiu na recuperação visando a preservação da memória nacional. A loja Maçônica n° 3 restaurou o prédio, que foi residência  dos médicos Meton de Alencar Filho, e depois Rufino de Alencar, ambos identificados com a história da medicina no Ceará. A Maçonaria adquiriu o imóvel em 1975, dos herdeiros de Rufino de Alencar. Como seu construtor e primeiro morador – Meton de Alencar – era maçom, a entidade encontrou alguns símbolos da organização entre os adornos do prédio, como as almofadas em forma de rosas que enfeitam a fachada externa do prédio. A restauração ocorrida em 1978, pelo projetista paulista Júlio Carrero, obedeceu à forma arquitetônica original. 

cruzamento Av. da Universidade x Av 13 de Maio
Vizinha ao Solar das Liras ficava a residência de Rodolfo Teófilo (hoje no local, existe um pequeno prédio de apartamentos). Rodolfo Teófilo destacou-se como romancista, poeta, farmacêutico diplomado pela Faculdade de Medicina da Bahia e professor do Liceu do Ceará.


Ainda na Visconde de Cauhype n° 1895, residia Manços Valente Cavalcante, hoje no local existe a Casa Santa Rosa de Viterbo.
Na chamada “casa das listas vermelhas” residia o Dr. Adolfo de Moraes Campello. O imóvel tinha a fachada porcelanizada com uma argamassa obtida da mistura com clara de ovos. Depois ali funcionou o Ginásio Fortaleza, e atualmente o imóvel é de propriedade do INSS.

 Cruzamento da Av. da Universidade com a Av. 13 de maio com a fonte das sereias, mais tarde desmontada e levada para a Praça Murilo Borges, no centro 

Mais adiante se situava a residência de Antônio da Frota Gentil, onde mais tarde funcionaria o Centro dos Estudantes Universitários (CEU). Em sua vizinhança residia João Tomé de Saboia e Silva, casado com Angelita Braga Cavalcanti, cujo nome batizou a residência de “Vila Angelita”, quase na esquina das Avenidas da Universidade e 13 de Maio. 

Vila Angelita, residência de João Tomé de Saboia e Silva, governador do Ceará no período 1916 a 1920. Esse imóvel foi demolido
 
Vizinho à Vila Angelita, de João Tomé de Saboia, tomando a esquina noroeste da atual Avenida da Universidade com a Avenida 13 de Maio localizava-se a residência de Antônio Eugênio Gadelha. Seus quintais se estendiam até a Avenida Carapinima, por onde passavam antigamente os trilhos da Rede Viação Cearense. 
Em 1907, na esquina das Avenidas Visconde de Cauhype com Treze de Maio, foi construída a residência de Francisco de Queiroz Pessoa, rico fazendeiro de Quixadá, projeto do arquiteto José Gonçalves da Justa.  Desde 1963 esse imóvel abriga a casa de Cultura Alemã, da Universidade Federal do Ceará.

 Residência de Francisco Queiroz Pessoa, atualmente abriga a Casa de Cultura Alemã

Na década de 60, o logradouro passou a ser chamado de Avenida da Universidade, em razão da instalação a partir da segunda década dos anos 50, no bairro do Benfica, de diversos núcleos de ensino e pesquisa da Universidade Federal do Ceará.   

extraído do livro Ideal Clube, história de uma sociedade 
de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos do Arquivo Nirez