quinta-feira, 11 de maio de 2017

Colégios Desativados de Fortaleza


Os excelentes resultados obtidos pelos colégios particulares de Fortaleza em olimpíadas de ciências exatas e os altos índices de aprovação em vestibulares difíceis, como o do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), um dos mais concorridos do País, impressionam. Os números colocam o ensino privado da capital cearense entre os melhores do País. O talento para aprovar, contudo, é bem menor do que o talento para administrar.


 Só nos últimos dez anos, nada menos de 2262 escolas de ensino básico foram à falência no Ceará - uma média de mais de 200 por ano. Em Fortaleza está a maior parte desses estabelecimentos: 1318. Essas empresas sucumbiram diante da concorrência acirrada, do alto índice de inadimplência e da alta carga tributária, mas, principalmente, pela falta de habilidade para gerir seus negócios. Alguns deles: 

Colégio Evolutivo 


Surgiu em 1980 com o nome de Colégio Positivo, e passou a ser Colégio Evolutivo, em 1992. Chegou a ter nove sedes em Fortaleza e 15 mil alunos no mesmo ano. Após 32 anos de serviços prestados à comunidade, o Colégio Evolutivo chegou a representar um dos maiores grupos educacionais do Estado, se destacando no cenário local pela ampla oferta de bolsas e preços mais acessíveis que os praticados pelo mercado da época. A instituição fechou as portas em 2012, alegando dificuldades financeiras. Os prédios que abrigaram os colégios tiveram destinos diferentes. Alguns foram transformados em outros estabelecimentos comerciais, e outros, como a sede da Parangaba, agora abriga uma faculdade. 

Colégio GEO 


Com sedes espalhadas por mais de cinco bairros da Capital, além de cidades do interior do Ceará e de outros estados, a rede GEO foi referência na educação privada do Estado, de 1979  até o início dos anos 2000. As escolas com estrutura de clube e com oferta de diversas atividade extracurriculares atraíram mais de 5 mil matrículas, em balanço parcial. Após o fechamento, também motivado por questões administrativas, as unidades foram vendidas e transformadas em outras escolas. A sede Dunas, uma das maiores da rede, foi transformada em Faculdade. 

Colégio Agapito dos Santos 


Estava localizado na Avenida Tristão Gonçalves, 1409, propriedade dos professores Mozart Sobreira Bezerra, Lauro de Oliveira Lima e Ivan Vieira Ramos.  Foi oficialmente extinto em fevereiro de 2006. De acordo com documento oficial do Conselho de Educação do Ceará, a escola era de “grande tradição” no Ceará, dirigida por Lauro de Oliveira Lima. 

Colégio Cearense


O Colégio Marista Cearense Sagrado Coração foi fundado no dia 4 de janeiro de 1913. Funcionou inicialmente na Rua da Amélia n° 146 (atual Rua Senador Pompeu), Rua 24 de Maio e na Praça José de Alencar, onde depois esteve a Rádio Iracema. Mais tarde mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco, no local onde hoje está o edifício Diogo. Por fim, em 1917, foi para o prédio próprio na Avenida Duque de Caxias. A partir de 1916 a administração do Colégio Cearense passou para os Irmãos Maristas. Na década de 80, os estabelecimentos de ensino, dirigidos por religiosos, viveram seus melhores dias, com grande procura por vagas, em razão da excelência do ensino que ofereciam.  O Colégio Marista Cearense ficou pequeno para comportar tantos alunos, eram 4.500, divididos em três turnos. A partir dos anos 2000, tudo mudou:  o aumento da inadimplência, a redução de matrículas, o surgimento de grandes conglomerados educacionais, que tornaram a educação um ramo de negócio altamente rentável, determinaram o fechamento de outros colégios religiosos e comprometeu o futuro do Colégio Cearense, que encerrou suas atividades no dia 31 de dezembro de 2007. 

Ginásio Capistrano de Abreu/Colégio Zênite 


Localizado na Rua Luís de Miranda, no Benfica. Consta que o prédio onde funcionou o antigo ginásio, era uma propriedade rural denominada Sitio Barro Preto, propriedade do Coronel Antônio Felinto Barroso, pai do escritor Gustavo Barroso. O escritor vinha de sua residência urbana, na Rua Formosa, de bonde de burro, descia na Fundição Cearense e caminhava até essa casa de campo, rústica, em terreno arborizado, de onde saía a passear montado no seu cavalo predileto, exibindo-se pelo centro da cidade e indo até a praia. O Colégio Capistrano de Abreu foi criado em outubro de 1966 e posteriormente, passou a chamar-se Colégio Zênite. Com única sede, situada no bairro Benfica, o colégio Zênite encerrou as atividades em 2012.  O prédio, que foi vendido para outro grupo escolar, faz parte da história do bairro universitário. 

Colégio Tony 

Surgiu nos anos 70, como um cursinho de matemática preparatório para vestibulares, cujas aulas eram ministradas pelo próprio professor Tony.  A Rede de Ensino Tony, também ficou conhecida em razão desses cursos preparatórios para vestibular e concursos, teve grande destaque no mercado local até a primeira metade dos anos 2000. Com sedes em vários bairros, a instituição foi responsável pela formação de mais de 5 mil alunos por ano. 

Colégio Júlia Jorge 


O colégio foi inaugurado no dia 24 de junho de 1966, com a presença do presidente da República, do Governador do Estado, e outras autoridades. Foi instalado na esquina das ruas General Piragibe com a Azevedo Bolão. Estabelecimento de ensino da rede cenecista, o Júlia Jorge foi a grande opção de escola de boa qualidade para moradores dos bairros da Parquelândia, Parque Araxá, Monte Castelo e vizinhanças.  Em 2007, fechou, encerrou as atividades, segundo dizem, por falta de alunos. Depois, o prédio foi vendido a uma imobiliária, e logo começou a ser demolido. No local, foram construídos vários edifícios residenciais. O mesmo destino teve o Colégio João Pontes, também da rede cenecista, localizado no bairro do Jacarecanga, à rua Antônio Bandeira, n° 50. 

Colégio Redentorista


Localizado no bairro Rodolfo Teófilo, a instituição foi administrada por padres da Congregação do Santíssimo Redentor, mais conhecidos como redentoristas. Com o fechamento do colégio, o prédio abrigou outra instituição escolar. O prédio onde funcionou o colégio foi erguido em 1963, na rua Delmiro de Farias, 900, no bairro Rodolfo Teófilo, por missionários redentoristas para abrigar, a princípio, confrades em Fortaleza. Em carta enviada ao Provincial, o Padre Jaime detalhava a casa a ser construída: “Devido ao clima daqui, é necessário ter chuveiros nos quartos. Os corredores dos dois lados dos quartos também são necessários por causa do clima. Em algumas partes do mosteiro, haverá combogó”. O Colégio Redentorista foi fundado em 1966 e funcionou até 1999. 

Colégio das Doroteias 


Em 1915, o Colégio N. S. do Sagrado Coração – das Irmãs Doroteias – instalou-se em edifício próprio na Avenida Visconde do Rio Branco, com grande prestigio na cidade. A criação deveu-se a recomendação de D. Manuel da Silva Gomes, o terceiro bispo do Ceará e o primeiro arcebispo metropolitano de Fortaleza. Sua direção foi entregue às Irmãs da Congregação de Santa Doroteias, e construído de acordo com quatro referenciais importantes, nesse momento, para a educação da elite feminina do Ceará: os ideais católicos; os pressupostos patrióticos baseados na República recém instaurada; preparação para o casamento, à família e o lar e, por fim, a criação de um ambiente condizente com o bem-estar saudável e civilizador oferecido pela arquitetura monumental do prédio que se estabelecera. 

Colégio General Osório


Quando foi fundado em 1970, era o Curso General Osório, um preparatório para exame de admissão ao Colégio Militar. Seu diretor, Major Asthon, animado com os resultados alcançados pelos seus alunos, decidiu fundar o colégio. Em maio de 1971 iniciou as quatro primeiras séries, e gradativamente, foi implantando novas turmas, até ser transformado em escola de 1° e 2°graus. Ficava na Avenida Santos Dumont. 

Colégio São João


O Colégio São João surgiu em 1930, sob direção do professor César Adolpho Campello, e patrocínio de seu cunhado João da Frota Gentil e instalou-se na antiga Villa Adolpho Quixadá, na Avenida Santos Dumont. O imóvel foi construído por Adolfo Quixadá e foi utilizada como residência dos presidentes de Estado. Em 1976 o colégio foi vendido para a Organização Farias Brito. 

Colégio Stella Maris


 foto de Erikson Salomoni 

O Colégio Stella Maris, foi fundado em 1952, uma cinquentenária instituição educacional, responsável pela educação de milhares de membros da elite da sociedade cearense. Com o encerramento de suas atividades, o respeitado Colégio fechou sua sede, localizada à Rua Antônio Justa. O prédio foi demolido. 

Colégio Salesiano Dom Lustosa 

A escola da rede salesiana, localizada na Avenida João Pessoa, foi declarara extinta em 07 de junho de 2013. O prédio que abrigava a instituição foi vendido ao SESC/Ceará. 

Colégio Santa Maria Goretti 

O Colégio Santa Maria Goreti, instituição ligada às irmãs de caridade da ordem das Vicentinas,  foi construído na Avenida do Imperador, com entrada pela Avenida Domingos Olímpio, em terreno doado pelo bispo Dom Manuel da Silva Gomes. Fazia parte da mesma entidade mantenedora do Patronato Nossa Senhora Auxiliadora (também extinto) e a Escola Doméstica São Rafael, atual Colégio São Rafael. O Santa Maria Goretti encerrou as atividades em 2004.

fontes: Jornal O Povo, Verdinha, Diário do Nordeste, IG-Último Segundo, Wikipédia 
fotos Anuário do Ceará,O Povo, Verdinha, Portal IG

sábado, 6 de maio de 2017

A Construção da Avenida Leste-Oeste

a avenida em construção - primeiro trecho asfaltado - 1973

Construída no início dos anos 70, na gestão do prefeito Vicente Cavalcante Fialho (1971-1975), a Avenida Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, conhecida popularmente como Avenida Leste-Oeste, tinha a proposta inicial de melhorar a mobilidade urbana, facilitando a ligação da zona industrial da Avenida Francisco Sá com o Porto do Mucuripe.

O surgimento da via melhorou o acesso ao litoral oeste de Fortaleza, possibilitou a abertura de ruas secundárias e perpendiculares, facilitou o fluxo de pessoas, veículos e mercadorias entre o litoral e o centro. Depois da construção da ponte sobre o rio Ceará, a avenida passou a ser a via de ligação entre os municípios de Fortaleza e Caucaia.

Após a inauguração - postal dos anos 70

Mas a contrapartida da melhoria da mobilidade, foi a desestruturação dos laços de vizinhança para comunidades que residiam na área do bairro Moura Brasil, que precisou se distanciar de vizinhos e amigos, alguns de longa data, e do afastamento da porção do centro comercial, onde mantinham empregos ou ocupações informais.

O bairro Moura Brasil, o mais atingido pelas obras de construção da avenida, localiza-se numa região de antigas dunas e se caracteriza por abrigar uma população de baixa renda, formada originalmente por retirantes da seca de 1915 e 1932. Para evitar que esses migrantes, vindos de várias cidades do interior do Estado, ocupassem ruas e praças da capital, foram criados os chamados “campos de concentração”, onde ficavam confinados. Um desses campos foi montado onde hoje é o bairro Moura Brasil.

trecho desaparecido da comunidade do Oitão Preto - as casam ocupavam até a beira da praia

O final da Rua General Sampaio, conhecida como "Cinza" também desapareceu

Para abrir espaço para a construção da Avenida, a região onde se encontra o bairro precisou ser redimensionada, o que determinou a transferência da população que ocupavam as áreas cortadas pela avenida, composta pelas comunidades das Cinzas, Moura Brasil, Oitão Preto, Braga Torres e Soares Moreno.
Os moradores foram remanejados para áreas periféricas de Fortaleza – como o Conjunto Rondom, Conjunto Palmeiras, Vicente Pinzon –  para o Conjunto Jurema, em Caucaia, e outros.

A avenida foi inaugurada por etapas, e a primeira ocorreu no dia 20 de outubro de 1973. Naquela ocasião, cerca de 20 mil pessoas se aglomeravam no local da solenidade, quando dentro das programações, quatro aviões AT-26 Xavante, pertencentes ao 4º Esquadrão Grupo de Aviação da FAB, da Base Aérea de Fortaleza, subiram e sobrevoaram a baixa altitude, a área onde estava instalado o palanque das autoridades que aguardavam a chegada do então ministro Costa Cavalcante, representante do Presidente da República, General Emilio Garrastazu Médici (1969-1974).


imagens do dia da inauguração

A esquadrilha subiu novamente e, no momento do ponto mais baixo da manobra, iniciou uma descida para um "looping" sobre a Avenida Leste-Oeste. Nesse instante, um dos aviões deixou a formação e entrou em parafuso, dando a impressão de que isso fazia parte das manobras.

Como o Xavante começasse a descer cada vez mais rapidamente em parafuso, a multidão que acompanhava a evolução da esquadrilha, como que reagiu e temeu a um só tempo, pela queda do avião. E, realmente, poucos segundos depois, ele explodia a 500 metros do palanque, num bairro densamente povoado por famílias pobres. Do local, subiu uma nuvem negra de fumaça. Eram 10h20min.

Menos de 10 minutos depois, o Corpo de Bombeiros chegava até onde o avião caíra - na Rua Gomes Parente, no Bairro de Pirambu, a 40 metros da Avenida Leste-Oeste. Uma criança com o corpo todo queimado foi a primeira a ser recolhida, sendo encaminhada, ainda com vida, ao Instituto Dr. José Frota, onde, entretanto, veio a falecer.

Enquanto isso, o corpo de um homem ardia no meio da rua, mas já sem vida. Os moradores da rua Gomes Parente tentavam jogar água nas três casas sobre as quais o avião desabara, mas inutilmente, porque o fogo crescia e atingia mais quatro casebres, que ficaram totalmente destruídos.

O prefeito Vicente Fialho suspendeu imediatamente todas as festividades que marcariam a inauguração da avenida, a primeira obra viária do Nordeste, construída com recursos do Fundo de Desenvolvimento Urbano, criado pelo Banco do Nordeste do Brasil. O Ministro do Interior, Costa Cavalcanti, apenas cumpriu um único ponto de seu programa: a inauguração do novo prédio do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas.

Dom Aloísio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza e então presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) esteve na Assistência Municipal e ministrou a benção aos feridos graves. Saldo da tragédia: 15 mortos, entre eles o piloto da aeronave acidentada, Tenente Pedro Rangel Molinos, gaúcho, 24 anos, há oito anos na FAB.

Avenida Leste Oeste no trecho bairro Moura Brasil com a igreja de Santa Teresinha - postal dos anos 70

Desde sua inauguração, no ano de 1973, até os dias atuais, a Avenida Leste-Oeste passou por algumas transformações, inclusive a duplicação finalizada em meados dos anos 2000. Vários equipamentos urbanos e serviços foram instalados, tais como o Instituto Médico Legal, a Estação de tratamento de esgotos da Cagece, o Hotel Marina Park, inúmeras igrejas católicas e evangélicas e um variado comércio.

Avenida Leste-Oeste em 1974 

A Leste-Oeste mede em toda sua extensão 3.500 metros, tendo início na confrontação com a Avenida Dom Manuel, se estendendo  até a Barra do Ceará, na ponte José Martins Rodrigues, sobre o Rio Ceará.

Fontes:
Artigo: Desenvolvimento Urbano e Segregação Socioespacial – um estudo da Avenida Leste-Oeste em Fortaleza, de Carlos Henrique Lopes Pinheiro.
www.desastresaereos.net
fotos arquivo Nirez, O Povo e Anuário do Ceará

  

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Greve dos Portuários (1904)

Rua Floriano peixoto, início do século XX

O ano de 1904 começou agitado em Fortaleza. Desde o dia 1° corria o boato de que os trabalhadores do porto entrariam em greve. A população começou a ficar inquieta, as famílias dos trabalhadores foram tomadas de verdadeiro pânico. O motivo da paralisação segundo se afirmava, era a execução da lei do sorteio militar. (Polêmica lei que instituía o serviço militar obrigatório e por sorteio. Seus defensores alegavam que só trabalhadores braçais e sem qualificação se apresentavam para servir ao exército. Com a adoção do sorteio, todas as classes sociais passariam a ser recrutadas).


Na manhã do dia 3 de janeiro, um domingo, chegara o paquete Maranhão. Notava-se no porto de desembarque, uma movimentação fora do normal, uma agitação, um corre-corre de populares e de homens do mar. As sete horas, explodiu o movimento paredista. Aderiram, logo no início, os catraieiros e demais empregados no tráfego marítimo. Os que não aderiram espontaneamente, foram forçados pelos grevistas.

Em pouco tempo, a rebeldia estava generalizada. Os 300 passageiros do Maranhão tiveram de ficar a bordo, sem possibilidade de pisar em terra por falta de condução. Em razão disso, avisado do ocorrido, o capitão-tenente Luís Lopes da Cruz - apelidado de De La Croix pelo jornalista João Brígido - Comandante dos Portos, homem violento e de temperamento exaltado, não contemporizou. Em vez de tentar um entendimento com os grevistas, para tentar resolver o problema, optou por pedir auxílio da força armada.

Às 8 horas, o comandante De La Croix determinou, mesmo naquele ambiente tenso, carregado de revolta geral, que a baleeira da capitania seguisse em direção ao navio, a fim de providenciar o desembarque dos passageiros que lá se encontravam retidos. 

O gesto do comandante foi recebido como uma afronta pelos catraieiros; aglomerados, em represália, impediram a saída do bote, que foi virado, e teve os remos quebrados. Sentindo-se desacatado em sua autoridade, o comandante requisitou força armada para manter sua determinação.

Imediatamente seguiu para o porto um contingente de soldados do Batalhão de Segurança, sob o comando do coronel Cabral da Silveira. A baleeira, guardada pela polícia conseguiu deixar a ponte em direção ao Paquete Maranhão.

Mas no retorno, se deu o confronto: catraieiros armados de facas, pedaços de paus e achas de lenha, exaltados ao extremo, tentaram impedir o desembarque. Em resposta, os soldados abriram fogo contra os manifestantes. A fuzilaria irrompeu violenta, durou alguns minutos, suficientes para deixar um saldo de três mortos e quarenta feridos, todos trabalhadores do porto. Terminado o tiroteio, a ponte e o mar estavam vermelhos de sangue.

Naquela noite a cidade ficou em vigília, o conflito abalou a população, houve protestos em todos os setores da sociedade. No dia seguinte, uma multidão acompanhou o sepultamento dos catraieiros que morreram no confronto. Na tarde daquele mesmo dia é que se deu o desembarque dos passageiros do Maranhão, por meio de escaleres da Polícia, e da Alfândega.

vista aérea da Praia de Iracema, com a Ponte Metálica, a Ponte dos Ingleses e as marcas dos vários trapiches que funcionaram por lá. década de 50 

A greve continuou acirrada, e os jornais em longos editoriais, faziam pesadas críticas ao Capitão dos Portos que mandara fuzilar os trabalhadores em greve. Na praia, manteve-se um contingente policial durante todo o dia, com o objetivo de manter a ordem. Na Secretaria de Justiça foi instaurado rigoroso inquérito para apurar as responsabilidades.

E uma verdadeira romaria se formou na porta do Palácio do Governo, onde várias autoridades foram protestar junto ao presidente do Estado, Dr. Pedro Borges (12 de julho de 1900-12 de julho de 1904), pelo massacre dos trabalhadores do porto.
Naquele mesmo mês o Governo Federal mandou demitir o Comandante dos Portos e ordenou sua imediata saída de Fortaleza.

Alguns anos depois, o ex comandante foi assassinado com dois tiros, em plena capital federal, a porta do Clube Naval por alguém que nunca foi identificado.

fonte: 
Coisas que o Tempo Levou, de Raimundo de Menezes
fotos do Arquivo Nirez



sábado, 8 de abril de 2017

Os Flagelados da Seca e a Construção do Porto do Mucuripe


Corria o ano de 1932, e o Ceará passava por mais um ano de estiagem. O Governo Federal, através do Ministério da Viação e Obras Públicas, andava preocupado com a extensão da seca que atingia todo o Nordeste, especialmente com o Ceará, onde cerca de 90% do seu território se encontrava em situação crítica. 

antes do porto

Não chovia desde o ano anterior. Faltava tudo, alimentos, água, remédios, estradas e campos de pouso para acelerar o socorro. Sobravam homens desesperançados, vagando pelas estradas e cidades, brigando para sobreviver. Eram os flagelados. Getúlio Vargas, então presidente do brasil, autorizou o início de dezenas de obras no Nordeste.

O Ministro da Viação e Obras Públicas, José Américo de Almeida, era um paraibano extremamente identificado com os problemas da região. Foi o responsável por uma série de ações para minimizar os efeitos da seca. Dois anos antes, a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas – IFOCS – tinha definido que seu foco de atuação seria nas obras de irrigação e açudagem, sendo excluídas de sua competência a construção de ferrovias, rodovias e serviços portuários.

Homem de visão, o Ministro José Américo não costumava tomar decisões dentro do gabinete, no Rio de Janeiro. Fazia questão de acompanhar in loco, visitando as frentes de serviços, solucionando problemas na hora. Numa dessas viagens sofreu grave acidente, quando perderam a vida dois dos seus acompanhantes: Antenor Navarro, então interventor da Paraíba, e Artur Fragoso de Lima Campos.


Exatos 30 dias após o acidente, o Ministro José Américo nomeou o engenheiro paranaense Edgard de Souza Chermont, dos quadros do Departamento Nacional de Portos e Navegação para assumir interinamente a fiscalização do Porto do Mucuripe, cujas obras nem tinham sido iniciadas.

Por trás da nomeação, havia a decisão do governo de dar prosseguimento aos estudos e instalar o processo licitatório para a construção do Porto do Mucuripe, e na medida do possível, contratar flagelados para trabalhar na obra.  Em missão anterior, Chermont tinha estudado a viabilidade da transposição das águas do Rio São Francisco para irrigar áreas secas do Nordeste.


Chermont deveria, ainda, acompanhar a construção da ferrovia Fortaleza-Mucuripe, a modificação e instalação das oficinas dentre outras atribuições, como serviços de fixação das dunas do Mucuripe. O engenheiro contratou 600 flagelados que perambulavam pelas ruas de Fortaleza, os quais, com suas famílias, representavam aproximadamente 2.400 pessoas. Como sua competência abrangia todos os portos do Ceará, igual medida foi tomada em Camocim, onde contratou mais 400 flagelados, representando mais de 1.600 pessoas.

Todos os esforços empregados enfrentaram, no entanto, dificuldades quase intransponíveis, como a incapacidade física da maioria dos flagelados para execução de trabalhos pesados e o atraso no pagamento desses trabalhadores que chegou a nove meses.


A construção da ferrovia Fortaleza-Mucuripe com 6.700 metros, mais um desvio de 700 metros, iniciada em julho de 1932 e concluída em 1933 foi o primeiro passo para garantir um mínimo de sustentabilidade às obras do Porto do Mucuripe. É que não existiam opções para chegar ao porto as pedras necessárias para sua construção. A RVC preparou uma locomotiva especial para essas obras.

Os serviços de transporte para a construção dessa linha foram extremamente onerosos, não só pela grande perda de tempo verificada no percurso dos trens entre Monguba e Fortaleza, mas também pelas frequentes panes das máquinas. O percurso entre a Estação João Felipe e o Mucuripe, que geralmente levava duas horas, sempre era feito em quatro horas.


Essa linha saía da Estação Central, descia uma duna na altura do Hotel Marina, tomando o rumo da Praia de Iracema, passava em frente ao prédio da Alfândega, onde existia uma parada obrigatória para receber mercadorias e os passageiros, e daí se arrastava quase pela beira da praia até o Mucuripe.

A linha Fortaleza-Monguba (pedreira localizada em Pacatuba), passava pelas estações de Otávio Bonfim, Couto Fernandes, Parangaba, Mondubim, Pajuçara e Maracanaú, num total de 28.334 metros. Centenas de flagelados foram contratados para limpar a área da pedreira e afim de garantir o acesso e a manobra dos trens. Faziam de tudo, escavavam a terra, recolhiam as pedras pequenas, limpavam as áreas de acesso, mantinham a vigilância do lugar e pintavam as suas poucas máquinas.

Extraído do livro Caravelas, Jangadas e Navios, uma história portuária
De Rodolfo Espínola   
fotos do arquivo Nirez, IBGE e do livro citado na fonte