domingo, 23 de agosto de 2015

Você doou Ouro para o Bem do Brasil?

Em 1964 uma crise política alicerçada por uma inflação devastadora, contribuiu para a eclosão de um golpe de estado que levou o Exército a comandar o país na figura do marechal Humberto de Castelo Branco. Os cofres públicos estavam vazios e o Brasil sem reservas cambiais que pudessem conter a alta exorbitante do dólar.

O cinquentenário da Campanha Ouro para o Bem do Brasil ocorreu em 2014

Diante do quadro desolador, os Diários Associados – grupo empresarial de mídia comandado por Assis Chateaubriand – buscando quem sabe, aproximação com os novos governantes, lança uma campanha na qual os brasileiros doariam suas joias em ouro recebendo em troca alianças de latão e um diploma com os dizeres: “Doei ouro para o bem do Brasil”.  A ideia era obter lastro para a moeda nacional com o ouro arrecadado.

Com chamadas e campanhas pelo rádio e televisão, mais os jornais do então poderoso grupo empresarial, a população mais humilde de São Paulo, especialmente, se comoveu com a situação difícil da nação brasileira, se mobilizando mais uma vez em um ato de cidadania. Sugeria-se que as pessoas, sendo casadas, dessem suas alianças de ouro em troca de outras em metal com a gravação da campanha símbolo da Tupi.

Assis Chateaubriand (de branco) líder do grupo empresarial "Diários Associados"
 
Muitos fizeram isso e houve ainda quem doasse colares, brincos e outros objetos de ouro, até dinheiro do próprio bolso, para ajudar o país a se levantar dos infortúnios vividos no período que antecedeu à “Redentora”, denominação dada ao golpe de estado pelos favoráveis ao novo regime, que também foi chamado em outros setores de “Revolução de 1964”.

O nome para a campanha foi inspirado em outro movimento realizado durante a Revolução Constitucionalista de 1932, onde a população doou “Ouro para o bem de São Paulo”, criando uma “moeda paulista” que circulou em todo o Estado durante o boicote comercial imposto pela ditadura Vargas, impedindo São Paulo de efetuar qualquer atividade em nível nacional.

O lançamento da versão “Ouro para o Bem do Brasil” aconteceu no início de 1964 e contou com o apoio de uma parte da população e também de algumas empresas. Prefeituras chegaram a promover manifestações com desfiles em vias públicas onde escolares portando faixas, exibiam dizeres alusivos à campanha. 

Em 13 de junho de 1964, a revista “O Cruzeiro”  apresenta um balanço parcial informando que mais de 400 quilos de ouro e cerca de meio bilhão de cruzeiros haviam sido doados pelo povo e por autoridades civis e militares: “... a campanha, primeiro grande movimento dos ‘Legionários da Democracia’, foi aberta com a presença do senador Auro Soares de Moura Andrade, presidente do Congresso Nacional, que recebeu do Sr. Edmundo Monteiro, diretor-presidente dos Associados Paulistas, a chave do cofre em que será colocado o ouro e as doações em dinheiro que serão entregues, posteriormente, ao presidente da República, Marechal Humberto Castello Branco...”

“O Governador Adhemar de Barros doou, de livre e espontânea vontade, os seus vencimentos do mês de abril, num montante de 400 mil cruzeiros...”, informa ainda a publicação, salientando que mais de 100 mil pessoas fizeram doações desde as mais modestas, até as mais abastadas, depositando cheques de até 10 milhões de cruzeiros, vindos também de várias firmas, além de carros oferecidos pela indústria automobilística nacional, e inúmeras outras doações de grande monta.

As TVs Tupi Canal 4 e Cultura Canal 2, pertencentes aos associados, transmitiam ao vivo da sede da empresa, com o repórter, José Carlos de Moraes, o “Tico – Tico” narrando que os populares que doavam objetos de ouro de uso pessoal, tais como alianças, anéis e outros, recebiam em troca uma aliança de metal com os dizeres: ‘Doei Ouro para o Bem do Brasil’.

Quem doou uma aliança de ouro ganhou, como compensação, uma aliança de latão

Apesar da campanha, seguimentos mais esclarecidos da sociedade não se mobilizaram, evidentemente porque era previsível que não se alcançaria um valor suficiente para cobrir as reservas cambiais de um país do tamanho do nosso, suprindo aquilo que se arrecada nas atividades do comércio, da indústria e da agricultura que geram empregos e proporcionam os negócios de exportação e importação, estes sim capazes de tocar a economia.

Claro que a campanha não foi adiante, entretanto jamais foi informado sobre o que foi feito com todo ouro e o dinheiro arrecadado. Por parte do governo não houve sequer a uma nota de agradecimento.Em lugar nenhum da internet, ou nos arquivos dos jornais, encontramos números definitivos dessa campanha e nem o que aconteceu com o montante obtido junto aos abnegados contribuintes.  Nunca se soube do paradeiro da chave do cofre da campanha, entregue ao senador Moura Andrade, ou se ele ficou com ela de fato. Isso nos leva a crer que a campanha “Ouro para o Bem do Brasil” não passou de um golpe aplicado contra a população honesta, mais uma malandragem entre tantas, na história do país e o pior, com o uso da mídia.

Se hoje achamos que a ladroeira alcançou níveis nunca vistos, a história dessa campanha dos Diários Associados deixa claro que a picaretagem sempre agiu solta e o que muda é a maneira como se aplica o golpe.  O lamentável é que pessoas honestas, pais de família e suas esposas que doaram as alianças que simboliza a união abençoada por Deus entre os casais, foram enganados não para o bem do Brasil, mas daqueles que enriqueceram sem que o assunto fosse sequer apurado.


A Campanha Ouro para o Bem do Brasil teve alcance nacional, e em Fortaleza, a coordenação esteve a cargo da TV Ceará, afiliada dos Diários Associados, cabendo a Igreja Católica a arrecadação de ouro junto aos fiéis.


Fonte:

http://www.jornalmovimento.com.br/geraldo-nunes/245-na-campanha-ouro-para-o-bem-do-brasil-populacao-foi-enganada-e-nunca-se-soube-onde-foi-parar-o-dinheiro-

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Fortaleza no Tempo das Pensões Alegres

Fortaleza, como todas as cidades do mundo, sempre teve prostitutas. Claro que, nos primórdios tudo era muito escondido. Nos séculos XVIII e XIX as adolescentes escravas resolviam as taras dos elementos masculinos no próprio ambiente doméstico, com a conivência silenciosa da Sinhá. Mesmo depois da escravatura as criadas continuaram a serem as iniciadoras das práticas sexuais dos rapazes de família. Muitas foram vítimas de uma macabra receita para curar blenorragia, o chamado “esquentamento”. Naqueles tempos anteriores à penicilina, corria a lenda de que, para se curar a indesejada doença venérea era preciso fazer sexo com uma virgem. Dá pra imaginar o tamanho da propagação da temida DST desde os tempos coloniais.

Há noticias de francesas e polacas que teriam desembarcado na capital, vindas do Recife e que, alojadas em sítios da Aldeota (na época, quase uma floresta) e do Benfica, serviam a certos figurões da sociedade. Depois que envelheciam, recebiam qualquer um por qualquer preço.

sobrado onde funcionou a Pensão de Dona Amélia Campos 
(foto Fortaleza em Fotos)

 Nos anos 40, na Pensão da Amélia Campos, chegou uma francesa que não falava nada de português. Como a função dela não era propriamente falar, o idioma não seria empecilho. Um comerciante rico, foi abordado pela francesa nestes termos – “voulez-vous coucher avec moi?” O homem se apavorou com o que entendeu como proposta estranha e foi comunicar a um amigo, professor do Liceu:
 – esta francesa é doida, me perguntou “se eu sei fazer a cocheira velha miar”. O que diabo é isso? O professor se aproximou da mulher e esta repetiu a pergunta, que foi rapidamente traduzida pelo professor como “você quer dormir comigo?” 

O Palacete Guarani acolheu uma das mais famosas pensões de Fortaleza, a Boate Guarani (foto Fortaleza em Fotos)

Mas a maioria das mulheres que exerciam o meretrício era prata da casa, as filhas de sertanejos, expulsas do interior pelas secas e privações de toda sorte.A reação das senhoras do lar era veemente. Todas se benziam e faziam um ar de repugnância quando se referiam às “mulheres do mundo”, as “decaídas”. As próprias prostitutas assumiam sua lastimável condição, usando expressões como “quando eu me perdi”, “fulano me fez mal”.

Outras mudavam de profissão, talvez pela melhor remuneração, ou pela menor dificuldade no trabalho. Foi o caso da mulher que um dia  encontrou na feira, sua ex-empregada, Graça. Apesar de ter notado a maquiagem carregada e a saia muito curta, não se apercebeu de sua nova profissão, cumprimentando-a com carinho. Mas Gracinha resolveu aproveitar a oportunidade de reencontrar a patroa para mandar um recado para o ex-patrão: Dona Maisa, diga ao seu marido, que eu agora virei puta. Mas lembre a ele que, lá no cabaré não me conhecem como Graça, não. Meu nome lá é Pirrita. 

 Painel recuperado durante a reforma do sobrado Dr. José Lourenço, na Rua major Facundo. Herança do tempo em que o sobrado abrigou a Boate Marajó na década de 1950. (foto Fortaleza em fotos)

Quando ocupou a chefia de polícia, ainda nos anos 30, o capitão Cordeiro Neto procurou tirar as meretrizes das ruas, que não puderam mais pegar clientes no centro da cidade. Os cidadãos abastados, trabalhando em causa própria, conseguiram uma solução para o problema: as mulheres de melhor aparência se instalariam discretamente no Centro, nos altos dos velhos sobrados das ruas Major Facundo e Barão do Rio Branco. É que esses velhos casarões, antigas residências dos barões do final do Século XIX e começo do Século XX tinham sido desocupados quando, a partir dos anos 20, Fortaleza sofrera a primeira grande mudança espacial, com o surgimento dos bairros do Benfica, do Jacarecanga e da Praia de Iracema. Para lá se mudaram as famílias ricas e seus antigos solares viraram casas comerciais. Mas o comércio só ocupava o térreo, ficando os altos vazios. Quando do Decreto do chefe de Polícia, surgiram arrendatários para esses sobrados e ali foram montados os cabarés. 

Rua General Sampaio na descida de acesso ao Curral das Éguas 
(arquivo Nirez)

  Por outro lado as raparigas em fim de carreira, velhas e desdentadas, foram situadas num gueto infame conhecido por Curral das Éguas, numa larga faixa de terra que compunha o Arraial Moura Brasil e que começava logo abaixo da Ladeira da Misericórdia, tomando toda a área do Morro do Moinho e grande parte da Avenida Leste Oeste. Era um amontoado de casebres desalinhados em inúmeros becos infectos, e certamente, perigosíssimos. O velho Curral, no entanto, consolava as vontades dos amantes humildes, soldados, estudantes lisos, vendedores ambulantes, carregadores, velhinhos de minguada aposentadoria e desocupados em geral.

Rua Franco Rabelo, na zona de baixo meretrício (Nirez)
O cabaré é normalmente, um lugar onde se dança e bebe, uma casa noturna onde se assiste a espetáculos de variedades. Nas décadas de 40, 50 e 60 as casas que em Fortaleza, mais se aproximavam da ideia de cabaré, pois além da prostituição ofereciam a diversão artística, eram a América, a Império, a Monte Carlo, a Nena, a City, todas localizadas na Rua Barão do Rio Branco. A Ubirajara, a Estrela, a Fascinação, ficavam na Rua Major Facundo. A Amélia Campos, na Rua Pedro Borges; a Olímpia, na Rua Senador Alencar, a Cristalina na Rua Floriano Peixoto e a Casa de Mme. Nininha, na Rua Castro e Silva. 

O fato dos cabarés ficarem nos altos dos prédios, atendia à questão do isolamento das profissionais do sexo da chamada sociedade regular. Uma ocorrência do final dos anos 30, explica a origem de famosa expressão ainda hoje corrente em Fortaleza. Uma das lojas da Rua Floriano Peixoto sofreu um incêndio em plena manhã de sábado. Nos altos do sobrado havia uma pensão de mulheres. As inquilinas, que tinham trabalhado até de madrugada, ainda dormiam quando começou o alvoroço na rua. Populares tentavam apagar o fogo com baldes d’água, enquanto as chamas subiam perigosamente, já ameaçando o sobrado. As mulheres, despertadas pelos gritos da multidão, do alto das janelas, pediam socorro, braços erguidos, descabeladas, ainda em seus trajes de dormir, gritavam no maior desespero: salvem a gente pelo amor de Deus!!! .Foi quando um gaiato, numa explosão de sadismo, gritou da rua: “Queima Raparigal”  

  
A Rua Barão do Rio Branco com seus inúmeros sobrados. Quando os proprietários se mudaram do Centro, os casarões ficaram disponíveis para o comércio de dia e para as pensões à noite. (postal antigo)

Nos altos do Palacete Guarani (na foto acima, o prédio com telhado inclinado), construído no início do século XX, funcionou a partir dos anos 50, a Boate Guarani, uma grande casa de espetáculos. Promovia festas especiais em que as mulheres eram praticamente uniformizadas, pois embora com modelos diferentes, seus vestidos naquela noite tinham a mesma cor. No aniversário da madame era o Baile azul. Mas tinha no decorrer do ano tinha o baile vermelho, o cor-de-rosa, e assim por diante. 


extraído do livro
Sábado, estação de viver - histórias da boemia cearense,
de Juarez Leitão 

   

domingo, 16 de agosto de 2015

Os Antigos Cafés eram redutos de Intelectuais

Fossem  nas grandes capitais ou em pequenas cidades, os cafés e bares eram pontos de encontro e muita conversa fiada em torno dos mais variados assuntos, alguns de grande, outros de nenhuma importância. E eram nos cafés que ocorriam as grandes discussões sobre literatura e os assuntos relevantes da época. Os bares e cafés eram redutos masculinos, a única mulher que era vista nesses estabelecimentos do centro, se chamava Rachel de Queiroz, isso a partir dos anos 30.


Praça do Ferreira cruzamento das ruas Major Facundo e Guilherme Rocha. O sobrado mais alto, à esquerda, pertenceu ao comendador Machado, onde no térreo, funcionava o Café Riche. Na outra esquina, em frente ao sobrado, ficava a Maison Art-Nouveau. Atualmente, nesse mesmo cruzamento estão o Excelsior Hotel e o edifício Granito. Foto da 1ª metade dos anos 20 

As constantes modificações nos hábitos urbanos contribuíram para o desaparecimento dos cafés, espaços de alta expressão na vida das cidades, como foco de debates de ideias, de comentários políticos e às vezes de mexericos sociais. Alguns desses cafés, permaneceram por longos anos, servindo como ponto de encontro da elite intelectual  de Fortaleza. 

Café Java


Foi um dos pioneiros e o mais famoso deles. Por volta do ano de 1892, a boemia elegante e intelectual que marcou época em Fortaleza, fazia sua parada obrigatória no Café Java, um quiosque modesto, armado no canto da Praça do Ferreira, em frente ao edifício da Rotisserie, hoje Caixa Econômica. Naquele local nasceu a controvertida Padaria Espiritual, assinalando uma das épocas mais curiosas da história de Fortaleza.

O Café Java tinha na figura do seu proprietário, que se chamava Manoel Pereira dos Santos, e atendia pela alcunha de Mané Coco, um dos tipos mais bizarros daqueles tempos. O Mané Coco – segundo a descrição de Antônio Sales – era uma excelente pessoa, muito inteligente, embora destituído de cultura. Apreciava aquela mocidade que, a pretexto de um cafezinho no seu estabelecimento, vinha prosar e poetizar.

Primeiro chegou Antônio Sales, o dos Versos Diversos de 1890. Depois se juntam 34 moços, metade poetas: funcionários da alfândega, caixeiros, migrantes. Estava formado o embrião do grupo literário que ficou conhecido como “Padaria Espiritual”. 

Na reforma feita na praça na primeira gestão do Prefeito Godofredo Maciel , em 1920, os quiosques foram demolidos. Sobre o episódio, Antônio Sales escreveu estas palavras de mágoa: esta noite, ao sair do cinema, parei defronte dos destroços fúnebres do Café Java, sacrificado à estética da Praça do Ferreira, que é o centro vital de nossa urbe. E nessa contemplação, veio-me uma grande tristeza e uma grande saudade. Ali reinou Mané Coco, o fundador dessa instituição popular que era o café, hoje desaparecido. 

Maison Art-Nouveau


Surgiu em 1907 no cruzamento das ruas Major Facundo e Guilherme Rocha, no lugar do atual Edifício Granito. Fora uma casa de louça e vidros – Casa Almeida – de que era sócio José Rola. Ao mudar-se para a esquina das ruas Guilherme Rocha e Barão do Rio Branco, ele abriu um bar-confeitaria e um teatrinho, onde funcionou o Cinema Di Maio e depois o Cinema Riche. 

Do Art-Nouveau era seu sócio o genro Augusto Fiúza Pequeno, que ficando responsável pelo negócio, associou-se a Hildebrando Acioli. Esteve a Maison daí por diante, ora nas mãos do dono, ora dos arrendatários.

Os dois irmãos Eugênio a exploraram durante largo período – 22 de junho de 1922 a 12 de outubro de 1928, dia em que a repassaram para Edilberto Góis Ferreira. O russo Jacó Braunstein foi o último arrendatário.

A história elegante e literária de Fortaleza não pode ser contada sem a Art-Nouveau, pois veio ela a suprir velha lacuna, propiciando ao mundo chique  e literário os mais eufóricos encontros, num intercâmbio de amizades, camaradagens e trocas de ideias. O Art-Nouveau reunia em suas mesas, palestrantes, poetas, homens de letras, cronistas, historiadores e humoristas, os mais diversos. Presenças que conferiam prestigio ao estabelecimento, mas que pouco rendiam em termos financeiros.

A abertura do Café Riche, em frente, abalou sensivelmente o movimento da Maison, porém foi retomado à medida que aquele fracassava, invadida as suas mesas por malandros e gente de menor aceitação. Paralelamente ocupavam bancas da Art-Nouveau muitos empregados do comércio, que aproveitavam para isso o pequeno intervalo do almoço; quase todos os alunos da Escola de Comércio Fênix Caixeiral e clientes com menor poder aquisitivo. A Maison encerrou suas atividades ao ser consumida por um incêndio por volta de 1930. 

Café Riche


Foi inaugurado no dia 21 de setembro de 1913, de propriedade de Alfredo Salgado e Luiz Severiano Ribeiro, o futuro rei do cinema no Brasil. Ocupava o andar térreo do sobrado, enquanto nos andares superiores funcionava o Hotel Central. Vizinho, um casal de americanos havia iniciado a exploração do restaurante Black and White, gerenciado por João Quinderé. Como não tinha condições de se manter, foi anexado ao Café Riche, que foi ampliado com uma seção onde eram servidas refeições.

O edifício do Café e do Hotel era o sobradão mandado construir em 1825, pelo Comendador José Antônio Machado. A construção foi confiada ao Coronel Conrado Jacó de Niemeyer (o mesmo homem que atuou como presidente da Comissão Militar responsável pelo fuzilamento dos heróis da República do Equador, em 1825, no Passeio Público).   

Por esse tempo havia a crença de que o solo arenoso, de areias frouxas não suportaria a construção de uma casa daquela altura. Até os pedreiros mostraram receio, mas foram obrigados a levantar a obra com o auxilio dos presos da Cadeia do Crime. E nenhuma construção da cidade enfrentou tão bem as intempéries.

A sua demolição ocorreu em 1927, quando estava o sobrado na posse e domínio do capitalista Plácido de Carvalho. Para isso, no ano anterior, o Riche havia sido fechado. Antes, habitaram os dois andares de cima, a Família Gradvohl, ocupados os baixos pela Loja Boa Fé, de Gradvohl & Picard, firma que transformou em Gradvohl Frères.

O Café Riche apresentava relativo luxo e servia bem, razão pela qual ia sendo procurado, em prejuízo da Maison. A roda de intelectuais que ali assistia destacou-se pelo bom padrão dos seus integrantes. Para maior bem estar da freguesia eram colocados, à tarde, mesinhas desarmáveis num tablado que avançava contra a Rua Major Facundo, cobrindo a sarjeta e, assim, ampliando a calçada. As mesas internas eram de mármore, oitavadas e de tripés de ferro prateado, imitando galhos retorcidos.

Na alvura do mármore, muitas poesias foram escritas, reproduzidas ou ali mesmo improvisadas.   De repente o Café Riche começou a decair, ao ter suas mesas invadidas por malandros e pessoas de menor aceitação. Os clientes tradicionais debandaram em busca de novos espaços, e o café fechou suas portas em 1926.

Fonte:
Raimundo Girão – Geografia Estética de Fortaleza
Otacílio de Azevedo – Fortaleza Descalça
fotos do Arquivo Nirez 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Os Arquivos da Igreja

A prática do registro civil – nascimento, casamento – óbitos, etc,  remonta à Antiguidade, embora somente as pessoas consideradas importantes é que se submetiam à referida estatística. Não havia o cartório como o concebemos hoje.


 Registro de batismo de 1896. Não é tarefa fácil pesquisar documentos antigos: além da má caligrafia, em muitos casos os dados são divergentes ou incompletos

Com a queda do Império Romano e a ascensão da Igreja Católica, esta herdou a tarefa de proceder ao registro de nascimentos e mortes, mas ainda assim somente de um grupo seleto, como nobres, reis, eclesiásticos e demais pessoas consideradas importantes. Na prática, a Igreja apenas deu continuidade a uma tradição.

A França detém o título de país pioneiro na prática do registro universal de nascimentos e mortes, cuja datação aponta para meados do século 16, uma iniciativa da Igreja Católica. Poucos anos depois, com o término do Concílio de Trento (1563), a Igreja oficializou e difundiu a prática do registro civil e do registro de mortos para ricos e pobres.


Inaugurada em 1841, a Igreja da Conceição da Prainha registrou o batismo, casamento e morte de muitos fiéis. 
 
No Brasil, até meados do século XIX  os grandes arquivos do país estavam sob a responsabilidade das igrejas. Como o Estado e a Igreja estavam relacionados e o catolicismo era a religião oficial do País, apenas a Igreja católica efetivava esses registros. Somente a partir da segunda metade é que a Igreja perde para os municípios o dever de proceder a tais registros. Em 1863, por meio de um decreto, o governo imperial deu efeito civil aos registros de casamentos de pessoas não católicas e em 1874, também por meio de decreto, D. Pedro II regulamentou o registro de nascimento, casamento e de óbito no Brasil. Esse ato marca o surgimento dos cartórios no Brasil. O primeiro cartório de Fortaleza foi instalado em 17 de novembro de 1888, com o nome de "1° ofício de registro civil das pessoas naturais", conhecido por Cartório João de Deus, localizado no Centro.  

  
Documento de batismo de Antônio Vicente Mendes Maciel, que ficaria conhecido na história do Brasil como Antônio Conselheiro.  Registro  no Livro de Assentamentos de Batizados da Paróquia de Quixeramobim, de 22 de maio de 1830. 

A Somente a partir de 1875, as grandes cidades brasileiras deram início a essa determinação, e a partir de 1888, a Igreja deixava, oficialmente, de cumprir com essa obrigação, cujas recentes mudanças foram outorgadas pelas constituições republicanas.
A separação entre a Igreja e o Estado foi efetivada em 7 de janeiro de 1.890, pelo Decreto nº 119-A, e constitucionalmente consagrada desde a Constituição de 1.891. Até 1.890, enquanto o catolicismo era a religião oficial do Estado, as demais religiões eram proibidas, em decorrência da norma do art. 5o da Constituição de 1.824. O catolicismo era subvencionado pelo Estado e gozava de enormes privilégios.

Até os dias de hoje as Igrejas mantém arquivos e documentos. No entanto, esses documentos só se referem a ritos da Igreja Católica, como batizados e casamentos. Os demais registros civis, nascimento, casamento civil e óbitos são feitos exclusivamente em cartórios. 

Em Fortaleza, documentos antigos, como o arquivo de toda a capitania do Siará datado do século XVIII, bem como toda a documentação antes da República, estão armazenados na Sala de História Eclesiástica do Ceará. O lugar guarda e preserva a memória histórica do Ceará, como um todo. Não só da Igreja, mas também das histórias que se desenvolvem das relações pessoais. Todo  o acervo foi formado por documentos das paróquias de Fortaleza e de livros ou documentos  pertencentes a padres e bispos.


Seminário da Prainha em 1890: nesse ano houve a separação entre Igreja e Estado

Com estantes cheias de livros antigos, arquivos guardados em pastas, jornais arquivados e uma mesa grande para apreciar o material, o local fica na parte interna da Faculdade Católica de Fortaleza, no prédio do Seminário da Prainha. No mesmo lugar, outro ambiente, que guarda os arquivos da Cúria Metropolitana de Fortaleza, faz parte da sala. O acervo, reúne livros de registros de batizados, casamentos e óbitos das primeiras paróquias de Fortaleza e são muito procurados para pesquisas genealógicas.  

Fontes:

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A Fortaleza do tempo da "A Normalista" parte 2/2

No romance publicado em 1893, Adolfo Caminha traça um perfil de Fortaleza no final do século XIX. “A Normalista” é apontado como um dos principais representantes do Naturalismo no Brasil.

continuação ....

“O Zuza dava-se muito com o presidente, que também pertencia a uma alta linhagem de fidalgos em São Paulo e fora educado na Europa: um rapagão alegre, amador de cavalos de raça, ilustrado e amigo das mulheres” p.34 


O presidente citado várias vezes no decorrer da história, é Antônio Caio da Silva Prado, nomeado presidente da província do Ceará por carta imperial de 25 de março de 1888. Nascido em São Paulo, de família rica e tradicional, irmão do renomado escritor Eduardo Prado, foi educado na Europa, cursou Engenharia na França e formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo. Caio Prado assumiu o governo do Ceará em 21 de abril de 1888, cercado de admiradores e elogios de simpatizantes, mas com reservas da imprensa local. Ao tomar posse no cargo, revelou todo o seu despreparo e desconhecimento de como lidar com os problemas que assolavam o Ceará. 

“Morava na Rua Formosa  numa casa assobradada e vistosa com frontaria de azulejos, varandas e dois ananases de louça no alto da cimalha, à velha moda portuguesa” p. 34 



A descrição é referente ao local de moradia do coronel Sousa Nunes, que residia com a mulher e hospedava o filho Zuza, quando este vinha ao Ceará. A Rua Formosa é a atual Rua Barão do Rio Branco, uma das mais antigas de Fortaleza, famosa por seus sobrados e residências de alto luxo. 

“Passava um enterro caminho do cemitério. Quatro gatos pingados,  de preto conduziam o caixão cujos galões de fogo reluziam ao sol” p.44

Antigamente os enterros eram solenes e a pé. O caixão do falecido era carregado por amigos, parentes ou pelos “gatos pingados”, homens contratados para levar o defunto ao cemitério. Vestiam-se com casacas compridas e negras, uma fita amarela a tiracolo, calças com listas vermelhas, cartolas altas de oleado, de abas enroladas. Somente homens, todos de preto, acompanhavam o féretro. Se o defunto era pessoa importante, o cortejo terminava com uma banda de música tocando peças fúnebres.

“Esse José Pereira, fisicamente, dir-se-ia irmão gêmeo do Berredo, da Escola Normal... Começara a vida pública no Correio, como carteiro e agora ai estava feito redator da Província” p.54

No tempo da normalista”, o Correio funcionava no térreo do prédio da Assembleia Provincial, na Praça General Tibúrcio, onde ficou até 1895. No dia 9 de março desse ano, mudou-se para o prédio da União Cearense, localizado na Rua Dr. João Moreira, na Praça dos Mártires.


“Onde fica a tipografia do jornaleco? Na Rua de São Bernardo, creio eu ...” p. 56

A Rua de São Bernardo que recebeu esse nome por causa da Igreja de São Bernardo localizada na esquina com a Rua Senador Pompeu, é a atual Pedro Pereira.

“José Pereira derreou-se na cadeira de espaldar, um velho traste que fora da Perseverança e Porvir...” –  p.58



A Sociedade Perseverança e Porvir era uma entidade voltada para a causa abolicionista, instalada no dia 28 de setembro de 1879 em homenagem declarada ao oitavo aniversário da Lei do Ventre Livre. 

“Ao dobrar a Rua da Assembleia, o Zuza parou, à espera que o bonde passasse...” – p. 59
A Rua da Assembleia é a atual Rua São Paulo

“Entregou-a ela mesma, no Passeio Público, numa quinta-feira à noite, uma belíssima noite de luar. A Avenida Caio Prado tinha o aspecto fantástico...”p.64

O Passeio Público era dividido em três planos: No inicio do século XX, foi rodeado de grades artísticas e dividido por classe social. A elite frequentava a Avenida Caio Prado, de frente para o mar; A classe média frequentava a parte central denominada Avenida Carapinima, e os pobres ficavam na Avenida Padre Mororó. É possível que no decorrer da história, a avenida não se chamasse ainda Caio Prado, nome dado em homenagem ao presidente da província falecido em 1889 e personagem do romance. 

“Era voz geral na cidade que o estudante estava disposto a casar com a normalista mesmo contra a vontade de seus pais e a despeito da burguesia aristocrata que lamentava por sua vez tamanho “desastre” . um rapaz fino, com um futuro invejável diante de si, estimado, amigo do presidente, casar-se com uma simples normalista sem eira nem beira! E em toda parte, desde o Café Java até o Palácio da Presidência comentava-se, discutia-se ruidosamente assombroso acontecimento...”  p.76



O Café Java era um dos quatro cafés localizados nos cantos da Praça do Ferreira. Ali nasceu a ideia de se criar, em 1892, a Padaria Espiritual. O Java data da década de 80 do Século XIX, e foi demolido pela reforma da praça em 1925.

“No quarteirão compreendido entre a Rua das Flores e a do Senador Alencar...” p.80
A Rua das Flores é a atual Rua Castro e Silva

“A verdadeira casa do Loureiro, o ninho em que ele ia passar a lua-de-mel com a Lídia, era no Benfica...” – p 81 

O Benfica ficava nos arrabaldes de Fortaleza, na estrada do Arronches, atual Parangaba. Era um lugar de muita vegetação, com muitos sítios e chácaras e famoso por suas fontes de águas limpas.

"Agora, uma semana depois, num sábado, toda a gente falava no casamento da Campelinho como d’um acontecimento extraordinário... Às sete horas dois foguetes queimados defronte da casa da viúva Campelo, no trilho, deram sinal de que os noivos iam sair. Com efeito, daí a pouco surgiu na calçada a Campelinho caracterizada em noiva, afogada em seda branca, com uma auréola de imortalidade, cabisbaixa, pisando devagar, de braço dado com a firma Carvalho e Cia... Logo após vinha o Loureiro com a viúva, em seguida Maria do Carmo e um rapaz empregado do comércio... O cortejo desfilou a pé, ante a curiosidade indiscreta da vizinhança que se debruçava nas  janelas para ver melhor a noiva... Cerca de uma hora depois voltaram os noivos com o seu bizarro cortejo de amigos e amigas, mas agora vinham os dois na frente abrindo caminho, conversando baixinho, com um belo ar de velha familiaridade"  P. 82/3

Descrição do cortejo de casamento daqueles tempos. A exemplo dos enterros, noivos e convidados também seguiam a pé, exceção para as famílias mais abonadas que geralmente dispunham de transporte próprio (carroças puxadas por cavalos ou burros).
  
"Afinal de contas, depois de alguns segundos, fez-se a ordem e o casamento seguiu em paz, direto à Igreja do Patrocínio.” P. 83


“Nisto adormeceu e logo tornou-lhe a aparecer em sonho o negro Romão com as calças arregaçadas, um barril na cabeça, a gritar – arre corno! Cercado de garotos que lhe atiravam pedras.... depois o preto deixou cair o barril, que se derramou, inundando a calçada de imundícies, e ei-lo montado num cavalo magro, a fazer de palhaço de circo, uivando uma porção de asneiras, que a molecagem replicava sempre com o mesmo estribilho, a uma voz: – é sim sinhô! “ p.90



O sonho de Maria do Carmo com o negro Romão está relacionado a forma de saneamento doméstico praticado por largos anos em Fortaleza. De acordo com Raimundo Girão, em "Geografia Estética de Fortaleza" o Romão era um antigo escravo bestializado pela miséria. Imundo, andava meio curvado, apoiado a uma bengala, rosnando sempre nomes feios. Sustentava-se de cachaça e comia vísceras cruas, misturadas com farinha de mandioca, no fundo do seu fétido chapéu de palha. Quando ferrava no sono em um vão de porta, a mulher e as filhas, que o seguiam à distância, vasculhavam lhe os bolsos em busca dos níqueis e cobres que porventura tivesse sobrado da aguardente. Romão era um quimoeiro. Como naquele tempo não tinha esgotos, era usual em quase todas as residências, juntar os detritos fecais em grandes barris de madeira, conhecidos por “quimoas”, e mandar esvaziar o infecto conteúdo nas proximidades da praia. A tarefa era realizada pelos quimoeiros, que carregavam na cabeça sua malcheirosa carga. Por onde passavam, havia grande correria de homens, mulheres e crianças, bater de portas e janelas, todos procurando evitar o encontro com os carregadores. E quando cansados ou bêbados, (e eles bebiam muito para poder encarar o serviço), descansavam o barril nas calçadas ou num batente que lhes servisse de apoio. De onde quer que partissem, os quimoeiros passavam obrigatoriamente pela frente da Santa Casa, desciam o calçamento que dava no velho gasômetro, rumo a praia (que seria hoje a Praia de Iracema). Ali chegando o fétido carregamento era atirado ao mar, o barril era lavado, e o homem voltava, passando pela antiga Rua Formosa.
  
“Seguiram para a Praça do Ferreira a tomar o bonde de Pelotas” p.98

  
João da Mata e Maria do Carmo iam para o Benfica visitar a amiga Lídia. Para tanto rumaram para a Praça do Ferreira, ponto de partida de todas as linhas. Os bondes eram movidos a tração animal, trafegavam quase o dia inteiro, das 6 da manhã às 9 da noite. O itinerário do Bonde de Pelotas tinha inicio na Praça do Ferreira e terminava na Praça de Pelotas (atual Clóvis Beviláqua) junto à Rua General Sampaio. 

“ e ir viver na Santa Casa de misericórdia, curando os enfermos...” p. 103

A Santa Casa de Misericórdia foi inaugurada no ano de 1861, no mesmo local em que se encontra até hoje, em frente ao Passeio Público. Foi o primeiro hospital de Fortaleza e o único hospital público até o começo dos anos 30. A Santa Casa foi o principal espaço de tratamento da população pobre, desde que os doentes não estivessem acometidos por moléstias contagiosas. Para estes foi criado o Lazareto da Lagoa Funda, localizado à cerca de 7 km do centro.

“Depois, enquanto o vapor singrava em direção ao Mocoripe, começou a examinar a costa cearense, como se nunca a tivesse visto de fora, da tolda de um navio. Viu passar diante de seus olhos arregalados todo o litoral de Fortaleza, desde o farol de Mocoripe até a Ponta dos Arpoadores...
primeiro o farol, lá muito longe, esbranquecido, cor de areia, ereto, batido pelos ventos; depois a extensa faixa de areia que se desdobra em ziguezague até a cidade; a praia alvacenta e rendilhada de espumas. Em seguida o novo edifício da Alfândega, em forma de gaiola, acaçapado, sem arquitetura, tão feio que o mar parece recuar com medo à sua catadura.”   
“noutro plano, coqueiros maltratados pelo rigor do sol, erguendo-se da areia movediça que os ameaçava soterrar, uns já enterrados até a fronde, outros inclinados, prestes a desabar; o torreão dos judeus Boris, imitando a torre de um castelo medieval, cinzento e esguio; o seminário por trás, no alto da Prainha, com suas torres triangulares; as torres vetustas e enegrecidas da Sé; o Passeio Público com seus três planos em escadarias; a S.C. de Misericórdia, branca, no alto; o Gasômetro; a Cadeia; e por ali afora o arraial Moura Brasil, invadido pelo mar, reduzido a um montão de casebres trepados uns sobre os outros...” p.109



Pressionado pelo pai, que não queria o namoro do estudante com a normalista, Zuza embarca para Recife, e observa com atenção, aparentemente pela primeira vez, os detalhes da costa cearense sob a perspectiva mar/terra. Nos trechos acima está todo o panorama da velha Fortaleza do tempo de Adolfo Caminha e que se prolongou até a década de 1930, com pouquíssimas modificações.  

“Maria do Carmo não podia se conformar com a ideia da morte do presidente, o homem da moda, o querido das moças, o grande amigo do Ceará, que tantos benefícios fizera a essa província, mandando construir açudes no sertão, reconstruindo o Passeio Público, ativando as obras do porto, facilitando a emigração, prodigalizando esmolas e finalmente introduzindo em Fortaleza certos costumes parisienses, como o sistema de passear a cavalo a chouto, de aparar a cauda aos animais de sela.” P. 113

Adolfo Caminha esboça o retrato do antepenúltimo presidente da província do Ceará,  Caio Prado. Para completar a tragédia da falta de chuvas e acompanhando as secas periódicas, proliferou no Ceará uma violenta epidemia de febre amarela, agravando o quadro de miséria para milhares de pessoas. Com a epidemia instalada no Estado, o próprio presidente foi uma das vítimas; acometido da doença, faleceu em 25 de maio de 1889.


 Uma das poucas fotos em que aparece o então presidente Caio Prado, numa reunião em uma chácara no Benfica. O presidente é o número 14.  

“Os sinos da Sé começaram a dobrar a finados...” p. 115

Era costume os falecimentos serem anunciados pelos sinos da Sé. A partir daí sabia-se da morte de algum morador por uma cortina preta, com uma cruz prateada no centro, posta na fachada da casa do falecido. O costume foi abolido em 1878 porque a morte de alguém não afligia mais a cidade, em razão do grande número de vítimas das secas e das epidemias. 

“O enterro do presidente passava na esquina, caminho do cemitério. Maria do Carmo assistia com a respiração suspensa e um nó na garganta, o desfilar do préstito. O caixão levado por seis homens de preto, coberto de galões dourados debaixo da chuva miúda, o acompanhamento – uma comparsaria dispersa de gente de todas as classes de chapéu-de-chuva-aberto, marchando resignadamente ao som da música do batalhão que tocava à funeral”. P.116

mais uma vez a descrição de um enterro antigo com a presença dos “gatos pingados”, homens contratados para carregar o caixão, todos vestidos com roupas especificas para essa ocasião. Como se tratava de gente importante, nesse caso, havia o acompanhamento de uma banda de música.  

“durante o jantar declarou que a Maria, no dia seguinte domingo, iria passar uma semana ao Cocó, em casa de tia Joaquina, conhecida como velha dos cajus”. p.119


Grávida do padrinho João da Mata, Maria do Carmo cumpre o destino de mulheres solteiras que engravidavam: ser confinada em algum lugar reservado e distante dos olhos de parentes e vizinhos até o nascimento da criança. O Cocó foi o lugar escolhido para Maria do Carmo ter o filho. Era distante e quase despovoado. Segundo nota do editor, ficava a cerca de uma légua de Fortaleza. A tia Joaquina e o marido mestre Cosme, moravam numa casinhola de taipa, dentro de um largo cercado de pau-a-pique plantado de cajueiros, todo verde no inverno, com um grande poço no centro, cavado toscamente, e ao fundo do qual sangrava um veio de água cristalina.

“A esse tempo um grande acontecimento preocupava toda a cidade. lia-se na seção telegráfica da província as primeiras noticias sobre a proclamação da república brasileira.... O Ceará estremecia a esses boatos. Grupos de militares cruzavam as ruas, ouviam-se toques de corneta no batalhão e na Escola Militar. Tratava-se de depor o presidente da província, um coronel do exército. Os canhões La Hitte, da fortaleza de N.S. d’Assunção, dormiam enfileirados na Praça dos Mártires, defronte ao Passeio Público, guardados por alunos de patrona e gola azul... “p.136

A notícia da Proclamação da República chegou por telégrafo, no final da tarde do dia 15 de novembro. O Ceará era então governado pelo coronel Jerônimo Rodrigues de Moraes Jardim, no poder havia apenas um mês. Ao tomar conhecimento da notícia, o presidente promoveu reuniões com os comandantes das forças militares, auxiliares e chefes políticos locais, pedindo o auxílio de todos para a manutenção da ordem pública. Moraes Jardim foi convidado a aderir à república, mas relutou talvez em razão de não acreditar que o Império pudesse cair tão facilmente, como os fatos davam a entender. No dia 16, oficiais do 11° Batalhão de Infantaria, alunos do Colégio Militar e membros do Centro Republicano se reuniram na Praça dos Mártires (atual Passeio Público) para garantir a adesão do Ceará ao novo regime – deliberaram pela deposição do presidente Moraes Jardim. A aglomeração, sob o olhar curioso e espantado da população de Fortaleza, deslocou-se a seguir em direção ao palácio do governo. Chegando à sede do governo, a multidão intimou o último presidente monarquista do Ceará a entregar o poder, ao que Moraes Jardim não ofereceu  nenhuma resistência. Depois por indicação do major Manuel Bezerra de Albuquerque, professor do Colégio Militar, foi indicado para governar a província Luís Antônio Ferraz, comandante do 11° Batalhão.

pesquisa:

Caminha, Adolfo. A Normalista. Rio de Janeiro: Série Bom Livro - Editora Ática 10a. edição, 1994
Farias, Airton. História do Ceará/Airton de Farias. Fortaleza: Edições Livro Técnico, 2009 - 5a. edição. 400p. 
GIRÃO, Raimundo. Geografia Estética de Fortaleza. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1959.
GIRÃO, Valdelice Carneiro. A Emigração Cearense no Governo Caio Prado (1888-1889). Fortaleza: Revista do Instituto do Ceará, 1990.
as demais informações foram retiradas do site Fortaleza em Fotos, onde constam os os nomes de todas as fontes.
Fotos IBGE, Aba Film, Álbum de Vistas do Estado do Ceará - 1908, Nirez e Brasiliana Fotográfica.