segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Greve dos Portuários (1904)

Rua Floriano peixoto, início do século XX

O ano de 1904 começou agitado em Fortaleza. Desde o dia 1° corria o boato de que os trabalhadores do porto entrariam em greve. A população começou a ficar inquieta, as famílias dos trabalhadores foram tomadas de verdadeiro pânico. O motivo da paralisação segundo se afirmava, era a execução da lei do sorteio militar. (Polêmica lei que instituía o serviço militar obrigatório e por sorteio. Seus defensores alegavam que só trabalhadores braçais e sem qualificação se apresentavam para servir ao exército. Com a adoção do sorteio, todas as classes sociais passariam a ser recrutadas).


Na manhã do dia 3 de janeiro, um domingo, chegara o paquete Maranhão. Notava-se no porto de desembarque, uma movimentação fora do normal, uma agitação, um corre-corre de populares e de homens do mar. As sete horas, explodiu o movimento paredista. Aderiram, logo no início, os catraieiros e demais empregados no tráfego marítimo. Os que não aderiram espontaneamente, foram forçados pelos grevistas.

Em pouco tempo, a rebeldia estava generalizada. Os 300 passageiros do Maranhão tiveram de ficar a bordo, sem possibilidade de pisar em terra por falta de condução. Em razão disso, avisado do ocorrido, o capitão-tenente Luís Lopes da Cruz - apelidado de De La Croix pelo jornalista João Brígido - Comandante dos Portos, homem violento e de temperamento exaltado, não contemporizou. Em vez de tentar um entendimento com os grevistas, para tentar resolver o problema, optou por pedir auxílio da força armada.

Às 8 horas, o comandante De La Croix determinou, mesmo naquele ambiente tenso, carregado de revolta geral, que a baleeira da capitania seguisse em direção ao navio, a fim de providenciar o desembarque dos passageiros que lá se encontravam retidos. 

O gesto do comandante foi recebido como uma afronta pelos catraieiros; aglomerados, em represália, impediram a saída do bote, que foi virado, e teve os remos quebrados. Sentindo-se desacatado em sua autoridade, o comandante requisitou força armada para manter sua determinação.

Imediatamente seguiu para o porto um contingente de soldados do Batalhão de Segurança, sob o comando do coronel Cabral da Silveira. A baleeira, guardada pela polícia conseguiu deixar a ponte em direção ao Paquete Maranhão.

Mas no retorno, se deu o confronto: catraieiros armados de facas, pedaços de paus e achas de lenha, exaltados ao extremo, tentaram impedir o desembarque. Em resposta, os soldados abriram fogo contra os manifestantes. A fuzilaria irrompeu violenta, durou alguns minutos, suficientes para deixar um saldo de três mortos e quarenta feridos, todos trabalhadores do porto. Terminado o tiroteio, a ponte e o mar estavam vermelhos de sangue.

Naquela noite a cidade ficou em vigília, o conflito abalou a população, houve protestos em todos os setores da sociedade. No dia seguinte, uma multidão acompanhou o sepultamento dos catraieiros que morreram no confronto. Na tarde daquele mesmo dia é que se deu o desembarque dos passageiros do Maranhão, por meio de escaleres da Polícia, e da Alfândega.

vista aérea da Praia de Iracema, com a Ponte Metálica, a Ponte dos Ingleses e as marcas dos vários trapiches que funcionaram por lá. década de 50 

A greve continuou acirrada, e os jornais em longos editoriais, faziam pesadas críticas ao Capitão dos Portos que mandara fuzilar os trabalhadores em greve. Na praia, manteve-se um contingente policial durante todo o dia, com o objetivo de manter a ordem. Na Secretaria de Justiça foi instaurado rigoroso inquérito para apurar as responsabilidades.

E uma verdadeira romaria se formou na porta do Palácio do Governo, onde várias autoridades foram protestar junto ao presidente do Estado, Dr. Pedro Borges (12 de julho de 1900-12 de julho de 1904), pelo massacre dos trabalhadores do porto.
Naquele mesmo mês o Governo Federal mandou demitir o Comandante dos Portos e ordenou sua imediata saída de Fortaleza.

Alguns anos depois, o ex comandante foi assassinado com dois tiros, em plena capital federal, a porta do Clube Naval por alguém que nunca foi identificado.

fonte: 
Coisas que o Tempo Levou, de Raimundo de Menezes
fotos do Arquivo Nirez



sábado, 8 de abril de 2017

Os Flagelados da Seca e a Construção do Porto do Mucuripe


Corria o ano de 1932, e o Ceará passava por mais um ano de estiagem. O Governo Federal, através do Ministério da Viação e Obras Públicas, andava preocupado com a extensão da seca que atingia todo o Nordeste, especialmente com o Ceará, onde cerca de 90% do seu território se encontrava em situação crítica. 

antes do porto

Não chovia desde o ano anterior. Faltava tudo, alimentos, água, remédios, estradas e campos de pouso para acelerar o socorro. Sobravam homens desesperançados, vagando pelas estradas e cidades, brigando para sobreviver. Eram os flagelados. Getúlio Vargas, então presidente do brasil, autorizou o início de dezenas de obras no Nordeste.

O Ministro da Viação e Obras Públicas, José Américo de Almeida, era um paraibano extremamente identificado com os problemas da região. Foi o responsável por uma série de ações para minimizar os efeitos da seca. Dois anos antes, a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas – IFOCS – tinha definido que seu foco de atuação seria nas obras de irrigação e açudagem, sendo excluídas de sua competência a construção de ferrovias, rodovias e serviços portuários.

Homem de visão, o Ministro José Américo não costumava tomar decisões dentro do gabinete, no Rio de Janeiro. Fazia questão de acompanhar in loco, visitando as frentes de serviços, solucionando problemas na hora. Numa dessas viagens sofreu grave acidente, quando perderam a vida dois dos seus acompanhantes: Antenor Navarro, então interventor da Paraíba, e Artur Fragoso de Lima Campos.


Exatos 30 dias após o acidente, o Ministro José Américo nomeou o engenheiro paranaense Edgard de Souza Chermont, dos quadros do Departamento Nacional de Portos e Navegação para assumir interinamente a fiscalização do Porto do Mucuripe, cujas obras nem tinham sido iniciadas.

Por trás da nomeação, havia a decisão do governo de dar prosseguimento aos estudos e instalar o processo licitatório para a construção do Porto do Mucuripe, e na medida do possível, contratar flagelados para trabalhar na obra.  Em missão anterior, Chermont tinha estudado a viabilidade da transposição das águas do Rio São Francisco para irrigar áreas secas do Nordeste.


Chermont deveria, ainda, acompanhar a construção da ferrovia Fortaleza-Mucuripe, a modificação e instalação das oficinas dentre outras atribuições, como serviços de fixação das dunas do Mucuripe. O engenheiro contratou 600 flagelados que perambulavam pelas ruas de Fortaleza, os quais, com suas famílias, representavam aproximadamente 2.400 pessoas. Como sua competência abrangia todos os portos do Ceará, igual medida foi tomada em Camocim, onde contratou mais 400 flagelados, representando mais de 1.600 pessoas.

Todos os esforços empregados enfrentaram, no entanto, dificuldades quase intransponíveis, como a incapacidade física da maioria dos flagelados para execução de trabalhos pesados e o atraso no pagamento desses trabalhadores que chegou a nove meses.


A construção da ferrovia Fortaleza-Mucuripe com 6.700 metros, mais um desvio de 700 metros, iniciada em julho de 1932 e concluída em 1933 foi o primeiro passo para garantir um mínimo de sustentabilidade às obras do Porto do Mucuripe. É que não existiam opções para chegar ao porto as pedras necessárias para sua construção. A RVC preparou uma locomotiva especial para essas obras.

Os serviços de transporte para a construção dessa linha foram extremamente onerosos, não só pela grande perda de tempo verificada no percurso dos trens entre Monguba e Fortaleza, mas também pelas frequentes panes das máquinas. O percurso entre a Estação João Felipe e o Mucuripe, que geralmente levava duas horas, sempre era feito em quatro horas.


Essa linha saía da Estação Central, descia uma duna na altura do Hotel Marina, tomando o rumo da Praia de Iracema, passava em frente ao prédio da Alfândega, onde existia uma parada obrigatória para receber mercadorias e os passageiros, e daí se arrastava quase pela beira da praia até o Mucuripe.

A linha Fortaleza-Monguba (pedreira localizada em Pacatuba), passava pelas estações de Otávio Bonfim, Couto Fernandes, Parangaba, Mondubim, Pajuçara e Maracanaú, num total de 28.334 metros. Centenas de flagelados foram contratados para limpar a área da pedreira e afim de garantir o acesso e a manobra dos trens. Faziam de tudo, escavavam a terra, recolhiam as pedras pequenas, limpavam as áreas de acesso, mantinham a vigilância do lugar e pintavam as suas poucas máquinas.

Extraído do livro Caravelas, Jangadas e Navios, uma história portuária
De Rodolfo Espínola   
fotos do arquivo Nirez, IBGE e do livro citado na fonte

terça-feira, 4 de abril de 2017

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Pelas Ruas Onde Andei (Nomes Antigos de Algumas Ruas)

Praça da Sé (antigas Praça do Conselho, Largo da Matriz e Praça Caio Prado)

As principais ruas da Vila de Fortaleza partiam da praça principal – chamada de Praça do Conselho, e posteriormente, Praça da Sé. Para a direita, acompanhando a margem esquerda do Pajeú, a atual Conde D’Eu, nome adotado em 06 de abril de 1870; antes disso, teve várias denominações, como Rua de Baixo, Nova dos Mercadores, da Matriz, e do Riacho Pajeú. Desde o início da colonização, fazia ligação com a Vila de Messejana, através da Estrada de Messejana, hoje Avenida Visconde do Rio Branco, aberta em 1796.

Av. Visconde do Rio Branco, antigos Calçamento de Messejana e Estrada de Messejana

Para a esquerda a atual Avenida Alberto Nepomuceno, chamada inicialmente de Caminho da Praia, por fazer ligação com a então Praia do Peixe (atual Iracema). Em 1856 mudou a denominação para Rua da Ponte, devido a existência de uma ponte sobre o riacho Pajeú que cortava a via; em 1889 passou a ser chamada de Rua Sena Madureira. Na gestão do Prefeito Ildefonso Albano, recebeu meio-fio e arborização. A atual denominação ocorreu após o falecimento do maestro Alberto Nepomuceno em 1920.

Para o lado Leste, encontra-se a Rua São José, antiga Rua das Almas – que ligava o Centro ao Outeiro, formado pela área que ficava entre a Heráclito Graça e a Rua do Seminário e entre a margem direita do Pajeú e a fronteira leste do Colégio Militar.

Rua Governador Sampaio, inicialmente Rua do Norte, Rua Nova do Outeiro. Em 1813 a ruela mudou para Rua do Sampaio; foi a primeira a utilizar tijolos na construção das casas. A Rua Governador Sampaio reverencia o português Manoel Inácio de Sampaio, governador da Província do Ceará (1812-1820)

Lado Oeste, sempre tendo como parâmetro a Praça da Sé, temos a Rua Dr. João Moreira, inicialmente uma ruela com o nome de Travessa da Fortaleza; depois Travessa da Misericórdia. Sofreu algumas mudanças de nomes como Rua Nova da Fortaleza, Travessa do Quartel, Rua da Misericórdia e General Tibúrcio. O nome atual se refere ao médico Dr. João Moreira, médico sanitarista, que prestava serviços na Santa Casa de Misericórdia.

Rua Castro e Silva – inicialmente Travessa da Matriz; em 1859 mudou para Rua das Flores e depois Rua Manuel Bezerra. Era a rua por onde seguiam os enterros, saídos da Sé em direção ao Cemitério de São João Batista. O nome atual homenageia o médico sanitarista José Lourenço de Castro e Silva.

Rua General Bezerril – denominação de 1888. Teve vários nomes – Rua do Quartel ou da Cadeia (a Cadeia do Crime ficava nos baixos do quartel de 1ª. Linha); rua do Oitizeiro, homenagem ao Oitizeiro do Rosário que ficava atrás da igreja. José Freire Bezerril Fontenele foi governador do Ceará no período de 1892 a 1896.

Rua Floriano Peixoto – possuía três nomes: da Travessa da Fortaleza até a atual Rua São Paulo, era Rua das Belas; da São Paulo até o sul da Praça do Ferreira, Rua da Pitombeira; e depois da praça, era a Rua da Alegria. As três formaram depois a Rua da Boa Vista, mudada para Floriano Peixoto, segundo presidente do Brasil no período republicano. Nunca esteve no Ceará, e nem há registro de qualquer benefício que tenha feito ao Estado.

Rua São Paulo – homenagem ao Estado de São Paulo; inicialmente Rua das Belas, começava na Rua dos Mercadores indo até a Rua das Belas, depois foi chamada de Travessa da Tesouraria e Rua da Assembleia.

Rua Guilherme Rocha – iniciava na Rua do Quartel com o nome de Travessa Municipal. Em 1912 foi denominada Rua 24 de janeiro devido a queda do governo Accioly. Foi a que teve seu primeiro trecho transformado em rua exclusiva para pedestre, entre a Praça José de Alencar e a Praça do Ferreira. Guilherme César da Rocha, foi vereador, coronel da Guarda Nacional, presidente da Câmara Municipal, vice-presidente do Estado e Intendente Municipal de 1892 a 1912.
  

Rua Major Facundo – aberta em 1814, pelo boticário Bernardo José Teixeira com o nome de Rua Nova Del Rei. Em 1842 teve o nome modificado para Rua da Palma, no trecho que ia até a Rua Guilherme Rocha e Rua do Fogo, o trecho seguinte. Em 1888 recebeu o nome de Major Facundo em homenagem ao ilustre morador da esquina noroeste com a Rua São Paulo, barbaramente assassinado no dia 8 de dezembro de 1841. 


Rua Barão do Rio Branco – antiga Rua Formosa; nome atual em homenagem ao intelectual, jurista, político e diplomata brasileiro, José Maria da Silva Paranhos Junior.

Rua Senador Pompeu, antiga Rua D’Amélia. No início do século XIX era o limite Oeste da parte edificada da cidade. Foi chamada informalmente de Rua dos Jornais, devido ao grande número de periódicos que tinha endereço na rua. Nome atual em memória de Thomaz Pompeu de Souza Brasil, fundador do Liceu do Ceará, escritor, político e professor.

Rua General Sampaio, antiga Rua da Cadeia, teve seu nome mudado a  partir de 1900, com a instalação do monumento ao General Antônio de Sampaio, herói da Guerra do Paraguai.

Rua 24 de maio

Rua 24 de Maio – até 1857 era chamada de Rua D. Afonso, filho de Dom Pedro II; depois virou Rua do Patrocínio, devido a proximidade com a Igreja do mesmo nome; a denominação atual é uma homenagem ao dia 24 de maio de 1866, data da batalha do Tuiuti, na Guerra do Paraguai, onde muitos cearenses fizeram parte e o General Sampaio foi ferido e morto.
  
Avenida Tristão Gonçalves – inicialmente, Rua da Lagoinha, devido a existência de uma lagoa que foi aterrada que ficava nas proximidades. Mais tarde, assou a ser chamada de Rua do Trilho de Ferro, por receber a linha férrea. O nome atual homenageia Tristão Gonçalves de Alencar, filho de Bárbara de Alencar, revolucionário que participou da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador, em 1824. Foi assassinado pelas forças imperiais no interior do Ceará em 1825. 
  
Rua Pedro Pereira – antigas Travessa Amélia e São Bernardo, por passar ao lado da Igreja de São Bernardo. O nome atual presta homenagem a Pedro Pereira da Silva Guimarães, promotor público, de Fortaleza, juiz de órfãos, professor, escritor e político.

Avenida Duque de Caxias – antigo Boulevard do Livramento devido a existência da capela do Livramento onde hoje se encontra a Igreja do Carmo. Homenagem a Luís Alves de Lima e Silva, patrono do Exército Brasileiro.

Rua Meton de Alencar antiga Rua São Sebastião, por passar próxima à Capela de São Sebastião. Parte da antiga rua passou a chamar-se Rocha Lima. Meton de Alencar foi um médico cearense, que participou como voluntário na Guerra do Paraguai. Foi diretor da Santa Casa de Misericórdia por longos anos.

Rua Solon Pinheiro antigas Rua da Trindade, e Rua da Alegria. Manoel Solon Rodrigues Pinheiro foi jornalista, advogado e político. Nascido em Cachoeira, no Estado do Ceará, o município teve seu nome mudado para Solonópole, em sua homenagem em 1943.

Rua Barão de Aratanha – antiga Rua do Lago, uma referência à Lagoa do Garrote; no início do século, chamava-se rua Pero Coelho. José Francisco da Silva Albano, o barão de Aratanha era Coronel da Guarda Nacional e comerciante.

Rua Jaime Benévolo – antiga Rua do Açude – referência ao Açude Pajeú, construído na 1ª. Administração do Senador Alencar na área onde hoje se encontra o Parque Pajeú; também foi chamada de Rua da Cruz, devido a ermida existente no local no século XIX. Jaime Benévolo era Militar e professor, nascido em Maranguape em 1854.

Rua Pedro Borges – Antiga Rua do Cajueiro. Pedro Augusto Borges foi governador do Ceará entre 1900 e 1904.

Rua Pereira Filgueiras antiga Rua do Paço devido a existência do palácio do Bispo. José Pereira Filgueiras foi um dos principais revolucionários da Confederação do Equador, movimento que tinha como proposta estabelecer a República do Brasil.

Rua Costa Barros – principal acesso da Aldeota ao Centro. Antiga Rua da Aurora e Rua do Sol. Pedro José da Costa Barros nasceu em Aracati, a 7 de outubro de 1770. Para o historiador R. Batista Aragão, Costa Barros pode ser considerado como o homem das realizações inacabadas: ainda estudante, aluno do curso de engenharia da Universidade de Coimbra, foi obrigado a abandonar os estudos por motivo superior; 

Eleito deputado à Constituinte Portuguesa, deixa de seguir para Lisboa, preferindo ficar no Rio de Janeiro; eleito em 1822, deputado para a Constituinte Brasileira, foi impedido de tomar posse. Por ocasião da abertura da sessão inicial, encontra-se processado, por envolvimento em processo sobre acontecimentos no ano anterior. Absolvido, assume o cargo, e vê a Assembleia ser dissolvida pelo Imperador. Foi nomeado Ministro da Marinha, mas não exerceu o cargo; guindado ao posto de governador do  Ceará, não pode cumprir o mandado em razão de dificuldades diversas.


Avenida Almirante Tamandaré – principal acesso à Ponte Metálica, antigo porto de Fortaleza, a construção da via só foi possível graças ao desmonte de uma duna existente próximo à alfândega. Foi inaugurada em 1916 com o nome de Avenida Atlântica; em 1920 mudou para Epitácio Pessoa; em 1932, foi chamada de Avenida Três de Outubro em homenagem à revolução de 1932. Joaquim Marques Lisboa, o Almirante Tamandaré, foi um militar da Armada Imperial Brasileira que atingiu o posto de almirante. Herói nacional, é o patrono da Marinha de Guerra do Brasil e o dia de seu nascimento, 13 de dezembro, é lembrado como o Dia do Marinheiro.
Rua 25 de Março -  antigas Ruas do Outeiro e do Pajeú. O nome da via corresponde a data da libertação dos escravos no Ceará.

Rua Coronel Ferraz – travessa do Colégio, por passar ao lado do Colégio da imaculada Conceição; depois Travessa São Luís e Figueiras de Melo. Luiz Antônio Ferraz foi o primeiro governador do Ceará no período republicano (1889-1891). Antes era comandante do 11° Batalhão de Infantaria de Fortaleza.

Avenida Santos Dumont - imagem Ítalo Sales

Avenida Santos Dumont antiga Rua do Colégio (da Imaculada Conceição). A partir de 1932, quando começou a expansão da parte leste da cidade, tornou-se Avenida Santos Dumont, homenagem ao pai da aviação, Alberto Santos Dumont.


Fontes:
Caminhando por Fortaleza, de Francisco Benedito
A História do Ceará passa por esta rua, de Rogaciano Leite Filho
fotos Google, arquivo Nirez e postais antigos

segunda-feira, 27 de março de 2017

Uma Casa Chamada Boris

prédio da Casa Boris Frères, localizado na antiga Travessa da Praia 

Em 1869 foi fundada no Ceará a Casa Theodore Boris e Irmão, cujos sócios eram os franceses Alphonse e Theodore Boris, nascidos na província de Lorena. Alphonse, o mais velho, tinha chegado primeiro, de navio, procedente do Rio de Janeiro, com a missão de fazer um reconhecimento da praça. 

Em menos de um ano de funcionamento, a Casa Theodore Boris já visualizava, a partir de Fortaleza, amplas perspectivas comerciais, a partir da identificação de produtos locais com ampla aceitação na França. Depois da guerra franco-alemã, entre 1870/1871, os dois irmãos voltaram para a França cheios de ideias, quando fundaram em Paris, com outro irmão mais novo Isaie Boris, a Boris Freres.

Nessa época, Theodore retornava a Fortaleza, na companhia de outros dois irmãos, os gêmeos – Adrien e Achille, estabelecendo-se na Rua da Palma, no centro comercial de Fortaleza. Experimentando um rápido crescimento, em menos de dois anos, a empresa  já mantinha relações de comércio com as principais praças da Europa e dos Estados Unidos e possuía ramificações em quase todo o Ceará e Estados vizinhos.

No início faziam de tudo, como autênticos mascates, visitando Estados e Municípios, rua por rua, de porta em porta, vendendo tecidos, roupas , perfumarias, artigos de decoração e mobílias, material para cozinhas e, papelaria, material de escritório além de uma infinidade de outros produtos importados.


Numa etapa seguinte passaram a comercializar maquinário, cimento, carvão, madeira para obras, gêneros alimentícios, material fixo e rodante para estradas de ferro e um mundo de objetos diversos, entre os quais estruturas de ferro. A estrutura do Theatro José de Alencar, por exemplo, foi importada da Europa por essa empresa, embora esse operação de importação tenha levado quase dez anos até ser concluída. 

Paralelamente a Boris iniciou as primeiras exportações de algodão, cera de carnaúba, couros, peles, borracha, café, penas de ema, cacau, madeiras tintoriais e preciosas e sementes de oiticica. O estabelecimento, transformou-se depois na firma Boris Frères, com sede em Paris e endereço em Fortaleza na antiga Travessa da Praia, atual Rua Boris. 

Em 1878, mais um dos irmãos – Isaie Boris – veio residir no Ceará, o que deu mais prestigio, respeito e credibilidade ao estabelecimento. O nome Boris virou sinônimo de confiança, garantia de seriedade nos negócios. O espírito popular começou a chamar o Mar de Açude do Boris; qualquer impasse que surgia em determinada situação, o gracejo é que seria resolvido pelo Boris; à Justiça deram a alcunha de mãe do Boris, significando que até os tribunais eram influenciados pelos comerciantes franceses. 

máquina de prensar couro e algodão, importada e utilizada pela Casa Boris. Hoje faz parte do acervo do Museu da Indústria 

Isaie Boris tornou-se Vice-cônsul da França e elevou-se mais ainda na consideração e estima da sociedade fortalezense, do comércio e dos poderes públicos. Coordenou e foi presidente da comissão Organizadora quando da participação do Ceará na Exposição Internacional de Chicago em 1892-93, elaborando o catálogo de produtos cearenses que deveriam figurar na exposição. Com o afastamento de Isaie Boris, a firma Boris Frères passou a ser administrada em Fortaleza por Achille Boris, outro grande empreendedor.

máquina de prensar algodão, em operação na Casa Boris Frères 

A tal ponto chegou a influência e a atuação dos Boris em Fortaleza, que algumas vezes, teve a Fazenda do Estado de recorrer ao seu financiamento para atender as carências monetárias dos cofres públicos. Por conta dessa crescente ingerência da Casa Boris nos negócios e na vida da cidade, essa influência foi se acentuando, e ficou ainda maior com as viagens à Europa, de preferência à França, de várias personalidades cearenses, algumas acompanhadas das famílias, onde às vezes se demoravam meses e anos, segundo dizem, as expensas da Casa Boris. Muitos foram os cearenses que estudaram, se graduaram médicos, engenheiros na França, e casaram com damas francesas.

Isaie Boris, hoje é nome de rua em Fortaleza 

Os irmãos Boris chegaram a tal grau de integração cultural, que conheceram Padre Cícero,  acolheram o beato José Lourenço na fazenda Serra Verde em Caririaçu (depois do massacre de 1936), e receberam na mesma fazenda , a visita de Patativa do Assaré, em 1956, que os presenteou com versos improvisados , por ocasião do aniversário da esposa de um deles.


Extraído do livro
Caravelas, Jangadas e Navios, uma história portuária de Rodolfo Espínola