sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Os Primeiros Teatros: Fortaleza entra em Cena

O primeiro prédio identificado com a atividade teatral em Fortaleza, aparece em 1830, em frente à Igreja do Rosário, atual Praça General Tibúrcio. Chamava-se popularmente Teatrinho da Concórdia, embora fosse também considerada Casa de Ópera, tendo sido obra de negociantes portugueses e empregados do comércio. Depois de 12 anos, mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco com o nome de Teatro Taliense, funcionando ali até 1872. 

Praça General Tibúrcio por volta de 1900

Em 1876 aparece outro Teatro, o São José.  Instalou-se originalmente na Rua Senador Pompeu onde ficou até 1884. Seu palco era ocupado frequentemente pelas animadas comédias do grupo amador Recreio Familiar. Esse teatro foi destruído por um incêndio em 1898.

Na esquina das ruas Barão do Rio Branco com João Moreira, defronte ao Passeio Público, foi inaugurado em 1877, o Teatro de Variedades, espaço ao ar livre, em que a plateia providenciava as próprias cadeiras. Após três anos, de 1880 a 1896, no mesmo local, funcionou o mais importante de todos os teatros que antecederam o José de Alencar: o Teatro São Luís. Por ele passaram as companhias que excursionavam em direção ao Norte e faziam escala em Fortaleza, apresentando óperas, operetas, dramas e comédias. Além de espetáculos teatrais, o São Luís acolheu grandes acontecimentos, como a oratória inflamada de José do Patrocínio e a execução da ouverture de O Guarani, na presença do próprio Carlos Gomes. Fechou em 1896, devido as confusões que os alunos da escola Militar faziam a sua volta. 

Esquina das ruas Formosa (Barão do Rio Branco) com Travessa da Misericórdia (Dr. João Moreira - postal de 1905 

Por um ano, a cidade ficou sem espaço para espetáculos, mas em 1897, o Clube de Diversões Artísticas, dirigido por Papi Junior, levanta um pequeno teatro, o Iracema, na Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), num terreno pertencente ao Clube Iracema que funcionava no prédio do Reform Club. A experiência deu tão certo que, em 1898, foi criado o Grêmio Taliense de Amadores, do qual fizeram parte Ramos Cotoco e Carlos Câmara. O Taliense estabeleceu seu pequeno teatro na Rua Senador Pompeu, esquina com Liberato Barroso.

Na rua Major Facundo, fundou-se, em 8 de fevereiro de 1904, o Centro Artístico Cearense. Depois, em 28 de abril de 1912, o Centro mudaria definitivamente a sua sede para o endereço de esquina da rua Tristão Gonçalves com a Duque de Caxias, onde, em 1925, iniciaria as suas atividades com o cinema, e, em 16 de dezembro de 1931, inauguraria um palco para apresentações teatrais.

Entre 1904 e 1905 foi fundado o Clube Atlético, que era uma sociedade esportiva formada por jovens do comércio, onde além das práticas atléticas, também organizavam seus dramas e tragédias. Esse grupo criou o Teatro João Caetano, no mesmo local em que estivera o “Variedades”, do Grêmio Taliense, na rua Senador Pompeu com a Liberato Barroso. O pequeno Teatro João Caetano tinha capacidade para cerca de 400 cadeiras. Na sede, o palco se localizava em cima de um poço, por se acreditar que melhorava a acústica. O teatro, que ficava ao lado do Clube Atlético, foi destruído por um incêndio originado de um depósito de madeiras na rua Liberato Barroso, deixando a cidade sem um teatro popular, o que fez com que as companhias de teatro, quando aqui chegavam, se apresentassem no pequeno palco do cinema Rio Branco. 

Em 1910 surgiu o teatro oficial da cidade, O Theatro José de Alencar. Inaugurado oficialmente no dia 17 de junho de 1910, o José de Alencar comemorou seus 106 anos como a mais bela e a mais importante casa das Artes cênicas do Ceará, e a maior referência cultural do Estado.

O raro espécime de arquitetura eclética foi erguido entre dois outros edifícios, uma escola e um quartel de polícia. Além da sala de espetáculos, em ferro fundido e madeira importada da Europa, compunham o teatro um primeiro prédio que o guardava do contato da praça, e uma caixa de cena em tijolo e madeira, com inovações técnicas até então inusitadas para o teatro local. 

Para países não industrializados como o Brasil, assim como para as províncias como a do Ceará, onde tudo que se alcançara em matéria de progresso era o comércio exportador-importador com a Europa, ter um teatro de ferro dava a ilusão de haver entrado no pórtico da civilização. Vinha ele somar-se a uma série de outros edifícios e equipamentos urbanos que caracterizaram o período da belle époque no Ceará.

Um novo Teatro São José foi criado em 1914 como alternativa de lazer cultural para trabalhadores que não tinham acesso fácil ao luxuoso Teatro José de Alencar, inaugurado em 1910. Num terreno baldio ao lado da Igreja da Prainha, o padre alemão Guilherme Wassen, identificado com o movimento dos trabalhadores cristãos, deu início à obra com a ajuda voluntária de operários. Em um galpão com coberta de zinco eram apresentadas peças, sessões de cinema, dramas e jogos visando angariar verbas para a obra. 

 Em primeiro plano, a Igreja da Conceição da Prainha, e ao fundo, o Teatro São José

Em 1915 o Teatro São José passou a funcionar onde está hoje, na Praça Cristo Redentor, local onde se instalou também, a sede do Círculo Operário de Trabalhadores Cristãos de Fortaleza. O teatro operário conheceu muitas glórias. Peças do cearense Carlos Câmara foram quase todas encenadas lá. Companhias locais e de outros estados atraiam o público. O teatro serviu também para recepcionar visitantes ilustres como o ex-presidente Juscelino Kubitschek. 

Fortaleza ainda contou com outras salas de artes cênicas, as vezes improvisadas como teatro, a exemplo do Cinema Rio Branco, de Henrique Mesiano, e do Politeama, na Praça do Ferreira, de José Rola. 

O dia 14 de julho de 1917, marca a inauguração do Cine Teatro Majestic Palace, com a inauguração do palco e dia 20, inauguração do cinema. O Majestic foi instalado num imponente edifício de quatro andares, na Rua Major Facundo, na Praça do Ferreira. A sala de projeção que também era teatro, era toda em ferro como no Teatro José de Alencar. Tinha 650 cadeiras no térreo e nos dois andares onde ficavam os camarotes e a geral.


Entre 1919 e 1939 o autor Carlos Câmara arrastava multidões que lotavam o teatro improvisado do Grêmio Dramático Familiar, no calçamento da Messejana, atual Visconde do Rio Branco.  Na peça de estreia do autor, intitulada “A Bailarina”, há registros sobre a chegada da devastadora gripe espanhola, que veio para a cidade a bordo do vapor Ceará. Acometido da doença Carlos Câmara levou ao palco o que havia de moleque em torno da influenza. Como não acertava com o nome da doença, o populacho batizou a gripe de Bailarina.


fontes:
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão
Theatro José de Alencar: o teatro e a cidade, Terra da Luz Editorial
fotos do arquivo Nirez, e do livro Theatro José de Alencar: o teatro e a cidade 


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

No escurinho do cinema (Memórias da Fortaleza dos anos 50)

O cine São Luiz completou 50 anos no dia 26 de março de 2008. Estava com 15 anos quando o São Luiz abriu suas portas. Grande expectativa. A construção durou 20 anos. Foi interrompida por causa da guerra. A obra foi retomada em 1952 e concluída em 1958.

O cinema, criado pelo arquiteto Humberto da Justa Menescal, surgiu no coração de Fortaleza todo em mármore e com lustres tchecos iluminando a sala de espera. A imensa sala de exibição, com mil e duzentas poltronas e uma decoração exuberante, ganhou logo um apelido do “Ceará moleque”: Bolo Confeitado.


video

Fortaleza, na época com 500 mil habitantes, parou. As pessoas saíram de casa, lotaram os ônibus, foram ver a festa de inauguração. O Pedão, no Abrigo Central, nunca vendeu tanto sanduíche de carne moída e coentro com abacatada. O Pega-Pinto do Mundico teve que colocar mais água no aluá para atender tanta gente. A Leão do Sul, do seu Dimas, pai do Pedro Jorge, não parou de vender caldo de cana com pastel à noite toda. Uma Banda de Música tocava em frente ao São Luiz. A rua, fechada para os automóveis, foi ocupada por uma multidão que queria ver a chegada dos mil e duzentos convidados. Era o sereno.


Na noite de gala foi exibido o filme "Anastácia, a Princesa Esquecida". Dirigido por Anatole Litvak, tinha como estrela a sueca Ingrid Bergman. O cinófilo Jose Augusto Lopes contou, em matéria no Diário do Nordeste, que o filme mostrava a história de uma sobrevivente do massacre de 1917 contra a família do Czar russo.

A praça do Ferreira, que já era famosa pelo seu ventinho que levantava a saia das meninas, ganhava nova atração graças a Luiz Severino Ribeiro. Este filho de Baturité era dono da maior rede de cinemas do país. Só no centro de Fortaleza ele tinha o Diogo, o Majestic, e o Moderno. Acho que o Rex, Nazaré e outros mais populares também pertenciam a ele.

O Majestic era imenso. Tinha o formato de um teatro, com vários andares e geral lá em cima. A entrada para a geral, que tinha o preço mais barato, era por uma porta independente. O pessoal era obrigado a deixar os tamancos na entrada para não fazer barulho no piso de madeira. Na volta, os mais sabidos trocavam seus tamancos velhos por pares mais novos. A grande confusão que se criava só parava com a chegada da polícia. O Moderno, tinha a tela virada para a entrada. O Diogo, na Barão do Rio Branco, até então era o melhor e passou a ser o segundo da cidade depois da abertura do São Luiz.


O jornalista Lustosa da Costa tinha por habito almoçar na Loja de Variedades, aquela que tinha entradas pelas ruas Major Facundo e Barão do Rio Branco. Era o primeiro “self-service” da cidade. Depois ia cochilar no cine Diogo, que tinha mil lugares. Muita gente passou a fazer a mesma coisa no São Luiz, que tinha um sistema de ar condicionado muito mais possante.

Geralmente, nos dias da semana, à tarde, os 1.200 lugares do cinema nunca estavam ocupados. Muitos jornalistas, que naquele tempo cobriam a Assembleia Legislativa, almoçavam no restaurante do Alfredo, que ficava entre a AL e a praça do Ferreira, e depois iam fazer a sesta no cinema. Alguns deputados também aderiam ao conforto das poltronas e roncavam, embalados pela música do filme que estivesse em cartaz. 


Com o paletó no braço, gravata no bolso, eu costumava pegar o Circular 24 ou 25 da empresa São Jorge. Naquele tempo, na minha rua, só o engenheiro José Lino da Silveira, o advogado Aldy Mentor e o médico Mário Mamede tinham automóveis. O ônibus passava em frente minha casa, na Avenida Padre Ibiapina e me deixava no Abrigo Central. Lá mesmo colocava a gravata, vestia o paletó e ia, animadamente, pegar a fila. Ninguém reclama da demora. Um dia, a namorada do Chico Moura, a Norma, desmaiou na fila.

Uma amiga ainda lembra a tensão que vivia nas filas do São Luiz. Era uma coisa tão marcante que chegou a ter pesadelos. Sonhava que estava na fila, sem calcinha maliciosa. Não era difícil se ouvir o grito de uma mulher reclamando de algum engraçadinho que se aproveitava da confusão da fila para tirar casquinha. Um dia prenderam um tarado que se exibia para uma freira que enfrentava a fila para assistir Marcelino, Pão e Vinho.

O Cine São Luiz tinha algo além do conforto. As superproduções como "Trapézio", "Nunca é Tarde para Esquecer", "Sansão e Dalila", eram exibidas em tela panorâmica. O som estereofônico eletrizava o ambiente, aproximando os casais de namorados e inspirando os gaiatos que faziam piadas em voz alta para alegria da galera. Faz lembrar a Rita Lee com a sua música “No escurinho do cinema....”

A exigência de paletó fez surgir um comércio de aluguel. Os caras guardavam o paletó no Café Cearazinho, na Guilherme Rocha. Reza a lenda da Praça do Ferreira que ganharam muita grana alugando paletó para quem decidia, de última hora, ir ao cinema.
Os lanterninhas do São Luiz estavam atentos para evitar excessos. Um dia, o jornalista Silvio Leite, assim que acabou o filme, resolveu tirar o paletó, os lanterninhas chegaram junto para obrigá-lo a vestir. Silvio, irreverente, perguntou o que eles fariam se ele não colocasse o paletó.
- Você será expulso do cinema - vociferaram.
- Então, me expulsem.

Ora, como todo mundo já estava de saída mesmo, teria sido apenas cômico se os lanternas não tivessem partido para obrigar o jornalista a vestir o paletó. E ele acabou saindo, sem vestir o paletó. Não esqueço a Polícia Estadual, na entrada do cinema, pedindo documento para descobrir falso estudante pagando meia ou menor de idade tentando ver filme impróprio. Sonhava em ser um deles para me exibir para as meninas.

O progresso sempre chega acabando com o tradicional. Descentralizou o comércio. Os bairros ganharam shoppings, os shoppings abriram praças de alimentação, salas de exibição. Ao mesmo tempo, a televisão foi conquistando cada vez mais espaço e tempo das pessoas, provocando uma mudança de habito que afetou a vida das cidades.


A sessão das 21h30, nas noites de domingo, verdadeiro desfile de moda parece coisa de ficção. Há cinquenta e oito anos, homens de terno, mulheres com os últimos lançamentos da moda, usavam a fila do São Luiz como passarela, O povão, em frente, elogiando, criticando, aplaudindo e vaiando. O São Luiz faz parte do patrimônio histórico do Ceará e suas histórias estão tombadas também, em nossa memória.


Memórias de autoria do jornalista Wilson Ibiapina
Disponível em http://www.casadoceara.org.br/index.php?arquivo=pages/blog/perfil_wilson/e0508.php
fotos do arquivo Nirez e do Anuário do Ceará


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A Imprensa Partidária

Na primeira metade do século XIX os engenhos movidos a tração animal para aproveitamento da cana, oficinas com teares ou para o preparo da carne eram as atividades manufatureiras que funcionavam no Ceará. A única atividade a empregar maquinário e desenvolver uma produção regular é a composição e impressão nas tipografias.

Somente com a intensificação das relações sociais, comerciais e culturais em Fortaleza na segunda metade do século, que os jornais vão ganhar vida mais longa. A Vila, já transformada em capital da província, experimenta uma infraestrutura mais moderna. Mantém contatos com os portos estrangeiros a partir da exportação de algodão. Fomenta a circulação de ideias e supera o relativo isolamento, repercutindo no crescimento da imprensa. Os jornais de facções partidárias começam a ser impressos, seguidos de outros periódicos, panfletos, revistas e folhas literárias de jovens intelectuais.

As gazetas e revistas cumpriram destacado papel na difusão das ideias nas últimas décadas do século XIX ampliaram o número de leitores, tornaram possível o acesso a lista e extratos de obras e a divulgação de livros editados no exterior. O período fica marcado pela efervescência jornalística. Um desses jornais foi o Jornal do Ceará.

Jornal do Ceará

O Jornal do Ceará era dirigido por Agapito Jorge dos Santos, onde o poeta Américo Facó escrevia uma seção diária com o título “Olho da rua”, que intrigava a toda gente. O jornal fazia oposição ao governo de Nogueira Accioly e publicava, de vez em quando, uma famosa poesia contra o velho Accioly, que terminava assim:

“hei de açoitar-te a cara branca
Como se açoita a anca
Dum mau cavalo, para pô-lo a trote”.

O resultado disso foi terrível: ao entardecer do dia 21 de dezembro de 1907, dois soldados de polícia à paisana, deram uma violenta surra no poeta, nas imediações da praça Marquês de Herval (atual José de Alencar). Salvou-lhe talvez a vida, a interferência do Capitão do Exército Castelo Branco, morador das proximidades, que foi atraído pelos gritos. 

Após deixar o hospital, Américo Facó retirou-se para o interior; reapareceu no carnaval de 1908, em Fortaleza nas batalhas de confetes da Praça do Ferreira, usando barbas. Os estudantes que haviam se indignado com a violência oficial, estavam certos que o agredido tomaria alguma atitude, mas tiveram uma grande decepção. Facó deixou a cidade e o emprego no Jornal do Ceará, sendo substituído por Gustavo Barroso.

Depois de deposto, Nogueira Accioly (de cartola) deixa Fortaleza em um bote que o levará ao navio rumo ao Rio de Janeiro 

No dia da posse de Accioly, reeleito Presidente do Ceará, a 12 de julho de 1908, a polícia agredira cruelmente, abandonando como morto no bairro do Outeiro (atual Aldeota), o gerente do jornal do Ceará, Antônio Clementino de Oliveira. Em 1912, quando o Presidente, deposto pelo povo de Fortaleza, rumava para o Rio de Janeiro com sua família, num paquete do Loyd, o gerente do jornal foi a bordo, no porto de Natal, tentar uma desforra. Morreu no confronto mais assassinou o filho de Accioly, Antônio Pinto Nogueira Accioly Filho. Ainda assim, Nogueira Accioly chega ao Rio, onde residiu até falecer em 14 de abril de 1921.  

fontes:
O Consulado da China, de Gustavo Barroso
Revista Fortaleza - fascículo 11- jun/2006     


sábado, 30 de julho de 2016

Enterros em tempos antigos

Até 1848 aqui em Fortaleza, se faziam os sepultamentos nas igrejas ou nos seus arredores; as lápides funerárias, que antigamente podiam ser vistas nas paredes do Rosário e da demolida Igreja de São José (antiga Sé), bem como as ossadas encontradas nas reformas da Igreja do Rosário, são os atestados deste costume, que de resto, era seguido em todo o Brasil.


Padre Mororó, Pessoa Anta, Carapinima e a escrava Bonifácia, executados no Passeio Público, foram sepultados na antiga Sé, que ainda servia de cemitério em 1845.Ainda existe até hoje na Igreja do Rosário, cobertos pelo assoalho, os compartimentos regulares que serviam de sepultura, e é tradição que a esposa do presidente Morais Sarmento ali tivera um desmaio, em consequência de exalações cadavéricas.

Por esse motivo aquele presidente resolvera fundar o cemitério do Croatá, para onde passaram os enterramentos em 1848. Tal decisão foi recebida como falta de religiosidade. Os sepultamentos se faziam à noite e os convidados levavam velas acesas, protegendo-as contra o vento com lanternas de papel.  Eram lúgubres essas cerimônias noturnas, mas não tanto quanto as célebres procissões de penitentes, que desde 1850, deixaram de ser realizadas.


Local onde foi construído o Cemitério do Croata (ou São Casimiro). Depois que o cemitério foi desativado, construíram a Estação Central da Estrada de Ferro Baturité. 

Saíam alta noite, e de uma delas se contava que, ao recolher ao Rosário, alguns penitentes se deitaram no chão, em frente a porta da igreja, formando uma espécie de esteira, para que os outros, entrando no templo, os pisassem.

Os rituais que antecediam o sepultamento eram igualmente sombrios. Ministrava-se a o Sacramento ao moribundo, com um cerimonial caído em desuso por volta do final do século XIX. O Cura da Sé era chamado, e logo em seguida, os sinos da Sé começavam a tocar. A Irmandade do Santíssimo Sacramento buscava as opas encarnadas e atendia ao apelo, qualquer que fosse a hora.

A Igreja do Rosário era inicialmente o espaço dos escravos. Depois passou a ser frequentada por todos. Muitos foram sepultados no piso do templo.

À irmandade seguia-se o Cura, que debaixo de um pálio trazia os objetos próprios para a ocasião, seguido do povo, que sempre acompanhava o Santíssimo, cantava um bendito especial. O Santíssimo nunca voltava pelo mesmo caminho por onde tivesse ido visitar um moribundo, era costume.

Assim que se verificava o óbito, os sinos da Matriz tocavam a finados e a cidade inteira sabia de pronto, quem era que já estava com Deus. Os sinos pelos falecidos foram abolidos em 1878, para que não se afligisse mais a população, já torturada por tanta seca, tanta epidemia e tantas mortes.

O velório era em casa, geralmente na sala principal, sem o aparato de funerárias. Marcava-se a porta do morto com um largo pano preto, que tinha ao centro uma grande cruz amarela; os convites para o enterro que se adquiriam na Livraria Oliveira eram impressos em larga folha de papel tarjado com figuras e dizeres de acordo com a situação. Em baixo da página via-se um cemitério e uma sepultura com o texto – aqui jaz – e ao lado, um homem e uma mulher ajoelhados.

Os enterros eram verdadeiras procissões, que se estendiam por mais de um quarteirão. Abria o cortejo uma cruz negra com franjas douradas; as Irmandades marchavam em longas filas, solene e silenciosamente. Precedido pelo pároco da Sé, vinha o féretro, levado por quatro empregados da Misericórdia, vestidos de preto, com cartolas de oleado reluzente, casacas e calças debruadas de amarelo.

O caixão era colocado sobre duas travessas, cujas pontas repousavam sobre largas correias, que os condutores traziam a tiracolo. Eram estes os “gatos pingados”, pobres homens ridicularizados que, aliás prestavam um grande serviço aos vivos e mortos, posto que não era pequeno o esforço de percorrer dois ou mais quilômetros em marcha lenta, carregando peso, vestidos como iam, e as vezes, sob um sol escaldante. (Depois da inauguração do cemitério, os sepultamentos passaram a ser feitos durante o dia).


O Cemitério de São João Batista foi inaugurado em 1866, mesmo inacabado (seria concluído em 1880), para ali sendo removidos alguns mortos do Croatá. (foto Diário do Nordeste)

Vestidos de luto, parentes e amigos acompanhavam; se fosse pessoa de posses ou a posição social do morto permitisse, uma banda de música acompanhava o cortejo, o qual ao se aproximar da Sé, era recebido com sinos sobrados ou singelos.  Até a catedral todos iam descobertos, mas daí até o cemitério, todos se cobriam porque o corpo já estava encomendado.

Após o percurso de 1300 metros, pela Rua das Flores (atual Castro e Silva), ali se chegava esbaforido, mas de tal caminhada ninguém se queixava, dado o sentimento da ocasião. Na verdade, era um sacrifício para um homem, ir da matriz ao cemitério, vestido de preto, sol das 4 horas pela frente, sobre um péssimo calçamento.


O cortejo saía da Igreja da Sé, percorria a Rua das Flores a pé, por cerca de 1300 metros até a entrada do Cemitério de São João Batista.

As visitas de pêsames eram uma tortura, especialmente para as viúvas que, em exposição nas suas salas, tinham que repetir exaustivamente aos visitantes, o histórico da doença e como se deu o desenlace. 

Os alunos do Seminário da Prainha acompanhavam os enterros dos padres, e numerosos soldados com suas espingardas de boca para baixo, seguiam, compassadamente, os enterros de oficiais ou de seus companheiros de farda.

Em contrapartida a toda essa liturgia dos adultos, eram alegres e risonhos os enterros de anjinhos; os sinos da Sé repicavam festivamente e a família do anjinho convidava quantos meninos pudessem para acompanhar a saída. Não havia encomendação do corpo; saiam direto para o cemitério, num alegre bando, não raro acompanhado por músicos que tocavam, durante o trajeto algumas peças alegres.


Em “A Normalista” de Adolfo Caminha, o autor descreve o enterro do presidente do Estado, personagem inspirado no governador Antônio Caio da Silva Prado, nomeado presidente da província do Ceará por carta imperial de 25 de março de 1888. Nascido em São Paulo, de família rica e tradicional, irmão do renomado escritor Eduardo Prado, foi educado na Europa, cursou Engenharia na França e formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo. Caio Prado assumiu o governo do Ceará em 21 de abril de 1888, cercado de admiradores e elogios de simpatizantes. No entanto, ao tomar posse no cargo, revelou todo o seu despreparo e desconhecimento de como lidar com os problemas que assolavam o Ceará, e com os quais nunca convivera.
No seu governo, o Ceará enfrentava mais um período de secas, e para completar a tragédia da falta de chuvas, proliferou-se uma violenta epidemia de febre amarela, agravando o quadro de miséria para milhares de pessoas. Com a epidemia instalada no Estado, o próprio presidente foi uma das vítimas; acometido da doença, faleceu em 25 de maio de 1889. Caio Prado foi sepultado no Cemitério de São João Batista. 

Governador Caio Prado em tela de Pedro Américo (1889) acervo do MASP.


“ O enterro do presidente passava na esquina, caminho do cemitério. Maria do Carmo assistia com a respiração suspensa e um nó na garganta o desfilar do préstito, o caixão levado por seis homens de preto, cobertos de galões dourados, debaixo da chuva miúda, o acompanhamento – uma comparsaria dispersa de gente de todas as classes de chapéu-de-chuva aberto, marchando resignadamente ao som da música do batalhão, que tocava à funeral.Os padres já tinham passado, na frente com seus acólitos, muito graves, olhando para o chão evitando as poças d’água. Um carro seguia atrás, todo fechado, devagar. E a chuva a cair e a música a tocar o funeral, deixando por onde passava uma tristeza vaga, que lembrava um dia de finados entre sepulturas...." (Pag.115/116).


Fontes:
Fortaleza Velha, de João Nogueira
A Normalista, de Adolfo Caminha
fotos arquivo Nirez, wikipedia, DN

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A Vida Cotidiana na Vila de Fortaleza

Nos seus primórdios Fortaleza era uma terra afastada do reino, vista com reservas pelos homens de maior poder econômico. Um lugar inóspito, sujeito a reveses climáticos, como as secas periódicas e onde os colonos estavam expostos aos ataques de índios ostensivamente hostis aos portugueses. 

Barra do Ceará - desenho de Franz Post, 1645 

O período anterior à emancipação da vila, permite elucidar não somente o lento processo de ocupação dessas terras, como também os desafios enfrentados nas paragens distantes da colônia portuguesa. Amplo espaço, população rarefeita, fauna e flora desconhecidas, extrema sujeição ás intempéries, dificuldade de transporte, comunicação incerta e morosa com os principais núcleos da administração colonial, são alguns dos aspectos que marcaram as condições em que viviam os contingentes que vieram à Capitania do Ceará nos séculos XVII e XVIII.

O cotidiano daqueles primeiros colonos, em sua maioria soldados da guarnição, era marcado pela rusticidade do meio, a instabilidade dos assentamentos e a dura obtenção da subsistência. Além da caça e da pesca e coleta de frutas, os pioneiros plantavam roçados de milho e feijão, criavam animais de pequeno porte e aprendiam com os nativos o emprego de certos recursos da natureza tropical, notadamente ervas medicinais, buscando fazer frente a enfermidades, venenos e peçonhas, desconhecidas em terras europeias.

Nas modestas casas de farinha e nos engenhos se beneficiava a mandioca e a exígua cana-de-açúcar era usada no fabrico de rapadura, que em 1783 o governador Montauri,(João Baptista de Azevedo Coutinho de Montauri/1780-1789),  pouco afeito as iguarias locais, descreveria como “uns pães de um açúcar muito mascavado e de ínfima qualidade, mais para incitar o nojo, que de servir ao paladar”. 

As habitações eram em sua maioria, de chão batido, feitas de taipa e cobertas de palha, com madeiramento extraído da carnaúba, atestando a grande simplicidade do padrão das construções e a falta de acesso a materiais duradouros, como pedra, telha e tijolo.

A vila era um lugar pobre. No século XVIII um viajante mais desavisado encontraria dificuldades para pisar na nossa Vila. Se viesse por mar, que era o mais comum, teria que encarar as dificuldades imediatas do porto de desembarque, à época, localizado na Prainha. A embarcação ancorava a uma distância considerável, depois o viajante descia para um paquete menor que o conduzia para o mais próximo possível da praia. Então, vinham dois escravos altos e fortes, com uma cadeira sobre os ombros; o viajante sentava na cadeira e era transportado pelos cativos, desviando das ondas mais rebeldes.

Praia de Iracema - final do séc. XIX

Para alcançar a parte alta da Vila, onde ficava a fortaleza e as principais construções, o viajante tinha que subir por um caminho arenoso – já que a vila ainda não era pavimentada – com fortes ventos e sol escaldante. E chegando no alto, iria encontrar construções toscas, com alguns prédios em pedra-e-cal. Quase não existiam calçadas, as ruas eram arenosas, e constantemente entrecortadas por carros de boi, que traziam produtos para serem vendidos em Recife.

Caso fosse convidado para entrar em uma casa, o viajante se depararia com uma mobília escassa, com muitas redes amarradas e poucas cadeiras para sentar. À noite a escuridão era companheira inseparável daqueles que se aventuravam pelas ruas, pois não existia qualquer tipo de iluminação pública. As casas, quando necessário, costumavam ter seus poucos aposentos iluminados por velas de sebo ou candeeiros de óleo de peixe, o que não tornava o odor agradável.

Em 1695, o povoado do forte contava com mais ou menos duzentos habitantes, subjugados à vontade suprema do capitão-mor e desassistidos do alcance efetivo da lei. Tal era o predomínio do arbítrio, do abuso da força, o imperativo da autoridade, que na Carta Régia de 1699, mandando erguer uma vila no Ceará, era salientado o propósito de controlar os abusos cometidos pelas autoridades e administrar melhor a justiça. Após uma série de disputas, a vila foi instalada em Aquiraz. Mesmo quando Fortaleza recebeu igual honraria, em 1726, manteve-se o aspecto de abandono e pobreza que lhe caracterizava. Em tudo pairava um certo ar de desolação, isolamento e senso de contingência ante as adversidades do ambiente. Compondo um traço fundante dessa colonização, a violência era o instrumento usual de resolução dos conflitos e sujeição do povo.

Rua Sobral

Na precariedade material que saltava a vista, com arruamentos grosseiros, casario modesto, mobiliário parco, padrão técnico rudimentar, carência de estradas e pontes, um forte em ruínas – se colhiam indícios de um modo de vida permeado pela improvisação e acomodações provisórias. Como se as coisas e os espaços fossem feitos para não durar além de duas ou três gerações, transmitindo aquela impressão de fragilidade constitutiva que emanava dos núcleos estabelecidos nas bordas do empreendimento colonizador.


Extraído dos artigos
Entre a Reta e o Círculo, de Antônio Luiz Macêdo e Silva Filho
O Encontro marcado com o Tempo, de Antônio Otaviano Vieira Filho
     Publicados na Revista Fortaleza, fascículo 14, de 13 de abril de 2006 
fotos (arquivo Nirez) meramente ilustrativas