domingo, 4 de novembro de 2018

Tangerine-Girl (Um Conto de Rachel de Queiroz)


imagem do livro Caravelas, jangadas e Navios de Rodolfo Espínola
De princípio a interessou o nome da aeronave: não “zepelim” nem dirigível, ou qualquer outra coisa antiquada; o grande fuso de metal brilhante chamava-se modernissimamente blimp. Pequeno como um brinquedo, independente, amável. A algumas centenas de metros da sua casa ficava a base aérea dos soldados americanos e o poste de amarração dos dirigíveis. E de vez em quando eles deixavam o poste e davam uma volta, como pássaros mansos que abandonassem o poleiro num ensaio de vôo. Assim, de começo, aos olhos da menina, o blimp existia como uma coisa em si — como um animal de vida própria; fascinava-a como prodígio mecânico que era, e principalmente ela o achava lindo, todo feito de prata, igual a uma jóia, librando-se majestosamente pouco abaixo das nuvens. Tinha coisas de ídolo, evocava-lhe um pouco o gênio escravo de Aladim. Não pensara nunca em entrar nele; não pensara sequer que pudesse alguém andar dentro dele. Ninguém pensa em cavalgar uma águia, nadar nas costas de um golfinho; e, no entanto, o olhar fascinado acompanha tanto quanto pode águia e golfinho, numa admiração gratuita — pois parece que é mesmo uma das virtudes da beleza essa renúncia de nós próprios que nos impõe, em troca de sua contemplação pura e simples. 

Os olhos da menina prendiam-se, portanto, ao blimp sem nenhum desejo particular, sem a sombra de uma reivindicação. Verdade que via lá dentro umas cabecinhas espiando, mas tão minúsculas que não davam impressão de realidade — faziam parte da pintura, eram elemento decorativo, obrigatório como as grandes letras negras U. S. Navy gravadas no bojo de prata. Ou talvez lembrassem aqueles perfis recortados em folha que fazem de chofer nos automóveis de brinquedo.

O seu primeiro contato com a tripulação do dirigível começou de maneira puramente ocasional. Acabara o café da manhã; a menina tirara a mesa e fora à porta que dá para o laranjal, sacudir da toalha as migalhas de pão. Lá de cima um tripulante avistou aquele pano branco tremulando entre as árvores espalhadas e a areia, e o seu coração solitário comoveu-se. Vivia naquela base como um frade no seu convento — sozinho entre soldados e exortações patrióticas. E ali estava, juntinho ao oitão da casa de telhado vermelho, sacudindo um pano entre a mancha verde das laranjeiras, uma mocinha de cabelo ruivo. O marinheiro agitou-se todo com aquele adeus. Várias vezes já sobrevoara aquela casa, vira gente embaixo entrando e saindo; e pensara quão distantes uns dos outros vivem os homens, quão indiferentes passam entre si, cada um trancado na sua vida. Ele estava voando por cima das pessoas, vendo-as, espiando-as, e, se algumas erguiam os olhos, nenhuma pensava no navegador que ia dentro; queriam só ver a beleza prateada vogando pelo céu.

Mas agora aquela menina tinha para ele um pensamento, agitava no ar um pano, como uma bandeira; decerto era bonita — o sol lhe tirava fulgurações de fogo do cabelo, e a silhueta esguia se recortava claramente no fundo verde-e-areia. Seu coração atirou-se para a menina num grande impulso agradecido; debruçou-se à janela, agitou os braços, gritou: “Amigo!, amigo!”— embora soubesse que o vento, a distância, o ruído do motor não deixariam ouvir-se nada. Ficou incerto se ela lhe vira os gestos e quis lhe corresponder de modo mais tangível. Gostaria de lhe atirar uma flor, uma oferenda. Mas que podia haver dentro de um dirigível da Marinha que servisse para ser oferecido a uma pequena? O objeto mais delicado que encontrou foi uma grande caneca de louça branca, pesada como uma bala de canhão, na qual em breve lhe iriam servir o café. E foi aquela caneca que o navegante atirou; atirou, não: deixou cair a uma distância prudente da figurinha iluminada, lá embaixo; deixou-a cair num gesto delicado, procurando abrandar a força da gravidade, a fim de que o objeto não chegasse sibilante como um projétil, mas suavemente, como uma dádiva.

A menina que sacudia a toalha erguera realmente os olhos ao ouvir o motor do blimp. Viu os braços do rapaz se agitarem lá em cima. Depois viu aquela coisa branca fender o ar e cair na areia; teve um susto, pensou numa brincadeira de mau gosto — uma pilhéria rude de soldado estrangeiro. Mas quando viu a caneca branca pousada no chão, intacta, teve uma confusa intuição do impulso que a mandara; apanhou-a, leu gravadas no fundo as mesmas letras que havia no corpo do dirigível: U. S. Navy. Enquanto isso, o blimp, em lugar de ir para longe, dava mais uma volta lenta sobre a casa e o pomar. Então a mocinha tornou a erguer os olhos e, deliberadamente dessa vez, acenou com a toalha, sorrindo e agitando a cabeça. O blimp fez mais duas voltas e lentamente se afastou — e a menina teve a impressão de que ele levava saudades. Lá de cima, o tripulante pensava também — não em saudades, que ele não sabia português, mas em qualquer coisa pungente e doce, porque, apesar de não falar nossa língua, soldado americano também tem coração.

Foi assim que se estabeleceu aquele rito matinal. Diariamente passava o blimp e diariamente a menina o esperava; não mais levou a toalha branca, e às vezes nem sequer agitava os braços: deixava-se estar imóvel, mancha clara na terra banhada de sol. Era uma espécie de namoro de gavião com gazela: ele, fero soldado cortando os ares; ela, pequena, medrosa, lá embaixo, vendo-o passar com os olhos fascinados. Já agora, os presentes, trazidos de propósito da base, não eram mais a grosseira caneca improvisada; caíam do céu números da Life e da Time, um gorro de marinheiro e, certo dia, o tripulante tirou do bolso o seu lenço de seda vegetal perfumado com essência sintética de violetas. O lenço abriu-se no ar e veio voando como um papagaio de papel; ficou preso afinal nos ramos de um cajueiro, e muito trabalho custou à pequena arrancá-lo de lá com a vara de apanhar cajus; assim mesmo ainda o rasgou um pouco, bem no meio.

Mas de todos os presentes o que mais lhe agradava era ainda o primeiro: a pesada caneca de pó de pedra. Pusera-a no seu quarto, em cima da banca de escrever. A princípio cuidara em usá-la na mesa, às refeições, mas se arreceou da zombaria dos irmãos. Ficou guardando nela os lápis e canetas. Um dia teve ideia melhor e a caneca de louça passou a servir de vaso de flores. Um galho de manacá, um bogari, um jasmim-do-cabo, uma rosa menina, pois no jardim rústico da casa de campo não havia rosas importantes nem flores caras.

Pôs-se a estudar com mais afinco o seu livro de conversação inglesa; quando ia ao cinema, prestava uma atenção intensa aos diálogos, a fim de lhes apanhar não só o sentido, mas a pronúncia. Emprestava ao seu marinheiro as figuras de todos os galãs que via na tela, e sucessivamente ele era Clark Gable, Robert Taylor ou Cary Grant. Ou era louro feito um mocinho que morria numa batalha naval do Pacífico, cujo nome a fita não dava; chegava até a ser, às vezes, careteiro e risonho como Red Skelton. Porque ela era um pouco míope, mal o vislumbrava, olhando-o do chão: via um recorte de cabeça, uns braços se agitando; e, conforme a direção dos raios do sol, parecia-lhe que ele tinha o cabelo louro ou escuro.

Não lhe ocorria que não pudesse ser sempre o mesmo marinheiro. E, na verdade, os tripulantes se revezariam diariamente: uns ficavam de folga e iam passear na cidade com as pequenas que por lá arranjavam; outros iam embora de vez para a África, para a Itália. No posto de dirigíveis criava-se aquela tradição da menina do laranjal. Os marinheiros puseram-lhe o apelido de “Tangerine-Girl”. Talvez por causa do filme de Dorothy Lamour, pois Dorothy Lamour é, para todas as forças armadas norte-americanas, o modelo do que devem ser as moças morenas da América do Sul e das ilhas do Pacífico. Talvez porque ela os esperava sempre entre as laranjeiras. E talvez porque o cabelo ruivo da pequena, quando brilhava à luz da manhã, tinha um brilho acobreado de tangerina madura. Um a um, sucessivamente, como um bem de todos, partilhavam eles o namoro com a garota Tangerine. O piloto da aeronave dava voltas, obediente, voando o mais baixo que lhe permitiam os regulamentos, enquanto o outro, da janelinha, olhava e dava adeus.

Não sei por que custou tanto a ocorrer aos rapazes a ideia de atirar um bilhete. Talvez pensassem que ela não os entenderia. Já fazia mais de um mês que sobrevoavam a casa, quando afinal o primeiro bilhete caiu; fora escrito sobre uma cara rosada de rapariga na capa de uma revista: laboriosamente, em letras de imprensa, com os rudimentos de português que haviam aprendido da boca das pequenas, na cidade: “Dear Tangerine-Girl. Please você vem hoje (today) base X. Dancing, show. Oito horas P.M.” E no outro ângulo da revista, em enormes letras, o “Amigo”, que é a palavra de passe dos americanos entre nós.

A pequena não atinou bem com aquele “Tangerine-Girl”. Seria ela? Sim, decerto… e aceitou o apelido, como uma lisonja. Depois pensou que as duas letras, do fim: “P.M.”, seriam uma assinatura. Peter, Paul, ou Patsy, como o ajudante de Nick Carter? Mas uma lembrança de estudo lhe ocorreu: consultou as páginas finais do dicionário, que tratam de abreviaturas, e verificou, levemente decepcionada, que aquelas letras queriam dizer “a hora depois do meio-dia”.

Não pudera acenar uma resposta porque só vira o bilhete ao abrir a revista, depois que o blimp se afastou. E estimou que assim o fosse: sentia-se tremendamente assustada e tímida ante aquela primeira aproximação com o seu aeronauta. Hoje veria se ele era alto e belo, louro ou moreno. Pensou em se esconder por trás das colunas do portão, para o ver chegar – e não lhe falar nada. Ou talvez tivesse coragem maior e desse a ele a sua mão; juntos caminhariam até a base, depois dançariam um fox langoroso, ele lhe faria ao ouvido declarações de amor em inglês, encostando a face queimada de sol ao seu cabelo. Não pensou se o pessoal de casa lhe deixaria aceitar o convite. Tudo se ia passando como num sonho — e como num sonho se resolveria, sem lutas nem empecilhos.

Muito antes do escurecer, já estava penteada, vestida. Seu coração batia, batia inseguro, a cabeça doía um pouco, o rosto estava em brasas. Resolveu não mostrar o convite a ninguém; não iria ao show; não dançaria, conversaria um pouco com ele no portão. Ensaiava frases em inglês e preparava o ouvido para as doces palavras na língua estranha. Às sete horas ligou o rádio e ficou escutando languidamente o programa de swings. Um irmão passou, fez troça do vestido bonito, naquela hora, e ela nem o ouviu. Às sete e meia já estava na varanda, com o olho no portão e na estrada. Às dez para as oito, noite fechada já há muito, acendeu a pequena lâmpada que alumiava o portão e saiu para o jardim. E às oito em ponto ouviu risadas e tropel de passos na estrada, aproximando-se.

Com um recuo assustado verificou que não vinha apenas o seu marinheiro enamorado, mas um bando ruidoso deles. Viu-os aproximarem-se, trêmula. Eles a avistaram, cercaram o portão — até parecia manobra militar —, tiraram os gorros e foram se apresentando numa algazarra jovial.

E, de repente, mal lhes foi ouvindo os nomes, correndo os olhos pelas caras imberbes, pelo sorriso esportivo e juvenil dos rapazes, fitando-os de um em um, procurando entre eles o seu príncipe sonhado — ela compreendeu tudo. Não existia o seu marinheiro apaixonado — nunca fora ele mais do que um mito do seu coração. Jamais houvera um único, jamais “ele” fora o mesmo. Talvez nem sequer o próprio blimp fosse o mesmo…

Que vergonha, meu Deus! Dera adeus a tanta gente; traída por uma aparência enganosa, mandara diariamente a tantos rapazes diversos as mais doces mensagens do seu coração, e no sorriso deles, nas palavras cordiais que dirigiam à namorada coletiva, à pequena Tangerine-Girl, que já era uma instituição da base — só viu escárnio, familiaridade insolente… Decerto pensavam que ela era também uma dessas pequenas que namoram os marinheiros de passagem, quem quer que seja… decerto pensavam… Meu Deus do Céu!

Os moços, por causa da meia-escuridão, ou porque não cuidavam naquelas nuanças psicológicas, não atentaram na expressão de mágoa e susto que confrangia o rostinho redondo da amiguinha. E, quando um deles, curvando-se, lhe ofereceu o braço, viu-a com surpresa recuar, balbuciando timidamente:
— Desculpem… houve engano… um engano…

E os rapazes compreenderam ainda menos quando a viram fugir, a princípio lentamente, depois numa carreira cega. Nem desconfiaram que ela fugira a trancar-se no quarto e, mordendo o travesseiro, chorou as lágrimas mais amargas e mais quentes que tinha nos olhos.

Nunca mais a viram no laranjal; embora insistissem em atirar presentes, viam que eles ficavam no chão, esquecidos — ou às vezes eram apanhados pelos moleques do sítio.

Considerado um dos cem melhores contos brasileiros do século. Extraído do livro “O melhor da crônica brasileira”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1997.


Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, no dia 17 de novembro de 1910. Filha de intelectuais, do advogado Daniel de Queiroz Lima e de Clotilde Franklin de Queiroz, era descendente, pelo lado materno, da família Alencar (sua bisavó materna era prima José de Alencar).

Com apenas 7 anos sua família muda-se para o Rio de Janeiro e depois para Belém do Pará. Depois de dois anos retornam ao Ceará e Rachel torna-se aluna interna do Colégio da Imaculada Conceição, formando-se professora em 1925, aos 15 anos de idade.

Lecionou História aos 20 anos, em 1930, publica seu primeiro romance, “O Quinze”. Nessa obra, a escritora retrata a seca de 1915 no nordeste do país e a realidade dos retirantes nordestinos. A obra bem recebida pelo público, “O Quinze”, foi agraciada com o prêmio da Fundação Graça Aranha.

Em 1927, após uma publicação com o pseudônimo “Rita de Queiroz” no Jornal do Ceará, Rachel é convidada para colaborar nesse jornal. Nele, começa a publicar diversas crônicas e a trabalhar como repórter. Foi militante política e afiliada ao Partido Comunista Brasileiro desde 1930.

Em 1932, casa-se com o poeta José Auto da Cruz Oliveira, separando-se em 1939. No ano seguinte, casa-se novamente com o médico Oyama de Macedo, com quem permanece até seu falecimento, em 1982. Em 1992, escreveu o romance “Memorial de Maria Moura”, o qual lhe conferiu o "Prêmio Camões".
Faleceu aos 92 anos, no dia 4 de novembro de 2003, na cidade do Rio de Janeiro, enquanto descansava em sua rede. 


quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A Praia do Futuro do Passado e do Presente


A única forma de chegar àquele local até meados dos anos 50, era de jipe. Todos os dias o engenheiro Waldir Diogo de Siqueira, fundador da FIEC (Federação das Indústrias do Estado do Ceará), subia no veículo com capota de lona e desbravava as dunas que davam acesso à faixa de litoral que, mais tarde ficaria conhecida por Praia do Futuro.

Lançamento do loteamento na Praia do Futuro: na foto, José Coelho Guimarães, Murilo Mota, governador Faustino Albuquerque (de roupa escura), Waldir Diogo Vital de Siqueira, Adahil Barreto e Paulo Cabral de Araújo - abril de 1950 (foto Arquivo Nirez). 


Em princípio, o interesse comercial naquelas terras do chamado Sitio Cocó, de propriedade do industrial Antônio Diogo – pai de Waldir Diogo – resumia-se a extração do sal marinho e à criação de gado para salga da carne, com vistas à exportação pelo Porto do Mucuripe.

Por isso, quando Waldir Diogo resolveu lançar um loteamento no local, em abril de 1950, foi difícil encontrar compradores. O acesso à ampla faixa de terra loteada que se estendia por 7 quilômetros de costa, do Farol do Mucuripe à foz do Rio Cocó, exigia dos eventuais interessados uma boa dose de espírito aventureiro.

terrenos demarcados na Praia do Futuro: os lotes mediam 20x40 metros. Postal dos anos 70


Para nivelar o terreno e dar uniformidade aos lotes, Waldir Diogo recorreu a maquinário pesado, aplainando uma série de dunas naturais. Em meados da década de 1960, surgiram ali, ainda timidamente, os primeiros estabelecimentos de lazer: o restaurante Chez Pierre e o Fortune Drive-in, precursores das atuais barracas.

Em 1973, quando a Praia do Futuro continuava sendo um local ermo e distante, o engenheiro civil Cornélio Diógenes resolveu fazer ali um novo loteamento. Negociou uma gleba de 12 hectares com a família Diogo. Apressou-se em dotar o terreno de água, calçamento e energia. Construiu dez casas, a fim de definir o padrão do loteamento, batizado com o nome de “Vereda Atlântica”.

Loteamento Vereda Atlântica, o primeiro residencial localizado na Praia do Futuro, construído na década de 1970 - foto O Povo - 1977


Em 1975 o engenheiro foi um dos primeiros a se mudar com a família para “aquele fim de mundo”, como definiam os amigos escandalizados com sua decisão. Cornélio, que em 1978 faria o loteamento Lago Jacarey, morou durante 7 anos no Vereda Atlântica, de onde saiu por questões pessoais; avalia que “A Praia do Futuro continua sendo a praia do futuro”. Hoje acredita que tomaria decisões diferentes: “ – é uma trabalheira fazer um loteamento. Se fosse agora não faria nenhum dos dois. No caso do Vereda procurei preservar, mas tive que mexer com as dunas. No Jacarey o problema foi o lago, cavamos para aprofundar ao mesmo tempo que aterramos uma parte do entorno. Na época nós não tínhamos tanta consciência ambiental, reconhece.”

Logo depois do Vereda, o ex deputado Jeová Costa Lima fez outro grande loteamento, por trás da Igreja Nossa Senhora de Lourdes, indo da Avenida Trajano de Medeiros à Dolor Barreira.


O loteamento do ex deputado, todo construído no alto de dunas remanescentes, vendeu bastante, e com o passar do tempo acabou se transformando num novo bairro: Lourdes (ou Dunas), apartado da Praia do Futuro. Foto de 2012 - Fortaleza em Fotos


Com a ampliação da Santos Dumont, em 1976, estabeleceram-se dois tipos de fluxos simultâneos para o local. A população de baixa renda residente nas adjacências do Farol, iniciou um processo de migração para a Praia do Futuro, fixando-se no Vicente Pinzon e em outras regiões circunvizinhas. As classes média e alta também se sentiram atraídas pela nova faixa de praia virgem aberta pela expansão imobiliária, a partir da conclusão da Avenida Zezé Diogo, em 1984, e pela urbanização do calçadão, em 1993.

Avenida Dioguinho, construída em 1969, reformada e melhorada nos anos 70. E uma Praia do Futuro quase vazia - Foto Anuário do Ceará
  

Contudo, o projeto de tornar a Praia do Futuro uma versão cearense da Barra da Tijuca – bairro de classe alta do Rio de Janeiro, caracterizado pela presença de mansões e condomínios de luxo – esbarrou na salinidade típica da área. A chamada “maresia”, que corrói estruturas metálicas, eletrodomésticos e automóveis, foi um empecilho à efetiva consolidação do uso residencial do local. Segundo especialistas, a ausência de arborização, só agravou o problema.

A despeito do notório revés, a zona das dunas remanescentes foi ocupada por residências de alto padrão. E o trecho de praia após o cruzamento da Zezé Diogo com a Avenida Santos Dumont, apesar da polêmica sobre a pertinência e a legalidade da instalação das tradicionais barracas de praia (na verdade, grandes complexos de lazer com playgrounds, restaurantes, piscinas, chuveiros, lojas, banheiros e gramados), firmou-se como área de recreação preferencial da cidade.

Interior de uma barraca na Praia do Futuro - Fortaleza em Fotos
panorâmica da Praia do Futuro - foto Diário do Nordeste


Há anos uma disputa judicial remexe as areias de tais complexos, que oferecem infraestrutura, mas limitam a circulação democrática, impondo uma ocupação elitista ao espaço que deveria ser de livre acesso. Em sua defesa, os donos dos empreendimentos apontam a atração de turistas, os empregos gerados e a oferta de opção segura de lazer – que já faz parte da cidade de Fortaleza.

Em 2005 o Ministério Público Federal moveu uma ação tratando de irregularidades graves cometidas pelos empresários – apropriação clandestina de trechos da praia, ocupação de áreas que excedem os limites determinados e instalação de obstáculos para banhistas que não são clientes. Na época, o MPF recomendou que 60 barracas abandonadas ou em precárias condições fossem demolidas, enquanto a Advocacia Geral da União (AGU) definiu todos os 154 equipamentos como irregulares, pedindo a limpeza da área.

ruínas à venda - foto Fortaleza em Fotos

De lá para cá, debates, campanhas e mobilizações se sucederam, até que, em 6 de agosto de 2013, o Tribunal Regional Federal da 5ª. Região decidiu que os obstáculos de acesso a praia devem ser retirados, mas as barracas podem permanecer onde estão, já que não foram construídas na área de praia, mas na chamada berma (pós praia).  Como parte da defesa, foi invocada a “Lei de Mercado”, sob alegação que, se o negócio imobiliário não pode desenvolver-se a contento, a vocação turística se impôs com vigor na Praia do Futuro.


Extraído do livro 
História Urbana e Imobiliária de Fortaleza
de Lira Neto
  

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A Origem da Água Potável em Fortaleza

Em 1904, 0 sanitarista Rodolfo Teófilo denunciava: a cidade era abastecida por fontes de procedência duvidosa, onde burricos e carregadores atentavam contra higiene pública.




É difícil encontrar-se uma cidade mais infestada de pedintes do que Fortaleza. A razão da estupenda mendicidade está nas secas. Cada flagelo que passa, deixa na Capital algumas centenas de inválidos, a aumentar a cifra já bastante crescida de inúteis. Recordo-me perfeitamente de Fortaleza antes de 1877. Havia pedintes a esmolar pelas ruas. Eram poucos, então.

Hoje, nos dias de sábado, vê-se uma procissão de esmoleres, rua abaixo e rua acima, e tão crescida que espanta. A falta de brio da arraia miúda em Fortaleza, chegou ao ponto de santificarem o sábado. Reservam este dia para as esmolas... As lavadeiras, por exemplo, não trabalham nos sábados, pedem esmolas. Posso afirmar isso de visu porquanto as lavadeiras são poços à flor da terra disseminados pelas areias de Fortaleza, e todas as vezes que por eles passei no mencionado dia, não vi uma lavadeira sequer.

É de buracos também nessa área suburbana que a população da Capital se abastece de água. Sabia que a água que se bebe em Fortaleza vinha das areias, mas nunca imaginei que fosse tirada de semelhantes fontes. Fiquei escandalizado quando vi um desses pequeninos pântanos, abertos naquela areia sáfara, exposta totalmente ao sol, cercado de aguadeiros e seus burricos.

E como é colhida a água? O animal, ordinariamente um jumento, é levado para a beira do poço, e enquanto ele se farta de água, se lhe enchem os canecos (barris de madeira). O focinho do animal lavado ali, causa menos nojo e é menos repugnante do que as cabeludas pernas dos aguadeiros que às vezes na fonte entram até meia canela. Porcos por índole e por educação, mui naturalmente pisam na água e nela lavam o rosto e depois levam-na a vender aos habitantes da capital, que imprevidentes como o aborígene, deixam de construir cisternas para recolher as águas das chuvas, esperando que o poder público melhore as aguadas.

Este, em sua habitual despreocupação, esquece por completo o lado utilitário dos negócios públicos e cuida de embelezar a cidade, ornando-a de avenidas e jardins. Quem nos visita sabe que temos bons logradouros, vê as nossas avenidas, mas não sabe de onde vem a água que bebemos. Quando será que os homens que nos governam tomarão mais a sério a saúde pública do que o embelezamento da cidade?

O abastecimento de água fora objeto de concessão dada pelo governo em 1862, por 50 anos, a José Paulino Hooholtz, a fim de fazer o encanamento de água potável do seu sítio no Benfica, para chafarizes espalhados pela cidade, tendo sido celebrado o contrato a 27 de maio de 1863. Além da exclusividade da venda de água, o contrato previa que a empresa deveria vender água em carroças por toda a cidade, pelo dobro do preço cobrado nos chafarizes.

O Chafariz da então Praça José de Alencar (atual Waldemar Falcão) foi instalado em 1836, no Largo do Palácio, pelo presidente da Província José Martiniano de Alencar

Em 1866 a concessão foi transferida para a empresa inglesa Ceará Water Works Co, que tentou organizar o serviço de abastecimento por meio de uma pequena rede distribuidora de água apanhada em cacimbas, de onde era captada por meio de bombas para dois reservatórios instalados no Benfica. Dali a água era canalizada para o centro da cidade, aproveitando-se o declive do terreno que facilitava o escoamento. Com a seca de 1877-79, as cacimbas e as demais fontes secaram e o abastecimento foi suspenso. 

Barragem do Açude Acarape 

Passado o período mais agudo da escassez de água com a volta das chuvas, e não contando a cidade com um concessionário oficial, a distribuição voltou aos padrões anteriores a 1862, onde a água potável era obtida em chafarizes, riachos ou aguadas. A localização desses mananciais não é precisa, alguns são localizados genericamente como “nas areias”. 

Sabe-se que não havia nenhum tipo de controle ou preocupação com a higiene. Água para tomar banho, lavar roupas, cozinhar, beber, e para outras atividades, provinha da mesma fonte, assim, não era de se estranhar a forte presença de lavadeiras e banhistas nos riachos, açudes e lagoas. Os documentos existentes descrevem essas aguadas como locais marcados pelas brigas e falta de asseio. Como figura central no abastecimento de água principalmente em residências, estava o aguadeiro, primeiro em burricos, mais tarde em carroças. E foi esse o cenário visitado e descrito por Rodolfo Teófilo. 

Os logradouros públicos dispunham de cacimbas e cataventos para manutenção dos jardins - Praça Marquês de Herval - atual Praça José de Alencar - 1912

Sorte de quem tinha uma cacimba no quintal. Mas construir um reservatório como este, custava caro, e poucos podiam pagar. Por conta do solo arenoso da cidade, era imprescindível o forro interno para evitar desmoronamento e assoreamento.

Somente em 1911, no governo Nogueira Accioly, o Dr. João Felipe elaborou um projeto que não foi concretizado de imediato em razão da deposição do governador. Mesmo assim haviam sido construídos dois reservatórios na então Praça Visconde de Pelotas, atual Praça Clóvis Beviláqua, com capacidade de 760.000 cada uma, além do estabelecimento de 42 km de canos pelas ruas. 

O prosseguimento dos trabalhos ocorreu em 1923, quando Ildefonso Albano contratou uma empresa americana, e o serviço foi inaugurado oficialmente no dia 3 de maio de 1926.
ao lado, a Praça Clóvis Beviláqua com os canos que seriam utilizados no sistema de abastecimento de água
Praça Clóvis Beviláqua já com os reservatórios em funcionamento - década de 1930

Até a data da inauguração do sistema de água do Açude Acarape, a distribuição de água ainda era feita em lombos de jumentos com depósitos de madeira. Algumas fontes dedicaram-se a esse comércio tornando-se conhecidas no mercado, por terem ampliado a oferta através de um grande número de vendedores avulsos que se lançaram no comércio ambulante.

O fornecimento voltou a ser alterado em 1975, com a inauguração em 30 de setembro, do primeiro reservatório do sistema Pacoti, o Açude Gavião.   


Fontes:
Fortaleza e a Crônica Histórica, de Raimundo Girão
História Urbana e Imobiliária de Fortaleza, de Lira Neto
O Abastecimento de Água em Fortaleza - CE (1813-1867), de Emy Falcão Maia Neto - Revista Espacialidades [online] 2014.v.7. n° 1
fotos do Arquivo Nirez



quinta-feira, 21 de junho de 2018

Chico da Silva, Rei das Artes, da Cachaça e dos Dragões

A vida desse homem exótico, um dos maiores pintores primitivistas do Brasil, forma um roteiro de mirabolantes aventuras. Os que o conheceram de perto, contam coisas incríveis sobre sua arte e suas façanhas, uma mistura de talento e loucura, acomodados na carcaça cabocla de Francisco Domingos da Silva, morador do Pirambu, nascido em 1910, no Acre, artista criativo e presepeiro maior dessa capitania do Siará Grande.


Chegou ao Ceará com 6 anos. Morou em Quixadá e Guaramiranga antes de conquistar Fortaleza, onde exerceu diversos ofícios, todos ligados a trabalhos manuais. Foi fazedor de tamancos, barbeiro, consertador de panelas e guarda-chuvas, amolador de facas e tesouras, funileiro, e pintor de paredes. Neste último ofício, começou a descobrir sua arte, desenhando em muros, inventando pássaros, peixes, galos irados e dragões esquisitos. Misturava na mesma figura bichos alados e quadrúpedes, numa reprodução intuitiva da evolução das espécies. Os peixes viravam pássaros e estes viravam dragões escamosos, com garras ameaçadoras.


Quando a ânsia criativa brotava, pegava carvão ou pedaços de telha vermelha e gesso e enchia todas as calçadas e muros que encontrasse pela frente, tendo, às vezes, que responder aos proprietários irritados pelas “malfeitorias”.

Em 1943 um pintor suíço que visitava Fortaleza, Jean Pierre Chabloz, viu em muros e calçadas da Praia Formosa os desenhos de Chico e ficou maravilhado. Interessou-se por conhecer o autor dos desenhos. – é um índio – disseram os pescadores – quem anda fazendo essa esculhambação nas paredes dos outros. Nossos filhos não têm nada a ver com isso. É coisa de criança, mas quem faz é um cabocão que mora por aqui”.

Chico foi localizado e logo pensou que Chabloz fosse um fiscal da prefeitura ou algum proprietário de muro rabiscado. Quando já achava que seria preso, recebeu os parabéns do visitante e uma proposta tentadora. Receberia tintas e cartolinas para realizar uma série de pinturas. As que ficassem boas seriam adquiridas e pagas imediatamente. Estava começando a acidentada e esfuziante carreira artística de Chico da Silva.

Em 1944 participa do III Salão Cearense de Pintura. A partir de 1945, levado pelas mãos do seu descobridor, ganha o Brasil e o mundo. Expõe no Rio de Janeiro, conseguindo os primeiros comentários favoráveis da crítica. Chabloz leva os trabalhos do Chico da Silva para a Europa, e os cadernos de arte europeus comentavam sobre o índio brasileiro que estava reinventando a pintura. Enquanto isso, sem incentivo em Fortaleza, Chico voltava ao seu antigo ofício de fazedor de fogareiros e lamparinas de latas de flandres no Pirambu.

Jean Pierre Chabloz e sua pintura exposta no MAUC

Só quando Chabloz volta a Fortaleza, em 1959, e o reencontra, Chico retoma sua arte. Por interferência do suíço, é contratado pelo Museu da Universidade Federal do Ceará (MAUC), passando a pintar em suas dependências. Depois sai da Universidade, onde se sentia bitolado, pois não podia beber suas cachaças nem fazer suas presepadas. Entretanto, consegue novos clientes. Vende quadros à sociedade local e consegue expor numa galeria carioca.

A fama de Chico corre mundo. Vem pedidos de toda parte, os turistas não deixam de levar uma obra do índio. Mas como produzir tantas telas para suprir essa grande procura? Só se trabalhasse dia e noite. Teve uma ideia. Pegaria uns meninos ali mesmo do Pirambu para lhe ajudar. Procurou saber quem, no bairro, levava jeito para a pintura. Logo arranjou um time razoável de aprendizes para a produção em série que pretendia iniciar.

Com ligeiras instruções, Babá, Claudionor, Garcia e Ivan de Assis, puseram-se a pintar galos, peixes e monstros de Chico da Silva. Agora, Chico, um sujeito famoso, tinha tempo para beber e raparigar à vontade. Seu único trabalho era assinar os quadros. O negócio era tão rápido que teve que funcionar por setores: enquanto um riscava os desenhos, o outro ia botando as cores e um terceiro tracejava as escamas, as penas e fazia os pontilhados. Quando Chico ia assinar, dava uma “guaribada” e pronto: mais uma obra pronta para o consumo.

Havia esperteza na cabeça do pintor, posto que ele não queria que soubessem da existência da oficina. Na chegada dos clientes, os auxiliares eram obrigados a fugir saltando a cerca do fundo do quintal da residência de Chico. Mas, um dia, o marchand Henrique Blun, chegando de surpresa ao Pirambu, encontrou o Chico, bêbado, capotado, enquanto Babá pintava seus quadros. Ao invés de denunciar a maracutaia, Blun se aproveita da situação, levando o falsificador para trabalhar em sua casa, por onde passava o Chico, de vez em quando, para assinar as telas, autenticando-as.

Essas telas pintadas por Babá foram expostas na Petiti Galeria, no Rio de Janeiro, em 1966. Chateada por ver seu homem se envolvendo com outras mulheres, dona Dalva da Silva, mulher do Chico, denuncia nos jornais que as telas da exposição são falsas. Houve um grande barulho na imprensa, mas o pintor negou as declarações da esposa e reafirmou que os trabalhos eram de sua autoria. E ficou tudo por isso mesmo.


Chico viaja para a Europa, em companhia de Clarival do Prado Valladares e participa da Bienal de Veneza em 1966. Em seguida, participa de mostras na França e na Espanha. Quando retorna, demora-se no Rio de Janeiro, farreando nos cabarés da Lapa e nos inferninhos da Cinelândia, até gastar todo o dinheiro que ganhara. De volta à Fortaleza, Chico se vangloria de suas façanhas, diz que foi recebido no Palácio pela Rainha Elizabeth da Inglaterra, e na sede do governo da França pelo próprio Charles De Gaulle. Toda artista ou mulher famosa e bonita que aparece nas revistas, ele diz que namorou.

Os marchands, com a conivência do pintor, contratam os falsificadores de sua oficina e montam várias “fábricas de Chicos da Silva”, ele só participa com a assinatura, acrescida agora da digital e uma foto ao lado do quadro para simular autenticidade. Em sua casa Chico ainda mantém sua oficina, agora com a participação de seus filhos Francisca e Roberto, e ainda Gilberto, Manuel Lima, Caínha, Carabina e Maria Augusta, entre outros.

Em 1969, Maria Augusta, então com 15 anos, ao ser posta para fora da casa de Chico pela ciumenta dona Dalva, vai aos jornais e denuncia mais uma vez a falsificação. A notícia é estampada na imprensa nacional. A revista O Cruzeiro conta toda a história, com detalhes. Agora, ninguém sabe mais se o quadro que tem na parede é um Chico da Silva legítimo ou uma falsificação. Aí caem as vendas e a decadência começa. Desmoralizado, Chico se entrega com afinco à bebida, sem intervalos. Talvez, acometido de delirius tremens, diz que os dragões que ele pintou estão saindo das telas para lhe atacar.

Por volta de 1972 saiu um comentário num jornal francês sobre o mais famoso morador do Pirambu. E o articulista lamentava que as autoridades brasileiras tivessem abandonado um dos maiores artistas primitivistas do mundo, deixando-o morrer à mingua, como um pária. A repercussão do estado de decadência de Chico da Silva mexeu com os brios do governador César Cals que, convocando um grupo de senhoras ligadas às artes plásticas, mandou procurar a família do pintor, e ver o que poderia ser feito.

O grupo de senhoras encontrou Chico da Silva em estado deplorável. Sua mulher, Dalva, informou que ele havia se entregado de vez ao alcoolismo e já estavam passando por sérias dificuldades. A ajuda mais imediata seria arranjar dinheiro.

Pensaram, então, numa exposição. Chico da Silva identificaria os quadros verdadeiramente seus, e seria feita uma vernissage num clube da Aldeota. Ouvindo a conversa, Chico levantou da rede e veio participar. Topava a ideia da exposição, mas tinha umas exigências. Queria um paletó branco, uma gravata encarnada e um par de sapatos também branco.

rua do Pirambu (2010)

Saíram pelo bairro procurando nas bodegas os quadros que ele trocara por cachaça. O trabalho foi exaustivo, mas proveitoso: 28 telas foram recuperadas, com outras que o Chico se dispunha a pintar, dentro de uns dias tudo estaria pronto.

Tudo foi acertado e providenciado, convites, cobertura da imprensa, instalações. Na véspera, a badalada exposição já estava devidamente instalada no clube mais elegante de Fortaleza. A festa deveria começar às 20 horas.

Na manhã do grande dia as organizadoras foram à casa do Chico. Eram nove horas da manhã e o índio já havia saído. Dona Dalva informou que ele fora à alfaiataria do Girão para apanhar o traje. Correram para lá. Nada de Chico: já pegara a roupa e se mandara, ninguém sabia para onde.

Praia do Pirambu (imagem IBGE)

Voltaram ao Pirambu, falaram para dona Dalva que, sem o Chico, ela iria representar a família na cerimônia de abertura da exposição. À noite, maquiada e de vestido longo – numa produção bancada pelas organizadoras do evento – dona Dalva recebeu cumprimentos do governador, foi abençoada pelo arcebispo, fotografada pelos repórteres e acompanhada da fina flor da sociedade, dona Dalva estava em seu esplendor.

Quando a cerimônia já ia começar, ouviu-se um grito forte na entrada do clube
– cadê o dinheiro pra pagar o táxi, cambada de burguês? Eu sou o dono da festa e tô chegando pra arrepiar!”. 
Era, sem sombra de dúvida, o Chico da Silva. O paletó já estava sujo, os sapatos com respingos de lama e ele não vinha só. Puxava pela mão uma rapariguinha, quase uma menina, a cara pintada com exagero, os peitos grandes, prestes a saltar do decote cavado, provocante. Vestia ainda uma minissaia, dessas que deixam a descoberto o fundo das calças.

Ao notar o lugar solene em que era introduzida, com aquela gente bem vestida e cerimoniosa, a moça quis recuar. Não conseguiu. O desarvorado Chico lhe arrastou firme e ele teve que prosseguir rumo ao salão principal, onde os discursos deveriam ter lugar. Dona Dalva mal podia acreditar no que estava vendo. Então o safado do seu marido tinha a audácia de trazer para um lugar daquele uma puta do farol, logo no dia em que ela estava tão bonita, tão arrumada? Ah, mas isto não ficar assim, não. Se o Chico queria confusão ia ter, e da grossa.

E passando das palavras à ação, a destemida Maria Dalva, que era natural de Salvador, rodou a baiana. Partiu para cima da ninfeta, atingindo-a com um murro na cara. A pequena, escolada nas escaramuças do Farol do Mucuripe, não foi apanhar sozinha e se atirando, em pulo felino, atingiu com a cabeça a pança de dona Dalva que caiu para trás.

As duas se enroscaram pelo chão como se fossem duas serpentes ferozes dos quadros do Chico e, ante o espanto das autoridades civis, militares e eclesiásticas, derrubaram os cavaletes da exposição, e com eles as telas, num turbilhão de safanões, pernadas e palavrões. No seribolo armado, não se sabia quem ganhava ou perdia, quem estava em cima ou embaixo. As dondocas soltavam gritinhos histéricos, corriam espavoridas, desarmando as cabeleiras enlaquezadas, enquanto o pau comia entre as duas suburbanas.

No fim, contidas a custo por oito seguranças, as mulheres estavam em frangalhos, riscadas de unha e sangrando pela boca. O clube parecia que tinha sido atingido por um desses ciclones tropicais: mesas viradas, telas rasgadas, cavaletes transformados em espetos. Nem nos mais ferozes arranca-rabos do Pirambu se vira coisa igual.

Apesar dos escândalos e da vida desregrada que levava, Chico da Silva continuava a ser uma importante referência cultural no Ceará. Várias foram as tentativas para reabilitá-lo. Em 1974 o governo do Estado e a prefeitura de Fortaleza lhe deram uma bonita casa-atelier, na recém-inaugurada Avenida Leste-Oeste. Em 1975 o Grupo Mercantil São José presenteou-o com um automóvel. Por esse tempo foi feito um documentário sobre sua obra e sua história pelo cineasta Pedro Jorge de Castro.

Os jornais assediam-no sem parar. Suas entrevistas fazem sucesso pelo inusitado. Ao Jornal do Comércio, de Pernambuco, ao ser perguntado sobre sua temática, declarou: "eu pinto o cão, pinto a mãe do cão, pinto a tia do cão e vou pintar o cão aqui pra todo mundo ver”. Recebe homenagens de toda ordem: a medalha Anchieta, da Câmara Municipal de São Paulo, a medalha da Abolição, maior comenda do governo do Ceará, e em 1983, uma pensão vitalícia, de dois salários mínimos, do Estado. 


Continua, porém, explorado por espertalhões e mergulhado no vício. De vez em quando fica doido e quebra tudo em casa. Vangloriava-se de bêbado, ter derrubado três metros de muro sem sentir nada. Dona Dalva já não mais existia, morreu de sofrer. Chico despenca ladeira abaixo. Alterna internamentos em hospitais com grandes bebedeiras. Uma vez quase morto, foi internado às pressas pelo casal Heloísa e Haroldo Juaçaba, na Casa de saúde São Raimundo. Outras internações se seguiram, sequenciadas por novas recaídas, até o desfecho final no dia 06 de dezembro de 1985.

A Agência Terraço, produziu um belo texto em homenagem a Chico da Silva, publicado em página inteira do Jornal Diário do Nordeste



“Neste Natal
A Familia Silva
Tem uma estrela no céu
Era um privilegiado,
Tinha sensibilidade para captar o invisível.
Artista,
Viveu numa estrada colorida
Entre o sonho e a realidade
Ingênuo – por ser bom – se perdeu na madrugada
E adormeceu no cansaço da desilusão.
Não passou pela vida despercebido.
A pureza-beleza de sua obra
Saiu dos limites do individual,
Transcendeu o universal
E alçou o lume das estrelas,
Glória maior de todo artista
Ele adotou esta terra
E não soubemos compreender a dimensão de seu gesto!”


Extraído do livro - Sábado, Estação de Viver – histórias da boemia cearense
De Juarez Leitão 
fotos: Internt, O Povo, IBGE e Fortaleza em Fotos