sexta-feira, 24 de junho de 2016

Bairro Jóquei Clube

O bairro hoje conhecido por Jóquei Clube, era chamado de São Cristóvão, até a segunda metade dos anos 40. De acordo com o Guia Turístico da Cidade, de 1961, o bairro São Cristóvão, localizado na jurisdição do Distrito da Parangaba, limitava-se ao Norte pela Avenida Carneiro de Mendonça; a Leste pela Rua Augusto dos Anjos e sua continuação; ao Sul e a Oeste pela Estrada do Pici.

A Casa do Sítio Glück-Auf

No local, por volta de 1800, foram localizados resquícios de um cemitério indígena, de etnias que habitaram aquela área. Naquelas terras morava um certo Nestor Cabral, proprietário de um grande sítio que acabou hipotecado por seu filho Laurindo. O sítio foi adquirido pelo alemão Franz Wierzbick, que chegara ao Brasil em 1930, e se instalara na vizinhança, no Sitio São Pedro. Ao tomar conhecimento da hipoteca, resolveu assumi-la, tornando-se proprietário do sítio de Nestor Cabral. 

Casal Franz Wierzbick e Margarida Hedwig, Margarida com seus netos e assinando a venda das terras do sítio

Franz Wierzbick contraiu núpcias com Margarida Hedwig com quem teve quatro filhos: Erika, Geraldo, Heinz e Gunther. Durante a Segunda Guerra, a exemplo do que ocorreu com muitos estrangeiros residentes em Fortaleza, o alemão Franz foi hostilizado e pressionado por militares. Assim vendeu parte de suas terras onde em 1947, viria a se instalar o Jockey Clube Cearense, com o hipódromo Stênio Gomes da Silva. 

Quando foram iniciados os serviços de terraplenagem do terreno do futuro hipódromo, os trabalhadores se depararam com várias botijas com utensílios dos índios que viveram no local; (de acordo com a tradição indígena, os utensílios eram enterrados com os corpos dos donos). Em Fortaleza, espalhou-se a notícia de que havia sido encontrada uma espécie de tesouro. O resultado foi uma grande correria ao local. 

A instalação do Jockey Clube Cearense acabou transformando o então São Cristóvão em Bairro Jóquei Clube, que ganhou a denominação em 1947. 

Franz Wierzbick faleceu em 10 de outubro de 1953, e após a conclusão do seu inventário em 1955, sua mulher e filhos lotearam as terras e passaram a negociá-las. O parcelamento do sítio Glück-Auf, traduzido como “Feliz Regresso”, e a instalação do Jockey Clube valorizou a área e propiciou o rápido crescimento da região com a chegada de novos moradores, a abertura de ruas e avenidas e a instalação de outros equipamentos como o Campo do Fortaleza.


O Jockey Clube Cearense, o primeiro do Nordeste, ficou no bairro até 2008, quando se mudou para o município de Aquiraz.  A antiga sede foi vendida e o terreno deu lugar a novos empreendimentos, como o Hospital de Mulher, o North Shopping Jockey e diversos condomínios de apartamento, chamados de Jockey Ville.

O Ecopoint, uma espécie de parque urbano localizado Avenida Senador Fernandes Távora, é uma área remanescente do sitio que deu origem ao bairro. Espaço de lazer e diversão o Ecopoint conta com boa infraestrutura, zoológico, piscina, e brinquedos para crianças, como tirolesa e arvorismo. 

ecopoint (imagem: Fortaleza em Fotos)

A concepção do Ecopoint contou com a participação do Instituto Homem Terra, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Zoológico Sargento Prata. A iniciativa é inédita no Ceará. Um convênio com a Prefeitura permite às escolas municipais a visitação ao local. Quase que diariamente, grupos de 40 alunos se encantam com esse pedaço da Natureza. 

Faz parte do guia de conteúdo do parque entre outros temas, a educação ambiental, ecossistemas, reino animal, lixo e reciclagem, cidadania e outros assuntos ligados à qualidade de vida.


vistas do bairro a partir do North Shopping

Limites:  O Jóquei Clube limita-se com os bairros João XXIII, Henrique Jorge, Pici, Demócrito Rocha, Parangaba e Bom Sucesso.
Segundo dados do IBGE (Censo 2010) o bairro conta com 19.331 moradores em 5.670 domicílios.


fontes: 
Guia Turístico de Fortaleza - Prefeitura Municipal de Fortaleza - 1961
Painel de textos expostos nas dependências do North Shopping Jockey
sites diversos: Wikipédia, Tribuna do Ceará, Diário do Nordeste, O Povo
fotos: jockey clube, north shopping e Fortaleza em Fotos


quarta-feira, 15 de junho de 2016

As Igrejas mais Antigas de Fortaleza

O catolicismo tem sido a principal religião do Brasil desde o descobrimento. Foi introduzido por missionários que acompanharam os exploradores e colonizadores portugueses desde os primórdios. Muitas cidades do interior surgiram a partir de aglomerados que cresceram em torno de uma capela.

A Igreja católica fez-se presente no Ceará desde as primeiras tentativas de conquistas da terra. A colonização portuguesa era legitimada pelo Papa e estava ligada a necessidade de expansão da fé católica. É sintomático que uma das tentativas de conquista do território cearense tenha sido encabeçada por dois jesuítas, Francisco Pinto e Luís Figueira, em 1607.

Em 1611, outro colonizador – Martim Soares Moreno – trouxe consigo o padre Baltasar João Correia, erguendo ao lado do forte de São Sebastião, na atual Barra do Ceará, uma pequena ermida de taipa, dedicada a Nossa Senhora do Amparo. Sem muito êxito na sua missão, o religioso retirou-se por volta de 1615.


Franciscanos e Jesuítas sempre marcaram presença em terras cearenses, catequizando índios e mantendo estreita convivência com fazendeiros e pessoas simples do campo. Não por coincidência, os templos mais antigos de Fortaleza são todos de fé cristã. Alguns desses templos foram construídos por irmandades.  No período colonial, as irmandades religiosas tinham uma grande influência na vida da população. Tendo origem nas confrarias da Europa medieval, consistiam em associações religiosas de leigos, cujo propósito era cultuar um santo através de procissões, festas, construção de templos, prática de caridade.

Estas são primeiras igreja de Fortaleza, que já foram fundadas nos mesmos locais onde se encontram até os dias atuais. Algumas foram reconstruídas com características totalmente diferentes dos modelos originais, como as Igrejas do Coração de Jesus e a de São José (Catedral Metropolitana); a maioria, no entanto, sofreram poucas modificações em relação a construção original. 

Igreja do Rosário –  1730 


A Igreja do Rosário foi construída pelos negros da Irmandade de Nossa Senhora dos Pretos, em uma época em que havia separação de raças e classes sociais em templos religiosos. Era uma pequena capela de taipa e palha, erguida com donativos ofertados pelos fiéis, num arrabalde da vila, que muitos anos mais tarde se tornaria a atual Praça General Tibúrcio.

Em 1753, a capela foi reconstruída com pedra e cal, porque ameaçava desabar. A capela mor ficou pronta em 1755. No período de 1821 a 1854, Igreja do Rosário serviu de matriz enquanto a Catedral Metropolitana passava por reformas. Construído em estilo barroco, é o mais antigo templo de Fortaleza, tombada pelo Estado em 1983. Fica na Rua do Rosário, s/n, Praça General Tibúrcio, Centro. 

Igreja de São José (Catedral Metropolitana) - 1795 


A construção da primeira capela mor de Fortaleza foi decidida em fevereiro de 1699, mas a autorização só ocorreu por Ordem Régia de 12 de fevereiro de 1746. Concluída em 1795, a igreja foi demolida em 1820, quando foi vistoriada e encontradas diversas rachaduras no arco, ficando resolvida sua demolição para a construção de um novo templo.

As peças sacras foram transferidas para a Igreja do Rosário, e só retornariam no dia da bênção da nova matriz, no dia 2 de abril de 1854, que recebeu o nome de Igreja de São José. A Igreja foi elevada à Catedral quando houve o desmembramento da Diocese de Pernambuco e foi criada a do Ceará.

Em 1938 novamente sob a alegação de que estava prestes a ruir, esta também foi demolida e a pedra fundamental da atual catedral foi lançada em 15 de agosto de 1939, à época do arcebispado de Dom Manuel da Silva Gomes. 

A construção da nova catedral demorou mais do que o esperado, em razão do início da Segunda Guerra, e da ocorrência das grandes secas, cujo socorro aos flagelados era sempre prioridade e demandava grande volume de recursos. Finalmente foi inaugurada no dia 22 de dezembro de 1978, tendo o padre Tito Guedes à frente de suas obras e como Arcebispo Metropolitano, Dom Aloísio Lorscheider. Localizada na Praça da Sé, s/n. 

Igreja de N. S. da Conceição da Prainha – 1841 


Consta que em 26 de outubro de 1839, Antônio Joaquim Batista de Castro, morador no Outeiro da Prainha, requereu uma licença à Câmara Municipal, para que ele e outras pessoas pudessem construir uma capela de invocação a Nossa senhora da Conceição.  A licença foi concedida no dia 30 do mesmo mês.

Os fiéis resolveram então, organizar uma irmandade e escolher o lugar onde seria edificado o templo. Concordaram que o local seria sobre a colina fronteira à praia, ficando a capela de frente para o oriente. A planta do novo templo foi de autoria do arquiteto José Antônio Seifert.

A primeira missa foi celebrada no dia 8 de dezembro de 1841. Atrás da igreja havia o Cemitério da Prainha, que funcionou entre 1811 e 1847. A igreja foi utilizada pelo seminário durante o tempo em que funcionou no local, passou por ampliação e serviu aos ofícios realizados pelos padres e seminaristas.

A igreja da Prainha fica na confluência das avenidas D. Manuel e Monsenhor Tabosa, junto à Praça do Cristo Redentor, no antigo bairro Outeiro da Prainha. O prédio é contíguo ao Seminário da Prainha e os dois edifícios compõem um conjunto arquitetônico de interesse histórico e artístico na cidade. Tombamento Estadual de 2006. 

Igreja do Patrocínio – 1852 


A pedra fundamental da Igreja do Patrocínio foi lançada em 02 de fevereiro de 1850, que ficaria pronta dois anos mais tarde. Em 1849 o cabo da esquadra Fortunato José da Rocha disparou um tiro contra o Capitão Jacarandá, mas acertou o joelho do Alferes Luís de França Carvalho, que estava ao lado do capitão. Vendo-se em risco de perder a vida, Luís de França fez voto a Nossa Senhora do Patrocínio, que se escapasse, faria uma igreja em sua devoção.

No ano seguinte, curado do ferimento, lançou a pedra fundamental da igreja, ao norte da atual Praça José de Alencar). O oficial teve que deixar Fortaleza e os trabalhos de construção passaram a ser muito lentos, apesar da ajuda de muitos fiéis que apoiaram a ideia do militar. A planta do templo foi feita pelo mestre Antônio de Rosa e Oliveira.

As obras iniciadas por França só foram concluídas devido aos esforços do cônego João Paulo Barbosa, que contou com o auxílio de particulares, das Assembleias Provinciais, da Sociedade Auxiliadora dos Templos, e dos materiais que de ordem do governo lhe foram doados no período da seca. Situada na Rua Guilherme Rocha, 536, Praça José de Alencar, Centro. 

Igreja de São Bernardo – 1854 



Em 1854 o Tenente Bernardo José de Melo construiu uma pequena igreja de taipa em honra de Nossa Senhora do Bom Parto. No primeiro inverno, com a força das chuvas que caíram, a capela foi ao chão. Graças ao seu prestígio, o tenente Bernardo conseguiu um empréstimo do governo no valor de Oitocentos Mil Réis, para ser pago em parcelas de cinquenta mil Réis por ano. Com esse dinheiro construiu a atual Igreja de São Bernardo, a qual sofreu um único acréscimo em relação a construção original: a sacristia, feita por Monsenhor Quinderé, durante os 40 anos como Reitor da igreja.

Inicialmente o povo chamava a Igreja do Seu Bernardo, que com o tempo mudou de Seu para São. Ficou sendo a Igreja de São Bernardo, embora a devoção maior fosse em louvor a Nossa Senhora do Bom Parto. Para justificar o batismo da igreja o Tenente Bernardo mandou vir da Espanha uma bela imagem de São Bernardo, que passou a ser o titular da igreja.

A Igreja de São Bernardo conta com dois altares herdados da antiga Igreja da Sé, demolida em 1938: o Altar de São José e o de N. S. do Bom Parto.  Fica na esquina das ruas Senador Pompeu e Pedro Pereira, no centro. 

Igreja N. S. da Conceição de Messejana – 1873 

foto Panorâmio

A Igreja de N. S. da Conceição, fundada em 1871, instituída canonicamente em 1873, conforme provisão episcopal de D. Luís Antônio dos Santos, primeiro bispo do Ceará. A igreja foi construída inicialmente pelos jesuítas, que nesse mesmo local ergueram uma capela, em cuja base foi erigida a igreja atual. Localizada na Rua Joaquim Bezerra, em Messejana. 

Igreja de São Benedito – 1885 

 foto de Muhammad Said

A inauguração da Igreja de São Benedito ocorreu na manhã do dia 8 de abril de 1885.  Na tarde do mesmo dia acontece a transladação das imagens de São Benedito, Santa Tereza de Jesus, São Roque e São Caetano, da Igreja do Patrocínio para o novo templo. Era uma igrejinha pequena, original, com quatro frentes para os quatro pontos cardeais, com torre de madeira envidraçada, situada ao lado oriental do Boulevard  do Imperador.

No dia 27 de julho de 1938 foi instalado o Santuário da Adoração Perpétua, na Igreja de São Benedito. Depois foi construída uma nova igreja na Rua Clarindo de Queirós, que fica ao lado, e o antigo templo foi transformado em uma livraria, e mais tarde, demolido. 

Igreja do Sagrado Coração de Jesus – 1886 


Inaugurada em 25 de março de 1886, a construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus foi uma iniciativa do casal José Francisco da Silva Albano e Liberalina Angélica da Silva Albano (Barão e Baronesa de Aratanha), com o apoio do bispo Dom Luís Antônio dos Santos. Ficou conhecida como Igreja dos Albanos.

A grande seca de 1877-1879 deixou um grande número de flagelados em Fortaleza, para aproveitar essa mão-de-obra e dar emprego a essa gente é que foi construída a igreja, em frente a Lagoa do Garrote, no Parque da liberdade (atual Cidade da Criança), no Morro do Pecado, onde já existia uma capela em louvor a Nossa Senhora das Dores. O templo era simples, em linhas neoclássicas e neogóticas, se assemelhava à Igreja do Carmo.

Em 1952, os engenheiros Luciano Pamplona e Valdir Diogo aumentaram a altura da torre e colocaram um imenso relógio trazido de Roma na fachada. Cinco anos depois, em 1957, a torre cedeu e soterrou a entrada da igreja. Não houve vítimas. Ao invés de reconstruirem a igreja, pois apenas a torre fora afetada, os capuchinhos optaram por derrubar toda a igreja para construírem um templo maior, com rampas para subida dos carros, uma torre vazada e uma grande cúpula sobre a nave principal.  A nova igreja foi inaugurada em 1961. Localizada na Avenida Duque de Caxias,135, Centro. 

Igreja do Pequeno Grande – 1903 


A história da Igreja do Pequeno Grande está intimamente ligada à história do Colégio da Imaculada Conceição.  A pedra fundamental foi lançada em 1898, pelo padre Chevalier, reitor do Seminário e capelão do Colégio da Imaculada.  As obras, mal iniciadas, sofreram paralisação no ano seguinte, sendo retomadas em 1898 até a sua conclusão em 1903, quando se verificou a benção do templo.

Para que o templo ficasse concluído, a Irmã Chambeaudrie doou à igreja uma herança de família. Por sua vez, os membros de diversas associações – Filhas de Maria, Senhoras de Caridade e as próprias freiras se dedicaram a missão de angariar recursos para a obra. Situada na Avenida Santos Dumont, 55, Centro. 

Igreja do Carmo – 1906 


A paróquia de Nossa Senhora do Carmo que domina a praça, foi a quarta paróquia a ser criada em Fortaleza. Originalmente ali era a capela de Nossa Senhora do Livramento, um pequeno templo erigido pela Irmandade dos Pardos, administrada pela Paróquia do Patrocínio.

A capela se erguia em área distante do centro, cercada de árvores, com uma lagoa nas proximidades. No início do século XX, foi decidida a construção de uma igreja em substituição à capela, que se encontrava em péssimas condições. Ainda na construção, a autoridade diocesana permitiu que fosse mudada a invocação para Nossa Senhora do Carmo.

O templo foi inaugurado em 25 de março de 1906, com muita solenidade, sendo o primeiro capelão monsenhor José Gurgel do Amaral. A imagem que ocupa o centro do altar-mor tem uma história de desencontro: o Padre Dantas tinha encomendado a imagem de Nossa Senhora do Carmo em Portugal. Quando a efígie da santa chegou a Fortaleza, ele foi avisado de que deveria pagar os direitos alfandegários para que pudesse recebê-la, o que ele não fez por esquecimento.

Então a imagem foi a leilão, tendo sido arrematada pelo Sr. José Rossas, que procurado pelo padre negou-se a cedê-la por qualquer preço. Dias depois José adoeceu gravemente, de paratifo, e fez uma promessa de entregar a imagem à Igreja caso ficasse curado. Alguns dias depois, mandou que sua esposa procurasse o Pe. Dantas para entregar-lhe a imagem da Virgem Maria, sem qualquer compensação.  A Igreja do Carmo fica na Avenida Duque de Caxias, s/n, Centro. 

obras consultadas:
FONTES, Eduardo. As Pouco Lembradas Igrejas Fortaleza: subsídio à história dos templos católicos de Fortaleza. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1983.
BEZERRA DE MENEZES, Antonio. Descrição da Cidade de Fortaleza. Introdução e notas de Raimundo Girão. Fortaleza: Edições UFC/Prefeitura Municipal de fortaleza, 1992 
AZEVEDO, Miguel Ângelo (NIREZ). Cronologia Ilustrada de Fortaleza. Roteiro para um turismo histórico e cultural. Fortaleza: banco do Nordeste, 2001.
Catedral Metropolitana de Fortaleza – Oficina de projetos S/S Disponível em
http://www.ofipro.com.br/preservando/catedral.htm
fotos do Arquivo Nirez e Fortaleza em Fotos





sexta-feira, 3 de junho de 2016

Bondes e Bodegas – referências da Fortaleza dos anos 30

Os trilhos dos bondes marcavam o limite dos arrabaldes da Fortaleza dos anos 30. A cidade com menos de 200 mil habitantes, dormitava tranquila sob a proteção dos guardas civis com seus apitos e seus cassetetes de madeira, únicas armas disponíveis para impedir a ação de algum transgressor perdido na noite. Mas nem todos os bairros eram servidos pelos barulhentos tramways da companhia anglo-canadense.

  Avenida Barão de Studart, final dos anos 30 

Por esse tempo apareciam os primeiros ônibus a gasolina, servindo a linhas mais distantes e até algumas próximas ao centro. Pioneiros nesses serviços, Francisco Anísio de Oliveira Paula – pai do famoso humorista que lhe emprestou o nome – com sua empresa São José, e Oscar Pedreira, que atendia aos bairros do Jacarecanga e o então Brasil Oiticica, hoje Carlito Pamplona.

Avenida João Pessoa, à época conhecida como "Concreto da Porangaba" 

Nessa época a Avenida João Pessoa, era popularmente chamada de “concreto da Porangaba”, atual Parangaba, como viria a ser denominado o então longínquo distrito da Capital. Aquela zona da cidade, que atualmente engloba diversos e populosos bairros – jardim América, Montese, Rodolfo Teófilo, Damas, Itaoca – possuía um nome comum: Barreiros.

Por iniciativa de um de seus primeiros moradores, foi criada a Associação dos Moradores dos Barreiros. Tal como indica o nome, Barreiros era assim chamado devido ao solo da área, composto basicamente de um mineral de coloração vermelha, ideal para uso na construção civil. Os exploradores cavavam os barrancos em busca da importante matéria-prima.

Avenida João Pessoa
As residências situavam-se quase todas de um lado e de outro da longa avenida, que nascia no Benfica – onde morriam os trilhos do bonde – e se estendia em linha reta até a Parangaba. Ao longo dela, a medida que brotavam novas moradias, iam-se abrindo os becos, embriões de futuras ruas. Havia o Beco do Segundo, o Beco do Henrique Pereira, o Beco do Popó e daí por diante. 

Os nomes correspondiam aos bodegueiros da região. As bodegas, pequenas mercearias, eram os pontos de abastecimento da população suburbana. Os bodegueiros eram de primordial importância para as classes média e baixa, que moravam afastadas do centro, onde estavam localizados os estabelecimentos comerciais de maior porte, lojas, repartições, postos de saúde, farmácias, mercearias de primeira ordem (a Joana D’arc era o máximo em requinte), e os armazéns de gêneros alimentícios, situados em sua maioria nas Ruas Conde D’Eu e Governador Sampaio. Uma das grandes diversões do Barreiros eram os animados jogos de futebol no campo do Dom Bosco (hoje o lugar do campo abriga a Praça presidente Roosevelt).

Praça do Ferreira, bondes, ônibus e automóveis de aluguel 

A Fortaleza dos anos 30 gravitava em torno da Praça do Ferreira. Seus bairros não tinham autonomia, todos dependiam dos bodegueiros para a obtenção de produtos essenciais ao dia a dia. Era também interessante a reduzida capacidade aquisitiva da maior parte da população desses subúrbios, o que acabou produzindo um instrumento fundamental a sobrevivência de muitos: a caderneta. 

Continha as anotações de compras no fiado para serem pagas no final do mês. As bodegas também criavam uma grande facilidade em relação as quantidades a serem adquiridas: as vendas a retalho. Assim, era possível adquirir 200g de açúcar, meia barra de sabão, meio litro de gás (querosene para a lamparina) pois grande parte das residências ainda não dispunham de luz elétrica, tudo devidamente anotado nas cadernetas do fiado.

Avenida da Universidade, fim da linha do bonde do Benfica 

Vizinho ao Barreiros ficava o Benfica e o seu desdobramento, o Prado, servido pelos bondes da Light, ostentando ricos bangalôs, autênticas mansões dentre as quais se destacava a esplendorosa residência de José Gentil, onde presentemente está instalada a Reitoria da universidade Federal do Ceará. Milionário, das raríssimas fortunas do Ceará naquela fase histórica, José Gentil investiu na edificação de um novo bairro, a Gentilândia, ainda hoje resistindo ao tempo, com suas mesmas casas pequenas, construídas nas ruas próximas e no entorno da edificação principal, o palacete da família.

Rua dos Tabajaras, Praia de Iracema, com a Igreja de São Pedro 

Os pontos elegantes de Fortaleza nos anos 30/40, situavam-se na Praia de Iracema, em especial na Rua dos Tabajaras, servida por sua linha de bondes, cujo ponto final era ao lado da Igreja de São Pedro. Na Praia de Iracema viviam as famílias de maior poder econômico, a elite que frequentava o Praia Clube, os serões artísticos boêmios do Jangada Clube, do industrial Fernando Pinto, o restaurante afamado do espanhol Ramon, e mais a frente, o Restaurante Lido, do francês Charles e o bar do Figueiredo, no qual numa certa manhã de domingo, foi assassinado o playboy Vicente de Castro Neto.  

 fonte: Bairros Modestos e sem autonomia, de Blanchard Girão 
fotos IBGE e arquivo Nirez

terça-feira, 31 de maio de 2016

Fortaleza Belle Époque (As Transformações Urbanas e Sociais)

Belle Époque é o termo em francês que expressa a euforia de setores sociais urbanos com as invenções e descobertas científicas e tecnológicas decorrentes da Segunda Revolução Industrial (1850-1870) e demais novidades, modas e produções artístico-culturais ocorridas entre 1880 e 1918, ano que marcou o fim da Primeira Guerra na Europa; no Brasil, a belle époque se estendeu até os anos1920. 


O surgimento vertiginoso nesse período de máquinas e inovações fantásticas como o automóvel, o cinema, o telefone, a eletricidade e o avião, causou furor e o culto à ciência e ao progresso. Trata-se, portanto, de uma época de intensas transformações que afetaram a economia e a política, e alteraram de maneira profunda o modo de viver, perceber e sentir.

Inglaterra e França foram os principais centros produtores desses novos objetos, valores e padrões que irradiaram mundialmente atingindo sobretudo as cidades. Não escaparam a esse processo, os principais centros urbanos brasileiros, que respaldados pelo crescimento advindo da exportação de matérias primas e objetivado por uma nova geração de políticos e de agentes do saber, foram remodelados tendo como referência a modernização urbana da Europa.

Remodelar cidades e sociedades compreendia introduzir equipamentos e serviços urbanos modernos, introduzir noções de higiene, trabalho, beleza e progresso, eliminar os focos naturais de insalubridade e disciplinar o grande contingente de miseráveis, vadios, loucos – estigmatizados como a horda de bárbaros que colocavam em perigo a constituição de uma nova ordem social modernizante e excludente.Foi assim que Fortaleza foi preparada para viver a belle époque. A época, portanto, só foi bela para as elites e parcelas sociais médias; para os pobres foi um tempo de vigilância, controle de hábitos e confinamento de corpos. 


O processo remodelador que significou a inserção de Fortaleza, teve como base econômica as exportações de Algodão, através do seu porto a partir da década de 1860. Daí em diante Fortaleza acumulou capital, expandindo-se em todos os sentidos – comercial, populacional, espacial, cultural, etc – e tornou-se ainda no final do século XIX, o principal centro urbano do Ceará e um dos primeiros do Brasil. Empolgados com esse crescimento, a burguesia enriquecida com as vendas do algodão, negociantes estrangeiros radicados na cidade, médicos e demais elites políticas e intelectuais, procuraram modernizar a cidade por meio de reformas e empreendimentos que a alinhasse aos padrões materiais e estéticos de grandes metrópoles ocidentais.


Isso posto, Fortaleza inicia sua belle époque na década de 1880, absorvendo com rapidez algumas inovações que acabavam de despontar nos centros de referência, o que demonstra o estreito convívio que a capital tinha com a Europa. 

Dessa forma, ainda nos anos 80 foram instalados equipamentos nunca vistos na cidade e que causaram a maior sensação: bondes e Passeio Público (1880); fotografia, telégrafo submarino, ligando Fortaleza ao Sul do País e à Europa (1882); telefone (1883); e cafés afrancesados na Praça do Ferreira. Além disso surgiu o Clube Iracema (o segundo clube elegante da Cidade) e a abolição da escravatura (1884); o Asilo da Parangaba (1886), para confinar os loucos e o Asilo de Mendicidade, para enclausurar os idosos pobres.


Dos equipamentos cabe destacar o Passeio Público, por ter sido projetado por ser o lugar, por excelência, da fruição daqueles belos tempos da cidade. Nenhum outro logradouro de Fortaleza era tão belo, tão confortável, tão iluminado – tinha vista para o mar, bancos, coreto, jardins, lagos artificiais, estátuas de figuras mitológicas, árvores frondosas e grades. Era um éden a servir de passarela para o desfile de elegantes e palco para o exercício de uma sociabilidade europeizada. Não era à toa que o Passeio Público ficava lotado às quintas e domingos, dias em que as bandas tocavam.  Assim era o primeiro plano, inaugurado e logo ocupado pelas elites. Pouco depois construíram no declive da encosta o segundo e o terceiro planos, não tão ornamentados como o primeiro, e que acabaram sendo utilizados, respectivamente, pelas camadas médias e populares.

Na década seguinte, as fascinantes novidades continuaram a chegar, trazidas pelos quatro navios que vinham mensalmente da Europa: o fonógrafo, em 1891, o kinetoscópio (que fazia fotografia em movimento, precursor do cinema), e o Mercado de Ferro em 1897, todo em art-nouveau – estilo bastante enfeitado que reinou absoluto durante a belle époque. Enquanto isso as ruas se enchiam de sobrados, palacetes e mansões que completavam os adornos do novo perfil da então intitulada “princesa do Norte”.


Mal começou o tão aguardado século XX, as principais praças – a do Ferreira, a Marquês do Herval (atual José de Alencar) e a da Sé – sofreram intervenções estéticas entre 1902 e 1903, recebendo amplos jardins com gradis e adornos semelhantes ao Passeio Público. Por ser o coração da cidade, a Praça do Ferreira já vinha sendo aformoseada desde os anos 1880 com a construção de quatro cafés à feição de chalés franceses nos cantos do logradouro.



Boêmios e janotas deviam sentir-se como que em Paris enquanto sentavam nas mesas ao ar livre desses cafés e contemplavam fascinados o belo jardim do centro da praça e, no entorno, o surgimento na cidade da loja Maison Art-Nouveau, do Cinematógrafo Parisiense (1907) do automóvel (1909) e dos bondes, passando de tração animal a elétricos (1914).

Fonte: Fortaleza Belle Époque -1880-1925, de Tião Pontes
fotos Arquivo Nirez e do livro Ah, Fortaleza!