quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Bairro Dionísio Torres

Localizado na zona Norte de Fortaleza, limite sul da Aldeota, o bairro Dionísio Torres (antigo Estância), limita-se ao Norte com a Aldeota, ao sul com o São João do Tauape, a leste com o Cocó e a Oeste com o bairro Joaquim Távora.  De acordo com o IBGE, em 2010, a população era de 15.634 habitantes, distribuídos em 4.844 domicílios. É ainda um dos 10 bairros mais ricos da cidade, com renda média mensal equivalente a R$ 2.707,00, conforme o “Mapeamento das Atividades Socioeconômicas nos Bairros”, divulgado pela Prefeitura de Fortaleza em 2015.


Duas fases do bairro vistas do mesmo ângulo: atualmente, e no início dos anos 60, quando ainda se chamava Estância e os coqueirais eram visíveis. Foto atual feita por drone. (Créditos:   www.flyup.46graus.com). Imagem antiga do arquivo Nirez  

As terras que serviram de marco para a criação do bairro foram compradas em 1920, pelo farmacêutico Dionísio Torres aos herdeiros de Gonçalo Baptista Vieira, o Barão de Aquiraz, numa área de 75 hectares, situada na parte mais alta da cidade.O comprador deu à propriedade o nome de Estância, uma área enorme, coberta de mato ralo e imprestável. Para se chegar ao local, o único acesso era uma trilha estreita, que ligava a Piedade, no bairro Joaquim Távora, a qual Dionísio Torres percorria a cavalo.

Naquele terreno árido e de difícil acesso, Dionísio fez uma plantação com mais de 3 mil coqueiros, sendo o primeiro plantio simétrico desta árvore que se tem notícia no Ceará. A área, antes inóspita, passou a ser chamada pelos moradores de “coqueiral do seu Dionísio”.

Sede da Granja leiteira Estância Castelo, em 1930

No centro da propriedade, fundou a “Granja Leiteira Estância Castelo”, trazendo para o Ceará a primeira importação de Gado Holandês de alta linhagem, embarcado do Uruguai, por via marítima. Os céticos apostavam no fracasso da empreitada, porque acreditavam que a raça não suportaria o clima quente de Fortaleza. Mas, o espírito empreendedor de Dionísio, insistiu e acabou se tornando o iniciador do grande rebanho leiteiro desta raça espalhado por todo o Estado desde então.

Em 1939, Dionísio Torres decidiu pelo parcelamento das terras, lançando um grande empreendimento imobiliário constituído de 58 hectares: o Loteamento Terras da Estância Castelo. A partir deste lançamento, em parceria com a Prefeitura de Fortaleza, foram realizadas diversas obras de infraestrutura, como as estradas de acesso à Piedade – a atual Av. Antônio Sales – e ao litoral – atual Rua Tibúrcio Cavalcante, através de calçamento feito com pedra tosca.

O abastecimento de água do loteamento foi viabilizado com a doação de uma fração do terreno ao Estado, onde foi construída uma caixa d’água, existente até hoje na esquina da Avenida Antônio Sales, com a Rua Tibúrcio Cavalcante. Dionísio também foi o responsável pelas primeiras obras de ocupação no bairro, construindo a Vila Estância, com 60 casas, e a Vila Zoraida, com 48 casas, além de diversos prédios residenciais e comerciais espalhados pela propriedade. Providenciou ainda, a instalação de fiação e postes de iluminação em todo o loteamento.

No final dos anos 50, chegou à Estância um equipamento de porte: a TV Ceará, que ali instalou sua grande torre de transmissão; a chegada da Televisão atraiu diversos empreendimentos para o bairro além de outros veículos de comunicação, como os jornais “Correio do Ceará” e “O Unitário” que se instalaram logo depois da TV Ceará. Hoje, a maioria dos canais de televisão de Fortaleza estão localizadas no bairro.  O local foi escolhido por ser o ponto mais alto da cidade, com altitude de cerca de 50 metros acima do nível do mar.
  
 Vila Vicentina na Avenida Antônio Sales: os moradores vivem sob constante ameaça de deslocamento em função da especulação imobiliária. Foto Flick 

A partir da década de 1960, Dionísio Torres, resolveu doar parte do terreno de sua propriedade em benefício de famílias carentes vindas do interior. A doação resultou na construção da Vila Estância Vicentina, com frente também para a Avenida Antônio Sales, somando 40 unidades residenciais.  Ainda hoje essa população de baixa renda é beneficiada com moradia, que para muitos custa apenas um valor simbólico, ou nem isso. Em 1967, através da Lei Municipal n° 3500, o bairro Estância passou a ser denominado Dionísio Torres, em homenagem ao seu fundador.


  Praça da Imprensa (foto O Povo) 

A Praça da Imprensa, a mais conhecida do bairro, foi criada em 21 de maio de 1973, na gestão do prefeito Vicente Fialho (1971-1975). Quando a prefeitura criou o projeto da praça em frente aos Diários Associados, jornalistas de Fortaleza, militantes nos diversos órgãos locais, pleitearam o nome de Praça da Imprensa. Foram atendidos. A praça conta com vários bustos de grandes personalidades ligadas à história do rádio, TV e jornais do Estado, como João Perboyre e Silva, Demócrito Rocha, chanceler Edson Queiroz e Conde Ernesto Pereira Carneiro, fundador do Jornal do Brasil.

Fontes de consulta:
IBGE – censo demográfico de 2010
Anuário de Fortaleza 2012/2013 
Jornais O Povo, Diário do Nordeste
Site: Dionísio Torres.com.br
Praças de Fortaleza, de Maria Noélia R. da Cunha

domingo, 18 de setembro de 2016

O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto

Nas décadas iniciais do século XX surgiu no Cariri mais um movimento messiânico que, com base nos princípios cristãos, oração, fraternidade e trabalho coletivo, estabeleceu uma sociedade cooperativa de tendência igualitária, alternativa à estrutura latifundiária Nordestina, então em voga. Era chamado Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, comunidade liderada pelo beato José Lourenço, seguidor do Padre Cícero e praticante do catolicismo popular, típico do sertão do Nordeste.

o beato José Lourenço entre seu secretário Isaías (esquerda) e o repórter Luiz Maia
(foto O Nordeste) 

José Lourenço Gomes da Silva, nasceu em 1872, em Pilões de Dentro, sertão da paraíba. Filho de sertanejos pobres, aos 14 anos deixou a casa dos pais para tentar a sorte em outro lugar. Depois de algum tempo, retornou a Pilões de Dentro, quando descobriu que a família tinha ido para Juazeiro do Norte, no Ceará, atraída pelos milagres de Padre Cícero e da beata Maria de Araújo. Decidiu seguir também para a cidade do Cariri.

Chegou a Juazeiro por volta de 1891, onde reencontrou os familiares. Ali foi assimilando a religiosidade e a crença de Padre Cícero, seu guia espiritual. Lourenço incorpora as maneiras de agir, pensar e sentir do padre. Passa a fazer parte da ordem dos Penitentes da Santa Cruz, grupo religioso secreto, mas bastante conhecido em todo o Nordeste. A partir daí fica conhecido como beato Zé Lourenço.


Beato José Lourenço e a Santa Cruz do Deserto em 1937
(foto O Nordeste) 

Provavelmente em 1894, por conselho do Padre Cícero, José Lourenço, sua família e mais alguns romeiros arrendaram um lote de terra no Sitio Baixa Danta, de propriedade de um coronel chamado João de Brito, localizado na cidade do Crato. Solidário, Lourenço permite que outros romeiros venham morar no sítio. Sua casa fica rodeada por outras moradias habitadas por camponeses humildes. Ali os sertanejos encontram terras para o trabalho e condições melhores de vida.

Surgia, dessa forma, uma rústica comunidade. Em pouco tempo, o solo árido e empoeirado da fazenda transformou-se em produtor de cereais e frutas. Ao contrário das fazendas vizinhas, a produção era repartida igualmente entre todos os seus membros. As pessoas do sítio tinham o beato como líder. Todos respeitavam aquele negro alto, forte, dedicado, seguidor dos ensinamentos do Padre Cícero. Zé Lourenço, mesmo analfabeto, dava conselhos, determinava tarefas, ensinava práticas rudimentares de agricultura e medicina popular. Trabalhava como todos os demais, e a noite, com o hábito da Ordem dos Penitentes, dirigia as rezas, mesmo após um dia exaustivo de trabalho.

seguidores do Beato José Lourenço no Sítio Caldeirão. 
(quadro do acervo do Museu do Ceará) 

Em 1926, João de Brito decidiu vender o Sítio Baixa Danta. O novo proprietário exigiu de imediato que Lourenço e a comunidade deixassem as terras. O beato e os demais se retiraram sem nenhuma indenização ou compensação pelas melhorias as quais transformaram aquela área em uma das mais prósperas da região, em mais de duas décadas de trabalho.

Provavelmente no mesmo ano, Padre Cícero resolveu alojar o beato e os moradores em uma grande fazenda de sua propriedade, denominada Caldeirão dos Jesuítas. Situada na cidade do Crato, nas encostas da Chapada do Araripe, com uma área em torno de 880 hectares, a fazenda tinha esse nome devido a existência no local de uma depressão natural de pedra, capaz de acumular água. 

Padre Cícero
Ao chegar ao Caldeirão, o beato só encontrou mato e pedra. Os camponeses então, iniciaram novo trabalho comunitário, igual ao antes praticado no Baixa Danta. Uma das primeiras edificações foi a casa do beato, que ficou conhecida como a casa-grande por ser bem maior que as habitações construídas posteriormente. Essa casa foi feita de tijolos e coberta com telhas, enquanto as outras que foram surgindo, eram feitas de taipa e cobertas de palha ou telha. O piso era de terra batida.

Ergueram também barragens, cercas, armazéns, engenhoca, casa de farinha, sistemas de irrigação e reservatórios de águas. Cultivavam cereais e frutas e a criavam animais domésticos. O trabalho em pouco tempo, começou a apresentar resultados positivos. Posteriormente, em consequência da chegada de novos moradores, a comunidade foi ganhando novas atividades produtivas: pedreiros, carpinteiros, ferreiros, artesãos que trabalhavam com cerâmica, couro, flandres, etc.

Assim, o Caldeirão foi ganhando um caráter praticamente autossuficiente, pois fabricava quase tudo de que precisava.  Tudo era coordenado pelo beato e por algumas pessoas de sua confiança, como Isaías, uma espécie de secretário.  A obra de Zé Lourenço toma, em menores proporções demográficas, a dimensão social da comunidade religiosa de Antônio Conselheiro.

Criou-se uma sociedade igualitária, de sistema econômico coletivo, que impunha a seus membros a cooperação para assegurar uma existência digna e as condições de sobrevivência. Durante a seca de 1932, enquanto milhares morriam de fome e doenças por todo o Nordeste, o Caldeirão foi uma exceção. A comunidade abriu os depósitos de víveres, acolhendo e alimentando centenas de retirantes. Durante os 23 meses de estiagem, a comunidade sustentou cerca de 500 pessoas que, em sua maioria, decidiram depois se fixar na fazenda.

Após a morte do Padre Cícero, em 1934, muitos passaram a considerar o beato Zé Lourenço como sucessor daquele, e ante a notória prosperidade da fazenda, a ela corriam cada vez mais contingentes de pobres. Nesse período começaram as romarias para o Caldeirão. As romarias, o crescimento demográfico e a grande influência de José Lourenço não tardaram a chamar a atenção das elites sobre o “núcleo de fanáticos”. Assim, a igreja, os coronéis e o Estado começaram a se articular para a destruição do Caldeirão. 

Interventor Menezes Pimentel, o chefe de Polícia Cordeiro Neto e o bispo do Crato Dom Francisco de Assis Pires 

Em fevereiro de 1935 reuniram-se em Fortaleza o interventor Menezes Pimentel, o Secretário de Estado Andrade Furtado, o chefe de Polícia, capitão Cordeiro Neto, o deputado Norões Milfont e o bispo do Crato Dom Francisco de Assis Pires. Deliberaram pela destruição do lugar através de ação militar. Antes, enviaram em missão sigilosa o capitão José Bezerra, com a incumbência de descobrir os segredos e armadilhas do lugar. José Bezerra, disfarçado de “comprador de algodão” foi recebido cordialmente por Zé Lourenço, que lhe diz que não poderia vender a produção de algodão, porque estava sendo utilizada e consumida na própria comunidade. Ao regressar, José Bezerra fez um metódico relatório ao governo, dando conta do fanatismo e do terrível perigo representado pelo Caldeirão. 

ruínas da casa onde morava o beato José Lourenço no sítio Caldeirão
foto Diário do Nordeste 

A 9 de setembro de 1936, uma expedição de polícia militar seguiu para o Cariri. Para despistar, divulgou-se que os policiais iriam para Mossoró, no RN. Mas o beato foi avisado da eminente chegada da tropa e fugiu para o alto da serra do Araripe. Os soldados iam preparados para a luta, porém, quando invadiram a fazenda na manhã do dia 10 de setembro de 1936, os sertanejos, assustados, não ofereceram nenhuma resistência. São conduzidos a empurrões e socos e pontapés para a casa do beato; os policiais gritavam, apontavam armas, davam voz de prisão.

O capitão Cordeiro Neto explicou aos sertanejos o que viera fazer: era preciso que voltassem ao seu lugar de origem, levando suas posses e bens, pois o Estado do Ceará não permitiria mais a existência daquele agrupamento de fanáticos. As famílias deveriam abandonar o Sítio em cinco dias, e os solteiros, em três dias. O general ofereceu aos camponeses passagens de trens e navio; estes recusaram. Propôs então que pegassem seus bens e partissem. Os sertanejos responderam que nenhum deles tinham posses ali, porque todos os bens eram coletivos. 



Cordeiro Neto chega então a uma decisão: destruir as estruturas físicas da fazenda e simplesmente expulsar os camponeses. A polícia saqueou e incendiou os cerca de 400 casebres e o armazém da comunidade. O grupo de policiais que fica no Caldeirão dispersa a população. Muitas famílias do Caldeirão se dirigiram para a serra do Araripe, reencontrando o beato e formando nova comunidade, espalhada por quase dois quilômetros entre a Mata dos Cavalos e o Curral do Meio.

Um dos membros da comunidade, chamado Severino Tavares, que havia sido preso e trazido para Fortaleza durante a expulsão, foi posto em liberdade e retornou ao Cariri, juntando-se com o novo núcleo comunitário. Em conjunto com outros camponeses, passou a defender ações radicais, mais precisamente, um ataque à cidade do Crato com o objetivo de obter armas e munições visando a defesa da comunidade em futuros ataques. Armaram, então, uma cilada para atrair a polícia.

Um homem chamado Sebastião Marinho, informou à polícia do Crato que o beato pretendia retornar ao Caldeirão, enquanto um deputado enviou um telegrama urgente comunicando que os fanáticos pretendiam invadir o Crato. O chefe de polícia deu ordem para que a força policial de Juazeiro, sob o comando do capitão José Bezerra, tomasse providências a respeito.

Em maio de 1937, o capitão Bezerra, acompanhado de um pequeno contingente de 18 praças, viajaram num caminhão que foi deixado no local conhecido por Cruzeiro, onde também ficou parte do contingente. Bezerra e os demais militares seguiram a pé. De repente, foram atacados pelos sertanejos. A luta corpo a corpo foi bastante violenta, entre o capitão e seis soldados de um lado, e cerca de 100 fanáticos, armados de rifles, espingardas, foices e cacetes sob a chefia de Severino Tavares. Somente dois sargentos sobreviveram, porque mesmo feridos, arrastaram-se até o caminhão, fugindo e sendo recolhidos ao hospital do Crato.

A notícia do fracasso da força policial causou pânico entre as elites. Segmentos sociais e autoridades condenaram de forma enfática a emboscada. No mesmo dia, seguiram para a Chapado do Araripe o restante da tropa estacionada em Juazeiro, cerca de 30 homens comandados pelo tenente Assis Pereira. Três aviões partiram de Fortaleza sob o comando do capitão José Macedo, com grande quantidade de armas e munições, conduzindo também o chefe de polícia Cordeiro Neto para Juazeiro.

As aeronaves sobrevoam a serra e metralham as barracas da nova comunidade, além de lançarem granadas. A chacina, no entanto, não seria feita pelo ar, mas por terra. No dia 12 de maio de 1937, duzentos militares com armas em punho, atacaram os ex-habitantes do Caldeirão. Aconteceu ali uma das mais bárbaras e covardes chacinas da história do Ceará. Não se faziam prisioneiros. Adultos, crianças, velhos, eram barbaramente atingidos com tiros e golpes de baionetas. Os soldados fincavam as baionetas com tanta força que tinham de usar os pés para retirá-las.

 das várias construções edificadas no Sítio Caldeirão restam a pequena capela de Santo Inácio de Loyola, relativamente conservada, e poucas casas em ruínas. Quanto à árida paisagem de entorno, esta permaneceu praticamente inalterada. (Foto Secult) 

Não se sabe até hoje o número exato de vítimas do massacre. Há quem especule entre 300 e 1000 mortos. Os soldados juntaram os cadáveres, incinerando alguns com gasolina numa grande fogueira e enterrando outros em valas coletivas. A ação militar continuou ainda por alguns meses, a polícia continuou na serra, prendendo, procurando, torturando e assassinando suspeitos de serem provenientes do Caldeirão.

Os familiares e descendentes dos mortos nunca souberam onde encontram-se os corpos, pois as autoridades responsáveis pela operação nunca informaram o local onde  foram enterrados. Presume-se que a vala coletiva se encontra no Caldeirão ou na Mata dos Cavalos, na Serra do Cruzeiro, na região do Cariri.

José Lourenço fugiu para Pernambuco, onde morreu aos 74 anos, de peste bubônica, tendo sido levado por uma multidão para Juazeiro, onde foi enterrado no cemitério do Socorro. Ali, segundo a história oral, teriam os sertanejos pedido ao vigário da cidade, monsenhor Joviniano Barreto, que celebrasse uma missa para o beato. Receberam a seguinte resposta: Eu não celebro missa para bandido.
                   

Extraído do livro 
História do Ceará, de Airton de Farias

 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Os Cabarés da Periferia

Os cabarés, pensões altas ou alegres – como eram chamados nos idos dos anos 1940 e 50 – eram locais de diversão garantida e bastante frequentados nas noites de Fortaleza. A maioria ficava no centro da cidade, nas ruas Major Facundo, Floriano Peixoto, Barão do Rio Branco e arredores, e funcionavam em antigos casarões, nos quais as pensões ocupavam o andar superior.  Esses antigos casarões eram sobrados em que durante o dia, funcionavam estabelecimentos comerciais no térreo, e à noite, o andar superior tornava-se ponto de encontro dos amantes da diversão, da boemia, da música e da companhia de belas mulheres.

Sobrado do Barão da Ibiapaba, na esquina das ruas Major Facundo e Senador Alencar, onde, nos altos, funcionou durante  muitos anos, a famosa Pensão Ubirajara 

Quando o General Cordeiro Neto foi eleito prefeito de Fortaleza (1959-1963), proibiu a venda de bebidas no centro depois da sete da noite, bem como as orquestras depois das dez. A rigorosa medida, foi respondida com o deslocamento dos cabarés para os bairros. Os que permaneceram no centro passaram a adotar a música eletrônica, as radiolas e as máquinas de ficha. 

 Prefeito Manuel Cordeiro Neto (1959-1963) 

Surgiram assim as boates da periferia. A mais importante delas foi a Margô, casa de diversão que se instalou primeiro na chamada “mata da Aldeota”, à altura da atual Avenida Desembargador Moreira. Depois no bairro Cachoeirinha, que corresponde hoje aos bairros São Gerardo e Parquelândia. Sua casa era frequentada pelo que havia de melhor da representação da boemia da cidade (juristas, deputados, comerciantes, radialistas, jornalistas). Era um lugar distinto, onde todos se sentiam seguros e respeitados. Não havia roubo, ou violência ou palavrões.

O Cabaré da Santa (Maria Santa Pereira) ficava no Benfica, na Rua Francisco Pinto, por trás do Dispensário dos Pobres. Suas “meninas” vinham de outros Estados e eram muito disputadas porque começaram a inovar as técnicas da prostituição de Fortaleza, com práticas sexuais antes nunca vistas por estas plagas. As novidades sexuais foram duramente condenadas. Como a cidade era pequena, a sociedade terminava tomando conhecimento dos que praticavam “estranhezas” nos cabarés.

 A famosa Casa do Português também acolheu um cabaré: a Boate Portuguesa 

A Casa de Natália estava localizada na Avenida João Pessoa e o seu público era, predominantemente, homens de meia-idade. A proprietária, conhecedora das fantasias e dos fetiches, recrutava mulheres novas e as vestia como estudantes, com fardas da Escola Normal e do Colégio da Imaculada Conceição. Ensaiava gestos e modo de falar, imitando a voz infantil e as meninas usavam tranças. 

Também na Avenida João Pessoa funcionou na conhecida casa do Português, a boate Portuguesa, de pouca duração. Era bem frequentada e fingia ser um ambiente familiar. Apesar de ter seu próprio elenco de mulheres, os clientes podiam chegar já acompanhados. As acompanhantes eram profissionais, as denominadas “garotas de programa”.

A Gaguinha também era famosa. A casa de Irinete Cabral ficava nas Damas ou Vila Damasco. Seu apelido vinha naturalmente da deficiência da fala. A gagueira, porém, nunca foi empecilho para o bom relacionamento com a clientela, do qual faziam parte pessoas influentes da sociedade. Era mulher de muitos amigos. Os fregueses tinham nela uma confidente, relatando seus problemas. Alguns vinham a tarde, para beber uísque e conversar.


Quando a Gaguinha começou a declinar, instalou-se a boate Oitenta. O nome se devia ao número da casa, Rua Governador Sampaio, 80. Era uma casa de certo nível, com luz negra, suítes e bom serviço de bar. As mulheres eram atraentes, bonitas e já não tinham restrições ou tabus.


Já nos finais dos anos 60 e por toda a década de 70 o melhor cabaré de Fortaleza era a Casa da Leila, na Maraponga. Suas mulheres eram altas, elegantes, louras naturais de olhos claros, provenientes do sul do país. Eram pessoas finas, educadas, algumas se diziam universitárias e comentavam sobre política, música popular e variedades culturais. Dentre elas havia uma mulata, belíssima, chamada Mércia, que mostrava uma carteira de estudante de Ciências Sociais da UFMG.

Até a década de 60, o lugar hoje denominado Maraponga era uma região com muitos sítios e pouca urbanização.  Da década de 70 até o fim dos anos 80, a Maraponga passou a ser local de casas de veraneio.


Leila fora a mulher de maior sucesso na Oitenta. Ali ganhara bons e generosos amigos, o que lhe permitira abrir sua própria casa. Casarão amplo, com alpendres, arcadas, grande salão com dois ambientes, confortáveis sofás, mulheres com roupas habillès, falando baixo, sorrindo. Educadíssimos também eram os garçons, todos de smoking, servindo as bebidas em bandejas de prata. Um primor. Leila, a madame, reproduziu a distinção de Margô, adaptando-se ao tempo, climatizando as suítes que contavam com banheiros de mármore e torneiras niqueladas, além das camas redondas, uma delas com o recurso da trepidação. O baronato de Fortaleza se orgulhava de contar com uma casa de tão alto nível e quando aqui aportavam cantores, jogadores famosos e artistas de TV, todos, invariavelmente, eram levados à Leila. 

Até o dia em que começou a entrar em decadência. Envelhecida, foi abandonada pelos amantes ricos e terminou por se apaixonar por um de seus garçons. O cabaré resvalou rapidamente para o fim.

Os últimos estertores dos velhos cabarés se deram nos anos 70, com o Senadorzão, Barba Azul e Motel 90. No centro instalou-se o Senadorzão, na Rua Senador Alencar. O proprietário era um sujeito simpático, mas cheio de autoridade, mantendo tudo sob controle.No centro, numa galeria que liga a Rua Senador Pompeu à Barão do Rio Branco, montaram uma boate da pesada, o Barba Azul. Lá dentro, luz negra, uísque falsificado e muitas brigas.

extraído do livro
Sábado, Estação de Viver - histórias da boemia cearense, 
de Juarez Leitão

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Major Facundo - O Assassinato na Rua da Palma

No dia 8 de dezembro de 1841, dia consagrado a Nossa Senhora da Conceição, a província do Ceará vivia momentos de festa e religiosidade, com grande aglomeração popular na igreja da Prainha, que fora inaugurada naquele dia com a celebração da primeira missa no local.

Depois de participar com a família das comemorações e visitar alguns amigos, o Major Facundo descansava na sua casa, a antiga Rua da Palma n° 72. Aproximadamente às 20 horas, dirige-se até a porta principal para atender um portador de Sobral, levantando a trava da janela.


Igreja de N.S. da Conceição da Prainha, inaugurada em 8 de dezembro de 1841
Antiga Rua da Palma, atual Rua Major Facundo, postal dos anos 20

De repente, três grandes estrondos ecoam na noite. De um casebre em frente, partem os tiros certeiros de bacamarte que estraçalham a cabeça do chefe político liberal. Alguns estilhaços ferem a mão de sua mulher e abrem buracos nas paredes da casa. Estabelecido o pânico nas redondezas, o pior finalmente tinha acontecido: major Facundo estava morto. As ameaças contra sua vida se concretizaram de forma trágica.

O crime abala toda a cidade, tendo repercussão no país através de discursos inflamados dos políticos da época. Considerado pelo historiador Barão de Studart como “a influência mais legitima e real que teve a província do Ceará”, major Facundo foi sepultado na capela do Rosário, então matriz e mais antiga de Fortaleza, onde ainda hoje se encontra.

Casa onde viveu e foi assassinado o Major Facundo. Depois foi ocupada pela Casa Villar. 

Barão de Studart relata as consequências dos dramáticos episódios ocorridos no dia do assassinato. “Por toda parte surgiam gritos de vingança, protestos de energia indescritível. A Polícia não permitia que se fizessem ajuntamentos de mais de três pessoas e trazia a vista os membros mais exaltados da família perseguida e seus mais dedicados amigos, e se em altas vozes os homens do governo prometiam prêmios a quem descobrisse os matadores, cerravam ouvidos aos nomes, que o clamor público apontava e mais tarde, protegiam abertamente os mandantes do atroz delito".

A mulher do então presidente da província, que participava do movimento de hostilidade a Facundo, foi denunciada como mandante do crime, mas nada sofreu. Antônio Manoel Abrahão e Pedro José das Chagas, os executores, foram condenados, alguns anos depois a galés perpétuas pelo júri de Fortaleza. Joaquim Ferreira de Sousa Jacarandá, intermediário que contratou os criminosos, foi julgado três vezes e absolvido nos três julgamentos.

  
 Igreja do Rosário onde o Major Facundo foi sepultado, de pé, voltado para o Palácio da Luz

Lápide do túmulo do major Facundo, localizado numa das paredes laterais do templo, com a seguinte inscrição: 
Aqui jazem os restos mortaes do major João Facundo de Castro Menezes vice presidente da Província. Assassinado a 8 de dezembro de 1841. Sendo presidente José Joaquim Coelho. Nasceo aos 12 de julho de 1787. Tributo d'amisade da sua infeliz esposa  D. Florência D'Andrade Bezerra e Castro. A 8 de dezembro de 1842.
A morte do major Facundo já era esperada pelas lideranças locais. A política tinha chegado a extremos de violência e ameaças. Facundo, um dos principais chefes do Partido Liberal (os chimangos), que era a união de antigos imperialistas e republicanos moderados, tinha por adversário o Partido Conservador, conhecido também por caranguejo. Enquanto as paixões políticas se acentuavam, ocorriam saques em propriedades e crimes no interior do Ceará.

O senador José Martiniano de Alencar era a figura política proeminente dos liberais. Nomeado presidente da província do Ceará em 1834, tinha o Major Facundo como primeiro vice, que o substituía em suas ausências. Em março de 1841, o senador Alencar é exonerado, tendo Facundo assumido novamente a presidência. O motivo foi a queda dos liberais no Rio de Janeiro, quando então subiu ao poder os conservadores. 

No dia 9 de maio foi nomeado o novo presidente do Ceará o brigadeiro José Joaquim Coelho, barão da Vitória, opositor ferrenho de Facundo. O fato de se ter um presidente ligado ao Partido Conservador com um vice Liberal, tornou a situação política do Estado bastante delicada e contribuiu para o tráfico fim do vice-governador.

João Facundo de Castro Menezes nasceu em Aracati, no dia 12 de junho de 1787, filho do capitão-mor José de Castro Silva e Joana Maria Bezerra. Em 1818 se transfere para Fortaleza. Defensor das ideias políticas de sua família, opõe-se à junta governativa liderada por Tristão Gonçalves, Pereira Filgueiras e Padre Mororó. Preso, deportado para o Rio de Janeiro, é solto por ordem do Imperador D. Pedro I. Em 1824, durante a Confederação do Equador, deixa novamente o Ceará por divergências com os revolucionários.

Presidente da Assembleia Provincial, depois da derrota da Confederação do Equador participa ativamente da movimentação política da província. Devido ao ato da maioridade, recebe interinamente o cargo de Presidente da Província. É considerado por este fato, o primeiro a governar o Ceará, depois de D. Pedro II assumir o trono do Brasil.

Major Facundo nunca levou a sério as ameaças que recebia quase que diariamente. E quando a família e os amigos o alertavam para que se cuidasse, respondia-lhes perfeitamente calmo que não tinha inimigos e sim adversários políticos, e estes não lhe votavam ódio a ponto de querer assassiná-lo. A morte do major Facundo foi apenas um dos atos praticados pela violência política, numa época em que o Brasil vivia tumultuada agitação interna.  

Extraído do livro
A História do Ceará passa por esta Rua, de Rogaciano Leite Filho.
fotos Arquivo Nirez e Fortaleza em fotos.