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sexta-feira, 19 de julho de 2024

Quando Fortaleza andava de Bonde


A Empresa Ferro Carril do Ceará foi fundada no dia 3 de fevereiro de 1877, pelo comendador Francisco Coelho da Fonseca e Alfredo Henrique Garcia. Entre a instalação da empresa e o início das operações, três anos se passaram, somente em 1879 são concretizadas as obras de construção da estação e sede da companhia, e a partir de novembro, foi cumprida a etapa de assentamento dos trilhos.

Na manhã de domingo do dia 25 de abril de 1880, a Ferro Carril do Ceará inaugura sua primeira linha, com 4.210 metros, da Estação na Estrada de Messejana (Boulevard Visconde do Rio Branco) até a rua São Bernardo (atual Rua Pedro Pereira) e a partir desta, interligando a Praça da Assembleia ao Matadouro Modelo, bairro do Prado. Os veículos tinham 4 ou 5 bancos, eram pequenos, modestos, providos de cortinas que protegiam do sol e da chuva, e dirigidos por um boleeiro quase sempre vestido de fraque. Mesmo assim serviram a muitos usuários que pagavam passagens de 100 réis, que possibilitaram a melhoria do serviço, com bondes ampliados em sua capacidade para até para sete bancos, comportando 28 passageiros.



Do período de funcionamento dos bondes movidos a tração animal em Fortaleza, restaram muitas histórias. Uma delas, atribuída a Quintino Cunha, notório advogado e humorista da terra. Contam que em viagem a Belém do Pará, Quintino se deslocava ao lado de um indivíduo que reclamava do mal funcionamento dos bondes, comparando aos do Ceará, com ares de troça. Ao que Quintino lhe respondeu: - meu caro, o senhor está redondamente enganado, há uma grande diferença: no Ceará os burros puxam o bonde, mas aqui se dá o contrário, os burros é que as vezes andam de bonde.

Em 6 de junho de 1912, deu-se a transferência, por compra, da empresa Carril do Ceará à The Ceará Tramway Light and Power Ltd. Para administrar a empresa em Fortaleza, foi contratado Hugh Mackeen. Ele seria o primeiro gerente local e teve papel decisivo na realização das obras iniciadas naquele mesmo ano. O primeiro bonde elétrico circulou às 4:30 da tarde, no dia 9 de outubro de 1913, sendo beneficiado o bairro da Estação, continuando as outras linhas com os bondes de burros. No dia da inauguração, além das autoridades, inclusive o intendente Ildefonso Albano e convidados, uma multidão de curiosos foi conferir a novidade, com gente que embarcava, e só abandonava o veículo quando acabava o dinheiro.


Os demais bairros foram pouco a pouco sendo beneficiados pela tração elétrica, porém, enquanto se instalavam os cabos, se estabeleceu uma espécie de tráfego provisório. Como a linha do bairro Soares Moreno, hoje Jacarecanga, foi uma das últimas eletrificadas, os enterros que demandavam o Cemitério São João Batista eram feitos em bondes de burros, que iam buscá-los em qualquer bairro, mesmo os que já estavam eletrificados.

Os engenheiros ingleses, encarregados de dirigir os trabalhos em Fortaleza, pouco afeitos ao ambiente e ao idioma, sofreram alguns dissabores. Certa vez, uma turma de trabalhadores abria o mato no então final da linha do Outeiro, procurando levar os trilhos para mais além, quando se depararam com enormes moitas de urtiga-cansanção; enquanto viam uma maneira de prosseguir, foram advertidos pelo técnico britânico, que para mostrar como se fazia, se pôs a arrancar as plantas com as mãos, dizendo entredentes “não pode arrancar com a mão? Vejam como eu fazer”. Minutos depois, porém os braços e mãos do mister ficaram seriamente afetados e, em consequência, levou um mês inteiro de cama.  

Em outra oportunidade, o mesmo engenheiro fazia a condução de trilhos e gritava “push”. Mas os trabalhadores, sem entenderem o idioma, em vez de empurrar, como solicitava o engenheiro, faziam era puxar.


O último bonde de burro que rodou pelas ruas de Fortaleza foi o de número 25, guiado por um certo Sr. Fialho, na linha do Alagadiço, a última a ser eletrificada. Quase todos foram vendidos à Empresa Teixeira Leite, do Maranhão, sendo embarcados para a capital. Quando os velhos bondes iam ser desembarcados, os catraieiros, indignados com o mau serviço da empresa, deixaram cair no mar alguns veículos, como forma de protesto, que São Luís não era a rampa de lixo do Ceará.

Por muito tempo, a Light ainda conservou dois daqueles burros dos antigos bondes, que mesmo velhos, foram usados para puxar o carro torre de consertos da rede aérea.

 

Extraído dos livros “Coisas que o Tempo Levou, crônicas históricas da Fortaleza antiga”/Raimundo de Menezes/Edições Demócrito Rocha/Fortaleza:2000. “História da Energia do Ceará/Ary Bezerra Leite/Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha,1996/Publicação FortalezaemFotos/Imagens Arquivo Nirez e Instituto Moreira Sales  



quinta-feira, 24 de julho de 2014

O Cão da Itaoca

 Fortaleza na década de 30 

Dizem que foi o capeta quem botou a Itaoca no mapa. Por volta da década de 40, aquela região que hoje é conhecida como Grande Montese, era chamada de Pirocaia, que gramaticalmente se traduz por Aldeia dos “Pele Queimada”, uma alusão a alguma tribo que teria habitado essas plagas em tempos passados.
 
O referencial maior do lugar eram as minas de águas potáveis, puras e cristalinas – a famosa água da Pirocaia – distribuída por toda a cidade em tonéis de madeiras sobre carroças puxadas a burros. O principal poço de fornecimento do precioso líquido ficava na Rua Romeu Martins, antigo Beco da Itaoca, situado entre a Avenida João Pessoa e a Rua Desembargador João Firmino, em terras do Dr. Manoel Sátiro.


Poucas eram as ruas que tinham denominação própria, a maioria das vias atuais eram conhecidas com a denominação de becos. E foi justamente a atual Rua Romeu Martins, o antigo Beco da Itaoca, que entrou para a história da cidade por ter sido palco de acontecimentos extraordinários, que movimentaram a opinião pública.

O ano era 1941. Europeus e Asiáticos se engalfinhavam num  conflito armado, que alguns meses mais tarde haveria de se espalhar pelo resto do mundo. E era esse conflito em terras tão distantes, o principal assunto dos jornais de Fortaleza: só se falava da guerra, dos ataques, dos mortos, dos bombardeios, das estratégias, das ações, dos envolvidos. O tema era uma fonte inesgotável de interesse por parte da população, e as noticias eram fartas.

 bairro Jardim América, tendo ao fundo, o antigo matadouro (foto Nirez) 

De repente, surge uma dessas histórias bombásticas, capaz de despertar o interesse da população, de matar de curiosidade os viventes da pacata cidadezinha de pouco mais de 180 mil habitantes, de deixar em segundo plano as noticias da guerra: a de que satanás em pessoa, estava dando o ar da graça numa casa localizada no Beco da Itaoca, lá pras bandas da Pirocaia, subúrbio de Fortaleza.

Segundo testemunhas, na residência de um certo tenente da polícia  chamado João Lima, numa casa visivelmente perturbada por mãos imponderáveis e sutis, fenômenos  estranhos e  acontecimentos inexplicáveis, sugeria a ação de agentes invisíveis, que segundo os vizinhos, era o próprio capeta. O proprietário do imóvel, homem honrado e trabalhador, andava assustado com os fatos de origem nada natural e sua família andava tomada de justificado nervosismo.

Alguns eventos foram presenciados até por um repórter do jornal Gazeta de Notícias, que visitou a casa, e descreveu o que viu: “Observamos verdadeiros aspectos trágicos na casa do digno oficial da Força Pública. Um santuário, sem que ninguém identificasse o autor do fato, foi lançado à distância, espatifando-se. As imagens que estavam no móvel, também se partiram, no choque contra o solo”. Disse ainda que, a maioria pensava  que aquilo era obra do demônio, e ele,  repórter, como certos deputados do passado parlamentar do Brasil, ficava com a maioria.

Em outra manifestação na casa, presenciada por vizinhos e moradores do bairro, o móvel atingido foi o fogão, todo de ferro, que deu umas piruetas pela casa e depois caiu sozinho, de pernas para o ar. Todos os utensílios da cozinha da casa voaram pelos ares; a chaleira parecia um zepelim, evoluindo pela casa toda; os garfos e facas dançavam;  os pratos tiniam;  areia e pedras eram jogadas de todos os cantos, enquanto distintas senhoras jogavam água benta pela casa. Tudo em vão. Um jarro que estava no chão, ergueu-se num voo rasante e quase atingiu uma delas.

Como os fenômenos se repetissem, a policia foi chamada. Em presença das autoridades policias – os delegados Leôncio Botelho e Madaleno Barroso, o comissário Mário Moraes, e auxiliares da DIC – nada se registrou de anormal, ainda segundo o repórter. 


No entanto, um verdadeiro terror se apoderou da vizinhança, chamando a atenção da população. A história das aparições na Itaoca se espalhou por toda a cidade, sendo manchete em três jornais e objeto de reportagem da PRE-9 (Ceará Rádio Clube), a única emissora de rádio da cidade. Até mesmo o sóbrio Jornal “O Nordeste”, de propriedade da Diocese de Fortaleza, se pronunciou sobre o caso, reclamando providências.

Uma multidão de curiosos se aglomerava todos os dias na casa do tenente João Lima, na tentativa de observar as manifestações. As opiniões se dividiam: uns acreditavam em manifestações sobrenaturais, outros em farsa  de espíritos zombeteiros,  enquanto havia quem oferecesse explicações  naturais para os fatos. Os curiosos, procedentes de todos os bairros, de todas as classes sociais, de todos os credos, se movimentavam fascinadas  pelas plumas imponderáveis da superstição e da curiosidade.


Quintino Cunha, grande humorista cearense, era vizinho da casa onde o cão fazia as estripulias, e arriscou um palpite: para Quintino aquilo era obra de almas bêbadas, talvez dos que foram ébrios em vida. No meio da polêmica até a Federação Espírita do Ceará se propôs a examinar a questão, intervindo, se necessário no caso da Itaoca.

De repente, tão inesperadamente como chegou, o capeta sumiu, os fenômenos cessaram e os objetos da casa voltaram ao seu estado de inércia. O mesmo repórter que deu início às reportagens que divulgou o fenômeno, deu sua explicação para o fim do caso: Lúcifer deixou a Itaoca com medo dos catimbozeiros de lá, e resolveu retornar à Europa, onde a demência assumia formas mais trágicas.


Dizem que a história do Cão da Itaoca não passou de uma grande invenção, uma história criada por um jornalista  entediado com a escassez de noticias locais. Provavelmente não contava com a repercussão nem com as proporções que o caso assumiria.
Com a divulgação do fenômeno envolvendo o Cão, o nome "Itaoca" se firmou em nível local. Atualmente a Itaoca é um bairro situado entre o Montese e a Parangaba.


pesquisa:
Sobre o fenômeno das aparições - os jornais da época:
Gazeta de Notícias, edições de 20, 21, 22 de março de 1941
O Nordeste, de 22 de março de 1941. 
Sobre o ambiente local das aparições: Livro "De Pirocaia a Montese", de Raimundo Nonato Ximenes

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A Praça e os Boêmios



A Praça do Ferreira foi por cerca de oito décadas, o palco principal da boemia cearense. Depois a cidade foi se descentralizando e alguns bairros passaram a oferecer opções de lazer para os amantes da bebida e da boa conversa.
Na primeira metade do século XX quem quisesse se manter informado sobre fatos políticos, ocorrências sociais, pendências testamentárias, atividades culturais, fuxicos e mexericos da casa alheia, era só circular pelos cafés, bares e livrarias da Praça. Os pontos principais eram:

Rua Major Facundo endereço da Maison Art-Nouveau

A Maison Art-Nouveau, que funcionou entre 1907 e 1930, localizada na esquina sudoeste da Rua Major Facundo com Guilherme Rocha (onde hoje está o Edifício Granito). Lá podiam ser encontrados todos os dias os jovens intelectuais Carlos Câmara, Ubatuba de Miranda, Renato Braga, Josaphat Linhares e Edigar de Alencar. Este café foi destruído por um incêndio.
O Café Riche funcionou entre 1913 e 1926. Ficava na esquina noroeste das mesmas Ruas Major Facundo e Guilherme Rocha, no local onde hoje está o Excelsior Hotel. Seus proprietários eram o futuro maior exibidor cinematográfico do Brasil, Luiz Severiano Ribeiro e o abolicionista Alfredo Salgado. 

O Café Riche foi inaugurado em 21 de setembro de 1913, na esquina da Rua Major Facundo com Guilherme Rocha.Ocupava o andar térreo do sobrado onde nos pavimentos superiores se instalara, dias atrás, o Hotel Central.

Nesse recinto pontificava o gênio livre de Quintino Cunha, sempre pronto a responder com inteligência e humor a todas as provocações de adversários e admiradores. Certa vez, recebendo de seu amigo Gomes de matos um par de chifres muito bem embrulhado numa caixa de chapéu, no dia do seu aniversário, retribuiu com um ramalhete de flores. Gomes ficou desconcertado e comentou: “ora Quintino, eu estou morto de vergonha. Te mando um par de chifres e tu me cobres de flores?”   - “É fácil explicar, meu amigo Gomes” – retorquiu o arguto Quintino – “cada um dá o que tem”.

Naquele tempo das manipulações, eram os boticários que preparavam os remédios. Em Fortaleza surgiram muitas fórmulas medicinais que ficaram famosas e algumas delas ainda hoje estão em pleno uso, como o Elixir Paregórico, as Gotas Artur de Carvalho, as Pílulas de matos e o Sabão Líquido Asseptol. O boticário José Elói da Costa criou, nos anos 20, a pomada Epidermina para tirar sardas da pele. O produto tinha um cheiro horroroso e, um dia, um parente do inventor perguntou ao Quintino o que ele achava do remédio que estava limpando de sardas e panos-pretos os rostos da cidade. Irreverente como nunca, o poeta, pondo o dedo no nariz, satirizou de improviso:

A Epidermina, fuummm!
Do José Eloi da Costa
É puro cheiro de bosta,
Na cara de qualquer um.

Estava difícil para o José Elói, João Brígido mudou o nome de sua pomada para Epimerdina.
Contemporâneo do Riche, mas a ele sobrevivendo por muitos anos,  o Bar do Majestic , funcionando ao lado do cinema do mesmo nome e fora inaugurado em 1917. Ali nos anos 30 e início dos anos 40, atendia seo João, pitoresca figura de garçom que vivia atormentado com os fiados dos boêmios. Chegava a sugerir, com muito jeito, que os mais velhacos tomassem cachaça ao invés de cerveja, porque o prejuízo seria menor.  

 Palacete Ceará, na esquina da Rua Floriano Peixoto com Guilherme Rocha

No térreo do Palacete Ceará, um dos poucos prédios que sobreviveram à fúria dos vândalos, funcionou a Rotisserie, restaurante frequentado pela alta sociedade, políticos, desembargadores, altos comerciantes, e inclusive, o presidente do Estado. Nos altos funcionava o Clube Iracema, onde se davam grandes festas, animadas pela orquestra do maestro Antônio Moreira. Quando o clube se transferiu para outro endereço, seu espaço ganhou divisórias e foi transformado em república de estudantes. Muitos, que depois se tornariam conhecidos artistas e intelectuais, moraram nessa república: Mário Barata, Antônio Bandeira, Aldemir Martins...

Instalações do Clube Iracema, no Palacete Ceará

A Confeitaria Glória, cujo proprietário era André Almeida, ficava nos baixos do sobrado da Intendência Municipal, entre as ruas Floriano Peixoto e Major Facundo. Funcionou de 1928 a 1937. Dentre os seus frequentadores, a escritora Rachel de Queiroz, o poeta Jáder de Carvalho, o advogado Gomes de Matos, os escritores Antônio Girão Barroso, Moreira Campos, Fran Martins e Murilo Mota.
Em 1934 Rachel de Queiroz lançou sua candidatura a Deputada Constituinte Estadual pelo Partido Socialista Brasileiro. Apesar de já ser famoso no Brasil inteiro, não recebeu os votos suficientes para sua eleição.

 Café Emidio final da década de 30 (acervo particular)

Também no velho prédio da Intendência ficava o Café Emídio, dos gêmeos José e Estevão de Castro. Eram homens elegantes e distintos, além de exímios pianistas.
O Café Globo, de Edilberto Góis Ferreira, situado numa esquina da Praça, funcionou de 1937 a 1955. Em seu recinto sempre podiam ser encontrados os médicos Pedro Sampaio, Carlos Ribeiro e Virgílio Aguiar; o Quintino Cunha, já velho, acompanhado de seu sobrinho Renato Soldon; Romeu Martins e Tompson Bulcão, Raimundo Girão, Djacir Menezes Avelar Rocha e o pessoal do Grupo Clã: Artur Eduardo Benevides, João Clímaco Bezerra,  e outros.

O Bar O Jangadeiro, na Praça do Ferreira era um front na batalha das Coca-Colas contra o preconceito. Ali elas tinham encontros com os soldados americanos. Quando a guerra acabou, o bar ficou sem clientes.  (arquivo Marciano Lopes)

À Turma do Clã se atribui a terrível responsabilidade pela falência de muitos dos cafés da Praça do Ferreira. Como eram todos “lisos” , ao ocuparem uma mesa, ficavam pedindo cafezinhos e dizendo poemas. Mas cafezinhos não sustentam bares. Por receberem a preferência desse grupo de inteligentes rapazes, cerraram as portas o Café do Comércio (em sua 3ª. fase), a Confeitaria Cristal, o Botequim do Mundico e o Café Éden

 Grupo Clã reunido na casa de Fran Martins (do livro Roteiro sentimental de Fortaleza)
No tempo da Segunda Guerra, quando Fortaleza se encheu de americanos, o dólar passou a ser moeda corrente por aqui. O bar O Jangadeiro era um dos pontos prediletos dos soldados yanques, sempre muito bem acompanhados das deslumbradas meninas, as Coca-Colas, como foram apelidadas pelos rapazes locais, desprezados por elas. O proprietário de O Jangadeiro, José Frota Passos, entusiasmado com a grana dos gringos, passou a dizer que a freguesia cearense não lhe interessava porque não tinham dinheiro.  Depois da guerra, quando os americanos se foram, deixaram além das desfrutadas e saudosas Coca-Colas, um vazio nas mesas do restaurante do Sr. Frota Passos. Ele precisou usar muitas desculpas e pedidos de perdão e até uma nota explicativa nos jornais para recuperar a clientela perdida.  Coisas da guerra.

Extraído do livro de Juarez Leitão
Sábado, estação de viver.  
fotos do arquivo Nirez 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Os Frequentadores do Café Riche


Sobrado do Comendador Machado, demolido para a construção do Excelsior Hotel. No andar térreo funcionava o Café Riche. Nos andares superiores, o Hotel Central.

Fossem  nas grandes capitais ou em pequenas cidades, os cafés e bares eram pontos de encontro e muita conversa fiada em torno dos mais variados assuntos, alguns de grande outros de nenhuma importância. Por outro lado as constantes modificações nos hábitos urbanos contribuíram para o desaparecimento dos cafés, espaços de alta expressão na vida das cidades, como foco de debates de ideias, de comentários políticos e às vezes de mexericos sociais.


Café Iracema, na Praça do Ferreira, um dos muitos cafés existentes no centro de Fortaleza naquela época. 

E a exemplo do que ocorria em outros capitais, Fortaleza também teve os seus cafés. Um dos mais famosos foi o Café Riche, situado na esquina mais famosa da cidade, em plena Praça do Ferreira, na Rua Guilherme Rocha, no sobradão  quase centenário  que fora do Comendador José Antônio Machado e servira por muito tempo de sede á firma G. Gradvohl & Fils, exportadores.


Cruzamento das Ruas Guilherme Rocha com a Major Facundo, onde no térreo do sobrado, funcionava o Café Riche.

Inaugurado em 1913, pertencia a uma sociedade constituída por Luis Severiano Ribeiro e Alfredo Salgado. Arrendado a terceiros, o Café Riche tinha restaurante contíguo que pertencia à firma Ramon e Jucá. Ramon era um garçom espanhol que  fixara residência em Fortaleza. Conhecedor do ramo e homem de iniciativa, depois se tornaria bastante conhecido por outros empreendimentos, como os restaurantes à beira-mar de que foi o precursor. Seu sócio era José de Castro Jucá, que por muitos anos foi o gestor da parte comercial da companhia de bondes, depois Light and Power.


Rua Floriano Peixoto. O centro de Fortaleza mudou bastante ao longo do tempo

O restaurante do Riche era bem frequentado, principalmente na hora do almoço. Tinha apreciável cozinha, e no centro comercial era o preferido dos moços mais abastados do comércio e de comerciantes. Claro que a grande maioria da gente do comércio residia nas ruas centrais e quem morasse mesmo nos bairros como Benfica e Fernandes Vieira, tinha tempo de sobra para almoçar em casa e pegar a parte de bar ou café do Riche e do Art-Nouveau.  


Quarteirão da Rua Major Facundo na Praça do Ferreira, na esquina ficava o "Maison Art-Nouveau", inaugurada em 1907. 

O caso é que a parte de bar ou café do Riche devia dar grande prejuízo.  Os papos ruidosos e animados eram mantidos  diariamente na meia hora que sobrava do almoço. Então o Riche se enchia de fregueses, que nada consumiam, e iam até ali para discutir assunto de clubes, diversões, cinema, politica, e novidades. Era o fino  da mocidade do comércio ou estudantes que ali se sentavam diante das mesas oitavadas, de mármore cinza. Os estudantes, literatos e doutores eram mais do horário da tarde.

Gloriosas eram as tardes do Café pela frequência de literatos. A fidalguia, a hospitalidade do Café Riche chegava ao ponto de existir numa espécie de puxada do salão que se estendia por toda a calçada larga invadindo a coxia coberta de madeira. Cheia de mesas,   quando o sol caía e a brisa vinda das bandas do passeio  público soprava, a calçada se transformava num verdadeiro conclave de literatos.


No cruzamento da Guilherme Rocha com Floriano Peixoto, nos baixos do Sobrado do Pastor, funcionou o Café Globo

Comerciantes e empresários de destaque, de vem em quando se agrupavam no salão do Café Riche, também pelo cair da tarde. Um grupo de estrangeiros e descendentes radicados na terra, no inicio da Primeira Guerra, fundou o Clube dos Aliados. Numa tarde vários integrantes do clube bebericavam seus uísques e gins, quando entra Quintino Cunha, que sem os avistar dirige-se à Tabacaria que ficava no centro do salão. Quintino com seu vozeirão pede:  – me dá uma carteira de Aliados.
O grupo estrangeiro, conhecendo as convicções germanistas do poeta, aproveita a deixa:
Quintino, você aderiu! Fumando Aliados!
E o poeta sem titubear:  – são os mais fracos!

O café Riche encerou as atividades no dia 31 de dezembro de 1923. O Diário do Ceará, de 3 de janeiro de 1924, deu uma nota bem circunstanciada a respeito da ocorrência, uma nota escrita com tons literários sob o título: : “cerrou as portas o Café Riche”. O café famoso durara menos de dez anos.



fotos do Arquivo Nirez
Extraído do livro
Fortaleza de Ontem e de Anteontem, de Edigar de Alencar     


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Os Cabriolés de Norberto Golignac


Um cabriolé (do francês Cabriolet)   é uma carruagem leve,  de duas rodas, puxada por um animal, normalmente um cavalo. Podia  acolher dois passageiros que ficavam virados para a frente. O condutor/cocheiro fica por trás da carruagem, num apoio próprio, de onde podia  facilmente manobrar o cabriolé. Foi criado no início do século XIX em França.

E Fortaleza teve o privilégio de contar com esse tipo de veículo,  por um desses acasos que fez com que um francês viesse dar com os costados em terras alencarinas. Por volta de 1910, Norberto Golignac, nascido em Paris, no dia 7 de agosto de 1870, construía artesanalmente, com suas próprias mãos, elegantes e resistentes cabriolés, que serviam a população como meio de transporte e de lazer.

na Fortaleza do início do século, havia grande número de animais circulando pelo centro. O principal meio de transporte era o bonde puxado a burro (arquivo Nirez) 

O habilidoso artesão era visto frequentemente,  comprando ferramentas, tintas, parafusos, pregos, feixes de mola e tudo mais que servisse à confecção e reparo dos seus veículos.

Trabalhava o dia inteiro às vezes entrando pela noite, na oficina iluminada por dois enormes e perigosos lampiões de acetileno.  O mais belo cabriolé que fabricou foi um modelo especial, encomenda do industrial e comerciante Alfredo Salgado. Uma verdadeira obra de arte, admirada por onde passasse.

Fabricou outro veiculo para o industrial Dionísio Torres, dono de uma fábrica de guarda-chuva, localizada na esquina das Ruas Major Facundo com Pedro Borges, na Praça do Ferreira.
o piso irregular das ruas era um empecilho a mais para o desenvolvimento dos transportes (arquivo Nirez) 

A essa época o transporte era feito em bondes de burros em apenas três linhas: Outeiro, Benfica e Calçamento de Messejana. Cargas, mudanças, etc, eram transportadas em carroças puxadas por burros. Os cabriolés serviam para o transporte de pessoas aos mais distantes  pontos da cidade – missas, passeios, visitas.

Na noite em que não tinha o que fazer, Norberto Golignac  comparecia às serenatas com os boêmios familiares à fisionomia da cidade: Ramos Cotoco, Pompílio, Abel Canuto, Quintino Cunha e muitos outros que cantavam, tocavam violão ou flauta. Ninguém perdia uma noite de luar na Fortaleza antiga. Toda a boemia reunida saía pelas ruas em algazarra, parando aqui e ali para molhar a goela. As bodegas abriam suas portas em plena madrugada para atender aos seresteiros.

Francês de nascimento, cearense por opção e por gosto, Norberto Golignac  adaptou-se aos hábitos e costumes da terra,  permanecendo em Fortaleza até o seu falecimento, em 31 de julho de 1919.

domingo, 23 de outubro de 2011

Dias de Cão (na Itaoca)


Corria o ano de 1941. O Continente Europeu se via às voltas com um conflito armado, que alguns meses mais tarde haveria de se espalhar pelo mundo.  Os jornais de Fortaleza só falavam da guerra: dos ataques, das tragédias, dos mortos, dos bombardeios. O assunto era uma fonte inesgotável de interesse por parte da população, e as noticias eram fartas.

De repente, surge uma dessas histórias bombásticas, capaz de despertar interesse da população, de ofuscar as noticias da guerra, e de matar de curiosidade os viventes da pacata cidadezinha de pouco mais de 180 mil habitantes:  a de que satanás em pessoa, estava dando o ar da graça numa casa localizada no Beco da Itaoca,  então subúrbio de Fortaleza.

Na época do suposto aparecimento do Diabo, a Itaoca não tinha ruas, somente becos.  Não havia pavimentação, o piso era de areia, as casas simples, cercadas  de vegetação, nas imediações, uma lagoa, aterrada mais tarde.  O bairro era chamado de Pirocaia (nome do poço de água potável localizado próximo ao Beco da Itaoca). No fim dos anos 1940, o Beco da Itaoca passa a se chamar Rua Romeu Martins.

A Rua Romeu Martins atualmente fica no bairro Montese


Segundo testemunhas, na casa de um certo tenente da polícia, chamado João Lima,  fenômenos  estranhos e  acontecimentos inexplicáveis, sugeria a ação de entes invisíveis.  O proprietário do imóvel, homem honrado e trabalhador, andava assustado com os fatos de origem nada natural e sua família andava tomada de explicável nervosismo.

Em outra manifestação na casa, presenciadas por vizinhos e moradores do bairro, o móvel atingido foi o fogão, que deu umas piruetas pela casa e depois caiu sozinho, de pernas para o ar. Todos os utensílios da cozinha da casa voaram pelos ares; a chaleira parecia um zepelim, evoluindo pela casa toda;  os garfos e facas dançavam;  os pratos tiniam;  areia e pedras eram jogadas de todos os cantos, enquanto distintas senhoras jogavam água benta pela casa. Tudo em vão. Um jarro que estava no chão, ergueu-se num voo rasante e quase atingiu uma delas.


Como os fenômenos se repetissem, a policia foi chamada. Em presença das autoridades policias (2 delegados, 1 comissário e vários agentes), nada se registrou de anormal, ainda segundo o repórter. 

No entanto, um verdadeiro terror se apoderou de todos, chamando a atenção da população. A história das aparições na Itaoca se espalhou por toda a cidade, sendo manchete de três jornais e objeto de reportagem da PRE-9, a única emissora de rádio da cidade. Até mesmo o sóbrio Jornal O Nordeste, de propriedade da Diocese de Fortaleza, se pronunciou sobre o caso, reclamando providências. 

Uma multidão de curiosos se aglomerava todos os dias na casa do tenente João Lima, na tentativa de observar as manifestações. As opiniões se dividiam: uns acreditavam em manifestações sobrenaturais, outros em farsa  de espíritos zombeteiros,  enquanto havia quem oferecesse explicações  naturais para os fatos. Os curiosos, procedentes de todos os bairros, de todas as classes sociais, de todas as raças, e credos, se movimentavam fascinadas  pelas plumas imponderáveis da superstição e da curiosidade.

Quintino Cunha, grande humorista cearense, era vizinho da casa onde o cão fazia as estripulias, e arriscou um palpite: para Quintino aquilo era obra de almas bêbadas, talvez dos que foram ébrios em vida. No meio da polêmica até a Federação Espirita do Ceará se propôs a examinar a questão, intervindo, se necessário no caso da Itaoca.

De repente, tão inesperadamente como chegou, o Demo  sumiu, os fenômenos cessaram e os objetos da casa voltaram ao seu estado de inércia. O mesmo repórter que deu início às reportagens do jornal que divulgou o fenômeno, deu sua explicação para o fim do caso: Lúcifer deixou a Itaoca com medo dos catimbozeiros de lá, e resolveu retornar à Europa, onde a demência assume formas mais trágicas. 


Dizem que a história do Cão da Itaoca não passou de uma grande piada, uma história inventada por um jornalista  entediado com a escassez de noticias locais. Provavelmente não contava com a repercussão nem com as proporções que o caso assumiria.  Com a disseminação do caso do Cão em toda cidade, o nome "Itaoca" se firmou em nível local. Atualmente a Itaoca é oficialmente um bairro, situado entre o Montese e a Parangaba.

Do episódio, restaram os versos de um poeta popular, que registrou para a posteridade, o fenômeno que fez Fortaleza esquecer, ainda que momentaneamente, a Guerra na Europa. 

No passo do canguru
O diabo passou o mar
Foi direto a Itaoca
Pra tudo arrebentar

Numa casa bonitinha
Vivem todos incomodados
É que mãos que ninguém vê
Deixa tudo revirado

Chaleira voa pelos ares
Fogão reclama o calor
Vaso pula horrorizado
Tijolo diz que está com dor

Até os santo de casa
Dão mergulho no soalho
Diz o povo que o diabo
Joga em qualquer baralho

As telhas entoam cantiga
Os lençol sobem no vento
Quando voltam para o chão
Viram placa de cimento

Na frente de todo mundo
E em pleno meio dia
Rebolam pedra em cristão
Isso é coisa que arrepia

Eu fiquei muito assombrado
Com a tal exibição
Havia gente chorando
Com medo da danação

Um porco lá no quintal
Sorri com espalhafato
Metia o focinho no chão
E queria calçar sapato

A mesa caía de costa
Levantava bem as perna
Até lembrava coisa feia
De alma na pena eterna

Um peru fazia discurso
Parecia um senador
O bicho tava atuado
Com a alma dum doutor

Itaoca que coisa horrível
Paraíso da macumba
Catimbó dá na canela
E a polícia não faz “bumba”

Na Itaoca galo chora
E pé de pau assovia
Os espirito se assanha
Quer de noite, quer de dia

Gelo se vira em brasa
Os bebê fica velhinho
Velho vira garotinho
E minhoca cria asa.
J. Silva



fotos: ruas da Itaoca
Fontes:
Jornal Gazeta de Notícias, edições de 20, 21, 22 de março de 1941
Jornal o Nordeste, de 22 de março de 1941.
Jornal O Povo, de 28 de novembro de 2006.