terça-feira, 8 de junho de 2021

O Excelsior é o primeiro edifício de Fortaleza

 

Com 7 andares e um terraço – um espanto para a época – o primeiro arranha-céu de Fortaleza foi inaugurado no último dia do ano de 1931, e assinalou o início da construção de prédios altos na cidade. O projeto, de autoria desconhecida, foi inspirado num edifício de Milão, executado por Natale Rossi, irmão de Pierina Rossi, esposa do proprietário do edifício, o comerciante Plácido de Carvalho.



No acabamento foram utilizados materiais de primeira linha, importados da Europa, já que aquela época era praticamente inexistente esse tipo de produtos com alta qualidade, de procedência local. Em estilo eclético O Excelsior começou a ser construído como um prédio de alvenaria de tijolos de três pavimentos por volta de 1928/1929.  No decorrer das obras, o proprietário, Plácido de Carvalho, entendeu de elevá-lo para oito. Houve alerta dos engenheiros sobre os riscos de tal mudança. Em consequência, o proprietário contratou o engenheiro Archias Medrado, o qual calculou uma estrutura de concreto armado complementar. Os pilares, vigas e lajes foram construídos com a utilização de trilhos de trens adquiridos da Santa Casa da Misericórdia.




A portaria com a entrada para os elevadores ficou localizada na Rua Guilherme Rocha, enquanto o restante do pavimento térreo foi destinado a instalação de lojas e outros comércios. No primeiro andar funcionavam o restaurante, a barbearia, a cozinha, a adega, e o depósito de utensílios. Do segundo ao sexto pavimento ficavam os apartamentos, confortáveis, decorados, com água corrente, alguns completos com banheiros e outros avulsos.  No sétimo andar, a “joia da coroa”, um terraço com vistas para a cidade e o Bar Americano, cenário de festas, bailes elegantes, e do célebre “carnaval do sétimo céu”, movido a socialites, marchinhas, lança-perfumes, confetes e serpentinas.

O staff do hotel – gerente, copeiros, cozinheiros, garçons, camareiras – vieram do sul do país, devidamente treinados. O mobiliário também foi adquirido na Europa: espelhos bisotados, vidraças, lustres e móveis no estilo Art-Nouveau, lençóis e toalhas de linho irlandês, e para o salão de jantar, um piano de cauda Dooner. 



os antigos elevadores ainda funcionam

Fortaleza ainda não tinha descoberto seu potencial turístico e os meios de hospedagens, desde as pensões populares aos hotéis de várias categorias, eram todos no centro. Foram hóspedes do Excelsior, artistas que vinham em turnês, políticos, e famosos de todas as áreas, como a aviadora américa Amélia Earhart, o presidente Juscelino Kubitschek, o cineasta Orson Welles, a cantora lírica Bidu Sayão, o jogador de futebol Pelé, empresários, comerciantes, vendedores...


Plácido e Pierina

Os proprietários - Plácido e Pierina -  residiam no castelinho do Outeiro, construído na década de 1920. Depois que o hotel foi inaugurado, passaram a alternar entre o castelo e o Excelsior. Em 1933 a família decide se mudar para o Excelsior, porque Plácido precisava de cuidados médicos e o hotel oferecia maior facilidade de acesso. E foi num dos quartos do hotel que Plácido veio a falecer, no dia 5 de junho de 1935, aos 60 anos de idade. A viúva não voltou a morar no castelo do Outeiro, que ainda nos anos 30 foi alugado ao Serviço de Malária, órgão subordinado ao governo federal.


Plácido e Zaíra, filha de Pierina, no castelo do Outeiro

Pierina Rossi em seu castelo

No ano seguinte Pierina contrata os serviços do arquiteto húngaro Emilio Hinko para construção de seis casas para aluguel ao redor da edificação principal na quadra entre as avenidas Santos Dumont, ruas Carlos Vasconcelos, Monsenhor Bruno e Costa Barros. Alguns anos depois, Pierina e Hinko se casam e passam a morar numa dessas casas. Pierina faleceu em 11 de dezembro de 1958, e o hotel encerrou as atividades em 1° de outubro 1964, após 33 anos de intenso movimento.


Emilio Hinko

Mais tarde, Emilio Hinko passou a residir num dos apartamentos do Excelsior, em companhia de alguns familiares húngaros. Ele viveu no hotel até falecer no dia 04 de janeiro de 2002, aos 100 anos de idade.


Na época em que o Excelsior fechou, a pretexto de realizar reformas, o Centro ainda aglutinava os negócios e comércios importantes da cidade. Grandes lojas, os maiores cinemas, bancos, instituições; os maiores hotéis ainda estavam localizados no centro, exceto o Iracema Plaza que havia sido inaugurado na Praia de Iracema nos anos 50.


Hotel Savanah, na Praça do Ferreira

A inauguração do Hotel Savanah, em 12 de abril de 1964, instalado na vizinhança, na Rua Major Facundo, de frente para a Praça do Ferreira, com dez suítes e 128 apartamentos, distribuídos em treze andares, deu uma ideia da concorrência que o Excelsior viria a enfrentar. O Savanah foi a primeira torre hoteleira da cidade, e chegou a conquistar o posto de melhor e maior hotel de Fortaleza, arrebatando o título que até então pertencia ao Excelsior.



O Excelsior, que não é mais hotel, ainda tem o térreo ocupado por lojas e prestadores de serviços. No período natalino, se enfeita de vermelho e recebe as crianças do coral natalino,  compondo o Natal de Luz da Praça do Ferreira. Fica na Rua Guilherme Rocha, 172, centro.


A partir do início dos anos 70, a hotelaria começa a se expandir rumo ao litoral, na Avenida Beira-Mar e arredores, dentro da nova vocação turística que a cidade se inseriu; as lojas, cinemas, lanchonetes, bares e restaurantes, buscaram os grandes centros comerciais e os shoppings centers; e os órgãos de administração pública também buscaram novos endereços na parte leste da cidade. 

Desde então, os estabelecimentos com endereço no Centro, pagam o preço da expansão da cidade e da falta de políticas de revitalizações,  que possam tornar o local atrativo para novos empreendimentos, e que contemplem a ocupação de tantos espaços vazios.


Os grandes hotéis que fecharam no Centro

Palace Hotel – 1927 – 1971

Excelsior – 1931 – 1964

Lord Hotel – 1956 – 1992

San Pedro Hotel – 1959 – 1990

Hotel Savanah – 1964 – 1992

Premier Hotel – 1969 – década de 90

Hotel Sol – 1971 – 2001 

            

fotos: Arquivo Nirez e Fortaleza em Fotos

Fontes: Jornal O Povo, Anuário do Ceará, Guia Turístico da Cidade. 


quinta-feira, 22 de abril de 2021

Assembleia Provincial - Palácio Senador Alencar

 


A ideia de construção do prédio hoje denominado Palácio Senador Alencar, surgiu no dia 1° de setembro de 1855, quando o presidente Joaquim Vilela de Castro Tavares, em seu relatório de obras públicas, ressaltava a necessidade de uma casa que fosse condizente com as funções exercidas pelos legisladores da província, visto que a que funcionava como tal, parecia destinado às sessões de alguma municipalidade de aldeia. Nesse mesmo ano, a assembleia votou e destinou o orçamento para início da obra.

No ano seguinte, o presidente Vicente Pires da Mota mandou levantar a planta da casa da Assembleia, e não havendo terrenos devolutos, encarregou ao presidente da câmara municipal, Antônio Rodrigues Ferreira para comprar o terreno ocupado com as casas denominadas quartos da Agostinha, (segundo consta, Agostinha era uma ex-escrava de Luís Ribeiro de Vasconcelos). Nos quartos da preta Agostinha funcionavam alguns estabelecimentos comerciais onde eram vendidos gêneros alimentícios, fumo, rapadura e aguardente. Os cômodos foram adquiridos pelo governo e demolidos em seguida. Foi autorizado o pagamento pelo cofre da municipalidade para posterior indenização pela província. Sendo preciso mais terrenos, compraram mais casas e mais terras com três braças de frente.


A obra foi iniciada em 25 de outubro de 1856, com projeto de Adolfo Herbster, em estilo neoclássico, ficando determinado que o edifício abrigaria a Assembleia Provincial e o Liceu. Depois deliberou-se que o estabelecimento de ensino seria instalado em outro local. A construção foi paralisada em 1857, pelo presidente Antônio Marcelino Nunes Gonçalves e recomeçada em maio de 1860. A partir de 1865 os serviços de finalização ficaram a cargo do engenheiro Adolfo Herbster (até então estavam sob responsabilidade do engenheiro José Antônio Seifert). A obra foi finalmente entregue no dia 3 de março de 1871.


 sede da Assembleia Legislativa, com trincheiras abertas pelos simpatizantes de Franco Rabelo, eleito governador em 1912,Em novembro do mesmo ano, tentaram realizar uma sessão na Assembleia, com a finalidade de depor o novo governador, mas tiveram suas pretensões rejeitadas pelos rabelistas, que impediram o acesso dos deputados ao plenário

Algumas instituições funcionaram no local, concomitantemente com a Assembleia: em 1895 os Correios foram instalados no térreo, onde ficou até 1895; depois entre 1937 e 1947, abrigou a sede da Universidade de Direito Livre do Ceará, a Biblioteca Pública, o TRE e o Instituto do Ceará e Academia Cearense de Letras. Em 1991, passou a sediar o Museu do Ceará.     

O palácio da assembleia permaneceu sem uma denominação oficial até fins da década de 40, quando entrou em debate a escolha de um nome para o edifício. O nome do senador José Martiniano de Alencar, foi proposto e defendido por um deputado. Alencar teve seu nome aprovado por unanimidade, como patrono da Assembleia Legislativa do Ceará.

Localizada no quadrilátero entre as ruas São Paulo (frente principal), General Bezerril, Floriano Peixoto e Travessa Morada Nova, a Assembleia Provincial, mais tarde Assembleia Legislativa funcionou a partir de 1871 e permaneceu no Palácio Senador Alencar até o dia 10 de maio de 1977, quando se mudou para o novo endereço na Avenida Desembargador Moreira.





"Causo" na Assembleia (um de muitos) 


Osiris Pontes era presidente da Assembleia do Ceará. Vilmar Pontes e Pontes Neto também eram deputados. Os três eram irmãos. Uma tarde Osiris Pontes presidia a sessão quando Vilmar Pontes foi à tribuna e começou a atacar violentamente, o governador Parsifal Barroso. Pontes Neto pediu um aparte:

– não admito que V. Excelência fique aí, atacando um homem honrado.

Vilmar Pontes gritou lá da tribuna:

– honrado coisa nenhuma! Honrado só para um empreiteiro marmeleiro como V. Excelência!

Começou a confusão. Vilmar Pontes querendo descer da tribuna, Pontes Neto querendo subir. A turma do deixa-disso segurou os dois. Lá de cima, na presidência, Osiris Pontes tocou forte a campainha e berrou: 

– se vocês continuarem brigando, vou chamar a mamãe! Acabou a briga.



extraído do livro: Folclore político; 1950 histórias de Sebastião Nery 

Fontes: Descrição da Cidade de Fortaleza, de Antônio Bezerra de Menezes – introdução e notas de Raimundo Girão

A Praça e o Povo, de Alberto S. Galeno

Caminhando por Fortaleza, de Francisco Benedito

Fotos IBGE e Arquivo Nirez 

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Fortaleza faz 295 anos (e tem muitas histórias para contar)


Há 295 anos no dia 13 de abril de 1726, a Coroa Portuguesa transformava o povoado localizado às margens do riacho Pajeú na Vila de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. A data passou a ser o marco de fundação da cidade.

A cidade que chega aos 295 anos é a mais populosa do Ceará e a 5ª cidade do país. De acordo com as projeções feitas pelo IBGE, a população estimada de Fortaleza em 2020 é 2.686.612 habitantes.

Fortaleza é também um dos menores municípios do Ceará, com uma base territorial de 313 km², a mesma do município de Jati (CE) que conta com apenas 8.130 habitantes.

É um dos maiores destinos turísticos do Brasil, recebe visitantes do mundo todo durante o ano inteiro, já que não apresenta variações climáticas significativas e seus maiores atrativos estão no litoral.

No que pese todos esses indicativos, é uma cidade que tal e qual a antiga vila, continua sendo negligenciada pelos governantes, que não suprem as necessidades de serviços básicos de saúde, educação, saneamento, transportes, limpeza, segurança; não gerenciam o patrimônio público com eficiência, permitindo a ocupação de áreas públicas por construções irregulares. 






 

quarta-feira, 24 de março de 2021

O Percurso dos Bondes da Light na Fortaleza dos Anos 40

 

Em tempos passados, o Jacarecanga enquadrava-se como um dos mais distintos bairros residenciais de Fortaleza, embora seu marco principal e seu endereço mais conhecido era o edifício do Liceu do Ceará, estabelecimento padrão do ensino, e o primeiro colégio de Fortaleza, fundado em 1845. O bairro ostentava diversas residências que se diferenciavam da modesta e antiquada linha arquitetônica da cidade mais antiga, com suas casinhas conjugadas, de porta e janelas de frente. No trajeto do bonde do Jacarecanga, todo o corredor constituído pela Rua Guilherme Rocha até a então Praça Fernandes Vieira (hoje Gustavo Barroso), apresentava um conjunto de luxuosas residências, quase todas em amplos terrenos e com dois pavimentos.



Casarão do empresário Oscar Pedreira no bairro Jacarecanga. Com três pavimentos, era uma das residências mais bonitas da área. Foto do acervo Marciano Lopes 

Nos outros bairros, como o Benfica, por exemplo, a então Avenida Visconde de Cauípe – atual Avenida da Universidade – também oferecia uma imagem modernizante. Ladeando os trilhos do bonde, muitas casas residenciais, dentre elas a da família Gentil, feita para acolher nos limites da mansão, implantada numa área equivalente a 2 hectares, todos os membros de sua numerosa descendência.

Pela orla marítima, Fortaleza daqueles dias ficava restrita ao pequeno trecho de moradias dos ricos da Rua dos Tabajaras, na Praia de Iracema, lugar aristocrático, onde se destacava a Vila Morena, da família Porto, mais tarde transformada em sede do clube de oficiais norte-americanos que aqui serviram ou transitaram em tempos de segunda guerra.

Depois da Rua dos Tabajaras havia apenas o “palacete” – uma construção de dois pavimentos, estilo bangalô, do empresário Fernando Pinto, sede do Jangada Clube, onde aconteciam grandes noitadas boêmias e a visita de artistas consagrados, como Orson Welles. Não por acaso denominava-se jangada Clube, porque ficava situada precisamente num “porto de jangadas”, onde à tardinha, centenas dessas embarcações atracavam trazendo o peixe fresquinho, apanhado na linha do horizonte.



O Jangada Clube funcionou de 1935 a 1950. Desativado, o prédio foi vendido ao empresário Ivens Dias Branco, que o mandou demolir em 1984 para construção do Edifício Jangada. imagem do Arquivo Nirez


Rumo ao nascente, acompanhando o trajeto da orla, a Avenida Santos Dumont acolhia os trilhos do bonde do Outeiro, primitiva denominação da Aldeota. O final da linha do bonde era na esquina com a Avenida Barão de Studart, onde após logo à esquerda, encontrava-se o Country Clube, instituição fechada onde a colônia britânica confraternizava-se com a alta sociedade local. Ali morria o Outeiro e começava uma mata fechada que se estendia até à altura do Mucuripe, então um distrito isolado e quase inteiramente ocupado por humildes pescadores.

A Avenida Santos Dumont adentrava mais algumas quadras além da Barão de Studart, com algumas edificações modernas, com especial relevo para o Palácio do Plácido de Carvalho, que viria a ser impiedosamente demolido alguns anos mais tarde. A área relativa à “mata da Aldeota”, era frequentemente denunciada por moradores pioneiros que consideravam o lugar como “coito de ladrões”.

A cidade dos anos 30/40 constituía-se principalmente do centro – Praça do Ferreira e sua vizinhança e ruas residenciais servidas pelas diversas linhas de bondes. A expansão era lenta a partir do término dos trilhos, como, por exemplo, o bairro do Alagadiço, onde havia uma concentração residencial até a altura da Igreja de São Gerardo, seguindo-se amplos espaços vazios e algumas chácaras de famílias mais abastadas.

O mesmo ocorria com o Benfica, os trilhos terminavam defronte ao Dispensário dos Pobres, instituição caritativa, mantida por religiosas. Daí em diante começava o Concreto da Parangaba, longa pista de cimento e pedra construída ao tempo do Governo Washington Luiz e que, com a Revolução de 30, ganhou a denominação de Avenida João Pessoa.

À margem da avenida João Pessoa, foram surgindo residências de classe média; um dos pioneiros da área era o empresário Oliveira Paula, proprietário da Empresa São José, cujos ônibus, bem modernos e confortáveis serviam às linhas do Benfica e de Parangaba e fizeram concorrência aos bondes. Os ônibus eram identificados por uma inscrição nos para-choques dianteiros, havia o “Rio de Janeiro”, o “Bandeirante”, o “Rio Grande do Sul”, e o mais famoso deles, o “Trevo da Felicidade”; motoristas e passageiros se conheciam e se tratavam pelo primeiro nome, nos bons tempos em que até os ônibus tinham sua própria identidade.

No velho Calçamento de Messejana, oficialmente Avenida Visconde do Rio Branco, mais conhecido por Joaquim Távora, havia uma uniformidade no casario, residências geminadas, algumas simples, outras nem tanto, que se derramavam de um lado e do outro dos trilhos de bondes até a chamada “terceira secção”, bem antes da confluência com a Avenida Pontes Vieira. O destaque arquitetônico do Joaquim Távora ficava por conta do Colégio das Doroteias, com sua bonita capela, junto à qual funcionava o Convento das Carmelitas.



Avenida Visconde do Rio Branco, antigo Calçamento de Messejana com o bonde do Joaquim Távora - imagem do Arquivo Nirez

Depois da “terceira secção” uma outra construção se diferenciava da maioria, a residência da família de Alberto Costa Sousa, casado com dona Iracema Gentil, filha do coronel José Gentil, fundador da Gentilândia.

Modesto era o José Bonifácio, outro bairro servido pelos bondes da Ceará Light, hoje incorporado à região central, mas que ainda guarda resquícios dos anos 40, com algumas casinhas baixas, de arquitetura simples. No período da guerra, a Polícia Militar, dona de um quartel naquela área, cedeu o imóvel ao Exército, que ali instalou o 29º Batalhão de Caçadores, o então famoso “vinte e nove” apelidado pelo povo de “terror das areias”, dadas as estripulias cometidas pelos seus soldados nas zonas mais afastadas do centro da cidade.



Quartel da PM que um dia abrigou o famoso "29, o terror das areias". Fica na Praça José Bonifácio - imagem site da PM 

Pobre também era a Prainha, um arruado de casebres nas vizinhanças do Seminário, moradias de pescadores afiliados às Colônias da Praia de Iracema e da Prainha. O bairro possuía um referencial bastante conhecido além do Seminário. Era o Ideal Clube, que construiu moderna sede naquela zona em meados dos anos 30, depois de deixar sua sede das Damas. O Seminário era uma espécie de prolongamento do bairro da prainha, servido por outra linha de bondes, cujo terminal ficava na então denominada Rua da Escadinha, hoje Almirante Jaceguay, em frente à Igreja da Conceição da Prainha.

Além, havia a periferia miserável, como o Morro do Moinho, território atualmente ocupado pelo bairro do Pirambu, a cujos limites pertencia o baixo meretrício da cidade, ponto final das prostitutas envelhecidas, o Arraial Moura Brasil, conhecido popularmente como Curral. A este se podia ter acesso pelo bonde da Linha Férrea, que saía da Praça do Ferreira até a Praça Castro Carreira, a Praça da Estação.



Bonde da linha Via Férrea, que terminava na Praça da Estação - imagem Arquivo Nirez

Paralela ao muro do cemitério São João Batista, corria a Rua Tijubana, típica viela dos bairros pobres, mas a qual também chegavam os bondes da velha Light, a linha Soares Moreno. A Tijubana interligava o bairro Soares Moreno ao Jacarecanga. As casas eram humildes e abrigavam pessoas modestas. 



Bonde Soares Moreno - Arquivo Nirez

Rua Tijubana, por onde corria o bonde da linha Soares Moreno (imagem google) 


Extraído do livro – O Liceu e o Bonde na paisagem sentimental da Fortaleza-província, de Blanchard Girão. Editora ABC - Fortaleza, 1997   

sábado, 13 de março de 2021

A Capital da Província

 

Politicamente inexpressiva, Fortaleza não passava de um pequeno burgo até as primeiras décadas do século XVIII. A chegada do primeiro governador do Ceará, Bernardo Manuel de Vasconcelos, só iria acontecer em 1799. Ao chegar, o governador espantou-se com a pobreza da capital, onde havia escassez absoluta de todas as coisas de primeira necessidade. Surpreso, o governador  fez um paralelo entre a capital e a Vila de Aracati, onde havia um comércio estabelecido, numerosa população, acrescentando que “a civilidade e a polidez de seus habitantes fazem desta vila assaz recomendável, juntando a isso uma agradável e regular arquitetura das casas, e no grande número delas, os donos possuem vultosos cabedais”, enquanto a Vila de Fortaleza era “um montão de areia profundo, apresentando do lado pequenas casas térreas, encontrando nesta classe a muito velha e arruinada casa dos governadores”. Nesse mesmo ano Capitania do Ceará foi desmembrada da Capitania de Pernambuco e Fortaleza foi escolhida capital.



Fortaleza na época em que foi elevada à categoria de Vila, em 1726. Desenho atribuído ao capitão-mor Manuel Francês, que a instalou. Era a Praça do Conselho, atual Praça da Sé. Em cima, à direita, o forte de N.S. da Assunção, com a bandeira portuguesa. 

No início do século XIX, Fortaleza ainda tinha seu crescimento restrito à margem esquerda do Riacho Pajeú, acompanhando as sinuosidades do rio, principal fonte de abastecimento de água. O riacho dividia as terras imediatas à fortaleza de Nossa Senhora da Assunção em duas zonas distintas: o Outeiro da Prainha na margem direita e a margem esquerda, onde a Vila se estendia.       

Por volta de 1810, segundo registros do inglês Henry Koster, que visitou a Vila do Forte naquela época, o lugar tinha cerca de dois mil habitantes, e não era compreensível a razão da preferência pelo local. Não havia rios nem cais e a praia era de difícil acesso; A vila erguia-se ao pé do forte que lhe deu o nome, e tanto a fortaleza quanto o paiol da pólvora erguiam-se sobre uma montanha de areia.

Ainda de acordo com o inglês, a vila apresentava formato quadrangular, com quatro ruas partindo da Praça do Conselho (atual Praça da Sé), onde se encontravam o pelourinho e a igreja matriz. As quatro ruas mencionadas por Koster, eram a antiga Rua da Cadeia ou do Quartel; (atual Gustavo Sampaio), a Rua da Boa Vista, atual Floriano Peixoto; a Rua dos Mercadores, na margem oriental do riacho Pajeú (atual Conde D’Eu) e a Rua da Fortaleza, depois chamada de Rua da Misericórdia, atual Rua Dr. João Moreira; havia ainda outra rua, a das Flores, bem longa, correndo paralelamente, mas sem conexão, e que passava defronte a matriz. (atual Rua Castro e Silva).

Em 1813, a Câmara Municipal possuía uma planta parcial da vila, elaborada pelo engenheiro Antônio José da Silva Paulet, que posteriormente a complementou, incluindo outras áreas que demonstravam a viabilidade de expansão no sentido Leste-Oeste.



A planta de Silva Paulet, de 1813, reproduz a vila avistada por Koster. No mapa já estão presentes os caminhos que orientam o seu crescimento, dispostos de forma radioconcêntrica: estradas de Jacarecanga, do Soure, do Arronches, de Aquiraz, da Precabura e a Picada de Macoripe. A cidade cresceu obedecendo ao traçado xadrez proposto por Paulet.
   

Por ordem de Dom Pedro I, a vila é elevada à categoria de cidade, no dia 17 de março de 1823, passando a ser chamada de Fortaleza de Nova Bragança. Em 1842 há registros de despesas municipais com o alinhamento de becos e ruas, sendo aplicada uma multa de trinta mil réis aos que desobedecessem às determinações da Câmara, ou descumprisse as normas.

No ano seguinte, havia a preocupação com o nivelamento e aterro das ruas, e posteriormente, os proprietários das casas tiveram o prazo de apenas 8 dias para pavimentar os logradouros. A pavimentação era incipiente, não atendia às necessidades, sendo comuns as reclamações acerca de pedras soltas, que dificultava o tráfego de veículos. Era proibido o tráfego de carros puxados por bois nas ruas calçadas, sob pena de multa aos infratores no valor de quatro mil réis ou 8 dias prisão.


Rua Floriano Peixoto - início do séc. XX

Quanto à projeção política só começou com a emancipação do Brasil de Portugal em 1822 e se processou de forma muito lenta. Durante o governo imperial, que se estende até 1889, ano da Proclamação da República, o Brasil viveu uma fase de concentração política. É dessa fase a criação das províncias do império, entre elas, a do Ceará. 

A situação de estagnação só começou a ser superada a partir de 1866, quando a cidade passou a ser o centro coletor de algodão, couro, açúcar e café do Estado. Nessa época, o algodão produzido no interior atingia os maiores preços no mercado internacional, por causa da suspensão da produção nos Estados Unidos, envolvido na guerra de Secessão, entre 1861 e 1864, para a Inglaterra.  

O escoamento da produção através do porto de Fortaleza, fez com que a cidade, capital e centro administrativo da Província, ultrapassasse Aracati também em importância comercial. O que fez Fortaleza vencer a disputa pela hegemonia no Ceará foi o fato de ter sido escolhida como capital da província. O sistema político-administrativo do Império criou os mecanismos políticos e institucionais que favoreceram Fortaleza. Este fato e o volume maior da produção para o comércio externo contribuíram para que a maior parte dos investimentos governamentais em edificações, infraestrutura, e serviços fossem aplicados na capital. 


Rua da Lagoinha, depois Rua do Trilho de Ferro -  um estreito caminho que, depois de alargado com mais de 40 palmos para o poente, serviria à primitiva Estrada de Ferro de Baturité

Com a abertura de estradas de ferro da capital para os principais centros urbanos do interior, Fortaleza assumiu também a hegemonia política. A Estrada de Ferro Baturité foi criada no dia 25 de setembro de 1870, iniciou as atividades de 1873, e tinha como ponto final à cidade de Baturité, na região produtora de café. Em 1878 foi criada outra ferrovia, a Estrada de Ferro Sobral, que ligava Camocim a Sobral. Em 1909, quando a ferrovia alcançava a cidade de Acopiara, a Estrada de Ferro Baturité foi juntada com a Estrada de Ferro Sobral e criada a Rede de Viação Cearense.


Fontes:

Revista do Instituto do Ceará: Fortaleza, capital do Ceará: transformações no espaço urbano ao longo do século XIX – autora Maria Clélia Lustosa Costa. 2014/03.

Revista Fortaleza: De Vila à Capital da Província – autor Erivaldo Carvalho. 30/04/2006

Verso e Reverso do Perfil Urbano de Fortaleza, livro de Gisafran Nazareno Mota Jucá

Fotos do Arquivo Nirez - Mapas do livro "A Cidade do Pajeú", de Raimundo Girão     

  

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

As Noites Boêmias da Praia de Iracema

 

A zona portuária da Praia de Iracema sempre foi um lugar de muitos agitos: de passageiros que demandavam a Ponte Metálica, de carregadores em busca dos velhos armazéns, de donos de embarcações, de frequentadores dos bares e restaurantes que funcionavam no local, de mulheres em busca de amores e programas passageiros. Mas o local começou a mudar quando a Ponte Metálica, enquanto porto de Fortaleza, foi sendo gradativamente desativada, à medida em que se alargavam as possibilidades oferecidas pelo Porto do Mucuripe. Assim, devido ao esvaziamento da área, muitos estabelecimentos do entorno, que funcionavam em função do porto, também perderam suas razões de existência. E esses espaços vazios, ficaram disponíveis para acolherem novas funções e atraírem um novo público para o local. E foi o que efetivamente aconteceu.



Zona portuária de Fortaleza em 1910, Alfândega e armazéns (Arquivo Nirez)


Ainda na década de 1940, a região dos antigos galpões que serviram ao porto, começou a ser ocupados por bares e boates. O lugar ainda era mal iluminado, com vários imóveis velhos, com fachadas desgastadas, ocupados por antigos moradores do bairro. Havia muitas casas fechadas e abandonadas, ruas sujas e pavimentação irregular.

Na década de 1950 o bairro Praia de Iracema começou a ser frequentado por um tipo de público diverso daquele que conhecera quando era zona portuária, formado por vários artistas plásticos que vieram morar ali, atraídos pela possibilidade de instalar seus ateliês e pelos baixos preços dos aluguéis das casas.

 


Região da Praça do  Cristo Redentor antes da construção do Centro Cultural Dragão do Mar (foto de Amélia Earhart - 1937)
  

Na área ainda funcionavam velhos estabelecimentos como o Cabaré da Pirrita (que na verdade era um barzinho pra lá de irreverente frequentado por políticos e artistas) e o Cabaré 90, remanescentes da época em que ali funcionava o porto de Fortaleza. Existiam também duas boates frequentadas pelo público gay-underground - Rainbow e Galpão - e dois bares que também eram galerias de arte - onde eram expostas e comercializadas, principalmente, as produções dos seus vizinhos artistas – o Coração Materno, de propriedade do compositor e produtor baiano Nonato Freire - o local totalmente heterogêneo, era considerado o mais "gay friendly” da cidade, funcionando a partir de quarta-feira. Ali perto, ficava um outro bar, o “Besame Mucho”, que junto com o Coração Materno, atraíam para essa área a elite intelectual e universitária. Nesta época, o Centro Dragão do Mar ainda não existia, e a rua era aberta ao tráfego de veículos. Localizados na Rua Dragão do Mar os dois bares fecharam por conta da construção do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

Fora da área dos antigos galpões, surgiram ao longo dos anos diversos bares e restaurantes que brilharam e fizeram história nas alegres noitadas da Praia de Iracema: Nos anos 50 o francês Charles Delleva inaugurou o revolucionário Restaurante Lido, uma novidade no ramo em Fortaleza, adaptando a antiga casa de praia da família Markan. O novo restaurante tinha um salão imenso, com decoração onde se mesclavam o rústico praiano cearense e detalhes que remetiam à França, inclusive tabuletas de ruas e praças famosas de Paris. Usava uma iluminação em penumbra, que tornava tudo muito suave, e deu um toque de sofisticação às noites da Praia de Iracema. Na década de 1970, o Lido começou a entrar em declínio, quando passou para outras mãos e em declínio continuou, até fechar e dar lugar a um edifício de apartamentos.

O Estoril começou como residência, virou cassino de soldados americanos durante a segunda guerra, e depois teve diversos usos na mas mãos de diversos proprietários. Na metade dos anos 90 ressurgiu com toda a força como espaço cultural, e virou reduto da boemia, dos artistas e intelectuais. Todo mundo que tinha uma história para contar, se encontrava no Estoril.



Estoril - Vila Morena (foto O Povo)

Na década de 80, abriram bares e restaurantes memoráveis como o La Trattoria, que ficava onde hoje está o Centro Cultural Belchior; inaugurado em 1980, o local foi considerado o primeiro restaurante genuinamente italiano da Capital, oferecendo um ambiente aconchegante, decorado com peças antigas e regionais da Itália e do Nordeste. O sucesso foi tanto que o La Trattoria foi diretamente responsável pela chegada de outro point de bastante sucesso na Praia de Iracema, o Cais Bar.

O Cais Bar, propriedade de Joaquim Ernesto músico conhecido das noites de Fortaleza, funcionou entre 1985 a 2003, e conheceu todas as glórias da Praia de Iracema. Reduto de boêmios, poetas, artistas, intelectuais, acolhia todas as tribos num ambiente alegre e animado. Com a decaída da Praia de Iracema, o Cais bar caiu junto. E a noite de Fortaleza nunca mais foi a mesma.


 

Cais Bar na Praia de Iracema (foto O Povo)

O Pirata Bar foi criado em 1986 e inaugurou uma inédita segunda feira do forró, que atraia milhares de nativos e turistas, e era a grande sensação da noite da Praia de Iracema. A criação de bares e espaços voltados para o lazer continuaram por toda década de 1990, até que a requalificação, efetivada na área, mudou radicalmente o perfil dos frequentadores da área.



Restaurante Sobre o Mar de Iracema anos 90 (acervo particular)

A inauguração do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em 28 de abril de1999, que pretendia a reestruturação e revitalização da antiga zona portuária da capital, mudou toda a configuração da área, promoveu melhorias na infraestrutura, expulsou bares tradicionais e atraiu um público mais diversificado direcionado ao equipamento. A requalificação da Praia de Iracema de certo modo contribuiu para sua decadência, quando bares e casas noturnas passaram a ser frequentados por prostituas e estrangeiros interessados no chamado turismo sexual.



bares no entorno do Centro Cultural Dragão do Mar em 2010 (foto Fortaleza em Fotos)

Mesmo antes da propagação da epidemia de Covid, que restringiu a mobilidade da população, o Centro Dragão do Mar já se encontrava em franca decadência, fosse pela insegurança, fosse pela escassez de vagas de estacionamentos, fosse pelos abusos cometidos por flanelinhas; as atrações culturais, proposta maior do equipamento se reduziram drasticamente, vários estabelecimentos do entorno fecharam e os frequentadores habituais debandaram em busca de lugares menos hostis.   

Ainda restam bons restaurantes e bares que tentam resgatar os tempos áureos, mas lidam com os mesmos problemas que tem afetado a cidade como um todo: a insegurança pública, o maior deles. Em diferentes períodos algumas intervenções foram feitas visando  resgatar o clima e o velho charme do local, mas até aqui, todas essas tentativas deram em nada. A Praia de Iracema, enquanto lugar de encontro de lazer noturno, está seriamente comprometida. E dessa vez, a culpa não é do mar.


Fontes:

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/1/22/revista_da_folha/

tese de doutorado de Roselane Gomes Bezerra - Disponível em  http://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/6247/1/2008-TESE-RGBEZERRA.pdf

Diário do Nordeste 

 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021


Fortaleza - 1976 - Você vivenciou a cidade nessa época? 

Reportagem da Agência Nacional sobre a cidade de Fortaleza. O vídeo mostra diversos aspectos da capital cearense, como o bairro de Aldeota, a Praia do Náutico, o Teatro José de Alencar e a Catedral. O vídeo também apresenta as atividades do Centro Social, e outros

domingo, 7 de fevereiro de 2021

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

A iluminação e a escuridão das ruas

 

Numa cidade que contava com a intensa iluminação e constante presença do sol, quando este desaparecia, a população sofria com a escassez de iluminação, e a escuridão imperava nas ruas de Fortaleza. Seguindo uma tradição que então impregnava o imaginário da Europa moderna, a noite era considerada "amiga da maldade, companheira de Satã e de seus malefícios".



Praça do Ferreira, fins do século XIX. Ao fundo, o Café Java. (Foto Arquivo Nirez)

Aliados a esta tradição havia o temor que faziam da iluminação um tema tratado não apenas como modernidade para a cidade e sim como matéria de segurança. Mas a preocupação com a segurança noturna da cidade veio de maneira tardia. Somente no ano de 1838 é que foram instalados cinquenta lampiões para a iluminação pública. O encarregado da aquisição foi o comerciante Martinho Borges, que enviaria os lampiões diretamente do Rio de Janeiro, do mesmo feitio e construção que os usados naquela cidade.

O montante de recursos destinados à iluminação da cidade, 2:000$000, foi supostamente quase todo gasto na aquisição dos lampiões e suas ferragens. Com o desejo de completar a iluminação, Manoel de Sousa Mello solicitava a liberação de verba para compra de azeite – combustível fundamental para efetivação das luminárias.

A opção pelo azeite de peixe como combustível, acompanhava, àquela época, uma tendência nacional. Cidade como o Rio de janeiro já industrializava a extração do óleo de baleia, comercializado para uso nos lampiões de óleo. Na costa do Ceará, teria ocorrido a dizimação das baleias e do peixe-boi a partir do século XVIII, abatidos para o consumo da carne e usados na produção de óleo, consequência da atividade predatória dos corsários e dos Tremembés, índios célebres pela ferocidade e que eram hábeis pescadores, o que se leva a deduzir que o azeite usado na iluminação de Fortaleza era importado de outros Estados. O óleo de baleia, aqui chamado de azeite de peixe,  gerava uma luz estável e brilhante, embora produzisse muita fumaça. O Azeite de peixe foi utilizado também como argamassa na construção civil. 



O prédio da antiga alfândega de Fortaleza,  teve projeto de José Gonçalves da Justa, execução e obras de Tubias Laureano Figueira de Melo e Ricardo Lange, que utilizaram pedras e argamassa feita de óleo de peixe e areia. (Foto Arquivo Nirez)

Em 1839, a iluminação ainda era uma expectativa: os lampiões adquiridos no Rio de Janeiro chegaram e foram fixados nas ruas, porém não funcionavam. O motivo era a falta de quem se encarregasse da iluminação, pois a quantia destinada ao prestador do serviço era ínfima e não atraía nenhum interessado. A sugestão do presidente da província João Antônio de Miranda, era mandar iluminar sem arrematação, pois esse empreendimento não atrairia nenhum investimento, por não permitir maior especulação.

Em 1841, ou seja, três anos depois da aquisição dos lampiões a situação da iluminação da cidade continuava delicada. O orçamento da província havia destinado 4:000$000 para o fornecimento de  azeite de peixe – o dobro do utilizado para aquisição dos candeeiros. Como não pareceram licitantes, o fornecimento poderia ser por empreitada. O único que se apresentou foi José Teixeira Pinto, que ofereceu 1700$000 por semestre. O governo indeferiu a proposta, por achar que o candidato não tinha condições de cumprir o acerto.



representação da troca de óleo dos lampiões. (Tela de Debret) 

No mesmo ano, diante das restrições orçamentárias, o governo decidiu eliminar as verbas que seriam destinadas à iluminação. Mais tarde, o assunto voltava a ser matéria de discussão na Assembleia, mas não para sugerir novos investimentos ou a necessidade de expansão do serviço, mas para examinar proposta do presidente da província, de suspensão das despesas com os lampiões, considerando a situação delicada do erário público. De acordo com aquele administrador, fazia-se necessário economizar os gastos com a iluminação não só, porque não era considerada prioridade, como era muito onerosa aos cofres provinciais.

Assim, mesmo depois da década de 1840, Fortaleza não conhecia um sistema competente e continuado de iluminação pública baseado em lampiões de azeite. As noites eram longas e assustadoras, o que imprimia uma rotina de recolhimento cedo, na qual os moradores precisavam se recolher às suas casas e improvisar a iluminação de suas moradas, na maioria das vezes, feitas por lamparinas e velas de cera de carnaúba.



primeira concessionária para exploração da iluminação pública da cidade, a companhia inglesa Ceará Gas Company (foto do livro A História da Energia no Ceará)  

A tão esperada iluminação das ruas só veio a se concretizar alguns anos depois e foi iniciada em 01 de março de 1848. O trabalho foi contratado com Vitorino Augusto Borges, que se obrigava, entre outras coisas, a instalar 44 lampiões, que deveriam ser mantidos sempre limpos e brilhantes, e a conservá-los acesos entre as 6 horas da tarde até o raiar do dia seguinte, ou até que saísse a lua.

O privilégio da concessão foi transferido, com autorização do governo para a companhia inglesa Ceara Gaz Company Limited. No mesmo ano de 1848, foram colocados nas ruas de Fortaleza 25 lampiões pendentes com iluminação de azeite de peixe. Desse período de experiências inovadoras na cidade, fica também a lembrança de um homem simples, o primeiro acendedor de lampiões a percorrer as ruas da cidade, na tarefa diária de acender e apagar os pontos de iluminação, conhecido na memória da cidade pela alcunha de Chico Lampião.

 



Nas noites de lua os lampiões não eram acesos, o que levou alguns cronistas da época a denominarem o acordo de "contrato com a lua". Mas a prática não era só dos cearenses. Em alguns dos outros Estados, havia cláusula contratual prevendo o não acendimento dos lampiões em noites de luar. 

Fontes:

Entre o Futuro e o Passado – aspectos urbanos de Fortaleza (1799-180), de Antônio Otaviano Vieira Jr. 

História da Energia no Ceará, de Ary Bezerra Leite

Fortaleza Velha, de João Nogueira