sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

As Noites Boêmias da Praia de Iracema

 

A zona portuária da Praia de Iracema sempre foi um lugar de muitos agitos: de passageiros que demandavam a Ponte Metálica, de carregadores em busca dos velhos armazéns, de donos de embarcações, de frequentadores dos bares e restaurantes que funcionavam no local, de mulheres em busca de amores e programas passageiros. Mas o local começou a mudar quando a Ponte Metálica, enquanto porto de Fortaleza, foi sendo gradativamente desativada, à medida em que se alargavam as possibilidades oferecidas pelo Porto do Mucuripe. Assim, devido ao esvaziamento da área, muitos estabelecimentos do entorno, que funcionavam em função do porto, também perderam suas razões de existência. E esses espaços vazios, ficaram disponíveis para acolherem novas funções e atraírem um novo público para o local. E foi o que efetivamente aconteceu.



Zona portuária de Fortaleza em 1910, Alfândega e armazéns (Arquivo Nirez)


Ainda na década de 1940, a região dos antigos galpões que serviram ao porto, começou a ser ocupados por bares e boates. O lugar ainda era mal iluminado, com vários imóveis velhos, com fachadas desgastadas, ocupados por antigos moradores do bairro. Havia muitas casas fechadas e abandonadas, ruas sujas e pavimentação irregular.

Na década de 1950 o bairro Praia de Iracema começou a ser frequentado por um tipo de público diverso daquele que conhecera quando era zona portuária, formado por vários artistas plásticos que vieram morar ali, atraídos pela possibilidade de instalar seus ateliês e pelos baixos preços dos aluguéis das casas.

 


Região da Praça do  Cristo Redentor antes da construção do Centro Cultural Dragão do Mar (foto de Amélia Earhart - 1937)
  

Na área ainda funcionavam velhos estabelecimentos como o Cabaré da Pirrita (que na verdade era um barzinho pra lá de irreverente frequentado por políticos e artistas) e o Cabaré 90, remanescentes da época em que ali funcionava o porto de Fortaleza. Existiam também duas boates frequentadas pelo público gay-underground - Rainbow e Galpão - e dois bares que também eram galerias de arte - onde eram expostas e comercializadas, principalmente, as produções dos seus vizinhos artistas – o Coração Materno, de propriedade do compositor e produtor baiano Nonato Freire - o local totalmente heterogêneo, era considerado o mais "gay friendly” da cidade, funcionando a partir de quarta-feira. Ali perto, ficava um outro bar, o “Besame Mucho”, que junto com o Coração Materno, atraíam para essa área a elite intelectual e universitária. Nesta época, o Centro Dragão do Mar ainda não existia, e a rua era aberta ao tráfego de veículos. Localizados na Rua Dragão do Mar os dois bares fecharam por conta da construção do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

Fora da área dos antigos galpões, surgiram ao longo dos anos diversos bares e restaurantes que brilharam e fizeram história nas alegres noitadas da Praia de Iracema: Nos anos 50 o francês Charles Delleva inaugurou o revolucionário Restaurante Lido, uma novidade no ramo em Fortaleza, adaptando a antiga casa de praia da família Markan. O novo restaurante tinha um salão imenso, com decoração onde se mesclavam o rústico praiano cearense e detalhes que remetiam à França, inclusive tabuletas de ruas e praças famosas de Paris. Usava uma iluminação em penumbra, que tornava tudo muito suave, e deu um toque de sofisticação às noites da Praia de Iracema. Na década de 1970, o Lido começou a entrar em declínio, quando passou para outras mãos e em declínio continuou, até fechar e dar lugar a um edifício de apartamentos.

O Estoril começou como residência, virou cassino de soldados americanos durante a segunda guerra, e depois teve diversos usos na mas mãos de diversos proprietários. Na metade dos anos 90 ressurgiu com toda a força como espaço cultural, e virou reduto da boemia, dos artistas e intelectuais. Todo mundo que tinha uma história para contar, se encontrava no Estoril.



Estoril - Vila Morena (foto O Povo)

Na década de 80, abriram bares e restaurantes memoráveis como o La Trattoria, que ficava onde hoje está o Centro Cultural Belchior; inaugurado em 1980, o local foi considerado o primeiro restaurante genuinamente italiano da Capital, oferecendo um ambiente aconchegante, decorado com peças antigas e regionais da Itália e do Nordeste. O sucesso foi tanto que o La Trattoria foi diretamente responsável pela chegada de outro point de bastante sucesso na Praia de Iracema, o Cais Bar.

O Cais Bar, propriedade de Joaquim Ernesto músico conhecido das noites de Fortaleza, funcionou entre 1985 a 2003, e conheceu todas as glórias da Praia de Iracema. Reduto de boêmios, poetas, artistas, intelectuais, acolhia todas as tribos num ambiente alegre e animado. Com a decaída da Praia de Iracema, o Cais bar caiu junto. E a noite de Fortaleza nunca mais foi a mesma.


 

Cais Bar na Praia de Iracema (foto O Povo)

O Pirata Bar foi criado em 1986 e inaugurou uma inédita segunda feira do forró, que atraia milhares de nativos e turistas, e era a grande sensação da noite da Praia de Iracema. A criação de bares e espaços voltados para o lazer continuaram por toda década de 1990, até que a requalificação, efetivada na área, mudou radicalmente o perfil dos frequentadores da área.



Restaurante Sobre o Mar de Iracema anos 90 (acervo particular)

A inauguração do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em 28 de abril de1999, que pretendia a reestruturação e revitalização da antiga zona portuária da capital, mudou toda a configuração da área, promoveu melhorias na infraestrutura, expulsou bares tradicionais e atraiu um público mais diversificado direcionado ao equipamento. A requalificação da Praia de Iracema de certo modo contribuiu para sua decadência, quando bares e casas noturnas passaram a ser frequentados por prostituas e estrangeiros interessados no chamado turismo sexual.



bares no entorno do Centro Cultural Dragão do Mar em 2010 (foto Fortaleza em Fotos)

Mesmo antes da propagação da epidemia de Covid, que restringiu a mobilidade da população, o Centro Dragão do Mar já se encontrava em franca decadência, fosse pela insegurança, fosse pela escassez de vagas de estacionamentos, fosse pelos abusos cometidos por flanelinhas; as atrações culturais, proposta maior do equipamento se reduziram drasticamente, vários estabelecimentos do entorno fecharam e os frequentadores habituais debandaram em busca de lugares menos hostis.   

Ainda restam bons restaurantes e bares que tentam resgatar os tempos áureos, mas lidam com os mesmos problemas que tem afetado a cidade como um todo: a insegurança pública, o maior deles. Em diferentes períodos algumas intervenções foram feitas visando  resgatar o clima e o velho charme do local, mas até aqui, todas essas tentativas deram em nada. A Praia de Iracema, enquanto lugar de encontro de lazer noturno, está seriamente comprometida. E dessa vez, a culpa não é do mar.


Fontes:

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/1/22/revista_da_folha/

tese de doutorado de Roselane Gomes Bezerra - Disponível em  http://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/6247/1/2008-TESE-RGBEZERRA.pdf

Diário do Nordeste 

 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021


Fortaleza - 1976 - Você vivenciou a cidade nessa época? 

Reportagem da Agência Nacional sobre a cidade de Fortaleza. O vídeo mostra diversos aspectos da capital cearense, como o bairro de Aldeota, a Praia do Náutico, o Teatro José de Alencar e a Catedral. O vídeo também apresenta as atividades do Centro Social, e outros

domingo, 7 de fevereiro de 2021

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

A iluminação e a escuridão das ruas

 

Numa cidade que contava com a intensa iluminação e constante presença do sol, quando este desaparecia, a população sofria com a escassez de iluminação, e a escuridão imperava nas ruas de Fortaleza. Seguindo uma tradição que então impregnava o imaginário da Europa moderna, a noite era considerada "amiga da maldade, companheira de Satã e de seus malefícios".



Praça do Ferreira, fins do século XIX. Ao fundo, o Café Java. (Foto Arquivo Nirez)

Aliados a esta tradição havia o temor que faziam da iluminação um tema tratado não apenas como modernidade para a cidade e sim como matéria de segurança. Mas a preocupação com a segurança noturna da cidade veio de maneira tardia. Somente no ano de 1838 é que foram instalados cinquenta lampiões para a iluminação pública. O encarregado da aquisição foi o comerciante Martinho Borges, que enviaria os lampiões diretamente do Rio de Janeiro, do mesmo feitio e construção que os usados naquela cidade.

O montante de recursos destinados à iluminação da cidade, 2:000$000, foi supostamente quase todo gasto na aquisição dos lampiões e suas ferragens. Com o desejo de completar a iluminação, Manoel de Sousa Mello solicitava a liberação de verba para compra de azeite – combustível fundamental para efetivação das luminárias.

A opção pelo azeite de peixe como combustível, acompanhava, àquela época, uma tendência nacional. Cidade como o Rio de janeiro já industrializava a extração do óleo de baleia, comercializado para uso nos lampiões de óleo. Na costa do Ceará, teria ocorrido a dizimação das baleias e do peixe-boi a partir do século XVIII, abatidos para o consumo da carne e usados na produção de óleo, consequência da atividade predatória dos corsários e dos Tremembés, índios célebres pela ferocidade e que eram hábeis pescadores, o que se leva a deduzir que o azeite usado na iluminação de Fortaleza era importado de outros Estados. O óleo de baleia, aqui chamado de azeite de peixe,  gerava uma luz estável e brilhante, embora produzisse muita fumaça. O Azeite de peixe foi utilizado também como argamassa na construção civil. 



O prédio da antiga alfândega de Fortaleza,  teve projeto de José Gonçalves da Justa, execução e obras de Tubias Laureano Figueira de Melo e Ricardo Lange, que utilizaram pedras e argamassa feita de óleo de peixe e areia. (Foto Arquivo Nirez)

Em 1839, a iluminação ainda era uma expectativa: os lampiões adquiridos no Rio de Janeiro chegaram e foram fixados nas ruas, porém não funcionavam. O motivo era a falta de quem se encarregasse da iluminação, pois a quantia destinada ao prestador do serviço era ínfima e não atraía nenhum interessado. A sugestão do presidente da província João Antônio de Miranda, era mandar iluminar sem arrematação, pois esse empreendimento não atrairia nenhum investimento, por não permitir maior especulação.

Em 1841, ou seja, três anos depois da aquisição dos lampiões a situação da iluminação da cidade continuava delicada. O orçamento da província havia destinado 4:000$000 para o fornecimento de  azeite de peixe – o dobro do utilizado para aquisição dos candeeiros. Como não pareceram licitantes, o fornecimento poderia ser por empreitada. O único que se apresentou foi José Teixeira Pinto, que ofereceu 1700$000 por semestre. O governo indeferiu a proposta, por achar que o candidato não tinha condições de cumprir o acerto.



representação da troca de óleo dos lampiões. (Tela de Debret) 

No mesmo ano, diante das restrições orçamentárias, o governo decidiu eliminar as verbas que seriam destinadas à iluminação. Mais tarde, o assunto voltava a ser matéria de discussão na Assembleia, mas não para sugerir novos investimentos ou a necessidade de expansão do serviço, mas para examinar proposta do presidente da província, de suspensão das despesas com os lampiões, considerando a situação delicada do erário público. De acordo com aquele administrador, fazia-se necessário economizar os gastos com a iluminação não só, porque não era considerada prioridade, como era muito onerosa aos cofres provinciais.

Assim, mesmo depois da década de 1840, Fortaleza não conhecia um sistema competente e continuado de iluminação pública baseado em lampiões de azeite. As noites eram longas e assustadoras, o que imprimia uma rotina de recolhimento cedo, na qual os moradores precisavam se recolher às suas casas e improvisar a iluminação de suas moradas, na maioria das vezes, feitas por lamparinas e velas de cera de carnaúba.



primeira concessionária para exploração da iluminação pública da cidade, a companhia inglesa Ceará Gas Company (foto do livro A História da Energia no Ceará)  

A tão esperada iluminação das ruas só veio a se concretizar alguns anos depois e foi iniciada em 01 de março de 1848. O trabalho foi contratado com Vitorino Augusto Borges, que se obrigava, entre outras coisas, a instalar 44 lampiões, que deveriam ser mantidos sempre limpos e brilhantes, e a conservá-los acesos entre as 6 horas da tarde até o raiar do dia seguinte, ou até que saísse a lua.

O privilégio da concessão foi transferido, com autorização do governo para a companhia inglesa Ceara Gaz Company Limited. No mesmo ano de 1848, foram colocados nas ruas de Fortaleza 25 lampiões pendentes com iluminação de azeite de peixe. Desse período de experiências inovadoras na cidade, fica também a lembrança de um homem simples, o primeiro acendedor de lampiões a percorrer as ruas da cidade, na tarefa diária de acender e apagar os pontos de iluminação, conhecido na memória da cidade pela alcunha de Chico Lampião.

 



Nas noites de lua os lampiões não eram acesos, o que levou alguns cronistas da época a denominarem o acordo de "contrato com a lua". Mas a prática não era só dos cearenses. Em alguns dos outros Estados, havia cláusula contratual prevendo o não acendimento dos lampiões em noites de luar. 

Fontes:

Entre o Futuro e o Passado – aspectos urbanos de Fortaleza (1799-180), de Antônio Otaviano Vieira Jr. 

História da Energia no Ceará, de Ary Bezerra Leite

Fortaleza Velha, de João Nogueira

 

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Os primeiros fatos históricos de Fortaleza

7 de dezembro de 1660 – nesse dia João de Melo Gusmão, nomeado capitão-mor, teve permissão para conduzir sua mulher e filhos para o Ceará, sendo esta a primeira família a residir no então Povoado do Forte;

16 de fevereiro de 1699 – nomeação do padre João de Matos Serra, o primeiro vigário do povoado do Forte;

25 de janeiro de 1700 – primeira eleição para a Câmara;


primeiro mapa de Fortaleza, autoria atribuída ao capitão-mor Manuel Francês - 1726

Considerada a foto mais antiga de Fortaleza, mostra a Praia Formosa, em 1892 
(Arquivo Nirez)

13 de abril de 1726 – instalação da Vila de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção;

29 de novembro de 1726 – provisão de Manuel Martins Viana no cargo de advogado, o primeiro que teve a Villa da Fortaleza;

11 de junho de 1751 – Manoel do Nascimento de Albuquerque é escolhido pela Câmara para os cargos de alcaide e carcereiro da vila, sendo o primeiro a exercer essas funções;

17 de agosto de 1755 – nomeado, por concurso, para o ofício de almoxarife da Vila, Francisco Ferreira Marinho, o primeiro funcionário público nomeado por concurso;

25 de novembro de 1786 – é promovido a mestre de escrita e leitura, o sr. Manuel de Siqueira Braga, o primeiro mestre da villa;

2 de agosto de 1791 – é expedida a carta de aprovação em favor de Vicente Maria de Saboia, o primeiro boticário da Villa de Fortaleza;

25 de fevereiro de 1793 – nomeado por provisão régia, o primeiro professor de gramática latina, João da Silva Tavares;

12 de janeiro de 1795 – já havia na Villa da Fortaleza o primeiro alfaiate, de nome Salvador, morador na rua da cadeia (atual Rua General Sampaio)

24 de janeiro de 1799 – é nomeado o primeiro Juiz dos Feitos da Fazenda, Manuel Leocádio Rademaker;

26 de outubro de 1799 – fundeia no Mucuripe o correio marítimo “Príncipe Real”, sendo este o primeiro que chegou ao Ceará;

1 de julho de 1880 – é nomeado o arruador da vila, Manuel Ferreira da Silva, o primeiro arquiteto que se tem notícia;

18 de maio de 1802 – é aberto por Manuel Ferreira o primeiro açougue, localizado à Rua da Boa Vista (atual Floriano Peixoto);

7 de maio de 1804 – feita a primeira concessão à firma Bento Bandeira de Melo & Cia, com privilégio de 10 anos para extração de resinas e gomas;

1809 – parte do Ceará a galera Dois Amigos, levando produtos e amostras do algodão;

Maio de 1810 – chega a vila, o irlandês William Wara, que funda a primeira casa de comercio direto com o exterior;


A casa que pertenceu a José Antônio Machado, e onde funcionaram diversos órgãos públicos, foi a primeira sede do Correio (arquivo Nirez)

1 de maio de 1812 – instalação dos Correios no antigo edifício da Tesouraria da Fazenda;

1 de julho de 1812 – instalação da Alfândega, situada no Outeiro da Prainha;

Resolução Imperial de 02 de janeiro de 1823 – decreto imperial de 24 de fevereiro de 1823 e carta imperial de 17 de março de 1823,  elevam Fortaleza à condição de cidade com a denominação de Fortaleza da Nova Bragança, por Dom Pedro I, “pela Graça de Deus e unânime aclamação dos povos, Imperador constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil”;

1 de abril de 1824 – circulação do primeiro jornal denominado Diário do Governo do Ceará sob o comando do padre Gonçalo Inácio de Albuquerque Mororó, e impresso por Francisco José de Sales sendo esses o primeiro jornalista e o primeiro tipógrafo da terra.

1 de dezembro de 1824 – instalação do primeiro conselho da Província, no edifício nª 34, da Praça do Conselho (atual Praça da Sé)

3 de julho de 1837 – empossado o primeiro inspetor da Alfândega, Manuel do Nascimento Castro e Silva;


25 de março de 1854 – criado pelo presidente Pires da Mota o primeiro hospital de Fortaleza, depois transformado em Santa Casa de Misericórdia;

1 de novembro de 1860 – iniciada a construção de um paredão pelo engenheiro Berthot, a primeira tentativa do porto de Fortaleza, no Meireles;

16 de julho de 1861 – criação da Diocese do Ceará, sendo nomeado Dom Luís Antônio dos Santos, o primeiro bispo do Ceará;

17 de maio de 1862 – começa a circular o primeiro jornal católico, intitulado “Fortaleza”;

27 de novembro de 1862 – concedida a José Paulino Hoonholtz, concessão para distribuição de água, para toda a cidade, privilégio por 50 anos;

10 de dezembro de 1864 – instalação do Seminário da Prainha;

28 de janeiro de 1865 – apresenta-se ao presidente do Estado o primeiro voluntário da Guerra do Paraguai, Israel Bezerra de Menezes;

25 de março de 1867 – instalação da Biblioteca e Arquivos Públicos da cidade, na Praça do Patrocínio (atual José de Alencar);


A Ceará Gas Company Ltd, com sede em Londres, foi a primeira concessionaria de iluminação a gás em Fortaleza (foto do livro A História da Energia no Ceará, de Ary Bezerra Leite)

17 de setembro de 1867 – inauguração oficial da iluminação a gás em alguns trechos da cidade e de alguns edifícios, entre os quais o Palácio do Governo e o Clube Cearense;

12 de novembro de 1867 – são aprovados pelo governo os estatutos da Associação Comercial da Praça do Ceará;

30 de novembro de 1873 – inauguração da estação de Arronches, da Estrada de Ferro Baturité;

3 de fevereiro de 1874 – instalação do Tribunal de Relação;

25 de abril de 1880 – inauguração do transporte público com a utilização de bondes à tração animal, pela Companhia Ferro Carril do Ceará, com 4210 metros de linha.

30 de março de 1882 – inauguração do Cabo Submarino ligando Fortaleza ao Sul do país;


Fábrica Progresso, fundada  por Tomás Pompeu de Sousa Brasil, e Antônio Pinto Nogueira Accioly exclusivamente para fabricação de redesimplantação dessa indústria foi o marco inicial do processo de industrialização do Ceará, onde até então a única atividade equipada com maquinário era a tipografia. (foto Revista do Instituto do Ceará)

1882 – Iniciada a instalação da primeira fábrica de tecidos de algodão em Fortaleza, propriedade de Tomás Pompeu de Sousa Brasil e Antônio Pinto Nogueira Accioly;

11 de fevereiro de 1883 – inauguração do serviço telefônico de Fortaleza;

22 de março de 1884 – inauguração da Escola Normal, em prédio construído especialmente para esse fim, na praça Marquês de Herval (atual Praça José de Alencar);

28 de junho de 1884 – inauguração do Clube Iracema;

8 de abril de 1888 – inauguração da estátua do General Tibúrcio, a primeira da cidade na praça homônima;

1 de fevereiro de 1889 – criação da Escola Militar de Fortaleza;

25 de maio de 1889 – morte do governador Caio Prado, sendo uma das vítimas da epidemia de febre amarela que assolava a cidade. A morte do governador, tido como belo, culto, rico, educado na Europa e filho de tradicional família paulista, causou grande comoção em Fortaleza. 

 

Café Java, na Praça do Ferreira (Arquivo Nirez)


30 de maio de 1892 – Fundação da Padaria Espiritual, no Café Java, na Praça do Ferreira;

18 de abril de 1896 – inauguração do Mercado de Ferro, na Praça Carolina (atual praça Waldemar Falcao), na gestão do intendente Guilherme Rocha;

13 de maio de 1896 – começa o assentamento dos trilhos dos bondes de burros, no Outeiro;

1 de outubro de 1899 – começam a funcionar as Caixas Postais, distribuídos pela cidade;

7 de setembro de 1902 – inauguração da Avenida 7 de setembro, na Praça do Ferreira;


O primeiro automóvel chegou por aqui em 28 de março de 1909, vindo dos Estados Unidos pelo vapor inglês “Cearense”. Era um automóvel da marca “Rambler” usado, comprado pela Empresa Auto Transporte, de propriedade do Dr. Meton de Alencar e de Julio Pinto,  dirigido por John Peter Bernard e Rafael Dias Marques.  (arquivo Nirez)

28 de março de 1909 – chegada do primeiro automóvel, importado pela empresa Auto Transporte Cearense;

Outubro de 1922 – construção do primeiro aparelho de rádio receptor, instalado por Clóvis Meton de Alencar.

 

Fonte: Coisas que o Tempo Levou – crônicas históricas da Fortaleza Antiga, de Raimundo de Menezes.

 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

As Ruas e Avenidas que Mudaram de Nome

Ultrapassado o estágio inicial do seu povoamento, quando Fortaleza ainda era uma  de vila de índios e alguns colonos, invadida por soldados holandeses e portugueses e cortada por riachos de águas límpidos, os nomes de travessas, ruelas e becos eram dados pelos moradores, de acordo com algum referencial que o lugar oferecia: assim, tivemos o Beco da Apertada Hora, supostamente utilizado nos apertos fisiológicos; o Beco das Almas, a Travessa da Municipalidade, da Misericórdia, a rua de Baixo, de Cima, da Direita, do Quartel, da Cacimba, do Gasômetro. 

 

Rua Major Facundo, início do século XX (original p&b do Arquivo Nirez)
    

Com o passar do tempo, os logradouros foram sendo disciplinados. A partir de 1800 a cidade já contava com um arruador, mas o disciplinamento começou realmente a partir de 1812, com a chegada do governador Sampaio que trouxe a Fortaleza, o tenente coronel de engenheiros Silva Paulet, que elaborou a “Planta do Porto e Villa da Fortaleza”, em 1813.

Com o crescimento e a consequente urbanização, ruas foram alinhadas, becos foram eliminados, as calçadas demarcadas e a identificação dos logradouros ganhou ares de modernidade, a identificação pela funcionalidade virou coisa do passado. Assim, muitas vias tiveram seus nomes modificados, algumas delas, várias vezes. As ruas e avenidas aqui citadas, estão entre os logradouros mais antigos de Fortaleza, motivo pelo qual não registram modificações recentes.

Apesar disso mudança de nomes de vias públicas, é coisa corriqueira em nossa cidade. A prática cria transtornos reais, não só aos moradores, que de repente, mudam de endereço sem sair do lugar, mas também aos prestadores de serviço que dependem de informações exatas, para bom desempenho de suas tarefas, como os motoristas de aplicativos, os estabelecimentos que atuam no sistema de entregas, e os funcionários do Correio. Vejam como se chamaram antes algumas avenidas e ruas de Fortaleza.


Avenida Bezerra de Menezes

Avenida Bezerra de Menezes – antiga Rua do Alagadiço; (Teófilo Rufino Bezerra de Menezes, advogado, professor do Liceu, deputado provincial e jornalista, natural de Fortaleza)

Duque de Caxias – antigos Boulevard do Livramento e Travessa nº 1 (Luís Alves de Lima e Silva – o Duque de Caxias, Patrono do Exército Brasileiro, nascido no Rio de Janeiro). 

Dom Luís – antiga rua Farias Brito (Luís Antônio dos Santos – primeiro bispo do Ceará, nascido no Rio de Janeiro) 

Francisco Sá –  antiga Estrada do Urubu, avenida Demóstenes Rockert, avenida 6 de Julho; (Francisco Sá, Senador da República, Ministro de Estado, natural de Minas Gerais). 

Santos Dumont – antiga Rua do Colégio, Gustavo Sampaio, Boulevard Nogueira Accioly e Travessa 9-A; (Alberto Santos Dumont, o “Pai da Aviação”. Nasceu em Minas Gerais).

Tristão Gonçalves – Rua da Lagoinha, 14 de Maio, Trilho de Ferro; (Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, famoso pelas lutas da independência no Ceará, revolucionário da Confederação do Equador. Nascido no Crato, Ceará). 



Almirante Tamandaré - antiga rua Três de Outubro, Avenida Epitácio Pessoa e Atlântica; (Joaquim Marques Lisboa, Visconde de Tamandaré, Patrono da Marinha do Brasil, nascido no Rio Grande do Sul). 

Visconde do Rio Branco – antiga rua Joaquim Távora, Estrada de Messejana, Calçamento de Messejana e Rua 13; (José Maria da Silva Paranhos, conselheiro do Império, natural de Salvador, BA) 


Avenida da Universidade 

Avenida da Universidade – antigo Boulevard Visconde de Cauípe, Rua do Benfica (nome antigo em homenagem a Severiano Ribeiro da Cunha, comendador e visconde , nascido em Caucaia, CE); nome atual em homenagem à universidade Federal).

Senador Virgílio Távora – antiga Avenida Estados Unidos; (Virgílio de Morais Fernandes Távora, político e militar, ex-governador do Ceará, natural d Jaguaribe – CE).

Historiador Raimundo Girão – antiga avenida Aquidabã (Raimundo Girão, escritor, político, historiador, ex-prefeito de Fortaleza, natural de Morada Nova, CE).

Avenida Domingos Olímpio – antiga Travessa dos Coelhos, Travessa nº 8. (Domingos Olímpio Braga Cavalcante, jornalista, cronista e romancista, nascido em Sobral, autor do romance "Luzia Homem", dentre outros).

Avenida Gomes de Matos – antiga Estrada do Gado, Boulevard 14 de Julho. (Raimundo Gomes de Matos, jurista e professor cearense nascido no Crato). 


Avenida Beira Mar

Avenida Beira Mar – antiga Avenida dos Jangadeiros, Getúlio Vargas, e Presidente Kennedy. 

As Ruas e seus nomes Antigos 

Adolfo Caminha – antiga Pessoa Anta; (Adolfo Ferreira Caminha, romancista, autor dentre outras obras, do famoso “A Normalista”. Natural de Aracati – CE.). 

Adolfo Herbster – antiga Rua Paraíba; (Adolfo Herbster era Pernambucano de nascimento, engenheiro, arquiteto, responsável pela urbanização e pelo desenho de ruas e avenidas de Fortaleza). 

Antônio Augusto – antiga Rua Monte Flor; (Antônio Augusto de Vasconcelos foi catedrático e um dos fundadores da Faculdade de Direito do Ceará. Natural de Maranguape).

Barão de Aracati – antiga Rua do Aracati; (José Pereira da Graça, Barão de Aracati, nascido em Fortaleza. Magistrado, deputado geral e provincial, membro do Supremo Tribunal de Justiça. Foi presidente da Província do Maranhão). 


Rua João Brígido

João Brígido – antiga Rua da Assunção, da Bomba, Conselheiro Liberato Barroso (João Brígido dos Santos foi a figura mais representativa do jornalismo de combate no Ceará; deputado provincial e geral; historiador e cronista. Natural de São João da Barra, RJ). 

Rua Justiniano de Serpa – antiga Estrada do Gado; (Justiniano de Serpa, jurisconsulto, parlamentar, orador. Deputado Federal pelo Ceará e pelo Pará. Presidente do Ceará entre 1920 e 1924, faleceu antes de completar o mandato. Nasceu em Aquiraz, CE). 

Dom Jerônimo – antigas Rua Alto Alegre e Major Rangel (Jerônimo Tomé da Silva, natural de Sobral, era doutor em filosofia e teologia. Bispo do Pará e Arcebispo Primaz do Brasil). 

José Avelino – antigas Ruas do Chafariz, Singlehurst, General Mesquita e Travessa19-B; (José Avelino Gurgel do Amaral, jornalista, advogado, deputado federal e poligrafo. Cearense de Aracati).

Marechal Deodoro – antiga Rua da Cachorra Magra; (Manuel Deodoro da Fonseca, líder da Proclamação da República, primeiro presidente republicano, nascido em Alagoas).

Pedro Borges – antiga Rua do Cajueiro e Travessa 7-B; (Pedro Augusto Borges, médico do Exército, deputado federal, senador e presidente do Ceará no período de 1900 a 1904. Natural de Fortaleza). 

Senador Alencar – antiga Rua das Hortas e Travessa nº 13; (Padre José Martiniano de Alencar, nascido em Barbalha, então Distrito do Crato-CE. Senador do Império, pai do escritor José de Alencar).
 

Rua Dr. João Moreira esquina com Barão do Rio Branco (Anuário do Ceará)

Dr. João Moreira – antiga Rua Nova da Fortaleza, Travessa do Quartel, da Misericórdia, General Tibúrcio e Travessa nº 17; (João da Rocha Moreira, natural de Fortaleza. Médico da Santa Casa de Misericórdia, Professor do Liceu e Inspetor de Saúde). 

Gustavo Sampaio – antiga Rua da Aratanha; (Gustavo Sampaio nasceu em Baturité. Tenente do Exército, morreu lutando na Revolta da Armada, em 1893). 

Conselheiro Tristão – antiga Rua da Cruz e Rua nº 16; (Tristão de Alencar Araripe, conselheiro do Estado, Ministro do Supremo Tribunal de Justiça, Ministro de Estado, historiador e jurisconsulto. Presidiu as províncias do Rio Grande do Sul e do Pará. Natural de Icó, CE).


Rua Clarindo de Queiroz (Arquivo Nirez)

Clarindo de Queiroz – Antiga Rua do Livramento e Travessa nº 2 ; (José Clarindo de Queiroz, presidente das províncias do Amazonas e do Ceará. Natural de Fortaleza, foi deposto do Governo do Ceará em 1892). 

Padre Francisco Pinto – antiga Rua N. S. dos Remédios (Francisco Pinto, natural dos Açores, era um padre jesuíta que veio para o Ceará em 1607, em companhia de Luís Figueira, em missão de colonização. Foi atacado e sacrificado pelos índios Tacarijus). 


Rua Dona Isabel (Arquivo Nirez)

Rua Princesa Isabel – antiga Rua Santa Isabel e Dona Isabel (Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon-Duas Sicílias e Bragança, foi a segunda filha, a primeira menina, do imperador Pedro II. Na qualidade de regente assinou a Lei Áurea que aboliu a escravatura no Brasil em 13 de maio de 1888. A Princesa Isabel nasceu no Rio de Janeiro) 


Fontes: 
Coisas que o Tempo Levou – crônicas históricas da Fortaleza antiga, de Raimundo de Menezes
Guia Turístico da Cidade – Prefeitura Municipal de Fortaleza – 1961
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão
Fotos: Fortaleza em Fotos, Google

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Pinto Martins, o herói esquecido


Euclides Pinto Martins nasceu em Camocim, em 1 de abril de 1892, filho de Antônio Pinto Martins e Maria de Araújo do Carmo Martins. Foi criado no vizinho Estado do Rio Grande do Norte porque seu pai, natural de Mossoró, foi convidado a representar a Companhia de Salinas Mossoró Assú, em Macau. Pinto Martins começou a trabalhar em Natal, como embarcadiço e com apenas 17 anos, era piloto de navio. No início de 1909, ainda adolescente, com a anuência do pai, foi para os Estados Unidos fazer um curso de Engenharia Mecânica. Concluído o curso, fez estágio na “Baldwin Locomotive”, uma fábrica de vagões.

Voltando ao Brasil em 1911, trabalhou na Inspetoria Federal de Obras contra as Secas, no cargo de engenheiro e na Estrada de Ferro em Natal. Retornou aos Estados Unidos por volta de 1918, depois da morte da esposa, a americana Gertrudes Mc Mullan, com quem teve uma filha chamada Ceres. Casou-se pela segunda vez com a também americana Adelaide Sulivan, com quem teve sua segunda filha, Adelaide Lillian, em 1920.  

Durante a década de 1920, Pinto Martins se interessou pela aviação, que se encontrava em pleno desenvolvimento. Em 1921, entrou em um curso de pilotagem e conseguiu o brevê.  Com sua entrada no meio aeronáutico, conheceu um veterano na área: Walter Hilton, instrutor de voo na Flórida. No ano seguinte, o jovem aviador cearense e Hilton lutaram para realizar um sonho, o de atravessar a América em um hidroavião, ação bastante temerária para a época. A primeira tentativa, levada a cabo em agosto de 1922 fracassou, e o hidroavião Sampaio Correa I caiu no mar próximo a Cuba.



Mas a dupla não desistiu, e ganhou patrocínio do jornal The New York World para uma nova tentativa.  A viagem começou em Nova Iorque, em novembro de 1922, e terminou no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1923. Foram 175 dias de travessia, 5.678 km de percurso, e cerca de cem horas de voo, interrompidas muitas vezes pelos mais variados problemas, a bordo do hidroavião Sampaio Correa II. A rota New York/Rio de Janeiro não tinha sido realizada até então.

Desde o final da década de 1910 e por toda década de 1920, a história registra alguns feitos realizados por ousados viajantes, pioneiros nas viagens áreas transatlânticas. Já em 1919, os pilotos britânicos John William Alcock e Arthur Whitten Brown, realizaram o primeiro vôo transatlântico sem escalas. Eles partiram de St. John's, Terra Nova e Labrador, Canadá, para Clifden, Irlanda. O voo percorreu 3.138 km, e durou cerca de 12 horas. Foram premiados com 50 mil dólares. O feito dos britânicos foi superado logo após, em 1927, pelo piloto americano Charles Lindbergh, que realizou o primeiro voo solitário transatlântico, sem escalas em avião.

Lindbergh partiu do Condado de Nassau, Estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos, em direção a Paris, França, em 20 de maio de 1927, tendo pousado na capital francesa no dia seguinte. O voo de Lindbergh durou 33 horas e 31 minutos. Pelo feito, o piloto recebeu o "Prêmio Orteig", de 25 mil dólares, em oferta desde 1919.



Pinto Martins também teve seu feito reconhecido: foi recepcionado pelo Presidente Artur Bernardes e recebeu um prêmio de 200 contos de réis. Pinto Martins faleceu no Rio de Janeiro em 12 de abril de 1924, num episódio que nunca foi devidamente esclarecido. É sabido que ele foi encontrado morto, ao que se diz por suicídio, em seu apartamento. Tinha 32 anos de idade.      

O herói apagado



Uma lei definiu o nome do aeroporto de Fortaleza:  A Lei nº 1602, de 13 de maio de 1952, denomina “Aeroporto Pinto Martins” o Aeroporto do Cocorote, em Fortaleza. Assinada por João Café Filho, que à época acumulava as funções de vice presidente da República e a Presidência do Senado Federal. Mas o aeroporto de Fortaleza já não ostenta o nome de Pinto Martins em sua fachada. Normal. Como cobrar de estrangeiros a preservação da memória de nossas personalidades, se nós mesmo não temos essa preocupação?       

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