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quinta-feira, 22 de abril de 2021

Assembleia Provincial - Palácio Senador Alencar

 


A ideia de construção do prédio hoje denominado Palácio Senador Alencar, surgiu no dia 1° de setembro de 1855, quando o presidente Joaquim Vilela de Castro Tavares, em seu relatório de obras públicas, ressaltava a necessidade de uma casa que fosse condizente com as funções exercidas pelos legisladores da província, visto que a que funcionava como tal, parecia destinado às sessões de alguma municipalidade de aldeia. Nesse mesmo ano, a assembleia votou e destinou o orçamento para início da obra.

No ano seguinte, o presidente Vicente Pires da Mota mandou levantar a planta da casa da Assembleia, e não havendo terrenos devolutos, encarregou ao presidente da câmara municipal, Antônio Rodrigues Ferreira para comprar o terreno ocupado com as casas denominadas quartos da Agostinha, (segundo consta, Agostinha era uma ex-escrava de Luís Ribeiro de Vasconcelos). Nos quartos da preta Agostinha funcionavam alguns estabelecimentos comerciais onde eram vendidos gêneros alimentícios, fumo, rapadura e aguardente. Os cômodos foram adquiridos pelo governo e demolidos em seguida. Foi autorizado o pagamento pelo cofre da municipalidade para posterior indenização pela província. Sendo preciso mais terrenos, compraram mais casas e mais terras com três braças de frente.

A obra foi iniciada em 25 de outubro de 1856, com projeto de Adolfo Herbster, em estilo neoclássico, ficando determinado que o edifício abrigaria a Assembleia Provincial e o Liceu. Depois deliberou-se que o estabelecimento de ensino seria instalado em outro local. A construção foi paralisada em 1857, pelo presidente Antônio Marcelino Nunes Gonçalves e recomeçada em maio de 1860. A partir de 1865 os serviços de finalização ficaram a cargo do engenheiro Adolfo Herbster (até então estavam sob responsabilidade do engenheiro José Antônio Seifert). A obra foi finalmente entregue no dia 3 de março de 1871.


 sede da Assembleia Legislativa, com trincheiras abertas pelos simpatizantes de Franco Rabelo, eleito governador em 1912,Em novembro do mesmo ano, tentaram realizar uma sessão na Assembleia, com a finalidade de depor o novo governador, mas tiveram suas pretensões rejeitadas pelos rabelistas, que impediram o acesso dos deputados ao plenário

Algumas instituições funcionaram no local, concomitantemente com a Assembleia: em 1895 os Correios foram instalados no térreo, onde ficou até 1895; depois entre 1937 e 1947, abrigou a sede da Universidade de Direito Livre do Ceará, a Biblioteca Pública, o TRE e o Instituto do Ceará e Academia Cearense de Letras. Em 1991, passou a sediar o Museu do Ceará.     

O palácio da assembleia permaneceu sem uma denominação oficial até fins da década de 40, quando entrou em debate a escolha de um nome para o edifício. O nome do senador José Martiniano de Alencar, foi proposto e defendido por um deputado. Alencar teve seu nome aprovado por unanimidade, como patrono da Assembleia Legislativa do Ceará.

Localizada no quadrilátero entre as ruas São Paulo (frente principal), General Bezerril, Floriano Peixoto e Travessa Morada Nova, a Assembleia Provincial, mais tarde Assembleia Legislativa funcionou a partir de 1871 e permaneceu no Palácio Senador Alencar até o dia 10 de maio de 1977, quando se mudou para o novo endereço na Avenida Desembargador Moreira.





"Causo" na Assembleia (um de muitos) 


Osiris Pontes era presidente da Assembleia do Ceará. Vilmar Pontes e Pontes Neto também eram deputados. Os três eram irmãos. Uma tarde Osiris Pontes presidia a sessão quando Vilmar Pontes foi à tribuna e começou a atacar violentamente, o governador Parsifal Barroso. Pontes Neto pediu um aparte:

– não admito que V. Excelência fique aí, atacando um homem honrado.

Vilmar Pontes gritou lá da tribuna:

– honrado coisa nenhuma! Honrado só para um empreiteiro marmeleiro como V. Excelência!

Começou a confusão. Vilmar Pontes querendo descer da tribuna, Pontes Neto querendo subir. A turma do deixa-disso segurou os dois. Lá de cima, na presidência, Osiris Pontes tocou forte a campainha e berrou: 

– se vocês continuarem brigando, vou chamar a mamãe! Acabou a briga.



extraído do livro: Folclore político; 1950 histórias de Sebastião Nery 

Fontes: Descrição da Cidade de Fortaleza, de Antônio Bezerra de Menezes – introdução e notas de Raimundo Girão

A Praça e o Povo, de Alberto S. Galeno

Caminhando por Fortaleza, de Francisco Benedito

Fotos IBGE e Arquivo Nirez 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Cem anos do bode Yoyô

O ano de 2015 assinala o centenário de um ano particularmente dramático para o Ceará,  em razão do fenômeno climático, cíclico, que sempre marca presença por aqui: a seca. O ano de 1915 e a seca são temas do romance de estreia da escritora Rachel de Queiroz. Marca também o surgimento em Fortaleza de uma das figuras populares que fez história nos anais do folclore cearense; desta vez não se tratava de nenhum daqueles tipos bizarros que surgiam na cidade vez em quando, quase sempre ruidosamente saudados com muitas vaias pela turba que batia ponto na Praça do Ferreira. Dessa vez, o tipo popular era diferente. Era uma vez um bode. O bode Yoyô.

 Yoyô no Museu do Ceará (foto de Muhammad Said)

Consta que o animal veio para Fortaleza com alguns retirantes fugidos da seca no sertão. Aqui, seu proprietário resolveu ganhar uns trocados e saiu oferecendo o bicho à venda, de porta em porta.  Foi comprado por uma quantia irrisória por um representante da firma Rossbach Brazil Company, empresa inglesa instalada na Praia de Iracema, cujos armazéns ficavam nas imediações da alfândega. 

Ali o Bode Yoyô virou uma espécie de mascote e passou a viver sua vida de boêmio, primeiro somente pela praia, e mais tarde, pela cidade inteira. O nome foi dado por populares em razão das idas e vindas no trajeto que fazia diariamente, da praia de Iracema para a Praça do Ferreira, sempre pelo mesmo percurso. Na praça conheceu políticos, escritores, artistas, ganhou o nome e a simpatia do povo.

Praia de Iracema anos 30
Muitas histórias são contadas sobre o bode que bebia cachaça e levantava a saia das mulheres com os chifres. Yoyô participou de atos políticos em coretos, praças e saraus literários, assistiu peça no Teatro José de Alencar, passeou de bonde, perambulou pelas igrejas e até pela Câmara Municipal.

O bode protagonizou acontecimentos que conquistaram de vez o coração do Ceará moleque. As imediações da Praça do Ferreira, estava em festa pela inauguração do Cine Moderno, ocorrida no dia 7 de setembro de 1922, dentro das comemorações do primeiro centenário da Independência do Brasil.  Os convidados, em seus melhores trajes, aguardavam a chegada do governador Justiniano de Serpa, para início da solenidade. Mas o bode, que também compareceu, cansou de esperar: foi até a entrada do prédio e comeu a fita inaugural. No mesmo ano foi candidato a vereador de Fortaleza, em campanha encabeçada pelo escritor Quintino Cunha. Teve tantos votos que teria sido eleito, caso se tratasse de um candidato real.  

O bode Yoyô levou sua vida de boêmio até 1931, quando desapareceu das ruas. Ultimamente já vinha reduzindo seus passeios até a praça, porque estava ficando velho, a cidade estava mais movimentada, tinha aumentado o movimento na Ponte Metálica, porto da cidade, e havia muito mais carros, caminhões, ônibus e gente. 

Praça do Ferreira anos 20

Um dia, foi encontrado morto, nas imediações da Praça do Ferreira que ele tanto gostava de visitar. Nas lendas da cidade, a causa-mortis teria sido o preço da vadiagem: cirrose hepática. Mas há quem garanta que o bode Yoyô foi vítima de um atentado político.

A empresa proprietária do animal teve a ideia inusitada de embalsamá-lo e doá-lo ao Museu do Ceará, que não relutou em aceitar em face da notoriedade que o animal conquistara na cidade. Hoje, exposto numa sala vermelha, o Bode Yoyô é a peça mais visitada do Museu. 

fotos do arquivo Nirez


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Palácio Senador Alencar


O prédio que hoje abriga o Museu do Ceará teve sua construção iniciada em 1855 e concluída em 1871. Foi idealizado para ser a Assembleia Provincial do Ceará, em pleno Brasil-Império. Fica no quadrilátero entre as ruas São Paulo (frente principal), General Bezerril, Floriano Peixoto e Travessa Morada Nova. O projeto em estilo neoclássico é do engenheiro Adolfo Herbster.
O Palácio Senador Alencar já foi ocupado pela Faculdade de Direito, Biblioteca Pública,  Tribunal Regional Eleitoral,  Instituto do Ceará e a Academia Cearense de Letras.
O imóvel foi tombado pelo IPHAN em 1973.

 foto de 1908 do Álbum de Vistas do Ceará

domingo, 19 de junho de 2011

A Padaria Espiritual e os Anúncios de bacalhau

Café Java, local de nascimento da Padaria Espiritual  (Arquivo Marciano Lopes)


Era preciso acontecer alguma coisa que se chocasse com a mesmice provinciana. E para isto se fundou uma sociedade de letras e artes, tendo sua sede no número 105 da Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco). 

A Padaria Espiritual forneceria aos sócios em particular e ao povo em geral o pão do espírito.  A reunião de instalação aconteceu no ano de 1892, no Café Java, um dos quatro quiosques da Praça do Ferreira. 

da esquerda para a direita: os Padeiros Adolfo Caminha, José Maria Brígido, Teófilo de Moura, Álvaro Martins (em pé) Carlos Vitor, Antônio Sales, Sabino Batista. 
(foto: Revista Fortaleza)

E foi criado um estatuto onde ficava registrado o caráter irreverente da sociedade, representante do traço moleque da personalidade cearense.  Entre as proibições, estavam a referências a animais ou plantas estranhos à fauna e flora brasileiros,  ao uso de palavras ou expressões estrangeiras, ao tom oratório, ao atentado ao bom senso e ao bom gosto. 

Entre as decisões, a de recolher o cancioneiro cearense, de registrar em livro a vida do Padre Verdeixa e de publicar um almanaque ilustrado do Ceará, contendo informações úteis e também inúteis, primores literários e anúncios de bacalhau.
Alguns tópicos do Estatuto da Padaria Espiritual:

Bandeira da Padaria Espiritual: sobre um fundo vermelho uma pena cruzada por uma haste e trigo. Abaixo deste o lema do movimento literário: Amor e Trabalho 
(acervo do Museu do Ceará)  

1 – fica organizada nesta cidade de Fortaleza, capital da Terra da Luz, antigo Siará Grande, uma sociedade de rapazes, letras e Artes, denominada Padaria Espiritual, cujo fim é fornecer pão de espírito aos sócios em particular, e aos povos em geral.

6 – todos os Padeiros terão um nome de guerra único, pelo qual serão tratados e do qual poderão usar no exercício de suas árduas e humanitárias funções.

16 – aquele que durante uma semana não disser uma pilhéria de espírito, pelo menos, fica obrigado a pagar no Sábado, café para todos os colegas. Quem disser uma pilhéria superiormente fina pode ser dispensado da multa da semana.

21 – será julgada indigna de publicidade qualquer peça literária em que se falar de animais ou plantas estranhas à fauna e flora brasileiras, tais como : cotovia, olmeiro, rouxinol, carvalho, etc.

26 – serão considerados, desde já, inimigos naturais dos Padeiros: o Clero, os alfaiates e a polícia. Nenhum padeiro deve perder ocasião de patentear seu desagrado a essa gente.

28 – será punido com expulsão imediata e sem apelo o Padeiro que recitar ao piano.

39 – as mulheres, como entes frágeis que são, merecerão todo o nosso apoio, excetuadas: as fumistas, as freiras e as professoras ignorantes.

46 – o Padeiro que, por infelicidade, tiver um vizinho que aprenda clarineta, pistom ou qualquer outro instrumento irritante, dará parte disto à Padaria, que trabalhará para por termo a semelhante suplicio.      

Rodolfo Teófilo (1853-1932) Um dos Padeiros Mores da Padaria Espiritual, pseudônimo Marcos Serrano. Publicou entre outros romances e ensaios, A Fome, O Paroara, História da Seca do Ceará e Sedição de Juazeiro. 
(Retrato de autoria de Otacílio de Azevedo, acervo do Museu do Ceará)

Da primeira Ata, ficou o registro de Rodolfo Teófilo:

 Depois de retirarem-se os cidadãos ignaros, serviu-se cerveja aos Padeiros que fizeram espírito até às 10 da noite. Todos saíram então à rua acompanhados de violinos, flauta e violão, e dirigiram-se em serenata ao Café Tristão, onde tomaram café. 

Percorreram ruas e chegaram afinal à Avenida Ferreira, onde cada qual tomou seu rumo. E foi assim que se realizou a primeira fornada da Padaria espiritual. 
Eu, Frivolino Catavento, 1° forneiro interino, que o digo, é porque o vi.


O Empório Estrella do Oriente, na Rua Major Facundo era um dos anunciantes do Jornal O Pão (arquivo Nirez)

Apesar da ironia, o Pão, jornal oficial da Padaria, não abriu mão dos anúncios. Saiu sem eles em sua primeira fase que durou seis números, mas passou a lhes dedicar duas páginas em sua segunda fase, nos números que circularam em 1° de janeiro a 1° de julho de 1895, passando a ocupar apenas a última página das edições de 15 de julho a 15 de dezembro do mesmo ano. Nova interrupção, retomada em agosto de 1896, para mais seis números, sem anúncios.


anúncios publicados no jornal O Pão

 A Padaria Espiritual durou seis anos e meio: de 30 de maio de 1892 a 20 de dezembro de 1898. A última fornada aconteceu na casa de Rodolfo Teófilo  (Marcos Serrano) com o comparecimento de apenas sete membros.


Fontes:
 Gilmar de Carvalho
Revista Fortaleza – Nossa Cultura – Fascículo 12
Juarez Leitão 

sábado, 2 de abril de 2011

Os Primeiros Mapas

Abril mês do aniversário de 285 anos de Fortaleza


A história oficial da cidade, ainda nem havia começado. Datam de tempos anteriores à elevação do povoado à condição de vila, os primeiros registros cartográficos da área onde hoje se encontra a Capital do Ceará. Há notícia, ainda dos remotos anos de 1600, de mapas que representam a incipiente ocupação portuguesa às margens do Rio Ceará, definindo de modo precário, a localização da aldeia de Nova Lisboa, fundada por Pero Coelho.
O começo da história da vila de Fortaleza foi mapeada pelos holandeses, que escolheram a margem esquerda do riacho Pajeú para erguer um pequeno forte, do qual surgiria a Fortaleza que emprestou o nome à vila. 


Mapa de Matias Beck "Planta do Forte Schoonenborch da bahia de Mucuriba e do Monte Itarema situados no Siara aos 28 de abril de 1649 (Arquivo Nirez) 


É atribuído a Matias Beck o mapa de 1649 que mostra a costa de Fortaleza, do Mucuripe à barra do Ceará, localizando o forte e vários acidentes geográficos, bem como o caminho para as minas de Itarema. 
Foi a ocupação portuguesa, no entanto, que iniciou o desenho definitivo da cidade que se ergueria sobre o areal da Prainha, a leste da Vila Velha do Rio Ceará, a oeste da Enseada do Mucuripe, onde os primeiros europeus teriam pisado o solo cearense.
Deve-se em parte, ao capitão-mor Manuel Francês o esforço para transformar em vila o pequeno povoado do Forte. A Capitania do Ceará já tinha a sua vila, a de Aquiraz, instalada em 1713. Manuel Francês e o padre João de Matos Serra intensificam um movimento junto à Coroa para criação de outra Vila, no forte, o que acontece em 1726. 


Planta feita pelo capitão-mor Manuel Francês quando da instalação da Vila de Fortaleza de Nossa senhora d'Assunção do Ceará Grande (Arquivo Nirez)


É também a Manuel Francês que se deve o primeiro registro iconográfico da pequena Vila. O mapa, que hoje se encontra no Arquivo Ultramarino de Lisboa, foi descrito pelo padre Serafim Leite: 
Em cima do mapa, no ângulo direito, está a Fortaleza, com a bandeira portuguesa e três peças de artilharia visíveis, uma a disparar. Entre o Forte e a regata, uma casa assobradada, e entre a regata e o mar, outras. A seguir à Fortaleza, na mesma linha para o interior, uma casa pequena e depois a Casa da Câmara, com doze portas e outras tantas janelas. Em frente da Câmara e do Forte, a praça com os símbolos municipais, coincidindo o pelourinho com a frente da Câmara, e a forca com a da Fortaleza.



Maquete de Fortaleza feita por Sérgio Marques, Edite Colares, Cartaxo de Arruda Jr. e Wanderley Palmiro, a partir de desenho feito pelo Capitão-Mor Manoel Francês em 1726.
  Acervo do Museu do Ceará


O risco forte do Riacho Pajeú marca o mapa. E seria por muito tempo, o limite – a leste – do desenho urbano da pequena vila, futura capital. 
Nasce o Século XIX e a Vila de fortaleza ainda termina na margem do Pajeú. Para além dali, a leste, apenas a picada que ligava ao Mucuripe e poucas casas.

 

No mapa riscado pelo capitão de fragata Antonio Marques Giraldes, que tinha o intuito de registrar a geografia da enseada da vila, para alcançar a tão sonhada meta de instalar um porto na região da Prainha, aparecem algumas edificações que podem ser localizadas: além do forte e da Matriz, aparece também a Igreja do Rosário, a mais antiga edificação de Fortaleza que permanece de pé até os dias atuais.  


fontes:
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo, Nirez
Revista Fortaleza, fascículo 10, de 11 de junho de 2006.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Edifício Palácio do Comércio

O Palácio do Comércio na época de sua inauguração. No térreo funcionava o Café Belas Artes. Ao fundo o prédio dos Correios - ainda não havia o edificio do Banco do Brasil - e do lado direito, as lojas do Mercado Público. (Foto Sales - arquivo Nirez)  

O terreno para construção do edifício Palácio do Comércio, sede da Federação das Associações de Comércio e Indústria do Ceará – FACIC, foi adquirido junto a Prefeitura de Fortaleza em dezembro de 1936. 

Em 17 de janeiro de 1938 aconteceu a solenidade de lançamento da pedra fundamental, que contou com a presença do Ministro da Aviação, General João de Mendonça Lima. 

No local onde se iniciou a construção, foi desenterrada a pedra fundamental do primitivo Mercado Público (Mercado de Ferro), que fora colocada no dia 18 de abril de 1896.



O Palácio do Comércio foi inaugurado em 25 de maio de 1940, projeto do arquiteto Silvio Jaguaribe Ekman e construção de Omar O’Grady. A solenidade de inauguração foi presidida pelo Interventor Federal do Estado, Francisco de Menezes Pimentel.
 

   O térreo do Palácio do Comércio. Em frente, o prédio do Museu do Ceará.
 
O Palácio do Comércio fica na Praça Capistrano de Abreu s/n°, centro de Fortaleza.


fonte:
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez) 
fotos Fortaleza em Fotos 2011

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Por dentro do Museu do Ceará

Palácio Senador Alencar, sede do Museu do Ceará  
Padre Cícero: O mito e o rito

A batina, o cajado e o chapéu. Objetos do Padre Cícero que criaram a imagem do santo protetor. A partir daí, uma proliferação de imagens em torno do padrinho que tem o poder de aliviar as dores de cada dia. Em figuras de madeira, gesso, papel ou plástico, ergue-se com destaque  nos oratórios domésticos, mostrando que o mito precisa do rito, afirmando que a fé precisa de objetos de devoção. As narrativas dos cordéis e as vozes dos romeiros não se cansam de propagar a existência de milagres em Juazeiro. O santo do povo contrasta com o padre envolvido nas relações políticas das primeiras décadas do Século XX.
Retrato de Dom Pedro II
Mesa do Juri do Crato onde foi assinada a condenação de Joaquim Pinto Madeira, em 26 de novembro de 1834. Pinto Madeira, com o apoio do padre Antonio Manuel de Sousa (apelidado de padre Benze Cacetes) lutara pelo retorno de D. Pedro I ao trono do Brasil.
Os objetos sobre a mesa representam: porção de terra onde Pinto Madeira tombou morto; fotografia, fechadura e telha da casa onde morou o padre Antonio Manuel de Sousa na cidade de Jardim; bacamarte boca de sino que segundo a tradição, pertenceu a Pinto Madeira, lider do movimento de 1832.  
Antonio Rodrigues Ferreira - Boticário Ferreira (1801-1859), fluminense, radicado em Fortaleza. Além de boticário foi presidente da câmara municipal de Fortaleza; realizou diversas obras públicas e melhorias urbanas na capital. 
frascos usados em farmácias
escrivaninha de um sobralense onde o Conde D'Eu assinou despachos e redigiu correspondências.

Quadros dos Presidentes de Província/Governadores do Estado do Ceará
antiga máquina de costura
Escudo das armas de Fortaleza contendo a efígie de um forte, e acima desta a legenda latina Fortitudine (Fortaleza), feito por iniciativa da Câmara Municipal de Fortaleza logo após a instauração da República no Brasil.

origem dos dados: Museu do Ceará
fotos: arquivo do Blog

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Otacilio de Azevedo


Otacílio de Azevedo nasceu na zona rural de Redenção - Ceará,  em 11 de fevereiro de 1896, e foi morar em Fortaleza em 1910, aos 14 anos. 

Começou nas artes plásticas como pintor de tabuletas de cinemas e de letreiros de lojas. Trabalhou na loja Fotografia N. Olsen onde teve oportunidade de conhecer artistas plásticos e escritores cearenses da época. 

Mais tarde em 1914 trabalhou na Ceará Ligth Tramways and Power Co, na função de pintor, um serviço rústico, pesado, com mais de dez horas de trabalho diário. 

Em 1916 escreveu seu primeiro livro de poesia, Dentro do Passado. Nos intervalos do serviço na Light,  escondido dos patrões ingleses, dentro das enormes valas onde os bondes estacionavam para receber reparos, escreveu  o segundo livro de poesias Alma Ansiosa.

Em 1920 publicou Musa Risonha, autobiografia em versos, onde destaca as dificuldades vividas durante o período em que trabalhou na Light. 

Segundo seus versos dessa obra autobiográfica, Otacílio nunca frequentou escola:
 
nunca transpus as portas de uma escola
 o pouco que aprendi só a mim devo. 
Nesse andar de retratar-se por meio de versos, ele acrescenta:
De oito anos aos catorze – funileiro; 
de catorze aos dezoito – copiador; 
de retratos e, agora por terceiro, 
sou fotógrafo, poeta e sou pintor. 
........................................................................
Empreguei-me da Light o amargo espaço
de três anos brutais, consecutivos, 
as forças diminuindo no cansaço, 
 ante um grupo integral de homens cativos.

Otacílio de Azevedo participou ativamente dos eventos culturais que animaram a Fortaleza de sua época. Junto com outros artistas cearenses participou do Salão Regional realizado na cidade em 1924. 

Foi um dos fundadores do primeiro ateliê de pintura de Fortaleza. 
Figurou como sócio fundador do centro Cultural de Belas Artes, mais tarde Sociedade Cearense de Artes Plásticas, onde chegou a ser eleito vice-presidente. 

Participou dos I, II e III Salões Cearenses de Pintura, em 1941, 1942 e 1944, respectivamente, e de várias edições do Salão de Abril. 

É o titular da cadeira 26 da Academia Cearense de Letras. 

Além de pintor, poeta e paisagista, Otacílio de Azevedo era grande retratista, sendo de sua autoria uma boa parte de retratos dos governadores do estado expostos em palácio, e de várias personalidades cearenses, cujos retratos encontram-se no Museu do Ceará. 

Otacílio de Azevedo faleceu no dia 03 de abril de 1978, em Fortaleza, a cidade que o poeta adotou como sua. 

Retratos pintados por Otacilio de Azevedo, acervo do Museu do Ceará

 
Coronel Marcos Franco Rabelo, que assumiu o governo do Ceará em 1912, com amplo apoio da população da capital, mas que foi deposto em 1914 pelo movimento denominado Sedição de Juazeiro.

 
Tristão de Alencar Araripe Junior (1848-1911)  foi membro da Academia Francesa do Ceará e da Academia Brasileira de  Letras. Escreveu várias obras de ficção, sendo mais reconhecido por seus trabalhos de critica literária.

 
Tomaz Pompeu de Souza Brasil (1852-1929), intelectual cearense, foi deputado geral, professor e diretor da Faculdade de Direito do Ceará, dentre outras funções de destaque que exerceu.


Rodolfo Teófilo (1853-1892). Foi um dos presidentes do grupo literário Padaria Espiritual, usava o pseudônimo Marcos Serrano. Publicou entre outros romances e ensaios A Fome, O Paroara, História da Seca no Ceará e Sedição de Juazeiro. 
Obras literárias
Dentro do Passado - 1916
Alma Ansiosa - 1918
Musa Risonha - 1920
Sugestão do Luar - 1921
Réstia de Sol - 1942
Redenção - 1944
Desolação 1947
Úlyimos Poemas - 1958
A origem da Lua - 1960
Adágios, Meisinhas e Superstições - 1966
Fortaleza Descalça - 1980
Trigo sem joio - 1986 
Assisti, em 1929, revoltado, à derrubada do célebre Oitizeiro situado atrás da igreja do Rosário, nas imediações do atual Banco São José, no cruzamento das ruas Guilherme Rocha e General Bezerril.

Um caboclo forte, no alto da fronde do oitizeiro, cortava, com afiada foice, que brilhava ao sol, os galhos mais altos. Os nodosos ramos descreviam círculos de angústia e vinham, depois, cair exânimes, no velho e desconjuntado calçamento, num remoinho de folhas verdes e doirados frutos...

A cada foiçada, soltavam-se lascas que se vinham juntar à ramagem, no chão. Aqueles ramos retorcidos pareciam sentir, convulsos, a dor que lhes causava a afiada ségure...
Grande número de pessoas idosas achava-se ali, aturdido.

Rebelava-se contra aquele ato de vandalismo. A antiquissima árvore, inofensiva, servira de abrigo a milhares de pessoas no decorrer de mais de um século. Sob sua fronde, procuravam refrescante abrigo contra os ardores da canícula os que paravam ali, conversando sobre arte, política, religião e até mesmo sobre a vida alheia. Quantas e quantas vezes não me sentei sobre suas grossas raízes para escrever os meus primeiros e sentidos versos...

A faina continuava, impiedosa. Nada podia demover os operários, que apenas cumpriam um dever. Alguns deles estavam armados, prevendo uma reação mais violenta do povo.

Velhos de cabelo branco que haviam brincado, quando meninos, à sombra acolhedora do oitizeiro do Rosário, deixavam escapar dos lábios murchos verdadeira saraivada de impropérios e inúteis protestos. Aos poucos, porém, a onda de rebelados, sem forças, foi-se desfazendo, frágil demais para tentar qualquer reação.

A grande copa, afinal, rolou por terra, com fragor, num dilúvio de folhas. Uma brisa correu - talvez o último alento da árvore. Depois, foi o tronco, cortado cerce, com o auxilio de machados. Por fim, só restaram as raízes retorcidas...

Mandara abater a nobre árvore o prefeito Álvaro Weyne, depois de - magro consolo! - mandar tirar-lhe uma fotografia. Acreditamos que o ilustre edil sofreu também ao tomar essa decisão.  O verdadeiro algoz do oitizeiro foi o progresso, em nome do qual se cometem tantos crimes...

O velho oitizeiro já não era mais que um intruso, um trambolho que impedia o embelezamento da cidade que crescia. Começavam a aparecer os automóveis que deveriam transitar por todas as artérias da cidade.

A queda do oitizeiro do Rosário marcou o desmoronamento de mais uma tradição, para dar lugar às correrias desenfreadas dos novos habitantes da pacata urbe - os bêbados da gasolina!

Otacílio de Azevedo

pesquisa:
Fortaleza descalça, de Otacílio de Azevedo
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