sábado, 23 de maio de 2020

O Atribulado Governo Franco Rabelo - 1912 - 1914


Depois da atribulada deposição de Antônio Pinto Nogueira Accioly, o maior de todos os nossos oligarcas que governou até 24 de fevereiro de 1912, quando teve de renunciar à presidência do Estado em razão de forte pressão popular, e para completa libertação do Ceará do domínio da oligarquia, foram buscar o coronel Marcos Franco Rabelo, ilustre militar cearense.

Praça Marquês de Herval (atual José de Alencar), reformada no governo de Accioly/Guilherme Rocha (foto arquivo Nirez)

Franco Rabelo sentou praça como segundo-cadete no 15º Batalhão de Infantaria na Escola Militar do Rio de Janeiro em 10 de setembro de 1879. No Exército, além da carreira militar atuou como professor de várias escolas militares, e só deixou a instituição em 1912, para candidatar-se ao Governo do Ceará. Portanto, Rabelo não tinha nenhuma experiência política ou administrativa. Acrescente-se a isso as reservas feitas à sua indicação pelo Senador Pinheiro Machado, cuja influência alcançava todo o país.

Eleito por esmagadora votação, Franco Rabelo iria encontrar a primeira grande dificuldade no reconhecimento de sua eleição por parte da Assembleia Legislativa, onde a oposição era maioria. Superado o impasse, o novo governador haveria de enfrentar outros grandes obstáculos. 

Na Rua Barão do Rio Branco foi erguido um Arco do Triunfo para recepcionar o Coronel Franco Rabelo - 1912. Foto do livro Ah, Fortaleza!

O maior deles foi enfrentar a feroz oposição que vinha do interior do Estado, formado por correligionários do oligarca deposto, inconformados com a perda de poder e privilégios que há muito desfrutavam. O quartel general dessa oposição foi montado em Juazeiro do Norte, e seu comandante era ninguém menos que o famoso Padre Cícero, o santo venerado pelos romeiros, o coronel de batinas reconhecido em todo o Estado. Aos chefetes do interior, que se apoiavam em grupos de capangas armados que mantinham sob seu comando, juntaram-se os políticos descontentes da capital, formando um grupo antagonista de força considerável.

Uma multidão se concentrou em frente a Sede do Tiro de Guerra, na Rua General Sampaio, para recepcionar o coronel Franco Rabelo (foto do livro Ah, Fortaleza!)

Durante o governo de Franco Rabelo, Idelfonso Albano foi nomeado Intendente de Fortaleza.  Em sua gestão procurou continuar o processo modernizador da cidade e civilizatório da população, com a remodelação de praças e logradouros. A Praça General Tibúrcio foi uma das beneficiadas. Devido a sua localização, na vizinhança do Palácio do Governo, o novo intendente se indignava com o fato dela ter sido transformada em depósito de materiais e de pastagens para animais. O projeto exigiu a desapropriação de várias casas em redor da praça, formando o atual quadrilátero. Por ordem do Intendente, a praça foi ajardinada, recebeu coreto, bancos importados e 49 novos combustores, que tornaram a Praça General Tibúrcio, a mais iluminada da capital, além de novos gradis e as estátuas dos leões, esculpidos em bronze e importados de Paris.

Albano promoveu a reforma da Cadeia Pública e o novo sistema penitenciário com base na criminologia moderna e práticas humanitárias – nesse período, a cadeia passou por reforma interna – iluminação e reconstrução de oficinas – artefatos diversos, carpintaria e calçados como atividades regenerativas dos presos, além de aulas de catequese. A polícia passava por mudanças visando melhorar a imagem formada pela repressão da oligarquia aciolina. Discutia-se a reformulação do Sistema Penitenciário obsoleto.

Além disso foi criada a guarda cívica para disciplinar a população pobre, foram promovidas campanhas de combate à febre amarela, com a recuperação da salubridade pública e a instauração de uma polícia médica; foi criado o Instituto de Amparo à infância.  Dividiu a cidade em 4 distritos para viabilizar a limpeza, e promoveu a abertura da Avenida Sena Madureira, que é a atual Avenida Alberto Nepomuceno. 

Avenida Alberto Nepomuceno, antiga Rua Sena Madureira - foto Arquivo Nirez
chamada inicialmente de Caminho da Praia (por fazer a ligação com a Praia de Iracema).  Em 1856, passou a ser a Rua da Ponte, devido a existência de uma ponte sobre o Riacho Pajeú que cortava a rua. Na gestão do prefeito Ildefonso Albano,  (1912-1914), foi alargada e pavimentada com calçamento e recebeu a denominação de Rua Sena Madureira. Em 1921 recebeu meio-fio e arborização e ganhou a denominação atual – Avenida Alberto Nepomuceno – em homenagem ao músico falecido em 1920.

Além destas obras temos, também, a chegada dos bondes elétricos em 1913 e da energia elétrica em 1914, através da companhia Ceará Light and Power.
Tanto o governador Franco Rabelo como seu intendente, eram bem aceitos e contavam com a aprovação dos fortalezenses.  Mas a base de apoio ao governo era muito frágil. Afastado do Ceará há muito tempo, sem as malícias do cargo, sem jogo de cintura e desconhecendo os conchavos políticos locais, Rabelo cometeu vários equívocos. Um destes erros foi entregar o comando da base política de sua gestão a Francisco de Paula Rodrigues, homem despreparado para a função e que foi escolhido apenas por ser antigo correligionário do sogro de Rabelo, o general Clarindo de Queiroz, deposto da presidência do Estado em 1892, discriminando os demais grupos políticos que que se opuseram a Accioly.

Rabelo não cumpriu acordos assumidos, não entregou os cargos públicos prometidos e exonerou Padre Cícero – aliado fiel de Accioly e 3º vice-presidente do Estado – do cargo de prefeito de Juazeiro. Ao lado dos adversários do governador, estavam a força política opositora representada pelo presidente Hermes da Fonseca e Pinheiro Machado, senador gaúcho candidato à presidência da República. A administração de Franco Rabelo foi ficando isolada politicamente.

Ao aderir à coligação contra a candidatura do Senador Pinheiro Machado, estava selado o destino de Franco Rabelo. Como represália, iniciou-se no Rio de Janeiro, então sede do governo federal, um trabalho conspiratório contra o governador do Ceará.

A escolha de Juazeiro do Norte para deflagração do movimento, decorreu do enorme prestígio que desfrutava o Padre Cicero no seio das populações sertanejas, bem como da extraordinária habilidade que tinha o caudilho Floro Bartolomeu para comandar essas tropas formadas por jagunços e cabras, reunidas num poderoso exército ilegal.

Movimentação na porta da Intendência Municipal  - Revista O Careta 1914

Segundo Rodolfo Teófilo escreveu em “A Sedição de Juazeiro” de sua autoria, “mais de dois mil homens estavam em armas. Fortaleza era uma praça de guerra. A vida da cidade havia parado por completo. Os empregados da Estrada de Ferro Baturité deixaram o trabalho e pegaram em armas, fazendo o mesmo os homens do mar, trabalhadores da praia, empregados do comércio, o tiro 38, os carroceiros. Enfim, pode-se afirmar que todo homem válido estava defendendo a cidade. Com semelhante resistência, era impossível aos jagunços entrar na cidade”.

Trincheira aberta na Praça Figueira de Melo em Fortaleza, para aguardar a invasão de jagunços que vinha de Juazeiro do Norte. imagem do livro Ah, Fortaleza!

No início de março de 1914, os homens de Juazeiro cercaram a capital, baixando acampamentos em áreas próximas como Maracanaú, Maranguape e Caucaia. A possibilidade de Fortaleza ser invadida causou histeria nos fortalezenses. No dia 9 deste mês o presidente Hermes da Fonseca decretou Estado de Sítio no Ceará, sendo a população desarmada e suspensa a organização da policia estadual, de modo que o policiamento da capital passasse para o inspetor militar Setembrino de Carvalho.

Desmontava-se assim o esquema de defesa popular de Rabelo. Cinco dias depois, a 14 de março de 1914, foi decretada intervenção federal no Estado, levando o governador a renunciar. Uma multidão emocionada se despediu de Franco Rabelo na saída do Palácio do Governo. Receberia ainda muitas homenagens até embarcar para o Rio de Janeiro dias depois.


Fontes: 
História do Ceará, de Airton de Farias
Anuário do Ceará 79/80


sábado, 2 de maio de 2020

A Chegada das Igrejas Evangélicas (até 1970)


A Igreja Católica Apostólica Romana chegou ao Brasil logo após o descobrimento, junto com os primeiros colonizadores portugueses que aqui aportaram trazendo os padres da Companhia de Jesus – os Jesuítas – que se encarregaram de promover a substituição dos símbolos religiosos indígenas pelos preceitos da Igreja Católica. E o país cresceu e se desenvolveu como o maior país católico do mundo, tendo o catolicismo como religião oficial até a Constituição Republicana de 1891, que instituiu o Estado Laico. Antes mesmo da instituição do Estado laico e da liberdade de crença, a primeira igreja evangélica já se instalava e conquistava fiéis no Ceará.

Igreja Presbiteriana


Ao casal de missionários De Lacy Wardiaw e sua mulher Mary Wardlaw, que aqui chegaram em 1881, é creditada a primeira incursão da igreja presbiteriana em terras cearenses. No mesmo dia da chegada, em um hotel da Praça dos Mártires (Passeio Público), o pastor apresentava o culto aos anfitriões: o capitão do porto e senhora, o chefe dos correios um jornalista recém convertido e alguns passantes. Em que pese o culto em língua estrangeira, o americano batizou 13 novos adeptos em julho de 1883, data que foi organizada a primeira igreja evangélica do Ceará – a segunda do Norte e Nordeste – e que por ocasião de sua instalação recebeu os primeiros missionários e a denominação de Igreja Presbiteriana de Fortaleza.  

Em 12 de outubro de 1898 foi assentada a pedra fundamental da primeira Igreja Presbiteriana de Fortaleza, à Rua Sena Madureira esquina com a Rua Pedro Borges. Hoje a igreja conta com mais de 50 templos em todo o Estado. Dentre as obras sociais mantidas pela igreja, estão um abrigo para senhoras idosas e carentes; um projeto no bairro Parque Santa Cecília, que oferece a 500 crianças cursos gratuitos que incluem escola de 1ª a 4ª Séries, esportes variados, balé, dança moderna, música teatro, informática, além de assistência médica, odontológica, e o Projeto Vila Mar, no bairro do Serviluz, que atende a 801 crianças, oferecendo creche e escola de 1ª a 4ª séries, e cursos gratuitos de balé, música, esportes variados, teatro e informática, além de assistência médica, dentária, psicológica. A sede da igreja fica na Avenida Visconde do Rio Branco.

Igreja Batista

O primeiro contato da Igreja Batista com os cearenses, aconteceu em 1908, através do pastor Eric Nelson. De 1923 a 1930 funcionou em estado embrionário, sendo criada a primeira igreja na Aldeota. Registra-se o ano de 1945 como o da chegada dos primeiros missionários residentes, o pastor Burton de Wolfe Davis e sua mulher Sarah Blanche Davis . Alguns anos mais tarde coube a outro casal – Robert Standley organizar a segunda igreja, a de Monte Castelo, época em que foi construído o Colégio Batista de Fortaleza. 


Colégio Batista Santos Dumont - inaugurado em 1950 
Hospital Batista - anos 60
Em 16 de junho de 1960 houve o lançamento da Pedra Fundamental. Com um projeto arrojado, o Hospital já foi concebido com a intenção de ser o mais moderno do Ceará, e o 1° Hospital Batista do Brasil. 

Ao fim dos anos 50 foram construídas cinco igrejas, sendo duas em Fortaleza e três em cidades do interior. A partir dos anos 60 os batistas concentrariam mais esforço em sua propagação, criando congregações e construindo o Hospital Batista Memorial. Ligados às atividades da Igreja Batista, além do Hospital e do Colégio, estão ações que visam a reabilitação de viciados em Drogas, a Livraria Batista Cearense, no Centro, além da Escola  Kerigma, que encerrou as atividades em 2016.

Igreja Pentecostal Assembleia de Deus

primeiro templo central em Fortaleza

No Ceará a Igreja Assembleia de Deus começou a operar a partir do interior, com a instalação de uma unidade num lugarejo conhecido como Alagoinha, em Itapajé, em 1914, sob a responsabilidade do pastor Adriano de Almeida Nobre. A abertura do primeiro núcleo em Fortaleza só seria possível em 1929, tendo como pastor Antônio Rego Barros, enviado pela igreja de Belém. A fundação da igreja em Fortaleza ocorreu   no dia 07 de setembro do mesmo ano, na Rua Santa Terezinha, nº 146, no bairro do Arraial Moura Brasil.

Por volta de 1933 a unidade de Fortaleza contava com apenas 42 membros, Em 1935 o novo pastor José Teixeira Rego transferiu o salão de cultos que funcionava no bairro Benfica para um prédio na Rua Tereza Cristina. Com o passar do tempo e o aumento no número de congregados, o templo passou por uma reforma, sendo reinaugurado em 1957 com uma solenidade que foi assinalada como “o maior acontecimento na história do povo pentecostal no Ceará”. Hoje são 110 mil igrejas no Brasil, frequentadas por 12 milhões de fiéis, e inúmeras obras sociais. A sede da Assembleia de Deus fica na Avenida dos Expedicionários.

Adventistas do Sétimo Dia

Os Adventistas são uma igreja cristã protestante organizada nos Estados Unidos em 1863. A primeira missão adventista do Sétimo Dia a incursionar no Ceará data de 1936, quando aqui chegou o missionário Leo Halliwel, a quem coube implantar um núcleo religioso compartilhado por 29 adeptos. Esse trabalho inicial foi impulsionado a partir de 1938, época em que a igreja já contava com cerca de 300 membros. O templo central foi inaugurado em 1947.

Católicos Melkitas

Templo Melkita Nossa Senhora do Líbano - no bairro Meireles

A instalação da primeira e até agora única paróquia do rito Melkita Bizantino no Ceará ocorreu em 1953, ocupando então a Igreja de São Pedro, na Praia de Iracema. Sua criação deve-se ao esforço da colônia libanesa residente em Fortaleza, de onde saíram os 15 membros que comporiam o Conselho Leigo do núcleo religioso em seu início.

Em 1963 a igreja transferiu suas instalações para a Rua República do Líbano, que recebeu o nome de igreja Melkita Nossa Senhora do Líbano. Os melkitas são católicos, estão ligados à Roma, mas diferem do restante por utilizarem o rito Oriental – mais precisamente o Bizantino e não o ocidental em suas liturgias.

Testemunhas de Jeová

O movimento que resultaria no surgimento das Testemunhas de Jeová foi iniciado em 1870, nos Estados Unidos. Todas as testemunhas de Jeová gastam em média 15 horas mensais no serviço de pregação das “Boas novas do Reino de Deus”, dirigindo estudos bíblicos domiciliares. Em Fortaleza, o primeiro local de reuniões funcionou na Rua Justiniano de Serpa, sendo transferida posteriormente para a Rua 24 de Maio e depois para a Avenida Duque de Caxias. 

Salão do Reino das Testemunhas de Jeová, reinaugurado no Eusébio em 2020, com capacidade para 2.000 pessoas.

As Testemunhas de Jeová são avessos à Teologia da Prosperidade (doutrina religiosa cristã que defende que a bênção financeira é o desejo de Deus para os cristãos e que a fé, o discurso positivo e as doações para os ministérios cristãos irão sempre aumentar a riqueza material do fiel. No Brasil, seu maior divulgador é o bispo Edir Macedo, da IURD), não fazem nenhum tipo de coleta nas reuniões, nem cobram entrada para qualquer que seja o evento. Os ministros não cobram para realizar batismos, funerais, casamentos ou outros serviços religiosos. Não arrecadam dinheiro em bazares, vendas de rifas, bingos, jantares beneficentes ou eventos semelhantes, nem pedem doações. Neutralidade política e recusa à transfusão de sangue também são características pelas quais os membros são conhecidos. A igreja tem atualmente 117 salões do Reino e 46.619 membros espalhados pelo Ceará.

Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

A Igreja dos Mórmons tem suas origens na cidade de Lago Salgado, no Estado norte-americano de Utah. A filosofia mórmon alcançou o Ceará na década de 60, quando o missionário Douglas J. Fenwick se instalou em Fortaleza como primeiro presidente em território cearense num imóvel na Aldeota. Os trabalhos da Igreja começaram em 1966, na Praça do Ferreira, onde os missionários encontraram os primeiros membros cearenses. Atualmente o número de membros no Brasil ultrapassa 1,4 milhão, segundo dados fornecidos pela entidade. Eles se reúnem em cerca de duas mil congregações espalhadas por todo o País.


A obra realizada pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias tem 35 mil m², levou 30 meses para ficar pronta e envolveu mais de duas mil pessoas. O templo tem fachada revestida em mármore e estátuas de ouro. Inaugurado em 2019 na região da Praia do Futuro

Igreja Messiânica

A Igreja Messiânica surgiu no Japão em 1935, criada por Meishu Okada. Sua filosofia de ação se concentra em ensinar as pessoas a serem úteis à humanidade. No Ceará tem uma única igreja, estabelecida em Fortaleza na Avenida Desembargador Moreira

 Igreja Metodista

A primeira igreja Metodista foi implantada em Fortaleza no ano de 1968, pelo missionário Josias Terenzi Pinto, instalando-se em casa na Rua Barbosa de Freitas nº 1830, passando dois anos depois para sua sede própria na Avenida Visconde do Rio Branco nº 3543.

Em 1972 a igreja deu início a um trabalho de difusão, angariando novos membros. A igreja atua em dois segmentos, o religioso e o social, onde mantém cursos de alfabetização, realiza um projeto habitacional em Acaraú e opera um Centro Social na Avenida Leste-Oeste. No Brasil os metodistas contam com seis universidades e operam 42 cursos de nível superior. 


fontes:
Anuário do Ceará 79/80
Jornal o Povo
Sites das Igrejas

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O Dia que o Pirambu marchou sobre a cidade


O Pirambu está localizado no litoral oeste de Fortaleza. Sua origem remonta ao final do Séc. XIX, quando a capital recebeu levas de flagelados que fugiam das secas que assolavam o interior do estado. A população indigente foi se alojando em barracos, em terrenos próximos à ferrovia, à zona de praia, no alto das dunas e às margens dos rios, áreas desprezadas pelos grupos sociais de maior poder aquisitivo.

Rua do Pirambu - imagem Fortaleza em Fotos - 2011

Apesar de pequenos, esses aglomerados começaram a se tornar visíveis a partir da década de 1930, quando começaram a chamar atenção por se tratar de locais de extrema pobreza, moradias precárias, alta insalubridade e altos índices de violência. O fato relevante que contribuiu para rápido crescimento da região, foi a chegada de centenas de retirantes, provenientes de várias localidades do interior do Estado, afetados pela seca de 1932. O Pirambu, juntamente com o Arraial Moura Brasil, constituía os dois bairros mais pobres da cidade, espremidos entre a linha férrea e a região de praia.

Nessa época já existiam na Avenida Francisco Sá, (com a denominação oficial de Avenida Demóstenes Rockert, popularmente conhecida como Estrada do Urubu até 1936), nas proximidades do Pirambu, diversas indústrias instaladas, como o empreendimento de Pedro Philomeno Gomes a Fábrica de Tecidos São José, que se mudou para a estrada do urubu” em 1926. Logo depois, em 1927, viria a Indústria Têxtil José Pinto do Carmo, e em 1934, a Brasil Oiticica. Além dessas, havia dezenas de pequenos estabelecimentos. A concentração de empresas atraiu a classe trabalhadora.

Avenida Demóstenes Rockert em 1927. A partir de 1936 foi pavimentada e recebeu a denominação de Avenida Francisco Sá. Foto Relatório da PMF

Nas empresas, os operários tiveram contato e passaram a receber orientação de sindicatos e do Partido Comunista do Brasil, com forte influência na zona oeste da cidade. E o Pirambu foi à luta. Desde 1948 possuía uma sociedade feminina constituída para lutar contra a ameaça de expulsão dos moradores do bairro e a favor de melhorias urbanas. A maioria dos habitantes tinham seus casebres localizados em terrenos de marinha.

As pessoas vinham em sua maioria do interior, e com a interferência do comandante da Capitania dos Portos, que ficava no edifício da Marinha, ou do capelão, que as avaliavam, as famílias eram enviadas para a hospedaria que ficava na Rua Olavo Bilac (hospedaria Getúlio Vargas). Havia uma comunicação entre hóspedes e moradores do Pirambu, e os migrantes iam deixando a hospedaria, à medida que conseguiam um terreno para se estabelecer na comunidade.

imagem: O Semanário (RJ)

O bairro não tinha nenhuma urbanização nem contava com infraestrutura, os terrenos tinham preços mais em conta para as massas, que em muitas oportunidades os ocupavam clandestinamente, daí o crescimento irregular, com a propagação de lotes de tamanhos irregulares, casas modestas e favelas, becos e ruas estreitas, tortuosas e sem saída, inexistência de espaços públicos e áreas de lazer.

Os ocupantes do Pirambu já contavam em torno de 5 mil pessoas, quando apareceram duas famílias alegando que eram donas da área, os Braga Torres e os Carvalho. Pressionavam os moradores para que desocupassem as terras ou vendessem os terrenos. Sentindo-se ameaçados, os moradores começaram a se organizar, a se reunir. Mas não tinham uma liderança, não queriam interferência política e não chegavam a um acordo sobre o que fazer.

Daí, convidaram o padre Hélio Campos, que havia pouco tempo tinha se formado capelão da Marinha, e atuava na Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes. Corria o ano de 1958. Descobriram que os Braga Torres e os Carvalho não eram donos da área. E sob a liderança do padre, iniciaram um movimento pela manutenção da posse da terra, pela melhoria das condições sociais e de moradia e contra novas ameaças de expulsão.


A presença do padre deu uma nova dinâmica e fortaleceu o movimento comunitário e desestruturou o trabalho de conscientização política que o Partido Comunista vinha desenvolvendo junto aos moradores do Pirambu. O motivo é que a Igreja era uma instituição anticomunista. A maior prova foi evidenciada na própria marcha, quando os operários ligados ao Partido Comunista foram absorvidos pela ação do Padre Hélio, que deu ao movimento um caráter cristão, baseado nos princípios da doutrina social cristã.

A marcha organizada pelos moradores do Pirambu foi divulgada com reservas pela imprensa local, principalmente quando o padre Hélio Campos afirmou que a mesma era uma advertência aos poderosos do Estado. O movimento se concretizou no dia 2 de janeiro de 1962, quando a população, após a celebração de uma missa no pátio da Casa Paroquial, saiu em caminhando pelas ruas de Fortaleza.

A maioria foi a pé, mas havia ônibus e carroças. Uma multidão incalculável, portando faixas, cartazes e gritando palavras de ordem, seguiu em direção ao centro, onde os manifestantes, de forma pacífica, passaram a ocupar a Praça da Sé. 


A Praça da Sé nos anos 40 e a Catedral inconclusa dos anos 50 
 imagens Anuário do Ceará

Foram primeiro ao Palácio do Bispo, onde foram recebidos por Dom Antônio de Almeida Lustosa; depois desceram para o Palácio da Luz, na Praça General Tibúrcio onde uma comissão, inclusive o Padre Hélio, foi recebida pelo governador Parsifal Barroso. A grande aglomeração de pessoas assustou os comerciantes do Centro, que fecharam as portas. Mas a situação se acalmou diante da garantia de Padre Hélio de que se tratava de um movimento pacífico e ordeiro. 

Oito dias depois da marcha, uma comitiva da qual Padre Hélio era parte, foi a Brasília discutir a questão da desapropriação das terras da região do Pirambu. Lá descobriram que o Pirambu não estava em terreno de marinha. A área que ia da Rua Jacinto de Matos até a Rua Francisco Calaça foi desapropriada. Nos terrenos que se seguiam não foi possível a desapropriação porque tinha terreno particular, da Prefeitura, do governo Estadual e Federal e até da Igreja.

Por força do decreto nº 1058, de 25 de maio de 1962, que declara tais terras de utilidade pública para execução de plano habitacional em favor dos seus moradores, hoje, os terrenos são considerados de propriedade comunitária.

Rua do Pirambu - imagem Tarcísio Garcia 2018

Embora tenha conseguido a posse das terras, povo do Pirambu acabou perdendo uma de suas mais expressivas lideranças. Pois, após os acontecimentos decorrentes do Golpe Militar de 1964, os movimentos populares foram desarticulados e suas lideranças presas ou exiladas. A Igreja e as forças da repressão trataram rapidamente da transferência do padre Hélio Campos para o Estado do Maranhão, e o Pirambu foi dividido em duas paróquias: Nossa Senhora das Graças e Cristo Redentor, originando, então dois bairros.

Orla marítima do Pirambu - imagem Fortaleza em Fotos - 2011

De acordo com dados do IBGE, com base no Censo Demográfico 2010, o Pirambu é o maior aglomerado urbano do Estado. O bairro é também o 7º colocado em densidade populacional do país, com um total de 42.878 habitantes. A falta de esgotamento sanitário é o principal problema da comunidade, onde 19% da população não tem acesso ao serviço. A coleta de lixo é deficitária, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM), de apenas 0,391, e está entre os 10 piores dos bairros da capital cearense. Também são baixos os níveis de escolaridade (0,293) e de renda média em salários mínimos do chefe da família (0,062).

Decorridos 58 anos da histórica marcha, o Pirambu ainda apresenta o maior número de moradores vivendo em áreas de risco, em habitações sujeitas à ação do homem ou da natureza. Nas favelas que ocupam a faixa de praia, as famílias estão expostas ao avanço da maré, deslizamentos de encostas e outras questões de insegurança.


Fontes:


A Marcha sobre Fortaleza (1962), de Raimundo Nonato Nogueira de Oliveira. Disponível em http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1370959544_ARQUIVO_AMARCHASOBREFORTALEZA_1962__Textorevisto.pdf

As lutas no Pirambu e por um poder que venha do povo. Jornal O Povo

A ESCOLARIZAÇÃO DA ALMA: A EDUCAÇÃO POPULAR CRISTÃ, NO CEARÁ, ENTRE AS DÉCADAS DE 1950 E 1960, de Lídia Eugenia Cavalcante* Universidade Federal do Ceará

Pirambu é bairro mais populoso do Estado Disponível em < https://lidesealgomais.wordpress.com/2012/04/24/pirambu-e-bairro-mais-populoso-do-ceara/>




domingo, 19 de abril de 2020

As Mulheres nas Praças e nos Equipamentos Públicos


Muitas mulheres tiveram papéis relevantes na formação histórica de Fortaleza: professoras, escritoras, médicas, educadoras, artistas. Mas as mulheres foram pouco lembradas por ocasião do batismo de praças e monumentos da cidade. Várias se tornaram nomes de ruas, postos de saúde e escolas de primeiro grau. Mas a maioria absoluta, são homenagens a homens, alguns totalmente desconhecidos para a maior parte da população, outros, até que são nomes conhecidos, mas não se sabe por que foram homenageados com nomes de ruas e praças da cidade, quando havia tantas mulheres notáveis que mereciam todas as homenagens.

Praça Argentina Castelo Branco


Dona Argentina Viana Castelo Branco nasceu em Cataguases – MG, em 16 de novembro de 1899. Aos 18 anos casou-se com o então cadete Humberto de Alencar Castelo Branco. Faleceu em abril de 1963, aos 74 anos de idade, na cidade do Recife, um ano antes da revolução de 31 de março, deixando viúvo o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, que seria presidente do Brasil no período de 15 de abril de 1964 a 15 de abril de 1967.
Seus restos mortais juntamente com os do seu marido, estão sepultados no mausoléu vizinho ao Palácio da Abolição. Argentina Castelo Branco é nome de uma simpática e bem cuidada praça, localizada no bairro de Fátima, criada em 1964, no governo do General Murilo Borges Moreira.

Praça Gracinha Soares

Maria da Graça Figueiredo dos Santos nasceu em São Luís – MA, em 21 de dezembro de 1940. Atriz e diretora teatral. Foi considerada uma das maiores atrizes do Ceará, desde que chegou aqui, em 1954. Estreou no grupo Teatro-Escola, dirigido por Nadir Papi Sabóia, e foi uma das primeiras alunas do Curso de Arte Dramática da Universidade Federal do Ceará. Em 1960, fundou com o marido, o ator Edilson Soares, o grupo Experiência, que montou duas peças infantis. Maria da Graça (Gracinha) diplomou-se no Curso Normal do Colégio São João, no Curso de Formação de Atores e no Curso de Arte Dramática da UFC.  Gracinha Soares faleceu em 1982.
Gracinha Soares é o nome da praça localizada no bairro Edson Queiroz, criada em 1983, na gestão do Prefeito César Cals Neto. Fica entre a Avenida Sapiranga, Ruas Conselheiro Gomes de Freitas, Lourival Correia Pinho, Evilázio Miranda e Poeta Otacílio Azevedo.

Praça Margarida Sabóia de Carvalho


Margarida era professora diplomada pela Escola Normal, casada com Jáder de Carvalho, professor, advogado e jornalista. Junto com a irmão Hortênsia, fundou o Curso Eduardo Saboia, de preparação ao Admissão. Lecionou no Colégio Castelo Branco quando de propriedade do professor Odorico Castelo Branco, seu fundador. Além de educadora Margarida era Jornalista, escritora e cronista, escreveu: Por Entre Dedos; Crônicas; Santos do Céu - Santos da Terra; Imperfeição e A Vida em Contos. Morreu, vítima de atropelamento, em 11 de maio de 1975.


Colégio Castelo Branco fundado a 1º de junho de 1900 pelo professor Odorico Castelo Branco - foto Arquivo Nirez 

A Praça está localizada entre as Ruas Dr. Carlos Ribeiro Pamplona e Edmar Villar de Queiroz no bairro Edson Queiroz. O espaço sem nenhuma urbanização, foi criado em 1978, com o nome de Praça Edmar Villar de Queiroz. No mesmo ano teve a denominação modificada para Margarida Sabóia de Carvalho. Conhecida popularmente como praça da CTC, a praça foi revitalizada em 2019, na gestão do prefeito Roberto Cláudio.

Praça Narcisa Borges

casa no Jacarecanga onde residiu Narcisa Borges. Foi demolida

Dona Narcisa Borges da Cunha Moreira, casada com José da Rocha Moreira, eram os pais do tenente Murilo Borges Moreira (que mais tarde seria prefeito de Fortaleza no período 1963-1967), e sogra do capitalista José Maria Filomeno Gomes. Dona Narcisa, foi vítima de um rumoroso crime que abalou a sociedade de Fortaleza, ao ser brutalmente assassinada pelo marido de uma empregada da sua casa, ao defendê-la da agressão do marido, no dia 21 de dezembro de 1936.
Narcisa Borges é nome  de uma praça localizada no bairro Vicente Pinzon, e de  uma escola municipal localizada na travessa Costa Rica no bairro Antônio Bezerra (ou Paes de Andrade).

Hospital e Maternidade Zilda Arns (Hospital da Mulher)


Zilda Arns Neumann nasceu em Forquilhinha, Santa Catarina, no dia 25 de agosto de 1934.  Era médica pediatra e sanitarista, irmã de Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo. Fundou em 1983 a Pastoral da Criança, um programa de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Em 2006, foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz. Zilda Arns faleceu em Porto Príncipe, Haiti, no dia 12 de janeiro de 2010, quando participava de uma palestra sobre as atividades da Pastoral da Criança, no momento em que a cidade foi atingida por um violento terremoto. O hospital foi Inaugurado em 2012, localizado na Avenida Lineu Machado, 155, bairro Jóquei Clube.

Luiza Távora

Praça Luiza Távora - foto de Silas Junior

Luiza Silva de Moraes Correia nasceu em Fortaleza no dia 01 de julho de 1923, filha de Luiz Moraes Correia, professor de direito da Faculdade de Direito do Ceará e Esmerina Silva Correia, proveniente de uma abastada família do Piauí. Casou-se com o coronel Virgílio Távora com quem teve dois filhos. A partir do casamento mudou o nome para Luiza Moraes Correia Távora. Foi uma das primeiras damas mais atuantes do Ceará durante os dois mandatos de governador de Virgílio Távora (1963/1966 – 1979/1982). Luiza Távora faleceu em 1992, aos 68 anos de idade. 

Luiza Távora em companhia de Virgilio Távora na inauguração da energia de Paulo Afonso em fevereiro de 1965 - foto do livro História da Energia no Ceará, de Ary Bezerra Leite 

Equipamentos públicos que receberam o nome da primeira data:
Praça Luiza Távora - Localizada entre a Avenida Santos Dumont e as ruas Carlos Vasconcelos, Monsenhor Bruno e Costa Barros, construída onde antes existia um castelo erguido por Plácido de Carvalho, no início da década de 1920, no então rarefeito bairro do Outeiro.
Posto de Saúde Luiza Távora, no bairro Itaperi
Restaurante Escola Luiza Távora – criado em 1981 a pedido da primeira dama. É vinculado ao Centro Educacional Padre João Piamarta, localizado na Avenida Aguanambi, bairro Aeroporto.
EEFM Dona Luiza Távora – Bairro São João do Tauape
EEFM Luiza Távora – Bairro Jardim das Oliveiras

Rachel de Queiroz

Posse na Academia Brasileira de Letras em 1977 - foto O Povo

Raquel de Queiroz nasceu em Fortaleza, em 17 de novembro de 1910. Apesar de ter nascido na capital era em Quixadá, sertão central que a escritora tinha suas raízes.  Autora de destaque na literatura nacional, estreou em 1927, com o pseudônimo de Rita de Queiroz, no jornal O Ceará.  Em 1930, publicou o romance O Quinze, que retrata os horrores vivenciados pela escritora na terrível seca daquele ano.
Com apenas 20 anos Rachel de Queiroz se projetava na vida literária do país, com um romance de fundo social. O livro editado às expensas da autora surgiu em modesta edição de mil exemplares, e recebeu críticas dos maiores escritores da época. O entusiasmo da crítica diante do lançamento de “O Quinze” tornou Rachel de Queiroz um nome nacional, e aos vinte anos já era uma figura pública.
Trecho do Parque Rachel de Queiroz em 2010 - foto Fortaleza em Fotos

A consagração veio com o prêmio Fundação Graça Aranha em 1932. Rachel de Queiroz foi primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras em 1977. Foi a primeira mulher a receber o Prêmio Camões, o Nobel da língua portuguesa.  Rachel fez sólidos contatos com algumas lideranças políticas, e terminou sendo uma das fundadoras do Partido Comunista do Ceará.
Quando a ditadura de Getúlio Vargas começou a atuar com mão de ferro, intensificando o combate aos “vermelhos” Raquel foi presa incomunicável no Quartel do Corpo de Bombeiros em Fortaleza. A convivência com os bombeiros rendeu uma crônica onde a então presa política relata sua rotina. A escritora faleceu em 04 de novembro de 2003, no Rio de Janeiro. 

Homenagens a Rachel de Queiroz em Fortaleza:
Escola Municipal Rachel de Queiroz na Barra do Ceará
Centro de Educação Infantil Rachel de Queiroz no bairro Prefeito José Walter
Praça Rachel de Queiroz – Rua Cel. Raimundo Guanabara, 608-132 - São Gerardo
Estátua na Praça General Tibúrcio
Parque Rachel de Queiroz – o Parque Rachel de Queiroz no papel desde 1995, tinha previsão de iniciar a primeira etapa no primeiro trimestre de 2020. Localizado na zona Oeste de Fortaleza, terá 10 km de extensão e uma área total de aproximadamente 203 hectares. As intervenções no Parque irão beneficiar diretamente 285 mil pessoas, em uma área de abrangência de 14 bairros.
Colégio Militar do Corpo de Bombeiros Escritora Rachel de Queiroz –  fundado no dia 13 de abril de 1998 no bairro Jacarecanga.

Colégio Militar do Corpo de Bombeiros Escritora Rachel de Queiroz -  foto Governo do Estado

A Incendiária e os Bombeiros (Crônica de Rachel de Queiroz)

Praça General Tibúrcio foto: Fortaleza em Fotos 2012 

Em 1937, quando  Getúlio Vargas preparava seu golpe de estado, todos os possíveis opositores que se espalhavam pelo território nacional foram apanhados. No Ceará, mandaram os jornalistas para a cadeia pública. Mas comigo tiveram consideração, pois eu era uma senhora de boa família. Fui presa no quartel do Corpo de Bombeiros em Fortaleza.
No início de outubro, trabalhava em uma firma que embarcava algodão para Europa. Fui surpreendida por um delegado de polícia, que me conduziu a uma viatura para o Quartel do Corpo de Bombeiros, onde fui entregue não aos soldados, mas a Senhora do Comandante, que praticamente me pedia desculpas ao mostrar as precárias comodidades do local: uma cama de solteiro, uma mesa e duas cadeiras.
Levou-me a uma das janelas e disse que bastava eu chegar ali e dar um grito que ela imediatamente seria chamada. Assim, morando com os bombeiros, passei cerca de um mês, enquanto Getúlio dava e consolidava seu golpe.
Praticamente, tornei-me bombeira. Da minha janela assistia aos exercícios. É impressionante como aqueles homens arriscavam a vida, adestrando-se para salvar a vida de outros. Eles vinham marchar debaixo das minhas janelas.
A Senhora do comandante me mandava, por eles, guloseimas da sua mesa. Sua filha adolescente que me chamava de "Tenente", também me visitava. Era uma menina bonita a quem às vezes ajudava com problemas da escola. Era como se eu tivesse uma família afetuosa ao alcance das mãos. Já a minha família não tinha o direito de me visitar.
Afinal, Getúlio deu seu golpe, o Brasil voltou à normalidade possível, e nós, presos políticos, fomos soltos. Voltei para casa, mas confesso, senti saudades... das serenatas dos músicos sob minhas janelas, das ocasiões em que eu ajudava os bombeiros, estudantes aflitos, em hora de exames, que mandavam bilhetinhos das questões mais difíceis de português; bilhetinhos que devolvia com as respostas.
Saí afinal, mas fiquei amiga da família do Comandante, principalmente fiquei amiga dos bombeiros. Alguns vinham me visitar nas folgas e infalivelmente ao me encontrar na rua, assumiam posições de sentido e batiam solene continência e eu, confesso, ficava morrendo de orgulho.
E o carinho se renovou no coração da velha senhora.
Rachel de Queiroz


Pesquisa:
Praças de Fortaleza, de Maria Noélia Rodrigues da Cunha
Rachel de Queiroz, de Heloisa Buarque de Holanda
wikipédia