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sábado, 16 de setembro de 2023

Igrejas Centenárias do Centro

O nosso centro da cidade, que perdeu importância econômica, financeira, política e social nos últimos tempos, ainda detém as construções mais representativas de uma época em que os templos católicos refletiam o status e a fé da população, e atingiam todas as classes sociais: As Igrejas Católicas. A maioria construída com donativos, enfrentando os desafios dos tempos atuais, as igrejas resistem: cercadas de grades, fechadas em boa parte do tempo, enfrentando a concorrência de igrejas evangélicos, mas ainda acolhedoras e receptivas aos homens e mulheres de boa vontade.

Estas são cinco primeiras igrejas de Fortaleza, que já foram fundadas nos mesmos locais onde se encontram até os dias atuais. Algumas foram reconstruídas com características totalmente diferentes dos modelos originais, como as Igrejas do Coração de Jesus, de São Benedito e a de São José (Catedral Metropolitana); a maioria, no entanto, sofreu ampliações e adaptações, no entanto, foram poucas as modificações em relação a construção original.      


1 – Igreja do Rosário - 1730




A Igreja do Rosário foi construída por volta de 1730, pelos negros da Irmandade de Nossa Senhora dos Pretos, em uma época em que havia separação de raças e classes sociais em templos religiosos. Era uma pequena capela de taipa e palha, erguida com donativos ofertados pelos fiéis, num arrabalde da vila, que muitos anos mais tarde se tornaria a atual Praça General Tibúrcio.

Em 1753, a capela foi reconstruída com pedra e cal, porque ameaçava desabar. A capela mor ficou pronta em 1755. No período de 1821 a 1854, Igreja do Rosário serviu de matriz enquanto a Catedral Metropolitana passava por reformas. Construído em estilo barroco, é o mais antigo templo de Fortaleza, tombada pelo Estado em 1983. Fica na Rua do Rosário, s/n, Praça General Tibúrcio, Centro.



2 – Igreja do Patrocínio – 1852



A pedra fundamental da Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio foi lançada em 02 de fevereiro de 1850, e ficaria pronta dois anos mais tarde. Em 1849 o cabo da esquadra Fortunato José da Rocha disparou um tiro contra o Capitão Jacarandá, mas acertou o joelho do Alferes Luís de França Carvalho, que estava ao lado do capitão. Vendo-se em risco de perder a vida, Luís de França fez voto à Senhora do Patrocínio, que se escapasse, faria uma igreja em sua devoção.

No ano seguinte, curado do ferimento, lançou a pedra fundamental da igreja, ao norte da atual Praça José de Alencar. O oficial teve que deixar Fortaleza e os trabalhos de construção passaram a ser muito lentos, apesar da ajuda de muitos fiéis que apoiaram a ideia do militar. A planta do templo foi feita pelo mestre Antônio de Rosa e Oliveira.

As obras iniciadas por França só foram concluídas devido aos esforços do cônego João Paulo Barbosa, que contou com o auxílio de particulares, das Assembleias Provinciais, da Sociedade Auxiliadora dos Templos, e dos materiais foram doados pelo governo nos períodos de secas. Situada na Rua Guilherme Rocha, 536, Praça José de Alencar.



3 – Igreja de São Bernardo – 1854



Em 1854 o Tenente Bernardo José de Melo construiu uma pequena capela de taipa e palha, em honra de Nossa Senhora do Bom Parto. No primeiro inverno, com a força das chuvas que caíram, a capela foi ao chão. Graças ao seu prestígio, o tenente Bernardo conseguiu um empréstimo do governo, e com esse dinheiro construiu a atual Igreja de São Bernardo. A igreja sofreu um único acréscimo em relação a construção original: a sacristia, feita por Monsenhor Quinderé, durante os anos 40.

Inicialmente o povo chamava a Igreja do Seu Bernardo, que com o tempo mudou para São. Ficou sendo a Igreja de São Bernardo, embora a devoção maior fosse em louvor a Nossa Senhora do Bom Parto. Para justificar o batismo da igreja o Tenente Bernardo mandou vir da Espanha uma imagem de São Bernardo, que passou a ser o titular da igreja.

A Igreja de São Bernardo conta com dois altares herdados da antiga Igreja da Sé, demolida em 1938: o Altar de São José e o de N. S. do Bom Parto.  Fica na esquina das ruas Senador Pompeu e Pedro Pereira.



4 - Igreja do Pequeno Grande – 1903

imagem: https://www.tiagoguedes.com.br/post/igreja-para-casar-em-fortaleza

imagem: https://www.tripadvisor.com.br

A história da Igreja do Pequeno Grande está intimamente ligada à história do Colégio da Imaculada Conceição.  A pedra fundamental foi lançada em 1898, pelo padre Chevalier, reitor do Seminário e capelão do Colégio da Imaculada.  As obras, mal iniciadas, sofreram paralisação no ano seguinte, sendo retomadas em 1898 até a sua conclusão em 1903, quando se verificou a benção do templo.

Para que o templo ficasse concluído, a Irmã Chambeaudrie doou à igreja uma herança de família. Por sua vez, os membros de diversas associações – Filhas de Maria, Senhoras de Caridade e as próprias freiras se dedicaram a missão de angariar recursos para a obra. Situada na Avenida Santos Dumont, 55.


5 – Igreja de Nossa Senhora do Carmo – 1906


imagem UOL

Originalmente era a capela de Nossa Senhora do Livramento, um pequeno templo erigido pela Irmandade dos Pardos, administrada pela Paróquia do Patrocínio, erguida em área distante do centro, cercada de árvores, com uma lagoa nas proximidades. No início do século XX, foi decidida a construção de uma igreja em substituição à capela, que se encontrava em péssimas condições. Ainda na construção, foi permitido que fosse mudada a invocação para Nossa Senhora do Carmo.

O templo foi inaugurado em 25 de março de 1906, sendo o primeiro capelão monsenhor José Gurgel do Amaral. A imagem que ocupa o centro do altar-mor tem uma história de desencontro: o Padre Dantas tinha encomendado a imagem de Nossa Senhora do Carmo em Portugal. Quando a efígie da santa chegou a Fortaleza, ele foi avisado de que deveria pagar os direitos alfandegários para que pudesse recebê-la, o que ele não fez por esquecimento.

Então a imagem foi a leilão, tendo sido arrematada pelo Sr. José Rossas, que procurado pelo padre negou-se a cedê-la por qualquer preço. Dias depois José adoeceu gravemente, e fez uma promessa de entregar a imagem à Igreja caso ficasse curado. Alguns dias depois, mandou que sua esposa procurasse o Pe. Dantas para entregar-lhe a imagem da Virgem Maria, sem qualquer compensação.  A Igreja do Carmo fica na Avenida Duque de Caxias, s/n.




Foram totalmente reconstruídas:


Igreja do Sagrado Coração de Jesus – 1886/1961

imagem Instituto do Ceará
imagem Pinterest

Inaugurada em 25 de março de 1886, a construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus foi uma iniciativa do casal José Francisco da Silva Albano e Liberalina Angélica da Silva Albano (Barão e Baronesa de Aratanha), com o apoio do bispo Dom Luís Antônio dos Santos. Ficou conhecida como Igreja dos Albanos. O templo era simples, em linhas neoclássicas e neogóticas, se assemelhava à Igreja do Carmo.

Em 1952, os engenheiros Luciano Pamplona e Valdir Diogo aumentaram a altura da torre e colocaram um imenso relógio trazido de Roma na fachada. Cinco anos depois, em 1957, a torre cedeu e soterrou a entrada da igreja. Não houve vítimas. Ao invés de reconstruir a igreja, pois apenas a torre fora afetada, os capuchinhos optaram por derrubar toda a igreja para construírem um templo maior, com rampas para subida dos carros, uma torre vazada e uma grande cúpula sobre a nave principal.  A nova igreja foi inaugurada em 1961. Localizada na Avenida Duque de Caxias,135, Centro.



Igreja de São Benedito – 1885




                                                     imagem Arquidiocese de Fortaleza

A inauguração da Igreja de São Benedito ocorreu na manhã do dia 8 de abril de 1885.  Era uma igrejinha pequena, original, com quatro frentes para os quatro pontos cardeais, com torre de madeira envidraçada, situada ao lado oriental do Boulevard do Imperador, atual Avenida do Imperador. No dia 27 de julho de 1938 foi instalado o Santuário da Adoração Perpétua, na Igreja de São Benedito. Depois nos anos 1960 foi construída uma nova igreja na Rua Clarindo de Queirós, que fica ao lado, e o antigo templo foi transformado em uma livraria, e foi demolido em 1974.


Catedral Metropolitana – 1795/1978

imagem Arquivo Nirez


A primeira Igreja da Sé, que tem São José como patrono, foi concluída em 1795 e demolido em 1820.

Em 1854 teve início a construção da segunda igreja de São José, em estilo colonial, o espaço em frente passou a ser chamado de Largo da Matriz; Hoje é conhecida por Praça da Sé. Essa segunda igreja foi demolida em 1938.

A Catedral Metropolitana atual foi inaugurada no dia 22 de dezembro de 1978, tendo o padre Tito Guedes à frente de suas obras e como Arcebispo Metropolitano, Dom Aloísio Lorscheider. Fica na Rua Conde D' Eu. entre as ruas General Bezerril, Dr. João Moreira, Castro e Silva e Rufino de Alencar.

As nossas igrejas são bastante modestas se comparadas aos imponentes templos construídos na Bahia, Pernambuco e Minas Gerais,  sob os ciclos da cana de açúcar e do ouro. A arte do Ciclo do Gado é a mais humilde, toda a sua arquitetura se faz, pela falta da pedra apropriada para a obra, em simples alvenaria, na qual se executa uma ornamentação própria. Nem esculturas, nem cinzeladuras, nem obras de talha, nem ouro, nem mármore e só algumas exibem azulejos.    

 

Fontes:

FONTES, Eduardo. As Pouco Lembradas Igrejas Fortaleza: subsídio à história dos templos católicos de Fortaleza. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1983.

BEZERRA DE MENEZES, Antonio. Descrição da Cidade de Fortaleza. Introdução e Notas de Raimundo Girão. UFC/Prefeitura Municipal de Fortaleza, 1992

BARROSO, GUSTAVO. À Margem da História do Ceará. Imprensa Universitária do Ceará,  1962 

terça-feira, 30 de junho de 2020

O Estilo Eclético da Igreja do Coração de Jesus


Naquele começo de tarde do dia 15 de março de 1957, o Sr. Júlio Pinto se aproximara da janela do seu escritório localizado no 6º andar do edifício jangada, na Rua Major Facundo com Senador Alencar, para conferir as horas com o grande relógio existente na torre da Igreja do Coração de Jesus. Eram pouco mais de 13 horas. Nesse exato momento, viu a torre desaparecer e uma espessa nuvem de poeira ocultar tudo – teria sido uma visão, um sonho? Perguntou-se incrédulo. Era verdade o que seus olhos viram, caíra a torre da igreja do Coração de Jesus.

 A Igreja do Coração de Jesus na forma original - 1913 - imagem: Revista FonFon 
Na década de 50, a torre agulha foi substituída por uma grande torre quadrada
para abrigar um conjunto de sinos. - imagem: Arquivo Nirez

Seu primeiro ato foi pegar o telefone e ligar para o “O Povo”, para o jornalista José Raimundo Costa, o primeiro a saber do fato, pela informação segura de um amigo. Por esta razão, e devido a proximidade, pois àquela época a redação do jornal funcionava na Rua Senador Pompeu, “O Povo” foi o primeiro a documentar a tragédia.

Logo a notícia do desabamento se espalhou pela cidade, levada pelas edições extraordinárias do noticiário radiofônico. E uma multidão foi se formando, de homens, mulheres e crianças, em torno da praça do Coração de Jesus. Vinham de todas as partes, de todos os bairros, todos queriam ver de perto o desmoronamento. Temia-se pela existência de vítimas, o que felizmente, não se confirmou. A polícia precisou cercar a área.


As bases da torre primitiva não resistiram às toneladas de concreto e a construção desabou sobre o corpo do templo. Era o dia 15 de março de 1957 - imagens O Povo e Arquivo Nirez 

Imediatamente, após o impacto da notícia, o governador Paulo Sarasate juntamente com a primeira dama Dona Albanisa Sarasate, compareceram ao local, solidarizando-se com o povo católico de Fortaleza. Dois dias após o fato, no dia 17 de março de 1957, já havia uma campanha em andamento para construção de uma nova igreja, e uma missa campal celebrada sobre os escombros, por frei Silvério de Calvairate selou o compromisso. A campanha só terminaria com a inauguração oficial da nova igreja, no dia 26 de novembro de 1961.

Da palavra à ação. A cidade já estava motivada para entender a motivação de reerguer o antigo local de sua veneração. Ao invés de reconstruírem a igreja, pois apenas a torre e parte da fachada fora afetada, os capuchinhos optaram por derrubar toda a igreja para construírem uma bem maior, com rampas para subida dos carros, uma torre vazada e uma grande cúpula sobre a nave principal.


Altar mor e cúpula romana - imagens Fortaleza em Fotos - 2011

No dia 15 de janeiro do ano seguinte, foi lançada a pedra fundamental da nova igreja, para a qual foi designado como construtor frei Francisco de Chiaravalle, com projeto de Emilio Hinko. O novo templo foi construído em estilo moderno, amplo, com abóbada lembrando os templos bizantinos. Tinha por características a arquitetura eclética, cúpula romana, imitando a Basílica de São Pedro, no Vaticano, torre lembrando o gótico. Do antigo templo foram conservadas as estátuas dos apóstolos, colocadas nas marquises da  frente e dos fundos.

Matéria publicada no “ O Povo” em 15 de setembro de 1978, dá conta de que ao escavarem os alicerces para a nova construção, em vez da pedra fundamental da Igreja do Coração de Jesus, encontrou-se apenas a pedra fundamental da pequenina capela de Nossa Senhora das Dores, que ali funcionou em época passada.



Interior da Igreja do Coração de Jesus - imagens Fortaleza em Fotos - 2011

Segundo o autor de "As pouco lembradas igrejas de Fortaleza", Eduardo Fontes, o estilo da nova igreja do Coração de Jesus não agradou aos que preferiam a antiga igreja, de linhas sóbrias, tradicionais, de torre branca. Muitos não aprovaram sequer a reforma realizada na torre primitiva da Igreja dos Albanos. A igreja que hoje se ergue no lugar da primeira não possui linhas arquitetônicas definidas. É uma igreja enorme, espaçosa, mas sem beleza. As portas da frente, de ferro, sem nenhum trabalho de fundição, lembram portas de armazéns ou de garagens. Nada indica que sejam próprias à igreja, pois são destituídas de estética. A enorme abóbada, revestida externamente de alumínio – herança da arte bizantina – destoa do restante do conjunto, de linhas retas, característico de construções modernas, da era do cimento armado. 


O novo templo foi inaugurado no dia 26 de novembro de 1961, pelo arcebispo de Fortaleza Dom Antônio de Almeida Lustosa, com a presença do governador Parsifal Barroso, do prefeito general Cordeiro Neto e do bispo de Carolina no Maranhão, Dom Cesário Minali.


fontes:
As pouco lembradas igrejas de Fortaleza, de Eduardo Fontes
Caminhando por Fortaleza, de Francisco Benedito
Jornal O Povo 



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Os Casamentos nos Anos Dourados

Até os anos 50, as cerimônias religiosas de casamentos eram voltadas para a liturgia. A preocupação com decoração do templo e recepção para convidados eram coisas eventuais e ficavam em segundo plano. Uns poucos vasos com flores resolviam a ornamentação da igreja. Quanto a recepção, consistia, de modo geral, num jantar na residência dos pais da noiva ou mesmo uma reunião mais simples, onde eram servidos bolos e guaraná. Outra regra quase generalizada dizia respeito à igreja, por tradição a sede da paróquia dos nubentes, onde não raro eles haviam sido batizados e também feito a primeira comunhão. Em muitos casos, o padre oficiante da cerimônia era amigo da família e até casara os pais dos noivos.

Casamento de Yvonne Gadelha e Mário Vieira 

Dois casamentos, no entanto, quebraram essa tradição, uma vez que foram celebrados numa igreja que na ocasião ainda não havia sido sagrada como matriz, sede paroquial, no caso, a Igreja do Coração de Jesus, dos frades capuchinhos, a antiga igreja dos Albanos, construída pelo Barão de Aratanha para seu filho frade, mais tarde bispo, Dom Xisto Albano. Era então uma igreja elegante, suave, construída sobre um elevado pedestal, com escadarias, toda contornada por colunas onde se postavam os doze apóstolos, moldados em ferro e em tamanho natural. 



Quanto aos dois casamentos realizados ali, pelo seu ineditismo chamaram a atenção e se tornaram notícias além dos limites da capital. O primeiro foi dos jovens Artemilce Guedis e Glauco Lobo, realizado no final dos anos 40. A noiva residia na esquina das ruas Assunção e Clarindo de Queiroz, distante cerca de três quarteirões daquela igreja, e o acontecimento ultrapassou a barreira da realidade adquirindo conotações lendárias. 

casamento da Rainha Elizabeth

Dizia-se que o vestido da noiva era uma reprodução do modelo usado pela então princesa Elisabeth da Inglaterra, que casara recentemente com o Duque de Edimburgo. Segundo ainda os mesmos comentários, a noiva teria sido conduzida até a porta da igreja numa carruagem, também cópia do veículo que conduzira a futura rainha da Inglaterra. Conta-se ainda que um gigantesco tapete vermelho cobria o calçamento, desde a porta da residência dos pais da noiva até o altar da igreja, algumas centenas de metros adiante. 

Outra cerimônia de casamento realizado no Coração de Jesus foi o da miss Emília Correia Lima, quando ainda havia todo um clima pelo fato da noiva ter sido eleita Miss Brasil. Daí, seu enlace com o oficial do Exército Santa Cruz Caldas ter parado a cidade naquela tarde-noite de 1956. Uma compacta multidão encheu o adro da igreja e toda a praça José Júlio para ver a mais linda noiva de todos os tempos.

Mas era a Igreja do Patrocínio a preferida pela elite de Fortaleza, notadamente a população da Aldeota que ainda não dispunha de uma igreja-matriz. Padre Nini pároco do Patrocínio tinha esmero pelo templo. Tudo ali era bonito, limpo e do maior bom gosto e as famílias escolhiam aquele santuário para o casamento de seus rebentos.

A Igreja do Carmo, pelo seu aspecto monumental também era bastante requisitado para bodas, especialmente entre as famílias mais tradicionais. Outros fatores que faziam daquela matriz uma das preferidas para casamentos, era sua localização, em meio a uma praça e tendo à sua frente uma das mais belas artérias de Fortaleza, o Boulevard Duque de Caxias, que naqueles idos era essencialmente residencial, com aristocráticas mansões, onde residiam famílias antigas e conservadoras. 

As cerimônias de casamento eram realizadas normalmente à tarde, algumas mais simples pela manhã e, pelo que consta, o enlace de Emília Correia Lima foi o primeiro celebrado em hora mais avançada, no início da noite. Só na década seguinte, nos anos 60, teve início a prática de cerimônias noturnas. 

A mudança começou quando a ex-primeira dama do Estado Olga Barroso, fez o cerimonial do casamento de sua filha às 10 horas da noite, num cenário surrealista que era a Catedral em construção, com iluminação por archotes, o que deu ao evento um toque medieval. 

A partir dai, tudo mudou, não apenas no que diz respeito ao horário das cerimônias, mas principalmente no que tange as produções, cada cerimônia mais mirabolante do que o anterior, um show de efeitos visuais e sonoros, superando o sentido da liturgia. Nem importava se os noivos seriam felizes ou se ficariam juntos até que a morte os separasse, importante mesmo era que todo mundo comentasse o espetáculo produzido.

Extraído do livro
Os Dourados Anos, de Marciano Lopes.
fotos do arquivo Nirez e do Livro "Ideal Clube - história de uma sociedade          

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

As Igrejas e as Praças

Muitas cidades do Brasil e do Ceará nasceram ao redor de uma igreja, quase sempre a primeira edificação do lugar, pois a questão religiosa estava sempre presente nos tempos coloniais. Construídas com a utilização de materiais rústicos, por exploradores portugueses, por proprietários de sesmarias, que tinham o compromisso de povoar a terra ou pelos padres jesuítas, que aqui chegaram junto com as primeiras expedições colonizadoras, a igreja atraía moradores para o entorno, que ali construíam suas casas. Dessa forma foram surgindo aglomerados, que se transformaram em povoados, em vilas, e finalmente, cidades. O adro, espaço vazio localizado em frente aos templos religiosos, era o lugar onde se reuniam os moradores antes e depois da missa ou em atividades de lazer. 

Não foi o caso de Fortaleza, que historicamente nasceu ao pé do forte que lhe emprestou o nome, o N.S. da Assunção, depois de algumas tentativas frustradas de ocupação do território a partir da Barra do Rio Ceará. Mas é incontestável a importância das igrejas na formatação do espaço urbano da cidade, conforme a análise de alguns casos relativos às igrejas mais antigas da cidade, todas localizadas no Centro. 

Igreja de São José / Praça da Sé

  
Quando surgiu a primeira planta da Vila de Fortaleza, feita pelo capitão-mor Manuel Francês, em 1726, já aparecia o espaço livre em frente à futura Igreja de São José, no qual mais tarde viria a ser construída uma praça. Nessa época a matriz era representada pela capela de N. S. da Assunção, construída pelos soldados que serviam no forte, em taipa e palha. A construção de uma nova capela mor de Fortaleza foi decidida em fevereiro de 1699, mas a autorização só ocorreu por Ordem Régia de 12 de fevereiro de 1746. Esta, que veio a ser a primeira Igreja de São José, foi concluída em 1795 e demolido em 1820.

Em 1854, quando teve início a construção da segunda igreja de São José, em estilo colonial, o espaço em frente a entrada principal do templo, passou a ser chamado de Largo da Matriz;  Em 1861, vira Praça da Sé, acompanhando a mudança de nome da igreja matriz. Em 04 de junho de 1889 passa a denominar-se Praça Caio Prado, nome proposto pelo vereador Paulino Joaquim Barroso, em homenagem ao Governador Caio Prado, presidente da província do Ceará nos anos de 1888 e 1889. Hoje é conhecida por Praça da Sé. Fica na Rua Conde D'Eu. entre as ruas General Bezerril, Dr. João Moreira, Castro e Silva e Rufino de Alencar.



 

A Igreja do Patrocínio foi inaugurada em 1852. Em 1849 o cabo da esquadra Fortunato José da Rocha disparou um tiro contra o Capitão Jacarandá, mas acertou o joelho do Alferes Luís de França Carvalho, que estava ao lado do capitão. Vendo-se em risco de perder a vida, Luís de França fez voto a Nossa Senhora do Patrocínio, que se escapasse, faria uma igreja em sua devoção. No ano seguinte, curado do ferimento, lançou a pedra fundamental da igreja ao norte do largo arborizado, que depois da inauguração da igreja, passou a ser chamado de Praça do Patrocínio. Em 1870 teve o nome mudado para Praça Marquês de Herval, e em 1929, Praça José de Alencar. Está localizada na Rua General Sampaio, entre as Ruas Liberato Barroso, Guilherme Rocha e 24 de Maio, no Centro.  




 A construção da igreja foi iniciada em 1878 e inaugurada em 25 de março de 1886, no lugar denominado Alto da Boa Vista ou Colina da Pimenta, ou ainda, Morro do Pecado, numa área onde havia uma capela construída pelo Boticário Ferreira, onde hoje se encontra o convento dos capuchinhos. Antes, aquela região era coberta de vegetação, principalmente de cajueiros e alguns currais onde se prendiam o gado que era abatido ali. Até 1880 a área de entorno da igreja foi chamado de Praça da Boa Vista; a partir de 1881 passou a ser Praça Dr. José Júlio, homenagem ao Dr. José Júlio de Albuquerque Barros. A partir de 12 de dezembro de 1960 recebeu o nome de Praça do Coração de Jesus. Fica na Avenida Duque de Caxias entre as ruas Solon Pinheiro, Pedro I e Jaime Benévolo, Centro.


Igreja do Carmo/ Praça do Carmo


Antes de ser matriz, a futura Igreja de Nossa Senhora do Carmo era uma capela simples, construída em 1850 por uma irmandade existente naquela época na freguesia do Patrocínio. A capela foi batizada com o nome de Nossa Senhora do Livramento. O templo foi erguido em área distante do centro, cercada de árvores, com uma lagoa nas proximidades. Ainda na construção, a autoridade diocesana permitiu que fosse mudada a invocação para Nossa Senhora do Carmo. A nova igreja foi inaugurada em 25 de março de 1906, com muita solenidade, sendo o primeiro capelão monsenhor José Gurgel do Amaral.

O lugar hoje ocupado pela Praça do Carmo era um imenso areal, e existia uma lagoa no quarteirão em frente, onde hoje funcionam o Banco do Brasil e um estacionamento. A lagoa era alimentada por um córrego que vinha da Praça do Ferreira. A medida que a frequência da igreja aumentava, o areal foi sendo ocupado e a praça começou a tomar forma. Inicialmente foi chamada de Largo do Livramento. A Praça do Carmo está localizada na Avenida Duque de Caxias, entre as ruas Major Facundo, Clarindo de Queirós e Barão do Rio Branco, Centro. 

Igreja da Conceição da Prainha / Praça do Cristo Redentor



Em 26 de outubro de 1839, Antônio Joaquim Batista de Castro, morador no Outeiro da Prainha, requereu uma licença à Câmara Municipal, para que ele e outras pessoas pudessem construir uma capela de invocação a Nossa senhora da Conceição.  A licença foi concedida no dia 30 do mesmo mês. Os fiéis resolveram então, organizar uma irmandade e escolher o lugar onde seria edificado o templo. Concordaram que o local seria sobre a colina fronteira à praia, ficando a capela de frente para o oriente. A igreja foi inaugurada no dia 8 de dezembro de 1841.

Em frente a igreja havia um areal com sua face oeste ocupada por casebres e mocambos, que pouco a pouco foram sendo retirados a medida que o local foi sendo urbanizado. Até 1881 era chamado de Praça da Conceição. Depois foi chamada de Praça Senador Machado, e em 1890 voltou a ser Praça da Conceição. A partir de 1924 passou a ser denominada Praça do Cristo Redentor, em razão do monumento inaugurado em 1922, em homenagem ao centenário da Independência do Brasil. A Praça fica na Avenida Presidente Castelo Branco, entre a Avenida D. Manuel e as ruas Boris e Rufino de Alencar, Centro.


 

A Igreja do Rosário foi erguida por volta de 1730, num local considerado afastado da vila, a atual Praça General Tibúrcio. A igreja surgiu no meio do nada, visto que a cidade ainda não chegara naqueles arrabaldes. A  Igreja do Rosário permaneceu por muito tempo como única construção relevante da área. A praça foi projetada bem mais tarde, em 1847, não em função da igreja, mas devido a presença do Palácio do Governo, que passou a funcionar vizinho à igreja do Rosário, a partir de 1809.

Na metade do século XIX, grandes chuvas causaram escavações no Largo do Palácio e o Presidente Inácio Correa de Vasconcelos (1844-1847), mandou fazer uma enorme muralha para sustentar o aterro. Junto com a muralha foram levantados pilares, gradis de ferro e feitas escadarias para acesso à Rua de Baixo. Nascia assim a futura Praça General Tibúrcio, que foi Largo do Palácio, Pátio do Palácio, Praça do Palácio e hoje é mais conhecida da população como Praça dos Leões. Fica entre as ruas Visconde Saboia, General Bezerril e Conde D'Eu, Centro. 

Obras consultadas:
Descrição da Cidade de Fortaleza, de Antônio Bezerra de Menezes
Praças de Fortaleza, de Maria Noélia Rodrigues da Cunha 
fotos do IBGE e Arquivo Nirez