quarta-feira, 11 de maio de 2022

Memórias do Cine Nazaré, no Otávio Bonfim (Farias Brito)

 

Antigamente na confluência dos atuais bairros Otávio Bonfim e Parque Araxá, havia uma lagoa denominada Lagoa da Onça, localizada a um quarteirão do Cercado do Zé Padre, na Rua Padre Graça. Naquelas imediações foi inaugurado um cinema, o Cine Nazaré, em 1945, final da guerra. Por causa lagoa, quando chovia, as ruas ficavam inundadas e o povo assistia aos filmes no Nazaré, com os pés dentro d’água, mas ninguém reclamava. O cinema se constituía a grande diversão do bairro, junto com o outro cinema, o Familiar, localizado em frente a Praça de Otávio Bonfim, que funcionava sob orientação dos frades franciscanos. Fora os cinemas, só havia as novenas e as quermesses da Igreja das Dores.


Região do bairro Otávio Bonfim, com a Igreja das Dores, e o fundo  estação da RVC
foto do arquivo Nirez

Não havia controle de acesso, todos podiam entrar, as mulheres geralmente levavam os filhos, mesmo que fossem crianças de colo, a não ser que o filme fosse censurado, no caso, aqueles de terror, ou os mais insinuantes, com mulheres de maiô ou cenas de beijos.

O Cine Nazaré foi tão marcante naquela época, que na exibição do “Ladrão de Bagad” foi necessário abrir uma segunda seção. Tinha tanta gente esperando do lado de fora e na lateral do cinema, que o muro caiu. O povo começou a se amontoar e a empurrar. Quando o muro caiu, quem já estava assistindo o filme nem ligou, continuou assistindo.

A sala cinematográfica tinha capacidade para 300 pessoas, com dois tipos de ingressos: 200 nas cadeiras com assento e encosto de madeira e 100 na geral, bem em frente a tela, com bancos sem encosto. Na geral, onde o preço do ingresso era menos de metade das cadeiras   (400 reis), quando chovia era um sufoco, a água minava do chão já que todo o terreno ao redor da Lagoa da Onça ficava encharcado.


Região onde ficava a Lagoa da Onça, nas proximidades da estação da RVC
foto Lucas Jr/Facebook/Fortaleza Antiga

Para minimizar o problema, oito pisos foram sobrepostos para aumentar o nível do chão, cuja base foi construída abaixo do nível da lagoa. Nesse caso, havia duas opções: ou o espectador ficava de cócoras sobre o banco, ou tirava o calçado e ficava com os pés na água, enquanto assistia o filme. Do lado de fora, esperando os cinéfilos para o lanche, estavam os vendedores de bolo, tapioca e café. A pipoca ainda não era moda.           

O primeiro arrendatário do cinema foi o marchante José Marcelino, que tinha uma banca de venda de carne no Mercado São Sebastião. Naquela época, final dos anos 40, início dos 50, os cinemas passaram a ser a principal diversão da cidade. E as salas se multiplicaram, havia diversas espalhadas nos bairros e no Centro. A partir dos anos 60, os cinemas fora do centro começaram a fechar: encerraram as atividades o Ventura, na Aldeota, o Dioguinho, na praça do Colégio Militar, e muitos outros. O Nazaré também fechou. Em 1968 foi a vez do Cine Familiar.


Cine Nazaré e seu proprietário Sr. Raimundo Carneiro de Araújo, no centro
foto Diário do Nordeste

O Cine Nazaré fechou e reabriu muitas vezes, capricho e menina dos olhos do seu proprietário desde 1970, o radiotécnico Raimundo Carneiro de Araújo, conhecido por Vavá. Foi durante muito tempo o único (e o último) cinema de bairro da cidade. Mas seu Vavá faleceu esse ano, em fevereiro de 2022, e levou com ele a luz que guiava os filmes de sonhos que animavam o Cine Nazaré, agora, definitivamente fechado. 


Fonte: 

Jornal Diário do Nordeste "Cine Nazaré conta a história do bairro", de 05/06/2006  

  

domingo, 20 de fevereiro de 2022

30 Lojas que fecharam (no Centro)

Até por volta dos anos 70/80, o centro era frequentado por todas as classes sociais, onde se concentrava, praticamente todo, o comércio da cidade. Mas, a partir dos anos 1980, começaram a surgir os planos econômicos, lançados de tempos em tempos, à medida que se constatava o fracasso do anterior.

Plano Cruzado, Cruzado Novo,  Plano Verão, Plano Bresser, congelamento de preços, e for fim, a pá de cal, com o furadíssimo Plano Collor.  

Muitas dessas empresas, que já enfrentavam dificuldades financeiras, sucumbiram diante do caos econômico.









quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Carta de Rachel de Queiroz para a Miss Ceará 1955 - Emília Correa Lima

Os concursos de miss no Brasil, anuais e sistematicamente organizados tiveram início em 1954, com a eleição da baiana Marta Rocha, e de imediato, caíram no gosto da população, tornando-se bastante populares. A partir de 1955, a organização do concurso passou a responsabilidade do grupo Diários Associados, com transmissão e cobertura da rede Tupi. Acabou se tornando o segundo evento mais assistido do país, atrás apenas dos jogos da Seleção Brasileira de Futebol.





No concurso do ano de 1955, a cearense de Sobral, Emília Barreto Correa Lima foi eleita Miss Maguary, Miss Ceará e Miss Brasil, recebendo a faixa das mãos de Marta Rocha.  Emília recebeu elogios da escritora Rachel de Queiroz, que lhe escreveu uma longa carta, e era musa do jornalista Millor Fernandes. Ela representou o Brasil no concurso de Miss Universo, ficando no Top 15 mundial.

  



Minha flor: 

         

Quando esta carta sair impressa você talvez já esteja a caminho da América, para a disputa do grande título. É que eu ando por longe, metida no sertão da sua e minha terra, o que dificulta a rapidez das comunicações; mas palavras de amor nunca são demais nem tardias, e são justamente palavras de muito carinho que lhe posso dizer.

          

Faz algum tempo que não a vejo. A última vez foi em sua casa – você e Iaci, de saída para um cinema, creio, se entremostraram rapidamente na porta da sala, para se fazerem apreciar pela “tia” que chegava de viagem. E reparei logo nessa sua esbelteza de galgo ou de garça, que é talvez o maior dos seus encantos. Nesta nossa terra de brevilíneas, você, longilínea perfeita, é uma maravilhosa exceção.


Porém, em lugar da sua beleza e da beleza de sua irmã, igualmente tão linda, o que a família quis comentar foram os seus triunfos de estudiosa, tão de acordo com as tradições dos Barreto e dos Corrêa Lima; as famílias sofrem essa preocupação de subestimar a beleza das suas moças. Têm medo de que elas fiquem por demais vaidosas, que percam o amor da virtude e dos estudos, pelo amor da bonita cara e do bonito corpo.

          

Felizmente, minha querida Emília, você não se deixou iludir pelas boas intenções dos de casa, e ao invés de tratar apenas de estudar, não se despreocupou de ser bonita. Teve a inteligência de dar valor a esse dom sobre todos os dons, que é a beleza. Sim, não acredite nunca quando lhe disserem que beleza é um acidente que não tem valor, que não dá felicidade, que mais vale inteligência etc. Isso são chavões nascidos do desejo e da necessidade de consolar os feios. Uma bela mulher é uma perfeita obra de arte. Seja bonita com orgulho, com tranquilidade, com segurança; cuide bem do seu rosto e do seu corpo, pois nada neste mundo vale mais do que a beleza.


Quando eu tinha a sua idade, recebi um prêmio literário. (Recordo isso porque seu pai, então no Rio, no entusiasmo fraternal pela estreante, foi o meu melhor eleitor.) Pois, querida, não esse modesto prêmio, destinado a estimular uma principiante, mas todos os prêmios literários deste mundo, até o Nobel, eu o daria de bom-gosto para ser bonita como você o é.

          

Eles dizem que não há mérito em ser bonita. Claro. Como não há mérito em ser inteligente, nem em ter bom caráter, nem em ser um gênio musical, nem um maravilhoso poeta. Manuel Bandeira, que foi um dos seus juízes, já nasceu com o dom divino; e com ele nasceu o seu poeta predileto, Carlos Drummond de Andrade. Tudo são dons, dons gratuitos, que se recebem da fonte de todos os dons. Valerão eles menos por isso? E a beleza, entre os dons, é o mais alto de todos: o maior elogio que se pode fazer a uma realização, a uma paisagem, a um poema, é dizer que são belos. Porque a beleza é a coroa que os completa.

 

Nem a virtude se concebe sem beleza, nem a divindade. Não só os deuses dos pagãos eram belos: a própria Igreja, dentro da sua austeridade, pinta os santos formosos. Alguém poderia imaginar Nossa Senhora feia? E Cristo, se viesse ao mundo na figura de um homem malformado, não seria até uma profanação? Vi outro dia o retrato autêntico de Santa Teresinha no seu leito de morte: era uma mulher de feições severas, nariz forte, rosto descarnado e precocemente envelhecido. Mas a hagiografia oficial jamais permitiu que a reproduzissem assim e, em todas as imagens do culto, Santa Teresinha nos é apresentada como uma jovem de angélica beleza. (E digo angélica, porque os anjos são também padrões de formosura). Por que isso? Não será por frivolidade que a Igreja assim se empenha em tornar seus santos; será antes porque, com o seu profundo conhecimento do coração humano, sabe que a beleza atrai o amor e a devoção. Porque a beleza é como um selo de Deus.

         

Filha de uma mulher muito linda, sempre adorei a beleza de minha mãe. Contam os de casa que um dia – eu teria uns seis anos - ela me pôs de castigo por motivo que me pareceu imerecido. E ao jantar, horas depois, ainda zangada com a injustiça, eu disse, encarando-a: “Só fico morando aqui porque você é bonita. Se você fosse uma mãe feia, eu fugia de casa”. Ela era também muito inteligente, mas, agora que a perdi, o que mais lembro da infância, da mocidade, de todos os tempos em que vivemos juntas, é aquele rosto formoso, que enchia a nossa casa como uma luz. E ao escrever estas palavras, sinto uma saudade tão grande, parece que uma coisa rebenta dentro do meu peito, e talvez eu não a tivesse amado tanto se ela não fosse tão linda. Nós nos orgulhávamos daquela beleza como de um tesouro de família, e a condição de seus filhos nos parecia um privilégio. Para nós era uma rainha.

          

Você foi escolhida a mulher mais bela do Brasil. É um grande título, não acredite em quem lhe deprecie o valor, nunca desdenhe o seu dom maravilhoso. Todos lhe queremos bem por isso, lhe somos gratos por ter nascido e se criado tão bonita, nos orgulhamos de você. Se na América não lhe derem o título máximo, é porque os cegos são eles. Não viu que no ano passado, em lugar da nossa radiante Martha Rocha, prefeririam aquela pequena escocesa de lábios finos?

          

Aqui ficamos, numa ansiosa torcida. Mas, volte você ou não com a faixa atribuída a Miss Universo, de qualquer forma será a nossa Miss; a única que nos agrada e igualmente nos encanta, Emília Barreto Corrêa Lima, a Miss Maguari, a Miss Ceará, a Miss Brasil.

  

Rachel de Queiroz



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Eles Lutaram na Guerra do Paraguai


A Guerra do Paraguai foi um conflito entre os aliados Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai, também conhecida por Guerra da Tríplice Aliança. A guerra foi causada pelos diferentes interesses que existiam entre as nações platinas na segunda metade do século XIX. O estopim para o início desse conflito ocorreu quando os paraguaios aprisionaram uma embarcação brasileira — o vapor Marquês de Olinda.


Cearenses na Guerra do Paraguai (foto Wikipédia)

A Guerra da Tríplice Aliança começou em 1864 e terminou em 1870, quando o Paraguai foi oficialmente derrotado e o ditador paraguaio Solano Lopez foi morto no mês de março.  Muitos brasileiros participaram, muitos perderam a vida e outros sobreviveram e tiveram seus esforços reconhecidos.


A época, Dom Pedro II era o imperador do Brasil e os dois grandes nomes do exército brasileiro no conflito foram o Duque de Caxias e o Conde D’Eu. Alguns monumentos e ruas de Fortaleza levam o nome de alguns desses militares. As duas primeiras estátuas que foram inauguradas em Fortaleza se reportam a dois deles, os dois nascidos no Ceará, os Generais Antônio Tibúrcio Ferreira de Souza e Antônio Sampaio. Os demais homenageados são procedentes de vários estados brasileiros, e provavelmente, nunca estiveram no Ceará.

  

Praça General Tibúrcio - Centro




A primeira estátua da cidade, inaugurada em 1888, localizada no antigo Largo do Palácio, atual Praça General Tibúrcio, representa o general Antônio Tibúrcio Ferreira de Souza, general do Exército Brasileiro. O general faleceu em Fortaleza, a 28 de março de 1885, com 48 anos incompletos, e foi sepultado do Cemitério de São João Batista. Em 1952 seus restos mortais foram exumados e depositados numa cripta na base do monumento.

   

Literato, professor e pensador, o general Tibúrcio tomou parte em vários combates, como  “Estabelecimento”, “Tuiutí”, “Lomas” “Valentinas” e “Peribebuí” e recebeu as seguintes condecorações: medalhas do Prata, de Corrientes (pelo Congresso Argentino) e Riachuelo; Cavaleiro e Oficial da Imperial Ordem do Cruzeiro, Comendador da Ordem da Rosa; Mérito Militar, Dignatário da Ordem, da Rosa, de Prata da Campanha do Uruguai, Geral do Campo. A Praça recebeu o nome do general um ano antes da inauguração da estátua, em 02 de fevereiro de 1887, por resolução da Câmara.


Estátua e Rua General Sampaio - Centro


Foto IBGE

O general Antônio de Sampaio, natural de Tamboril, nasceu em 24 de maio de 1810. Aos 20 anos de idade, alistou-se como Praça voluntária nas fileiras do então 22.º Batalhão de Caçadores, sediado na Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, alcançando todos os postos da carreira militar por mérito. Considerado um dos maiores militares da história do Brasil independente, participou de muitas das principais guerras travadas pelo Exército Brasileiro ao longo do século XIX, vindo a falecer a bordo do navio Eponina, decorrente dos três ferimentos recebidos na Batalha de Tuiuti no dia 24 de maio de 1866. É o patrono da Infantaria do Exército




A estátua do General Sampaio foi inaugurada no dia 24 de maio de 1900 na Praça Castro Carreira, (também conhecida por Praça da estação), em frente a Estação Central da Estrada de Ferro. Foi a 2ª a ser inaugurada em Fortaleza. Passou pela Avenida Bezerra de Menezes, pela Avenida Treze de Maio e atualmente encontra-se em frente ao quartel da 10ª. RM, na Avenida Alberto Nepomuceno. Além da estátua o General Sampaio também nomeia uma das ruas mais antigas do centro de Fortaleza, a antiga Rua da Cadeia, rebatizada por Rua General Sampaio por ocasião das comemorações dos 90 anos de nascimento do militar.


Avenida Duque de Caxias - Centro


Na Praça da Bandeira, encontra-se o busto do Duque de Caxias, inaugurado em 25 de agosto de 1947, na administração do prefeito José Leite Maranhão (1947-1948). Luís Alves de Lima e Silva, militar, natural do Rio de Janeiro, chefiou as forças brasileiras na Guerra do Paraguai e recebeu do imperador Dom Pedro II o maior título de nobreza dado a um brasileiro. É o patrono do Exército Brasileiro. O Duque de Caxias era natural do Rio de Janeiro, e empresta seu nome a uma das três avenidas mais antigas da cidade, o antigo Boulevard do Livramento, atual Avenida Duque de Caxias. 


Avenida Almirante Barroso – Praia de Iracema


Francisco Manoel Barroso da Silva, o Barão do Amazonas, nasceu em 29 de setembro de 1804 em Lisboa; veio para o Brasil, com seus pais e a Família Real portuguesa, chegando ao Rio de Janeiro em 1808.  Participou da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai, operando no Rio Paraná e, depois, no Rio Paraguai, até a Batalha de Curupaiti. Comandou a força naval brasileira que venceu, em 11 de junho de 1865, a Batalha Naval do Riachuelo, no Rio Paraná. Deixou o serviço ativo como Almirante e fixou residência em Montevidéu, no Uruguai, onde faleceu, em 1882. A Avenida que leva seu nome está localizada na Praia de Iracema.


Rua Sena Madureira - Centro


Antônio Sena Madureira participou da Guerra do Paraguai ainda no início de sua carreira militar. Foi capturado e acabou prisioneiro das tropas comandadas por Solano Lopez. Sena Madureira ficou conhecido pelo seu livro “A Guerra do Paraguai – resposta ao senhor Jorge Thompson” em que refutava as acusações do oficial inglês de Solano Lopez em relação ao suposto imperialismo brasileiro na Guerra da Tríplice Aliança, acusando o Paraguai como principal responsável pelo conflito. Nasceu em Recife. Hoje é nome de uma das ruas mais antigas do centro.


Rua Ana Neri – Jardim América


Ana Justina Ferreira Néri nasceu em Vila de Cachoeira do Paraguaçu, Bahia, no dia 13 de dezembro de 1814. Foi a pioneira da enfermagem no Brasil, prestou serviços voluntários, nos hospitais militares de Assunção, Corrientes e Humaitá, durante a Guerra do Paraguai. Ana Néri teve três filhos, o cadete Pedro Antônio Néri e os médicos Isidoro Antônio Néri Filho e Justiniano de Castro Rebelo. Em 1865, o Brasil integrou a Tríplice Aliança, que lutou na Guerra do Paraguai e os filhos de Ana Néri foram convocados para lutar no campo de batalha. Sensibilizada com a partida dos filhos, Ana Néri escreveu uma carta ao presidente da província oferecendo seus serviços de enfermeira para cuidar dos feridos de Guerra do Paraguai, enquanto o conflito durasse. Seu pedido foi aceito.  Finda a guerra, a enfermeira foi condecorada com as medalhas de prata Geral de Campanha e a Medalha Humanitária de Primeira Classe. Recebeu do imperador D. Pedro II, por decreto, uma pensão vitalícia com a qual educou sua família. Ana Néri faleceu no Rio de Janeiro, no dia 20 de maio de 1880.


Avenida Almirante Tamandaré – Praia de Iracema


Busto do Tamandaré na Praça Amigos da Marinha, no Cais do Porto

Joaquim Marques Lisboa – Almirante Tamandaré foi militar da Marinha do Brasil. Combateu em todas as lutas do império, entre elas as "Guerras de Independência", "A Confederação do Equador", "A Guerra contra Oribe e Rosas" e a "Guerra do Paraguai". Recebeu o título de Almirante, o mais alto posto da Marinha. Comandou diversas esquadras. Foi nomeado Patrono da Marinha do Brasil.  O Almirante Tamandaré nasceu na vila de São José do Norte, Rio Grande do Sul, no dia 13 de dezembro de 1807 e faleceu no Rio de Janeiro, no dia 20 de março de 1897. Posteriormente foi declarado “Patrono da Marinha Brasileira”. No dia de seu nascimento, 13 de dezembro, comemora-se o Dia do Marinheiro. Além de nomear a avenida, Tamandaré está imortalizado em um busto localizado na Praça Amigos da Marinha, no Cais do Porto, nas proximidades do Porto do Mucuripe.


Rua Conde D’Eu – Centro


O Conde D’Eu - Luís Filipe Maria Fernando Gastão de Orléans pode ter recebido a homenagem por outros motivos, principalmente por ser o genro do imperador, casado com a Princesa Isabel. Mas ele também foi ao Paraguai. Em Uruguaiana, foi nomeado comandante geral da artilharia e presidente da Comissão de Melhoramentos do Exército em 19 de novembro de 1865. Depois, por ser um oficial de alto escalão, com treinamento militar, foi convocado para liderar como comandante-em-chefe os exércitos aliados em 1869, após o Duque de Caxias ter-se demitido da função. A Rua Conde D’Eu, antiga rua Nova dos Mercadores, ganhou o nome do conde em 6 de abril de 1870.


Praça dos Voluntários (Praça da Polícia) - Centro


A Praça é dos Voluntários, mas o busto é de Getúlio Vargas

Localizada no Centro entre as Ruas do Rosário, Perboyre e Silva, General Bezerril e Monsenhor Luís Rocha. Chamada inicialmente de Largo do Garrote, mais tarde, Praça dos Voluntários da Pátria, em homenagem aos cearenses que seguiram para a Guerra do Paraguai, que se apresentaram voluntariamente.


Entre voluntários e convocados compulsórios, estima-se que o exército saído do Ceará era composto de 6.000 homens, dos quais a maioria esmagadora, sem treinamento, armamento inadequado, alimentação de péssima qualidade, sem assistência médica, cerca de 4.700 pessoas, acabaram mortas. Muitos dos sobreviventes cearenses, em torno de 1.300, ficaram no Rio de Janeiro e ocuparam o Morro do Juramento, considerado o primeiro agrupamento de cearenses, morando em barracos e cortiços, em total abandono. O Estado não lhes dava nem a passagem de volta para o Ceará. Deu-lhes a Av. Voluntários da Pátria, em Botafogo. Nada mais.


Praça dos Voluntários (Praça da Polícia)

A partir de 1932, a praça de Fortaleza teve o nome abreviado para Praça dos Voluntários. Em1941, na gestão do prefeito Raimundo Alencar Araripe o logradouro foi remodelado, ajardinado e iluminado e recebeu a estátua do então presidente Getúlio Vargas.


Todos estes logradouros têm denominação bastante antiga. Hoje, não receberiam esses nomes, mesmo porque, na cidade sem memória, ninguém mais os conhece, exceto, talvez, o General Tibúrcio.

 

A guerra produziu ainda um caso famoso na história cearense. O de Jovita Feitosa. Antônia Alves Feitosa, pertenceu a um ramo mais pobre de uma poderosa família latifundiária. Nasceu no povoado de Brejo Seco, nos Inhamuns, em 8 de mar de 1848. Ao saber do início da guerra do Paraguai, aos 17 anos, foi a Teresina, escondida do tio com quem morava. Decidiu ser “voluntário da pátria”.


Jovita Feitosa (foto Internet)

Como o exército não aceitava mulheres, passou a faca nos cabelos e pôs um chapéu de vaqueiro, apresentou-se, e foi inicialmente aceita. Mas teve sua identidade descoberta por conta da denúncia de outra mulher. Acabou incorporada, de saiote e blusa militar, com a divisa de primeiro sargento, seguindo para o Rio de Janeiro, em set de 1865. Mulata, de feições índias e estatura mediana, Jovita ganhou notoriedade e virou instrumento de propaganda do governo para estimular novos voluntários a “lutar pela pátria”.


Em novembro de 1865, o ministro da guerra afastou-a da tropa. Permanecendo no Rio de Janeiro, envolveu-se sentimentalmente com um engenheiro inglês, passando com ele a viver na praia do Russel. Ao saber que o companheiro fora embora, sem nenhuma comunicação, cometeu suicídio com uma punhalada no coração em 1867, aos 19 anos de idade.

 

Fontes: 

Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. De Josué Callander dos Reis

https://www.marinha.mil.br/dphdm/historia/almirante 

https://www.ebiografia.com/ana_neri/ 

http://www.casadoceara.org.br/

Guia Turístico da Cidade, PMF, 1961

A História do Ceará Passa por esta Rua, de Rogaciano Leite Filho

Praças de Fortaleza, de Maria Noélia Rodrigues da Cunha

fotos acervo do Fortaleza em Fotos 

sábado, 15 de janeiro de 2022

Benjamin Abrahão - De Padre Cícero a Lampião

 

Lampião surgiu no cenário dos sertões nordestinos em 1921, quando entrou para um grupo de cangaceiros que aterrorizavam a população do sertão, comandados por Sinhô Pereira. O jovem Virgulino Ferreira da Silva, de 23 anos, teria muito a aprender, ao assumir a liderança do bando no ano seguinte, quando Sinhô Pereira, se retirou do cangaço e abandonou o grupo.




Durante anos a figura de Lampião, o rei do cangaço, que assaltava cidades e fazendas, promovia saques, matava gado e gente e escapava da caçada empreendida pelas volantes, era presente no imaginário das gentes simples do sertão e das autoridades. Até que dia esses personagens ganharam rostos, aparências e vestimentas, graças a ousadia de alguns fotógrafos, que adentraram a caatinga, em busca da confiança e das imagens desses homens rústicos, famosos pela violência que empregavam nas suas atividades ilegais.


No Ceará, o autor da façanha foi o sírio Benjamin Abrahão Calil Botto, nascido em 1901, em Zahle (na época, cidade na Síria e, atualmente, do Líbano), de acordo com familiares. Segundo o próprio, havia nascido em Belém, local de nascimento de Jesus Cristo. Em 1915, Benjamin desembarcou no Recife, fugindo do alistamento militar da sua cidade, que recrutava soldados para a primeira Guerra. Passou a morar com parentes, que atuavam no comércio de ferragens.




Depois de dois anos perambulando pelo sertão, atuando como caixeiro viajante, ele se deparou com um grupo de romeiros que ia a Juazeiro para receber a bênção de Padre Cícero. De Juazeiro tinha conhecimento de que era um ótimo local para o comércio, e do padre tinha ouvido falar nos milagres e no prestígio. Decidiu se juntar aos romeiros e partiu para a cidade dos milagres. A presença do gringo, alto e meio alourado no meio dos milhares de nordestinos, chamou a atenção do padre.


A beata Mocinha (Joana Tertuliana de Jesus, secretária e tesoureira do padre Cícero) se aproximou, a mando do padre, para saber de onde vinha o forasteiro. Foi aclamado quando disse que vinha da Terra Santa. “Padre Cícero se dirige aos fiéis e diz: meus amiguinhos, Benjamin que está aqui é conterrâneo de Jesus”. Bastaram 15 dias para Abrahão se converter e ser nomeado secretário pessoal do padre.




A morte do padre em 20 de julho de 1934, aos 90 anos de idade, deixou o sírio órfão. Todas as suas atividades e seus conhecimentos decorriam da ligação com o padre Cicero. Benjamin trabalhou para o padre Cicero entre 1917 e 1934, e após a morte deste, lançou-se em nova profissão: a de fotógrafo. Para começar, filmou o enterro do padim e ofereceu a filmagem a Ademar Albuquerque, que no mesmo ano fundou a Aba Film. Depois, procurou a empresa fotográfica para um novo projeto: uma sessão de fotos e um filme sobre Lampião e seu bando, que à essa altura já era notícia até no "The New York Times". Adhemar Albuquerque forneceu a Benjamin equipamentos e filmes, junto com as instruções de básicas de como utilizá-los.


Benjamin já conhecia Lampião porque o cangaceiro havia visitado o Padre Cícero no Juazeiro, em 1926, no polêmico encontro entre o padre e o cangaceiro que gerou muita controvérsia e acusações de que o padre protegia bandidos.




Durante 18 meses Benjamin perambulou pela caatinga, viajou pelo sertão de Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco e Sergipe, e encontrou-se duas vezes com Lampião. O chefe dos cangaceiros não apenas fez pose para a foto como chamou o bando de todo o Nordeste para se reunir nas fotos. O fotógrafo Benjamin pode registrar vários hábitos dos cangaceiros, como a reza da missa de domingo, celebrada pelo próprio Lampião, o almoço e a maneira de se vestirem e se comportarem. Revelou também que Maria Bonita, devido a uma promessa não trabalhava aos sábados, domingos e segundas-feiras. Fascinado por cinema e pela oportunidade de aparecer nas telas, muitas vezes o próprio Lampião assumiu a direção da filmagem. O resultado:  Noventa fotos de qualidade heterogênea e um filme de 35 mm (hoje restam 15 minutos dele na Cinemateca Brasileira) em que Lampião é transformado em garoto propaganda da Bayer, que patrocinou o filme.


Ao longo do ano de 1937, o material produzido por Benjamin foi divulgado pelos Diários Associados. As fotos e detalhes da vida no Cangaço foram divulgadas por diversos órgãos como o Jornal O Povo, Diário da Noite, Diário de Pernambuco, e a revista o Cruzeiro. Nas matérias escritas, sempre havia questionamentos sobre o fato de Lampião e seu bando continuar solto, já que podiam ser encontrados para fotos e reportagens




As fotografias dos cangaceiros em poses que transmitiam orgulho e segurança irritaram o presidente Getúlio Vargas, fato que impulsionou o definitivo esforço de repressão que exterminaria os bandoleiros do sertão. Além disso, o documentário sobre Lampião foi apreendido. O filme foi exibido no Cine Moderno, em Fortaleza, em sessão exclusiva para autoridades policiais do Estado.



 

Benjamin Abrahão foi assassinado com 42 facadas, em Águas Belas, hoje Itaíba, no interior de Pernambuco, em 7 de maio de 1938. Saiu do bar rumo à pensão onde se hospedava quando as ruas principais da cidade ficaram às escuras. Foi atacado, gritou por socorro e seu amigo Antônio Paranhos foi ao seu encontro, mas foi detido pela voz de um desconhecido que o avisou “Arreda, cabra, que é encrenca”. 

 

As hipóteses vão desde a possibilidade de um crime passional até a de queima de arquivo, já que ele sabia do envolvimento de autoridades com Lampião. Em sua missa de sétimo dia, só estava presente o padre celebrante, Nelson de Barros Carvalho. Com seu jeito malandro de ser, Benjamin Abrahão conviveu e ganhou a confiança de duas das figuras mais notórias da história do Ceará: padre Cicero e Lampião.




A divulgação de fotos e a propaganda sobre o Cangaço contribuiu para acirrar a perseguição aos cangaceiros, e em 28 de julho, pouco mais de 2 meses depois da morte de Benjamin, na grota de Angico, em Sergipe, o bando de Lampião foi cercado por uma força volante comandada pelo tenente João Bezerra da Silva. Além de Lampião, foram mortos sua mulher, Maria Gomes de Oliveira, conhecida como Maria Bonita, e os cangaceiros Alecrim, Colchete, Elétrico, Enedina, Luiz Pedro, Macela, Mergulhão, Moeda e Quinta-feira. Foram todos decapitados.


As cabeças decapitadas dos cangaceiros, após exposição nas escadarias da prefeitura de Piranhas em Alagoas, seguiram para a capital, Maceió. De lá, seguiram para Salvador, onde ficaram no Museu Nina Rodrigues. Em 1969, as cabeças de Lampião e Maria Bonita foram enterradas no cemitério Quinta dos Lázaros, na mesma cidade.



Fontes: 

Lampião e outros cangaceiros sob as lentes de Benjamin Abrahão<disponível em> https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?tag=padre-cicero

Benjamin Abrahão, Entre Anjos e Cangaceiros. Frederico Pernambucano de Mello. Ed. Escrituras. 352 páginas.

Benjamin Abrahão, o homem que iludiu o sertão. <Disponível em> https://blogs.oglobo.globo.com/prosa/post/benjamin-abrahao-homem-que-iludiu-sertao-482892.html

Jornal O Povo

Fotos: Brasiliana Fotográfica, O Globo, Aba Film

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Na Vigência da Lei de Gerson


Estava na fila do Correio da Av. Gomes de Matos, quando entrou um homem muito idoso, andando devagar, com dificuldade, com alguns papéis em mãos. Imediatamente, foi encaminhado para o início da fila dada sua condição de prioritário, até mesmo pelos outros da mesma condição que também esperavam na fila. Depois que ele foi atendido, acompanhei sem sair do lugar, a saída do homem, preocupada em saber se ele iria atravessar a Avenida Gomes de Matos, via onde carros e motos  estacionam em cima das calçadas, os pedestres caminham  pelo asfalto disputando espaços inclusive com ônibus, atravessam a pista correndo, enquanto a AMC (Autarquia Municipal de Trânsito), que de vez em quando passa por lá, faz de conta que não vê. 





Que nada! Na calçada, uma mulher jovem, robusta esperava pelo homem, pegou  um volume que ele retirou no Correio, embarcou-o num carro (estacionado em cima da calçada),  e levou-o embora.  

Concluí que ali estava uma fiel cumpridora da Lei: da Lei de Gerson. São muitos os que usam seus idosos ou suas crianças para usufruírem de benefícios a que não fazem jus, que ocupam vagas de deficientes sem serem especiais,  que “dormem” nos ônibus, confortavelmente sentados em assentos destinados a um público  específico e do qual ele(a)  não faz parte. São os que acham que o tempo deles é mais valioso do que o do resto do mundo, os espertalhões que não respeitam as filas, os vivaldinos, que infringem as regras de boa convivência, e que querem se dar bem sempre, em qualquer circunstância, em qualquer lugar. 
  
Em alguns estabelecimentos os responsáveis pelos estacionamentos são obrigados a colocar obstáculos para impedir que essa gente incivilizada pare nas vagas de idosos e deficientes. Note-se que a falta de educação e a esperteza não estão relacionadas à classe social dos infratores, muito pelo contrário, a maioria anda de carro (joga lixo pela janela) e anda bem vestida. 

Sem querer, Gerson criou uma lei   

Gerson foi um jogador que fez parte da seleção brasileira de futebol, que se sagrou tricampeã do mundo em 1970, no México. Craque da bola, teve participação importante e decisiva na conquista da taça, ganhou respeito dos torcedores e da mídia, e ao que se sabe, não há nada que desabone ou ponha em dúvida o caráter do homem ou do atleta. 

A história da “Lei de Gerson” surgiu de um comercial de cigarros veiculado pela TV, numa dessas propagandas ambíguas, em  que o “tiro sai pela culatra” e acaba repercutindo negativamente no produto ou no anunciante. Nesse caso, sobrou para o Gerson. Depois de exaltar as qualidades do produto, Gerson termina com a frase: “gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve o cigarro tal...”. Desde logo, a expressão virou símbolo da esperteza, do indivíduo que faz uso de subterfúgios para obter vantagens, que atinge seus objetivos sem cumprir os trâmites legais.

Segundo o Wikipédia, A "Lei de Gérson acabou sendo usada para exprimir traços bastante característicos e pouco lisonjeiros do caráter midiático nacional que passa a ser interpretado como caráter da população, associados à disseminação da corrupção e ao desrespeito a regras de convívio para a obtenção de vantagens."
Fossemos um país mais civilizado, a lei de Gerson já teria sido revogada. 

foto da Avenida Gomes de Matos (google)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

A Hospedaria Getúlio Vargas na seca de 1958

 

Localizado no antigo bairro Alagadiço, atual São Gerardo, o prédio foi construído para hospedagem provisória dos “Soldados da Borracha”, trabalhadores nordestinos convocados para trabalhar para o governo federal, na extração do látex de borracha, em terras da Amazônia. A hospedaria foi erguida no início da década de 1940, no contexto da segunda guerra mundial.




Passado o período do conflito, o local continuou com suas funções de abrigar retirantes decididos a migrar para diversas cidades do país, com ajuda do governo. Como os períodos de seca sempre acontecem, a hospedaria estava sempre lotada, e acabou se tornando um depósito de miseráveis, carentes de tudo: alimentação, assistência médica, péssimas instalações, alto grau de insalubridade, condições de vida sub-humanas.


O lugar tinha, em teoria, capacidade para receber 1.200 pessoas, com garantia de pouso, alimentação diária e redes. Na prática, nunca funcionou dessa maneira. Os anos 50 encontraram a Getúlio Vargas com uma superlotação nunca vista. A seca de 1958 logo assumiria proporções catastróficas, com a capital mais uma vez sendo invadida por levas de retirantes, que eram direcionados para a Getúlio Vargas. Os oito galpões da hospedaria receberam em torno de 8.000 pessoas, com homens, mulheres e crianças amontoados, maltrapilhos, muitos doentes e todos passando fome. A cozinha tinha capacidade para o preparo de 300 refeições; não havia creche nem enfermaria. Havia um único médico que estava sempre presente, o Dr. Tarcísio Soriano Aderaldo. A água potável era insuficiente e as instalações sanitárias eram praticamente inexistentes. 




 
 

A certa altura, como não havia mais lugar dentro da hospedaria, cerca de 200 famílias ficaram debaixo dos cajueiros que circundavam o lugar, expostos ao calor, à sujeira e ao ataque de moscas e insetos que eram constantes. Para amenizar um pouco, pelo menos a fome das crianças, começou a ser distribuído um leite em pó, produto de doação internacional, que era desviado e vendido em estabelecimentos de Fortaleza.




O governo também enviaria ao Ceará remessas de charque e feijão, e autorizaria a admissão de milhares de flagelados como trabalhadores nas rodovias da região. Açudes seriam construídos para mitigar os efeitos da seca e empregar os necessitados. Essas medidas, todavia, teriam pouco efeito: os recursos liberados pelo governo federal, não chegavam aos flagelados, eram desviados por políticos e cabos eleitorais, ou transformados em alimentos estragados e de baixa qualidade que eram oferecidos aos hóspedes da Getúlio Vargas e aos de outros abrigos similares existentes no Ceará.


Não havia planejamento e ninguém se identificava como coordenador ou responsável pelo andamento da hospedaria. Era um caos, onde morriam cerca de 10 crianças por dia. Os problemas relacionados à escassez de comida foram parcialmente resolvidos com a ajuda do Exército que passou a distribuir 2000 refeições por dia. Para evitar os desvios comuns naquela situação, o próprio Exército fazia a distribuição entre os flagelados.


A superpopulação da hospedaria começou a diminuir com a migração de centenas de famílias para o Norte e o Sudeste do País, e um novo destino que despontava: Brasília. O outro fato relevante para o esvaziamento, foi o fenômeno natural que permeia as esperanças e o renascer do povo nordestino, a volta das chuvas. A Hospedaria Getúlio Vargas cumpriu sua sina de depósito de gente até 1972, quando foi desativada.


  Fontes: 

Reportagem de Edmar Mórel, publicada no O Seminário, ano 1958 <Disponível em>   http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=149322&pagfis=1734&url=http://memoria.bn.br/docreader#

Nordestinos fogem da seca e da Fome <Disponível em> http://memorialdademocracia.com.br/card/retirantes-fogem-da-seca-e-da-fome 

fotos Google