quarta-feira, 13 de junho de 2018

O Náufrago Chagas dos Carneiros


Na noite de 24 para 25 de março de 1887, navegavam ao longo da costa entre Pernambuco e Paraíba, o paquete Bahia, da Empresa Brasileira de Navegação, e o vapor Pirapama, da Companhia Pernambucana de Navegação, ambos carregados de passageiros. O primeiro rumava para o Sul e o segundo para o Norte. Havia luar, o céu estava claro e o mar iluminado e calmo como um lago. A umas 35 milhas do porto do Recife, os dois barcos deveriam cruzar-se. Todos dormiam a bordo, e certamente, também os vigias e timoneiros, porque não se compreende de outra forma que as duas embarcações tenham abalroado violentamente, com as piores consequências para uma delas. 


 Porto de Fortaleza - 1910 (foto Arquivo Nirez)

 Vista da Praia de Iracema - 1914

Na versão pernambucana do sinistro, o Pirapama colidira com o Bahia, que procedia da Paraíba e destinava-se ao Recife, onde amanheceria. Reunidos no convés, e enquanto se preparavam as baleeiras para possível salvamento dos passageiros do Pirapama, viram o paquete Bahia a toda força de suas máquinas, afastar-se do local do acidente e de repente desaparecer. O exame do casco do navio pernambucano não exigira seu abandono, assim poderia voltar a Pernambuco sem risco de naufrágio. E assim o fez. Após demora de meia hora, ainda a fim de apurar o destino do Bahia, o que não conseguiu. A algumas milhas, porém, o Bahia fora a pique...

A versão cearense é muito diferente, e tudo leva a crer que esteja mais próxima do que realmente aconteceu. Está nos jornais da época e no depoimento dos sobreviventes. Foi de fato o Pirapama que abalroou o Bahia, tanto que do choque saiu quase intacto, podendo alcançar o porto do Recife algumas horas depois sem perda de nenhuma vida. No entanto, avariado na proa, o Bahia naufragaria com rapidez, os porões e a casa das máquinas invadidos rapidamente pelas águas. O que fez seu comandante, o 1° tenente Aureliano Isaque, morto no acidente junto com seu imediato Silvério Antônio da Silva, foi procurar dar toda força às hélices, na tentativa de aproximar o máximo possível, a embarcação da costa e encalhar, o que tornaria mais fácil a salvação das duzentas vidas pelas quais era responsável.


Porto do Recife (imagem Tok de História)

Os jornais do Recife deram alguns pormenores da tragédia que então, abalou o País: mais de 200 pessoas tentaram se salvar agarradas a tudo que pudesse mantê-las à flor da água... alguns conseguiram alcançar a costa, a maioria, não. Barcaças da praia de Goiana acudiram por terem visto, com o luar, o afundamento do Bahia, que tentava se avizinhar o mais possível do litoral. Talvez junto com os jangadeiros, tivessem ouvido a explosão das máquinas. Recolheram os náufragos como lhes foi possível. 

Em compensação, todos comentavam o estranho caso de cegos que se salvaram. Caso da mulher que dormia no camarote com o marido, quando ambos ouviram o estrondo e sentiram o choque. O marido subiu rápido ao convés, e ao se certificar do perigo iminente, viera busca-la. Tentaram embarcar numa das baleeiras do vapor, mas a cega, ao pular para a embarcação, erra o alvo e cai dentro d’água. Separa-se assim do marido. Ficou boiando de costas durante duas horas, quando foi resgatada por uns marinheiros que tinham se salvado em cima de uma capoeira de galinhas. Por fim, uma barcaça recolhe a todos. 


Um outro cego, que se safou do naufrágio, era o famoso Chagas dos Carneiros, sertanejo alto, magro, de olhos encovados, cabelos desalinhados sob o chapéu de palha, sempre de ceroulas apresilhadas nos tornozelos, calças arregaçadas até os joelhos e camisolão branco. Essa figura popularíssima na capital cearense, perambulava pelo Brasil inteiro a pedir esmolas. Quando desaparecia da terra natal, percorria os sertões do Maranhão, do Piauí, da Parnaíba, e de Pernambuco até o São Francisco, a pé, de vila em vila, de cidade em cidade, ou então, viajando de vapor-gaiola pela Amazônia, de paquete de carreira regular para o Rio e São Paulo. Numa dessas andanças, se achava na Bahia.

Escapou porque era bom nadador, desde a infância, nos rios e açudes do sertão. Ao pressentir o perigo, atirou-se ao mar, e depois de nadar algum tempo sem saber em que direção, aproximou-se duma boia improvisada na qual dois náufragos se agarravam.

– ceguinho, disse um deles – aqui não há lugar para você, Se você se agarrar, ela vai ao fundo com mais esse peso.

– está bem, respondeu o Chagas, não preciso dessa armação porque sei nadar bem, só quero um favor: um dos senhores me vire no rumo da praia, que eu vou bater lá. Assim fez um deles, e com o seu nado-de-cachorro, lento, mas seguro, o cego dirigiu-se para o litoral. Quase chegando, uma jangada o resgatou.

Perdera, no entanto, os seus carneiros. Andava sempre com 4 ou 6 desses animais, servindo-lhe um de guia à ponta duma corda. Os outros caminhavam à sua frente, ao seu lado ou às suas costas, em plena liberdade, fazendo tinir os chocalhos que traziam ao pescoço e cujos sons indicavam ao Chagas os seus movimentos e onde se achavam.


Rua Formosa em 1910

Chagas morava numa choupana, nas areias da Rua Formosa, na parte em que já não havia calçamento, em companhia de sua velha mãe, que sustentava com seus ganhos. Esta com anil, urucu e outros corantes, pintava os carneiros de cores vistosas: verde, vermelho, azul e amarelo. Eram eles, parte dos acessórios com que o cego ganhava a vida. Conduzia a tiracolo um saco contendo suas gaitas, e mais alguns apetrechos que usava em suas apresentações. Verdadeiro artista ambulante, sentava-se no meio fio dum passeio, logo rodeado de crianças e populares, e dava início ao espetáculo, com solos de gaita, passos de dança e muita cantoria. Por fim, os carneiros entravam em cena. O Chagas imitava o som de tiros e ia fuzilando um a um, enquanto os animais caiam e pareciam mortos. Tombado o último, o cego dava um berro: – ressuscita cambada! E a carneirada o rodeava, aos pulos, berrando de alegria. E a cuia de esmola ficava cheia.

O cego era monarquista ferrenho. Tirava o chapéu quando falava em D. Pedro II. Para ele, a República era a Lei do Cão. Serviam-lhe os carneiros para desabafo desse modo de sentir. O mais adestrado, o guia tinha o nome de Mimoso. Ele chamava o animal para perto de si, batia-lhe levemente com o bastão às costas, e começava o espetáculo: - Mimoso, como foi que o Deodoro proclamou a Lei do Cão? O carneiro empinava-se e berrava alto.

Chagas trazia numa das mãos uma vara encerada, cuja ponta untada de breu e carvão quando em contato com a calçada, produzia um barulho onde se podia perceber certas variações musicais. Com esses arranjos, que só ele sabia fazer, construiu uma típica charanga que chamava a atenção de todos. Era natural que a criançada, aos bandos, acompanhasse pelas ruas afora o cego que escapara ao naufrágio do Bahia. Chagas dos Carneiros desapareceu por volta de 1912. Foi embora e nunca mais voltou.

extraído do livro
à Margem da História do Ceará, de Gustavo Barroso 
fotos da internet e de origens diversas