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quinta-feira, 21 de junho de 2018

Chico da Silva, Rei das Artes, da Cachaça e dos Dragões

A vida desse homem exótico, um dos maiores pintores primitivistas do Brasil, forma um roteiro de mirabolantes aventuras. Os que o conheceram de perto, contam coisas incríveis sobre sua arte e suas façanhas, uma mistura de talento e loucura, acomodados na carcaça cabocla de Francisco Domingos da Silva, morador do Pirambu, nascido em 1910, no Acre, artista criativo e presepeiro maior dessa capitania do Siará Grande.


Chegou ao Ceará com 6 anos. Morou em Quixadá e Guaramiranga antes de conquistar Fortaleza, onde exerceu diversos ofícios, todos ligados a trabalhos manuais. Foi fazedor de tamancos, barbeiro, consertador de panelas e guarda-chuvas, amolador de facas e tesouras, funileiro, e pintor de paredes. Neste último ofício, começou a descobrir sua arte, desenhando em muros, inventando pássaros, peixes, galos irados e dragões esquisitos. Misturava na mesma figura bichos alados e quadrúpedes, numa reprodução intuitiva da evolução das espécies. Os peixes viravam pássaros e estes viravam dragões escamosos, com garras ameaçadoras.


Quando a ânsia criativa brotava, pegava carvão ou pedaços de telha vermelha e gesso e enchia todas as calçadas e muros que encontrasse pela frente, tendo, às vezes, que responder aos proprietários irritados pelas “malfeitorias”.

Em 1943 um pintor suíço que visitava Fortaleza, Jean Pierre Chabloz, viu em muros e calçadas da Praia Formosa os desenhos de Chico e ficou maravilhado. Interessou-se por conhecer o autor dos desenhos. – é um índio – disseram os pescadores – quem anda fazendo essa esculhambação nas paredes dos outros. Nossos filhos não têm nada a ver com isso. É coisa de criança, mas quem faz é um cabocão que mora por aqui”.

Chico foi localizado e logo pensou que Chabloz fosse um fiscal da prefeitura ou algum proprietário de muro rabiscado. Quando já achava que seria preso, recebeu os parabéns do visitante e uma proposta tentadora. Receberia tintas e cartolinas para realizar uma série de pinturas. As que ficassem boas seriam adquiridas e pagas imediatamente. Estava começando a acidentada e esfuziante carreira artística de Chico da Silva.

Em 1944 participa do III Salão Cearense de Pintura. A partir de 1945, levado pelas mãos do seu descobridor, ganha o Brasil e o mundo. Expõe no Rio de Janeiro, conseguindo os primeiros comentários favoráveis da crítica. Chabloz leva os trabalhos do Chico da Silva para a Europa, e os cadernos de arte europeus comentavam sobre o índio brasileiro que estava reinventando a pintura. Enquanto isso, sem incentivo em Fortaleza, Chico voltava ao seu antigo ofício de fazedor de fogareiros e lamparinas de latas de flandres no Pirambu.

Jean Pierre Chabloz e sua pintura exposta no MAUC

Só quando Chabloz volta a Fortaleza, em 1959, e o reencontra, Chico retoma sua arte. Por interferência do suíço, é contratado pelo Museu da Universidade Federal do Ceará (MAUC), passando a pintar em suas dependências. Depois sai da Universidade, onde se sentia bitolado, pois não podia beber suas cachaças nem fazer suas presepadas. Entretanto, consegue novos clientes. Vende quadros à sociedade local e consegue expor numa galeria carioca.

A fama de Chico corre mundo. Vem pedidos de toda parte, os turistas não deixam de levar uma obra do índio. Mas como produzir tantas telas para suprir essa grande procura? Só se trabalhasse dia e noite. Teve uma ideia. Pegaria uns meninos ali mesmo do Pirambu para lhe ajudar. Procurou saber quem, no bairro, levava jeito para a pintura. Logo arranjou um time razoável de aprendizes para a produção em série que pretendia iniciar.

Com ligeiras instruções, Babá, Claudionor, Garcia e Ivan de Assis, puseram-se a pintar galos, peixes e monstros de Chico da Silva. Agora, Chico, um sujeito famoso, tinha tempo para beber e raparigar à vontade. Seu único trabalho era assinar os quadros. O negócio era tão rápido que teve que funcionar por setores: enquanto um riscava os desenhos, o outro ia botando as cores e um terceiro tracejava as escamas, as penas e fazia os pontilhados. Quando Chico ia assinar, dava uma “guaribada” e pronto: mais uma obra pronta para o consumo.

Havia esperteza na cabeça do pintor, posto que ele não queria que soubessem da existência da oficina. Na chegada dos clientes, os auxiliares eram obrigados a fugir saltando a cerca do fundo do quintal da residência de Chico. Mas, um dia, o marchand Henrique Blun, chegando de surpresa ao Pirambu, encontrou o Chico, bêbado, capotado, enquanto Babá pintava seus quadros. Ao invés de denunciar a maracutaia, Blun se aproveita da situação, levando o falsificador para trabalhar em sua casa, por onde passava o Chico, de vez em quando, para assinar as telas, autenticando-as.

Essas telas pintadas por Babá foram expostas na Petiti Galeria, no Rio de Janeiro, em 1966. Chateada por ver seu homem se envolvendo com outras mulheres, dona Dalva da Silva, mulher do Chico, denuncia nos jornais que as telas da exposição são falsas. Houve um grande barulho na imprensa, mas o pintor negou as declarações da esposa e reafirmou que os trabalhos eram de sua autoria. E ficou tudo por isso mesmo.


Chico viaja para a Europa, em companhia de Clarival do Prado Valladares e participa da Bienal de Veneza em 1966. Em seguida, participa de mostras na França e na Espanha. Quando retorna, demora-se no Rio de Janeiro, farreando nos cabarés da Lapa e nos inferninhos da Cinelândia, até gastar todo o dinheiro que ganhara. De volta à Fortaleza, Chico se vangloria de suas façanhas, diz que foi recebido no Palácio pela Rainha Elizabeth da Inglaterra, e na sede do governo da França pelo próprio Charles De Gaulle. Toda artista ou mulher famosa e bonita que aparece nas revistas, ele diz que namorou.

Os marchands, com a conivência do pintor, contratam os falsificadores de sua oficina e montam várias “fábricas de Chicos da Silva”, ele só participa com a assinatura, acrescida agora da digital e uma foto ao lado do quadro para simular autenticidade. Em sua casa Chico ainda mantém sua oficina, agora com a participação de seus filhos Francisca e Roberto, e ainda Gilberto, Manuel Lima, Caínha, Carabina e Maria Augusta, entre outros.

Em 1969, Maria Augusta, então com 15 anos, ao ser posta para fora da casa de Chico pela ciumenta dona Dalva, vai aos jornais e denuncia mais uma vez a falsificação. A notícia é estampada na imprensa nacional. A revista O Cruzeiro conta toda a história, com detalhes. Agora, ninguém sabe mais se o quadro que tem na parede é um Chico da Silva legítimo ou uma falsificação. Aí caem as vendas e a decadência começa. Desmoralizado, Chico se entrega com afinco à bebida, sem intervalos. Talvez, acometido de delirius tremens, diz que os dragões que ele pintou estão saindo das telas para lhe atacar.

Por volta de 1972 saiu um comentário num jornal francês sobre o mais famoso morador do Pirambu. E o articulista lamentava que as autoridades brasileiras tivessem abandonado um dos maiores artistas primitivistas do mundo, deixando-o morrer à mingua, como um pária. A repercussão do estado de decadência de Chico da Silva mexeu com os brios do governador César Cals que, convocando um grupo de senhoras ligadas às artes plásticas, mandou procurar a família do pintor, e ver o que poderia ser feito.

O grupo de senhoras encontrou Chico da Silva em estado deplorável. Sua mulher, Dalva, informou que ele havia se entregado de vez ao alcoolismo e já estavam passando por sérias dificuldades. A ajuda mais imediata seria arranjar dinheiro.

Pensaram, então, numa exposição. Chico da Silva identificaria os quadros verdadeiramente seus, e seria feita uma vernissage num clube da Aldeota. Ouvindo a conversa, Chico levantou da rede e veio participar. Topava a ideia da exposição, mas tinha umas exigências. Queria um paletó branco, uma gravata encarnada e um par de sapatos também branco.

rua do Pirambu (2010)

Saíram pelo bairro procurando nas bodegas os quadros que ele trocara por cachaça. O trabalho foi exaustivo, mas proveitoso: 28 telas foram recuperadas, com outras que o Chico se dispunha a pintar, dentro de uns dias tudo estaria pronto.

Tudo foi acertado e providenciado, convites, cobertura da imprensa, instalações. Na véspera, a badalada exposição já estava devidamente instalada no clube mais elegante de Fortaleza. A festa deveria começar às 20 horas.

Na manhã do grande dia as organizadoras foram à casa do Chico. Eram nove horas da manhã e o índio já havia saído. Dona Dalva informou que ele fora à alfaiataria do Girão para apanhar o traje. Correram para lá. Nada de Chico: já pegara a roupa e se mandara, ninguém sabia para onde.

Praia do Pirambu (imagem IBGE)

Voltaram ao Pirambu, falaram para dona Dalva que, sem o Chico, ela iria representar a família na cerimônia de abertura da exposição. À noite, maquiada e de vestido longo – numa produção bancada pelas organizadoras do evento – dona Dalva recebeu cumprimentos do governador, foi abençoada pelo arcebispo, fotografada pelos repórteres e acompanhada da fina flor da sociedade, dona Dalva estava em seu esplendor.

Quando a cerimônia já ia começar, ouviu-se um grito forte na entrada do clube
– cadê o dinheiro pra pagar o táxi, cambada de burguês? Eu sou o dono da festa e tô chegando pra arrepiar!”. 
Era, sem sombra de dúvida, o Chico da Silva. O paletó já estava sujo, os sapatos com respingos de lama e ele não vinha só. Puxava pela mão uma rapariguinha, quase uma menina, a cara pintada com exagero, os peitos grandes, prestes a saltar do decote cavado, provocante. Vestia ainda uma minissaia, dessas que deixam a descoberto o fundo das calças.

Ao notar o lugar solene em que era introduzida, com aquela gente bem vestida e cerimoniosa, a moça quis recuar. Não conseguiu. O desarvorado Chico lhe arrastou firme e ele teve que prosseguir rumo ao salão principal, onde os discursos deveriam ter lugar. Dona Dalva mal podia acreditar no que estava vendo. Então o safado do seu marido tinha a audácia de trazer para um lugar daquele uma puta do farol, logo no dia em que ela estava tão bonita, tão arrumada? Ah, mas isto não ficar assim, não. Se o Chico queria confusão ia ter, e da grossa.

E passando das palavras à ação, a destemida Maria Dalva, que era natural de Salvador, rodou a baiana. Partiu para cima da ninfeta, atingindo-a com um murro na cara. A pequena, escolada nas escaramuças do Farol do Mucuripe, não foi apanhar sozinha e se atirando, em pulo felino, atingiu com a cabeça a pança de dona Dalva que caiu para trás.

As duas se enroscaram pelo chão como se fossem duas serpentes ferozes dos quadros do Chico e, ante o espanto das autoridades civis, militares e eclesiásticas, derrubaram os cavaletes da exposição, e com eles as telas, num turbilhão de safanões, pernadas e palavrões. No seribolo armado, não se sabia quem ganhava ou perdia, quem estava em cima ou embaixo. As dondocas soltavam gritinhos histéricos, corriam espavoridas, desarmando as cabeleiras enlaquezadas, enquanto o pau comia entre as duas suburbanas.

No fim, contidas a custo por oito seguranças, as mulheres estavam em frangalhos, riscadas de unha e sangrando pela boca. O clube parecia que tinha sido atingido por um desses ciclones tropicais: mesas viradas, telas rasgadas, cavaletes transformados em espetos. Nem nos mais ferozes arranca-rabos do Pirambu se vira coisa igual.

Apesar dos escândalos e da vida desregrada que levava, Chico da Silva continuava a ser uma importante referência cultural no Ceará. Várias foram as tentativas para reabilitá-lo. Em 1974 o governo do Estado e a prefeitura de Fortaleza lhe deram uma bonita casa-atelier, na recém-inaugurada Avenida Leste-Oeste. Em 1975 o Grupo Mercantil São José presenteou-o com um automóvel. Por esse tempo foi feito um documentário sobre sua obra e sua história pelo cineasta Pedro Jorge de Castro.

Os jornais assediam-no sem parar. Suas entrevistas fazem sucesso pelo inusitado. Ao Jornal do Comércio, de Pernambuco, ao ser perguntado sobre sua temática, declarou: "eu pinto o cão, pinto a mãe do cão, pinto a tia do cão e vou pintar o cão aqui pra todo mundo ver”. Recebe homenagens de toda ordem: a medalha Anchieta, da Câmara Municipal de São Paulo, a medalha da Abolição, maior comenda do governo do Ceará, e em 1983, uma pensão vitalícia, de dois salários mínimos, do Estado. 


Continua, porém, explorado por espertalhões e mergulhado no vício. De vez em quando fica doido e quebra tudo em casa. Vangloriava-se de bêbado, ter derrubado três metros de muro sem sentir nada. Dona Dalva já não mais existia, morreu de sofrer. Chico despenca ladeira abaixo. Alterna internamentos em hospitais com grandes bebedeiras. Uma vez quase morto, foi internado às pressas pelo casal Heloísa e Haroldo Juaçaba, na Casa de saúde São Raimundo. Outras internações se seguiram, sequenciadas por novas recaídas, até o desfecho final no dia 06 de dezembro de 1985.

A Agência Terraço, produziu um belo texto em homenagem a Chico da Silva, publicado em página inteira do Jornal Diário do Nordeste



“Neste Natal
A Familia Silva
Tem uma estrela no céu
Era um privilegiado,
Tinha sensibilidade para captar o invisível.
Artista,
Viveu numa estrada colorida
Entre o sonho e a realidade
Ingênuo – por ser bom – se perdeu na madrugada
E adormeceu no cansaço da desilusão.
Não passou pela vida despercebido.
A pureza-beleza de sua obra
Saiu dos limites do individual,
Transcendeu o universal
E alçou o lume das estrelas,
Glória maior de todo artista
Ele adotou esta terra
E não soubemos compreender a dimensão de seu gesto!”


Extraído do livro - Sábado, Estação de Viver – histórias da boemia cearense
De Juarez Leitão 
fotos: Internt, O Povo, IBGE e Fortaleza em Fotos
 


domingo, 25 de novembro de 2012

Fortaleza e a descoberta do banho de mar

Na década de 30 o banho de mar ainda não fazia parte do programa dos finais de semana. A Praia de Iracema, que era o cartão postal da cidade, onde a beleza natural atraía os curiosos, foi destruída com o avanço do mar, devido às obras da construção do Porto do Mucuripe. No entanto, outros pontos da zona litorânea começavam a despontar na lista dos admiradores das belezas naturais.

Praia de Iracema década de 30. A elite não valorizava a praia nessa época, que era frequentada apenas pelos moradores da área, pescadores, estivadores etc . 

Na Barra do Ceará, a oeste de Fortaleza, o Rio Ceará, que ali desemboca, fora escolhido como local de pouso dos hidraviões que atendiam os viajantes privilegiados, capazes de assumir gastos com uma passagem aérea.  Embora se mantivesse uma expectativa de que a Barra do Ceará fosse se tornar um local que viria a oferecer opção de lazer para a população,  a frequência ao local se restringia aos que acompanhavam ou desejavam observar os pousos e decolagens dos hidroaviões.

hidroavião na Barra do Ceará em 1930

Depois da 2ª. Guerra, a Barra do Ceará voltou a ser área excluída do roteiro de lazer da elite fortalezense. A pobreza foi ocupando os terrenos à beira mar, estendendo-se até a miserabilidade extrema que se concentrava no Pirambu.
O interesse dos moradores pela zona costeira se limitava às Praias Formosa, de Iracema e do Meireles que ficavam mais próximas do centro. A Praia de Iracema passou a ser valorizada com a construção de residências, sendo algumas de veraneio. Mas as obras do porto e o consequente avanço do mar diminuiu a extensão da praia, prejudicando os adeptos dos banhos de mar. 

A praia do Meireles, o metro quadrado mais caro da cidade atualmente, tinha esse aspecto até a década de 50. Casas de pescadores e muitos coqueiros. 

A esperada modernização do porto abalara fortemente a opção de lazer que fora iniciada no pós-guerra, deixando aos saudosistas os lamentos poéticos sobre o que perderam da antiga Praia de Iracema.  Entretanto, foi através do porto, que na década de 1940, começaram a chegar os automóveis: o Lincoln, o Packard, considerados mais luxuosos e os carros menores como o Renault, além de outros modelos, franceses e ingleses. Só em uma remessa foram desembarcados 60 automóveis além de alguns caminhões. A maioria destinava-se a uso particular e foram substituindo os deselegantes jeeps.

a abertura do Porto do Mucuripe possibilitou a importação de automóveis em maior escala e o surgimento de veículos de aluguel. Na foto, o Posto Mazine, localizado na Praça do Ferreira. 

Como medida de prevenção ao contínuo avanço do mar na Praia de Iracema, foram colocados diques de pedras, restando apenas uma exígua área para os banhistas. O espaço praiano aberto só começava após aquela praia, a partir da Praia do Meireles nas proximidades do antigo Clube dos Diários, prolongando-se até a Volta da jurema. 

Porto do Mucuripe, anos 60. A construção do porto  tornou-se um obstáculo para o fluxo de areias do litoral leste para o oeste, causando a drástica diminuição da faixa de praia na região da Praia de Iracema e o progressivo abandono das atividades portuárias e comerciais na área.
 
Um leitor do jornal O Povo lembrando a existência do jornal Praieiro, no Recife, boletim dos postos de salvamento e da Diretoria de Documentação e Cultura da Prefeitura,  distribuído aos domingos, extravasava sua repulsa pelas praias de Fortaleza, classificando-as como praias de cavalos, praias de jeeps e praias de ébrios. Lembrava que no sentido oeste, a Praia do Pirambu se tornara imprópria para banhos porque o serviço de esgoto despejava ali seus dejetos. 
A classificação em praia dos cavalos e dos jeeps devia-se ao costume dos que passeavam a cavalo e de carro pelas praias, poluindo o ambiente e pondo em risco a segurança dos frequentadores.  A praia dos ébrios eram as situadas nas proximidades do porto onde a população pobre habitava e tinha nos botecos uma oportunidade de esquecer a miséria em que viviam. Na década de 50 a frequência à praia aumentou e foram instalados dois postos de salvamento na Praia do Meireles.

 Praia de Iracema, início dos anos 50, já sob a influência do avanço do mar. Com o passar do tempo, a redução da faixa de praia se acentuou

Em razão da crescente afluência de público, em 1956 as praias já eram consideradas sujas, com lixo acumulado. Reclamava-se da "molecagem", e da presença de "mulheres de má reputação" que invadiam trechos onde estavam "as famílias". O foco da atração chegava ao Iate Clube, onda  a praia se tornara muito concorrida. 

 Praia Formosa 1892

A praia de Iracema perdera seu brilho, com casas mal conservadas e o espaço diminuído. A praia Formosa já estava sendo ocupada por casebres, e pelos prostíbulos. Desde 1945 que a polícia com o incentivo do Jornal católico O Nordeste, passou a reprimir a falta de moralidade reinante nas praias. A igreja associava-se ao rigor policial, que impunha a repressão como um recurso sadio, influenciado pelo autoritarismo na relação Estado e sociedade na década anterior.
O exagero da caça policial também visava "os namoros indecentes" e "os vagabundos" que geralmente se exibiam nas ruas. A imoralidade a ser combatida era, sobretudo, oriunda das classes baixas e precisava ser repelida, pois acontecia em espaço público.
A questão da virgindade era tratada com rigor pela sociedade:  se o namorado "avançava o sinal", tinha que casar. Se a família de classe média tinha poder para exigir o casamento, tudo se acomodava. Se não, "a vítima" era discretamente exportada para o Rio de Janeiro, onde as moças do Nordeste, virgens ou não, tinham excelente aceitação no mercado matrimonial, principalmente entre outros nordestinos nostálgicos dos conterrâneos. Nas classes alta e baixa, ricos e pobres resolviam o problema sem maiores complicações. 

os trajes de banho eram condenados, em nome da moral e dos costumes 
  
O uso de calções e maiôs nas praias jamais deveria ser adotado por pessoas católicas, e recomendava-se aos confessores que não absolvessem os fiéis que confessassem o uso destas vestimentas. Até o traje de calção nas ruas em geral, praticado pelos que se dirigiam às praias, passou a ser combatido.

fotos do Arquivo Nirez
extraído do artigo de Gisafran Nazareno Mota Jucá
Fortaleza: cultura e lazer (1945-1960), 
publicado no livro Uma nova história do Ceará

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O Lazer e o Prazer nas Ruas de Fortaleza

praia formosa em 1892 (acervo MIS)
Na Fortaleza da década de trinta, o banho de mar ainda não fazia parte do programa de finais de semana. A Praia de Iracema que fora durante anos o cartão postal da cidade, onde a beleza natural atraía os visitantes, foi destruída com o avanço do mar, por causa das obras do Porto do Mucuripe. 
Entretanto, outros pontos do litoral começaram a aparecer na lista dos admiradores dos ambientes naturais. 
Na Barra do Ceará, na zona oeste da cidade e considerada distante do centro, o rio Ceará, que ali deságua, fora escolhido como local de pouso de hidroaviões que atendiam aos viajantes privilegiados, capazes de arcar com os gastos de uma passagem área. 
Um prédio foi instalado nas imediações, dispondo de luz elétrica, banheiros e serviços de copa e cozinha, a fim de abrigar os passageiros ou curiosos dos voos programados. Embora se alimentasse a expectativa de que a Barra do Ceará seria um logradouro que viraria um dos points  preferidos da população, a opção de passeio e frequência do lugar ficava restrito aos que acompanhavam os passageiros dos hidroaviões. 
Após a Segunda Guerra, a Barra do Ceará voltou a ser área excluída do lazer das elites e da administração municipal. A pobreza foi o agente de ocupação dos terrenos à beira-mar, estendendo-se até a miséria chocante que já se concentrava no Pirambu.
Praia do Mucuripe ao fundo o antigo farol (Ah, Fortaleza!) 
O interesse dos fortalezenses pela orla limitava-se à Praia Formosa, Iracema e Meireles, que ficavam próximas. A de Iracema passara a ser valorizada com a construção de residências de alto padrão, sendo algumas de veraneio, mas as obras do porto e o consequente avanço do mar diminuíram a extensão da faixa de praia, afastando os adeptos do banho de mar. 
A esperada modernização da cidade com as obras do porto, prejudicara fortemente a opção de lazer que começara a ser valorizada no pós-guerra. Como medida de prevenção ao contínuo avanço do mar, foram colocados diques de pedra restando apenas um exíguo espaço para os banhistas. 
Praia do Meireles, ao fundo, o Mucuripe (Ah, Fortaleza!)
A área de praia começava nas proximidades do Clube dos Diários prolongando-se até a Volta da Jurema. A Praia do Futuro, situada além do porto, constituía um desejo longínquo. Na década de cinquenta a afluência de banhistas aumentou e foram instalados dois postos de salvamentos, instalados no Meireles. 
Por conta desse aumento de demanda, em 1956 as praias já eram consideradas sujas, com lixo acumulado. Havia reclamação quanto ao comportamento dos frequentadores, da molecagem e da presença de mulheres de má reputação que ocupavam trechos para onde se deslocavam as famílias. 
Praia de Iracema em 1928 (acervo MIS)
O trecho preferido chegava ao Iate Clube, onde a praia tornara-se muito concorrida. A Praia de Iracema perdera o atrativo, com as casas ameaçadas pelas marés; a Praia Formosa ia sendo tomada por casebres de zinco e palha, pelos prostíbulos e pelo lixo acumulado.  
Desde 1945, a Secretaria de Segurança Pública, incentivada pelo jornal católico O Nordeste, passou a reprimir a falta de moralidade nas praias. 
A igreja, no combate à moralidade associava-se ao rigor policial, que impunha a repressão como um recurso sadio, influenciada pelo autoritarismo, incrustado na política da década anterior. A caça à falta de pudor e a libertinagem passava à deriva dos problemas sociais que pareciam ser ignorados. Por trás da indecência, pelo menos em considerável percentual, encontrava-se a miséria dos que se envolviam com a prostituição como saída de sobrevivência. 
O exagero da caçada policial também visava atingir os namorados indecentes  e  vagabundos, que se exibiam pelas ruas. A imoralidade a ser combatida era principalmente, oriunda das classes inferiores. O uso de calções e maiôs nas praias jamais deveriam ser adotados por pessoas católicas, e recomendava-se aos confessores que não absolvessem os fiéis que
admitissem que os usavam.

Fonte: 
Verso e reverso do perfil urbano de Fortaleza, de Gisafran Nazareno Mota Jucá  

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A Praia Formosa e o Curral das Éguas

Praia Formosa em fotos de 1939 - foto reprodução
ponte dos ingleses  

Desde a década de 1920 até inicio dos anos 1960, a então Praia Formosa (atual Iracema) era habitada por pescadores e por pessoas de classe média, que ali se instalavam devido à facilidade de acesso à Praça do Ferreira – ponto de convergência de todo o comércio de Fortaleza, repartições públicas, linhas de ônibus e de bondes, correios, bancos, etc. O trajeto entre a Praia e a Praça do Ferreira era cumprido a pé.
Ao longo desse tempo a Praia Formosa sempre foi uma área bastante movimentada, com destaque para os anos 1940, quando por ali transitavam as moças que habitavam o “Curral das Éguas”; também circulavam jovens solteiras de boas famílias, que frequentavam o cassino dos americanos (no lugar do atual Estoril), ou ainda, o “La Conga” que ficava na descida da Rua Barão do Rio Branco, já na beira do mar. O La Conga era tipo uma boate, e servia de ponto de encontro dos soldados americanos que ficaram aquartelados na cidade no tempo da guerra.
Estima-se que, entre 1943 e 1946, um total de 50 mil americanos tenha passado por Fortaleza. Para suas distrações se faziam acompanhar das famosas “coca-colas”, como ficaram conhecidas as moças de Fortaleza que namoravam os americanos, mesmo sem conhecer o idioma.
Bastava saber dançar e dizer algumas palavras que permitisse os mais rápidos relacionamentos.
Na descida do Passeio Público em direção a praia estava o “Bar São Jorge”, palco de muitas desventuras humanas, e por esse motivo, muito conhecido da crônica policial da cidade; nas redondezas se aglomerava grande número de operários que trabalhavam na antiga “light”, lugar que acumulava enorme quantidade de cinza das caldeiras que forneciam eletricidade a Fortaleza.
Mais tarde o lugar passou a ser chamado pejorativamente de “Cinzas”.

No Arraial Moura Brasil, na descida da ladeira da Rua General Sampaio, ao lado da estação central e da casa de detenção (atual Encetur), em direção a Praia Formosa, ficava o muito famoso “Curral das Éguas”, local onde desde 1920, muitos rapazes, de todas as classes sociais, se iniciavam nas artes amorosas.
As casas, estilo chalés situados à esquerda de quem descia a Rua General Sampaio, estavam sempre feericamente iluminados. As mulheres, de todos os tipos, vinham de todo o estado do Ceará, boa parte delas fugindo das secas e da carência de oportunidades em suas cidades, para “fazer a vida” e assumir a profissão.
Na pensão onde fixavam residência, a primeira providência da madame (a dona da pensão) era levar a “mariposa” a chefatura de policia onde era registrada, com prontuário de ocorrência sanitária, obrigada a comparecer mensalmente para obter visto na carteira, e para ser examinada para saber se tinha contraído “doença do mundo” ou “curuba”,
um tipo de sarna muito comum na época.
Os homens solteiros, casados, comprometidos, ricos, pobres, pretos ou brancos, freqüentavam o local às escondidas, cuidando para evitar as “doenças do mundo” dada a inexistência de preservativos ou camisinhas.
Os que pegavam alguma doença venérea, consultavam urologistas de confiança em busca da cura, tudo no maior segredo, evitando-se chegar ao conhecimento das famílias e namoradas, porque tal ocorrência podia decretar até o fim do casamento, se fosse descoberta.
O trottoir era o ponto alto do assédio: as “damas da noite” vestiam-se com roupas de sedas chamativas, subiam e desciam a ladeira da Rua General Sampaio, a fim de atrair os fregueses que se postavam na parte alta da rua, ou que estavam nos botequins da área.
Arranjado o parceiro, levavam para o quarto do lupanar reservado para o oficio que não durava nem meia hora. Findo o encontro, a mulher já saía do quarto com traje diferente do que usara antes para não ser reconhecida pelos circunstantes, e recomeçava a lide de subir e descer a ladeira.
Ao lado do curral havia outras pensões, o “Oitão Preto” e a “Pensão da Olímpia”, ambas de categorias superiores e separadas do público que freqüentava o curral.
Muitas foram as promessas do poder do publico e de entidades da iniciativa privada, de mudar a tradição de uso e ocupação da Praia de Iracema, a outrora Praia Formosa. Campanhas de revitalização para integrar a área ao contexto sócio-cultural de Fortaleza e atrair maior movimentação de visitantes são quase constantes.
Em alguns trechos, até que esse objetivo foi parcial e relativamente alcançado. Mas o trecho onde se situavam até a década de 1960 as atividades acima relatadas, continua sendo até os dias atuais, área onde reinam a insegurança, a prostituição e o tráfico de drogas.
Pobre Fortaleza Bela



Fonte:

Almada, Zenilo. Histórias da Fortaleza Antiga. Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza, tomo CXVIII, 2004.