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terça-feira, 12 de novembro de 2024

Um Cassino em Fortaleza. Quem conheceu?

 

Os cassinos são ilegais no Brasil e considerados contravenção penal desde 1946, por decreto assinado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, que teria baixado o decreto influenciado por sua esposa Carmela Dutra, que era conhecida por sua forte religiosidade à Igreja Católica. Apesar da proibição, vez em quando se tem notícias de estabelecimentos do gênero instalados e em pleno funcionamento em território brasileiro.

A notícia reproduzida do jornal Folha de São Paulo, edição de 07 de junho de 1998, dá conta da existência de um cassino em Fortaleza, que funcionava na Aldeota, sem citar o endereço. Já que aparentemente nunca frequentaremos um cassino no país, pelo menos podemos ter uma ideia do que ofereciam e como funcionavam. 


Praia de Iracema anos 90 

O nome Guarany não era novidade para os fortalezenses, uma vez que , funcionou no centro, a partir dos anos 50, a famosa Boate Guarani, uma grande casa de espetáculos.  Mas a área de atuação da boate era a exploração do lenocínio, não havia jogatina. A casa era famosa por promover festas especiais em que as mulheres eram praticamente uniformizadas, pois embora com modelos diferentes, seus vestidos naquela noite tinham a mesma cor. No aniversário da madame era o Baile azul. Mas no decorrer do ano tinha o baile vermelho, o cor-de-rosa, e assim por diante. Encerrou as atividades no início dos anos 60, devido a proibição do funcionamento de cabarés no centro.  

Palacete Guarany, onde funcionou a boate Guarany 


O Cassino Guarany

"Cassino paga até táxi para clientes em Fortaleza

Numa casa ampla do bairro da Aldeota, em Fortaleza, funciona um dos mais conhecidos cassinos clandestinos do país: o Clube Guarany, que fica a apenas cinco quarteirões da Secretaria de Segurança do Estado.

A reportagem da Folha esteve no cassino na última quarta-feira à noite, onde constatou o funcionamento de duas mesas de bacará, três de roleta, duas de pôquer e duas de "black jack", além de máquinas de videopôquer.

Para atrair clientes, o cassino distribui bônus de R$ 20,00 nos hotéis e ainda paga a corrida de táxi do turista até o clube. Os bônus simulam notas de US$ 20,00, e no verso do papel estão explicações em inglês, espanhol, francês e português.

A equipe de reportagem entrou no cassino se fazendo passar por turistas. Ainda no hotel, os recepcionistas tranquilizam os clientes quanto à segurança do cassino. Dizem que a casa funciona há muitos anos e que não há risco de batida policial.

O motorista do táxi, assim que foi informado do endereço, avisou que a corrida seria paga pelo cassino, que tem até uma tabela fixa: R$ 20,00, independentemente do trajeto.

O cassino é dividido em três ambientes: a boate "Four Seasons", a sala das máquinas caça-níqueis e a sala das mesas de jogo, protegida por vidros. O ambiente é decorado com grandes quadros com motivos indígenas.

Para usar o bônus, o cliente precisa comprar mais R$ 50,00 em fichas, mas tem bebida de graça e, na madrugada, os garçons servem caldo de peixe, também de cortesia. Tudo para estimular o freguês a continuar apostando.

Em volta das mesas, poucos clientes. Três senhoras, aparentando mais de 60 anos, apostavam na roleta compulsivamente, ao lado de quatro homens de meia-idade que vinham a trabalho de outros Estados.

As máquinas de videopôquer estavam vazias, alguns homens jogavam cartas e garotas de programa circulavam pelo cassino, sem fregueses.

Apesar do aparente marasmo, o cassino Guarany está de mudança para um local maior.

Cartazes e várias fotografias afixados na sala de jogos anunciam, para breve, a inauguração do "Green Beach Cassino", no hotel Praia Verde. O hotel, que fica na Praia do Futuro, está fechado para reforma.

Outro Lado

O subsecretário de Segurança do Estado, Francisco Sales de Oliveira, disse que o governo desconhece a existência do cassino Guarany. "Se existe, nunca tomamos conhecimento", afirmou."


(ELVIRA LOBATO) domingo, 7 de junho de 1998

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc07069819.htm

fotos da Internet


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Relembrando o Curral das Éguas

Quem tem boa memória decerto haverá de se lembrar do Curral das Éguas – na Praia Formosa – no bairro então denominado Arraial Moura Brasil, nos anos de 1920 a 1960. Quem descia aquela ladeira da Rua General Sampaio, ao lado da Estação Central e da Casa de Detenção em direção à praia, sabia, sem dúvida, que perderia a castidade e a inibição. 

Rua General Sampaio, a parte final da rua desapareceu em função da construção da Avenida Leste-Oeste

À primeira vista de quem olhava do alto da ladeira, tinha-se a visão de um arraial feericamente iluminado. As casas, estilo chalés, situadas do lado esquerdo de quem descia a rua inclinada, guardavam os ninhos do amor vendido a granel, onde as moças escondiam seus tesouros. Lá predominava a mancebia entre jovens que se acautelavam das doenças venéreas, comuns na mocidade, e para uns, principal sinal de virilidade.

No Curral do Arraial Moura Brasil tinha de tudo e mulher para todo gosto. A variedade de tipos, vindas de todo o interior do Ceará e até de outros Estados, com o ar, costumes, trajes e sotaque caipira, mas com a brejeirice sertaneja, atendia às mais diversas simpatias e preferências que exigiam o rigor do amor.

Era um mundo diferente para as moças simples, chegadas do interior, que ali se apresentavam para fazer o seu meio de vida assumindo a profissionalização. Na pensão, onde fixavam residência, a primeira providência da madame – a dona da pensão -  era apresentar a hóspede na Chefatura de Polícia, para abrir uma ficha e receber a carteira, registrando-a com prontuário de ocorrência sanitária. A burocracia obrigava a rapariga a comparecer mensalmente, para revalidar o documento e passar por exames para saber se tinha pegado “coruba” ou “doença do mundo”, muito comuns naquela época.Era a juventude que comandava os dias daquelas mulheres, desfrutando o que a vida proporcionava, e se deixando dominar pela lascívia e o prazer de viver num mundo de fantasias e ilusões. 

 A Subdelegacia de Polícia da Rua Franco Rabelo (que também desapareceu) atendia ocorrências na zona de prostituição 

No local destinado a dança – Salão Bola Preta, dancing de primeira classe, com verdadeira orquestra, aconteciam animadas noitadas, passando pelos mais variados ritmos e contando com a presença de representantes masculinos da fina flor da sociedade, que compareciam às escondidas das mulheres e namoradas.

Com o passar do tempo vieram outros salões em épocas diferentes, como o “Rancho Fundo”, “Salão Azul” e o popular “Salão da Farinhada”, cuja iluminação era a base de gás carbureto, onde os frequentadores usavam tamancos por pertencerem à classe proletária, embora a alegria fosse a mesma de um salão grã-fino.

Um dos pontos altos da noite no Curral era o clássico trottoir: as damas da noite vestiam roupas de seda, subiam e desciam os dois primeiros quarteirões da Rua General Sampaio, a fim de atrair os fregueses que se postavam na parte mais alta da rua, ou sentados nos botequins da ladeira, a soltar galanteios para iniciar o rápido romance, que as vezes terminava na alcova.

Com trocas de olhares, nesse vai-e-vem subindo e descendo a ladeira, o jovem se aproximava da dama e logo se envolviam num ligeiro diálogo, para adentrar o pequeno quarto do lupanar reservado para o encontro, que não durava mais que meia hora. Terminada a função e recebido o pagamento, separavam-se com atenciosa despedida ou promessa de novos encontros em dia aprazado. A mulher já saía do quarto com traje diferente do que usara antes, para não ser reconhecida pelos circunstantes, porque precisava reiniciar sua batalha em busca de novo freguês.

Fora do trabalho, seu mundo se resumia a um pequeno dormitório da pensão alegre, pagando diária para ter direito ao almoço, jantar, guarda-roupa, e uma penteadeira repleta de adornos, bibelôs, perfumes, objetos de toucador, e um pequeno lavatório num tripé de ferro, acoplando bacia, jarra de ágata e saboneteira com o infalível sabonete Eucalol, pequena toalha, e “caxeiro” para os rapazes, que as mulheres faziam assepsia.

Não se falava de AIDS nem de preservativos. A rapaziada se curava nas prodigiosas mãos dos enfermeiros Mundico, Dr. França, Almeida e Varejão, que tinham seus ambulatórios no Centro, faziam ligeiras intervenções cirúrgicas, e de certa forma, praticavam a medicina profilática da juventude que se iniciava sexualmente. Eram os doutores das “doenças do mundo”, como eram popularmente conhecidos. Os casos mais graves iam para o Dr. Olavo Rodrigues ou Dr. José Oswaldo Soares – os grandes urologistas do Ceará, tudo em segredo, evitando que o assunto chegasse ao conhecimento da família – das namoradas, nem sonhar, acabava-se até casamento, se fosse noivo. 

 trecho do bairro Moura Brasil que desapareceu com a construção da Avenida Leste-Oeste

Ao lado do Curral das Éguas havia outras pensões – o conhecido Oitão Preto e a Pensão da Olímpia, que por ser de outra categoria, não se misturava com a plebe do Curral. Assim, nesse ambiente de atmosfera pesada, havia também os tipos folclóricos, que preenchiam lacunas de excentricidade. Iniciava a lista uma doida de pedra chamada de “Barra Azul”, que ao ouvir o apelido, “soltava os cachorros”; "Siri", "Ferrugem" e "Tristeza", afora as doidivanas que compareciam para dançar e aproveitar o tempo.

A ordem era mantida por um delegado de polícia muito rigoroso – Rodrigues, assessorado pelos policiais Pedro Moura e Chico da Usina e um destacamento de cavalaria que assegurava a tranquilidade na área. Havia muitos bares e botequins que serviam refeições ligeiras e bebidas alcoólicas até as 22 horas, abastecendo o território mundano do velho Curral, que no final dos tempos nada legou à posteridade.

Avenida Leste-Oeste,  postal dos anos 70 

De lembrança, ficou a igrejinha de Santa Teresinha, ali, ao lado da Leste-Oeste, para remir os pecados dos endiabrados frequentadores da zona que virou cinza, e o tempo levou deixando apenas recordações.


Extraído do artigo 
Histórias da Fortaleza Antiga, de Zenilo Almada
publicado na Revista do Instituto do Ceará - 2004  
fotos do arquivo Nirez                         

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Os Cabarés da Periferia

Os cabarés, pensões altas ou alegres – como eram chamados nos idos dos anos 1940 e 50 – eram locais de diversão garantida e bastante frequentados nas noites de Fortaleza. A maioria ficava no centro da cidade, nas ruas Major Facundo, Floriano Peixoto, Barão do Rio Branco e arredores, e funcionavam em antigos casarões, nos quais as pensões ocupavam o andar superior.  Esses antigos casarões eram sobrados em que durante o dia, funcionavam estabelecimentos comerciais no térreo, e à noite, o andar superior tornava-se ponto de encontro dos amantes da diversão, da boemia, da música e da companhia de belas mulheres.

Sobrado do Barão da Ibiapaba, na esquina das ruas Major Facundo e Senador Alencar, onde, nos altos, funcionou durante  muitos anos, a famosa Pensão Ubirajara 

Quando o General Cordeiro Neto foi eleito prefeito de Fortaleza (1959-1963), proibiu a venda de bebidas no centro depois da sete da noite, bem como as orquestras depois das dez. A rigorosa medida, foi respondida com o deslocamento dos cabarés para os bairros. Os que permaneceram no centro passaram a adotar a música eletrônica, as radiolas e as máquinas de ficha. 

 Prefeito Manuel Cordeiro Neto (1959-1963) 

Surgiram assim as boates da periferia. A mais importante delas foi a Margô, casa de diversão que se instalou primeiro na chamada “mata da Aldeota”, à altura da atual Avenida Desembargador Moreira. Depois no bairro Cachoeirinha, que corresponde hoje aos bairros São Gerardo e Parquelândia. Sua casa era frequentada pelo que havia de melhor da representação da boemia da cidade (juristas, deputados, comerciantes, radialistas, jornalistas). Era um lugar distinto, onde todos se sentiam seguros e respeitados. Não havia roubo, ou violência ou palavrões.

O Cabaré da Santa (Maria Santa Pereira) ficava no Benfica, na Rua Francisco Pinto, por trás do Dispensário dos Pobres. Suas “meninas” vinham de outros Estados e eram muito disputadas porque começaram a inovar as técnicas da prostituição de Fortaleza, com práticas sexuais antes nunca vistas por estas plagas. As novidades sexuais foram duramente condenadas. Como a cidade era pequena, a sociedade terminava tomando conhecimento dos que praticavam “estranhezas” nos cabarés.

 A famosa Casa do Português também acolheu um cabaré: a Boate Portuguesa 

A Casa de Natália estava localizada na Avenida João Pessoa e o seu público era, predominantemente, homens de meia-idade. A proprietária, conhecedora das fantasias e dos fetiches, recrutava mulheres novas e as vestia como estudantes, com fardas da Escola Normal e do Colégio da Imaculada Conceição. Ensaiava gestos e modo de falar, imitando a voz infantil e as meninas usavam tranças. 

Também na Avenida João Pessoa funcionou na conhecida casa do Português, a boate Portuguesa, de pouca duração. Era bem frequentada e fingia ser um ambiente familiar. Apesar de ter seu próprio elenco de mulheres, os clientes podiam chegar já acompanhados. As acompanhantes eram profissionais, as denominadas “garotas de programa”.

A Gaguinha também era famosa. A casa de Irinete Cabral ficava nas Damas ou Vila Damasco. Seu apelido vinha naturalmente da deficiência da fala. A gagueira, porém, nunca foi empecilho para o bom relacionamento com a clientela, do qual faziam parte pessoas influentes da sociedade. Era mulher de muitos amigos. Os fregueses tinham nela uma confidente, relatando seus problemas. Alguns vinham a tarde, para beber uísque e conversar.


Quando a Gaguinha começou a declinar, instalou-se a boate Oitenta. O nome se devia ao número da casa, Rua Governador Sampaio, 80. Era uma casa de certo nível, com luz negra, suítes e bom serviço de bar. As mulheres eram atraentes, bonitas e já não tinham restrições ou tabus.


Já nos finais dos anos 60 e por toda a década de 70 o melhor cabaré de Fortaleza era a Casa da Leila, na Maraponga. Suas mulheres eram altas, elegantes, louras naturais de olhos claros, provenientes do sul do país. Eram pessoas finas, educadas, algumas se diziam universitárias e comentavam sobre política, música popular e variedades culturais. Dentre elas havia uma mulata, belíssima, chamada Mércia, que mostrava uma carteira de estudante de Ciências Sociais da UFMG.

Até a década de 60, o lugar hoje denominado Maraponga era uma região com muitos sítios e pouca urbanização.  Da década de 70 até o fim dos anos 80, a Maraponga passou a ser local de casas de veraneio.


Leila fora a mulher de maior sucesso na Oitenta. Ali ganhara bons e generosos amigos, o que lhe permitira abrir sua própria casa. Casarão amplo, com alpendres, arcadas, grande salão com dois ambientes, confortáveis sofás, mulheres com roupas habillès, falando baixo, sorrindo. Educadíssimos também eram os garçons, todos de smoking, servindo as bebidas em bandejas de prata. Um primor. Leila, a madame, reproduziu a distinção de Margô, adaptando-se ao tempo, climatizando as suítes que contavam com banheiros de mármore e torneiras niqueladas, além das camas redondas, uma delas com o recurso da trepidação. O baronato de Fortaleza se orgulhava de contar com uma casa de tão alto nível e quando aqui aportavam cantores, jogadores famosos e artistas de TV, todos, invariavelmente, eram levados à Leila. 

Até o dia em que começou a entrar em decadência. Envelhecida, foi abandonada pelos amantes ricos e terminou por se apaixonar por um de seus garçons. O cabaré resvalou rapidamente para o fim.

Os últimos estertores dos velhos cabarés se deram nos anos 70, com o Senadorzão, Barba Azul e Motel 90. No centro instalou-se o Senadorzão, na Rua Senador Alencar. O proprietário era um sujeito simpático, mas cheio de autoridade, mantendo tudo sob controle.No centro, numa galeria que liga a Rua Senador Pompeu à Barão do Rio Branco, montaram uma boate da pesada, o Barba Azul. Lá dentro, luz negra, uísque falsificado e muitas brigas.

extraído do livro
Sábado, Estação de Viver - histórias da boemia cearense, 
de Juarez Leitão

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Fortaleza no Tempo das Pensões Alegres

Fortaleza, como todas as cidades do mundo, sempre teve prostitutas. Claro que, nos primórdios tudo era muito escondido. Nos séculos XVIII e XIX as adolescentes escravas resolviam as taras dos elementos masculinos no próprio ambiente doméstico, com a conivência silenciosa da Sinhá. Mesmo depois da escravatura as criadas continuaram a serem as iniciadoras das práticas sexuais dos rapazes de família. Muitas foram vítimas de uma macabra receita para curar blenorragia, o chamado “esquentamento”. Naqueles tempos anteriores à penicilina, corria a lenda de que, para se curar a indesejada doença venérea era preciso fazer sexo com uma virgem. Dá pra imaginar o tamanho da propagação da temida DST desde os tempos coloniais.

Há noticias de francesas e polacas que teriam desembarcado na capital, vindas do Recife e que, alojadas em sítios da Aldeota (na época, quase uma floresta) e do Benfica, serviam a certos figurões da sociedade. Depois que envelheciam, recebiam qualquer um por qualquer preço.

sobrado onde funcionou a Pensão de Dona Amélia Campos 
(foto Fortaleza em Fotos)

 Nos anos 40, na Pensão da Amélia Campos, chegou uma francesa que não falava nada de português. Como a função dela não era propriamente falar, o idioma não seria empecilho. Um comerciante rico, foi abordado pela francesa nestes termos – “voulez-vous coucher avec moi?” O homem se apavorou com o que entendeu como proposta estranha e foi comunicar a um amigo, professor do Liceu:
 – esta francesa é doida, me perguntou “se eu sei fazer a cocheira velha miar”. O que diabo é isso? O professor se aproximou da mulher e esta repetiu a pergunta, que foi rapidamente traduzida pelo professor como “você quer dormir comigo?” 

O Palacete Guarani acolheu uma das mais famosas pensões de Fortaleza, a Boate Guarani (foto Fortaleza em Fotos)

Mas a maioria das mulheres que exerciam o meretrício era prata da casa, as filhas de sertanejos, expulsas do interior pelas secas e privações de toda sorte.A reação das senhoras do lar era veemente. Todas se benziam e faziam um ar de repugnância quando se referiam às “mulheres do mundo”, as “decaídas”. As próprias prostitutas assumiam sua lastimável condição, usando expressões como “quando eu me perdi”, “fulano me fez mal”.

Outras mudavam de profissão, talvez pela melhor remuneração, ou pela menor dificuldade no trabalho. Foi o caso da mulher que um dia  encontrou na feira, sua ex-empregada, Graça. Apesar de ter notado a maquiagem carregada e a saia muito curta, não se apercebeu de sua nova profissão, cumprimentando-a com carinho. Mas Gracinha resolveu aproveitar a oportunidade de reencontrar a patroa para mandar um recado para o ex-patrão: Dona Maisa, diga ao seu marido, que eu agora virei puta. Mas lembre a ele que, lá no cabaré não me conhecem como Graça, não. Meu nome lá é Pirrita. 

 Painel recuperado durante a reforma do sobrado Dr. José Lourenço, na Rua major Facundo. Herança do tempo em que o sobrado abrigou a Boate Marajó na década de 1950. (foto Fortaleza em fotos)

Quando ocupou a chefia de polícia, ainda nos anos 30, o capitão Cordeiro Neto procurou tirar as meretrizes das ruas, que não puderam mais pegar clientes no centro da cidade. Os cidadãos abastados, trabalhando em causa própria, conseguiram uma solução para o problema: as mulheres de melhor aparência se instalariam discretamente no Centro, nos altos dos velhos sobrados das ruas Major Facundo e Barão do Rio Branco. É que esses velhos casarões, antigas residências dos barões do final do Século XIX e começo do Século XX tinham sido desocupados quando, a partir dos anos 20, Fortaleza sofrera a primeira grande mudança espacial, com o surgimento dos bairros do Benfica, do Jacarecanga e da Praia de Iracema. Para lá se mudaram as famílias ricas e seus antigos solares viraram casas comerciais. Mas o comércio só ocupava o térreo, ficando os altos vazios. Quando do Decreto do chefe de Polícia, surgiram arrendatários para esses sobrados e ali foram montados os cabarés. 

Rua General Sampaio na descida de acesso ao Curral das Éguas 
(arquivo Nirez)

  Por outro lado as raparigas em fim de carreira, velhas e desdentadas, foram situadas num gueto infame conhecido por Curral das Éguas, numa larga faixa de terra que compunha o Arraial Moura Brasil e que começava logo abaixo da Ladeira da Misericórdia, tomando toda a área do Morro do Moinho e grande parte da Avenida Leste Oeste. Era um amontoado de casebres desalinhados em inúmeros becos infectos, e certamente, perigosíssimos. O velho Curral, no entanto, consolava as vontades dos amantes humildes, soldados, estudantes lisos, vendedores ambulantes, carregadores, velhinhos de minguada aposentadoria e desocupados em geral.

Rua Franco Rabelo, na zona de baixo meretrício (Nirez)
O cabaré é normalmente, um lugar onde se dança e bebe, uma casa noturna onde se assiste a espetáculos de variedades. Nas décadas de 40, 50 e 60 as casas que em Fortaleza, mais se aproximavam da ideia de cabaré, pois além da prostituição ofereciam a diversão artística, eram a América, a Império, a Monte Carlo, a Nena, a City, todas localizadas na Rua Barão do Rio Branco. A Ubirajara, a Estrela, a Fascinação, ficavam na Rua Major Facundo. A Amélia Campos, na Rua Pedro Borges; a Olímpia, na Rua Senador Alencar, a Cristalina na Rua Floriano Peixoto e a Casa de Mme. Nininha, na Rua Castro e Silva. 

O fato dos cabarés ficarem nos altos dos prédios, atendia à questão do isolamento das profissionais do sexo da chamada sociedade regular. Uma ocorrência do final dos anos 30, explica a origem de famosa expressão ainda hoje corrente em Fortaleza. Uma das lojas da Rua Floriano Peixoto sofreu um incêndio em plena manhã de sábado. Nos altos do sobrado havia uma pensão de mulheres. As inquilinas, que tinham trabalhado até de madrugada, ainda dormiam quando começou o alvoroço na rua. Populares tentavam apagar o fogo com baldes d’água, enquanto as chamas subiam perigosamente, já ameaçando o sobrado. As mulheres, despertadas pelos gritos da multidão, do alto das janelas, pediam socorro, braços erguidos, descabeladas, ainda em seus trajes de dormir, gritavam no maior desespero: salvem a gente pelo amor de Deus!!! .Foi quando um gaiato, numa explosão de sadismo, gritou da rua: “Queima Raparigal”  

  
A Rua Barão do Rio Branco com seus inúmeros sobrados. Quando os proprietários se mudaram do Centro, os casarões ficaram disponíveis para o comércio de dia e para as pensões à noite. (postal antigo)

Nos altos do Palacete Guarani (na foto acima, o prédio com telhado inclinado), construído no início do século XX, funcionou a partir dos anos 50, a Boate Guarani, uma grande casa de espetáculos. Promovia festas especiais em que as mulheres eram praticamente uniformizadas, pois embora com modelos diferentes, seus vestidos naquela noite tinham a mesma cor. No aniversário da madame era o Baile azul. Mas tinha no decorrer do ano tinha o baile vermelho, o cor-de-rosa, e assim por diante. 


extraído do livro
Sábado, estação de viver - histórias da boemia cearense,
de Juarez Leitão 

   

terça-feira, 14 de maio de 2013

Em Nome da Moral e dos Bons Costumes

Rua Barão do Rio Branco, a antiga Rua Formosa

Na década de 1940, as pensões alegres situavam-se no centro da cidade, de preferência no andar superior de velhos casarões, vizinhos ou próximos a casas comerciais. A polícia realizava rondas frequentes nas ruas mais procuradas pelos boêmios. 
Para os de mais recursos, havia os motéis ambulantes  com os carros de praça, os automóveis dos postos Mazine, Vitória, Nove e Pará, da Praça do Ferreira.  Mediante pagamento de uma boa gorjeta, os motoristas levavam os casais à Praia do Futuro, então sem asfalto e sem risco de assalto. Ficavam fumando, sentados numa pedra, num monte de areia contando as estrelas no céu, enquanto o banco traseiro do carro servia de quarto de motel. Era incômodo, as moças ficavam “faladas”, mas ninguém deixava de namorar por causa disso.  A polícia agia com frequência no contraditório combate à prostituição, que não podia nem seria compensador extinguir.
Além do mais “a caça” era dirigida aos desregrados, aos alcoólatras, e às mulheres tuberculosas. Na Coréia, um dos bairros miseráveis localizados na Volta da Jurema, situavam-se vários cabarés,  um deles, chamado de ”coaça”, estava localizado bem próximo aos grandes clubes e a belas residências. Ali na Coréia, em casas toscas habitavam mundanas, maconheiros, ladrões e criminosos “procurados”. 

 a desaparecida Rua Franco Rabelo, zona de prostituição no Arraial Moura Brasil

Em outros bairros da periferia, aumentavam as reclamações contra os prostibulos. Em Porangabuçu e no Campo do Pio também residiam mulheres suspeitas, que costumavam ser apanhadas por rapazes em automóveis, muitas vezes dirigindo embriagados. O Arraial Moura Brasil representava uma das zonas perigosas, bem próximo ao centro, onde crianças e adolescentes conviviam com prostitutas.  Calculava-se em cerca de 800 prostitutas  no bairro, também conhecidas como as 'mulheres do curral", onde a água escorria pelo calçamento e poucos casebres dispunham de sanitários. 
Nas proximidades do Estádio Presidente Vargas, na Rua Marechal Deodoro, as casas suspeitas animavam as noitadas de pândega, gerando protestos contra a gritaria e a bebedeiras, com as mulheres em trajes inadequados. No Cercado Zé Padre, nas ruas desertas e escuras, também se encontravam mocinhas prostituídas.  

 Carro de Polícia, chamado popularmente de "Madalena"
Em 1947 anunciou-se uma medida saneadora. O secretário de Polícia comprometeu-se a sanear moralmente o trecho central da cidade que servia de zona livre. A intenção de transferir a prostituição para locais distantes do Centro, apesar de ser prioritária, foi sendo protelada pelas circunstâncias problemáticas que envolviam diferentes opiniões e ameaçavam uma segura fonte de renda para seus agenciadores.  Na surdina, as autoridades policiais tinham um pacto com o meretrício. Enquanto isso, em quarteirões inteiros das ruas do Centro, como a Barão do Rio Branco, Major Facundo,  Sena Madureira, Pessoa Anta e na vizinhança dos clubes elegantes, pontilhavam as alegres pensões.


Rua Floriano Peixoto, início do século XX
 
Até as tradicionais retratas, que anteriormente representavam um dos principais meios de animação popular, realizadas em praça pública, iam perdendo seu significado, pois afetavam os interesses e a tradição das "boas famílias". Em 1948 tentou-se reativar as retretas do Passeio Público, mas as recatadas senhoras sentiam-se inseguras na outrora concorrida praça, em razão da vizinhança de cabarés e casas suspeitas.   
Até mesmo as casas populares mantidas pela Legião Brasileira de Assistência (LBA) eram denunciadas por serem  utilizadas por meretrizes que recebiam proteção de pessoas de recursos. A resposta da LBA aos ataques agravou a situação, decidindo vender as casas e lançando diversas famílias ao desabrigo.  A Delegacia de Ordem Política e Social organizou uma campanha contra o meretrício, mas o próprio jornal defensor da medida em defesa da moral pública (O Nordeste), reconhecia os exageros cometidos.

 Nas proximidades do velho farol do Mucuripe, instalou-se uma das principais zonas de prostituição de Fortaleza (foto do blog)

Em 1952, na zona portuária do Mucuripe cerca de 600 mulheres foram ameaçadas de despejo pela Secretaria de Polícia, pois algumas famílias exigiam a transferência dos prostíbulos pra outros locais. 
A decantada defesa da moral pública, o combate à prostituição e malandragem criou um clima de medo constante nos bairros pobres. O “regime da lata”, ou seja, o trabalho gratuito e forçado dos presos em obras públicas foi uma imposição do secretário de Segurança Cordeiro Neto, que ganhou prestígio e foi eleito prefeito da cidade. 

 Rua Major Facundo, início do século XX

Conta-se que certa vez a Polícia recolheu alguns homossexuais que vadiavam pelas ruas de Fortaleza e os condenou ao “regime da lata”. Eles passaram pela Praça do Ferreira, num caminhão da polícia, rumo à tarefa que lhes fora imposta. Na Praça do Ferreira, naturalmente, levaram a maior vaia. Um dos presos, um negro alto, forte e largo como um armário, que destoava no meio dos rapazes, reagiu às vaias distribuindo “bananas” e explicando com orgulho: Não sou veado, eu sou é ladrão.


fotos do Arquivo Nirez
Extraído do texto de Gisafran Nazareno Mota Jucá
Fortaleza, cultura e lazer (1945-1960)
Publicado no livro Uma Nova História do Ceará.