sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Os Cabarés da Periferia

Os cabarés, pensões altas ou alegres – como eram chamados nos idos dos anos 1940 e 50 – eram locais de diversão garantida e bastante frequentados nas noites de Fortaleza. A maioria ficava no centro da cidade, nas ruas Major Facundo, Floriano Peixoto, Barão do Rio Branco e arredores, e funcionavam em antigos casarões, nos quais as pensões ocupavam o andar superior.  Esses antigos casarões eram sobrados em que durante o dia, funcionavam estabelecimentos comerciais no térreo, e à noite, o andar superior tornava-se ponto de encontro dos amantes da diversão, da boemia, da música e da companhia de belas mulheres.

Sobrado do Barão da Ibiapaba, na esquina das ruas Major Facundo e Senador Alencar, onde, nos altos, funcionou durante  muitos anos, a famosa Pensão Ubirajara 

Quando o General Cordeiro Neto foi eleito prefeito de Fortaleza (1959-1963), proibiu a venda de bebidas no centro depois da sete da noite, bem como as orquestras depois das dez. A rigorosa medida, foi respondida com o deslocamento dos cabarés para os bairros. Os que permaneceram no centro passaram a adotar a música eletrônica, as radiolas e as máquinas de ficha. 

 Prefeito Manuel Cordeiro Neto (1959-1963) 

Surgiram assim as boates da periferia. A mais importante delas foi a Margô, casa de diversão que se instalou primeiro na chamada “mata da Aldeota”, à altura da atual Avenida Desembargador Moreira. Depois no bairro Cachoeirinha, que corresponde hoje aos bairros São Gerardo e Parquelândia. Sua casa era frequentada pelo que havia de melhor da representação da boemia da cidade (juristas, deputados, comerciantes, radialistas, jornalistas). Era um lugar distinto, onde todos se sentiam seguros e respeitados. Não havia roubo, ou violência ou palavrões.

O Cabaré da Santa (Maria Santa Pereira) ficava no Benfica, na Rua Francisco Pinto, por trás do Dispensário dos Pobres. Suas “meninas” vinham de outros Estados e eram muito disputadas porque começaram a inovar as técnicas da prostituição de Fortaleza, com práticas sexuais antes nunca vistas por estas plagas. As novidades sexuais foram duramente condenadas. Como a cidade era pequena, a sociedade terminava tomando conhecimento dos que praticavam “estranhezas” nos cabarés.

 A famosa Casa do Português também acolheu um cabaré: a Boate Portuguesa 

A Casa de Natália estava localizada na Avenida João Pessoa e o seu público era, predominantemente, homens de meia-idade. A proprietária, conhecedora das fantasias e dos fetiches, recrutava mulheres novas e as vestia como estudantes, com fardas da Escola Normal e do Colégio da Imaculada Conceição. Ensaiava gestos e modo de falar, imitando a voz infantil e as meninas usavam tranças. 

Também na Avenida João Pessoa funcionou na conhecida casa do Português, a boate Portuguesa, de pouca duração. Era bem frequentada e fingia ser um ambiente familiar. Apesar de ter seu próprio elenco de mulheres, os clientes podiam chegar já acompanhados. As acompanhantes eram profissionais, as denominadas “garotas de programa”.

A Gaguinha também era famosa. A casa de Irinete Cabral ficava nas Damas ou Vila Damasco. Seu apelido vinha naturalmente da deficiência da fala. A gagueira, porém, nunca foi empecilho para o bom relacionamento com a clientela, do qual faziam parte pessoas influentes da sociedade. Era mulher de muitos amigos. Os fregueses tinham nela uma confidente, relatando seus problemas. Alguns vinham a tarde, para beber uísque e conversar.


Quando a Gaguinha começou a declinar, instalou-se a boate Oitenta. O nome se devia ao número da casa, Rua Governador Sampaio, 80. Era uma casa de certo nível, com luz negra, suítes e bom serviço de bar. As mulheres eram atraentes, bonitas e já não tinham restrições ou tabus.


Já nos finais dos anos 60 e por toda a década de 70 o melhor cabaré de Fortaleza era a Casa da Leila, na Maraponga. Suas mulheres eram altas, elegantes, louras naturais de olhos claros, provenientes do sul do país. Eram pessoas finas, educadas, algumas se diziam universitárias e comentavam sobre política, música popular e variedades culturais. Dentre elas havia uma mulata, belíssima, chamada Mércia, que mostrava uma carteira de estudante de Ciências Sociais da UFMG.

Até a década de 60, o lugar hoje denominado Maraponga era uma região com muitos sítios e pouca urbanização.  Da década de 70 até o fim dos anos 80, a Maraponga passou a ser local de casas de veraneio.


Leila fora a mulher de maior sucesso na Oitenta. Ali ganhara bons e generosos amigos, o que lhe permitira abrir sua própria casa. Casarão amplo, com alpendres, arcadas, grande salão com dois ambientes, confortáveis sofás, mulheres com roupas habillès, falando baixo, sorrindo. Educadíssimos também eram os garçons, todos de smoking, servindo as bebidas em bandejas de prata. Um primor. Leila, a madame, reproduziu a distinção de Margô, adaptando-se ao tempo, climatizando as suítes que contavam com banheiros de mármore e torneiras niqueladas, além das camas redondas, uma delas com o recurso da trepidação. O baronato de Fortaleza se orgulhava de contar com uma casa de tão alto nível e quando aqui aportavam cantores, jogadores famosos e artistas de TV, todos, invariavelmente, eram levados à Leila. 

Até o dia em que começou a entrar em decadência. Envelhecida, foi abandonada pelos amantes ricos e terminou por se apaixonar por um de seus garçons. O cabaré resvalou rapidamente para o fim.

Os últimos estertores dos velhos cabarés se deram nos anos 70, com o Senadorzão, Barba Azul e Motel 90. No centro instalou-se o Senadorzão, na Rua Senador Alencar. O proprietário era um sujeito simpático, mas cheio de autoridade, mantendo tudo sob controle.No centro, numa galeria que liga a Rua Senador Pompeu à Barão do Rio Branco, montaram uma boate da pesada, o Barba Azul. Lá dentro, luz negra, uísque falsificado e muitas brigas.

extraído do livro
Sábado, Estação de Viver - histórias da boemia cearense, 
de Juarez Leitão

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