domingo, 6 de dezembro de 2015

As Lojas Antigas: quando a cidade cabia no Centro


Os antigos comerciantes de Fortaleza mantinham atividades ecléticas. O lojista podia na mesma loja ter um balcão elegante, e atrás, um outro, mais popular. Era o mesmo estoque, mesmos empregados, luz, custos de manutenção. Até por volta dos anos 70/80, o centro era frequentado por todas as classes sociais. Ele continua tendo uma grande vitalidade, só que essa vitalidade hoje é das classes C e D porque as classes A e B sumiram. A elite que dava o padrão à loja, à rua, que trazia a polícia para a rua, o consumidor que dava o padrão de elegância ao centro da cidade, tudo isso desapareceu. E grandes lojas sumiram junto. 

 multidão em frente a loja A Cruzeiro, em 1942

A Loja A Cruzeiro foi fundada em 1934 na Rua Guilherme Rocha, pelo comerciante Rubens Lima Barros. Vendia confecções masculinas. Naquela época não se vendia roupa pronta, até começarem a aparecer as camisarias. A Cruzeiro vendia camisas pré-acabadas, faziam uma camisa em uma hora. Tiravam as medidas e mandavam o cliente ir tomar um café no Abrigo Central, quando voltasse a camisa estaria pronta. Depois começaram a trabalhar com os ternos.  A Cruzeiro liderou o ramo de confecções durante muitos anos; foi também uma das primeiras lojas a ter um crediário em computador, feito com a IBM. Mais tarde mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco, e o proprietário criou a expressão “quarteirão sucesso da cidade”. Patrocinou na TV Ceará o noticiário das 8 da noite intitulado “Repórter Cruzeiro” . 
  
 bastante popular, a Lojas de Variedades vivia lotada de compradores
  
Havia as lojas de Romeu Aldigueri, a Lojas de Variedades e a Flama. A primeira a ser fundada foi a Lojas de Variedades, localizada na Rua Barão do Rio Branco com fundo correspondente para a Praça do Ferreira. Ia de um lado ao outro. Depois inaugurou uma sorveteria que ficava do lado da Rua Barão do Rio Branco. A loja vendia tudo, desde artigos infantis, brinquedos, até perfumaria, bijuterias... Era uma loja bem popular, que durou quase 30 anos.

o prédio da Casa Sloper, foi mais tarde ocupado pela Flama

Lá pelos anos 40/50,  uma das lojas mais importantes de Fortaleza era a Casa Sloper, que integrava uma famosa rede nacional que tinha matriz no Rio de Janeiro. Era estabelecimento especializado  em alta moda: vestidos para todas ocasiões, lingerie, calçados, meias, luvas e chapéus, bijuterias, perfumaria e cosmética etc.  A Casa Sloper era tão sofisticada que causava inibição a muita gente, salvo às senhoras muito elegantes, já habituadas à frequência a estabelecimentos comerciais de alto luxo, inclusive, às matrizes, na então Capital Federal, o Rio de Janeiro, onde o melhor acontecia.

Quando a Sloper fechou ofereceram o ponto para Romeu Aldigueri, que inaugurou a Flama, que ao contrário da Loja de Variedades, vendia artigos de luxo. O nome Flama veio da linha de perfumes White Flame, de Helena Rubinstein, que era apresentada em embalagens de luxo, com larga aceitação na época. Quanto ao nível da loja, era como se apenas tivesse sido trocado o nome e a administração, porque se as instalações passaram por leves modificações, o bom gosto permaneceu o mesmo, o requinte era velho conhecido, as vendedoras selecionadas com rigor. Precedida de grande publicidade, a Flama já foi inaugurada revolucionando. Não se falava de outra coisa na cidade e em todas as conversas o assunto era a nova loja que substituíra a sofisticada Casa Sloper. Sem televisão, o rádio era o grande veículo de publicidade daqueles tempos e volta e meia podia-se ouvir a voz insinuante e macia de Maria José Brás, na PRE-9, anunciando o slogan da nova loja: Flama – símbolo de distinção. 


Já a Aba Film foi fundada em 1934 por Ademar Bezerra de Albuquerque, que deu origem ao nome Aba Film. A firma de fotografia foi criada por Ademar para trabalhar com os filhos, Francisco (Chico Albuquerque) e Antônio Albuquerque para funcionar como Studio fotográfico, mas que acabou virando uma empresa comercial. O empreendimento cresceu a ponto de se tornar uma cadeia de lojas, com várias unidades em Fortaleza, em Sobral e em Juazeiro do Norte. Ficou com a família Albuquerque por 3 gerações, até encerrar as atividades na primeira década dos anos 2000.


A Casa das Máquinas – o maior crediário do Ceará, teve início com a razão social de “Máquinas de Costura Ltda.”, trabalhando exclusivamente com máquinas de costura, porque o seu proprietário Gontran Nascimento, conhecia bem o assunto, posto que durante muito tempo, trabalhara na Singer. Depois, com o crescimento das vendas, mudou a denominação para “Casas das Máquinas e Artigos Domésticos Ltda.” Vendia então além das máquinas de costura, geladeiras Brastemp e Cônsul, pianos Essenfelder, móveis, brinquedos, roupas e peças para máquinas de costura. Dizia-se que tudo que a sociedade quisesse adquirir, a Casa das Máquinas vendia. Gontran Nascimento logo compreendeu a importância da propaganda para o negócio. Aí surgiu o “repórter Alfa”. A casa das Máquinas foi pioneira nesse tipo de propaganda veiculada no rádio e na televisão. Com a redução do sistema de crediário em virtude da inflação, e com o falecimento do proprietário em 1985, a Casa das Máquinas foi desativada. 

A Cearense tinha o slogan “A casa que cresce diminuindo os preços” e muita freguesia, sobretudo as mulheres da alta sociedade. O atendimento era diferenciado. As clientes sentavam, eram oferecidos cafezinho, sucos e lanches e as compras eram entregues em suas respectivas residências. Funcionou inicialmente na Praça do Ferreira, depois mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco. A Cearense foi pioneira nesta rua ao levar o comércio para lá, seu fundador Aprígio Coelho, foi cobrado pelos outros lojistas que profetizavam: você vai quebrar, como é que se concebe uma loja fora da Praça do Ferreira! Em 1968, quando a loja completou 50 anos de existência, Aprígio Coelho de Araújo vendeu seu tradicional estabelecimento ao grupo pernambucano Lundgren Tecidos, que fechou A Cearense para colocar mais uma Loja Pernambucanas.



O Grupo Romcy comandou uma das maiores lojas de departamentos de Fortaleza, o Romcy Magazine. Diariamente fazia uma promoção chamada “o Barato do Dia Romcy” que era anunciada pela televisão, no intervalo do Jornal Nacional, e lotava a loja no dia seguinte.
As atividades comercias da família Romcy começaram em 1948 com a firma Jacob Elias e Filho onde vendiam miudezas. Mais tarde passou a ter várias filiais com nomes fantasias diferentes como, as lojas “A Capital”, “Magazine Sucesso”, “Casa Vênus”,  “Romcy Perfumaria”, “Romcy Magazine”, e por fim a “Super Loja Romcy”. Em 1962, com a morte de Jacob, as lojas foram unificadas com a razão social de “Romcy Comercio e Indústria S/A” e estavam sob a responsabilidade de seus filhos José e Antônio Romcy que partiram para unificar as atividades do grupo.

Em 1990 o grupo empresarial pediu concordata preventiva alegando dificuldades financeiras decorrentes do malogrado Plano Collor, e do aumento da inadimplência de seus clientes. Por volta de 1993, com apenas uma loja em funcionamento, a empresa teve sua falência decretada.


A Mesbla em Fortaleza foi inaugurada em 1974, na esquina das Ruas Barão do Rio Branco com São Paulo, para depois se transferir para a loja da Rua Senador Pompeu com duas frentes, para as ruas Senador Pompeu  e  General Sampaio. Inaugurou uma segunda loja em 1982, no Shopping Center Iguatemi. De origem francesa, a Mesbla foi um gigante no comércio varejista. Atravessou períodos de grandes dificuldades na década 1990, com as lojas esvaziadas de produtos e de clientes. Em 1999 teve sua falência decretada.

A Samasa – Sebastião Arrais Magazines S/A foi uma grande rede de lojas de departamentos com cerca de 10 lojas amplas do tipo departamentos. Vendiam roupas, perfumes, eletrodomésticos, móveis, brinquedos e possuía lanchonetes em todas as lojas que eram bastante movimentadas. Suas lojas principais estavam localizadas no centro, nas Ruas Barão do Rio Branco,  Senador Pompeu, General Bezerril, e uma loja com três frentes, para a Rua Major Facundo, Rua Liberato Barroso e Rua Barão do Rio Branco destruída por um incêndio em 1989. A cadeia de lojas acabou fechando na década de 90.
A rede de lojas Paraíso surgiu na primeira metade da década de 80 com uma loja na Rua Solon Pinheiro com Duque de Caxias. No início vendiam colchões, mas logo depois passaram a comercializar moveis e eletrodomésticos. Em 1998 a Paraíso possuía 55 pontos de venda no Nordeste, localizados nos Estados do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, empregando em torno de mil funcionários, além de um amplo centro administrativo e depósito em Parangaba e uma frota de cerca de 40 caminhões para entrega.
A Lojas Paraíso funcionou durante 13 anos, com enorme popularidade. Em 1991, depois de uma grave queda nas vendas em razão da situação econômica do país, a empresa fechou as portas, deixando cerca de 1700 desempregados. A falência oficial foi decretada em 30 de novembro de 1999. 

Além desses, muitos outros estabelecimentos de grande porte, tornaram o centro de Fortaleza um atrativo polo de compras e lazer, como as Lojas irmãos Damasceno, Carvalho Borges, Lojas Vesil, Gustavo Silva, Camelo Modas, Pernambucanas e muitas outras.  

  
 Fontes:
Memória do Comércio Cearense, de Cláudia Leitão
Diversas obras de Marciano Lopes
fotos dos livros Memória do Comercio Cearense, Ah, Fortaleza! e diversos jornais 



32 comentários:

Anônimo disse...

as lojas paraíso eram um inferno.os produtos se desmontavam dentro das caixas e pra trocar era um martírio.alguns pulavam o muro do cemitério da Parangaba(o depósito era ao lado) e pulavam nas covas pra não dar um tiro no gerente.

Rafael de Lima disse...

Parabéns pela matéria. Foi bom recordar um pouco a história comercial de nossa cidade.

Ritinha disse...

Faltou a Lobras.

Vinicius Estevam disse...

Gostei da matéria,foi um mergulho na história da Fortaleza dos tempos idos.

Vinicius Estevam disse...

Gostei da matéria,foi um mergulho na história da Fortaleza dos tempos idos.

Unknown disse...

Ótima matéria! Não tinha noção do passado econômico da minha cidade.

Amaury Feitosa disse...

Bela matéria, faltou falar da Lobrás, Rouvani, Ocapana e do incomensurável Xepinha, valeu revermos uma cidade linda, maravilhosa e inesquecível.

Ivanberto Pires disse...

Só a título de informação complementar, a rede de lojas SAMASA, possuía 42 lojas, sendo 22 só em Fortaleza.Sua loja conceito, ficava no IGUATEMI, onde hoje funciona o EXTRA.Fui um dos últimos a sair da empresa antes de falir, e levei comigo uma enorme experiência profissional.

Roberto Vieira disse...

A Christmas também é dessa época. Foi fundada em 1929.
Por muitos anos funcionou no Centro.
A empresa ainda existe e criou um museu interno com relíquias antigas.
Na página do facebook disponibiliza alguns desses documentos e fotos antigas:
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.208333479290295.1073741837.117521225038188&type=3

Anônimo disse...

Muito boa postagem! Conheci quase todas, desde a infância à juventude, menos a Sloper, deveria ter elencado a casa Parente, famosa e bonita, na esquina da Guilherme Rocha com a Barão do Rio Branco; quanto ao ano de fundação da Mesbla, penso que precisa de uma ressalva: lembro que em 64, eu tinha nove anos, meu pai comprou lá, um rádio Semp. Parabéns, vivi boas recordações.
José Walden

Bruna Costa disse...

ninguém nessa época usava um short tendência? kkkkk... brincadeiras à parte, essa época devia ser demais!!!

Unknown disse...

Faltou as casas venesas!

Franze de Sousa disse...

10 anos trabalhando na Mestre & Blaget (MESBLA). Bons tempos, boas lembranças!

Unknown disse...

Faltou também a loja Quatro e Quatrocentos.

Fátima Garcia disse...

caros, faltou mesmo citar muitas lojas importantes, mas é que o post ficaria muito longo. Mas estou complementando a pesquisa, e pretendo postar uma parte 2, com as lojas que faltaram nesse. Obrigada a todos pelas dicas.
abs

Silvia Carla disse...

Excelente pesquisa. Adorei recordar minha infância, adolescência e até o começo da idade adulta. Se tiver intenção de ampliar a pesquisa, quem sabe vc inclui a Pernambucanas e a Lobrás. Abraço

MAIZENA70 disse...

LEMBRO-ME COM NOSTALGIA DAS "LOUCURAS DE SETEMBRO" DE A CRUZEIRO

KVRGANIVS NOSTRATORVM disse...

NÃO SE NOTAVA MUITO AS CASTAS NAS FOTOS AS ROUPAS BRANCAS DE BOM DESENHO HOJE EM DIA É TUDO T SHIRT MAS SE NOTA LOGO UNS VESTIDOS ATÉ SUB THIS SE O PADRÃO MEDIO ANTES ERA ELEVADO HOJE EM DIA É DE MEDIO A LIMITROFE

Leonardo Nóbrega disse...

Post muito bom, principalmente para os saudosistas como eu. Gostaria apenas de fazer uma observação: A Mesbla na esquina da Barão do Rio Branco com São Paulo fundada em 1974 era a DME - Divisão de Máquinas e Equipamentos. Trabalhei lá. A da General Sampaio/Senador Pompeu já existia antes dessa. Abraços.

Coisa da Severina disse...

Faltou uma referência a LOBRAS, com a escada rolante e a lanchonete no mezanino, point dos estudantes.

Anônimo disse...

Para copiar o testo, teclem contrl+u e editem no notepad1

Anônimo disse...

corrigindo TEXTO!!! KKKKKKKKK

Elisio Peixoto disse...

Meu pai, Vicente Martins, foi gerente das Lojas de Variedades do Sr. Romeu Aldigueri; e depois quando a Samasa comprou a rede ele também gerenciou as lojas do Sr. Sebastião Arraes. Muito legal essa matéria. Parabéns!

Anônimo disse...

Faltou o Lojão Anfisa, grande magazine do Grupo Ângelo Figueiredo, proprietário de várias outras empresas, dentre elas a Anfisauto, concessionária de veículos, e a Cibresme, que fabricava estruturas metálicas.

Simone Bezerra disse...


Ótima matéria, lembro de quase todas as lojas, não conheci a Sloper,mas tenho um mimo que meu pai deu a minha mãe, comprado quando da Inauguração da loja, exposto num móvel só de antiguidades.Havia a Loja a "IMPERATRIZ, na esquina da Barão do Rio Branco com Liberato Barroso."A Hora certa" relojoaria na Praça do Ferreira, "A Casa Pio" a melhor sapataria na época,anos depois a "Esquisita" que passou à frente.Ainda na Barão do Rio Branco a "Tipografia Minerva"fundada por meu avô Francisco Assis Bezerra, atualmente com 124 anos, é umas das firmas com mais de 100 anos existentes em nossa cidade.

Antonio Dagmar disse...

Galeria dos Rádios, Casa Bicho, Lojas Butano, A Esmeralda, Mercantil São José, Camelo Modas, Abarama, Pascoal de Castro Alves....

radialista ivandi arrais arrais disse...

TENHO UM CARINHO MUITO ESPECIAL DE SER RELEMBRADO DESSE TRABALHO TÃO IMPORTANTE
NA MAIORIA DESSAS LOJAS TIVE PRAZER DE FAZER COMPRAS .., ASSIM EU FICO MUITO FELIZ MESMO EM SABER DE TUDO ISSO DA HISTORIA ,. FAÇO UMA PERGUNTA SE NÃO FOSSE ESSA CRISE TÃO DESGRAÇADA O QUE SERIA DESSAS LOJAS HOJE ;;/////????

Jonas disse...

Lojas A Cruzeiro foi meu primeiro emprego. Me lembro que fazia o café para o Proprietário e era Nescafé. Ainda hoje tomo nescafé!!! Era criança acho que tinha uns 10 a 11 anos de idade

Raimundo Mota disse...

excelente matéria olha pessoal, muitos falaram dizendo qui faltou loja tal, achei boa lembrança do Lojão Anfisa, mas ainda tínhamos, friolar quem quem a espingarda lojas granjeiro a gavea casa americana casa bicho, mas acho que ainda tem até hoje a casa bicho o café cearazinho a petromac

Raimundo Mota disse...

excelente matéria olha pessoal, muitos falaram dizendo qui faltou loja tal, achei boa lembrança do Lojão Anfisa, mas ainda tínhamos, friolar quem quem a espingarda lojas granjeiro a gavea casa americana casa bicho, mas acho que ainda tem até hoje a casa bicho o café cearazinho a petromac

Carla Fabiana disse...

Muito boa pesquisa.
Lembrei das lojas Armazéns do Sul, Tock Discos, Livro Técnico, Tipogresso, CRolim, San Michel, A Libanesa, Casa Fátima, Lojas Otoch,
Não sei suas histórias.

Anônimo disse...

Aposto que você nem ficou traumatizado por ter trabalhado na infância!