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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Tipos Populares da Fortaleza Antiga

 

Chica Pinote 

Imagem criada por IA

Foi uma dessas figuras populares que povoam as histórias da Fortaleza antiga dos anos 1920, rejeitada em público, prestigiada no ambiente privado. Chica Pinote era prostituta, morena, alta e vistosa, que morava no Beco do São Bernardo, e costumava aparecer no meio do povo, de forma inesperada. Uma dessas aparições, que causou a maior celeuma, foi numa matinê do Circo Pery, armado na Praça da Estação.

Espetáculo iniciado, a arquibancada repleta de meninos, as cadeiras ocupadas pelos adultos, quando entra aquele mulherão, com vasto chapéu emplumado, faiscante de joias, e ocupa um dos camarotes que até então estava vazio. Todo o circo crava os olhos na mulher e acompanha seus movimentos um tanto exagerados. As famílias a olham indignadas, as mais próximas do camarote, levantam-se e saem.

Chica Pinote passou os olhos cheios de desdém pelo anfiteatro e dobrou o braço no gesto característico de “dar uma banana”, o que desencadeou uma gritaria geral. As famílias vão fazendo uma retirada em massa, e o diretor do circo reclama a presença da Polícia, que a muito custo consegue levar para fora a causadora do tumulto, a qual ameaça o delegado com o guarda-sol de rendas, empurra os soldados, e protesta aos gritos: - paguei o camarote com o meu dinheiro, que é igual ao dos outros! Não saio porque não quero!

O delegado compreende a situação, mas retira à força a Chica Pinote que recebe, aos prantos, a devolução do dinheiro com que pagou o camarote, dinheiro igual ao dos outros. O espetáculo continua, mas sente-se que foi estragado de qualquer modo. Nem os artistas estão trabalhando com o mesmo gosto, nem o público está aplaudindo com o mesmo entusiasmo. As filas de cadeiras e os camarotes estão quase vazios. 

Micaela


Imagem criada por IA

Muito se fala dos tipos populares que habitavam as ruas de Fortaleza do passado, homens meio loucos, meio excêntricos, quase todos mendigos, que viviam da caridade alheia e causavam agitação por onde passavam. Eram importunados nas ruas, alguns reagiam com agressividade, outros pareciam nem perceber que era alvo das chacotas. Mas poucos sabem que também havia muitas mulheres nesse bloco de gente esquisita.

A Micaela era negra retinta, varapau de quase dois metros de altura, com passo de soldado alemão, vestida de preto e saia arrastando no chão. Andava nas ruas pelo calçamento e atravessava as praças sempre em diagonal. Empunhava um grosso porrete, também preto, e a cada esquina parava, olhava para todos os lados e depois seguia seu caminho.

Diziam que era homem disfarçado de mulher, que botava feitiço, mas a Micaela que causava pavor a tanta gente, era tão somente uma pobre criatura que morava sozinha em uma palhoça para os lados do Prado Velho e só saía a rua para revolver as latas de lixo em busca de comida.

Casaca de Urubu 

imagem gerada por IA 

José Cândido, conhecido pela alcunha de Casaca de Urubu, foi o cobrador de dívidas mais empenhado que essa cidade já viu. Era o terror dos caloteiros e dos maus pagadores. Quando o credor perdia as esperanças, deixava a cobrança a cargo do Casaca de Urubu, que era servidor do Tribunal de Relação, e nas horas vagas, vivia de comissões com a cobrança de contas atrasadas. 

Era infalível a intervenção de Casaca de Urubu, conta na sua mão, era conta recebida. Tinha uma lábia incrível e para ele todos os meios para fazer o devedor quitar o débito, eram perfeitamente aceitáveis; em último caso ameaçava com escândalos, com gritaria e polícia na porta.

Ficava nas imediações da Praça do Ferreira à cata de seus clientes, que fugiam às léguas quando o viam e evitavam transitar pela praça.  O cerco não falhava: chegava uma hora em que o devedor não tinha mais como fugir e tratava de pagar, porque o Casaca de Urubu ameaçava, perseguia na rua, falava alto, chamava a atenção de todas as maneiras.

O apelido veio das roupas que usava rotineiramente, fraques descartados pelos desembargadores, que geralmente ficavam enormes no homem baixinho e gorducho. José Cândido era epiléptico, e com frequência sofria ataques e caía na via pública, acometido do mal, sempre que era alvo da molecada que o perseguia, aos gritos, com o apelido que o revoltava: Casaca de urubu... bubu!

Certa vez recebeu a incumbência de cobrar determinado devedor, que não havia meios de lhe pagar apesar de todas as ameaças que costumava lançar mão. Cansado de tanto vai e vem, e em último caso, propôs ao devedor que lhe pagasse ao menos sua parte, os 50% de comissão a que tinha direito. E recebeu. Em seguida, devolveu a conta ao credor e disse-lhe sem a menor cerimônia: “aqui está a parte de sua conta que não consegui receber, sendo que, os 50% da minha comissão eu já recebi”.

A Noiva do Tempo 

imagem criada por IA

Outra personagem bastante conhecida era a Noiva do Tempo, que estava convencida de haver recebido por herança uma grande fortuna e vivia nos bancos procurando recebê-la. Contavam que a mulher havia sido abandonada pelo noivo no dia do casamento, e nas suas andanças pela cidade, usando seu velho vestido de noiva, sujo e esfarrapado,  procurava pelo noivo e delirava sobre sua imaginária riqueza. Um dia a Noiva do Tempo foi atropelada por um ônibus, no Centro, nas imediações da praça do Coração de Jesus, e levou sua busca para outras dimensões.

Manezinho do BispoO Porteiro do Palácio 

imagem da Internet

Manoel Cavalcante Rocha, vulgo Manezinho do Bispo começou a trabalhar no Palácio do Bispo no dia 1° de janeiro de 1884, aos 18 anos de idade, durante o bispado de Dom Joaquim José Vieira, e lá permaneceu até morrer, no dia 30 de julho de 1923.

Oficialmente era o porteiro do palácio, mas acabou exercendo várias funções no local. Era o primeiro a acordar, e o último a dormir, cuidava da capela, ajudava missa, atendia na portaria, distribuía esmolas aos pobres, servia refeições. Só punha os pés na rua em caso de necessidade.

Manezinho do Bispo tinha o dom da escrita, elaborava textos e pensamentos que a muitos parecia sem nexo ou sentido, mas que era motivo de orgulho do seu autor. Colaborava quase diariamente na seção “ineditoriais” do Jornal Correio do Ceará, depois reunia em folhetos os seus apreciados pensamentos, que eram ansiosamente aguardados por seus inúmeros admiradores.   

Eis alguns dos originais pensamentos do Manezinho do Bispo, que fizeram época e o transformaram em motivo de chacota na cidade.

O Passeio Público é um aprazível lugar para quem vai ali com boas intenções.

Amar sem ser amado é correr atrás de um trem e perder

O bacharel pobre que casa com moça pobre dá um tiro com a pistola do passado nos miolos do futuro.

Gostaria de ser como as borboletas: as borboletas voam e eu não voo.

Conta-se que o bispo D. Joaquim, aborrecido com a grande papelada que enchia o quarto do Manezinho, no Palácio Episcopal, chamou-o um dia e disse que queimasse aqueles folhetos. Manezinho saiu para a rua e queimou-os, vendendo pela metade do preço.Apesar do folclore em torno dos escritos de Manezinho do Bispo, muitos de seus textos são frutos de reflexões e pensamentos muito bem estruturados.

O Cangulo

Era um dos personagens mais assíduos das salas de exibição de filmes da velha Fortaleza, nome de batismo ignorado, conhecido pelo apelido de Cangulo, que ganhara nos tempos em que era aluno do Liceu do Ceará, onde cursara o primeiro ano. Popularíssimo no meio estudantil devido a feiura, um dia, resolveu largar a cidade natal e ir morar no Rio de Janeiro.  Durante muito tempo, ninguém ouviu falar dele.

Em agosto de 1909, os cinemas exibiam a reportagem do sepultamento do Presidente Afonso Pena, que falecera no mês anterior. O Pathé (primeiro cinematógrafo de Fortaleza, inaugurado em 1908, propriedade do italiano Vitor de Maio) estava literalmente cheio de estudantes, quando apareceu o Cangulo na tela, no melhor estilo papagaio de pirata, de pé por trás do cordão de isolamento dos guardas civis à porta do Palácio do Catete, quando saía o cortejo presidencial. Um grito uníssono  sacudiu a plateia:  – O Cangulo!!!

Seguiram-se estrepitosas salvas de palmas. Então, por mera coincidência, o Cangulo abriu a bocarra num sorriso sem dentes, como dirigido a seus antigos colegas. Grande aclamação abalou o cinema:  – Viva o Cangulo! Viva o Cangulo no Catete! Viva o sucessor de Afonso Pena! 

O escritor Gustavo Barroso o encontrou anos depois no Rio de Janeiro, vivendo como indigente, desiludido e acabado. Conseguiu com um amigo que o governo lhe fornecesse uma passagem de volta para Fortaleza, onde vivia seu pai, que vendia bananas na feira. Mas o Cangulo não deu sorte nesse retorno. Pouco tempo depois após uma discussão, foi assassinado a tiros de revólver por um certo Barbosa Lapada.  

Mané Coco era a alma do Café Java 

foto do Arquivo Nirez

Manuel Pereira dos Santos, vulgo Mané Coco era marmorista, e não foi só o fundador do Café Java, na Praça do Ferreira, ele era a alma do lugar, o que dirigiu e imortalizou o estabelecimento. Estava sempre de branco, de chapéu de palhinha e uma rosa no peito. Mané Coco era o bombeiro voluntário de Fortaleza. Sentiu cheiro de incêndio, ouviu falar de um, ele ia até lá. Carregava água para apagar o fogo; isolava os prédios vizinhos, enfiando o machado nos telhados, salvava vidas ameaçadas. Passava por cima das cumeeiras em chamas, assume os riscos, salva patrimônios. E não ganhava nada com isso.

Na rotina diária, sem incêndios, era o homem mais pacato deste mundo, e tinha habilidade para se sair de situações embaraçosas. Certa feita um grupo de cadetes da escola Militar, famosos pelas arruaças que promoviam pela cidade, o ameaçaram com uma boa surra, se não lhes dessem, gratuitamente, no Café Java, um jantar de sustância. Mané Coco promete então que o jantar ser servido, um jantar de galinha, e marca dia e hora.

No dia acertado, o bando de cadetes abanca-se na mesa já preparada. Ele ordena ao seu empregado: --- seu Chico, sirva o jantar a esses meninos.

O Chico serve cerimoniosamente diante de cada convidado forçado, um prato cheio de grãos de milho. Os cadetes se entreolharam surpresos, e quando reclamaram, Mané Coco respondeu com fingida ingenuidade: - estou cumprindo a promessa. Jantar de galinha não é milho? Os estudantes acharam muita graça e deixaram-no em paz. Quando morreu, foi uma comoção. Foi para a eternidade todo de branco, com sua eterna flor na lapela.


Fontes de pesquisa: 

Coração de Menino de Gustavo Barroso

Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão

Coisas que o Tempo Levou, de Raimundo Menezes

Fortaleza Descalça, de Otacílio de Azevedo

O Consulado da China de Gustavo Barroso



terça-feira, 23 de julho de 2024

Tipos de Rua da Fortaleza de Outrora


Na Fortaleza de antigamente sempre eram encontrados alguns tipos de ruas, pessoas geralmente desprovidas de recursos e cuidados, sem suporte familiar, alguns viciados em bebidas alcoólicas, outros simplesmente abandonados à própria sorte, que apresentavam sintomas de deficiências mentais. 



Um dos mais conhecidos era o Antônio Galo Chinês, que perseguia e mostrava grande agressividade, quando os moleques, para irritá-lo, imitavam o canto de galo. A perseguição era certa, e munido de um pedaço de pau, o pobre do mendigo muitas vezes conseguia se vingar do autor da ofensa. Mas o Galo Chinês não estava sozinho, havia muitos outros: Papai-abre-o-olho; Mocó-Tinindo, Sabão-mole; Romão; Casaca-de- Urubu; Palheta.  

Não havia esgotos ou fossas, os despejos domésticos ficavam acumulados durante semanas, em barris especiais, de forma cônica, chamados de quimoas, ou cambrones, que eram retirados das casas e lançados ao mar pelo Romão e pelo Sabão-Mole. O Romão era um antigo escravo, brutalizado pela miséria. Imundo, andava meio curvado, apoiado numa bengala improvisada, rosnando palavrões por qualquer motivo. Sustenta-se de cachaça, come vísceras cruas que lhe dão na feira, misturadas com farinha. Quando pega no sono, em qualquer vão de porta, a mulher e as filhas, três negras igualmente miseráveis, que o seguem à distância, vasculham seus bolsos atrás das moedas que sobraram da aguardente.


Uma tarde ia o Romão com sua carga mau cheirosa, pela calçada da Santa Casa, rumo à rampa do gasômetro que leva à praia. De repente, o apodrecido fundo do barril de imundície cede e afunda enterrando-lhe a cabeça até os ombros. O infeliz braceja como um cego, enquanto toda a gente ao redor, foge sem coragem de socorrê-lo. As irmãs de caridade da Santa Casa, mandam os jardineiros lhe atirarem alguns baldes de água, que o salvam daquela indigna situação. Pobre do Romão! Quando não conseguiu mais trabalhar, deixaram-no viver a um canto da Cadeia Pública, onde terminou seus dias.

O concorrente do Romão no asqueroso ofício é o Sabão-Mole, mestiço alto, cuja face amarelada semelhante ao sabão amolecido na água, deu origem ao apelido. Andava em companhia de uma mulher bem mais velha do que ele, que parecia sua sombra. Um dia a mulher o abandonou, e o Sabão-Mole vagava solitário, procurando trabalho indagando nas portas das casas: – tem limpeza hoje, freguesa?

Junta-se um bando de moleque atrás dele, gritando:  – Sabão- Mole, cadê a velhinha?  E o rapaz que ninguém sequer sabe seu nome, empunha furiosamente seu cajado de jucá e grita reprimendas com palavras obscenas. É um mestre do baixo calão, conhece todo o vocabulário. As famílias retiram-se das janelas , batendo vidraças e venezianas. As vezes a polícia é chamada, mas ao invés de reprimir os agressores que o provocam, levam o Sabão-Mole aos empurrões e o trancafiam no xadrez por algumas horas. Quando atravessa a Praça do Ferreira, então um vasto areal emoldurado de árvores antigas, com um cacimbão de pedra de Lisboa ao meio e um café ou quiosque de madeira a cada canto, Padre Macaíba, sacerdote brincalhão, emboscado a um canto da Farmácia Pasteur, disfarçando a voz, faz a pergunta que tira o Sabão-Mole do sério – Sabão Mole, cadê a velhinha? – “estou reconhecendo essa voz... é do Padre Macaíba... olhe seu padre, só não digo que está na **##**@## , porque o senhor é padre. Senão, diria...”


O Casaca-de-urubu é um cabra com sangue nos olhos, valentão, contínuo do Tribunal de Relação, cobrador terrível de contas perdidas e vendedor de latas de goiabadas nas horas vagas. Veste os fraques usados que lhe dão os desembargadores, daí seu apelido. Epiléptico e perigoso, anda sempre gesticulando, murmurando coisas desconexas sobre os maus pagadores e doces de goiaba. A molecada grita de longe, precavidamente: – Casaca de Urubu! Bu! Bu!. Ele esperneia, atira pedras, dá socos em si próprio com toda a força; no auge da fúria, vem o ataque epilético, cai no chão, espumando, se machucando, às vezes sangrando.

O Palheta é alto, esquelético, de ombros levantados, e andar vagaroso. Usa um chapéu de palha sobre a testa, chupando um eterno cigarro apagado. Muito calmo, faz ponto pelas esquinas mais frequentadas do velho centro. Vive de dar calotes, de aplicar golpes, de iludir a boa-fé dos que param para ouvi-lo. Conta misérias, vende joguinhos, cartões de rifas falsas, ingressos de teatro sem valor e bilhetes corridos de loteria.

 – Palheta! Gritam os moleques e acrescentam uma rima obscena; não dá escândalo, finge que não é com ele. Muda de pouso muito sério, muito digno. Mas vai resmungando impropérios e proferindo todo um repertório de palavrões e obscenidades.

O Mocó-Tinindo mora numa casinha de taipa, à sombra de uma tamarineira no alto de um barranco, além do Benfica, na estrada da Parangaba. Ao tempo da festa de Bom Jesus, padroeiro da antiga Arronches, os bondes andam repletos de moças ou com os estribos cheios de rapazes. E estes por pilhéria, gritam quando passam pela casa, o apelido odiado: Mocó-tinindo! Ele surge à janela, faz gestos indecentes, e os xingamentos sobram para todos que estão no bonde. As moças ficam envergonhadas. Os rapazes morrem de rir.

O Papai-abre-o-olho é vítima de troça e fica tomado de fúria quando lhe gritam a alcunha, que responde com xingamentos e berros hediondos. Não se sabe a origem do apelido.

Um poeta dizia que a falta de piedade dos meninos por estes infelizes é um tanto inconsciente. Falta-lhes a educação cristã, a única capaz de imprimir às almas em formação, o sentimento de verdadeira caridade, que muita gente pensa que consiste em tirar uma moeda do bolso e dar uma esmola. Essas pobres criaturas, vítimas da pobreza, do abandono, do desdém e do desprezo, há muito repousam em paz, lá onde não ouvem mais os escárnios que tanto os faziam sofrer.


Extraído do livro “Coração de Menino” /Gustavo Barroso/Livraria José Olympio/Rio de Janeiro/1939. Post Publicação Fortaleza em Fotos/Imagens postais antigos e Arquivo Nirez. 

    

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O Náufrago Chagas dos Carneiros


Na noite de 24 para 25 de março de 1887, navegavam ao longo da costa entre Pernambuco e Paraíba, o paquete Bahia, da Empresa Brasileira de Navegação, e o vapor Pirapama, da Companhia Pernambucana de Navegação, ambos carregados de passageiros. O primeiro rumava para o Sul e o segundo para o Norte. Havia luar, o céu estava claro e o mar iluminado e calmo como um lago. A umas 35 milhas do porto do Recife, os dois barcos deveriam cruzar-se. Todos dormiam a bordo, e certamente, também os vigias e timoneiros, porque não se compreende de outra forma que as duas embarcações tenham abalroado violentamente, com as piores consequências para uma delas. 


 Porto de Fortaleza - 1910 (foto Arquivo Nirez)

 Vista da Praia de Iracema - 1914

Na versão pernambucana do sinistro, o Pirapama colidira com o Bahia, que procedia da Paraíba e destinava-se ao Recife, onde amanheceria. Reunidos no convés, e enquanto se preparavam as baleeiras para possível salvamento dos passageiros do Pirapama, viram o paquete Bahia a toda força de suas máquinas, afastar-se do local do acidente e de repente desaparecer. O exame do casco do navio pernambucano não exigira seu abandono, assim poderia voltar a Pernambuco sem risco de naufrágio. E assim o fez. Após demora de meia hora, ainda a fim de apurar o destino do Bahia, o que não conseguiu. A algumas milhas, porém, o Bahia fora a pique...

A versão cearense é muito diferente, e tudo leva a crer que esteja mais próxima do que realmente aconteceu. Está nos jornais da época e no depoimento dos sobreviventes. Foi de fato o Pirapama que abalroou o Bahia, tanto que do choque saiu quase intacto, podendo alcançar o porto do Recife algumas horas depois sem perda de nenhuma vida. No entanto, avariado na proa, o Bahia naufragaria com rapidez, os porões e a casa das máquinas invadidos rapidamente pelas águas. O que fez seu comandante, o 1° tenente Aureliano Isaque, morto no acidente junto com seu imediato Silvério Antônio da Silva, foi procurar dar toda força às hélices, na tentativa de aproximar o máximo possível, a embarcação da costa e encalhar, o que tornaria mais fácil a salvação das duzentas vidas pelas quais era responsável.


Porto do Recife (imagem Tok de História)

Os jornais do Recife deram alguns pormenores da tragédia que então, abalou o País: mais de 200 pessoas tentaram se salvar agarradas a tudo que pudesse mantê-las à flor da água... alguns conseguiram alcançar a costa, a maioria, não. Barcaças da praia de Goiana acudiram por terem visto, com o luar, o afundamento do Bahia, que tentava se avizinhar o mais possível do litoral. Talvez junto com os jangadeiros, tivessem ouvido a explosão das máquinas. Recolheram os náufragos como lhes foi possível. 

Em compensação, todos comentavam o estranho caso de cegos que se salvaram. Caso da mulher que dormia no camarote com o marido, quando ambos ouviram o estrondo e sentiram o choque. O marido subiu rápido ao convés, e ao se certificar do perigo iminente, viera busca-la. Tentaram embarcar numa das baleeiras do vapor, mas a cega, ao pular para a embarcação, erra o alvo e cai dentro d’água. Separa-se assim do marido. Ficou boiando de costas durante duas horas, quando foi resgatada por uns marinheiros que tinham se salvado em cima de uma capoeira de galinhas. Por fim, uma barcaça recolhe a todos. 


Um outro cego, que se safou do naufrágio, era o famoso Chagas dos Carneiros, sertanejo alto, magro, de olhos encovados, cabelos desalinhados sob o chapéu de palha, sempre de ceroulas apresilhadas nos tornozelos, calças arregaçadas até os joelhos e camisolão branco. Essa figura popularíssima na capital cearense, perambulava pelo Brasil inteiro a pedir esmolas. Quando desaparecia da terra natal, percorria os sertões do Maranhão, do Piauí, da Parnaíba, e de Pernambuco até o São Francisco, a pé, de vila em vila, de cidade em cidade, ou então, viajando de vapor-gaiola pela Amazônia, de paquete de carreira regular para o Rio e São Paulo. Numa dessas andanças, se achava na Bahia.

Escapou porque era bom nadador, desde a infância, nos rios e açudes do sertão. Ao pressentir o perigo, atirou-se ao mar, e depois de nadar algum tempo sem saber em que direção, aproximou-se duma boia improvisada na qual dois náufragos se agarravam.

– ceguinho, disse um deles – aqui não há lugar para você, Se você se agarrar, ela vai ao fundo com mais esse peso.

– está bem, respondeu o Chagas, não preciso dessa armação porque sei nadar bem, só quero um favor: um dos senhores me vire no rumo da praia, que eu vou bater lá. Assim fez um deles, e com o seu nado-de-cachorro, lento, mas seguro, o cego dirigiu-se para o litoral. Quase chegando, uma jangada o resgatou.

Perdera, no entanto, os seus carneiros. Andava sempre com 4 ou 6 desses animais, servindo-lhe um de guia à ponta duma corda. Os outros caminhavam à sua frente, ao seu lado ou às suas costas, em plena liberdade, fazendo tinir os chocalhos que traziam ao pescoço e cujos sons indicavam ao Chagas os seus movimentos e onde se achavam.


Rua Formosa em 1910

Chagas morava numa choupana, nas areias da Rua Formosa, na parte em que já não havia calçamento, em companhia de sua velha mãe, que sustentava com seus ganhos. Esta com anil, urucu e outros corantes, pintava os carneiros de cores vistosas: verde, vermelho, azul e amarelo. Eram eles, parte dos acessórios com que o cego ganhava a vida. Conduzia a tiracolo um saco contendo suas gaitas, e mais alguns apetrechos que usava em suas apresentações. Verdadeiro artista ambulante, sentava-se no meio fio dum passeio, logo rodeado de crianças e populares, e dava início ao espetáculo, com solos de gaita, passos de dança e muita cantoria. Por fim, os carneiros entravam em cena. O Chagas imitava o som de tiros e ia fuzilando um a um, enquanto os animais caiam e pareciam mortos. Tombado o último, o cego dava um berro: – ressuscita cambada! E a carneirada o rodeava, aos pulos, berrando de alegria. E a cuia de esmola ficava cheia.

O cego era monarquista ferrenho. Tirava o chapéu quando falava em D. Pedro II. Para ele, a República era a Lei do Cão. Serviam-lhe os carneiros para desabafo desse modo de sentir. O mais adestrado, o guia tinha o nome de Mimoso. Ele chamava o animal para perto de si, batia-lhe levemente com o bastão às costas, e começava o espetáculo: - Mimoso, como foi que o Deodoro proclamou a Lei do Cão? O carneiro empinava-se e berrava alto.

Chagas trazia numa das mãos uma vara encerada, cuja ponta untada de breu e carvão quando em contato com a calçada, produzia um barulho onde se podia perceber certas variações musicais. Com esses arranjos, que só ele sabia fazer, construiu uma típica charanga que chamava a atenção de todos. Era natural que a criançada, aos bandos, acompanhasse pelas ruas afora o cego que escapara ao naufrágio do Bahia. Chagas dos Carneiros desapareceu por volta de 1912. Foi embora e nunca mais voltou.

extraído do livro
à Margem da História do Ceará, de Gustavo Barroso 
fotos da internet e de origens diversas

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Ceará, Molecagens e Tipos Populares

Rua Major Facundo - trecho Praça do Ferreira - início do século XX

Nas primeiras décadas deste século, Fortaleza conheceu e vivenciou muitos tipos populares, figuras curiosas que desfilaram pelas páginas de cronistas da época e que fizeram parte da história jocosa do Ceará. 

A notoriedade dessas figuras singulares advinha de várias razões: uns se destacavam pelos adereços e indumentárias, outros pelas atitudes estranhas e anomalias de comportamento. Eram sempre pessoas sui generis que despertavam a atenção por suas excentricidades. Sua presença em público, era de imediato, motivo para aglomeração ou cortejos, que não raro, terminavam em aplausos ou vaias. Pessoas de destaque e molecada misturavam-se geralmente em torno desses personagens, que saíam pelas ruas e praças, passeando sua descontração, sua esquisitice. Alguns reagiam enraivecidos, coléricos, apopléticos; outros passavam sobranceiros, garbosos, indiferentes.

Orgulha-se o Ceará de três coisas que Deus lhe deu: a inteligência, o sol e a molecagem. Essa última dádiva é como que a sua filosofia de vida ”de tanto não ter pena de si mesmo em face da sina ou da sorte o homem (cearense) acaba por não ter comiseração para com o seu semelhante. De tanto testemunhar a própria dor, o homem passa a observar a dor alheia e descobrir facetas cômicas” – diz Abelardo F. Montenegro.

O Cruzeiro da Sé era o palco de um desses tipos estranhos, o  Tertuliano. O homem usando vestes talares, escalava o cruzeiro da catedral, onde se amarrava de braços estendidos, a fingir o Cristo no Calvário. Não havia jeito de tirá-lo de lá, onde permanecia horas a fio.

Foi essa concepção filosófica que popularizou vasto elenco desses vultos de rua: Chagas dos Carneiros, chapelão de palha, monarquista ferrenho, sempre acompanhado de três carneiros pintados de anilina; José de Sales, excêntrico, de jaquetão avermelhado, empunhando seu bandolim; Bem-Bem, com a garapeira, de cujo teto pendiam grotescas esculturas feitas por ele mesmo,  de quengas de coco; o negro Mestre Arcanjo, velho sapateiro, extraordinariamente trapalhão; o hilariante Chico Coruja que todo dia tinha uma anedota nova para contar; o Casaca de Urubu, gritando palavrões e se esmurrando; o De Rancho, que portava uma carabina enferrujada e se achava constantemente em pé de guerra; Capitão Pirarucu, brandindo a bengala, empregando a rima que todos já esperavam; Tertuliano, metido em indumentária de profeta, considerando-se um enviado de Deus; Fabrício, o calendário o ambulante; o mendigo Tostão; o Jararaca, o Pilombeta; o Zé Levi... 

O Zé Levi ocupava o coreto da Praça do Ferreira, onde pronunciava inflamados discursos, com palavras desconexas, que faziam a festa dos desocupados que paravam para ouvi-lo.

As mulheres também compareciam na lista das excêntricas criaturas que faziam a alegria e a festa do Ceará Moleque: Mimosa, Noiva do Tempo, Teodora, Chica Pinote, Iaiá-tem-ovos, Mucurana, Ferrugem...

Até animal, nesta terra descontraída e galhofeira, ganhou foros de popularidade: o bode Ioyô. Era uma espécie de mascote da capital, uma figura obrigatória na pacatez da cidade provinciana. Todos o estimavam. Inclusive os fiscais da prefeitura tinham recomendação para não o importunar. Perambulou imune e admirado, de 1915 a 1931. Ao morrer, teve seu necrológio estampado em jornais e seu corpo embalsamado. A cidade era pródiga em tipos populares: tinha para todos os gostos, para os da intelectualidade e os do canelau.

Manoel Cavalcante Rocha, jocosamente conhecido pela alcunha de Manezinho do Bispo, pernambucano, nascido em 12 de maio de 1856, porteiro por muitos anos do Palácio Episcopal, foi uma das figuras mais curiosas e populares da Fortaleza antiga.

Nesse cenário de irreverência e galhofa, o personagem talvez mais relevante, que desfrutou de larga popularidade por mais de 30 anos, notadamente no meio cultural, foi o Manezinho do Bispo. Vestia-se com um paletó preto-cinza de alpaca que lhe alcançava os joelhos e que deixava aparecer os longos punhos da camisa outrora branca. Nos bolsos do jaquetão, verdadeiros alforjes, folhetos e jornais. Tinha seus escritos publicados na seção Ineditoriaes, do Jornal Correio do Ceará. Quando M.C. Rocha não escreve – diziam – o jornal não vale um vintém.

A filosofia da gozação é que empurrou, com a barriga do sadismo, o Porteiro do Palácio Episcopal para a linha de frente do folhetinismo, das colunas dos jornais e dos auditórios transformando-o em figura notória.

Hoje, mudaram-se os parâmetros de julgamento em que se apoiam as pessoas para aferir popularidade. Fortaleza cresceu, e na obesidade populacional de mais de 2,5 milhões de habitantes, não há mais lugar para esse tipo de humor.


Extraído do livro
O Porteiro do Palácio (ou as estripulias literárias do Manezinho do Bispo), de Waldy Sombra