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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Carta de Rachel de Queiroz para a Miss Ceará 1955 - Emília Correa Lima

Os concursos de miss no Brasil, anuais e sistematicamente organizados tiveram início em 1954, com a eleição da baiana Marta Rocha, e de imediato, caíram no gosto da população, tornando-se bastante populares. A partir de 1955, a organização do concurso passou a responsabilidade do grupo Diários Associados, com transmissão e cobertura da rede Tupi. Acabou se tornando o segundo evento mais assistido do país, atrás apenas dos jogos da Seleção Brasileira de Futebol.





No concurso do ano de 1955, a cearense de Sobral, Emília Barreto Correa Lima foi eleita Miss Maguary, Miss Ceará e Miss Brasil, recebendo a faixa das mãos de Marta Rocha.  Emília recebeu elogios da escritora Rachel de Queiroz, que lhe escreveu uma longa carta, e era musa do jornalista Millor Fernandes. Ela representou o Brasil no concurso de Miss Universo, ficando no Top 15 mundial.

  



Minha flor: 

         

Quando esta carta sair impressa você talvez já esteja a caminho da América, para a disputa do grande título. É que eu ando por longe, metida no sertão da sua e minha terra, o que dificulta a rapidez das comunicações; mas palavras de amor nunca são demais nem tardias, e são justamente palavras de muito carinho que lhe posso dizer.

          

Faz algum tempo que não a vejo. A última vez foi em sua casa – você e Iaci, de saída para um cinema, creio, se entremostraram rapidamente na porta da sala, para se fazerem apreciar pela “tia” que chegava de viagem. E reparei logo nessa sua esbelteza de galgo ou de garça, que é talvez o maior dos seus encantos. Nesta nossa terra de brevilíneas, você, longilínea perfeita, é uma maravilhosa exceção.


Porém, em lugar da sua beleza e da beleza de sua irmã, igualmente tão linda, o que a família quis comentar foram os seus triunfos de estudiosa, tão de acordo com as tradições dos Barreto e dos Corrêa Lima; as famílias sofrem essa preocupação de subestimar a beleza das suas moças. Têm medo de que elas fiquem por demais vaidosas, que percam o amor da virtude e dos estudos, pelo amor da bonita cara e do bonito corpo.

          

Felizmente, minha querida Emília, você não se deixou iludir pelas boas intenções dos de casa, e ao invés de tratar apenas de estudar, não se despreocupou de ser bonita. Teve a inteligência de dar valor a esse dom sobre todos os dons, que é a beleza. Sim, não acredite nunca quando lhe disserem que beleza é um acidente que não tem valor, que não dá felicidade, que mais vale inteligência etc. Isso são chavões nascidos do desejo e da necessidade de consolar os feios. Uma bela mulher é uma perfeita obra de arte. Seja bonita com orgulho, com tranquilidade, com segurança; cuide bem do seu rosto e do seu corpo, pois nada neste mundo vale mais do que a beleza.


Quando eu tinha a sua idade, recebi um prêmio literário. (Recordo isso porque seu pai, então no Rio, no entusiasmo fraternal pela estreante, foi o meu melhor eleitor.) Pois, querida, não esse modesto prêmio, destinado a estimular uma principiante, mas todos os prêmios literários deste mundo, até o Nobel, eu o daria de bom-gosto para ser bonita como você o é.

          

Eles dizem que não há mérito em ser bonita. Claro. Como não há mérito em ser inteligente, nem em ter bom caráter, nem em ser um gênio musical, nem um maravilhoso poeta. Manuel Bandeira, que foi um dos seus juízes, já nasceu com o dom divino; e com ele nasceu o seu poeta predileto, Carlos Drummond de Andrade. Tudo são dons, dons gratuitos, que se recebem da fonte de todos os dons. Valerão eles menos por isso? E a beleza, entre os dons, é o mais alto de todos: o maior elogio que se pode fazer a uma realização, a uma paisagem, a um poema, é dizer que são belos. Porque a beleza é a coroa que os completa.

 

Nem a virtude se concebe sem beleza, nem a divindade. Não só os deuses dos pagãos eram belos: a própria Igreja, dentro da sua austeridade, pinta os santos formosos. Alguém poderia imaginar Nossa Senhora feia? E Cristo, se viesse ao mundo na figura de um homem malformado, não seria até uma profanação? Vi outro dia o retrato autêntico de Santa Teresinha no seu leito de morte: era uma mulher de feições severas, nariz forte, rosto descarnado e precocemente envelhecido. Mas a hagiografia oficial jamais permitiu que a reproduzissem assim e, em todas as imagens do culto, Santa Teresinha nos é apresentada como uma jovem de angélica beleza. (E digo angélica, porque os anjos são também padrões de formosura). Por que isso? Não será por frivolidade que a Igreja assim se empenha em tornar seus santos; será antes porque, com o seu profundo conhecimento do coração humano, sabe que a beleza atrai o amor e a devoção. Porque a beleza é como um selo de Deus.

         

Filha de uma mulher muito linda, sempre adorei a beleza de minha mãe. Contam os de casa que um dia – eu teria uns seis anos - ela me pôs de castigo por motivo que me pareceu imerecido. E ao jantar, horas depois, ainda zangada com a injustiça, eu disse, encarando-a: “Só fico morando aqui porque você é bonita. Se você fosse uma mãe feia, eu fugia de casa”. Ela era também muito inteligente, mas, agora que a perdi, o que mais lembro da infância, da mocidade, de todos os tempos em que vivemos juntas, é aquele rosto formoso, que enchia a nossa casa como uma luz. E ao escrever estas palavras, sinto uma saudade tão grande, parece que uma coisa rebenta dentro do meu peito, e talvez eu não a tivesse amado tanto se ela não fosse tão linda. Nós nos orgulhávamos daquela beleza como de um tesouro de família, e a condição de seus filhos nos parecia um privilégio. Para nós era uma rainha.

          

Você foi escolhida a mulher mais bela do Brasil. É um grande título, não acredite em quem lhe deprecie o valor, nunca desdenhe o seu dom maravilhoso. Todos lhe queremos bem por isso, lhe somos gratos por ter nascido e se criado tão bonita, nos orgulhamos de você. Se na América não lhe derem o título máximo, é porque os cegos são eles. Não viu que no ano passado, em lugar da nossa radiante Martha Rocha, prefeririam aquela pequena escocesa de lábios finos?

          

Aqui ficamos, numa ansiosa torcida. Mas, volte você ou não com a faixa atribuída a Miss Universo, de qualquer forma será a nossa Miss; a única que nos agrada e igualmente nos encanta, Emília Barreto Corrêa Lima, a Miss Maguari, a Miss Ceará, a Miss Brasil.

  

Rachel de Queiroz



terça-feira, 25 de agosto de 2020

Califórnia, Quixadá, Ceará

imagem Iphan

O Distrito de Califórnia fica em Quixadá, sertão central do Ceará. O surgimento do distrito tem origem na Fazenda Califórnia fundada por Miguel Francisco de Queiroz, que foi durante muitos anos, a fazenda mais importante do município. A propriedade rural desenvolveu-se, e ao seu redor surgiu um pequeno povoado formado por casas de escravos e outros agregados além de uma capela dedicada a São Francisco de Assis, o que fez com que o lugar passasse a ser chamado de São Francisco da Califórnia, considerado o padroeiro do distrito. 
Em 1882, a Fazenda Califórnia passou, através de doação, para Arcelino de Queiroz Lima. Arcelino deixou grande descendência e, entre os seus filhos, está Daniel de Queiroz Lima (1886-1948), advogado e professor, pai da Escritora Rachel de Queiroz).
O distrito de Califórnia consta nos primeiros registros de divisões administrativas de Quixadá já em 1911 com o nome de São Francisco da Califórnia. Em 1920 passou a ser chamado novamente apenas de Califórnia. A escritora Rachel de Queiroz, descendente de Arcelino, conta sua versão da origem e da evolução da propriedade.  A Fazenda Califórnia foi desapropriada em 1985. 

A Fazenda Califórnia
(crônica de Rachel de Queiroz)

imagem: facebook

A Fazenda Califórnia era “um condado”, conforme se dizia pelo sertão em redor. Foi nos começos da era de 1850 que o velho Miguel Francisco de Queiroz, meu tio-bisavô, senhor de muitas terras entre o Sitiá e o Choró, no Quixadá, resolveu diversificar da sua criação de gado crioulo, o chamado pé-duro. Afinal, era dono de uma boa data das famosas croas de aluvião, na ribeira do Choró: assim, a umas 500 braças da barranca do rio, situou fazenda nova, disposto a tentar a sorte na folha da cana.

Quem decidiu o local da sede foi o açude, alimentado por dois grandes riachos. A barragem se levantou pela mão dos negros – terra puxada em couro de boi, aguada, batida a malho. O grande prato d´água ainda lá está hoje, serenando.

Em terreno plano, o cavaleiro do vale do sangradouro, alisou-se uma esplanada, levantou-se a capela. E, fechando os três lados ao redor da igrejinha, “a rua”, composta numa das faces pela morada do sinhô e, por trás e defronte à igreja, as casas de agregados, o vaqueiro, a professora. Adiante, no caminho da Croa Grande, o cemitério.

Houve inveja e falatório diante do arrojo inovador de Miguel Francisco. Era o tempo da descoberta das célebres minas de ouro da Califórnia, nos Estados Unidos, e até no sertão se falava e se sonhava com aquelas riquezas. Um primo e rival mandou recado irônico: como ia seu Miguel com a sua Califórnia? O velho riu, gostou do nome, e assim a fazenda se batizou por “São Francisco da Califórnia”. 

imagem Wikipédia - Mário Cezar Silveira Silva

Na capela inaugurou-se a imagem do orago, um São Francisco de talha primitiva e forte; que hoje, aliás, está na capela do cemitério, onde o refugiamos para salvar da fúria airada de um vigário alemão que pretendia incinerar “aquela feiura barroca” e o substituiu por um santo de gesso, loiro, rosado, coberto de dourados.

Meu tio Miguel não tinha filhos: deixou tudo que era seu para meu avô, o Dr. Arcelino; e nas mãos do novo dono a Califórnia virou realmente um condado. Mudou-se a casa-grande (que, no sertão, nós chamamos simplesmente “a fazenda”) para o outro cabeço, do lado de lá do sangradouro. Imensa, rodeada por fundos alpendres de 3 metros, 57 portas e janelas, salas e salões, quartos e alcovas onde se podem armar 120 redes. Nas festas do centenário, lá se hospedaram 125 pessoas. Por trás da “fazenda”, o vale profundo do sítio, o cano de irrigação partindo do açude, as valetas regando em sucessão primeiro a famosa horta de minha avó, depois o pomar onde se cultivavam até fruta-pão e jambo, até uvas. Além do pomar, o vale se alargava mais, e era o canavial.

imagem do blog "I love califórnia" 

Entre a “fazenda” e o açude, a “fábrica”: o engenho a vapor, os tachos de apurar a garapa, o locomóvel que apitava como um trem, o alambique, os paióis de rapadura e, por fim, em plano mais baixo, no escuro, deitando um cheiro forte que tonteava, a adega onde dormiam os toneis de cachaça.
Pena grande foi meu avô morrer cedo, deixando a viúva com dez filhos. Mas, mesmo em mão de viúva, a fazenda não decaiu. Ao contrário, parecia mais viva, com a presença frequente dos filhos, genros, noras e nós, as dezenas de netos. Dos sete filhos, cinco tiraram grau de doutor, o sexto fez seminário até o último ano, só o caçula não se formou. Concluídos os preparatórios, foi ele o escolhido para morar com a mãe e tomar conta da Califórnia. Só depois que ela morreu é que ele, solteirão, casou-se com uma prima. (A gente, na minha família, casava preferencialmente com primos. Dos dez da Califórnia, metade casou com primo ou prima.) 

Até à morte de Dona Rachel, a Califórnia era mesmo o centro do nosso mundo. Era lá que nós os netos passávamos as férias, nas danças ao som de piano ou gramofone, cavalgatas, novenas, namoros.

Morta a avó, ficou de dono o caçula; nos anos em que lá esteve, se não fez melhoramentos, pelo menos não deixou que nada a arruinasse. Mas aí ele morreu (já viúvo) e a consanguinidade tinha atacado os herdeiros, jovens e irresponsáveis. Fazendeiro nordestino tem terras e senhoria, mas dinheiro vê muito pouco. E os órfãos queriam ver dinheiro na mão. Começaram vendendo cabras e ovelhas, depois passaram ao gado. Venderam o engenho, o locomóvel, o alambique.

E, parte a parte, foram vendendo afinal a terra da Califórnia – e por tutameia. A família não se envolveu – os moços faziam tudo às ocultas, “tinham cisma de parentes”. Quando se viu, acabavam de vender até a casa-grande, que aliás está caindo em ruínas.

Açude Califórnia - passagem molhada sobre o rio Choró 
imagem Diário do Nordeste

Agora surgiu um problema que já deu até crime de morte. Acontece que os velhos moradores, descendentes da indiada e da escravaria do tempo de meu tio Miguel, sempre moraram na rua e plantaram nas croas do rio. Roçados que passam de pais a filhos há mais de século. A rua fica no Patrimônio, isto é, à terra do santo. Como é sabido, quem constrói igreja rural, tem que doar ao orago um patrimônio em terras que lhe sustente os serviços do culto. O velho Miguel demarcou para esse fim um retângulo generoso, que vai da “rua” ao cemitério e desce em procura do rio por mais de 1 quilômetro.

Na degringolada os herdeiros deixaram que caducasse o aforamento perpétuo com que o velho garantira a posse efetiva do terreno: o Patrimônio reverteu à Cúria de Quixadá, que o administra. E os padres, por sua vez, passaram a lotear o Patrimônio. A velha rua se “urbaniza”, desfigurada em arruado, pululante de bodegas e biroscas. Mas o pessoal antigo que ainda mora lá quer continuar plantando nos seus velhos roçados que hoje pertencem a novos donos, diversos. Os donos novos querem reaver a terra; a disputa se envenena e, como já se disse, deu até crime de morte.

Na Califórnia, que já foi um condado, só existe hoje miséria e rixa.

A casa-grande assiste a tudo e protesta se desmoronando. No inverno passado caiu a queijaria de minha avó. Antes, ruíra o terraço empedrado. De longe a “fazenda” ainda faz figura, mas de perto está morrendo.

Originalmente publicado na edição nº 3 de Globo Rural, em dezembro de 1985.

domingo, 19 de abril de 2020

As Mulheres nas Praças e nos Equipamentos Públicos


Muitas mulheres tiveram papéis relevantes na formação histórica de Fortaleza: professoras, escritoras, médicas, educadoras, artistas. Mas as mulheres foram pouco lembradas por ocasião do batismo de praças e monumentos da cidade. Várias se tornaram nomes de ruas, postos de saúde e escolas de primeiro grau. Mas a maioria absoluta, são homenagens a homens, alguns totalmente desconhecidos para a maior parte da população, outros, até que são nomes conhecidos, mas não se sabe por que foram homenageados com nomes de ruas e praças da cidade, quando havia tantas mulheres notáveis que mereciam todas as homenagens.



Dona Argentina Viana Castelo Branco nasceu em Cataguases – MG, em 16 de novembro de 1899. Aos 18 anos casou-se com o então cadete Humberto de Alencar Castelo Branco. Faleceu em abril de 1963, aos 74 anos de idade, na cidade do Recife, um ano antes da revolução de 31 de março, deixando viúvo o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, que seria presidente do Brasil no período de 15 de abril de 1964 a 15 de abril de 1967.
Seus restos mortais juntamente com os do seu marido, estão sepultados no mausoléu vizinho ao Palácio da Abolição. Argentina Castelo Branco é nome de uma simpática e bem cuidada praça, localizada no bairro de Fátima, criada em 1964, no governo do General Murilo Borges Moreira.


Maria da Graça Figueiredo dos Santos nasceu em São Luís – MA, em 21 de dezembro de 1940. Atriz e diretora teatral. Foi considerada uma das maiores atrizes do Ceará, desde que chegou aqui, em 1954. Estreou no grupo Teatro-Escola, dirigido por Nadir Papi Sabóia, e foi uma das primeiras alunas do Curso de Arte Dramática da Universidade Federal do Ceará. Em 1960, fundou com o marido, o ator Edilson Soares, o grupo Experiência, que montou duas peças infantis. Maria da Graça (Gracinha) diplomou-se no Curso Normal do Colégio São João, no Curso de Formação de Atores e no Curso de Arte Dramática da UFC.  Gracinha Soares faleceu em 1982.
Gracinha Soares é o nome da praça localizada no bairro Edson Queiroz, criada em 1983, na gestão do Prefeito César Cals Neto. Fica entre a Avenida Sapiranga, Ruas Conselheiro Gomes de Freitas, Lourival Correia Pinho, Evilázio Miranda e Poeta Otacílio Azevedo.

Praça Margarida Sabóia de Carvalho


Margarida era professora diplomada pela Escola Normal, casada com Jáder de Carvalho, professor, advogado e jornalista. Junto com a irmão Hortênsia, fundou o Curso Eduardo Saboia, de preparação ao Admissão. Lecionou no Colégio Castelo Branco quando de propriedade do professor Odorico Castelo Branco, seu fundador. Além de educadora Margarida era Jornalista, escritora e cronista, escreveu: Por Entre Dedos; Crônicas; Santos do Céu - Santos da Terra; Imperfeição e A Vida em Contos. Morreu, vítima de atropelamento, em 11 de maio de 1975.


Colégio Castelo Branco fundado a 1º de junho de 1900 pelo professor Odorico Castelo Branco - foto Arquivo Nirez 

A Praça está localizada entre as Ruas Dr. Carlos Ribeiro Pamplona e Edmar Villar de Queiroz no bairro Edson Queiroz. O espaço sem nenhuma urbanização, foi criado em 1978, com o nome de Praça Edmar Villar de Queiroz. No mesmo ano teve a denominação modificada para Margarida Sabóia de Carvalho. Conhecida popularmente como praça da CTC, a praça foi revitalizada em 2019, na gestão do prefeito Roberto Cláudio.

casa no Jacarecanga onde residiu Narcisa Borges. Foi demolida

Dona Narcisa Borges da Cunha Moreira, casada com José da Rocha Moreira, eram os pais do tenente Murilo Borges Moreira (que mais tarde seria prefeito de Fortaleza no período 1963-1967), e sogra do capitalista José Maria Filomeno Gomes. Dona Narcisa, foi vítima de um rumoroso crime que abalou a sociedade de Fortaleza, ao ser brutalmente assassinada pelo marido de uma empregada da sua casa, ao defendê-la da agressão do marido, no dia 21 de dezembro de 1936.
Narcisa Borges é nome  de uma praça localizada no bairro Vicente Pinzon, e de  uma escola municipal localizada na travessa Costa Rica no bairro Antônio Bezerra (ou Paes de Andrade).

Hospital e Maternidade Zilda Arns (Hospital da Mulher)


Zilda Arns Neumann nasceu em Forquilhinha, Santa Catarina, no dia 25 de agosto de 1934.  Era médica pediatra e sanitarista, irmã de Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo. Fundou em 1983 a Pastoral da Criança, um programa de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Em 2006, foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz. Zilda Arns faleceu em Porto Príncipe, Haiti, no dia 12 de janeiro de 2010, quando participava de uma palestra sobre as atividades da Pastoral da Criança, no momento em que a cidade foi atingida por um violento terremoto. O hospital foi Inaugurado em 2012, localizado na Avenida Lineu Machado, 155, bairro Jóquei Clube.

Praça Luiza Távora - foto de Silas Junior

Luiza Silva de Moraes Correia nasceu em Fortaleza no dia 01 de julho de 1923, filha de Luiz Moraes Correia, professor de direito da Faculdade de Direito do Ceará e Esmerina Silva Correia, proveniente de uma abastada família do Piauí. Casou-se com o coronel Virgílio Távora com quem teve dois filhos. A partir do casamento mudou o nome para Luiza Moraes Correia Távora. Foi uma das primeiras damas mais atuantes do Ceará durante os dois mandatos de governador de Virgílio Távora (1963/1966 – 1979/1982). Luiza Távora faleceu em 1992, aos 68 anos de idade. 

Luiza Távora em companhia de Virgilio Távora na inauguração da energia de Paulo Afonso em fevereiro de 1965 - foto do livro História da Energia no Ceará, de Ary Bezerra Leite 

Equipamentos públicos que receberam o nome da primeira data:
Praça Luiza Távora - Localizada entre a Avenida Santos Dumont e as ruas Carlos Vasconcelos, Monsenhor Bruno e Costa Barros, construída onde antes existia um castelo erguido por Plácido de Carvalho, no início da década de 1920, no então rarefeito bairro do Outeiro.
Posto de Saúde Luiza Távora, no bairro Itaperi
Restaurante Escola Luiza Távora – criado em 1981 a pedido da primeira dama. É vinculado ao Centro Educacional Padre João Piamarta, localizado na Avenida Aguanambi, bairro Aeroporto.
EEFM Dona Luiza Távora – Bairro São João do Tauape
EEFM Luiza Távora – Bairro Jardim das Oliveiras

Rachel de Queiroz

Posse na Academia Brasileira de Letras em 1977 - foto O Povo

Raquel de Queiroz nasceu em Fortaleza, em 17 de novembro de 1910. Apesar de ter nascido na capital era em Quixadá, sertão central que a escritora tinha suas raízes.  Autora de destaque na literatura nacional, estreou em 1927, com o pseudônimo de Rita de Queiroz, no jornal O Ceará.  Em 1930, publicou o romance O Quinze, que retrata os horrores vivenciados pela escritora na terrível seca daquele ano.
Com apenas 20 anos Rachel de Queiroz se projetava na vida literária do país, com um romance de fundo social. O livro editado às expensas da autora surgiu em modesta edição de mil exemplares, e recebeu críticas dos maiores escritores da época. O entusiasmo da crítica diante do lançamento de “O Quinze” tornou Rachel de Queiroz um nome nacional, e aos vinte anos já era uma figura pública.
Trecho do Parque Rachel de Queiroz em 2010 - foto Fortaleza em Fotos

A consagração veio com o prêmio Fundação Graça Aranha em 1932. Rachel de Queiroz foi primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras em 1977. Foi a primeira mulher a receber o Prêmio Camões, o Nobel da língua portuguesa.  Rachel fez sólidos contatos com algumas lideranças políticas, e terminou sendo uma das fundadoras do Partido Comunista do Ceará.
Quando a ditadura de Getúlio Vargas começou a atuar com mão de ferro, intensificando o combate aos “vermelhos” Raquel foi presa incomunicável no Quartel do Corpo de Bombeiros em Fortaleza. A convivência com os bombeiros rendeu uma crônica onde a então presa política relata sua rotina. A escritora faleceu em 04 de novembro de 2003, no Rio de Janeiro. 

Homenagens a Rachel de Queiroz em Fortaleza:
Escola Municipal Rachel de Queiroz na Barra do Ceará
Centro de Educação Infantil Rachel de Queiroz no bairro Prefeito José Walter
Praça Rachel de Queiroz – Rua Cel. Raimundo Guanabara, 608-132 - São Gerardo
Estátua na Praça General Tibúrcio
Parque Rachel de Queiroz – o Parque Rachel de Queiroz no papel desde 1995, tinha previsão de iniciar a primeira etapa no primeiro trimestre de 2020. Localizado na zona Oeste de Fortaleza, terá 10 km de extensão e uma área total de aproximadamente 203 hectares. As intervenções no Parque irão beneficiar diretamente 285 mil pessoas, em uma área de abrangência de 14 bairros.
Colégio Militar do Corpo de Bombeiros Escritora Rachel de Queiroz –  fundado no dia 13 de abril de 1998 no bairro Jacarecanga.

Colégio Militar do Corpo de Bombeiros Escritora Rachel de Queiroz -  foto Governo do Estado

A Incendiária e os Bombeiros (Crônica de Rachel de Queiroz)

Praça General Tibúrcio foto: Fortaleza em Fotos 2012 

Em 1937, quando  Getúlio Vargas preparava seu golpe de estado, todos os possíveis opositores que se espalhavam pelo território nacional foram apanhados. No Ceará, mandaram os jornalistas para a cadeia pública. Mas comigo tiveram consideração, pois eu era uma senhora de boa família. Fui presa no quartel do Corpo de Bombeiros em Fortaleza.
No início de outubro, trabalhava em uma firma que embarcava algodão para Europa. Fui surpreendida por um delegado de polícia, que me conduziu a uma viatura para o Quartel do Corpo de Bombeiros, onde fui entregue não aos soldados, mas a Senhora do Comandante, que praticamente me pedia desculpas ao mostrar as precárias comodidades do local: uma cama de solteiro, uma mesa e duas cadeiras.
Levou-me a uma das janelas e disse que bastava eu chegar ali e dar um grito que ela imediatamente seria chamada. Assim, morando com os bombeiros, passei cerca de um mês, enquanto Getúlio dava e consolidava seu golpe.
Praticamente, tornei-me bombeira. Da minha janela assistia aos exercícios. É impressionante como aqueles homens arriscavam a vida, adestrando-se para salvar a vida de outros. Eles vinham marchar debaixo das minhas janelas.
A Senhora do comandante me mandava, por eles, guloseimas da sua mesa. Sua filha adolescente que me chamava de "Tenente", também me visitava. Era uma menina bonita a quem às vezes ajudava com problemas da escola. Era como se eu tivesse uma família afetuosa ao alcance das mãos. Já a minha família não tinha o direito de me visitar.
Afinal, Getúlio deu seu golpe, o Brasil voltou à normalidade possível, e nós, presos políticos, fomos soltos. Voltei para casa, mas confesso, senti saudades... das serenatas dos músicos sob minhas janelas, das ocasiões em que eu ajudava os bombeiros, estudantes aflitos, em hora de exames, que mandavam bilhetinhos das questões mais difíceis de português; bilhetinhos que devolvia com as respostas.
Saí afinal, mas fiquei amiga da família do Comandante, principalmente fiquei amiga dos bombeiros. Alguns vinham me visitar nas folgas e infalivelmente ao me encontrar na rua, assumiam posições de sentido e batiam solene continência e eu, confesso, ficava morrendo de orgulho.
E o carinho se renovou no coração da velha senhora.
Rachel de Queiroz


Pesquisa:
Praças de Fortaleza, de Maria Noélia Rodrigues da Cunha
Rachel de Queiroz, de Heloisa Buarque de Holanda
wikipédia
    

domingo, 4 de novembro de 2018

Tangerine-Girl (Um Conto de Rachel de Queiroz)


imagem do livro Caravelas, jangadas e Navios de Rodolfo Espínola
De princípio a interessou o nome da aeronave: não “zepelim” nem dirigível, ou qualquer outra coisa antiquada; o grande fuso de metal brilhante chamava-se modernissimamente blimp. Pequeno como um brinquedo, independente, amável. A algumas centenas de metros da sua casa ficava a base aérea dos soldados americanos e o poste de amarração dos dirigíveis. E de vez em quando eles deixavam o poste e davam uma volta, como pássaros mansos que abandonassem o poleiro num ensaio de vôo. Assim, de começo, aos olhos da menina, o blimp existia como uma coisa em si — como um animal de vida própria; fascinava-a como prodígio mecânico que era, e principalmente ela o achava lindo, todo feito de prata, igual a uma jóia, librando-se majestosamente pouco abaixo das nuvens. Tinha coisas de ídolo, evocava-lhe um pouco o gênio escravo de Aladim. Não pensara nunca em entrar nele; não pensara sequer que pudesse alguém andar dentro dele. Ninguém pensa em cavalgar uma águia, nadar nas costas de um golfinho; e, no entanto, o olhar fascinado acompanha tanto quanto pode águia e golfinho, numa admiração gratuita — pois parece que é mesmo uma das virtudes da beleza essa renúncia de nós próprios que nos impõe, em troca de sua contemplação pura e simples. 

Os olhos da menina prendiam-se, portanto, ao blimp sem nenhum desejo particular, sem a sombra de uma reivindicação. Verdade que via lá dentro umas cabecinhas espiando, mas tão minúsculas que não davam impressão de realidade — faziam parte da pintura, eram elemento decorativo, obrigatório como as grandes letras negras U. S. Navy gravadas no bojo de prata. Ou talvez lembrassem aqueles perfis recortados em folha que fazem de chofer nos automóveis de brinquedo.

O seu primeiro contato com a tripulação do dirigível começou de maneira puramente ocasional. Acabara o café da manhã; a menina tirara a mesa e fora à porta que dá para o laranjal, sacudir da toalha as migalhas de pão. Lá de cima um tripulante avistou aquele pano branco tremulando entre as árvores espalhadas e a areia, e o seu coração solitário comoveu-se. Vivia naquela base como um frade no seu convento — sozinho entre soldados e exortações patrióticas. E ali estava, juntinho ao oitão da casa de telhado vermelho, sacudindo um pano entre a mancha verde das laranjeiras, uma mocinha de cabelo ruivo. O marinheiro agitou-se todo com aquele adeus. Várias vezes já sobrevoara aquela casa, vira gente embaixo entrando e saindo; e pensara quão distantes uns dos outros vivem os homens, quão indiferentes passam entre si, cada um trancado na sua vida. Ele estava voando por cima das pessoas, vendo-as, espiando-as, e, se algumas erguiam os olhos, nenhuma pensava no navegador que ia dentro; queriam só ver a beleza prateada vogando pelo céu.

Mas agora aquela menina tinha para ele um pensamento, agitava no ar um pano, como uma bandeira; decerto era bonita — o sol lhe tirava fulgurações de fogo do cabelo, e a silhueta esguia se recortava claramente no fundo verde-e-areia. Seu coração atirou-se para a menina num grande impulso agradecido; debruçou-se à janela, agitou os braços, gritou: “Amigo!, amigo!”— embora soubesse que o vento, a distância, o ruído do motor não deixariam ouvir-se nada. Ficou incerto se ela lhe vira os gestos e quis lhe corresponder de modo mais tangível. Gostaria de lhe atirar uma flor, uma oferenda. Mas que podia haver dentro de um dirigível da Marinha que servisse para ser oferecido a uma pequena? O objeto mais delicado que encontrou foi uma grande caneca de louça branca, pesada como uma bala de canhão, na qual em breve lhe iriam servir o café. E foi aquela caneca que o navegante atirou; atirou, não: deixou cair a uma distância prudente da figurinha iluminada, lá embaixo; deixou-a cair num gesto delicado, procurando abrandar a força da gravidade, a fim de que o objeto não chegasse sibilante como um projétil, mas suavemente, como uma dádiva.

A menina que sacudia a toalha erguera realmente os olhos ao ouvir o motor do blimp. Viu os braços do rapaz se agitarem lá em cima. Depois viu aquela coisa branca fender o ar e cair na areia; teve um susto, pensou numa brincadeira de mau gosto — uma pilhéria rude de soldado estrangeiro. Mas quando viu a caneca branca pousada no chão, intacta, teve uma confusa intuição do impulso que a mandara; apanhou-a, leu gravadas no fundo as mesmas letras que havia no corpo do dirigível: U. S. Navy. Enquanto isso, o blimp, em lugar de ir para longe, dava mais uma volta lenta sobre a casa e o pomar. Então a mocinha tornou a erguer os olhos e, deliberadamente dessa vez, acenou com a toalha, sorrindo e agitando a cabeça. O blimp fez mais duas voltas e lentamente se afastou — e a menina teve a impressão de que ele levava saudades. Lá de cima, o tripulante pensava também — não em saudades, que ele não sabia português, mas em qualquer coisa pungente e doce, porque, apesar de não falar nossa língua, soldado americano também tem coração.

Foi assim que se estabeleceu aquele rito matinal. Diariamente passava o blimp e diariamente a menina o esperava; não mais levou a toalha branca, e às vezes nem sequer agitava os braços: deixava-se estar imóvel, mancha clara na terra banhada de sol. Era uma espécie de namoro de gavião com gazela: ele, fero soldado cortando os ares; ela, pequena, medrosa, lá embaixo, vendo-o passar com os olhos fascinados. Já agora, os presentes, trazidos de propósito da base, não eram mais a grosseira caneca improvisada; caíam do céu números da Life e da Time, um gorro de marinheiro e, certo dia, o tripulante tirou do bolso o seu lenço de seda vegetal perfumado com essência sintética de violetas. O lenço abriu-se no ar e veio voando como um papagaio de papel; ficou preso afinal nos ramos de um cajueiro, e muito trabalho custou à pequena arrancá-lo de lá com a vara de apanhar cajus; assim mesmo ainda o rasgou um pouco, bem no meio.

Mas de todos os presentes o que mais lhe agradava era ainda o primeiro: a pesada caneca de pó de pedra. Pusera-a no seu quarto, em cima da banca de escrever. A princípio cuidara em usá-la na mesa, às refeições, mas se arreceou da zombaria dos irmãos. Ficou guardando nela os lápis e canetas. Um dia teve ideia melhor e a caneca de louça passou a servir de vaso de flores. Um galho de manacá, um bogari, um jasmim-do-cabo, uma rosa menina, pois no jardim rústico da casa de campo não havia rosas importantes nem flores caras.

Pôs-se a estudar com mais afinco o seu livro de conversação inglesa; quando ia ao cinema, prestava uma atenção intensa aos diálogos, a fim de lhes apanhar não só o sentido, mas a pronúncia. Emprestava ao seu marinheiro as figuras de todos os galãs que via na tela, e sucessivamente ele era Clark Gable, Robert Taylor ou Cary Grant. Ou era louro feito um mocinho que morria numa batalha naval do Pacífico, cujo nome a fita não dava; chegava até a ser, às vezes, careteiro e risonho como Red Skelton. Porque ela era um pouco míope, mal o vislumbrava, olhando-o do chão: via um recorte de cabeça, uns braços se agitando; e, conforme a direção dos raios do sol, parecia-lhe que ele tinha o cabelo louro ou escuro.

Não lhe ocorria que não pudesse ser sempre o mesmo marinheiro. E, na verdade, os tripulantes se revezariam diariamente: uns ficavam de folga e iam passear na cidade com as pequenas que por lá arranjavam; outros iam embora de vez para a África, para a Itália. No posto de dirigíveis criava-se aquela tradição da menina do laranjal. Os marinheiros puseram-lhe o apelido de “Tangerine-Girl”. Talvez por causa do filme de Dorothy Lamour, pois Dorothy Lamour é, para todas as forças armadas norte-americanas, o modelo do que devem ser as moças morenas da América do Sul e das ilhas do Pacífico. Talvez porque ela os esperava sempre entre as laranjeiras. E talvez porque o cabelo ruivo da pequena, quando brilhava à luz da manhã, tinha um brilho acobreado de tangerina madura. Um a um, sucessivamente, como um bem de todos, partilhavam eles o namoro com a garota Tangerine. O piloto da aeronave dava voltas, obediente, voando o mais baixo que lhe permitiam os regulamentos, enquanto o outro, da janelinha, olhava e dava adeus.

Não sei por que custou tanto a ocorrer aos rapazes a ideia de atirar um bilhete. Talvez pensassem que ela não os entenderia. Já fazia mais de um mês que sobrevoavam a casa, quando afinal o primeiro bilhete caiu; fora escrito sobre uma cara rosada de rapariga na capa de uma revista: laboriosamente, em letras de imprensa, com os rudimentos de português que haviam aprendido da boca das pequenas, na cidade: “Dear Tangerine-Girl. Please você vem hoje (today) base X. Dancing, show. Oito horas P.M.” E no outro ângulo da revista, em enormes letras, o “Amigo”, que é a palavra de passe dos americanos entre nós.

A pequena não atinou bem com aquele “Tangerine-Girl”. Seria ela? Sim, decerto… e aceitou o apelido, como uma lisonja. Depois pensou que as duas letras, do fim: “P.M.”, seriam uma assinatura. Peter, Paul, ou Patsy, como o ajudante de Nick Carter? Mas uma lembrança de estudo lhe ocorreu: consultou as páginas finais do dicionário, que tratam de abreviaturas, e verificou, levemente decepcionada, que aquelas letras queriam dizer “a hora depois do meio-dia”.

Não pudera acenar uma resposta porque só vira o bilhete ao abrir a revista, depois que o blimp se afastou. E estimou que assim o fosse: sentia-se tremendamente assustada e tímida ante aquela primeira aproximação com o seu aeronauta. Hoje veria se ele era alto e belo, louro ou moreno. Pensou em se esconder por trás das colunas do portão, para o ver chegar – e não lhe falar nada. Ou talvez tivesse coragem maior e desse a ele a sua mão; juntos caminhariam até a base, depois dançariam um fox langoroso, ele lhe faria ao ouvido declarações de amor em inglês, encostando a face queimada de sol ao seu cabelo. Não pensou se o pessoal de casa lhe deixaria aceitar o convite. Tudo se ia passando como num sonho — e como num sonho se resolveria, sem lutas nem empecilhos.

Muito antes do escurecer, já estava penteada, vestida. Seu coração batia, batia inseguro, a cabeça doía um pouco, o rosto estava em brasas. Resolveu não mostrar o convite a ninguém; não iria ao show; não dançaria, conversaria um pouco com ele no portão. Ensaiava frases em inglês e preparava o ouvido para as doces palavras na língua estranha. Às sete horas ligou o rádio e ficou escutando languidamente o programa de swings. Um irmão passou, fez troça do vestido bonito, naquela hora, e ela nem o ouviu. Às sete e meia já estava na varanda, com o olho no portão e na estrada. Às dez para as oito, noite fechada já há muito, acendeu a pequena lâmpada que alumiava o portão e saiu para o jardim. E às oito em ponto ouviu risadas e tropel de passos na estrada, aproximando-se.

Com um recuo assustado verificou que não vinha apenas o seu marinheiro enamorado, mas um bando ruidoso deles. Viu-os aproximarem-se, trêmula. Eles a avistaram, cercaram o portão — até parecia manobra militar —, tiraram os gorros e foram se apresentando numa algazarra jovial.

E, de repente, mal lhes foi ouvindo os nomes, correndo os olhos pelas caras imberbes, pelo sorriso esportivo e juvenil dos rapazes, fitando-os de um em um, procurando entre eles o seu príncipe sonhado — ela compreendeu tudo. Não existia o seu marinheiro apaixonado — nunca fora ele mais do que um mito do seu coração. Jamais houvera um único, jamais “ele” fora o mesmo. Talvez nem sequer o próprio blimp fosse o mesmo…

Que vergonha, meu Deus! Dera adeus a tanta gente; traída por uma aparência enganosa, mandara diariamente a tantos rapazes diversos as mais doces mensagens do seu coração, e no sorriso deles, nas palavras cordiais que dirigiam à namorada coletiva, à pequena Tangerine-Girl, que já era uma instituição da base — só viu escárnio, familiaridade insolente… Decerto pensavam que ela era também uma dessas pequenas que namoram os marinheiros de passagem, quem quer que seja… decerto pensavam… Meu Deus do Céu!

Os moços, por causa da meia-escuridão, ou porque não cuidavam naquelas nuanças psicológicas, não atentaram na expressão de mágoa e susto que confrangia o rostinho redondo da amiguinha. E, quando um deles, curvando-se, lhe ofereceu o braço, viu-a com surpresa recuar, balbuciando timidamente:
— Desculpem… houve engano… um engano…

E os rapazes compreenderam ainda menos quando a viram fugir, a princípio lentamente, depois numa carreira cega. Nem desconfiaram que ela fugira a trancar-se no quarto e, mordendo o travesseiro, chorou as lágrimas mais amargas e mais quentes que tinha nos olhos.

Nunca mais a viram no laranjal; embora insistissem em atirar presentes, viam que eles ficavam no chão, esquecidos — ou às vezes eram apanhados pelos moleques do sítio.

Considerado um dos cem melhores contos brasileiros do século. Extraído do livro “O melhor da crônica brasileira”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1997.


Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, no dia 17 de novembro de 1910. Filha de intelectuais, do advogado Daniel de Queiroz Lima e de Clotilde Franklin de Queiroz, era descendente, pelo lado materno, da família Alencar (sua bisavó materna era prima José de Alencar).

Com apenas 7 anos sua família muda-se para o Rio de Janeiro e depois para Belém do Pará. Depois de dois anos retornam ao Ceará e Rachel torna-se aluna interna do Colégio da Imaculada Conceição, formando-se professora em 1925, aos 15 anos de idade.

Lecionou História aos 20 anos, em 1930, publica seu primeiro romance, “O Quinze”. Nessa obra, a escritora retrata a seca de 1915 no nordeste do país e a realidade dos retirantes nordestinos. A obra bem recebida pelo público, “O Quinze”, foi agraciada com o prêmio da Fundação Graça Aranha.

Em 1927, após uma publicação com o pseudônimo “Rita de Queiroz” no Jornal do Ceará, Rachel é convidada para colaborar nesse jornal. Nele, começa a publicar diversas crônicas e a trabalhar como repórter. Foi militante política e afiliada ao Partido Comunista Brasileiro desde 1930.

Em 1932, casa-se com o poeta José Auto da Cruz Oliveira, separando-se em 1939. No ano seguinte, casa-se novamente com o médico Oyama de Macedo, com quem permanece até seu falecimento, em 1982. Em 1992, escreveu o romance “Memorial de Maria Moura”, o qual lhe conferiu o "Prêmio Camões".
Faleceu aos 92 anos, no dia 4 de novembro de 2003, na cidade do Rio de Janeiro, enquanto descansava em sua rede.