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sábado, 23 de maio de 2020

O Atribulado Governo Franco Rabelo - 1912 - 1914


Depois da atribulada deposição de Antônio Pinto Nogueira Accioly, o maior de todos os nossos oligarcas que governou até 24 de fevereiro de 1912, quando teve de renunciar à presidência do Estado em razão de forte pressão popular, e para completa libertação do Ceará do domínio da oligarquia, foram buscar o coronel Marcos Franco Rabelo, ilustre militar cearense.

Praça Marquês de Herval (atual José de Alencar), reformada no governo de Accioly/Guilherme Rocha (foto arquivo Nirez)

Franco Rabelo sentou praça como segundo-cadete no 15º Batalhão de Infantaria na Escola Militar do Rio de Janeiro em 10 de setembro de 1879. No Exército, além da carreira militar atuou como professor de várias escolas militares, e só deixou a instituição em 1912, para candidatar-se ao Governo do Ceará. Portanto, Rabelo não tinha nenhuma experiência política ou administrativa. Acrescente-se a isso as reservas feitas à sua indicação pelo Senador Pinheiro Machado, cuja influência alcançava todo o país.

Eleito por esmagadora votação, Franco Rabelo iria encontrar a primeira grande dificuldade no reconhecimento de sua eleição por parte da Assembleia Legislativa, onde a oposição era maioria. Superado o impasse, o novo governador haveria de enfrentar outros grandes obstáculos. 

Na Rua Barão do Rio Branco foi erguido um Arco do Triunfo para recepcionar o Coronel Franco Rabelo - 1912. Foto do livro Ah, Fortaleza!

O maior deles foi enfrentar a feroz oposição que vinha do interior do Estado, formado por correligionários do oligarca deposto, inconformados com a perda de poder e privilégios que há muito desfrutavam. O quartel general dessa oposição foi montado em Juazeiro do Norte, e seu comandante era ninguém menos que o famoso Padre Cícero, o santo venerado pelos romeiros, o coronel de batinas reconhecido em todo o Estado. Aos chefetes do interior, que se apoiavam em grupos de capangas armados que mantinham sob seu comando, juntaram-se os políticos descontentes da capital, formando um grupo antagonista de força considerável.

Uma multidão se concentrou em frente a Sede do Tiro de Guerra, na Rua General Sampaio, para recepcionar o coronel Franco Rabelo (foto do livro Ah, Fortaleza!)

Durante o governo de Franco Rabelo, Ildefonso Albano foi nomeado Intendente de Fortaleza.  Em sua gestão procurou continuar o processo modernizador da cidade e civilizatório da população, com a remodelação de praças e logradouros. A Praça General Tibúrcio foi uma das beneficiadas. Devido a sua localização, na vizinhança do Palácio do Governo, o novo intendente se indignava com o fato dela ter sido transformada em depósito de materiais e de pastagens para animais. O projeto exigiu a desapropriação de várias casas em redor da praça, formando o atual quadrilátero. Por ordem do Intendente, a praça foi ajardinada, recebeu coreto, bancos importados e 49 novos combustores, que tornaram a Praça General Tibúrcio, a mais iluminada da capital, além de novos gradis e as estátuas dos leões, esculpidos em bronze e importados de Paris.

Albano promoveu a reforma da Cadeia Pública e o novo sistema penitenciário com base na criminologia moderna e práticas humanitárias – nesse período, a cadeia passou por reforma interna – iluminação e reconstrução de oficinas – artefatos diversos, carpintaria e calçados como atividades regenerativas dos presos, além de aulas de catequese. A polícia passava por mudanças visando melhorar a imagem formada pela repressão da oligarquia aciolina. Discutia-se a reformulação do Sistema Penitenciário obsoleto.

Além disso foi criada a guarda cívica para disciplinar a população pobre, foram promovidas campanhas de combate à febre amarela, com a recuperação da salubridade pública e a instauração de uma polícia médica; foi criado o Instituto de Amparo à infância.  Dividiu a cidade em 4 distritos para viabilizar a limpeza, e promoveu a abertura da Avenida Sena Madureira, que é a atual Avenida Alberto Nepomuceno

Avenida Alberto Nepomuceno, antiga Rua Sena Madureira - foto Arquivo Nirez
chamada inicialmente de Caminho da Praia (por fazer a ligação com a Praia de Iracema).  Em 1856, passou a ser a Rua da Ponte, devido a existência de uma ponte sobre o Riacho Pajeú que cortava a rua. Na gestão do prefeito Ildefonso Albano,  (1912-1914), foi alargada e pavimentada com calçamento e recebeu a denominação de Rua Sena Madureira. Em 1921 recebeu meio-fio e arborização e ganhou a denominação atual – Avenida Alberto Nepomuceno – em homenagem ao músico falecido em 1920.

Além destas obras temos, também, a chegada dos bondes elétricos em 1913 e da energia elétrica em 1914, através da companhia Ceará Light and Power.
Tanto o governador Franco Rabelo como seu intendente, eram bem aceitos e contavam com a aprovação dos fortalezenses.  Mas a base de apoio ao governo era muito frágil. Afastado do Ceará há muito tempo, sem as malícias do cargo, sem jogo de cintura e desconhecendo os conchavos políticos locais, Rabelo cometeu vários equívocos. Um destes erros foi entregar o comando da base política de sua gestão a Francisco de Paula Rodrigues, homem despreparado para a função e que foi escolhido apenas por ser antigo correligionário do sogro de Rabelo, o general Clarindo de Queiroz, deposto da presidência do Estado em 1892, discriminando os demais grupos políticos que que se opuseram a Accioly.

Rabelo não cumpriu acordos assumidos, não entregou os cargos públicos prometidos e exonerou Padre Cícero – aliado fiel de Accioly e 3º vice-presidente do Estado – do cargo de prefeito de Juazeiro. Ao lado dos adversários do governador, estavam a força política opositora representada pelo presidente Hermes da Fonseca e Pinheiro Machado, senador gaúcho candidato à presidência da República. A administração de Franco Rabelo foi ficando isolada politicamente.

Ao aderir à coligação contra a candidatura do Senador Pinheiro Machado, estava selado o destino de Franco Rabelo. Como represália, iniciou-se no Rio de Janeiro, então sede do governo federal, um trabalho conspiratório contra o governador do Ceará.

A escolha de Juazeiro do Norte para deflagração do movimento, decorreu do enorme prestígio que desfrutava o Padre Cicero no seio das populações sertanejas, bem como da extraordinária habilidade que tinha o caudilho Floro Bartolomeu para comandar essas tropas formadas por jagunços e cabras, reunidas num poderoso exército ilegal.

Movimentação na porta da Intendência Municipal  - Revista O Careta 1914

Segundo Rodolfo Teófilo escreveu em “A Sedição de Juazeiro” de sua autoria, “mais de dois mil homens estavam em armas. Fortaleza era uma praça de guerra. A vida da cidade havia parado por completo. Os empregados da Estrada de Ferro Baturité deixaram o trabalho e pegaram em armas, fazendo o mesmo os homens do mar, trabalhadores da praia, empregados do comércio, o tiro 38, os carroceiros. Enfim, pode-se afirmar que todo homem válido estava defendendo a cidade. Com semelhante resistência, era impossível aos jagunços entrar na cidade”.

Trincheira aberta na Praça Figueira de Melo em Fortaleza, para aguardar a invasão de jagunços que vinha de Juazeiro do Norte. imagem do livro Ah, Fortaleza!

No início de março de 1914, os homens de Juazeiro cercaram a capital, baixando acampamentos em áreas próximas como Maracanaú, Maranguape e Caucaia. A possibilidade de Fortaleza ser invadida causou histeria nos fortalezenses. No dia 9 deste mês o presidente Hermes da Fonseca decretou Estado de Sítio no Ceará, sendo a população desarmada e suspensa a organização da policia estadual, de modo que o policiamento da capital passasse para o inspetor militar Setembrino de Carvalho.

Desmontava-se assim o esquema de defesa popular de Rabelo. Cinco dias depois, a 14 de março de 1914, foi decretada intervenção federal no Estado, levando o governador a renunciar. Uma multidão emocionada se despediu de Franco Rabelo na saída do Palácio do Governo. Receberia ainda muitas homenagens até embarcar para o Rio de Janeiro dias depois.


Fontes: 
História do Ceará, de Airton de Farias
Anuário do Ceará 79/80


domingo, 5 de abril de 2020

O Poder dos Coronéis - Gustavo Augusto Lima


No sertão do Ceará, movido a bacamarte, poder e latifúndios, a lei e a justiça eram feitas segundo a ótica e visando os interesses dos coronéis, que determinavam castigos aos inimigos e decretavam sentenças que não raro, incluíam a pena capital. Não havia julgamentos, defensores ou juízes. Havia o coronelato, o mandonismo, a aceitação e o reconhecimento do "manda quem pode...". A esses potentados sertanejos, todos se dobravam, inclusive as chamadas “autoridades constituídas”.

Do início do primeiro reinado (1822), até o governo de José Bezerril Fontenele – primeiro governador eleito por votação popular (1892-1896) – o posto de Presidente da Província do Ceará passou por grande alternância de titulares.  Na década de 1880, nos anos que antecederam a proclamação da República, o Ceará tinha uma média de dois presidentes por ano. O primeiro governador do período republicano (Luiz Antônio Ferraz - 1889-1891), ficou três anos no cargo, mas seus sucessores repetiram o padrão do tempo do Império, e ficaram pouco tempo no poder.

O sucessor de Bezerril, Antônio Pinto Nogueira Accioly, do Partido Republicano Federal, foi eleito pelo voto popular e governou a Província no período 1896 a 1900 (primeiro mandato). Foi no Governo Accioly, que o coronelismo atingiu seu ápice, onde os coronéis eram mantidos como aliados do governo em troca e votos e favores.
  

O Coronel Gustavo era um desses poderosos executores da lei, filho de outra notória coronela do sertão, a famosa Fideralina Augusto Lima, que mandava matar os inimigos e desafiava a todos com sua audácia. Fideralina já tinha fama de mandona e autoritária, mas despontou como liderança política da região de Lavras da Mangabeira depois da morte do seu marido Ildefonso Correia Lima, em 1876.

Coronel Gustavo Augusto Lima



Gustavo nasceu a 23 de agosto de 1861 no seio de uma das mais importantes famílias do Cariri. Filho, neto e bisneto de coronéis, teve desde a mais tenra idade, convivência com a cultura do poder e as relações entre os latifundiários e seus cabras e escravos. Uma das características mais marcantes da educação que recebeu de sua mãe, dona Fideralina Augusto Lima, foi o esmero pela instrução formal. Dizia a matriarca do clã dos Augustos que a próxima geração exerceria o poder a partir da força da caneta, não do bacamarte, como era na sua própria época, de sorte a que teve especial zelo com a educação dos seus filhos e netos.

Gustavo não era o primogênito de dona Fideralina, mas o seu quinto filho. (Casada com o major Ildefonso Correia Lima, o casal teve 12 filhos: Isabel, Honório, Raimundo, Ildefonso, Gustavo, Maria, Joana, Vicência, Josefa, Joaquim, Francisco e Vicente). De início Gustavo não foi preparado para assumir a chefia do clã, papel destinado ao seu irmão mais velho, Honório. Mesmo assim foi enviado para estudar no tradicional colégio do Padre Inácio de Souza Rolim, onde estudaram dentre outros José Marrocos (um dos lideres da emancipação política de Juazeiro), e o próprio Padre Cícero Romão Batista.

Antes mesmo de assumir o poder em Lavras da Mangabeira, exerceu vários cargos de honor, quase sempre através da firme influência de sua mãe. Antes de 1907 já havia exercido o cargo de coletor das rendas provinciais, membro do Conselho de Intendência Municipal e já ostentava patente de coronel da Primeira Companhia do Batalhão da Guarda Municipal.

Mas sua vocação era para a política, o que acabou levando Gustavo a entrar em desastroso conflito com seu irmão Honório. O episódio iria definir seu destino como mandatário local, e marcaria profundamente a vida de Dona Fideralina, cujas consequências duraram até o dia de sua morte. Era tão absoluto o controle exercido pela família Augusto, que somente outro membro do clã poderia desafiar as ordens da matriarca.

Foi exatamente o que fez seu filho Honório Correia Lima, que começou a discordar da orientação política de sua mãe e por esforços próprios chegou a ocupar a posição de líder do Partido Governista em Lavras. Dona Fideralina, no entanto, não admitia que ninguém contrariasse suas determinações ou que brilhasse mais do que ela mesma, o que a levou a tomar sérias providências.

Após firme recusa do filho em ceder o lugar que havia conquistado, resolveu tomá-lo pela força. No dia 26 de novembro de 1907, valendo-se de seus destemidos cabras e sob a liderança de Gustavo, Honório foi retirado à força, não só da Intendência, mas também do partido, e da própria cidade, de onde partiu naquele mesmo dia com toda sua família. Foi a ascensão definitiva de Gustavo ao poder local, posto na Intendência no lugar do irmão.

Antes da saída dos cabras, da varanda do Sitio Tatú, Dona Fideralina deu a sentença: “aquele que derramasse o sangue do Torto, morreria”. Torto era o apelido de Honório, que era caolho. Depois desse episódio, a família nunca mais conseguiria se harmonizar, replicando aquela rusga original em vários desdobramentos.

Matriz de São Vicente Ferrer - Lavras da Mangabeira - CE (foto IBGE)

Tanto Honório quanto Gustavo eram casados com duas primas legítimas, filhas de uma irmã de Fideralina, Dulcéria Augusto de Oliveira, conhecida por Pombinha. Naquele episódio, Pombinha tomou as dores de Honório tendo se juntado a ele na indignação pela desfeita de Fideralina. Daí nasce uma inimizade entre as duas irmãs que durou pelo resto de suas vidas. Uma vez que Honório se retirou para Fortaleza, e jamais retornou à Lavras, Pombinha assumiu a liderança da oposição. Quando se deu o episódio da queda da oligarquia de Nogueira Accioly, da qual Fideralina era aliada, e quando começou a nomeação dos novos intendentes, a indicação para a Intendência de Lavras teve o patrocínio de Pombinha, que indicou para o cargo, seu genro, conhecido por Zé Burrego. E em cumprimento a uma promessa, Pombinha atravessou de joelhos, todo o largo da matriz, indo até o altar, em comemoração a perda de prestígio político da irmã.      
Consta que já no leito de morte Fideralina chamou a irmã para fazer as pazes, ao que Pombinha respondeu que não iria, que se fosse para perdoar, faria isso à distância mesmo.

Praça Presidente Vargas - Estação ferroviária de Lavras da Mangabeira (foto IBGE)

Quanto ao coronel Gustavo, continuou sua trajetória de poder e influência política. Senhor de vastos domínios territoriais, em 7 de abril de 1910 resistiu bravamente à invasão da cidade de Lavras, por cento e cinquenta homens comandados por Joaquim Vasques Landim, defendendo o burgo ameaçado pelos maiores coronéis do Cariri e consolidando, assim, a sua posição no âmbito da vida política do Estado.

Na condição de mandatário do município de Lavras, fez parte do famigerado Pacto dos Coronéis, assembleia política realizada na então vila de Juazeiro, sob os auspícios do Padre Cícero Romão, aos 4 de outubro de 1911, sendo, no ato, representado pelo seu filho, o coronel João Augusto Lima.  Conhecido pela sua pertinácia política, participou com grande contingente de homens para o êxito da Revolução de 1914, que destronou o Governo de Franco Rabelo.

A sua intervenção nesse movimento, conhecido por Sedição de Juazeiro, foi das mais relevantes, tendo, inclusive, disputado, com Floro Bartolomeu, a sua liderança, em cuja vanguarda encontrava-se quando as tropas sertanejas invadiram Fortaleza em 1914, tendo sido aclamado, no momento, pelo alto comando da Revolução, como general de campo, em alusão às suas estratégias.

Palácio da Luz, Fortaleza (foto IPHAN)

Aquartelando o seu estado maior no Palácio da Luz, o Coronel Gustavo teve papel decisivo na constituição do novo governo cearense, indispondo-se, daí por diante, com Floro Bartolomeu, numa rixa que ganhou as páginas da imprensa de todo o Brasil.  Com o triunfo da Sedição de Juazeiro, foi nomeado prefeito da sua terra de berço, por ato de 21 de março de 1914, permanecendo nesse posto até 27 de agosto de 1920, mas ali sempre reinou de forma soberana desde a deposição do seu irmão, Honório Correia Lima, revestindo sempre as características do mandonismo e tomando partido nas disputas que sacudiram as estruturas políticas do seu tempo.

Foi deputado à Assembleia Legislativa do Ceará, nas legislaturas de 1915 a 1916, de 1917 a 1920 e de 1921 a 1923, destacando-se, durante esse período, como líder do governo e presidente da referida Assembleia. Eleito vice-governador do Ceará, para o biênio 1914-1916, exerceu essa função paralelamente ao mandato de deputado estadual e ao cargo de prefeito municipal da sua terra.

Político de temperamento forte e de decisões que causavam temor a seus adversários, sempre que raivoso ameaçava passar os inimigos nas moendas do engenho Pau Amarelo, cidadela e reduto inexpugnável da sua fortaleza política. Contra o poderoso caudilho de Juazeiro do Norte, Floro Bartolomeu, destilou a sua valentia e as suas ousadas ameaças.

aspecto da Praça do Ferreira entre o início dos anos 20 e início dos anos 30. (Foto Arquivo Nirez)

Contudo, apesar do prestígio político e do cargo de deputado estadual que ocupava, foi alvejado a tiros de revólver, na Praça do Ferreira em Fortaleza, a 28 de janeiro de 1923. Na ocasião o coronel Gustavo achava-se em companhia de duas filhas, Luisinha e Maria Luísa, e tomava assento no bonde do Outeiro para se deslocar à sua residência na Avenida Dom Manuel, quando tombou vítima de disparos deflagrados por Raimundo de Eusébio, vindo a falecer quatro dias depois, a 1º de fevereiro, na Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza. Foi sepultado no cemitério São João Batista desta cidade.

Fontes:
Wikipédia

quinta-feira, 9 de março de 2017

Dona Fideralina – A Matriarca do Sertão



As matriarcas são personagens semi-lendárias, proprietárias de terra e gado no interior do sertão, longe das pretensões fidalgas das Casas Grandes da zona açucareira. Levavam uma vida rústica relativamente distante dos padrões culturais europeus que, na época, moldavam as sociedades do litoral nordestino. No sertão, exerciam grande poder de liderança, tendo controle total de seus feudos regionais. 

O poder das matriarcas não era necessariamente vinculado ao poder político ou econômico da região, ainda que, subsidiariamente, tenham desenvolvido atividades e ocupado posições de controle nessas áreas. De forma sintomática surgem elas em cena a partir da posição ocupada na estrutura familiar. São chefes de família, ou melhor, tornam-se chefes de família devido à ausência do patriarca, por morte, ou por viagens constantes. Raramente são solteiras ou sem família. A manipulação de filhos, parentes e agregados, parece ser o foco inicial do poder e do raio de influência das matriarcas.

Começam a exercer seu controle em um âmbito mais restrito, o familiar, e terminam por englobar a rede de poderes que liga, de forma bastante específica no interior do Nordeste, o Estado, a Igreja e a família.

 O refúgio da matriarca - Sítio Tatu, em Lavras da Mangabeira 
(imagem do Blog do Sanharol)
http://blogdosanharol.blogspot.com.br/

 Casa Grande do Sitio Tatu atualmente
(imagem do blog Cariri Cangaço)
http://cariricangaco.blogspot.com.br/

Dona Fideralina reuniu no Sítio do Tatu, cem cabras que havia conseguido juntar com a ajuda de outros coronéis da região. Deu ordens para que seguissem rumo a Princesa, na Paraíba. O grupo de cangaceiros iria vingar a morte de seu neto, Ildefonso Lacerda Leite, médico que logo após formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, começou a exercer a profissão em Princesa, terra de seu pai, Luís Leônidas Lacerda Leite (legítimo ladrão de Lavras – dizia o povo), marido de Joana Augusto Leite, filha de Fideralina.

Lá, Ildefonso casou-se com Dulce Campos, filha de um chefe político do município, coronel Erasmo Alves Campos. Com esse casamento, o doutor precipitava a própria sorte. Manoel Florentino desejava ter Dulce por esposa. Enraivado vendo-a casar-se com o forasteiro Ildefonso, resolveu vingar-se. Junta-se a José Policarpo, ex-aluno do Seminário da Paraíba, ligado ao vigário de Princesa, Manoel Raimundo Donato Pinto. O vigário se opunha ao doutor, acusando-o de ateu.

Em 6 de janeiro de 1903, feriado do Dia de Reis, Florentino e Policarpo mataram, com uma punhalada no peito e um tiro no coração, o neto de Fideralina. O moço ia à farmácia providenciar remédios para acudir sua mulher. Após o crime tentaram os criminosos enterrar o cadáver. Mas, por imperícia, deixaram o corpo com os pés de fora.

Vingança maior aguardava a dupla de assassinos. A velha "Fidera do Tatu" despachara o seu estranho exército com a incumbência de lhe trazer as orelhas de cada um dos assassinos do neto. Não era à toa que se dizia nas Lavras que a velha do Tatu rezava toda noite num rosário feito das orelhas de seus inimigos mortos: queria aumentar a coleção.

Esse crime de Princesa, marca o início da projeção de dona Fideralina para além dos sertões do Cariri, e a extensão da sua influência junto ao governo do Estado. Nascida em 1832, em Lavras, batizou-se por Fideralina Augusto Lima, graças aos entusiasmos republicanos, provocados pelos movimentos revolucionários no Nordeste, no Levante de 1817 e na Confederação do Equador em 1824.

Familiarizou-se desde cedo com o poder. Era a mais velha de doze irmãos; o pai, chefe político na região de Lavras, João Carlos Augusto, descendia de família poderosa. A mãe de Fideralina também se envolvia com política. Isabel Rita de São José, a Zabilinha, era neta de Francisco Xavier, segundo capitão-mor e comandante geral da vila de Lavras, sesmeiro da ribeira do rio Salgado, proprietário de grandes extensões de terra.

Se o pai, João Carlos Augusto, era afilhado do presidente da Província, o batismo de Fideralina já é prenúncio de sua força de vontade, de seu desprezo por regras estabelecidas, de seu temperamento forte, de só fazer o que desejava. O padrinho da filha podia não ser de igual importância, mas em compensação o celebrante da cerimônia foi o padre Verdeixa, figura antológica e curiosíssima dos sertões nordestinos. Pai de família, era o Padre Verdeixa nascido no Crato, ou em Goiana, ou em Olinda; foi vigário de Lavras de 1830 a 1832. Mestre em ações indecorosas, fazia propostas imorais às noivas dos casamentos que celebrava. Chegou a ser espancado por um noivo que não pôde suportar os excessos do padre.

Quando João Carlos Augusto morreu, aos 56 anos, vítima de um atentado político, Fideralina, já estava casada; sendo a mais velha de três irmãos fracos e de oito irmãs que não viam a mulher em posição de mando, assumiu o poder como herança maior.


Casara-se nova, aos 15, 16 anos, com Ildefonso Correa Lima, major da Guarda Nacional, nascido em Várzea Alegre, distrito de Lavras, filho do tenente Raimundo Duarte Bezerra e de Ana Correa Lima, donos de muitas fazendas. Recém-casada, Fideralina já tinha fama de mandona, tanto que a família do marido não aprovou a união. Eram contra, não queriam ver Ildefonso submisso à mulher. Mas não foi uma submissão duradoura. Ele morreu ainda jovem, aos 42 anos, depois de ser presidente da Câmara de Lavras. Deixou uma dúzia de filhos e um certo poder político que logo foi assumido pela mulher.

Rua Major Ildefonso, em Lavras da mangabeira - década de 50 (acervo IBGE)

Herdeira de dois grandes chefes, acostumada a mandar, não admitia oposição. Sendo preciso, esqueceria a religião e lutaria até contra a Igreja. Monsenhor Miceno Clodoaldo Linhares, vigário em Lavras por 49 anos, que ousou opor-se a Fideralina, provou-lhe o ódio. O vigário era conhecido pela sua retidão de caráter, pela facilidade para o discurso, tinha a admiração do clero. Mas tinha uma mancha na vida. Quando jovem, tivera uma filha em Tauá. Fideralina tomou a si a tarefa de tornar público o erro do vigário. Monsenhor Miceno, ao partir de Lavras, profetizou que as crianças daquela época veriam a queda de Fideralina. Errou: passou-se muito tempo até o dia em que ela, ou os seus, não conseguiram eleger o prefeito. Mesmo o sucessor de Monsenhor Miceno, Padre Raimundo Augusto Bezerra, sobrinho-neto de Fideralina e líder oposicionista, sofreu muito nas mãos de Fidera. As piores calúnias foram levantadas contra ele.

Mas Fideralina não tinha inimigos só entre os estranhos, a família também a enfrentava. Seu filho, Honório Correa Lima, foi uma das vítimas da ira materna. Após certo tempo na prefeitura de Lavras, foi eleito deputado, tendo que permanecer longo tempo em Fortaleza. E Honório acreditava estar perdendo suas bases políticas com as longas estadas na capital. Assim, com o prestígio conseguido junto ao presidente da província, articula, à revelia da mãe, sua nomeação para retornar à prefeitura de Lavras. Para isso seria necessária a deposição do prefeito Manuel José de Barros, homem da confiança da matriarca.

Estava criada a confusão. A velha, com o orgulho ferido e influenciada por um outro filho, Gustavo Augusto, tenta primeiro convencer Honório a abdicar do cargo. Apela para os nove meses em que o carregou na barriga. O argumento não surtiu efeito. Honório respondeu que, se o problema era o tempo de gestação, poderiam fazer um trato: ela que afinasse a cabeça para lhe entrar pela “traseira”, e ele a carregaria durante nove meses sem reclamação.

Mas Fidera era incansável. Teimou em convencer o filho até o dia em que ele tomou de um rifle e apontou para a barriga da mãe. Essa afronta, somada à morte de Ernesto Rolim, cabra de confiança da velha, atribuída a Honório, e às ameaças de Honório ao irmão Joaquinzinho, a quem proibiu de aparecer na casa da mãe, por acreditar que fosse ele a origem das atitudes da velha, levaram-na a reunir um bando de cabras com os coronéis mais fortes do sertão.

Os jagunços, eram em grande parte recrutados no Sertão de Pernambuco – Serra do Araripe, região do Riacho do Navio, Pajeú de Flores; eram homens que faziam do cangaço sua vida, e foram os responsáveis pela deposição do “Torto”, apelido de Honório, que era caolho. Escorraçaram-no de Lavras, com mulher e filhos; mudou-se para Fortaleza, e posteriormente para Caririaçu. É a primeira vez em que a misericórdia dá mostras de existir em Fideralina. Em casos de deposição, matava-se o deposto. Mas, na deposição de Honório, os homens tiveram ordem expressa de não acertar sequer um tiro no Prefeito. A velha Fidera avisou que quem o fizesse pagaria com a própria vida. Ninguém desobedeceu.

Desse mesmo episódio deriva a briga de Fideralina com a irmã Pombinha. Era privilégio da matriarca orientar os casamentos da família; destinou ela a Honório e Gustavo, as filhas de Pombinha, Petronila e Joaninha, primas em primeiro grau. E, para azar de Fideralina, o filho que ela escorraçara de Lavras era o genro preferido de Pombinha, que jamais lhe perdoou a ofensa. Na primeira vez em que Fideralina perdeu o poder no município, para os rabelistas, a irmã atravessou a cidade de joelhos, em direção à igreja. Defronte ao altar de São Vicente, ficou beijando o chão, em sinal de agradecimento. E quando, antes de morrer, Fideralina pediu a presença da irmã, obteve fria e dura resposta: “Se ela quer me pedir perdão, diga que perdoo. Mas ir vê-la, diga que não vou”.


Voltando às intrigas políticas de Fideralina; com o intuito de afastar o filho Gustavo da Prefeitura, sob desculpa de honrar a palavra dada, reconduziu Manuel José de Barros ao antigo lugar, retirado por Honório; convenceu Gustavo a concorrer como deputado estadual. Depois, vencido o mandato de Gustavo, ela lhe daria todo apoio para que fosse prefeito; e com ele passou a dividir todo o poder acumulado até então. Mas Gustavo, após pouco tempo frente à Prefeitura de Lavras, sofreu uma tentativa de deposição. Tratava-se, na verdade, de um complô contra a sua mãe.

O poder herdado do pai e do marido foi habilmente mantido. Fidera conseguia sempre estar bem com os governos. De monarquista converteu-se em republicana; o que lhe interessava era dominar a região de Lavras da Mangabeira. Mas por volta de 1911 surgiram movimentos contra as oligarquias no Ceará. A derrubada da família Nogueira Acioli levou de roldão Fideralina e os coronéis do Sertão do Cariri. Pombinha, seus filhos, genros e aliados, queixosos desde a queda de Honório, insurgiam-se contra a tirania da matriarca; davam resposta a tudo que até então tinham ouvido calados.

Proprietária de alguns sítios, todos situados na região árida e pobre, intermediária entre o Sertão Seco e a rica área verde do Cariri, a família Augusto quando ainda unida, vivia no Sítio do Tatu. Era uma propriedade comum: casa grande com alpendre, açude, engenho, uma fileira de casas de taipa para os negros e uma das únicas da região a ter uma capela. O sitio era também a área de maior concentração de escravos nos sertões, a ponto de existirem quadrinhas abordando esse estranho recorde: 



O Tatu pra criar negro 

Sobradim pra criação, 

São Francisco pra fuxico, 
Calabaço pra algodão, 
Caraíba é prata fina 
Sussuarana, ouro em pó 
Xique Xique é mala véia 
E o Tatu é negro só.

Talvez o grande número de escravos no Sítio do Tatu se devesse ao fato de Fideralina possuir um grupo de escravas que eram usadas como parideiras de moleques, que após algum tempo eram vendidos ao aparecer comprador. 

Uma das histórias de crueldade de Dona Fideralina versa sobre uma dessas negras parideiras e o filho que seria vendido, embora já estivesse com ela há mais de um ano. A escrava, agarrada à criança, correu para o mato, mas Fideralina deu ordem para que fossem atrás e trouxessem o menino. Na tentativa de proteger o filho, a negra foi apunhalada; ainda correu para casa, e lá, a patroa mandou que mãe e filho fossem embebidos com querosene, e ela própria lhes ateou fogo. A escrava, soltando o filho, debateu-se até morrer. Conta-se que as marcas de sangue da negra não saíam nunca da parede, mesmo que a caiassem continuamente. O reboco teve que ser retirado, e um outro feito em seu lugar.

Soma-se a essa história, o episódio de Luís Preto, um escravo, que aos oito anos de idade, junto com os filhos da Senhora, ousou tomar banho na cacimba de água limpa de onde Fideralina bebia. Levou tamanha surra que, durante os mais de cem anos que viveu, nunca mais tomou banho e não saía de casa quando ameaçava chover.

Entre os negros da fazenda do Tatu, quatro deles, dos mais fortes, deviam estar sempre prontos para carregar a liteira de Dona Fideralina, nas suas idas à cidade. Corpulenta, medidas avantajadas, quadris largos, rosto cheio, bonita – diziam, trocou a liteira pelo cabriolé e depois de velha, estranhamente, começou a andar a cavalo, inspirando uma crônica ao juiz Álvaro Dias Martins, assustado com a vitalidade da velha cavaleira.

Temida pelo povo, não era só medo que ela despertava nas pessoas. Quando viajava de Lavras para Iguatu, onde tomava o trem para Fortaleza, e se hospedava na casa do chefe político da cidade, despertava imensa curiosidade. O povo ia à casa do coronel para vê-la, corria às calçadas a fim de lhe assistir a passagem e, na hora do embarque, uma multidão se comprimia na plataforma da estação ferroviária para ver aquela mulher perigosa, valente, cheia de coragem, que mandava matar gente.

Essas viagens faziam parte de seu relacionamento com o Presidente da Província. Mas Fideralina abusava às vezes dessas boas relações. Chegou a exigir em carta ao Presidente que nomeasse um amigo analfabeto para o posto de professor de grego do Liceu de Fortaleza. Provavelmente era ela mesma quem escrevia as próprias cartas. Tinha uma bela letra e assinava Federalina, com a letra E no lugar do I, como era conhecida.

Graças a seu poder político e econômico, Dona Fideralina podia manter certos hábitos interditos à mulher. Falava o que lhe viesse à cabeça, usava palavrões em qualquer oportunidade, alteava a voz com os homens. Conta-se que, hospedada na casa do filho mais moço, Chico Correa, em Lavras, não mais de duas léguas do Tatu, pôs-se a tomar a fresca, vestida com uma espécie de camisa, quando o cunhado, tenente Raimundo Tomás de Aquino, marido de sua irmã Florípes, disse-lhe que não era hora de rapariga estar na janela. Rapidamente recebeu sua resposta: “Nem de homem macho estar na rua”.

Os hábitos da matriarca não diferiam muito dos costumes do coronelato da região: tinha um grupo de cabras para proteger a propriedade e garantir a família, andava sempre com um bacamarte sobre as pernas, ou ao alcance das mãos, tinha um filho cujo padrinho era o Padre Cícero, e era muito religiosa. Rezava diariamente, com a família e as escravas, o rosário, – provavelmente o folclórico, confeccionado de orelhas – que, segundo parentes, não foi acrescido das orelhas dos assassinos de seu neto. É que quando o bando chefiado por Zuza Lacerda, cangaceiro renomado, chegou à cidade de Princesa não encontrou mais os criminosos. Haviam padecido de estranha febre epidêmica. No entanto, os adversários de Fideralina, bem como o povo, juram que essas orelhas vieram a enriquecer o seu famoso rosário.

Ficou como tradição a frase sacramental dos matadores enviados por Dona Fideralina no momento em que atacavam os inimigos da velha senhora: “Tá aqui que Dona Fideralina mandou”.

Talvez viesse desse estranho rosário a capacidade que a velha possuía de atrair e manter o poder. O tempo em que ele fugiu de suas mãos, após a queda dos Aciolly, quando seus parentes, partidários do oposicionista Franco Rabelo, mandaram em Lavras, foi insignificante em relação ao período em que esteve com ela. Depressa retomou o domínio da situação, tornando a fazer jus a certas quadrinhas populares.

“O Belém manda no Crato
Padre Cícero em Juazeiro
Na Missão Velha, Antônio Rosa
Barbalha, Neco Ribeiro
Das Lavras, Fideralina
Quer mandar no mundo inteiro.”

Em 1914 reuniu cabras, armas e munições, e enviou, aos cuidados do filho Gustavo, como ajuda a seus partidários, numa tentativa de retomar o poder, apoiando a “Revolução de 14″. O episódio, vitorioso, chamado pelos rabelistas “A Sedição de Juazeiro”, devolveu o poder às oligarquias antigas, dele alijadas após o movimento popular ocorrido por volta de 1911.

Estação ferroviária de Lavras, em 1922 

Dois anos antes de morrer, a sua grande influência fez chegar a Lavras a via férrea que tornariam mais fáceis e menos lentas as viagens à capital. No dia da inauguração da estação, a velha mostrava-se alegre, forte; com o imenso corpo jogado numa cadeira de balanço conversava em altos brados. Sempre gritou. Na primeira vez em que baixou a voz, teve-se a certeza de que realmente chegara a doença que a levaria à morte, aos 87 anos.

Em agosto de 1919 termina a história de Fideralina, mas não a do seu reinado. Gustavo substituiu a mãe, dando lugar a seus próprios filhos, João Augusto e Raimundo Augusto, fortes e violentos. A oligarquia só largou o poder – e por força dos acontecimentos – mais de meio século após a morte da matriarca. Na década de 70, pela primeira vez, os Augusto não conseguiram eleger o prefeito de Lavras. 


Extraído do artigo: Matriarcas do Ceará – D. Federalina de Lavras
Rachel de Queiroz e Heloisa Buarque de Hollanda