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sábado, 23 de maio de 2020

O Atribulado Governo Franco Rabelo - 1912 - 1914


Depois da atribulada deposição de Antônio Pinto Nogueira Accioly, o maior de todos os nossos oligarcas que governou até 24 de fevereiro de 1912, quando teve de renunciar à presidência do Estado em razão de forte pressão popular, e para completa libertação do Ceará do domínio da oligarquia, foram buscar o coronel Marcos Franco Rabelo, ilustre militar cearense.

Praça Marquês de Herval (atual José de Alencar), reformada no governo de Accioly/Guilherme Rocha (foto arquivo Nirez)

Franco Rabelo sentou praça como segundo-cadete no 15º Batalhão de Infantaria na Escola Militar do Rio de Janeiro em 10 de setembro de 1879. No Exército, além da carreira militar atuou como professor de várias escolas militares, e só deixou a instituição em 1912, para candidatar-se ao Governo do Ceará. Portanto, Rabelo não tinha nenhuma experiência política ou administrativa. Acrescente-se a isso as reservas feitas à sua indicação pelo Senador Pinheiro Machado, cuja influência alcançava todo o país.

Eleito por esmagadora votação, Franco Rabelo iria encontrar a primeira grande dificuldade no reconhecimento de sua eleição por parte da Assembleia Legislativa, onde a oposição era maioria. Superado o impasse, o novo governador haveria de enfrentar outros grandes obstáculos. 

Na Rua Barão do Rio Branco foi erguido um Arco do Triunfo para recepcionar o Coronel Franco Rabelo - 1912. Foto do livro Ah, Fortaleza!

O maior deles foi enfrentar a feroz oposição que vinha do interior do Estado, formado por correligionários do oligarca deposto, inconformados com a perda de poder e privilégios que há muito desfrutavam. O quartel general dessa oposição foi montado em Juazeiro do Norte, e seu comandante era ninguém menos que o famoso Padre Cícero, o santo venerado pelos romeiros, o coronel de batinas reconhecido em todo o Estado. Aos chefetes do interior, que se apoiavam em grupos de capangas armados que mantinham sob seu comando, juntaram-se os políticos descontentes da capital, formando um grupo antagonista de força considerável.

Uma multidão se concentrou em frente a Sede do Tiro de Guerra, na Rua General Sampaio, para recepcionar o coronel Franco Rabelo (foto do livro Ah, Fortaleza!)

Durante o governo de Franco Rabelo, Ildefonso Albano foi nomeado Intendente de Fortaleza.  Em sua gestão procurou continuar o processo modernizador da cidade e civilizatório da população, com a remodelação de praças e logradouros. A Praça General Tibúrcio foi uma das beneficiadas. Devido a sua localização, na vizinhança do Palácio do Governo, o novo intendente se indignava com o fato dela ter sido transformada em depósito de materiais e de pastagens para animais. O projeto exigiu a desapropriação de várias casas em redor da praça, formando o atual quadrilátero. Por ordem do Intendente, a praça foi ajardinada, recebeu coreto, bancos importados e 49 novos combustores, que tornaram a Praça General Tibúrcio, a mais iluminada da capital, além de novos gradis e as estátuas dos leões, esculpidos em bronze e importados de Paris.

Albano promoveu a reforma da Cadeia Pública e o novo sistema penitenciário com base na criminologia moderna e práticas humanitárias – nesse período, a cadeia passou por reforma interna – iluminação e reconstrução de oficinas – artefatos diversos, carpintaria e calçados como atividades regenerativas dos presos, além de aulas de catequese. A polícia passava por mudanças visando melhorar a imagem formada pela repressão da oligarquia aciolina. Discutia-se a reformulação do Sistema Penitenciário obsoleto.

Além disso foi criada a guarda cívica para disciplinar a população pobre, foram promovidas campanhas de combate à febre amarela, com a recuperação da salubridade pública e a instauração de uma polícia médica; foi criado o Instituto de Amparo à infância.  Dividiu a cidade em 4 distritos para viabilizar a limpeza, e promoveu a abertura da Avenida Sena Madureira, que é a atual Avenida Alberto Nepomuceno

Avenida Alberto Nepomuceno, antiga Rua Sena Madureira - foto Arquivo Nirez
chamada inicialmente de Caminho da Praia (por fazer a ligação com a Praia de Iracema).  Em 1856, passou a ser a Rua da Ponte, devido a existência de uma ponte sobre o Riacho Pajeú que cortava a rua. Na gestão do prefeito Ildefonso Albano,  (1912-1914), foi alargada e pavimentada com calçamento e recebeu a denominação de Rua Sena Madureira. Em 1921 recebeu meio-fio e arborização e ganhou a denominação atual – Avenida Alberto Nepomuceno – em homenagem ao músico falecido em 1920.

Além destas obras temos, também, a chegada dos bondes elétricos em 1913 e da energia elétrica em 1914, através da companhia Ceará Light and Power.
Tanto o governador Franco Rabelo como seu intendente, eram bem aceitos e contavam com a aprovação dos fortalezenses.  Mas a base de apoio ao governo era muito frágil. Afastado do Ceará há muito tempo, sem as malícias do cargo, sem jogo de cintura e desconhecendo os conchavos políticos locais, Rabelo cometeu vários equívocos. Um destes erros foi entregar o comando da base política de sua gestão a Francisco de Paula Rodrigues, homem despreparado para a função e que foi escolhido apenas por ser antigo correligionário do sogro de Rabelo, o general Clarindo de Queiroz, deposto da presidência do Estado em 1892, discriminando os demais grupos políticos que que se opuseram a Accioly.

Rabelo não cumpriu acordos assumidos, não entregou os cargos públicos prometidos e exonerou Padre Cícero – aliado fiel de Accioly e 3º vice-presidente do Estado – do cargo de prefeito de Juazeiro. Ao lado dos adversários do governador, estavam a força política opositora representada pelo presidente Hermes da Fonseca e Pinheiro Machado, senador gaúcho candidato à presidência da República. A administração de Franco Rabelo foi ficando isolada politicamente.

Ao aderir à coligação contra a candidatura do Senador Pinheiro Machado, estava selado o destino de Franco Rabelo. Como represália, iniciou-se no Rio de Janeiro, então sede do governo federal, um trabalho conspiratório contra o governador do Ceará.

A escolha de Juazeiro do Norte para deflagração do movimento, decorreu do enorme prestígio que desfrutava o Padre Cicero no seio das populações sertanejas, bem como da extraordinária habilidade que tinha o caudilho Floro Bartolomeu para comandar essas tropas formadas por jagunços e cabras, reunidas num poderoso exército ilegal.

Movimentação na porta da Intendência Municipal  - Revista O Careta 1914

Segundo Rodolfo Teófilo escreveu em “A Sedição de Juazeiro” de sua autoria, “mais de dois mil homens estavam em armas. Fortaleza era uma praça de guerra. A vida da cidade havia parado por completo. Os empregados da Estrada de Ferro Baturité deixaram o trabalho e pegaram em armas, fazendo o mesmo os homens do mar, trabalhadores da praia, empregados do comércio, o tiro 38, os carroceiros. Enfim, pode-se afirmar que todo homem válido estava defendendo a cidade. Com semelhante resistência, era impossível aos jagunços entrar na cidade”.

Trincheira aberta na Praça Figueira de Melo em Fortaleza, para aguardar a invasão de jagunços que vinha de Juazeiro do Norte. imagem do livro Ah, Fortaleza!

No início de março de 1914, os homens de Juazeiro cercaram a capital, baixando acampamentos em áreas próximas como Maracanaú, Maranguape e Caucaia. A possibilidade de Fortaleza ser invadida causou histeria nos fortalezenses. No dia 9 deste mês o presidente Hermes da Fonseca decretou Estado de Sítio no Ceará, sendo a população desarmada e suspensa a organização da policia estadual, de modo que o policiamento da capital passasse para o inspetor militar Setembrino de Carvalho.

Desmontava-se assim o esquema de defesa popular de Rabelo. Cinco dias depois, a 14 de março de 1914, foi decretada intervenção federal no Estado, levando o governador a renunciar. Uma multidão emocionada se despediu de Franco Rabelo na saída do Palácio do Governo. Receberia ainda muitas homenagens até embarcar para o Rio de Janeiro dias depois.


Fontes: 
História do Ceará, de Airton de Farias
Anuário do Ceará 79/80


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Encontros Inusitados: Padre Cícero x Lampião x Coluna Prestes

A Coluna Prestes foi um movimento encabeçado por líderes tenentistas, ocorrido entre os anos de 1925 a 1927.  O movimento deslocou-se pelo interior do país pregando reformas políticas e sociais e combatendo o governo oligárquico do presidente Arthur Bernardes (1922 – 1926), que governou o País sob constante estado de sítio.  

Em sua marcha pelo Brasil, os integrantes da Coluna Prestes denunciavam a miséria da população e a exploração das camadas mais pobres pelos líderes políticos.

Alguns membros da Coluna Prestes em sua passagem pelo Ceará

Sob o comando principal de Miguel Costa e de Luis Carlos Prestes, a Coluna enfrentou as tropas regulares do Exército ao lado de forças policiais dos vários Estados por onde passou, além de tropas de informais formadas por jagunços e outros “fora-da-lei”, que partiam para o confronto, estimulados por promessas oficiais de anistia. 
Durante dois anos e meio a Coluna Prestes percorreu 25.000 km pelo interior do Brasil. Apesar dos esforços, não conseguiu sensibilizar a população que, influenciada pela propaganda oficial, temia a presença dos revolucionários em seu território.

Por volta de 1925 rumores davam conta de que a Coluna Prestes se aproximava do Ceará. Diante disso, o governo federal encarregou o deputado federal Floro Bartolomeu de organizar a defesa do território cearense. 
Em dezembro de 1925, Floro chegou a Juazeiro trazendo armas, munição e dinheiro para organizar os chamados “batalhões patrióticos”, cujos componentes eram jagunços enviados por latifundiários da zona sul cearense. Com a proximidade dos tenentes, vários núcleos urbanos se despovoaram tamanho era o pânico dos moradores. 

Mas, não satisfeito com as medidas até então adotadas para enfrentar a Coluna Prestes, Floro Bartolomeu acabou por protagonizar um dos fatos mais pitorescos da passagem dos revoltosos pelo Ceará: resolveu convidar o cangaceiro Lampião, para combater os rebeldes e defender a legalidade.  Sediado em Campos Sales, cidade localizada no sul cearense, com seus batalhões de jagunços, Floro teria enviado um mensageiro portando uma carta para o “rei do cangaço” – carta referendada e assinada também por Padre Cícero – pedindo a presença do cangaceiro em Juazeiro.  

Padre Cícero e Floro Bartolomeu - a união entre religião e política no sertão do Ceará

Lampião por ser devoto de Padre Cícero, evitava atacar o Ceará, mas ao receber o convite do padre apressou-se a atendê-lo, chegando a Juazeiro com cerca de 50 homens, no inicio de março de 1926, quando a Coluna já havia deixado o Estado.  Naquela cidade, num único e marcante encontro, Lampião, após ser aconselhado por Padre Cícero a deixar aquela vida de bandidagem, comprometeu-se a combater a Coluna Prestes, recebendo armas, fardamentos e uma patente de capitão do Exército.

A presença de Lampião em Juazeiro provocou alvoroço. Uma multidão se formou para ver o famoso cangaceiro e seu bando. Lampião concedeu entrevistas, bateu fotos, ofertou esmolas à igreja local, recebeu visitas e foi agraciado com presentes, sem ser incomodado pela polícia. 
O bando deixou Juazeiro satisfeito, sobretudo com o documento que dava ao chefe a “patente” de capitão – o que correspondia ao perdão de seus crimes e a não ocorrência de mais perseguições por parte da polícia – que havia sido assinado a pedido de Padre Cícero pela única autoridade federal em Juazeiro: um agrônomo do Ministério da Agricultura, chamado Pedro Albuquerque Uchoa.

Conta-se que chamado mais tarde a Recife, para explicar tamanho absurdo, o agrônomo teria dito aos seus superiores que, naquelas circunstâncias, e com o medo que tinha de Lampião, ele teria assinado até a demissão do presidente Arthur Bernardes.

Contudo, Lampião não foi combater a Coluna Prestes. O cangaceiro, agora definitivamente nomeado Capitão Virgulino Ferreira, talvez tenha temido a fama de guerreiros dos tenentes, talvez tenha ficado irritado ao descobrir que a “patente” não tinha valor legal, portanto, não valia nada. Virgulino ainda tentou falar com Padre Cícero, mas este se recusou a recebê-lo novamente. 

O patriarca de Juazeiro foi duramente criticado pela imprensa de Fortaleza, a qual usou o episódio como prova da proteção que o padre fazia a criminosos. Apesar do acontecido, Lampião nunca perdeu o respeito nem a admiração que tinha por Padre Cícero. 

Padre Cícero Romão Batista

Em junho de 1927, Lampião voltou ao Ceará, após uma fracassada tentativa de saquear Mossoró, no Rio Grande do Norte. O bando ocupou Limoeiro do Norte, exigindo uma quantia em dinheiro como “resgate”.


bando de Lampião em Limoeiro do Norte 

Chegando a Limoeiro, e ciente de que pisava em terras cearenses, Lampião ordenou aos seus bandoleiros que nada roubassem, pois em solo em que pontificava o padre Cícero não era para ser atacado. Supersticioso, o cangaceiro tinha pelo velho padre verdadeiro fanatismo. Os fazendeiros cearenses foram por isso, poupados da sanha destruidora de Lampião e seu bando. Antes de atingir a cidade, Lampião hospedou-se na casa de fazenda do coronel Anísio Batista dos Santos na Lagoa da Rocha, distante da sede 36 quilômetros. No dia 15 de junho, Virgulino Ferreira encontrou-se com o prefeito, coronel Felipe Santiago, exigindo deste a quantia de 15 contos de Reis pelo resgate da cidade que fora quase que totalmente abandonada pela população. O prefeito expôs a situação ao vigário padre Vital Gurgel Guedes e a outras autoridades. Foi então feito um apelo ao cangaceiro para que reduzisse a quantia imposta, pois as pessoas de posses haviam se retirado para um lugar seguro diante da aproximação do bando.Lampião diminuiu para 6 contos de Réis, ao que as autoridades asseguraram ser impossível juntar, acrescentando que só dispunham de 2 contos, o que levou Sabino, valente cangaceiro, a dizer que aquilo era uma ninharia. Lampião notando a intromissão de Sabino sem que tivesse sido chamado a isso, aceitou os 2 contos sem protesto.

Dias após deixar Limoeiro, Lampião sofreu uma emboscada feita por 500 policiais, perdendo grande parte das provisões, munições e montarias. 
Com poucas armas, a pé na caatinga, os cangaceiros travaram em seguida outro tiroteio com a polícia, desta vez na Serra da Macambira, em Pernambuco. apesar da escassez de armamentos, os bandidos derrotaram centenas de policiais, fazendo aumentar nos sertões a lenda do “rei do cangaço”. Ajudados por coiteiros, os cangaceiros escaparam para os sertões de Pernambuco.    

A Outra Versão para o Encontro

Os fiéis juazeirenses até hoje reagem com indignação a esse relato do encontro entre Padre Cícero e Lampião. Segundo uma versão que veio a público em data recente, Lampião teria “ouvido falar” que Padre Cícero precisava de ajuda para combater os “revoltosos”, e compareceu espontaneamente a Juazeiro.
Pego de surpresa com a presença dos cangaceiros, e sem outras opções, Padre Cícero viu-se obrigado a hospedar Lampião, por temê-lo e para evitar um confronto do bando com a população.  Padre Cícero encontrou-se então, duas vezes com o rei do cangaço e não lhe teria dado nem as armas nem a “patente”, porque como prefeito, não tinha poderes para tanto. 

O secretário de padre Cícero Benjamim Abraão em fotos dos anos 1930 ao lado do bando de Lampião. O libanês registrou as únicas imagens fotográficas do cangaço.

Segundo ainda essa versão, foi o secretário de Padre Cícero, o libanês Benjamin Abraão, que teria sugerido, em tom de brincadeira, que a “patente” poderia ser dada pelo agrônomo. Vendo o interesse do cangaceiro, Abraão viu-se obrigado a convencer Pedro Uchoa a redigir o documento.  

Benjamim Abraão ao lado de Padre Cícero 

Também teria sido sua a ideia de confeccionar e dar fardamentos dos ”batalhões patrióticos” aos cangaceiros. Essa versão exime totalmente tanto o Padre Cícero quanto Floro Bartolomeu de qualquer responsabilidade na contratação dos serviços do bando de Lampião. 




sábado, 10 de dezembro de 2011

Monumento a Nossa Senhora da Paz


Localizado na Praça do Carmo junto ao patamar da respectiva igreja matriz, encontra-se um expressivo monumento dedicado a Nossa Senhora da Paz, em tamanho regular, sobre um pedestal de alvenaria.

A ideia da colocação do monumento partiu dos senhores Milton de Sousa Carvalho e Adolfo G. de Siqueira, sendo custeado por subscrição popular, em razão de um voto que fizera para que o estado voltasse à sua normalidade, diante de situações extraordinárias que então se passavam no campo político.

No início do ano de 1912 o Ceará, como outros estados da Federação, esteve envolvido em lutas internas que alteraram profundamente o seu mecanismo político-administrativo. Nesse ano tendo sido deposto o presidente Nogueira Accioly, assumiu o governo um dos seus vice-presidentes, para entregar meses depois, a direção do Estado ao coronel Marcos Franco Rabelo. 

Este ia em meio ao seu quadriênio presidencial quando irrompeu, em Juazeiro, um movimento sedicioso, chefiado pelo dr. Floro Bartolomeu,  sob o  manto protetor do Padre Cícero. Toda a região sul do estado foi, sem grande esforço, dominada pelos rebeldes que, dia a dia, se aproximavam da capital, ameaçando invadi-la a fim de tomarem as rédeas do poder das mãos do coronel Franco Rabelo.

Tal fato, como era natural, trouxe inquietação e muita apreensão aos moradores de Fortaleza, pois não se podiam avaliar os desatinos que seriam cometidos por uma horda de fanáticos, embora chefiados por homens de responsabilidades, mas que não teriam como mantê-los sob controle.

O governo legalmente constituído declarava-se desprovido de meios eficazes para reestabelecer a ordem, já tendo experimentado sérios reveses. Diante desse cenário, o governo federal  resolver intervir no estado, na forma do art. 6° n 2 da Constituição da República, e de uma hora para outra cessaram as hostilidades, e uma nova era de paz se iniciou.


A cidade de Fortaleza não foi atingida em sua integridade e o voto feito a N. S. da Paz era cumprido. A imagem da  santa veio de Paris, sendo seu assentamento feito pelo Sr. Luiz Gonzaga Flávio da Silva. No pedestal, em uma folha de livro aberto no mármore, lê-se:
Monumento
 a
N.S. da Paz
Adquirido por subscrição popular
 1912 – 1921
Em outra folha:
Erigido por iniciativa de Milton de Sousa Carvalho e Adolfo G. de Siqueira.

O monumento foi inaugurado em 24 de janeiro de 1921, dia em que a igreja católica consagra a santa homenageada.
Fonte
Eusébio de Sousa.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Governo Franco Rabelo e a Sedição de Juazeiro - Parte 2/2



Em agosto de 1913, Floro Bartolomeu, Thomaz Cavalcante, Nogueira Accioly e outros se reuniram no Rio de Janeiro com o Senador Pinheiro Machado com o objetivo de colocarem um ponto final no governo Franco Rabelo. 

Com a conivência do presidente Hermes da Fonseca (1910-1914) arquitetaram um plano relativamente simples: Floro Bartolomeu regressaria a Juazeiro e convocaria uma sessão extraordinária da Assembleia Legislativa. Ali seria questionada a ilegalidade do governo Rabelo e seria deliberada sua cassação. 

Em seguida seria eleito o novo presidente estadual que seria o próprio Floro Bartolomeu, caracterizando-se a dualidade de poderes – duas assembleias, dois presidentes – o governo federal decretaria intervenção no Ceará, provocando a renúncia de Rabelo.

Quando o complô começou a ser executado, Rabelo já sabia de tudo, devido a apreensão de armas e dinamite  na casa de um médico ligado às oposições, e da intercepção de uma carta enviada por João Brígido a Padre Cícero, contando os detalhes do golpe.


 Padre Cícero sempre negou qualquer participação direta ou indireta no movimento golpista que culminou com a deposição de Franco Rabelo
Padre Cícero e Floro Bartolomeu 

No mesmo dia da descoberta da carta, 9 de dezembro de 1913, iniciou-se a revolta. Jagunços de Floro, com o apoio de padre Cícero, depuseram o prefeito de Juazeiro, prenderam o pequeno contingente policial local e armaram a população. 

Dias depois foi instalada a Assembleia Legislativa Extraordinária, e Floro, conforme o plano, eleito “presidente legal” do Ceará. Confiante em suas atribuições, o novo governador transferiu, por decreto, a capital do estado de Fortaleza para Juazeiro. 

Um dia após ser informado dos acontecimentos em Juazeiro, Rabelo enviou, de trem especial, toda a força policial estadual sediada em Fortaleza – cerca de 500 homens – para a estação de Iguatu. Não ficou um só homem da guarda presidencial, o que atesta a confiança do governador no apoio da população de Fortaleza. 

De Iguatu as forças governistas seguiram para o Crato, distante 15 km de Juazeiro. Naquela localidade receberam reforços dos soldados ali estabelecidos e de vários jagunços enviados por coronéis aliados. Formou-se assim um batalhão com cerca de 1200 homens comandados pelo coronel Alípio Lopes de Lima Barros.

Juazeiro preparou-se para a defesa. Por sugestão de Antônio Villanova, ex-combatente de Canudos, homens, mulheres e crianças, muitos dos quais usando apenas as mãos, cavaram uma enorme vala de nove quilômetros de extensão em torno da cidade, o chamado “Circulo da Mão de Deus”. 

Fotografia da Sedição de Juazeiro, reação ao Governo de Franco Rabelo que partiu do Cariri em 1914, quando contingentes de sertanejos liderados pelo deputado Floro Bartolomeu e abençoados pelo Padre Cícero avançaram sobre Fortaleza (acervo do Museu do Ceará)

De todos os locais chegavam mais e mais camponeses, cangaceiros, jagunços e coronéis prontos para o enfrentamento. A Meca do Cariri formou um exército de cinco mil homens com armas, muitas delas improvisadas, muitos lutaram com facões ou velhas espingardas. 

O Padre Cícero mandava o povo rezar, apegar-se com Nossa Senhora das Dores antes de assumirem os postos; os sertanejos iam a igreja, rezavam o oficio e partiam para a luta cantando hinos religiosos.

Na madrugada de 20 de dezembro de 1913, as tropas rabelistas iniciaram a marcha para o primeiro ataque a Juazeiro, sob aplausos da população e em clima de festa. Contavam com uma vitória fácil, tranquila. No entanto, já no caminho, os rabelistas foram surpreendidos por ataques rápidos de grupos esparsos de camponeses, que conhecedores do terreno, se movimentavam com desenvoltura entre a caatinga. 

Após uma marcha extenuante, os combatentes pró-rabelo avistaram Juazeiro, protegida pelos valados e por milhares de romeiros. O combate durou 15 horas seguidas, ao fim das quais os rabelistas derrotados, retornaram ao Crato, com 84 baixas, entre mortos e feridos. A partir dessa primeira derrota, iniciaram-se as discórdias entre as forças do governo. 

O comandante Alípio Lopes, contrariando a vontade de Franco Rabelo, declarou que só faria novo ataque em condições seguras, optando pela estratégia do cerco para que os rebeldes se rendessem pela fome. 

 Quadro Sedição de Juazeiro (acervo do Museu do Ceará)

Depois se desentendeu com um dos “chefetes” Emílio Sá, que havia levado um canhão para o Crato, para apoiar a ofensiva. Em consequência Alípio Lopes foi chamado a Fortaleza e demitido. O comando das forças rabelistas passou para Ladislau Lourenço. 

Os homens do governo permaneceram quase um mês no Crato, aguardando reforços, armas e munições. O ânimo das forças legalistas estava em baixa: compostas na maioria por sertanejos, estes se mostravam apreensivos por lutarem em lado oposto ao de Padre Cícero. Para completar, surgiu o boato de que Nossa Senhora das Dores havia aparecido ao Pe. Cícero e teria dito que nenhuma bala seria capaz de ferir seus homens, e quem porventura fosse morto, ressuscitaria em três dias. 

Os boatos enchiam de desânimo os rabelistas e de entusiasmo os rebeldes. As deserções reduziram as tropas legalistas para cerca de 800 homens, que ficaram distribuídos de modo a fechar as saídas de Juazeiro no intuito de impedir as missões em busca de alimentos, que já faltava na cidade. Muita gente do patriarca perderia a vida nessas missões em busca de alimentos. Ninguém ressuscitou ao terceiro dia, pelo que se sabe. 

O ano de 1913 terminou com o conflito totalmente indefinido. No dia 22 de janeiro de 1914 as tropas de Rabelo resolveram fazer mais um – e último –  ataque direto. A investida foi igualmente um fracasso, e os governistas acabaram se retirando, desta vez para Barbalha. Ali o comandante Ladislau, abatido, derrotado e alcoolizado, deu ordem para seus homens debandarem. 

Cidade do Juazeiro em data não especificada (Arquivo IBGE)

Floro Bartolomeu então, partiu para a ofensiva. No dia 24 de janeiro, seus revolucionários – uma multidão de famintos e maltrapilhos – invadiram o Crato incendiando e saqueando as principais casas de comércio e as residências de simpatizantes de Rabelo. Um enorme comboio com material e comida, produto dos saques, ocupou a estrada em direção a Juazeiro. Apesar de o Padre Cícero haver condenado os roubos, Floro Bartolomeu apoiava e estimulava os saques, alegando que o vencedor tem direito aos bens do vencido.

Os revoltosos conquistaram Barbalha ainda em janeiro. Rabelo ainda conseguiu mandar uma nova expedição para Iguatu composta por 200 homens e liderada pelo capitão José da Penha. Travou-se uma luta sanguinária com numerosas baixas de ambos os lados, na qual os revoltosos tiveram de recuar para Afonso Pena (atual Acopiara). 

Foi a única batalha perdida pelos rebeldes. Mas no dia seguinte José da Penha foi morto numa emboscada, o que colocou em pânico os rabelistas. Os soldados amotinaram-se e desertaram. Os homens de Floro e Padre Cícero retomaram a ofensiva. Conquistaram o terminal ferroviário de Iguatu e rumaram para Fortaleza. As cenas se saques e agressões se sucediam nas cidades à margem da estrada de ferro: Senador Pompeu, Quixeramobim, Quixadá, Baturité, Redenção, Maranguape. 

Cidade do Juazeiro (arquivo IBGE)

A crescente aproximação das forças sediciosas provocou indignação e horror em Fortaleza. Os populares realizavam exaltados comícios na Praça do Ferreira, prometendo resistir. Fortaleza era uma praça de guerra, a vida da cidade parara por completo. Os empregados da Estrada de Ferro Baturité suspenderam  o trabalho e pegaram em armas, o mesmo fizeram os homens do mar, trabalhadores da praia, empregados do comércio, os carroceiros, enfim, pode-se afirmar que todo homem válido estava armado de carabina, defendendo a cidade. 

Nessa altura, Franco Rabelo, a Associação Comercial e as ordens religiosas enviaram telegramas desesperados ao  Centro-Sul do país e apelavam ao general Setembrino de Carvalho, comandante das tropas do exército no Ceará, para deter os fanáticos. 

Setembrino recusou, afirmando que a intervenção do exército só iria aumentar o conflito. Na verdade o que o comandante  queria mesmo era criar um clima propício a intervenção federal no Estado e a renúncia de Rabelo. Para pressioná-lo ainda mais, o governo federal enviou dois navios de guerra à Fortaleza.

No inicio de março de 1914, os homens de Juazeiro cercaram a capital, baixando acampamento em áreas próximas como Maracanaú, Maranguape e Soure (Caucaia). A possibilidade de a cidade ser invadida ou bombardeada pelos navios causou histeria em Fortaleza.
 
Finalmente, a 9 de março, Hermes da Fonseca decretou Estado de Sítio no Ceará, sendo os populares desarmados e suspensa a organização da policia estadual, de modo que o policiamento da capital passasse para o inspetor Setembrino de Carvalho. 

Cinco dias depois foi decretada a intervenção federal no Ceará, levando Franco Rabelo a renunciar. Setembrino de Carvalho foi empossado como interventor do Estado em 15 de março de 1914. 

O prestigio de Floro Bartolomeu e Padre Cícero ampliou-se, estendendo sua influência por todo o Nordeste. Uma multidão emocionada ovacionou Franco Rabelo na saída do palácio governamental, e ainda receberia muitas homenagens até embarcar para o Rio de Janeiro dias depois.  A sedição triunfara.

fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias