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domingo, 18 de setembro de 2016

O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto

Nas décadas iniciais do século XX surgiu no Cariri mais um movimento messiânico que, com base nos princípios cristãos, oração, fraternidade e trabalho coletivo, estabeleceu uma sociedade cooperativa de tendência igualitária, alternativa à estrutura latifundiária Nordestina, então em voga. Era chamado Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, comunidade liderada pelo beato José Lourenço, seguidor do Padre Cícero e praticante do catolicismo popular, típico do sertão do Nordeste.

o beato José Lourenço entre seu secretário Isaías (esquerda) e o repórter Luiz Maia
(foto O Nordeste) 

José Lourenço Gomes da Silva, nasceu em 1872, em Pilões de Dentro, sertão da paraíba. Filho de sertanejos pobres, aos 14 anos deixou a casa dos pais para tentar a sorte em outro lugar. Depois de algum tempo, retornou a Pilões de Dentro, quando descobriu que a família tinha ido para Juazeiro do Norte, no Ceará, atraída pelos milagres de Padre Cícero e da beata Maria de Araújo. Decidiu seguir também para a cidade do Cariri.

Chegou a Juazeiro por volta de 1891, onde reencontrou os familiares. Ali foi assimilando a religiosidade e a crença de Padre Cícero, seu guia espiritual. Lourenço incorpora as maneiras de agir, pensar e sentir do padre. Passa a fazer parte da ordem dos Penitentes da Santa Cruz, grupo religioso secreto, mas bastante conhecido em todo o Nordeste. A partir daí fica conhecido como beato Zé Lourenço.


Beato José Lourenço e a Santa Cruz do Deserto em 1937
(foto O Nordeste) 

Provavelmente em 1894, por conselho do Padre Cícero, José Lourenço, sua família e mais alguns romeiros arrendaram um lote de terra no Sitio Baixa Danta, de propriedade de um coronel chamado João de Brito, localizado na cidade do Crato. Solidário, Lourenço permite que outros romeiros venham morar no sítio. Sua casa fica rodeada por outras moradias habitadas por camponeses humildes. Ali os sertanejos encontram terras para o trabalho e condições melhores de vida.

Surgia, dessa forma, uma rústica comunidade. Em pouco tempo, o solo árido e empoeirado da fazenda transformou-se em produtor de cereais e frutas. Ao contrário das fazendas vizinhas, a produção era repartida igualmente entre todos os seus membros. As pessoas do sítio tinham o beato como líder. Todos respeitavam aquele negro alto, forte, dedicado, seguidor dos ensinamentos do Padre Cícero. Zé Lourenço, mesmo analfabeto, dava conselhos, determinava tarefas, ensinava práticas rudimentares de agricultura e medicina popular. Trabalhava como todos os demais, e a noite, com o hábito da Ordem dos Penitentes, dirigia as rezas, mesmo após um dia exaustivo de trabalho.

seguidores do Beato José Lourenço no Sítio Caldeirão. 
(quadro do acervo do Museu do Ceará) 

Em 1926, João de Brito decidiu vender o Sítio Baixa Danta. O novo proprietário exigiu de imediato que Lourenço e a comunidade deixassem as terras. O beato e os demais se retiraram sem nenhuma indenização ou compensação pelas melhorias as quais transformaram aquela área em uma das mais prósperas da região, em mais de duas décadas de trabalho.

Provavelmente no mesmo ano, Padre Cícero resolveu alojar o beato e os moradores em uma grande fazenda de sua propriedade, denominada Caldeirão dos Jesuítas. Situada na cidade do Crato, nas encostas da Chapada do Araripe, com uma área em torno de 880 hectares, a fazenda tinha esse nome devido a existência no local de uma depressão natural de pedra, capaz de acumular água. 

Padre Cícero
Ao chegar ao Caldeirão, o beato só encontrou mato e pedra. Os camponeses então, iniciaram novo trabalho comunitário, igual ao antes praticado no Baixa Danta. Uma das primeiras edificações foi a casa do beato, que ficou conhecida como a casa-grande por ser bem maior que as habitações construídas posteriormente. Essa casa foi feita de tijolos e coberta com telhas, enquanto as outras que foram surgindo, eram feitas de taipa e cobertas de palha ou telha. O piso era de terra batida.

Ergueram também barragens, cercas, armazéns, engenhoca, casa de farinha, sistemas de irrigação e reservatórios de águas. Cultivavam cereais e frutas e a criavam animais domésticos. O trabalho em pouco tempo, começou a apresentar resultados positivos. Posteriormente, em consequência da chegada de novos moradores, a comunidade foi ganhando novas atividades produtivas: pedreiros, carpinteiros, ferreiros, artesãos que trabalhavam com cerâmica, couro, flandres, etc.

Assim, o Caldeirão foi ganhando um caráter praticamente autossuficiente, pois fabricava quase tudo de que precisava.  Tudo era coordenado pelo beato e por algumas pessoas de sua confiança, como Isaías, uma espécie de secretário.  A obra de Zé Lourenço toma, em menores proporções demográficas, a dimensão social da comunidade religiosa de Antônio Conselheiro.

Criou-se uma sociedade igualitária, de sistema econômico coletivo, que impunha a seus membros a cooperação para assegurar uma existência digna e as condições de sobrevivência. Durante a seca de 1932, enquanto milhares morriam de fome e doenças por todo o Nordeste, o Caldeirão foi uma exceção. A comunidade abriu os depósitos de víveres, acolhendo e alimentando centenas de retirantes. Durante os 23 meses de estiagem, a comunidade sustentou cerca de 500 pessoas que, em sua maioria, decidiram depois se fixar na fazenda.

Após a morte do Padre Cícero, em 1934, muitos passaram a considerar o beato Zé Lourenço como sucessor daquele, e ante a notória prosperidade da fazenda, a ela corriam cada vez mais contingentes de pobres. Nesse período começaram as romarias para o Caldeirão. As romarias, o crescimento demográfico e a grande influência de José Lourenço não tardaram a chamar a atenção das elites sobre o “núcleo de fanáticos”. Assim, a igreja, os coronéis e o Estado começaram a se articular para a destruição do Caldeirão. 

Interventor Menezes Pimentel, o chefe de Polícia Cordeiro Neto e o bispo do Crato Dom Francisco de Assis Pires 

Em fevereiro de 1935 reuniram-se em Fortaleza o interventor Menezes Pimentel, o Secretário de Estado Andrade Furtado, o chefe de Polícia, capitão Cordeiro Neto, o deputado Norões Milfont e o bispo do Crato Dom Francisco de Assis Pires. Deliberaram pela destruição do lugar através de ação militar. Antes, enviaram em missão sigilosa o capitão José Bezerra, com a incumbência de descobrir os segredos e armadilhas do lugar. José Bezerra, disfarçado de “comprador de algodão” foi recebido cordialmente por Zé Lourenço, que lhe diz que não poderia vender a produção de algodão, porque estava sendo utilizada e consumida na própria comunidade. Ao regressar, José Bezerra fez um metódico relatório ao governo, dando conta do fanatismo e do terrível perigo representado pelo Caldeirão. 

ruínas da casa onde morava o beato José Lourenço no sítio Caldeirão
foto Diário do Nordeste 

A 9 de setembro de 1936, uma expedição de polícia militar seguiu para o Cariri. Para despistar, divulgou-se que os policiais iriam para Mossoró, no RN. Mas o beato foi avisado da eminente chegada da tropa e fugiu para o alto da serra do Araripe. Os soldados iam preparados para a luta, porém, quando invadiram a fazenda na manhã do dia 10 de setembro de 1936, os sertanejos, assustados, não ofereceram nenhuma resistência. São conduzidos a empurrões e socos e pontapés para a casa do beato; os policiais gritavam, apontavam armas, davam voz de prisão.

O capitão Cordeiro Neto explicou aos sertanejos o que viera fazer: era preciso que voltassem ao seu lugar de origem, levando suas posses e bens, pois o Estado do Ceará não permitiria mais a existência daquele agrupamento de fanáticos. As famílias deveriam abandonar o Sítio em cinco dias, e os solteiros, em três dias. O general ofereceu aos camponeses passagens de trens e navio; estes recusaram. Propôs então que pegassem seus bens e partissem. Os sertanejos responderam que nenhum deles tinham posses ali, porque todos os bens eram coletivos. 



Cordeiro Neto chega então a uma decisão: destruir as estruturas físicas da fazenda e simplesmente expulsar os camponeses. A polícia saqueou e incendiou os cerca de 400 casebres e o armazém da comunidade. O grupo de policiais que fica no Caldeirão dispersa a população. Muitas famílias do Caldeirão se dirigiram para a serra do Araripe, reencontrando o beato e formando nova comunidade, espalhada por quase dois quilômetros entre a Mata dos Cavalos e o Curral do Meio.

Um dos membros da comunidade, chamado Severino Tavares, que havia sido preso e trazido para Fortaleza durante a expulsão, foi posto em liberdade e retornou ao Cariri, juntando-se com o novo núcleo comunitário. Em conjunto com outros camponeses, passou a defender ações radicais, mais precisamente, um ataque à cidade do Crato com o objetivo de obter armas e munições visando a defesa da comunidade em futuros ataques. Armaram, então, uma cilada para atrair a polícia.

Um homem chamado Sebastião Marinho, informou à polícia do Crato que o beato pretendia retornar ao Caldeirão, enquanto um deputado enviou um telegrama urgente comunicando que os fanáticos pretendiam invadir o Crato. O chefe de polícia deu ordem para que a força policial de Juazeiro, sob o comando do capitão José Bezerra, tomasse providências a respeito.

Em maio de 1937, o capitão Bezerra, acompanhado de um pequeno contingente de 18 praças, viajaram num caminhão que foi deixado no local conhecido por Cruzeiro, onde também ficou parte do contingente. Bezerra e os demais militares seguiram a pé. De repente, foram atacados pelos sertanejos. A luta corpo a corpo foi bastante violenta, entre o capitão e seis soldados de um lado, e cerca de 100 fanáticos, armados de rifles, espingardas, foices e cacetes sob a chefia de Severino Tavares. Somente dois sargentos sobreviveram, porque mesmo feridos, arrastaram-se até o caminhão, fugindo e sendo recolhidos ao hospital do Crato.

A notícia do fracasso da força policial causou pânico entre as elites. Segmentos sociais e autoridades condenaram de forma enfática a emboscada. No mesmo dia, seguiram para a Chapado do Araripe o restante da tropa estacionada em Juazeiro, cerca de 30 homens comandados pelo tenente Assis Pereira. Três aviões partiram de Fortaleza sob o comando do capitão José Macedo, com grande quantidade de armas e munições, conduzindo também o chefe de polícia Cordeiro Neto para Juazeiro.

As aeronaves sobrevoam a serra e metralham as barracas da nova comunidade, além de lançarem granadas. A chacina, no entanto, não seria feita pelo ar, mas por terra. No dia 12 de maio de 1937, duzentos militares com armas em punho, atacaram os ex-habitantes do Caldeirão. Aconteceu ali uma das mais bárbaras e covardes chacinas da história do Ceará. Não se faziam prisioneiros. Adultos, crianças, velhos, eram barbaramente atingidos com tiros e golpes de baionetas. Os soldados fincavam as baionetas com tanta força que tinham de usar os pés para retirá-las.

 das várias construções edificadas no Sítio Caldeirão restam a pequena capela de Santo Inácio de Loyola, relativamente conservada, e poucas casas em ruínas. Quanto à árida paisagem de entorno, esta permaneceu praticamente inalterada. (Foto Secult) 

Não se sabe até hoje o número exato de vítimas do massacre. Há quem especule entre 300 e 1000 mortos. Os soldados juntaram os cadáveres, incinerando alguns com gasolina numa grande fogueira e enterrando outros em valas coletivas. A ação militar continuou ainda por alguns meses, a polícia continuou na serra, prendendo, procurando, torturando e assassinando suspeitos de serem provenientes do Caldeirão.

Os familiares e descendentes dos mortos nunca souberam onde encontram-se os corpos, pois as autoridades responsáveis pela operação nunca informaram o local onde  foram enterrados. Presume-se que a vala coletiva se encontra no Caldeirão ou na Mata dos Cavalos, na Serra do Cruzeiro, na região do Cariri.

José Lourenço fugiu para Pernambuco, onde morreu aos 74 anos, de peste bubônica, tendo sido levado por uma multidão para Juazeiro, onde foi enterrado no cemitério do Socorro. Ali, segundo a história oral, teriam os sertanejos pedido ao vigário da cidade, monsenhor Joviniano Barreto, que celebrasse uma missa para o beato. Receberam a seguinte resposta: Eu não celebro missa para bandido.
                   

Extraído do livro 
História do Ceará, de Airton de Farias

 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Encontros Inusitados: Padre Cícero x Lampião x Coluna Prestes

A Coluna Prestes foi um movimento encabeçado por líderes tenentistas, ocorrido entre os anos de 1925 a 1927.  O movimento deslocou-se pelo interior do país pregando reformas políticas e sociais e combatendo o governo oligárquico do presidente Arthur Bernardes (1922 – 1926), que governou o País sob constante estado de sítio.  

Em sua marcha pelo Brasil, os integrantes da Coluna Prestes denunciavam a miséria da população e a exploração das camadas mais pobres pelos líderes políticos.

Alguns membros da Coluna Prestes em sua passagem pelo Ceará

Sob o comando principal de Miguel Costa e de Luis Carlos Prestes, a Coluna enfrentou as tropas regulares do Exército ao lado de forças policiais dos vários Estados por onde passou, além de tropas de informais formadas por jagunços e outros “fora-da-lei”, que partiam para o confronto, estimulados por promessas oficiais de anistia. 
Durante dois anos e meio a Coluna Prestes percorreu 25.000 km pelo interior do Brasil. Apesar dos esforços, não conseguiu sensibilizar a população que, influenciada pela propaganda oficial, temia a presença dos revolucionários em seu território.

Por volta de 1925 rumores davam conta de que a Coluna Prestes se aproximava do Ceará. Diante disso, o governo federal encarregou o deputado federal Floro Bartolomeu de organizar a defesa do território cearense. 
Em dezembro de 1925, Floro chegou a Juazeiro trazendo armas, munição e dinheiro para organizar os chamados “batalhões patrióticos”, cujos componentes eram jagunços enviados por latifundiários da zona sul cearense. Com a proximidade dos tenentes, vários núcleos urbanos se despovoaram tamanho era o pânico dos moradores. 

Mas, não satisfeito com as medidas até então adotadas para enfrentar a Coluna Prestes, Floro Bartolomeu acabou por protagonizar um dos fatos mais pitorescos da passagem dos revoltosos pelo Ceará: resolveu convidar o cangaceiro Lampião, para combater os rebeldes e defender a legalidade.  Sediado em Campos Sales, cidade localizada no sul cearense, com seus batalhões de jagunços, Floro teria enviado um mensageiro portando uma carta para o “rei do cangaço” – carta referendada e assinada também por Padre Cícero – pedindo a presença do cangaceiro em Juazeiro.  

Padre Cícero e Floro Bartolomeu - a união entre religião e política no sertão do Ceará

Lampião por ser devoto de Padre Cícero, evitava atacar o Ceará, mas ao receber o convite do padre apressou-se a atendê-lo, chegando a Juazeiro com cerca de 50 homens, no inicio de março de 1926, quando a Coluna já havia deixado o Estado.  Naquela cidade, num único e marcante encontro, Lampião, após ser aconselhado por Padre Cícero a deixar aquela vida de bandidagem, comprometeu-se a combater a Coluna Prestes, recebendo armas, fardamentos e uma patente de capitão do Exército.

A presença de Lampião em Juazeiro provocou alvoroço. Uma multidão se formou para ver o famoso cangaceiro e seu bando. Lampião concedeu entrevistas, bateu fotos, ofertou esmolas à igreja local, recebeu visitas e foi agraciado com presentes, sem ser incomodado pela polícia. 
O bando deixou Juazeiro satisfeito, sobretudo com o documento que dava ao chefe a “patente” de capitão – o que correspondia ao perdão de seus crimes e a não ocorrência de mais perseguições por parte da polícia – que havia sido assinado a pedido de Padre Cícero pela única autoridade federal em Juazeiro: um agrônomo do Ministério da Agricultura, chamado Pedro Albuquerque Uchoa.

Conta-se que chamado mais tarde a Recife, para explicar tamanho absurdo, o agrônomo teria dito aos seus superiores que, naquelas circunstâncias, e com o medo que tinha de Lampião, ele teria assinado até a demissão do presidente Arthur Bernardes.

Contudo, Lampião não foi combater a Coluna Prestes. O cangaceiro, agora definitivamente nomeado Capitão Virgulino Ferreira, talvez tenha temido a fama de guerreiros dos tenentes, talvez tenha ficado irritado ao descobrir que a “patente” não tinha valor legal, portanto, não valia nada. Virgulino ainda tentou falar com Padre Cícero, mas este se recusou a recebê-lo novamente. 

O patriarca de Juazeiro foi duramente criticado pela imprensa de Fortaleza, a qual usou o episódio como prova da proteção que o padre fazia a criminosos. Apesar do acontecido, Lampião nunca perdeu o respeito nem a admiração que tinha por Padre Cícero. 

Padre Cícero Romão Batista

Em junho de 1927, Lampião voltou ao Ceará, após uma fracassada tentativa de saquear Mossoró, no Rio Grande do Norte. O bando ocupou Limoeiro do Norte, exigindo uma quantia em dinheiro como “resgate”.


bando de Lampião em Limoeiro do Norte 

Chegando a Limoeiro, e ciente de que pisava em terras cearenses, Lampião ordenou aos seus bandoleiros que nada roubassem, pois em solo em que pontificava o padre Cícero não era para ser atacado. Supersticioso, o cangaceiro tinha pelo velho padre verdadeiro fanatismo. Os fazendeiros cearenses foram por isso, poupados da sanha destruidora de Lampião e seu bando. Antes de atingir a cidade, Lampião hospedou-se na casa de fazenda do coronel Anísio Batista dos Santos na Lagoa da Rocha, distante da sede 36 quilômetros. No dia 15 de junho, Virgulino Ferreira encontrou-se com o prefeito, coronel Felipe Santiago, exigindo deste a quantia de 15 contos de Reis pelo resgate da cidade que fora quase que totalmente abandonada pela população. O prefeito expôs a situação ao vigário padre Vital Gurgel Guedes e a outras autoridades. Foi então feito um apelo ao cangaceiro para que reduzisse a quantia imposta, pois as pessoas de posses haviam se retirado para um lugar seguro diante da aproximação do bando.Lampião diminuiu para 6 contos de Réis, ao que as autoridades asseguraram ser impossível juntar, acrescentando que só dispunham de 2 contos, o que levou Sabino, valente cangaceiro, a dizer que aquilo era uma ninharia. Lampião notando a intromissão de Sabino sem que tivesse sido chamado a isso, aceitou os 2 contos sem protesto.

Dias após deixar Limoeiro, Lampião sofreu uma emboscada feita por 500 policiais, perdendo grande parte das provisões, munições e montarias. 
Com poucas armas, a pé na caatinga, os cangaceiros travaram em seguida outro tiroteio com a polícia, desta vez na Serra da Macambira, em Pernambuco. apesar da escassez de armamentos, os bandidos derrotaram centenas de policiais, fazendo aumentar nos sertões a lenda do “rei do cangaço”. Ajudados por coiteiros, os cangaceiros escaparam para os sertões de Pernambuco.    

A Outra Versão para o Encontro

Os fiéis juazeirenses até hoje reagem com indignação a esse relato do encontro entre Padre Cícero e Lampião. Segundo uma versão que veio a público em data recente, Lampião teria “ouvido falar” que Padre Cícero precisava de ajuda para combater os “revoltosos”, e compareceu espontaneamente a Juazeiro.
Pego de surpresa com a presença dos cangaceiros, e sem outras opções, Padre Cícero viu-se obrigado a hospedar Lampião, por temê-lo e para evitar um confronto do bando com a população.  Padre Cícero encontrou-se então, duas vezes com o rei do cangaço e não lhe teria dado nem as armas nem a “patente”, porque como prefeito, não tinha poderes para tanto. 

O secretário de padre Cícero Benjamim Abraão em fotos dos anos 1930 ao lado do bando de Lampião. O libanês registrou as únicas imagens fotográficas do cangaço.

Segundo ainda essa versão, foi o secretário de Padre Cícero, o libanês Benjamin Abraão, que teria sugerido, em tom de brincadeira, que a “patente” poderia ser dada pelo agrônomo. Vendo o interesse do cangaceiro, Abraão viu-se obrigado a convencer Pedro Uchoa a redigir o documento.  

Benjamim Abraão ao lado de Padre Cícero 

Também teria sido sua a ideia de confeccionar e dar fardamentos dos ”batalhões patrióticos” aos cangaceiros. Essa versão exime totalmente tanto o Padre Cícero quanto Floro Bartolomeu de qualquer responsabilidade na contratação dos serviços do bando de Lampião. 




quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Padre Cícero – Parte 3/3

foto: Diário do Nordeste

Quando foi obrigado a deixar Juazeiro por imposição do bispo D. Joaquim, Padre Cícero permaneceu quase três meses em Salgueiro, Pernambuco. Nesse período concluiu que a última esperança de pôr fim as perseguições que vinha sofrendo por parte das autoridades eclesiásticas, era explicar as atitudes pessoalmente em Roma. 

Voltou para Juazeiro e preparou a viagem. Com o auxilio financeiro de vários amigos seguiu para a Europa em fevereiro de 1898. Em Roma, permaneceu por nove meses. Apresentou-se ao Santo Ofício como um sacerdote pobre, com a obrigação de sustentar a família.
 
Relatou as injustas punições sofridas e os milagres de Juazeiro, declarando-se inocente de qualquer crime e afirmando acatar toda determinação da Igreja. 

Padre Cícero esperou em Roma, por várias semanas  pela decisão do Santo Ofício, até que em setembro de 1898 saiu finalmente o veredito:  o tribunal religioso mantinha a condenação do milagre, a proibição de pregar, ministrar a confissão, aconselhar fiéis, etc. Mas lhe permitiu voltar para casa e – dependendo da concordância do bispo cearense –  celebrar missa. 

O padre retornou a Juazeiro em 1898; D. Joaquim, após muita protelação, temendo uma revolta popular, concedeu a licença para celebrar missas, exceto em Juazeiro e nos arredores, uma forma de coagir o Padre Cícero a deixar a cidade, o que nunca aconteceu.

A partir daí o Padre Cícero põe em prática uma estratégia de ação que daria novos rumos à sua vida. Embora continuasse envolvido com os romeiros, procurou se fortalecer antes as investidas das altas autoridades da igreja católica romana. 


foto: Estadão

Para tanto, aproxima-se das ordens religiosas não subordinadas ao bispado no Ceará, como a ordem dos Salesianos. Ao mesmo tempo, aliou-se definitivamente aos políticos e coronéis do Cariri, e às oligarquias dominantes, como a de Nogueira Accioly, que então governava o Ceará. 

Padre Cícero tentava controlar as manifestações religiosas mais radicais (o excesso de fanatismo religioso, que tanto assustava aos setores urbanos), e oferecer um enorme contingente eleitoral (os famosos currais eleitorais que ainda hoje são encontrados em alguns municípios cearenses). 

Os fiéis sob influência de padre Cícero votariam em peso nas oligarquias – desde que ele assim determinasse. Em troca, desejava não só a preservação de Juazeiro, mas benefícios de ordem material para a cidade, e apoio contra as perseguições religiosas movidas pela alta cúpula da igreja.

O padre estruturou ainda um poderoso esquema econômico. Seus inimigos não enfrentariam mais “um pobre e humilde sacerdote suspenso das ordens”, mas um poderoso senhor de terras, detentor de prestígio e muito dinheiro.

Passou a influenciar outros latifundiários, a controlar grupos de jagunços, a reivindicar o direito de nomear ocupantes de cargos públicos. Os críticos desse novo Padre Cícero passaram a chamá-lo de coronel de batinas.

O padre agia como um autêntico conciliador da luta de classes, a favor da ordem dominante. Possuindo o respeito e a admiração das classes populares, auxiliava as massas, arranjando-lhes trabalho, terra, dinheiro, ou dando conselhos e orientação espiritual.


vendedores de corda em juazeiro (foto IBGE)

Em troca, os sertanejos não mediam esforços para defender  “Padim Ciço”, sem questionar a estrutura social assentada no latifúndio e as ligações do próprio padre com as classes proprietárias. Suas ambições pessoais e políticas eram limitadas ao meio em que vivia. 

A prova é que Padre Cícero foi eleito vice-governador e deputado federal, mas nunca foi tomar posse. Não apenas por razões de saúde, mas para permanecer em Juazeiro, ao lado dos romeiros que o adoravam e o respeitavam. 

O padre exerceu o cargo de prefeito de Juazeiro, sendo destituído pelo sucessor de Nogueira Accioly, Governador Franco Rabelo.


casa na zona rural de Juazeiro (foto IBGE)

Nos últimos anos de vida padre Cícero tornou-se obcecado em recuperar os plenos poderes do sacerdócio, o que jamais conseguiu. Pensou em ir a Roma novamente, mas as condições físicas não lhe permitiam. 

Em 1914 o Crato foi escolhido como sede do novo bispado do Cariri, preterindo Juazeiro em razão da presença do padre Cícero, que nos anos anteriores lutara bastante para fazer de sua cidade sede episcopal. Foi uma grande derrota para o padre que acreditava que, sendo a diocese instalada em Juazeiro, ficaria mais fácil recuperar as ordens sacerdotais. 

rua em Juazeiro (foto IBGE)

O episódio reacendeu a rixa entre Crato e Juazeiro, e para amenizar a situação, o primeiro bispo da região restituiu ao padre o poder de celebrar missas, mas impondo uma série de restrições: não podia receber romeiros em casa, nem dar benção ou benzer artigos religiosos, batizar crianças ou estimular peregrinações.

O bispo criou ainda a paróquia de Nossa Senhora das Dores em Juazeiro, o que foi alvo de muita comemoração da cidade e do patriarca. A alegria, porém, duraria pouco. Por essa época, várias vezes, Roma decretara a excomunhão de Padre Cícero. A diocese do Crato, jamais cumpriu tais decretos temendo a reação popular. 

No ano de 1921, padre Cícero foi novamente proibido de celebrar missa. A indignação dos fiéis foi geral, e culparam o vigário de Juazeiro, Padre Esmeraldo, que teria feito intrigas contra Padre Cícero. Intimidado Padre Esmeraldo renunciou, irritando o bispo do Crato e enterrando de vez, qualquer possibilidade de reconciliação.

Depois da revolução de 1930, Padre Cícero perdeu o poder político, tornando-se apenas mais um coronel derrotado pelo getulismo, até seu retrato foi retirado da prefeitura de Juazeiro.


Na manhã de 20 de julho de 1934, aos 90 anos, Padre Cícero faleceu. O filho de um dos secretários particulares do patriarca Lourival Marques, fez um relato que dá a dimensão da dramaticidade daquele dia.

Acordei pelo tropel de gente que corria pela rua. Fiquei sem saber a que atribuir aquelas carreiras insólitas. Quando cheguei à janela tive a impressão de que alguma coisa monstruosa sucedia na cidade. Que espetáculo horroroso, esse de mulheres alucinadas, correndo pelas ruas afora, chorando, gritando, arrepelando-se...foi então que se soube...O Padre Cícero falecera...Eu, sem ser fanático, senti uma vontade louca de chorar, de sair aos gritos, como toda aquela gente, em direção à casa desse homem, que não teve igual em bondade e nem teve igual em ser caluniado. 

Um caudal de mais de 40 mil pessoas atropelava-se, esmagava-se na ânsia de chegar à casa do reverendo. (...) dezenas de caminhões superlotados, milhares e milhares de pessoas á pé, marchavam para aqui. 

Juazeiro viveu e está vivendo horas que nem Londres, nem Nova York viverão jamais...O povo, uma horda enorme, invadiu tudo, derrubando quem se pôs de permeio, quebrando portas, passando por cima de tudo. Pediu-se reforço à polícia, mas o delegado recusou, alegando que o padre era do povo e continuava a ser do povo.

Mas de 60 mil pessoas acompanharam o enterro do padre. O corpo foi enterrado no altar da capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (a capela do cemitério), construída por iniciativa do próprio padre e que virou local de visita obrigatória dos romeiros –  que acreditam que ao tocar com as mãos ou objetos a lápide do túmulo, estão sendo abençoados pelo Padim.

foto: Estadão
A questão do “milagre” diluiu-se com o tempo. A hierarquia da igreja católica buscou aproximar-se dos romeiros, e desde a década de 1960 começou a aceitar as peregrinações como expressão da espiritualidade popular. 

A crença em Padre Cícero e em seus poderes deixou de ser combatida, ainda que a igreja não o aceite como “santo milagreiro”. 

A igreja o perdoou, a elite transformou-o em mito, o povo em santo, e a história em polêmica.
Nunca houve na história do Ceará uma figura mais controvertida do que Padre Cícero Romão Batista.



Pesquisa:
FARIAS, Airton. História do Ceará. Fortaleza: Edições Livro Técnico, 2009-5ª.edição, 400p.
OLIVEIRA, Amália Xavier de. O Padre Cícero que eu conheci: a verdadeira história de Juazeiro do Norte. 3.ed. Recife: FJN. Ed. Massangana, 1981. 344p.
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,padre-cicero-mil-e-uma-faces-de-um-mito-da-fe-nacional,476885,0.htm