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quarta-feira, 13 de setembro de 2023

A Criação da Escola Militar de Fortaleza

 

Praça da Bandeira - postal de 1955

A Escola Militar foi fundada a 1° de fevereiro de 1889, e segundo alguns cronistas trouxe à Fortaleza uma das épocas mais agitadas em termos políticos e sociais. Foi instalada inicialmente nos fundos do quartel do 11° Batalhão de Infantaria, atual quartel da 10ª Região Militar. Foram matriculados 700 alunos, entre efetivos e adidos. Como não havia internato, formaram-se várias “repúblicas” espalhadas pela cidade.

Em seguida a escola passou a ocupar o prédio localizado na Avenida Santos Dumont, construído com recursos do Barão de Ibiapaba, que inicialmente seria destinado ao funcionamento de um asilo de mendicidade. Depois de concluído, ficou dois anos abandonado, até ser doado pelo Presidente do Ceará ao Governo Federal para instalação da Escola Militar.

Quando a noite chegava, depois das 21 horas e a cidade sossegava, os cadetes tomavam conta da capital. Praticavam atos absurdos, contra pessoas e contra o patrimônio público. Atacavam moças, agrediam rapazes, consumiam em cafés e restaurantes e não pagavam, invadiam festas particulares e sessões de cinemas, roubavam aves dos quintais das residências, e obrigavam as patrulhas policiais a pegar jumentos nos cercados para realizar suas farras noturnas.

A 16 de novembro daquele ano, ajudaram a proclamar a República no Ceará, que culminou com a deposição do presidente da província, coronel Jerônimo Rodrigues de Moraes Jardim.

Em 1892, dia 16 de fevereiro, fortemente armados, e em companhia de outras forças militares, atacaram o Palácio do governo e depuseram, depois de uma noite de combate, o governador José Clarindo de Queiroz, evento que contabilizou 13 mortes e muitos feridos.

Em 1897 os cadetes organizaram um bloco de carnaval denominado “Clube dos Gaiolas” que sobressaltou a cidade. Composto exclusivamente de alunos da Escola Militar, o clube tinha sede na Rua Senador Pompeu, em prédio ocupado à revelia do proprietário. Roubaram carroças do Passeio Público, sinos das igrejas, cadeiras, caixões para armações de cenários de vários estabelecimentos.

O clube ia sair à rua no domingo. Na véspera começaram a pegar jumentos. A polícia, sabedora que os cadetes iriam exibir carros com críticas às autoridades, exigiu um visto prévio ao desfile. Os cadetes, porém, não deram confiança. E saíram no dia e hora marcados. Indisciplinados e rebeldes, os cadetes faziam o que bem entendiam.

O comandante era o Coronel Siqueira de Menezes, militar de carreira, austero, disciplinador, sendo por isso malvisto pelos alunos. Um dia, resolveram que não iriam subordinar-se mais ao seu comandante, e aclamaram em seu lugar no comando da escola, o major Faustino. Em seguida, telegrafaram ao presidente da República, que concordou com a mudança, e ordenou a Siqueira de Menezes que retornasse ao Rio de Janeiro, então capital federal. E assim os rapazes da Escola Militar tiveram sua vitória, e seguiram com sua trajetória de vandalismo com maior intensidade, alarmando os pacatos fortalezenses, que acordavam sobressaltados à espera de mais alguma travessura que normalmente terminava com grandes prejuízos para alguém.

1930 - imagem Internet

imagem: mapa cultural de Fortaleza

A Escola Militar de Fortaleza foi extinta pela lei Geral 463, de 25 de novembro de 1897. O prédio que ocupavam, abrigou diversas instituições a partir de 1898, como o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, a Força Pública do Estado, e o 9º Regimento de Artilharia Montada que ficou até 1919.

Com a criação do Colégio Militar o prédio lhe foi entregue, e em 1938, foi transformado em Colégio Floriano, ficando ali até 1941.

Em 1942, foi criada a Escola Preparatória de Fortaleza, que foi extinta em 1961, quando foi restabelecido o Colégio Militar que reiniciou suas atividades em 1962.


Fontes:

Raimundo de Menezes – Coisas que o Tempo Levou: crônicas históricas da Fortaleza Antiga

Antônio Bezerra de Menezes – Descrição da Cidade de Fortaleza

   

sábado, 23 de maio de 2020

O Atribulado Governo Franco Rabelo - 1912 - 1914


Depois da atribulada deposição de Antônio Pinto Nogueira Accioly, o maior de todos os nossos oligarcas que governou até 24 de fevereiro de 1912, quando teve de renunciar à presidência do Estado em razão de forte pressão popular, e para completa libertação do Ceará do domínio da oligarquia, foram buscar o coronel Marcos Franco Rabelo, ilustre militar cearense.

Praça Marquês de Herval (atual José de Alencar), reformada no governo de Accioly/Guilherme Rocha (foto arquivo Nirez)

Franco Rabelo sentou praça como segundo-cadete no 15º Batalhão de Infantaria na Escola Militar do Rio de Janeiro em 10 de setembro de 1879. No Exército, além da carreira militar atuou como professor de várias escolas militares, e só deixou a instituição em 1912, para candidatar-se ao Governo do Ceará. Portanto, Rabelo não tinha nenhuma experiência política ou administrativa. Acrescente-se a isso as reservas feitas à sua indicação pelo Senador Pinheiro Machado, cuja influência alcançava todo o país.

Eleito por esmagadora votação, Franco Rabelo iria encontrar a primeira grande dificuldade no reconhecimento de sua eleição por parte da Assembleia Legislativa, onde a oposição era maioria. Superado o impasse, o novo governador haveria de enfrentar outros grandes obstáculos. 

Na Rua Barão do Rio Branco foi erguido um Arco do Triunfo para recepcionar o Coronel Franco Rabelo - 1912. Foto do livro Ah, Fortaleza!

O maior deles foi enfrentar a feroz oposição que vinha do interior do Estado, formado por correligionários do oligarca deposto, inconformados com a perda de poder e privilégios que há muito desfrutavam. O quartel general dessa oposição foi montado em Juazeiro do Norte, e seu comandante era ninguém menos que o famoso Padre Cícero, o santo venerado pelos romeiros, o coronel de batinas reconhecido em todo o Estado. Aos chefetes do interior, que se apoiavam em grupos de capangas armados que mantinham sob seu comando, juntaram-se os políticos descontentes da capital, formando um grupo antagonista de força considerável.

Uma multidão se concentrou em frente a Sede do Tiro de Guerra, na Rua General Sampaio, para recepcionar o coronel Franco Rabelo (foto do livro Ah, Fortaleza!)

Durante o governo de Franco Rabelo, Ildefonso Albano foi nomeado Intendente de Fortaleza.  Em sua gestão procurou continuar o processo modernizador da cidade e civilizatório da população, com a remodelação de praças e logradouros. A Praça General Tibúrcio foi uma das beneficiadas. Devido a sua localização, na vizinhança do Palácio do Governo, o novo intendente se indignava com o fato dela ter sido transformada em depósito de materiais e de pastagens para animais. O projeto exigiu a desapropriação de várias casas em redor da praça, formando o atual quadrilátero. Por ordem do Intendente, a praça foi ajardinada, recebeu coreto, bancos importados e 49 novos combustores, que tornaram a Praça General Tibúrcio, a mais iluminada da capital, além de novos gradis e as estátuas dos leões, esculpidos em bronze e importados de Paris.

Albano promoveu a reforma da Cadeia Pública e o novo sistema penitenciário com base na criminologia moderna e práticas humanitárias – nesse período, a cadeia passou por reforma interna – iluminação e reconstrução de oficinas – artefatos diversos, carpintaria e calçados como atividades regenerativas dos presos, além de aulas de catequese. A polícia passava por mudanças visando melhorar a imagem formada pela repressão da oligarquia aciolina. Discutia-se a reformulação do Sistema Penitenciário obsoleto.

Além disso foi criada a guarda cívica para disciplinar a população pobre, foram promovidas campanhas de combate à febre amarela, com a recuperação da salubridade pública e a instauração de uma polícia médica; foi criado o Instituto de Amparo à infância.  Dividiu a cidade em 4 distritos para viabilizar a limpeza, e promoveu a abertura da Avenida Sena Madureira, que é a atual Avenida Alberto Nepomuceno. 

Avenida Alberto Nepomuceno, antiga Rua Sena Madureira - foto Arquivo Nirez
chamada inicialmente de Caminho da Praia (por fazer a ligação com a Praia de Iracema).  Em 1856, passou a ser a Rua da Ponte, devido a existência de uma ponte sobre o Riacho Pajeú que cortava a rua. Na gestão do prefeito Ildefonso Albano,  (1912-1914), foi alargada e pavimentada com calçamento e recebeu a denominação de Rua Sena Madureira. Em 1921 recebeu meio-fio e arborização e ganhou a denominação atual – Avenida Alberto Nepomuceno – em homenagem ao músico falecido em 1920.

Além destas obras temos, também, a chegada dos bondes elétricos em 1913 e da energia elétrica em 1914, através da companhia Ceará Light and Power.
Tanto o governador Franco Rabelo como seu intendente, eram bem aceitos e contavam com a aprovação dos fortalezenses.  Mas a base de apoio ao governo era muito frágil. Afastado do Ceará há muito tempo, sem as malícias do cargo, sem jogo de cintura e desconhecendo os conchavos políticos locais, Rabelo cometeu vários equívocos. Um destes erros foi entregar o comando da base política de sua gestão a Francisco de Paula Rodrigues, homem despreparado para a função e que foi escolhido apenas por ser antigo correligionário do sogro de Rabelo, o general Clarindo de Queiroz, deposto da presidência do Estado em 1892, discriminando os demais grupos políticos que que se opuseram a Accioly.

Rabelo não cumpriu acordos assumidos, não entregou os cargos públicos prometidos e exonerou Padre Cícero – aliado fiel de Accioly e 3º vice-presidente do Estado – do cargo de prefeito de Juazeiro. Ao lado dos adversários do governador, estavam a força política opositora representada pelo presidente Hermes da Fonseca e Pinheiro Machado, senador gaúcho candidato à presidência da República. A administração de Franco Rabelo foi ficando isolada politicamente.

Ao aderir à coligação contra a candidatura do Senador Pinheiro Machado, estava selado o destino de Franco Rabelo. Como represália, iniciou-se no Rio de Janeiro, então sede do governo federal, um trabalho conspiratório contra o governador do Ceará.

A escolha de Juazeiro do Norte para deflagração do movimento, decorreu do enorme prestígio que desfrutava o Padre Cicero no seio das populações sertanejas, bem como da extraordinária habilidade que tinha o caudilho Floro Bartolomeu para comandar essas tropas formadas por jagunços e cabras, reunidas num poderoso exército ilegal.

Movimentação na porta da Intendência Municipal  - Revista O Careta 1914

Segundo Rodolfo Teófilo escreveu em “A Sedição de Juazeiro” de sua autoria, “mais de dois mil homens estavam em armas. Fortaleza era uma praça de guerra. A vida da cidade havia parado por completo. Os empregados da Estrada de Ferro Baturité deixaram o trabalho e pegaram em armas, fazendo o mesmo os homens do mar, trabalhadores da praia, empregados do comércio, o tiro 38, os carroceiros. Enfim, pode-se afirmar que todo homem válido estava defendendo a cidade. Com semelhante resistência, era impossível aos jagunços entrar na cidade”.

Trincheira aberta na Praça Figueira de Melo em Fortaleza, para aguardar a invasão de jagunços que vinha de Juazeiro do Norte. imagem do livro Ah, Fortaleza!

No início de março de 1914, os homens de Juazeiro cercaram a capital, baixando acampamentos em áreas próximas como Maracanaú, Maranguape e Caucaia. A possibilidade de Fortaleza ser invadida causou histeria nos fortalezenses. No dia 9 deste mês o presidente Hermes da Fonseca decretou Estado de Sítio no Ceará, sendo a população desarmada e suspensa a organização da policia estadual, de modo que o policiamento da capital passasse para o inspetor militar Setembrino de Carvalho.

Desmontava-se assim o esquema de defesa popular de Rabelo. Cinco dias depois, a 14 de março de 1914, foi decretada intervenção federal no Estado, levando o governador a renunciar. Uma multidão emocionada se despediu de Franco Rabelo na saída do Palácio do Governo. Receberia ainda muitas homenagens até embarcar para o Rio de Janeiro dias depois.


Fontes: 
História do Ceará, de Airton de Farias
Anuário do Ceará 79/80


quarta-feira, 9 de maio de 2018

O General de Bronze que Caiu de Pé



A 15 de setembro de 1890, era eleito o Congresso Nacional Constituinte, destinado a dar à nova República Brasileira um estatuto jurídico. Reunido na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, no palácio dos antigos imperadores, discutiu e votou aquela Constituição chamada de 1891, que criou os Estados Unidos do Brasil, se conservou como um tabu até a presidência Artur Bernardes, quando foi ligeiramente revista, e regeu os destinos da Pátria até a Revolução de 1930.

Esse Congresso elegera à presidência da República o marechal Manuel Deodoro da Fonseca, chefe do governo provisório instituído pelo golpe republicano-militar de 15 de novembro de 1889, e à vice-presidência o marechal Floriano Vieira Peixoto, seu ministro da Guerra nos últimos tempos. Tendo em virtude dessa mutação do cenário político, se demitido o ministério do referido governo provisório, organizou o marechal presidente um outro, no qual entrou como figura principal, nas pastas da Agricultura e da Fazenda, o dr. Henrique Pereira de Lucena, uma verdadeira musa inspiradora de todos os atos políticos do marechal Deodoro. E entre este e o Congresso, se abriu um dissídio que as circunstâncias se encarregaram de ir tornando cada dia maior. 

os personagens desse capitulo da História do Brasil e do Ceará: 
1º à esquerda, Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente; 
ao lado, Floriano Peixoto, segundo presidente, sucessor de Deodoro da Fonseca; embaixo à esquerda, o Barão de Lucena, Henrique Pereira de Lucena, conselheiro de Deodoro e 
Clarindo de Queiroz, o governador deposto do Ceará. 
   
A coisa chegou a um ponto tal que não havia composição possível. A 3 de novembro de 1891, o marechal presidente deu um golpe de Estado que lhe foi funesto: dissolveu o Congresso, determinou novo regulamento eleitoral e programou a revisão constitucional para a assembleia a ser eleita. Ao mesmo tempo, decretou Estado de Sítio por 60 dias. E, condenando a carestia da vida, os desmandos da linguagem da imprensa e a charlatanice oca dos congressistas, deitou manifesto à Nação, afirmando: a 15 de novembro de 1889 achei-me a vosso lado para depor a Monarquia. Hoje me encontrais ainda fiel à minha missão de soldado e de brasileiro para depor a anarquia. Essa tirada demagógica não impressionou o povo, que assistira estupefato à queda do Imperador. 

Os republicanos de primeira hora, como o almirante Eduardo Wandenkolk e Quintino Bocaiúva, antigos ministros do governo provisório, deram com ossos na cadeia; a policia movimentava-se afanosamente. Reunidos em grande número em São Paulo, os congressistas lançaram seu protesto contra o ato do governo, que marcou novas eleições a 22 de novembro para 20 de fevereiro de 1892. O ambiente político e militar tornou-se carregado. A 18 de janeiro de 1892, como grave indício da indisciplina militar iniciada pelos generais, o sargento Silvino revoltava a fortaleza de Santa Cruz, à qual aderia logo a da Laje, chefiada por um cabo.

O almirante Custódio José de Melo, ministro da Marinha, talvez movido por um recôndito pensamento monárquico, encabeçou a reação militar contra o chefe de governo no dia 23 de novembro de 1891. Os canhões da esquadra atiraram contra a cidade. Uma bala se incrustou na arcada da Igreja da Candelária. Encerrado no Palácio Itamarati, o marechal Deodoro viu-se sem forças para controlar a anarquia que ajudara a desencadear, depondo o velho monarca, seu amigo pessoal, e desgostoso dos homens e desdenhoso dos cargos, doente e desanimado, talvez arrependido, renunciou ao cargo, entregando-o nas mãos do colega de farda, o marechal Floriano Peixoto.

Praça General Tibúrcio com a estátua do General

Esses acontecimentos tiveram naturalmente forte repercussão em muitos Estados do Brasil. No Ceará, custaram angústias e sangue. A 28 de abril de 1891, o marechal Deodoro ainda como chefe de governo provisório, nomeara o general de divisão José Clarindo de Queiroz governador do Estado. O Congresso Estadual composto, então, de câmara e senado, elegeu-o na forma da nova Constituição, definitivamente para o cargo. Além de amigo pessoal do marechal, era ele apoiado pelo partido, que se chamou da Maloca, chefiado pelo conselheiro Rodrigues Júnior, o qual partido se constituía na sua quase totalidade de elementos da antiga facção dos Ripardos, cisma que dividira na ainda na província, o Partido Liberal da Monarquia.

A outra facção, a dos Minus, que o senador Pompeu chefiara, viria a predominar mais tarde nos destinos políticos locais por muito tempo, sob a direção do comendador Antônio Pinto Nogueira Accioly. Naquela época, no entanto, era muito alto o prestígio do general José Clarindo no junto ao poder central.

Clarindo de Queiroz apoiou o golpe do marechal Deodoro, que dissolveu o Congresso. Julgava-se seguro no governo, contando com a fidelidade de sua agremiação política, a lealdade do corpo de polícia e o prestígio que desfrutava com o 11° Batalhão de Infantaria, sediado em Fortaleza. Todavia seu destino estava marcado pela política do general Floriano Peixoto, que assumira o poder na capital do país. A ordem para sua deposição, como para a dos governadores que tomaram a mesma atitude, foram dadas secretamente e admiravelmente cumpridas. Os florianistas contavam com o apoio da Escola Militar e da canhoneira Braconnot, municiada no porto. Estes elementos só receavam a reação do batalhão de Linha.

Foi necessário então, afastá-lo, de maneira cautelosa, mandando-o realizar manobras em Maranguape, a cerca de 50 km da capital, onde naquela época, somente poderia regressar a pé ou pela estrada de ferro, que já estava sob controle dos que tramavam a deposição do governo estadual. 

cadetes da Escola Militar fizeram o cerco ao Palácio do Governo na deposição do governador Clarindo de Queiroz (Arquivo Nirez)

Na tarde de 16 de fevereiro de 1892, a Escola Militar descia armada do seu quartel no Outeiro, apoderava-se de uma dezena de peças de campanha La Hitte e da respectiva munição na fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, e ocupava as Ruas Sena Madureira, Conde D’Eu, do Quartel e da Boa Vista, levantando barricadas e apontando as bocas de fogo contra o Palácio do Governo na Praça General Tibúrcio.

Um destacamento de marinheiros da Braconnot, com metralhadoras, postou-se na Rua Major Facundo, e outro por trás da velha Sé, dominando a antiga rua da Ponte, a do Sampaio e de São José. Destinavam-se a cobrir os flancos do atacante contra a surpresa de elementos armados vindos do interior ou dos arredores, em socorro do governador.

Palácio da Luz, sede do governo estadual até início dos anos 60

O general Clarindo de Queiroz, comandando a força de polícia e alguns paisanos armados, entrincheirou-se no velho palácio, repeliu as intimações que lhe foram feitas e respondeu corajosamente ao fogo da artilharia de seus adversários durante toda a noite de 16 para 17 de fevereiro. Sobre a cidade silenciosa, apavorada e escura, baixaram as sombras da angústia. No interior das casas hermeticamente fechadas, as famílias rezavam diante de oratórios estrelados de velas acesas. E somente o espaçado troar da artilharia pontuando o contínuo matraquear de fuzis, dominou aquele ambiente de medo e apreensão. 

interior do Palácio da Luz após o ataque

Ao romper do dia 17, sobre o palácio crivado de balas e escavado pelas balas dos canhões La Hitte tremulou uma bandeira branca. O general Clarindo se rendia por falta de munições para continuar a luta. Esta custara o alto preço de 13 vidas. O tenente-coronel José Freire Bezerril Fontenele, comandante da guarnição federal, recebeu do vencido as rédeas do governo, que se empossou no palácio em ruinas, onde não havia uma parede que não tivesse sinais do tiroteio e um móvel inteiro. No dia 18 de fevereiro assumia o vice-presidente do Estado, tenente de engenheiros Benjamim Liberato Barroso, que fora a alma da deposição.

Cessada a resistência e efetivada a rendição, verificou-se que uma das balas da artilharia atacante reduzira a escombros o alto pedestal de pedra da estátua do general Tibúrcio, que se elevava na praça fronteira ao palácio. Atirado pela força do projétil a alguns metros de distância, o elegante vulto de bronze caíra de pé, intacto, a mão no punho da espada, a cabeça descoberta, voltado para o lado de onde vinha o fogo, como era seu costume nos combates em que tomara parte nas campanhas do Uruguai e do Paraguai.

A Praça General Tibúrcio após o conflito

E ali ficou, à sombra das árvores maltratadas pelas balas por mais de um ano, pois só a 24 de maio de 1893, ficou pronto o novo pedestal em que o colocaram. Romarias de populares, durante esse período, iam diariamente, visitar o general de bronze que caíra de pe. 
            
Extraído do livro à Margem da História do Ceará,
de Gustavo Barroso
fotos dos livros A Margem da História do Ceará e Coisas que o Tempo Levou 

   

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O Palácio da Luz e o Imposto da Cachaça


foto: anuário de Fortaleza 2012/2013

O Palácio da Luz foi construído no final do Século XVIII, com auxilio de mão-de-obra indígena, para servir de residência ao capitão-mor Antonio de Castro Viana. No tempo da Fortaleza antiga, o atual palácio era um casarão situado fora dos limites do perímetro da ainda Vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, que era compreendido, praticamente entre o velho Quartel da Força de Linha (atual 10ª RM) e as ruelas que, vindas da beira do mar, avançavam poucas quadras para o sul, entre o Campo da Pólvora (atual Passeio Público) e o Largo do Conselho (Praça da Sé). 

Praça General Tibúrcio -1900
O capitão-mor faleceu em 1801, em situação de débito para com os cofres públicos, razão pela qual a Junta da Fazenda penhorou o imóvel, vendendo-o à Câmara Municipal por Oitocentos Mil Réis.

Para pagar o prédio, a câmara cujos rendimentos eram diminutos, não chegando para quitar um edifício, criou um imposto que se chamava Subsídio das Aguardentes, o qual consistia em cobrar 4$000 (quatro mil réis) por cada pipa de cachaça importada que desembarcasse em qualquer porto do termo da vila, até finalizar aquele pagamento, não se aplicando de forma alguma esse rendimento, a qualquer outra despesa. O primeiro pagamento à Real Fazenda foi feito em 27 de novembro de 1802, e o último em 03 de novembro de 1807.


Em 1803 o terreno foi cercado  com uma paliçada de altas estacas juntas de pau-ferro, detalhe que  denota a pobreza dos cofres públicos.  Mais tarde, o governador Luis Barba Alardo de Menezes, sendo comunicado que algumas repartições estaduais vinham sendo furtadas e sofrendo arrombamentos, transferiu as  mesmas para o seu local de residência - Rua Sena Madureira, 42 - e escreveu à câmara pedindo para ocupar o prédio que lhe pertencia, onde poderia exercer separadamente suas funções. 

Em sessão realizada no dia 14 de janeiro de 1809, os vereadores acharam justa a argumentação do governador e concordaram com o empréstimo.  Em 1811 o governador Barba Alardo empreendeu pequenas obras de adaptação interna. 

Em 12 de março, 26 de abril e 30 de junho de 1810 a câmara enviou ofícios ao governador pedindo-lhe a devolução do prédio; como não obtivessem uma solução a respeito, os vereadores fizeram uma representação ao príncipe regente, se queixando que o governador se apossara da casa que lhes pertencia. 

A Câmara comprou, pagou, mas não levou: continuou a funcionar em prédio alheio até que em 1819 recebeu um ofício do então governador Manuel Inácio de Sampaio, com a Provisão Régia acerca da permuta feita pelo antecessor Luis Barba Alardo - o prédio da câmara pelas casas que eram de residência dos governadores - cuja permutação fora aprovada em provisão de junho de 1814.


situação em que ficou a sala de frente do Palácio da Luz depois da revolta de 1892, que culminou com a deposição do governador Clarindo de Queiroz  (foto cedida por Isabel Pires)

Depois da posse definitiva pelo governo do Estado, o prédio e seu entorno passaram por várias transformações até atingir a dimensão e a aparência que ostentou até início dos anos 60.  Em 1839, já império o Brasil, e Fortaleza já guindada à condição de cidade, o prédio ganhou ampliação que o levou até a Rua de Baixo, o que lhe deu o aspecto assobradado que tem até hoje.  É desse tempo o antigo salão de recepções, de janelas avarandadas que davam para o antigo Largo do Palácio (atual Praça General Tibúrcio).

Em 1856, na administração do presidente Francisco Paes Barreto,  fizeram-se grandes melhorias nas salas de frente, reconstruiram o terraço e fizeram o jardim e os aterros do quintal.

A última reforma por que passou foi em consequência da revolução de 16 de fevereiro de 1892, quando o lugar foi atacado pelas forças legalistas (alunos da Escola Militar, marinheiros e força federal) comandadas pelo major Bezerra de Albuquerque que exigiam a renúncia do governador Clarindo de Queiroz. O palácio foi atacado com tiros de canhões e de metralhadoras. 


 
aspectos do interior do palácio que passa por reformas

Na administração do governador Parsifal Barroso perdeu parte da área que ocupava o seu jardim interno para prolongamento da rua Guilherme Rocha, que tinha início na Rua do Rosário. A parte perdida foi demolida e vendida a terceiros. Esse prolongamento visava a continuação dessa rua ligando-a a Avenida Santos Dumont, projeto que nunca se concretizou. 

O lugar passou a ser chamado de Palácio da Luz a partir de 1º de março de 1975, quando nele se instalou a Casa de Cultura Raimundo Cela. Atualmente abriga a Academia Cearense de Letras. 

o palácio no início dos anos 60, antes da reforma que retirou parte de sua fachada. foto da Aba Film

O Palácio da Luz ainda funcionou como sede do Governo e residência do governador até 1963, quando a sede do poder foi transferida para a Avenida Barão de Studart. Fica na Rua do Rosário n° 1, centro de Fortaleza. Tombamento estadual de 1983.



fontes:
Crônicas da Fortaleza e do Siará Grande, de Otacílio Colares
Descrição da Cidade de Fortaleza, de Antônio Bezerra de Menezes. Introdução e notas de Raimundo Girão.
fotos do arquivo Nirez