sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Otacilio de Azevedo

Otacílio de Azevedo nasceu na zona rural de Redenção - Ceará,  em 11 de fevereiro de 1896, e foi morar em Fortaleza em 1910, aos 14 anos. 
Começou nas artes plásticas como pintor de tabuletas de cinemas e de letreiros de lojas. Trabalhou na loja Fotografia N. Olsen onde teve oportunidade de conhecer artistas plásticos e escritores cearenses da época. 
Mais tarde em 1914 trabalhou na Ceará Ligth Tramways and Power Co, na função de pintor, um serviço rústico, pesado, com mais de dez horas de trabalho diário. 
Em 1916 escreveu seu primeiro livro de poesia, Dentro do Passado. Nos intervalos do serviço na Light,  escondido dos patrões ingleses, dentro das enormes valas onde os bondes estacionavam para receber reparos, escreveu  o segundo livro de poesias Alma Ansiosa.
 Em 1920 publicou Musa Risonha, autobiografia em versos, onde destaca as dificuldades vividas durante o período em que trabalhou na Light
Segundo seus versos dessa obra autobiográfica, Otacilio nunca frequentou escola:
 nunca transpus as portas de uma escola
 o pouco que aprendi só a mim devo. 
Nesse andar de retratar-se por meio de versos, ele acrescenta:
De oito anos aos catorze – funileiro; 
de catorze aos dezoito – copiador; 
de retratos e, agora por terceiro, 
sou fotógrafo, poeta e sou pintor. 
........................................................................
Empreguei-me da Light o amargo espaço
de três anos brutais, consecutivos, 
as forças diminuindo no cansaço, 
 ante um grupo integral de homens cativos.

Otacilio de Azevedo participou ativamente dos eventos culturais que animaram a Fortaleza de sua época. Junto com outros artistas cearenses participou do Salão Regional realizado na cidade em 1924. 
Foi um dos fundadores do primeiro ateliê de pintura de Fortaleza. 
Figurou como sócio fundador do centro Cultural de Belas Artes, mais tarde Sociedade Cearense de Artes Plásticas, onde chegou a ser eleito vice-presidente. 
Participou dos I, II e III Salões Cearenses de Pintura, em 1941, 1942 e 1944, respectivamente, e de várias edições do Salão de Abril. 
É o titular da cadeira 26 da Academia Cearense de Letras. 
Além de pintor, poeta e paisagista, Otacilio de azevedo era grande retratista, sendo de sua autoria uma boa parte de retratos dos governadores do estado expostos em palácio, e de várias personalidades cearenses, cujos retratos encontram-se no Museu do Ceará. 
Otacilio de Azevedo faleceu no dia 03 de abril de 1978, em Fortaleza, a cidade que o poeta adotou como sua. 

Retratos pintados por Otacilio de Azevedo, acervo do Museu do Ceará

 Coronel Marcos Franco Rabelo, que assumiu o governo do Ceará em 1912, com amplo apoio da população da capital, mas que foi deposto em 1914 pelo movimento denominado Sedição de Juazeiro.
 Tristão de Alencar Araripe Junior (1848-1911)  foi membro da Academia Francesa do Ceará e da Academia Brasileira de  Letras. Escreveu várias obras de ficção, sendo mais reconhecido por seus trabalhos de critica literária.
 Tomaz Pompeu de Souza Brasil (1852-1929), intelectual cearense, foi deputado geral, professor e diretor da Faculdade de Direito do ceará, dentre outras funções de destaque que exerceu.
Rodolfo Teófilo (1853-1892). Foi um dos presidentes do grupo literário Padaria Espiritual, usava o pseudônimo Marcos Serrano. Publicou entre outros romances e ensaios A Fome, O Paroara, História da Seca no Ceará e Sedição de Juazeiro. 
Obras literárias
Dentro do Passado - 1916
Alma Ansiosa - 1918
Musa Risonha - 1920
Sugestão do Luar - 1921
Réstia de Sol - 1942
Redenção - 1944
Desolação 1947
Úlyimos Poemas - 1958
A origem da Lua - 1960
Adágios, Meisinhas e Superstições - 1966
Fortaleza Descalça - 1980
Trigo sem joio - 1986 

O Oitizeiro do Rosário

Assisti, em 1929, revoltado, à derrubada do célebre Oitizeiro situado atrás da igreja do Rosário, nas imediações do atual Banco São José, no cruzamento das ruas Guilherme Rocha e General Bezerril.
Um caboclo forte, no alto da fronde do oitizeiro, cortava, com afiada foice, que brilhava ao sol, os galhos mais altos. Os nodosos ramos descreviam círculos de angústia e vinham, depois, cair exânimes, no velho e desconjuntado calçamento, num remoinho de folhas verdes e doirados frutos...
A cada foiçada, soltavam-se lascas que se vinham juntar à ramagem, no chão. Aqueles ramos retorcidos pareciam sentir, convulsos, a dor que lhes causava a afiada ségure...
Grande número de pessoas idosas achava-se ali, aturdido.
Rebelava-se contra aquele ato de vandalismo. A antiquissima árvore, inofensiva, servira de abrigo a milhares de pessoas no decorrer de mais de um século. Sob sua fronde, procuravam refrescante abrigo contra os ardores da canícula os que paravam ali, conversando sobre arte, política, religião e até mesmo sobre a vida alheia. Quantas e quantas vezes não me sentei sobre suas grossas raízes para escrever os meus primeiros e sentidos versos...
A faina continuava, impiedosa. Nada podia demover os operários, que apenas cumpriam um dever. Alguns deles estavam armados, prevendo uma reação mais violenta do povo.
Velhos de cabelo branco que haviam brincado, quando meninos, à sombra acolhedora do oitizeiro do Rosário, deixavam escapar dos lábios murchos verdadeira saraivada de impropérios e inúteis protestos. Aos poucos, porém, a onda de rebelados, sem forças, foi-se desfazendo, frágil demais para tentar qualquer reação.
A grande copa, afinal, rolou por terra, com fragor, num dilúvio de folhas. Uma brisa correu - talvez o último alento da árvore. Depois, foi o tronco, cortado cerce, com o auxilio de machados. 
Por fim, só restaram as raízes retorcidas...
Mandara abater a nobre árvore o prefeito Álvaro Weyne, depois de - magro consolo! - mandar tirar-lhe uma fotografia. Acreditamos que o ilustre edil sofreu também ao tomar essa decisão.  O verdadeiro algoz do oitizeiro foi o progresso, em nome do qual se cometem tantos crimes...
O velho oitizeiro já não era mais que um intruso, um trambolho que impedia o embelezamento da cidade que crescia. Começavam a aparecer os automóveis que deveriam transitar por todas as artérias da cidade.
A queda do oitizeiro do Rosário marcou o desmoronamento de mais uma tradição, para dar lugar às correrias desenfreadas dos novos habitantes da pacata urbe - os bêbados da gasolina!
Otacílio de Azevedo

pesquisa:
Fortaleza descalça, de Otacilio de Azevedo
wikipedia

3 comentários:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Numa manhã de sábado, ler uma matéria dessas, é mesmo uma delícia!
Conhecia apenas o Otacílio Azevedo escritor e poeta. Novidade, o pintor e paisagista.Fiquei surpresa. Não me lembro de ter visto no Museu do Ceará, essas suas pinturas
O Oitizeiro do Rosário foi decantado por muitos letrados daquela época. Em seu livro de Memórias, "Coração de Menino", Gustavo Barroso fez uma crônica de quatro páginas. Conheci os oitizeiros da Duque de Caxias, nem sei se ainda há algum. Comi muito oiti murchinhos, na "safra".....!!!

ADOREI!!!!!

Fatima Garcia disse...

O Museu não dá qualquer destaque aos retratos pintados por Otacílio de Azevedo, eu que saí procurando até encontrar pela assinatura. Há outros, principalmente naquele espaço que tem os retratos dos governadores. Muitos são de autoria dele. O corte do oitizeiro foi o primeiro crime ambiental de Fortaleza, cometido, só podia ser, pela autoridade máxima do municipio. Todos os cronista da época falam desse episódio. Todos contra, ninguem a favor.
bjs Lucia

Luiz Melo disse...

Recentemente conheci este personagem da história de Fortaleza, eu paulista de santos, escrevo desde pequeno, e ainda pequeno desenhava bem, achava que minha facilidade fosse herdada de meu pai, Ledinildo Azevedo, mas estou vendo que de mais além. Orgulhoso em descobrir este tio bisavô!!! Bela matéria. Parabéns.