segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Jornal Mutirão, o alternativo do Ceará

capa do jornal Mutirão (foto Revista Fortaleza) 
                                                     
Logo na primeira página veio a apresentação no editorial: um jornal que tinha a petulância de colocar-se ao lado do povo.
Eram tempos dificeis. O Brasil ainda enfrentava uma ditadura militar, embora já estivesse ensaiando o lento processo de redemocratização. No ano de inauguração do Mutirão (1977) o Brasil vivia o governo de Ernesto Geisel - 1974-1979.
A grande imprensa estava sob censura e o direito de livre expressão suspenso. Nesse contexto surgiu no Ceará o Mutirão, o primeiro e único jornal alternativo do estado, no período da repressão.
O jornal era formado por um grupo heterogêneo de militantes do PC do B, PCB, intelectuais de esquerda sem filiação partidária e profissionais liberais.
Depois um grupo de jornalistas foi convidado a formar um grupo de apoio. O Conselho editorial era composto por pessoas conhecidas na cidade, que não necessariamente trabalhariam no jornal.
Em meio a efervencência social no final da década de 1970, o jornal coloca-se ao lado dos movimentos que se reorganizam. O projeto Mutirão intitulava-se um jornal do povo, instrumento de denúncia da pobreza e das classes populares.
Dava destaque ao trabalhador operário, que assim tinha oportunidade de denunciar o estado de pobreza em que vivia, e ao mesmo tempo, lutava por seus direitos.
No ano de fundação o jornal revelou a exploração dos operários nas fábricas de castanhas, a arbitrariedade a que eram sujeitos os metalúrgicos, e a ameaça de despejo dos 600 moradores da favela Cidade Aflita.
Denunciava ainda as dificuldades das comunidades rurais devido a deficiência do ensino formal.
Enquanto circulou  - entre 1977 e 1982 - sofreu muita pressão, desde ameaça de fechamento pela policia, até intimidação dos profissionais. Em 1980 publicou uma matéria intitulada "Moradores do Farol revoltados com Virgilio Távora", que noticiava a resposta das prostitutas do local a uma visita da primeira dama Luiza Távora.
Em represália, o governador tentou fechar o jornal, proibindo as gráficas do estado de imprimir o Mutirão.
Os atritos com o governador continuaram, mas mesmo assim, o jornal circulou até 1982. O Mutirão enfrentou os mais diversos problemas, desde falta de verbas para sua publicação, até conflitos entre os redatores, resultado da heterogeneidade de tendências politicas. Apesar das divergências, dificuldades financeiras e da repressão politica, o jornal circulou durante cinco anos.

Fonte:
Revista Fortaleza, fasciculo 11. Edições O POVO, 18 de junho de 2006.

Um comentário:

Marina Portela disse...

Apenas uma observação. O Mutirão nunca foi o único jornal alternativo do estado do Ceará. Havia periódicos criados por estudantes, inclusive no Cariri, como o jornal O Prisma, que teve seu papel e influência naquela época, que por ser menor não merece menos destaque.