segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Padre Cícero – Parte 1/3


Padre Cícero com aproximadamente 80 anos
Santo, milagreiro, visionário, charlatão, herege, coronel de batinas. Seguramente, não existe na história do Ceará uma figura mais polêmica do que Cícero Romão Batista, o Padre Cícero. 

Nascido no Crato em 24 de março de 1844, filho de próspero comerciante local, foi criado num ambiente tocado pelo fervor religioso, o chamado catolicismo popular, típico do sertão cearense: assiduidade à igreja, crença em milagres, presença nas novenas, missas e procissões, respeito pelo Padre Ibiapina, que na época peregrinava pelo Nordeste  (segunda metade do Século XIX). 
Cidade do Crato, onde Padre Cícero nasceu em 1844 (Arquivo: IBGE)
Estudou nas melhores escolas do Crato e de Cajazeiras (PB), com o objetivo de tornar-se sacerdote. Porém sua carreira eclesiástica foi ameaçada pelo falecimento inesperado do seu pai, em 1862, uma das vítimas de uma epidemia de cólera.
Interrompeu temporariamente os estudos para cuidar da família – mãe e duas irmãs solteiras.  

Após a morte do pai, o estudante teve uma visão que lhe recomendou não abandonar os estudos, porque Deus daria um jeito de fazê-lo prosseguir. Cícero resolveu então contar a história da visão ao padrinho, chefe político e comerciante do Crato, coronel Antonio Luis Alves Pequeno, que tocado pelo relato, decidiu financiar os estudos do afilhado. 
Seminário da Prainha em Fortaleza, onde Padre Cícero estudou teologia (Arquivo NIREZ)
Com a ajuda do padrinho, Cícero ingressou no recém-inaugurado Seminário da Prainha, em Fortaleza, que naquele momento seguia uma orientação proveniente da Europa, de romanização da igreja.

O objetivo era recuperar e fortalecer o prestígio da Igreja católica, exigindo-se o mais estrito respeito aos dogmas e ritos cristãos, e a obediência às ordens emanadas da hierarquia, especialmente ao que era proveniente de Roma, do Vaticano, e do Papa. 
A orientação não causou muita influência ao sertanejo, identificado com o universo cultural e religioso do povo, e com o catolicismo popular do mestre Ibiapina.

Padre Cícero retornou ao Crato em 1871, e enquanto não era designado para uma paróquia, colaborou como professor de latim num colégio da cidade, além de celebrar nas capelas da região. No final daquele ano, foi convidado por amigos para passar uns dias em Juazeiro, uma vez que a localidade estava sem sacerdote residente.
Cidade de Juazeiro do Norte, em data não especificada (Arquivo IBGE)
Juazeiro era à época, um povoado modesto e desconhecido, três horas a cavalo distante do vizinho Crato. Lugarejo rude, originara-se de uma pequena capela de fazenda, mandada construir pelo fazendeiro e padre Ribeiro Silva. Constituía-se de dois pedaços de ruas, uma igrejinha, uma escola, e 32 prédios de palhas. 

Contava com uma pousada para viajantes e comboieiros que se dirigiam para o Crato, os quais descansavam à sombra de frondosos juazeiros. A população da vila e arredores em 1875 não passava de dois mil habitantes, a maioria muito pobres, muitos dos quais trabalhando em nas lavouras de cana-de-açúcar de cinco famílias latifundiárias locais.
A importância econômica era nenhuma.
Dia de feira em Juazeiro do Norte (Arquivo IBGE)
Com relutância, apenas para atender aos amigos, Padre Cícero foi a Juazeiro do Norte celebrar a missa do natal de 1871. Nunca pensou em ficar em Juazeiro, sonhava em voltar a Fortaleza. Mas acabou ficando mais de 60 anos. O motivo da permanência, segundo ele próprio, fora um sonho.
Após um dia exaustivo, em que passara horas a fio confessando os moradores do lugarejo, o jovem sacerdote se recolheu à sala da pequena escola onde estava provisoriamente alojado. Ali, caiu no sono rapidamente e teve o sonho que mudou drasticamente sua vida. Sonhou que o próprio Cristo, seguido dos 12 apóstolos entrava na sala, acompanhados de um grupo de sertanejos maltrapilhos. 
Cristo comentava sobre as ofensas de que vinha sofrendo, prometendo um último esforço para salvar o mundo. Para tal pedia que Cícero o ajudasse, cuidando dos sofredores do sertão. 
O padre acordou espantado. Mas logo concluiu que o sonho fora uma ordem do Messias e que deveria ficar em Juazeiro para ajudar os necessitados. Em abril de 1872 mudou-se para o povoado, levando a mãe e as irmãs, tornando-se em pouco tempo uma figura estimada e respeitada na região do Cariri. 

Com recursos limitados e esmolas, restaurou e ampliou a capela de Nossa Senhora das Dores, desenvolvendo grande trabalho pastoral. Visitava os sítios, ensinava receitas de remédios caseiros e noções de higiene ao povo humilde e sem instrução, pregava constantes missões, coordenava terços, novenas e procissões, multiplicava as festas religiosas.
Cidade de Juazeiro do Norte (arquivo IBGE)
A exemplo do que já fizera Padre Ibiapina, recrutava mulheres solteiras, visando a formação de uma irmandade para trabalhar na comunidade e na igreja. Diretamente sob a autoridade do Padre Cícero, essas beatas usavam hábito preto e dedicavam-se de corpo e alma aos serviços religiosos.

Várias dessas beatas viviam debaixo do teto do sacerdote, na companhia deste e de muitos órfãos, todos sustentados pelo religioso. Mas o Padre Cícero também era pobre. Costumeiramente os amigos ricos do Crato costumavam fornecer-lhe roupas e sapatos. Conta-se que era tão grande a pobreza que, de vez em quando, sua mãe precisava mandar alguém, de porta em porta, para conseguir a comida do dia.
      
Pesquisa:
História do Ceará, de Airton Farias
wikipedia

2 comentários:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

É inesgotáv,el, a bibliografia sobre Padre Cícero.Á cada leitura, se sabe mais dele. Acredito que é o personaagem real, cearense,de maior "alvo", no pais,...como tem biógrafo desse tão discutivel e descutido homem.

Excelente matéria, aguardo a Parte II, ou MAIS!!!!!
Boa tarde, Fátima.

Marco Loko disse...

Aí fala da volta ao Crato em 1871. Antes disso, ele foi Pároco em minha cidade por quase um ano, após a saída do Seminário.