quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Passeata das Crianças (Governo Nogueira Accioly)

O ano de 1912 já começou com muita agitação em Fortaleza. A população estava entusiasmada com a possibilidade de acabar com a Oligarquia comandada por Nogueira Accioly, grupo político que estava no poder desde 1896
 No dia 21 de janeiro de 1912, um domingo, uma entidade chamada “Liga Feminina Libertadora Pró-Rabelo” promoveu uma grande passeata apenas com crianças, todas vestidas de branco, com enfeites verde-amarelo, e um botton de Franco Rabelo. 

A repressão à passeata das crianças foi o estopim para a revolta de 1912.

Cerca de oito mil pessoas acompanharam o desfile entre as Praças Marquês de Herval e do Ferreira, em grande expectativa devido a boatos de que o governo iria intervir.
Quando a manifestação se aproximava da Praça do Ferreira, foi atacada pela cavalaria.
O que se seguiu foi um tumulto geral, pessoas deixando o local de forma desordenada, provocando tropeços e quedas. 
Crianças foram pisoteadas pela multidão e pelas patas dos cavalos. A polícia batia impiedosamente, enquanto os rabelistas respondiam com tiros de revólveres. Travaram-se lutas corpo a corpo. 
Testemunhas relatam que um menino de dez anos, pediu, de joelhos, para não ser morto, mas acabou assassinado com um tiro no peito, dado à queima-roupa por um policial, que em seguida, também foi morto por um cabo do Exército, revoltado com o que presenciava.

Odele de Paula Pessoa, militante da Liga Feminista pró-candidatura Franco Rabelo e contra a oligarquia Accioly. (foto do livro Fortaleza Belle Epoque)

 Não se sabe ao certo quantas foram as vítimas do massacre, mas testemunhas dos fatos contaram que duas crianças foram mortas, e algumas ficaram feridas, além de  17 adultos.
O episódio incendiou as massas. Os anos de exploração, opressão e humilhação explodiram numa rebelião jamais vista na cidade.
Estudantes, operários, caixeiros, armaram-se com rifles, espingardas, revólveres, facas, facões, paus e pedras, e passaram a percorrer a cidade, atacando bens da família Accioly e prédios públicos. 
Janelas, jardins, bancos, placas, estátuas, praças, eram destruídos. O Jornal A República, porta voz do governo, foi empastelado. Tentaram incendiar a Fábrica de Tecidos Progresso, de propriedade do oligarca.
O governo colocou o aparato militar nas ruas, mas não conseguiu intimidar os revoltosos. Bondes foram tombados e incendiados. 
As estradas de Messejana e Benfica – as duas principais vias de acesso à capital – foram bloqueadas por populares com o objetivo de impedir a vinda de reforços e mantimentos do interior para as tropas do governo.
Trincheiras e barricadas foram improvisadas no centro de Fortaleza, havendo troca de balas nas ruas. Mais de 1500 pessoas cercaram o palácio do governo e cortaram o fornecimento de água, luz e alimentos para o oligarca e seus familiares, ali refugiados.

populares na Rua Barão do Rio Branco, sobre os canos de esgotos, preparam-se para lutar contra o governo de Nogueira Accioly (Arquivo NIREZ)

Nos dias seguintes Fortaleza virou uma praça de guerra. A polícia atirava em casas fechadas, em mulheres, em crianças, velhos, ou simples transeuntes. A cidade ficou às escuras, poucos lampiões a gás escaparam da fúria popular. 
 No fundo, o quebra-quebra constituía-se um desagravo do povo contra o embelezamento da capital, que só beneficiava, a rigor, a classe dominante. A bela Praça Marquês de Herval, o cartão postal da administração Accioly, foi totalmente devastada.
Em pouco começava a faltar leite, comida, e água. No palácio governamental, varado de balas, Accioly buscava não sucumbir. Dizia cinicamente que não entendia a razão de tanta celeuma, "pela morte de três ou quatro cabrinhas”. 
O arcebispo de Fortaleza e amigo pessoal do governador, D. Joaquim José Vieira, foi visitá-lo e insistiu para que contornasse a crise, entregando o policiamento da cidade ao Exército e recolhendo a força policial do Estado.
 O oligarca, pressionado pela família, recusou a proposta, mas com o prolongamento das lutas,  os revoltosos ficaram na iminência de invadir a sede do Governo. 
Sem saída, e como última alternativa, para preservar pelo menos sua vida, restou a Accioly, renunciar ao governo do Estado, no dia 24 de janeiro de 1912. 

Pesquisa:
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo (NIREZ)
História do Ceará, de Airton de Farias
Fortaleza Belle Epoque - Reformas urbanas e Controle Social - 1860-1930, 
de Sebastião Rogério Ponte

3 comentários:

Carlos, Carlinhos, Getúlio disse...

Bom, resta saber se os organizadores da passeata suspeitavam a truculência do possível ataque do governo. Porque se soubessem, e se só estivessem usando aquelas crianças (sim, usando, porque criança nenhuma tem ideologia política ou conveniências políticas) para provocar revolta popular em vistas uma rebelião, esses organizadores são tão criminosos ou mais, quanto os policiais assassinos. Isso poderia ser investigado. Quanto ao comendador Accioly, por mais elegante que tenha ficado nos romances, uma coisa não muda: ele foi um tirano, alguém que não se importou com "quatro cabrinhas", nem com seus futuros ou suas famílias. Eram apenas números. Uma pessoa assim não é muito melhor do que Hitler, Bush ou Stálin.

Fátima Garcia disse...

Olá Carlinhos,
Antes da passeata das crianças houve várias manifestações de protesto ao governo organizadas pela oposição. TODAS, sem exceção, foram dissolvidas pela policia, com uso da força e de muita violência. As crianças foram usadas porque os organizadores acreditavam que a presença delas iria inibir o emprego da violencia contra os manifestantes. Ledo engano!

Anônimo disse...

pra que fazer uma manifestação que causaria guerras ao invés de um simples protesto?