segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A Seca de 1877-1879

 Das grandes secas que marcaram o Ceará, uma das mais lembradas foi a de 1877-79. Foram três anos seguidos sem chuvas, sem colheita, sem plantio, com perda de rebanhos e com a fuga das famílias, deixando despovoado o sertão.
retirantes da seca de 1877-79
A população de certo modo foi pega de surpresa, ja que última grande seca havia ocorrido fazia mais de 30 anos, em 1844-1845.
Até as famílias abastadas partiram em busca de refúgio junto a parentes que habitavam as serras e o litoral. Os adultos iam montados nos cavalos seguidos pelos carros de bois cheios de mulheres, crianças e bagagens, tendo na retaguarda os vaqueiros e os ajudantes conduzindo o que restara do gado.
Os pobres seguiam a pé, na poeira das estradas, os adultos levando as crianças menores, puxando o que restava do rebanho de cabras ou vacas, o cachorro de estimação atrás. Esses eram chamados de retirantes ou flagelados, que eram perseguidos e expulsos quando estacionavam nas vizinhanças de um povoado.
Os moradores temiam os saques nos comércios e armazéns, como rotineiramente acontecia. As cidades, além dos vales férteis, ficavam apinhadas de flagelados.
Aracati, que contava com cinco mil habitantes, passou a abrigar mais de 60 mil pessoas. Fortaleza converteu-se na capital do desespero: de 21 mil habitantes pelo censo de 1872, passou a ter 130 mil. Muitos dos retirantes morriam nas veredas e estradas. Os que alcançavam os centros urbanos chegavam à beira de um colapso e impressionavam pela desnutrição.
A economia provincial, já abalada pela crise do algodão, quase acaba de vez. Escravos são vendidos para o Sudeste; os rebanhos, salvo algumas cabeças conduzidas pelos retirantes, eram dizimados  pela ação das zoonoses, furtos, extravios, fome e sede.
A flora e a fauna praticamente desaparecem; as lavouras exterminadas; o povo morre de fome e de sede. Para completar o quadro de tragédia, um surto de varíola dizima milhares de pessoas.
Na seca de 1877 o Ceará perdeu um terço de sua população:  estima-se que 200 mil pessoas morreram e outros migraram para outras regiões.
Enquanto a população sofria com a estiagem e a escassez de água e alimentos, alguns setores beneficiaram-se com a seca, como algumas casas comerciais estrangeiras, a exemplo da Boris Frères, que comercializava artigos de primeira necessidade.
Empresas de navegação aferiram lucros conduzindo flagelados para o Norte e Sudeste. Joaquim da Cunha Freire, o Barão de Ibiapaba lucrou com a exportação de navios cheiros de escravos negros a partir de Fortaleza e Mossoró. Mulheres se prostituem em troca de comida, multiplicam-se os casos de roubo, furto e estupros.
Tanto autoridades como os proprietários de bens que ficaram imunes a ação da tragédia, atribuem os delitos a um “desvio de ordem moral da gente mestiça”, que deveria ser enfrentada com repressão.
apesar da criação do DNOCS e das anunciadas medidas de combate a estiagem, o Nordeste continua sofrendo as consequências da escassez de chuvas. 
Em razão da situação calamitosa do Nordeste o governo imperial enviou, no período 1877/79, uma comissão de engenheiros que determinaram a perfuração de poços, a construção de estradas de ferro e de rodagem e o armazenamento de água. Outras comissões vieram e foram extintas, até que em outubro de 1909 é aprovado o regulamento para organização da Inspetoria de Obras Contra as Secas – IOCS, que em 1945 passa a denominar-se Departamento de Obras contra as Secas – DNOCS.

fontes:
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo (NIREZ)
História do Ceará, de Airton de Farias 

4 comentários:

Lúcia Paiva disse...

Muito importante, essa matéria. Já li alguns autores sobre essa famosa seca.
Nos registros que meu pai deixou, da vida de seus ascendentes, êle conta que sua avó, Maria Isabel de Paiva Oliveira, abrigou muitos retirantes em su sítio que ficava próximo ao Colégio das Irmãs, no Outeiro(hoje rua 25 de março e adjacências). Lá havia uma CACIMBA que não secou, nesta seca. Segundo meu pai, as pessoas diziam que a cacimba de Dona Mariquinha não secava porque ela não negava água e abrigava os flagelados acampado-os no seu sítio. Possuo esses escritos.

Gosto de "ilustrar", com "causos" (que para mim são verdadeiros),algumas de suas postagens, Fátima.

Boa tarde!

Fátima Garcia disse...

Fortaleza sofreu horrores durante esse periodo, além da invasão de sertanejos,que ocuparam praças, ruas e o centro, ainda teve a epidemia de variola que matou milhares de pessoas.O mais tenebroso de tudo é saber que essas coisas (a seca e a falta de solução p/o problema) ainda acontece.É a velha indústria que enriquece e elege tantos politicos.

Silvio Paulino Correia Mendez disse...

AInda na década de 1960, era comun, nos anos de estiagem severa, o deslocamento de grandes grupos de pessoas da área rural para a periferia das pequenas cidades no Rio Grande do Norte. Eu, na época com 5 anos, presenciei vários desses movimentos na cidade de Angicos-RN, provocados pelos retirantes da seca. Eram movimentos que promoviam um clima de insegurança e obrigavam os comerciantes a se mobilizarem, afim de juntos coletarem cestas básicas com o objetivo de inibir os saques aos comércios. As repressões violentas eram mínimas. Não se via esses saques como meros atos de vandalismos, eram situações de puro desespero.

Fabricio Penha disse...

Dividir o pão, aplacar a sede, repartir a água... É o que nos fez evoluir como espécie.