terça-feira, 16 de novembro de 2010

A Expedição das Borboletas

Na segunda metade do Século XIX o governo imperial se esforçava para consolidar o estado nacional brasileiro. 
Enquanto os estudos humanísticos buscavam estudar as origens e a história do Brasil, as ciências naturais ocupavam-se em analisar os recursos naturais do país.
Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Jaguaribe-mirim.
Naquela época acreditava-se que o solo do Ceará escondia riquíssimas jazidas de pedras preciosas. Como o território era inexplorado, o desconhecimento dava margem a devaneios e fantasias, e não faltaram homens de notório saber a acreditar nos rumores.
O imperador D. Pedro II tinha um alto apreço pela ciência e pela pesquisa científica. 
Motivado por algo mais do que a curiosidade de homem culto, o governante decidiu investir na exploração.
Desse modo foi criada, em 1856, uma Comissão Científica para explorar e estudar as províncias locais, coletar materiais para o Museu Nacional e promover a pesquisa científica. 
O foco do trabalho estava nas coisas da terra, nas pedras, na fauna e na flora.  
Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres em Aracati 
A comissão era formada pelo botânico Freire-Alemão, o poeta e etnógrafo Gonçalves Dias, o geólogo Guilherme Capanema, o geógrafo Giacomo Raja Gabaglia, o zoólogo Antonio Gonçalves Manuel Lagos e o desenhista - que alguns dizem ser natural do Ceará, outros que seria do Rio de Janeiro - José dos Reis Carvalho, que registrou os cenários encontrados pela expedição. 
A fotografia já existia , mas era muito cara e o aquarelista podia fazer os registros com precisão e forte poética visual. Foi o que ele fez.  
acampamento da comissão científica de exploração 
A comissão centrou seus trabalhos no Ceará, onde permaneceu de fevereiro de 1859 a julho de 1861 (fez incursões também nos estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba e Piauí).
Apesar da acolhida generosa, a permanência dos científicos – como eram chamados no Ceará os integrantes da expedição na província - foi bastante conturbada, gerando críticas da imprensa, acusações da oposição (para esta, a expedição era tão somente um desperdício de dinheiro público), desentendimentos entre os próprios membros da comissão e atritos com as autoridades cearenses.
 Pesca no Riacho do Sangue
O grupo logo virou alvo da chacota popular, sendo chamada de “comissão das borboletas” (apelido que sugeria sua inutilidade) e “comissão defloradora” (por conta das confusões em que se viram envolvidos).
Os incidentes não foram poucos. A importação de 14 camelos da Argélia, em 1861, numa tentativa de aclimatação dos animais como meios de transporte e carga deixou pasma a população e fez a comissão cair no ridículo. 
Na verdade essa idéia foi posta em prática na mesma época em outros países como Estados e Unidos e Austrália, mas fracassou por aqui por conta da pequena quantidade de animais importados e pela falta de criadores especializados
Igreja Matriz de Aracati
Noticias davam conta das constantes farras, bebedeiras noturnas e assédio a mulheres,  praticados por membros da comissão, o que irritava a outros componentes e gerava acusações e desmentidos na imprensa. 
Houve inclusive atritos com a polícia de Icó,  provocando a prisão de um guia da expedição. Para culminar, parte dos documentos gerados nos trabalhos, teriam sido perdidos no final da viagem, devido ao naufrágio do “Palpite”, o paquete que levaria o resultado das pesquisas para a Corte.
vista da cidade de Icó, onde a comissão científica acampou por 40 dias
Depois de quase dois anos e meio de trabalho a maioria em terras cearenses, a comissão retornou ao Rio de Janeiro em julho de 1861. 
Tentando recuperar o prestígio e a importância da expedição, as autoridades organizaram no mesmo ano, uma exposição aberta à visitação pública no Museu Nacional, a Exposição do Ceará, primeira do gênero no País. O resultado foi positivo, atenuando os desgastes da expedição.
 Apesar das polêmicas e equívocos, a comissão colheu e produziu importantes materiais que contribuíram para a compreensão do Ceará no século XIX. 


Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias
Revista Gente – Diário do Nordeste. Setembro de 2010# 01.Ano 01 
http://cienciahoje.uol.com.br
as gravuras de José Reis de Carvalho fazem parte do acervo do Museu Histórico Nacional

2 comentários:

Anônimo disse...

Gostaria de saber se tem algum livro publicado , que trate desta expedicão. Grata pela atenção

Fátima Garcia disse...

existe um livro publicado em 1962 de Renato Braga - historia da comissão cientifica de exploração - que está disponivel no seguinte endereço:
http://www.colecaomossoroense.org.br/pics/historia_dacomissao_cientifica_de_exploracao.pdf
além desse sei de outros quatro:
"comissão das Borboletas" de 2003 e "Os ziguezagues do Dr. capanema" (2006);
"Diario de viagem de Francisco Freire Alemão: Fortaleza-Crato 1959" e A Seca no Ceará, ambos de 2006.