terça-feira, 8 de junho de 2021

O Excelsior é o primeiro edifício de Fortaleza

 

Com 7 andares e um terraço – um espanto para a época – o primeiro arranha-céu de Fortaleza foi inaugurado no último dia do ano de 1931, e assinalou o início da construção de prédios altos na cidade. O projeto, de autoria desconhecida, foi inspirado num edifício de Milão, executado por Natale Rossi, irmão de Pierina Rossi, esposa do proprietário do edifício, o comerciante Plácido de Carvalho.



No acabamento foram utilizados materiais de primeira linha, importados da Europa, já que aquela época era praticamente inexistente esse tipo de produtos com alta qualidade, de procedência local. Em estilo eclético O Excelsior começou a ser construído como um prédio de alvenaria de tijolos de três pavimentos por volta de 1928/1929.  No decorrer das obras, o proprietário, Plácido de Carvalho, entendeu de elevá-lo para oito. Houve alerta dos engenheiros sobre os riscos de tal mudança. Em consequência, o proprietário contratou o engenheiro Archias Medrado, o qual calculou uma estrutura de concreto armado complementar. Os pilares, vigas e lajes foram construídos com a utilização de trilhos de trens adquiridos da Santa Casa da Misericórdia.




A portaria com a entrada para os elevadores ficou localizada na Rua Guilherme Rocha, enquanto o restante do pavimento térreo foi destinado a instalação de lojas e outros comércios. No primeiro andar funcionavam o restaurante, a barbearia, a cozinha, a adega, e o depósito de utensílios. Do segundo ao sexto pavimento ficavam os apartamentos, confortáveis, decorados, com água corrente, alguns completos com banheiros e outros avulsos.  No sétimo andar, a “joia da coroa”, um terraço com vistas para a cidade e o Bar Americano, cenário de festas, bailes elegantes, e do célebre “carnaval do sétimo céu”, movido a socialites, marchinhas, lança-perfumes, confetes e serpentinas.

O staff do hotel – gerente, copeiros, cozinheiros, garçons, camareiras – vieram do sul do país, devidamente treinados. O mobiliário também foi adquirido na Europa: espelhos bisotados, vidraças, lustres e móveis no estilo Art-Nouveau, lençóis e toalhas de linho irlandês, e para o salão de jantar, um piano de cauda Dooner. 



os antigos elevadores ainda funcionam

Fortaleza ainda não tinha descoberto seu potencial turístico e os meios de hospedagens, desde as pensões populares aos hotéis de várias categorias, eram todos no centro. Foram hóspedes do Excelsior, artistas que vinham em turnês, políticos, e famosos de todas as áreas, como a aviadora américa Amélia Earhart, o presidente Juscelino Kubitschek, o cineasta Orson Welles, a cantora lírica Bidu Sayão, o jogador de futebol Pelé, empresários, comerciantes, vendedores...


Plácido e Pierina

Os proprietários - Plácido e Pierina -  residiam no castelinho do Outeiro, construído na década de 1920. Depois que o hotel foi inaugurado, passaram a alternar entre o castelo e o Excelsior. Em 1933 a família decide se mudar para o Excelsior, porque Plácido precisava de cuidados médicos e o hotel oferecia maior facilidade de acesso. E foi num dos quartos do hotel que Plácido veio a falecer, no dia 5 de junho de 1935, aos 60 anos de idade. A viúva não voltou a morar no castelo do Outeiro, que ainda nos anos 30 foi alugado ao Serviço de Malária, órgão subordinado ao governo federal.


Plácido e Zaíra, filha de Pierina, no castelo do Outeiro

Pierina Rossi em seu castelo

No ano seguinte Pierina contrata os serviços do arquiteto húngaro Emilio Hinko para construção de seis casas para aluguel ao redor da edificação principal na quadra entre as avenidas Santos Dumont, ruas Carlos Vasconcelos, Monsenhor Bruno e Costa Barros. Alguns anos depois, Pierina e Hinko se casam e passam a morar numa dessas casas. Pierina faleceu em 11 de dezembro de 1958, e o hotel encerrou as atividades em 1° de outubro 1964, após 33 anos de intenso movimento.


Emilio Hinko

Mais tarde, Emilio Hinko passou a residir num dos apartamentos do Excelsior, em companhia de alguns familiares húngaros. Ele viveu no hotel até falecer no dia 04 de janeiro de 2002, aos 100 anos de idade.


Na época em que o Excelsior fechou, a pretexto de realizar reformas, o Centro ainda aglutinava os negócios e comércios importantes da cidade. Grandes lojas, os maiores cinemas, bancos, instituições; os maiores hotéis ainda estavam localizados no centro, exceto o Iracema Plaza que havia sido inaugurado na Praia de Iracema nos anos 50.


Hotel Savanah, na Praça do Ferreira

A inauguração do Hotel Savanah, em 12 de abril de 1964, instalado na vizinhança, na Rua Major Facundo, de frente para a Praça do Ferreira, com dez suítes e 128 apartamentos, distribuídos em treze andares, deu uma ideia da concorrência que o Excelsior viria a enfrentar. O Savanah foi a primeira torre hoteleira da cidade, e chegou a conquistar o posto de melhor e maior hotel de Fortaleza, arrebatando o título que até então pertencia ao Excelsior.



O Excelsior, que não é mais hotel, ainda tem o térreo ocupado por lojas e prestadores de serviços. No período natalino, se enfeita de vermelho e recebe as crianças do coral natalino,  compondo o Natal de Luz da Praça do Ferreira. Fica na Rua Guilherme Rocha, 172, centro.


A partir do início dos anos 70, a hotelaria começa a se expandir rumo ao litoral, na Avenida Beira-Mar e arredores, dentro da nova vocação turística que a cidade se inseriu; as lojas, cinemas, lanchonetes, bares e restaurantes, buscaram os grandes centros comerciais e os shoppings centers; e os órgãos de administração pública também buscaram novos endereços na parte leste da cidade. 

Desde então, os estabelecimentos com endereço no Centro, pagam o preço da expansão da cidade e da falta de políticas de revitalizações,  que possam tornar o local atrativo para novos empreendimentos, e que contemplem a ocupação de tantos espaços vazios.


Os grandes hotéis que fecharam no Centro

Palace Hotel – 1927 – 1971

Excelsior – 1931 – 1964

Lord Hotel – 1956 – 1992

San Pedro Hotel – 1959 – 1990

Hotel Savanah – 1964 – 1992

Premier Hotel – 1969 – década de 90

Hotel Sol – 1971 – 2001 

            

fotos: Arquivo Nirez e Fortaleza em Fotos

Fontes: Jornal O Povo, Anuário do Ceará, Guia Turístico da Cidade. 


Um comentário:

Regina Sales disse...

Beleza de postagem! Meu pai arrendou a barbearia em uma determinada época. Fez barba e cabelo de personagens ilustres...