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terça-feira, 23 de novembro de 2021

A Zona do Mucuripe

Mucuripe - anos 30

Zona era o termo usado até por volta dos anos 60 para designar a região dos prostíbulos da cidade. Era onde estavam localizadas as pensões alegres, cabarés, casas de tolerância, boates, lupanares e mais uma variedade de nomes que ao fim e ao cabo, designavam o mesmo tipo de estabelecimento que explora a prostituição. Fortaleza tinha algumas zonas famosas: a do Mucuripe, do arraial Moura Brasil, do Centro, e outras menores, dispersas nos bairros.


Jangadas do Mucuripe - provável anos 50

O Mucuripe já era conhecido por causa de sua colônia de pescadores, e das aventuras dos jangadeiros Manoel Jacaré, Tatá, Jerônimo, Manoel Preto que no dia 14 de setembro de 1941, partiram rumo ao Rio de Janeiro, então capital federal, em busca de reconhecimento dos direitos de sua categoria. Na ponta do Mucuripe, meia dúzia de casas de palhas, dunas alvíssimas, muitos coqueiros e cajueiros. Seus habitantes viviam única e exclusivamente da pesca, que era farta e diversificada. Na orla, algumas casas de pescadores, muita vegetação, a igrejinha de São Pedro e um grande pedregal na frente, onde moradores locais faziam ponto.

Os equipamentos no Mucuripe eram poucos naquela época: havia o símbolo maior do Mucuripe, o velho farol, já inativo quando a zona de prostituição ensaiava os primeiros passos; o prédio do SERVILUZ – Serviço de Luz e Força, Usina de que abastecia a cidade de energia elétrica, inaugurada no dia 23 de março de 1955; seis meses depois entrava em funcionamento experimental o Moinho Fortaleza, do grupo J. Macedo; e o promissor Porto do Mucuripe, que acabou se tornando uma fonte inesgotável de novos clientes para as prostitutas, vindos de terras diversas e distantes: os marinheiros estrangeiros.

A prostituição no bairro surgiu praticamente com o início das atividades do Porto, inaugurado em 1947. Em 1952 cerca de 600 mulheres foram ameaçadas de despejo pelas Secretaria de Polícia, em razão da pressão exercida por grupos familiares, que exigiam a transferência dos prostíbulos para outros lugares. Os botequins e a prostituição eram acusados de promover a degradação do lugar.

A zona de baixo meretrício do Mucuripe teve seu apogeu a partir da década de 60, quando a rua principal do então distante bairro, com inúmeros e movimentadíssimos cabarés, com músicas bregas e luzes coloridas, chegou a ser conhecida como a “Las Vegas do Ceará”. As atividades foram incrementadas com a chegada de centenas de meretrizes que ocupavam a região litorânea, ao longo da denominada “Rua de Frente”, que foram intimadas a deixar seus estabelecimentos por determinação da prefeitura, para construção da atual Avenida beira-Mar.


A ocupação do entorno do farol ocorreu em maior escala por volta do início dos anos 60, quando teve início a construção da avenida Beira-Mar. Cerca de 1.200 mulheres, que atuavam no ramo da prostituição foram removidas da zona de praia para aquela região

As mulheres se estabeleceram na região portuária, nas proximidades do porto, e enfrentaram resistência tanto por parte das famílias residentes, quanto por parte das outras prostitutas, que já atuavam no local, temerosas com o aumento da concorrência. Após este primeiro momento, de transferência do meretrício do Mucuripe, a zona do Farol receberia outros grupos de mulheres, das pensões do Centro da cidade, do Curral, e da zona da rua Franco Rabelo, todas expulsas de seus locais originais pela Secretaria de Polícia.

Nesta época o Porto do Mucuripe recebia embarcações com bandeiras de várias nacionalidades, de forma rotineira. A circulação constante de marítimos de diversas culturas, a e a proximidade com o porto, acabou se tornando uma grande vantagem para os prostíbulos, que prosperaram, e se multiplicaram.


Farol do Mucuripe nos anos 70

No Mucuripe, essas mulheres constituíram família, criaram filhos enquanto continuavam exercendo a profissão mais antiga do mundo. algumas se casaram com antigos clientes estrangeiros e foram embora do País; algumas retornam regularmente, para visitar as amigas e relembrar a vida que deixaram para trás. Hoje, a prostituição não é mais setorizada, a zona está na cidade toda, e o Mucuripe, desmembrado em vários bairros, ainda enfrenta velhos e novos problemas, desde o abandono de equipamento histórico como o velho farol, a problemas ambientais e sociais, até a exagerada especulação imobiliária na orla da Beira-Mar.


Fontes: 

Memórias de mulheres e amigos: interesse e afeto no meretrício de Fortaleza (1960-1980) - Érika Bezerra de Meneses Pinho (UFC) – Autora Cristian Paiva (UFC) – CoAutor Francisca Ilnar de Sousa – CoAutora Disponível em  http://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/21738/1/2012_eve_ebmpinho.pdf  -

Mucuripe: Verticalização, Mutações e resistências no Espaço Habitado Lidiane Costa Ramos – Dissertação de Mestrado >disponível em <http://repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/16718/1/2003_dis_lcramos.pdf

Jornal o Povo

http://www.fortalezaemfotos.com.br/2013/05/em-nome-da-moral-e-dos-bons-costumes.html

fotos: IBGE, Anuário do Ceará, Ah, Fortaleza!


 

domingo, 31 de março de 2013

Eleitorado sem Cabresto

 Mucuripe nos anos 50, região onde foi construída a Usina do Serviluz (foto Arquivo Nirez)

Enquanto as eleições a nível estadual aconteciam numa espécie de prévia, onde os partidos determinavam os nomes dos que deveriam ser ungidos pela população para o governo do Estado, em Fortaleza ninguém conseguia controlar o espírito libertário de sua gente. Dizia-se que o eleitorado da capital não possuía cabresto. Livre, imprevisível, agindo sempre ao sabor de suas emoções, embora sem nenhum embasamento político ou ideológico.

 prefeito Acrísio Moreira da Rocha quando assinava a doação do terreno para construção da Casa do Jornalista (foto do site da ACI)

Fortaleza levou á prefeitura, por duas vezes, a figura populista e carismática de Acrísio Moreira da Rocha, após a redemocratização acontecida em 1945. (Acrísio Moreira da Rocha foi prefeito de Fortaleza de 1948 a 1951 no primeiro mandato, e de 1955 a 1959 no segundo mandato).

Os grandes partidos bem que tentaram, sem êxito, dominar a cena, com nomes credenciados, inclusive pela posição econômica. O banqueiro Antônio da Frota Gentil, por exemplo, numa época em que a base de sustentação financeira de Fortaleza e do Estado, tinha no Banco Frota Gentil uma de suas vigas de sustentação, buscou o apoio popular através da poderosa sigla do PSD (Partido Social Democrático), sem nenhum sucesso.  Diversos outros candidatos, de igual envergadura, amargaram o peso da derrota adiante desse descompromisso eleitoral dos moradores de Fortaleza.

Havia sim os xodós, aquelas paixões tempestuosas, que quase sempre, se esvaneciam após a lua de mel. Acrísio resistiu mais com seus descamisados ou o pessoal do tamanco (carroceiros, camelôs, operários) visando sua ida à Prefeitura.

 Paulo Cabral de Araújo, prefeito de Fortaleza de 1951 a 1955 (foto do livro A Era do Rádio no Ceará)

Outro nome de grande popularidade, conseguida por seu prestígio pessoal adquirido  ao longo de brilhante carreira no rádio (PRE-9) foi Paulo Cabral de Araújo, a quem a cidade escolheu para dirigi-la, para a seguir, elege-lo deputado estadual.

O fenômeno Paulo Cabral revelou pela primeira vez, a importância do instrumento que, mais tarde,  seria peça essencial a qualquer esquema político-eleitoral: a mídia.  Orador influente, inflamado no comando de campanhas de benemerência, ora em favor da Santa Casa, ora em prol dos lázaros ou das vítimas das secas, Paulo Cabral tornou-se  em pouco tempo uma personalidade profundamente identificada com a cidade. E daí redundou a escolha de seu nome, acima das injunções partidárias para concorrer ao cargo, derrotando outros de mais tradição na vida política.

 Usina Serviluz - Serviço de Luz e Força de Fortaleza, criada pela Lei Municipal n° 803, de 20 de maio de 1954 (foto IBGE)

Em sua administração criou a Usina Serviluz, amenizando a rumorosa questão da falta de energia na cidade através de uma usina termoelétrica. Foi também Paulo Cabral que pensou em realizar um plano urbanístico para Fortaleza, com o renomado Sabóia Ribeiro.

Se o microfone elegera Paulo Cabral, seu substituto o general Manuel Cordeiro Neto fez-se prefeito graças ao símbolo de sua campanha: uma lata. Na sua juventude, Cordeiro Neto fora Chefe de Polícia (cargo equivalente ao atual Secretário de Segurança), oportunidade em que instituiu o “regime da lata”. Vadios, vagabundos, presos por desordens ou sentenciados pela Justiça, eram utilizados em obras públicas como pedreiros, ajudantes, serventes e outros trabalhos relativos a construção ou em serviços de limpeza. Recebiam para tanto, uma diária. 

Ocupavam-se e, no trabalho, longe dos rigores do encarceramento, muitos ganharam a recuperação pretendida pela sociedade.  Junto à população, essa imagem encontrou repercussão positiva, afinal a população sempre aplaudiu atitudes rígidas contra marginais, especialmente ladrões. 

 Costa Leste de Fortaleza antes da construção da Avenida Beira mar anos 50 (Arquivo Nirez)

Naquela época, aconteciam costumeiramente, arrombamentos de residências, quando não apenas invasão de quintais, com roubo de galinhas. Esse tipo de delinquente, que governos anteriores encurralavam num depósito degradante, localizado na Praça da escola Normal, foi de que se valeu Cordeiro Neto para implantar o regime da lata. Como "o homem da lata", Cordeiro Neto encontrou respaldo em todas as classes sociais, e contrariando as previsões das lideranças partidárias, elegeu-se prefeito de Fortaleza por larga maioria.

 Avenida Beira-Mar durante sua construção nos anos 60 
 e alguns anos depois, na década de 1970

Em sua administração, Fortaleza ganhou uma avenida de contorno – Avenida  Perimetral – que alargou suas fronteiras, permitindo-lhe extraordinário desenvolvimento metropolitano atingido nas décadas subsequentes.  Cordeiro Neto administrou Fortaleza entre março de 1959 e março de 1963, deixando, dentre muitas outras importantes realizações, a Avenida Beira Mar.


extraído do livro de Blanchard Girão
Sessão das Quatro cenas e atores de um tempo mais feliz

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A Usina do Mucuripe

Falta de Luz é bom pra namorar
mas depois disso nem é bom falar
a usina lá do Mucuripe
todo mês tem gripe
não quer mais funcionar
(Falta de Luz, 
 de Irapuan Lima e Mário Filho)

Prefeito Paulo Cabral de Araújo

A questão do fornecimento de energia elétrica em Fortaleza tornou-se prioridade na gestão do prefeito Paulo Cabral (1951-1955), que promoveu estudos visando a criação de uma autarquia municipal de luz e força e a construção de uma usina termelétrica no bairro do Mucuripe.  Para atenuar o déficit de energia elétrica em Fortaleza enquanto a usina do Mucuripe ainda não estivesse concluída, o governo municipal recorre a fábricas particulares para que estas forneçam o excedente em sua capacidade de geração de energia.  

Durante o ano de 1952, são contratadas a Fábrica São José, de Gomes e Cia, e a Fábrica Progresso. No ano seguinte incorpora-se ao sistema a Brasil Oiticica, com o fornecimento de energia elétrica com a demanda máxima de 550 KW, e em 1954, o Cotonifício leite Barbosa, sujeito a demanda máxima de 300 KW.


assinatura do contrato pelo representante da Westinghouse (fabricante dos equipamentos da Usina), assistida pelo Prefeito Paulo Cabral e os deputados Paulo Sarasate e Virgílio Távora - 30.06.1952 

Outra providência adotada para o grave problema de déficit de energia elétrica foi instalada em janeiro de 1954, no bairro do Meireles, na confluência das Avenidas Barão de Studart e Monsenhor Tabosa, um grupo diesel-elétrico. A Usina Auxiliar do Meireles, como passou a ser chamada, foi adquirida pelo valor de CR$ 4.241.787,50, om empréstimos de curto prazo a bancos locais.

Para produzir, transformar e distribuir a energia elétrica no município, foi criada a autarquia municipal Serviço de Luz e Força de Fortaleza – SERVILUZ , pela lei Municipal n° 803, de 20 de maio de 1954.

Coube à administração de Paulo Cabral projetar e executar a construção da usina termelétrica do Mucuripe, com obras iniciadas em 30 de julho de 1952. Compunham a Usina do Mucuripe, três caldeiras munidas de fornalha para queimar fuel oil ou lenha, com instrumentos e equipamentos completos para operação automática. Havia também um conjunto de geradores trifásicos e vários outros componentes.

A inauguração da usina ocorreu no dia 23 de março de 1955, dois dias antes de assumir a prefeitura, para seu segundo mandato, Acrísio Moreira da Rocha. Foi um acontecimento social importante, com amplo interesse popular, por se constituir passagem para a alternativa adequada de geração termelétrica a óleo Bunker C, ao invés de lenha, que já estava esgotada em nosso Estado.


vista aérea da Usina do Mucuripe, na Praia Mansa, próxima ao antigo farol - 1955

Nesta etapa, a usina do Mucuripe servia a região compreendida pelo Mucuripe, Volta da Jurema, Meireles, parte da Aldeota, Estância, Vila Zoraide e Vila Monteiro. Enquanto isso continuavam operando a turbina n° 3 da usina velha do Passeio Público, a usina diesel-elétrica do Meireles, nem como as unidades geradoras das fábricas contratadas no plano de emergência.

Apesar do sistema de geração de energia estar sensivelmente reforçado, na prática, surgiam problemas que determinavam cortes de energia elétrica. O projeto do Mucuripe utilizava água do mar. De um canal, as bombas sugavam a água para resfriamento dos condensadores. Mas quando ocorria a maré baixa, entravam nos tubos areia, peixinhos, crustáceos, etc. ocasionando sua obstrução e frequentes interrupções no fornecimento de energia.  O SERVILUZ teve que manter equipes de mergulhadores, que cumpriam o penoso trabalho de limpeza e deslocamento das bombas de dragagem. 


                     O Engenheiro Jesamar Leão de Oliveira e trabalhadores, na plataforma das caldeiras, comemoram a recuperação da Usina do Mucuripe, depois de dois dias de intensos esforços  - dezembro de 1957

No final de 1957, uma grave pane – o rompimento do tubo interno de aquecimento do óleo combustível – fica na história da usina. Durante os dias 28 e 29 de dezembro, os operários liderados pelo engenheiro Jesamar, ficam impregnados de óleo durante dois dias de contínuo trabalho, para que Fortaleza não passasse as festas de Ano Novo no escuro.

No final da década de 1950, a cidade constata que, mesmo com todo o esforço de governantes e dirigentes do setor elétrico, Fortaleza continuava a viver duros tempos de crises e desesperança, traduzidas em notícias como a que se segue, publicada no Jornal O Povo, de 6 de agosto de 1959. 


Usina do Passeio Público

"Há alguns dias que as noites de Fortaleza estão mais perigosas, embora os poetas ainda achem que as noites são mais belas sob a luz exclusiva da lua e das estrelas. A turbina Stahl, do Serviluz, com capacidade para 7.500 kVA, está em pandarecos, o que deixa grande parte da nossa capital sem energia elétrica durante a maior parte do dia e da noite. Somente a linha n° 3, que fornece energia ao centro da cidade é que continua funcionando regularmente" 


extraído do livro
História da Energia no Ceará
de Ary Bezerra Leite

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A Iluminação Pública de Fortaleza

prédio da Santa Casa com o gasômetro ao fundo (arquivo Nirez)

Fortaleza começou a ser iluminada com gás hidrogenado a partir de 17 de setembro de 1867, tendo sido feita a primeira experiência no dia 7 do mesmo mês pela iluminação parcial da cidade e de alguns edifícios, entre os quais o Clube Cearense.

O serviço foi contratado pelo presidente José Bento da Cunha Figueiredo em janeiro de 1864 com Joaquim da Cunha Freire e seu sócio Thomás Rich Brandt, os quais transferiram o privilégio à companhia inglesa Ceará Gás Company Limited.
As obras tiveram início em dezembro de 1866, no terreno adjacente à Santa Casa de Misericórdia, que foi cedida para esse fim por ordem da presidência em ofício de novembro do mesmo ano.
A Santa Casa cedeu a área para instalação do Gasômetro por imposição do governo (arquivo Nirez)

Pelos decretos n° 1573 de 10 de junho de 1868 e 1686, de 28 de agosto de 1869, o governo isentou os direitos de importação do material para o serviço dessa empresa.
A Ceará Gás instalou 1607 combustores, fincados no solo à beira dos passeios, com mangas de vidro pequenas, simples, em forma de campânula, e pela proximidade entre eles (cerca de 30 metros), a intensidade de luz correspondia a um foco de 10 velas estearinas.


Os combustores eram implantados no mesmo lado da rua, distando cerca de 30 metros um do outro a uma altura de 2,40 metros. Esse que aparece na foto ficava na esquina da Rua Barão do Rio Branco com a Guilherme Rocha (arquivo Nirez)

Já em agosto de 1893, deveria começar a iluminação à luz elétrica em estabelecimentos particulares e residências, por força do contrato celebrado pela câmara municipal com Pamplona, Irmão e Cia., o que não se concretizou. A distribuição da energia elétrica só seria iniciada em 1913, beneficiando somente as propriedades particulares, continuando a iluminação das ruas e praças a cargo da Ceará Gás Co. Ltd.  Que mais tarde teve seu contrato rescindido , transferindo-se o serviço para a Ceará Tramway Light and Power Co., cujo contrato foi por sua vez rescindido em 1934.

Já em 10 de outubro de 1933 foram instaladas, a título de experiência, quatro lâmpadas de cem velas na Rua Formosa, entre a Municipal e a das Hortas; e por fim, em 08 de dezembro de 1934, inaugurou-se a iluminação geral, começando-se com a colocação de algumas lâmpadas na Praça do Ferreira.


A iluminação pública movida a energia elétrica, começou com a colocação de algumas lâmpadas na Praça do Ferreira (foto acervo Marciano Lopes)

Na gestão do prefeito Paulo Cabral de Araújo (1951-1955) foi construída, com o potencial de 12,500 kw, uma usina localizada nas proximidades do farol do Mucuripe, cujo início de operações ocorreu em março de 1955. Constituíra para tanto, em fins do ano anterior, a autarquia Municipal Serviço de Luz e Força de Fortaleza (SERVILUZ) à qual foi constituída pela Companhia Nordeste de Eletrificação de Fortaleza (CONEFOR), criada a 1° de abril de 1962, atuando somente em Fortaleza, pois já existiam outras empresas instaladas no interior do Estado.
Em 30 de agosto de 1971 foi criada a Companhia de Eletricidade do Ceará – COELCE, autorizada a funcionar pelo Decreto federal de 5 de novembro do mesmo ano, fornecedora da energia de Paulo Afonso em todo o Estado do Ceará. 

fontes:
Descrição da Cidade de Fortaleza, de Antônio Bezerra de Menezesintrodução e notas de Raimundo Girão 

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Percurso da Energia no Ceará


Passeio Público, com elegantes lampiões à gás, tendo ao fundo a Praia Formosa (Marciano Lopes)

No principio era o binômio luminoso sol e lua, a envolver a pequena povoação à beira mar, sob os coqueirais de suas areias brancas. Se era noite de luar, tudo bem. Nas noites sem lua, no entanto, a escuridão envolvia a vila. 

E começa aí a história da iluminação artificial, com as velas de cera de carnaúba, alumiando a Fortaleza recém-nascida.  Depois entram em cena os lampiões de rua, queimando azeite de peixe, que muitos anos depois foram substituídos pelos gás carbônico originário da hulha, trazido pela inglesa Ceará Gaz.   

O prédio pertenceu primeiro ao Hotel do Norte, depois a Sociedade União Cearense, Correios, Ceará Tramway, Coelce, e futura sede da IAB da Orquestra Filarmônica do Ceará. Fica na esquinas das Rua Dr. João Moreira e Floriano Peixoto (Marciano Lopes) 

Em 1912 chegou à cidade a Ceará Ligth Tramway and Power Ltd, o polvo inglês, que veio modernizar o transporte coletivo, substituindo o bonde puxado a burro pelo tramway.  Para tanto instalou a primeira rede de distribuição na cidade, como suporte para os bondes elétricos. As residências também se beneficiaram com este equipamento moderno, mas a iluminação pública permaneceu a gás até 1935, por força do contrato entre o estado e a Ceará Gaz,  assinado em 1867.

Nesse meio tempo,   A Light Tramway iniciou um duelo com a Ceará Gaz querendo assumir também o domínio do fornecimento de luz elétrica para as ruas e residências.  Estabeleceu-se pelos jornais uma batalha de anúncios sobre as vantagens de um e de outro, como este anuncio da Ceará Gaz:
Uma luz boa e barata é o gaz incandescente, porque é mais suave à vista, 50% mais econômico.
Em outra página, o troco da Light: 
A melhor e a mais econômica luz é a luz elétrica, e a única que lhe faz competência é a do sol. 

Em 1935, venceu o novo. O governo rescinde o contrato que mantinha com a Ceara Gaz, seguindo-se uma longa e difícil  batalha judicial.

Mais tarde, a Ceará Light  iniciou uma nova batalha, desta feita contra o emergente serviço de auto- ônibus, como era denominado na época. A companhia inglesa sentiu a ameaça e opôs forte resistência à chegada do novo modelo de transporte coletivo, mas teve que encarar a concorrência que se instalava. 

Adquiriu e lançou em diversas linhas alguns ônibus, veículos de pequenos,  mas confortáveis, para 17, os menores e 34 passageiros. A população apelidou os veículos da Light de ramonas, alusão ao título de um filme de sucesso naquele tempo.


Veículos da Light: bondes e ônibus concorriam entre si. Esses da foto eram utilizados para conserto das linhas elétricas dos bondes (arquivo Nirez) 

Os micro-ônibus com os quais a Light concorria com seus próprios bondes, ajudaram a empresa a se manter no ramo por mais alguns anos, até retirar-se definitivamente, por conta da precariedade dos serviços prestados. A 2ª Guerra Mundial impedira a importação de novos veículos e peças de reposição. Findo o conflito, dois anos após em 1947, os bondes sem energia suficiente para movimentá-los e sem a indispensável manutenção mecânica, saíram de circulação.

A Light entrara afinal em agonia, não podendo mais arcar com os custos de operação, deixando inclusive de cumprir sentença trabalhista que a obrigava a conceder aumentos salariais aos seus servidores.  Pelo descumprimento, a empresa sofre intervenção federal. 

A sua nova direção procura, em desespero, soluções paliativas para o agravamento do problema da energia elétrica em Fortaleza. Daí surgem a Conefor, o Serviluz,  usinas térmicas, troca de combustível a lenha por óleo diesel, e remendos sem fim nas velhas caldeiras. Tudo foi tentado, mais os apagões continuavam atormentando a vida dos moradores da cidade.

Assinatura do decreto de encampação da Ceará Light (O Povo)

Por essa época foi eleito o prefeito Acrísio Moreira da Rocha, que determinou a encampação definitiva da companhia britânica.  Apesar de tudo, a crise energética continuava,  Fortaleza continuava sofrendo com a falta de energia, o crescimento industrial paralisado,  a economia estagnada, as residências às escuras.  

Usina Serviluz era resultante da encampação pelo município da Ceará Light. (IBGE)

A situação começou a ser contornada a partir de 1964, com a chegada da energia gerada a partir da cachoeira de Paulo Afonso, distribuída pela CHESF.
A energia só chegou ao Ceará em 1964, bem depois dos depois de outras localidades do Nordeste, a exemplo  de Recife (1954) e Salvador (1955). 

Ocorreu que, quando foi criada em outubro de 1945, a área de concessão da CHESF abrangia um círculo de 450km de raio a partir da usina a ser construída em Paulo Afonso. Incluía, portanto, Salvador, Aracaju, Maceió, Recife e João Pessoa. Excluía Fortaleza e grande parte do Ceará.

Em 05 de julho de 1971, o Governo do Ceará criou, mediante lei estadual , a COELCE - Companhia de Eletricidade do Ceará, autorizada a funcionar pelo Decreto Federal 69.469 de 05 de novembro de 1971. A Coelce foi privatizada em 1998.

fonte:
Blanchard Girão e Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Fortaleza que não existe mais: A Usina Elétrica SERVILUZ

A Usina Elétrica do SERVILUZ funcionava no bairro do Mucuripe
(foto: IBGE)


Em 1960, o serviço público de energia elétrica em Fortaleza era operacionalizado - de forma precária - pela SERVILUZ - Serviço de Luz e Força de Fortaleza, a partir de energia gerada por usinas termelétricas.

A SERVILUZ era uma autarquia pertencente ao município de Fortaleza, resultante da encampação da antiga Ceará Tramways, Light & Power.
Em 1962 o controle acionário da SERVILUZ passou da prefeitura de Fortaleza para a ELETROBRÁS, quando então a empresa transformou-se na CONEFOR - Companhia Nordeste de Eletrificação de Fortaleza

quarta-feira, 3 de março de 2010

Imagens da Fortaleza Antiga

A Praça do Ferreira por volta dos anos 1920. Ainda existiam os trilhos por onde corriam os bondes. (foto: reprodução)


Seminário da Prainha. (foto: reprodução)

O Seminário foi fundado em 1864 com o nome de Seminário Episcopal do Ceará, por Dom Luis Antonio dos Santos, primeiro bispo de Fortaleza. Mais tarde passou a ser chamado de Seminário Provincial da Prainha. Em estilo neoclássico, ainda conserva expressivo acervo de azulejos portugueses do Século XIX. Fica na Avenida Monsenhor Tabosa.



Praça do Ferreira em foto de 1930. (reprodução)

O coreto que enfeitava a praça foi construído em 1920 pelo prefeito Godofredo Maciel e demolido em 1933 por Raimundo Girão, que mandou erguer na mesma época, a Coluna da Hora.

Antigo Mercado Central (foto reprodução)

A história do Mercado Central começa em 1809 com a autorização da Câmara Municipal para a construção, em madeira, do mercado que a funcionou inicialmente para o comércio de carne, fruta e verdura. Em 1814 as instalações foram demolidas e um novo prédio foi erguido com a denominação de "cozinha do povo".

Em 1931, o comércio de carne, fruta e verdura foi proibido dentro do prédio, e as instalações foram ocupadas por produtos utilitários e decorativos feitos artesanalmente.
Em 1975, após várias reformas, o mercado foi reinaugurado ocupando um espaço de 1.200 metros quadrados. O mercado então tinhas corredores estreitos, muitas lojas de confecção, e todo tipo de artesanato produzido no Ceará. 

O edifício, com acessos por três ruas distintas, Conde D’Eu, General Bezerril e Travessa Crato, tem características Art-Déco bastante despojadas e simples, próprias da época. É composto basicamente por um pavilhão com estrutura de pilares de concreto e coberta executadas com tesouras metálicas feitas com trilhos de bondes.


Passeio Público, década de 1920 (foto reprodução).

O Passeio Público é uma das mais antigas e belas praças de Fortaleza. O espaço foi construído em 1890 em estilo neoclássico e tem o nome oficial de Praça dos Mártires. Era dividido em três níveis, cuja frequência era definida pela classe social a que pertencia o individuo: ricos na Av. Caio Prado, classe média na Avenida Carapinima e Avenida Padre Mororó para a patuléia.
A foto retrata o trecho da Avenida Caio Prado. Nota-se a elegância dos vestidos das frequentadoras do local, chapéus e sombrinhas eram ítens obrigatórios na composição do figurino.


Fábrica de Tecidos São José (foto: IBGE)

de propriedade de Pedro Philomeno Gomes Ferreira, a fábrica de tecidos São José foi inaugurada em 1926, na Avenida Tomás Pompeu, 506, no bairro Jacarecanga. Durante muitos anos foi a maior fabricante de redes do Brasil, possuía um parque fabril que ocupava uma área de 26.000 metros quadrados, empregando mais de mil operários. Foi pioneira no Ceará na fabricação de produtos como toalhas de banho, fraldas e toalhas de mesa


Dunas do Mucuripe, onde hoje fica o bairro do Serviluz (foto: IBGE)


Rua Guilherme Rocha em 1915 (foto reprodução)