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sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Padre José Nilson, o Benfeitor do Mucuripe

 

Desde quando foi elevado à categoria de Paróquia, em 1931, o Mucuripe teve sucessivos vigários: chegavam, passavam dias, algumas semanas ou meses e depois pediam transferência. Era realmente uma paróquia difícil, uma comunidade constituída de pescadores e suas famílias que moravam em casebres, não contavam com qualquer tipo de ajuda e sofriam as maiores carências, situando-se muito aquém da linha de pobreza. Mas tinham uma grande religiosidade e depositavam suas esperanças na proteção da padroeira do lugar, Nossa Senhora da Saúde. 


Região do Farol do Mucuripe final dos anos 1930

Praia do Mucuripe início dos anos 1950, cenário encontrado pelo padre Nilson
 

No dia 05 de maio de 1950, assumia um novo vigário, o padre José Nilson Oliveira Lima: pouco mais de dois anos de ordenação, vinte e poucos anos de idade. Tempo previsto de permanência: 6 meses. Logo no início, o padre se surpreendeu com o contraste entre a esplendorosa paisagem natural e a miséria dos moradores. Começou seu reconhecimento pelos recantos do imenso território da paróquia. Subia e descia morros, vencia trechos prolongados no meio de um areal cansativo; Farol, Morro do Teixeira, Encantado, Santa Teresinha, Favela Verdes Mares, Varjota, Jurema, Vila dos Estivadores... um longo e penoso percurso que a juventude e o ardor religioso do padre enfrentavam com entusiasmo e coragem.


Imagem: https://www.facebook.com/acervopejosenilson/
Seminário da Prainha anos 1910

Naquele início dos anos 50, chegar ao Mucuripe era uma aventura. Havia tão somente uma linha de ônibus – Cais do Porto – que demorava horas, e já vinha lotado do Centro. Padre Nilson morava no Seminário da Prainha, e pegava o ônibus em frente ao local. Tinha lugar garantido, por mais cheio que o ônibus estivesse. Os estivadores que vinham do centro, reservavam o seu lugar. Era conhecido dos motoristas da linha e dos demais passageiros, estimado e respeitado por todos.

De Início o Padre Nilson criou a Associação da Juventude Católica do Mucuripe, para encaminhamento de menores pobres, que viviam em ambiente pernicioso, pouco recomendável a crianças, sem escola e sem regras. Incentivou a construção do cemitério, colégio, estádio e a restauração da igreja de cima (a atual Igreja de Nossa Senhora da Saúde, na Avenida da Abolição). Para tanto, contava com o apoio da comunidade, de alguns políticos, e com as célebres quermesses, que angariavam fundos para tais iniciativas.

Com o tempo, Padre Nilson passou a intervir positivamente junto as comunidades do Mucuripe: tornou-se interlocutor dos Estivadores junto às autoridades da Marinha e da administração do Porto. Foi inscrito como estivador, com direito a carteira do Sindicato, e remuneração pelos dias em que, por sorteio, era escalado para trabalhar na carga e descarga dos navios atracados. Quando vinham lhe pagar o valor da diária, sugeriu que os estivadores guardassem o dinheiro para alguma eventualidade. Mais tarde, foi aposentado como estivador do cais do Porto de Fortaleza.

Também os jangadeiros do Mucuripe tornaram Padre Nilson sócio efetivo da Colônia Z-8. Depois da missa matinal dos domingos, o padre reunia-se com os pescadores, e à exemplo dos estivadores, cuidava dos interesses deles junto à Capitania dos Portos. Tornou-se um pescador de carteirinha. Gozava de muita simpatia e total acolhida por parte das autoridades da Marinha, e sempre era convidado para toda e qualquer solenidade promovida por eles.

As mulheres de faziam a vida na prostituição do Mucuripe contavam com a compreensão e o acolhimento do padre Nilson. Muitas vezes, ao chegar para rezar a missa na capelinha de baixo (atual Capela de São Pedro, na avenida Beira Mar), o padre se deparava com algumas delas embriagadas, sentadas à porta da Igreja. Tinham pelo padre respeito e estima. Levantavam-se quando ele chegava, e apesar da embriaguez, não há qualquer registro de que essas mulheres tenham sido agressivas ou tenham dirigido ao religioso qualquer palavra grosseira.

Foi o Padre José Nilson quem orientou as mulheres a se transferirem para a vizinhança do Farol Velho, onde estavam sendo providenciadas acomodações com relativo conforto. Além de luz, água e transporte coletivo; as prostitutas se estabeleceriam no entorno do farol e as famílias residiriam mais além, em local mais tarde denominado Vicente Pinzon. Cerca de mil e trezentas mulheres da vida fizeram esta baldeação e ali sacramentaram a chamada Zona do Farol.

Padre Nilson chegou ao Mucuripe para ficar 6 meses, mas acabou ficando por mais de 50 anos. Testemunhou amplas transformações no bairro, principalmente transformações físicas, mudando quase que por inteiro aquela visão formosa que encantou os primeiros navegantes que aportaram por aqui, nos idos de 1500. A praia de areias brancas está reduzida a uma estreita faixa praticamente toda ocupada por embarcações, por barraquinhas de venda de peixe ou por equipamentos de lazer implantados pela prefeitura.


Praia do Mucuripe 2011

Centenas de pequenas embarcações a motor apinham as águas calmas da baía. E as dunas de outrora cederam lugar a espigões de muitos andares que compõem um paredão a impedir que o “Nordeste” refresque com sua aragem a cidade calorenta. Do muito que aconteceu, Padre Nilson viu de perto. Depois que se aposentou o padre continuou vivendo no Seminário da Prainha. Faleceu no dia 14 de abril de 2010, aos 88 anos, deixando para todos o exemplo de uma pessoa voltada e devotada às coisas de Deus, pela presença e solidariedade com todos que o cercavam.


O Colégio do Mucuripe foi fundado pelo Padre Nilson em 1963, depois teve o nome mudado para EEF Padre José Nilson - 2012

Igreja de Nossa Senhora da Saúde, construída em 1932, no cimo de uma duna


Morro do Teixeira - 2012

Região do farol, depois que a zona de prostituição foi transferida para lá

Mucuripe atual - vista aérea - imagem Diário do Nordeste


Fontes:

Mucuripe, de Pinzon ao Padre Nilson de Blanchard Girão. Edições Fundação Demócrito Rocha-1998.

Mucuripe / Audifax Rios – Fortaleza: 2013.

fotos: Arquivo Nirez, IBGE, Anuário do Ceará e Fortaleza em Fotos



quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Padre Palhano, o Prefeito de Sobral

 

José Palhano de Saboia era apenas um seminarista, quando caiu nas boas graças do bispo Dom José Tupinambá da Frota, primeiro bispo de Sobral, que o considerava como seu filho adotivo. O seminarista era um sujeito carismático, desportista, piloto de avião e moto, indisciplinado, inquieto e extremamente popular entre a população de Sobral. Foi ordenado por Dom José depois de ter sido expulso do Seminário da Prainha, por viajar para Sobral todo fim de semana, sem licença dos superiores. Depois foi estudar em Roma, onde pouco demorou na Universidade Gregoriana, retornando a Sobral. Muito inteligente e inquieto, Palhano não gostava de estudar.

Padre Palhano

Passou a trabalhar com Dom José, no Palácio Episcopal. Quando teve seu avião, levava o bispo a acompanhá-lo nas suas piruetas aéreas. Atuando como tesoureiro das riquezas da Diocese, era ele quem distribuía as honrarias e cargos da igreja. Usava sua camionete para ajudar aos mais pobres, como transportar uma grávida para a maternidade, ou um doente de volta para casa.

Por isso, não foi surpresa para ninguém quando ingressou na cena política, depois de indispor o bispo Dom José com um velho aliado, o cacique político da região, Chico Monte. Candidatou-se a prefeitura de Sobral em 1958, numa ruidosa campanha que repercutiu no Estado e no País inteiro, onde envolveu o próprio bispo, que viveu o vexame de passar por uma inspeção do arcebispo metropolitano, Dom Antônio de Almeida Lustosa, instrumentado pelas boas relações do então Ministro do Trabalho Parsifal Barroso, genro de Chico Monte, com a alta hierarquia da Igreja Católica.

 

Bispo Dom José ao lado do seminarista José Palhano de Saboia

O bispo Dom José, usado como trunfo na mesquinha campanha eleitoral – dada sua popularidade entre a população – era levado para cima e para baixo pelas ruas de Sobral, surdo, quase cego e senil, para ajudar o pupilo, que provocava pessoalmente o adversário Chico Monte. O veterano político tentou responder com a candidatura do monsenhor José Gerardo Ferreira Gomes. O bispo proibiu a disputa, sob pretexto de que não ia permitir a luta de entre dois padres.


vista aérea do Seminário Diocesano, inaugurado por Dom José em 1925. Funcionou até 1967

Padre Palhano venceu a eleição. Dom José ainda pode testemunhar o feito, presidindo o banquete em comemoração ao novo prefeito. Logo depois, morreu. A gestão de Palhano à frente da Prefeitura de Sobral foi cheia de percalços, devido a forte oposição de grupos políticos locais e do Governo do Estado.

Em 1962 candidatou-se ao cargo de deputado federal e na mesma época foi excomungado pelo Vaticano por haver processado na justiça comum o bispo Dom Walfrido Teixeira Vieira. Depois foi suspenso das ordens por Dom João da Mota. Na véspera da eleição, correu em Sobral um boletim apócrifo, atribuído ao secretário da Diocese, padre Sadoc, lamentando a punição ao padre Palhano, dizendo tratar-se de um grande equívoco. As cópias do boletim foram jogadas de um avião e inundou as ruas de Sobral. No ano de 1962, fundou a Rádio Tupinambá, que possuía vasta programação musical, e de onde o padre divulgava notícias bombásticas a respeito dos adversários.


Avenida Dom José, no Centro

O golpe militar de 1964 foi o fim da carreira política de Padre Palhano, cassado por Ato Institucional. Então, foi morar no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito. Quando pode, voltou a Sobral, às suas polêmicas, aos banhos no açude do Quebra, sua paradisíaca propriedade na Serra da Meruoca.

Padre Palhano terminou seus dias aos sessenta anos sem votos, sem a sua emissora de rádio, sem a aura romântica que tanto cultivara. Seu enterro, no entanto, foi a consagração que ele teria gostado de presenciar. A cidade inteira, chorando, levou-o à sua última morada, lembrando seu carisma, sua alegria de viver, esquecendo e perdoando seus arrebatamentos e as paixões que suscitara.


Extraído do livro” Clero, Nobreza e Povo de Sobral/Lustosa da Costa. Rio-São Paulo- Fortaleza: ABC Editora,2004/publicação Fortaleza em Fotos/Imagens IBGE e Internet          


terça-feira, 25 de junho de 2024

Paula Ney o poeta de Fortaleza

 


Paula Ney foi aluno do Liceu e do Seminário da Prainha. Mas nunca gostou de estudar, era um aluno rebelde. Enquanto estudava no Seminário, costumava fazer discursos contra os antigos métodos de violência empregado para o aprendizado das matérias. Como resultado, foi expulso por mau comportamento. No Liceu, a história se repetiu, sendo reprovado por conta de grande desentendimento com um professor de inglês.

Por causa de sua inadaptação, foi mandado pelo pai para o Rio de Janeiro, para estudar Direito; a mãe preferia que estudasse Medicina; no final, Paula Ney não seguiria nenhuma dessas profissões. Iniciou-se no jornalismo na “Gazeta de Notícias”, participou de comícios pela abolição da escravatura ao lado de José do Patrocínio, além de escrever em favor da liberdade. Mas, para atender as expectativas da mãe, matriculou-se na Escola de Medicina, que pouco frequentava. Comparecia apenas para realizar exames orais, conseguindo sucesso pelas amizades com os professores e gozações nas respostas:

- Diga ao menos quantos ossos tem o crânio de um homem ... – não me recordo professor... mas tenho-os todos aqui na cabeça. Fica satisfeito o primeiro examinador. Vai para avaliação do segundo:

- vou fazer a primeira pergunta. Se o senhor responder nada mais lhe perguntarei, dar-me-ei por satisfeito. “Diga-me quantos fios de cabelo tem o senhor?”

- duzentos e sessenta e cinco mil oitocentos e novecentos e quatro...

- mas como o senhor chegou a essa conclusão?

- caro professor, não se esqueça que o senhor garantiu que só faria uma pergunta. Trato é trato.

E é aprovado em Anatomia. No exame de Cirurgia teve de se haver com o Visconde de Saboia. Nada sabe do ponto sorteado. Resolve então fazer literatura.

- a mentalidade humana vive num oceano de hipóteses e de dúvidas... os sábios vão ao fundo, na ânsia das pesquisas, com o peso da inteligência...

- e a ignorância? Pergunta-lhe o Visconde.

- essa boia.

Mas essa vida fácil na Faculdade de Medicina não podia continuar eternamente. E foi ao prestar exame de Obstetrícia, com o professor Feijó Junior, que o fez dar por encerrada sua futura profissão de médico. Ao ser sabatinado, não conseguiu articular uma resposta, o que fez com que o professor dissesse: 

- “senhor Paula Ney... então não sabe isso? É incrível, uma coisa tão fácil...olhe que o que estou lhe perguntando é coisa que sei desde que nasci..."

Ney então compreende que está perdido. E quebra o silêncio fazendo a sala explodir numa gargalhada: - se o senhor sabe isso desde que que nasceu, então a senhora sua mãe devia ter uma biblioteca dentro do ventre”

Estava terminada a sabatina, e encerrado o curso para o aluno. Paula Ney nunca mais voltaria à Escola.

Francisco de Paula Ney, nascido em Aracati, no dia 2 de fevereiro de 1858, representa uma geração de poetas boêmios, despreocupada com a vida e com o futuro. Somente o prazer dos amigos, as rodas literárias e as serenatas faziam sentido nessa existência alegre e poética. Fazia versos nas mesas dos cafés, na primeira folha de papel que lhe viesse as mãos. Gostava de dar asas a imaginação, comentando os mais diversos fatos, passando de literatura para a política, da política para as artes, das artes para a prisão do último ladrão. Era um orador de alta classe, porque de pequenas coisas sabia extrair grandes motivos.

Em seu "Dicionário Bibliográfico", o Barão de Studart afirma que Paula Ney foi nomeado diretor da Hospedaria de Emigrantes pelo marechal Floriano Peixoto, e foi destituído do cargo pelo governo de Prudente de Morais. A trajetória de Paula Ney foi interrompida no dia 13 de outubro de 1897, quando faleceu vítima de tuberculose. Tinha 39 anos.






Os cafés da Praça do Ferreira, que Paula Ney provavelmente frequentou, e foto ilustrativa da Praia de Iracema dos anos 90.


Ao longe, em brancas praias embalada

Pelas ondas azuis dos verdes mares

A Fortaleza – a loura desposada

Do sol – dormita à sombra dos palmares


Loura de sol e branca de luares,

Como uma hóstia de luz cristalizada

Entre verbenas e jardins pousada

Na brancura de místicos altares


Lá canta em cada ramo um passarinho

Há pipilos de amor em cada ninho

Na solidão dos verdes matagais...


É minha terra, a terra de Iracema,

O decantado e esplêndido poema

De alegria e beleza universais

 

Extraído dos livros “A História do Ceará Passa Por esta Rua”, de Rogaciano Leite Filho e Fortaleza 1910, Imprensa Universitária/UFC. Publicação FortalezaemFotos. Fotos Wikipédia, Arquivo Nirez e acervo particular. 

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Os Arquivos da Igreja

A prática do registro civil – nascimento, casamento – óbitos, etc,  remonta à Antiguidade, embora somente as pessoas consideradas importantes é que se submetiam à referida estatística. Não havia o cartório como o concebemos hoje.


 Registro de batismo de 1896. Não é tarefa fácil pesquisar documentos antigos: além da má caligrafia, em muitos casos os dados são divergentes ou incompletos

Com a queda do Império Romano e a ascensão da Igreja Católica, esta herdou a tarefa de proceder ao registro de nascimentos e mortes, mas ainda assim somente de um grupo seleto, como nobres, reis, eclesiásticos e demais pessoas consideradas importantes. Na prática, a Igreja apenas deu continuidade a uma tradição.

A França detém o título de país pioneiro na prática do registro universal de nascimentos e mortes, cuja datação aponta para meados do século 16, uma iniciativa da Igreja Católica. Poucos anos depois, com o término do Concílio de Trento (1563), a Igreja oficializou e difundiu a prática do registro civil e do registro de mortos para ricos e pobres.


Inaugurada em 1841, a Igreja da Conceição da Prainha registrou o batismo, casamento e morte de muitos fiéis. 
 
No Brasil, até meados do século XIX  os grandes arquivos do país estavam sob a responsabilidade das igrejas. Como o Estado e a Igreja estavam relacionados e o catolicismo era a religião oficial do País, apenas a Igreja católica efetivava esses registros. Somente a partir da segunda metade é que a Igreja perde para os municípios o dever de proceder a tais registros. Em 1863, por meio de um decreto, o governo imperial deu efeito civil aos registros de casamentos de pessoas não católicas e em 1874, também por meio de decreto, D. Pedro II regulamentou o registro de nascimento, casamento e de óbito no Brasil. Esse ato marca o surgimento dos cartórios no Brasil. O primeiro cartório de Fortaleza foi instalado em 17 de novembro de 1888, com o nome de "1° ofício de registro civil das pessoas naturais", conhecido por Cartório João de Deus, localizado no Centro.  

  
Documento de batismo de Antônio Vicente Mendes Maciel, que ficaria conhecido na história do Brasil como Antônio Conselheiro.  Registro  no Livro de Assentamentos de Batizados da Paróquia de Quixeramobim, de 22 de maio de 1830. 

A Somente a partir de 1875, as grandes cidades brasileiras deram início a essa determinação, e a partir de 1888, a Igreja deixava, oficialmente, de cumprir com essa obrigação, cujas recentes mudanças foram outorgadas pelas constituições republicanas.
A separação entre a Igreja e o Estado foi efetivada em 7 de janeiro de 1.890, pelo Decreto nº 119-A, e constitucionalmente consagrada desde a Constituição de 1.891. Até 1.890, enquanto o catolicismo era a religião oficial do Estado, as demais religiões eram proibidas, em decorrência da norma do art. 5o da Constituição de 1.824. O catolicismo era subvencionado pelo Estado e gozava de enormes privilégios.

Até os dias de hoje as Igrejas mantém arquivos e documentos. No entanto, esses documentos só se referem a ritos da Igreja Católica, como batizados e casamentos. Os demais registros civis, nascimento, casamento civil e óbitos são feitos exclusivamente em cartórios. 

Em Fortaleza, documentos antigos, como o arquivo de toda a capitania do Siará datado do século XVIII, bem como toda a documentação antes da República, estão armazenados na Sala de História Eclesiástica do Ceará. O lugar guarda e preserva a memória histórica do Ceará, como um todo. Não só da Igreja, mas também das histórias que se desenvolvem das relações pessoais. Todo  o acervo foi formado por documentos das paróquias de Fortaleza e de livros ou documentos  pertencentes a padres e bispos.


Seminário da Prainha em 1890: nesse ano houve a separação entre Igreja e Estado

Com estantes cheias de livros antigos, arquivos guardados em pastas, jornais arquivados e uma mesa grande para apreciar o material, o local fica na parte interna da Faculdade Católica de Fortaleza, no prédio do Seminário da Prainha. No mesmo lugar, outro ambiente, que guarda os arquivos da Cúria Metropolitana de Fortaleza, faz parte da sala. O acervo, reúne livros de registros de batizados, casamentos e óbitos das primeiras paróquias de Fortaleza e são muito procurados para pesquisas genealógicas.  

Fontes:

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Colégios de Fortaleza no Século XIX

Na Fortaleza do século XIX estudar além do curso primário era privilégio quase que exclusivo das elites.  Os colégios existentes à época, eram quase todos particulares e mesmo as poucas escolas públicas existentes - como o Liceu e a Escola Normal - eram inacessíveis aos mais pobres, dado o custo do material e da manutenção de um aluno em sala de aula. 

 escola pública de Fortaleza em foto de 1912

Havia 20 escolas públicas, sendo 4 para meninos, 7 para meninas e 11 mistas, todas dedicadas ao ensino das primeiras letras. A exceção eram  duas escolas públicas, dois pequenos prédios, atraentes pela forma elegante de suas construções e asseio, construídos, um no bairro do Outeiro da Prainha, na administração do governador Coronel Luís Antônio Ferraz, em 1890, e o outro no Boulevard Visconde do Rio Branco, na administração do Presidente Dr. José Freire Bezerril Fontenele, em 1893. As duas ministravam o curso primário. 
 
 O Bonde do Jacarecanga, repleto de alunos com a farda do Liceu do Ceará

Os filhos das famílias ricas eram educados nos melhores externatos da cidade, nos internatos religiosos da capital do país e muitas vezes, em instituições no exterior, como França, Inglaterra, Suíça, Alemanha e Bélgica. Algumas famílias optavam por matricular os filhos aqui mesmo, onde os pais podiam fazer um acompanhamento de perto; e a oferta de estabelecimentos de ensino era bem razoável.
 

 prédio do Liceu na Praça dos Voluntários

Berço da instrução pública de Fortaleza, o Liceu do Ceará iniciou a sistematização do ensino neste Estado a partir de 1845. Foi instalado no casarão na Praça dos Voluntários, onde hoje se encontra a Secretaria de Polícia e Segurança Pública. O Liceu  instituiu um curso equivalente ao do Ginásio Nacional, com duração de 7 anos, compreendendo as seguintes disciplinas: álgebra, geometria, trigonometria, mecânica, astronomia, física, química, meteorologia, mineralogia, geologia, zoologia, botânica, biologia, geografia, história universal, sociologia e moral, letras e artes,  e línguas: portuguesa, francesa, alemã, latina e grega; literatura nacional, desenho, música, ginástica, evoluções militares e esgrima. Ao aluno que obtivesse pelo menos as aprovações plenas, era conferido o título de Bacharel em Letras e Ciências. 

Ainda no século XIX, destacava-se o Ateneu Cearense, fundado em 1863 por João de Araújo Costa Mendes. Auxiliado pro seu irmão Manuel Teófilo Costa Mendes, transformou esse educandário particular num dos melhores da capital. 


 Seminário da Prainha, em 1905, na antiga Rua do Seminário, atual Avenida Monsenhor Tabosa

O Seminário Episcopal instalou-se em 1864, no Outeiro da Prainha, abrigando por gerações o cenáculo da cultura cearense. Lá o ensino era dividido em dois cursos, o Teológico e o Preparatório. No Curso Teológico os alunos eram submetidos às seguintes disciplinas: teologia oral, teologia dogmática, direito canônico, história eclesiástica, liturgia, cantochão, eloquência sagrada e escritura sagrada. No Curso Prepatório, estudava-se filosofia, física, retórica, matemática, história geral e do Brasil, geografia, francês, latim, gramática portuguesa, catecismo, história sagrada, civilidade e música vocal.


  Colégio da Imaculada Conceição, com um pavimento em 1905. Ao lado, a Igreja do Pequeno Grande

Dirigido pelas freiras francesas da Ordem das Filhas de Caridade de São Vicente de Paula, chegadas em Fortaleza em 1865, o Colégio da Imaculada Conceição funcionou a partir de 1867, num prédio construído para abrigar um hospital. Ocupava a área equivalente a um quarteirão quadrado, na parte setentrional da Praça Filgueiras de Melo. 

Ao longo do tempo, o Colégio Imaculada Conceição conquistou posição de destaque na educação das moças pertencentes a elite da cidade, que aprendiam as seguintes matérias: instrução religiosa, primeiras letras, gramática portuguesa, gramática francesa, aritmética, geografia, história sagrada, história do Brasil, civilidade. Além disso, aprendiam sobre costura, bordados, tecidos, flores, desenho, piano e música vocal. O colégio era dirigido por 19 irmãs de caridade, todas francesas. 

No início do século XX, nas dependências do Colégio da imaculada Conceição foi criado o externato São Rafael para meninos, onde estudou o futuro presidente Humberto de Alencar Castelo Branco.

Em 1876, o cônego Ananias Correia Amaral fundou o Colégio São José. Suas irmãs Júlia e Judith Correia do Amaral, auxiliadas pela prima Elvira Correia Pinho, dirigiram a partir de 1881, o Colégio Santa Rosa de Lima.

Em 1870 o professor Pedro da Silva Sena fundou o Panteon Cearense; o padre Bruno Rodrigues da Silva Figueiredo iniciou em 1879, o Instituto Cearense de Humanidades. 

 Escola Normal Pedro II em 1902. O prédio situado na Praça José de Alencar, com algumas modificações, atualmente abriga  o IPHAN.

A Escola Normal Pedro II, inaugurada em 1884 na Praça Marquês de Herval destinava-se a formação de professores para as  escolas do Estado.  O surgimento da Escola Normal provocou uma grande polêmica na sociedade, por causa da proposta de formar professoras profissionais, numa época em que as mulheres eram destinadas ao casamento e a criação de filhos. 

Lá os alunos (a escola aceitava alunos de ambos os sexos) cumpriam o seguinte programa escolar: um curso preparatório de 1 ano; e um curso normal de 3 anos. No preparatório, ensinava-se português, francês, aritmética,  sistema métrico, caligrafia, desenho linear, música vocal e prendas domésticas. No Curso Normal ensinava-se pedagogia, português, francês, aritmética, álgebra elementar, geometria, geografia geral e corografia do Brasil, ciências físicas e naturais, caligrafia e desenho, música vocal e prendas domésticas. 

Aos alunos que concluíam o curso, era expedido o diploma de habilitação para o magistério.
Durante o mandato da Irmã Clemence Therese Gagné de Dion, falecida em 1917, o Colégio da Imaculada Conceição foi equiparado à Escola Normal do Ceará, passando também a formar professoras. 

 prédio da Escola Militar do Ceará, atual Colégio Militar, na Avenida Santos Dumont

A Escola Militar do Ceará fundada em maio de 1889, instalou-se, no início nas dependências do Quartel da Força de Linha, junto à Fortaleza de N. S. de Assunção. Seu ensino correspondia ao de seus congêneres do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Posteriormente a escola Militar se estabeleceria no atual prédio que, construído pelo Barão de Ibiapaba, sediou por algum tempo, o Asilo de Mendicidade.

Outros colégios antigos podem ser citados como o Colégio Parthenon Cearense, fundado em 1892 por Lino de Souza da Encarnação, na esquina das Ruas 24 de maio e Guilherme Rocha.

A Escola Cristã do Padre Liberato criada em 1882 educou muitas personalidades do cenário social da cidade; outro colégio, o Ginásio Cearense de Anacleto de Queiroz Lima, fundado em 1887, comumente chamado de Colégio Anacleto, possuía alto conceito na época, firmando-se como principal estabelecimento particular de ensino do Estado.

O Externato Santa Clotilde da professora Francisca Clotilde Barbosa Lima, poeta e romancista, foi inaugurado em 1891. O Instituto de Humanidades do Cônego Salazar da Cunha e Antônio Augusto de Vasconcelos, iniciou suas atividades em 1892, na Rua Sena Madureira, em frente a antiga Igreja Presbiteriana, local hoje ocupado pelo Edifício Clóvis Rolim. 

 Colégio N. S. de Lourdes, de propriedade de Ana Bilhar, na Avenida Santos Dumont

Ana  Bilhar estabeleceu em 1896 o Colégio Nossa Senhora de Lourdes. O Colégio N.S. das Vitórias foi propriedade de Maria Mendes  e Emma Adélia Ruedin Gonthier, a notável Madame Gonthier, que fundaria em 1916 o afamado Colégio La Ruche.

De grande conceito também o Colégio Castelo Branco, iniciado em 1900, por Odorico Castelo Branco. Com a primeira denominação de Instituto Miguel Borges, instalou-se na Praça Coração de Jesus e posteriormente, na Avenida Dom Manuel. Mais tarde passou a ser chamado Colégio Castelo Branco a partir de 1921, com o falecimento de seu fundador.

 Colégio Castelo Branco, na Avenida Dom Manuel

Muitos desses estabelecimentos de ensino tiveram vida longa e formaram diversas gerações de profissionais que se destacaram no cenário cearense em inúmeras atividades. Outros, perduram até hoje, como o Liceu, a Escola Normal, o Imaculada Conceição, o Seminário da Prainha e a Escola Militar, hoje Colégio Militar de Fortaleza.. 

pesquisa:
Descrição da Cidade de Fortaleza, de Antônio Bezerra de Menezes, introdução e notas de Raimundo Girão
Ideal Clube, história de uma sociedade, de Vanius Meton Gadelha Vieira 
fotos do arquivo Nirez