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sábado, 25 de outubro de 2025

Liceu do Ceará – 180 anos

 

A palavra “liceu” tem suas origens na Grécia Antiga, e designava um local de ensino fundado por Aristóteles. O termo é a versão latina e depois francesa do nome grego e hoje designa instituições de ensino, especialmente o ensino médio.  

Liceu do Ceará 2011 - Praça Gustavo Barroso


O Liceu do Ceará foi criado pela Lei n° 304, de 15 de julho de 1845 e instalado oficialmente no dia 19 de julho daquele ano. Foi a primeira escola do Ceará a oferecer o curso secundário. Havia em Fortaleza muitas escolas primárias, públicas e privadas todas dedicadas ao ensino das primeiras letras; alguma ofereciam no máximo, o primário completo. Na época em que foi criado, estudar além do curso primário era um privilégio da elite, só continuava estudando quem tinha recursos, para sair da Província e ir para outra capital ou até outro País. 

Criado por iniciativa do Dr. Thomas Pompeu de Souza Brasil, teve sua aula inaugural no dia 19 de outubro de 1845, na sala do sobrado de Odorico Segismundo de Arnaut, localizado no Passeio Público, esquina das ruas Major Facundo e Dr. João Moreira, alugado pela quantia de 350 mil Réis anuais, conforme autorização da Presidência da Província ao diretor, Dr. Thomas Pompeu de Sousa Brasil.

Os candidatos a alunos do Liceu passavam por rigoroso teste de admissão, e uma vez aprovados, era imposto o currículo sugerido pelo então Instituição de Ensino Secundário do Império, mais tarde, Ginásio Nacional. A referência era o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. As disciplinas eram: Aritmética, Álgebra, Geometria, Trigonometria, Mecânica, Astronomia, Física, Química, Meteorologia, Mineralogia, Geologia, Zoologia, Botânica, Biologia, Geografia, História Universal, Sociologia e Moral, as letras e artes, línguas portuguesa, francesa, inglesa, alemã, latim, grega, literatura nacional, desenho, música, ginástica, evoluções militares e esgrima.

O curso tinha duração de 7 anos, e ao candidato que obtivesse pelo menos as aprovações plenas, era conferido o título de Bacharel em Letras e Ciências.

  

Sede do Liceu do Ceará na Praça dos Voluntários 
  

O colégio funcionou em diversos imóveis, até o dia 15 de março de 1894, quando passou para o edifício à Praça dos Voluntários, no Centro, construído especialmente para o funcionamento do Liceu. As aulas foram iniciadas em 15 de março, de conformidade com o regulamento do ensino público secundário.

Fachada original da sede da Praça Gustavo Barroso

Em 1934, na gestão do interventor Carneiro de Mendonça, começou a ser construída a sua nova sede, na então Praça Fernandes Vieira, no bairro Jacarecanga, com projeto elaborado pela Diretoria de Obras Públicas do Estado, sendo concluída no governo de Francisco de Menezes Pimentel. A inauguração ocorreu no dia 15 de novembro de 1935, tendo na sua diretoria o professor Otávio Terceiro de Farias. No governo de Paulo Sarasate o edifício foi reformado, ampliado e reinaugurado no dia 25 de março de 1957, quando era diretor o professor Odilon Braveza. 

colocação da estátua de Gustavo Barroso

O restante da praça recebeu ajardinamento, e no seu centro foi colocada a estátua do escritor Gustavo Barroso e tomou este nome.

No governo de Parsifal Barroso o Colégio Estadual do Ceará passou a ser chamado de Colégio Estadual Liceu do Ceará. Atualmente o Liceu é uma Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI). Funciona em horário estendido, das 7h às 17h50, com mais de 400 alunos. Fica na Praça Gustavo Barro, bairro Jacarecanga.

O Liceu do Ceará é o quarto mais antigo estabelecimento de ensino do País em atividade contínua. Os três que lhe antecederam foram: o Ginásio Pernambucano, em Recife, PE (1825); o Colégio Atheneu Norte-rio-grandense, em Natal, RN (1834); e o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, RJ (1837).   

 

Fontes:

Descrição da Cidade de Fortaleza, de Antônio Bezerra de Menezes. Introdução e notas de Raimundo Girão/Fortaleza, UFC-1992

O Liceu e o Bonde, de Blanchard Girão. Fortaleza, Editora ABC, 1997

Wikipédia

Secult

Fotos: Arquivo Nirez e Fortaleza em Fotos

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Identificação das Ruas e Numeração dos Prédios

 

Quem diria que nossa Fortaleza, atualmente com respeitáveis 2.703.391 pessoas (IBGE estimativa 2021), um dia foi tão pequena que não tinha, (nem precisava) de placas de identificação de logradouros, nem números das portas para localizar moradores ou comércios.





Nos primórdios da Vila os nomes das ruas e vielas eram dados pelos moradores e adotados pelo poder público. Alguns nomes antigos eram tão naturais e apropriados que, por si mesmos, estavam indicando sua procedência, tais como as ruas da Assembleia, da Municipalidade, do Chafariz, do Cajueiro, do Quartel, do Gasômetro, da Cacimba, a Rua de Baixo, de Cima, da Direita...


Com o passar do tempo, os logradouros foram sendo disciplinados. A partir de 1800 a cidade já contava com um arruador, mas o disciplinamento começou realmente a partir de 1812, com a chegada do governador Sampaio que trouxe a Fortaleza, o tenente coronel de engenheiros Silva Paulet, que elaborou a “Planta do Porto e Villa da Fortaleza”, em 1813.


A Decisão sobre a aposição de placas nas esquinas com indicação da nomenclatura das ruas, ocorreu em sessão da câmara municipal de março de 1818, ainda na gestão de Sampaio, e começou e ser implementada no ano seguinte. Dessa forma, já em janeiro o fortalezense pode ler os nomes das vias públicas da vila.


Com o crescimento e a consequente urbanização, ruas foram alinhadas, becos foram eliminados, as calçadas demarcadas. A nomeação dos logradouros ganhou ares de modernidade, a identificação pela funcionalidade virou coisa do passado. Assim, muitas vias tiveram seus nomes modificados, algumas delas, várias vezes.





A Numeração nas portas demorou um pouco mais. Em sessão ordinária de 12 de janeiro de 1861, o presidente da câmara Dr. Manoel Soares da Silva Bezerra indicou que se fizesse a numeração e indicação dos nomes de ruas através de tabuletas. Mas a indicação, apesar de aprovada, não foi logo cumprida, tendo sido objeto de nova apreciação por vereadores de nova legislatura. A falta de numeração ensejou a que os comerciantes usassem na divulgação dos seus estabelecimentos, nos anúncios veiculados pela imprensa, o nome de pessoas conhecidas da população, como se nota pelos anúncios publicados em jornais da época:


Aluga-se o armazém que fica embaixo do sobrado onde morou o Dr. José Liberato Barroso, e presentemente a Sra. Dona Thereza da Rocha Moreira”. (Jornal Pedro II, 27.01.1862).


Estabelecimento Fotográfico de Madame Fletcher – Rua Nova na casa onde morou o Dr. Justa (A Constituição, 25.02.1865)


Assim o logradouro era conhecido não pelo seu nome, mas porque fulano ou sicrano morava no local. O costume era tão arraigado entre a população que até o vigário da Sé anunciou pela imprensa, qual seria o percurso de uma procissão, comunicando que o cortejo passaria em frente à casa de determinadas personalidades conhecidas.


“O Sol”, jornal que fazia oposição à Câmara de Vereadores reagiu indignado à  publicação do anúncio, afirmando que o fato de ruas e travessas não terem nomes escritos, nem as casas possuírem numeração, resultava na publicação de notas como aquela, como se Fortaleza fosse uma “povoaçãozinha de meia tigela”, onde a população se orientava pela localização das casas de moradores notórios.


Em janeiro de 1865 o assunto da numeração dos prédios voltou a pauta na câmara, pela fala do vereador Rufino Antunes de Alencar, que lembrou da necessidade de numerar os prédios da cidade e solicitou orçamento elaborado por um engenheiro. Dois meses depois, em março, já aparecem anúncios na imprensa com endereços completos, a exemplo do que foi publicado pelo “O Cearense”, de 8 de março, sobre os serviços prestados por Raimundo Pacheco Amora, de pintura, escultura e douramento, com endereço à Rua da Alfândega, n° 8.


Em 29 de outubro de 1890, por determinação do intendente  municipal, José Freire Bezerril Fontenele (01.01.1890-12.11.1890), a câmara municipal acatou a sugestão de se trocar a denominação das ruas pela numeração, com a alegação de por um fim as contínuas e sucessivas mudanças de nomenclatura, quase sempre oriundas de sentimentos partidários. Fortaleza foi  a primeira cidade do país a adotar esse sistema americano. Os nomes de várias praças também foram substituídos.



A Rua do Rosário foi nomeada pela população e nunca mudou de nome. Virou rua numerada e seis meses depois recebeu seu nome original de volta. É a denominação de rua mais antiga de Fortaleza.
 

A medida "não pegou", nem agradou à população. Vários estabelecimentos comerciais continuaram a anunciar na imprensa utilizando os antigos nomes de ruas e travessas onde estavam situados. Raros foram os que adotaram, e passaram a publicar seus anúncios desta forma:


“Explêndido sortimento de calçados BOSTOK para homens, senhoras e crianças, despachou a Loja Magnólia – Rua 3 - n° 93” (Libertador, 17, 19 e 22.11.1890)


Fatos por Figurinos – Fazem-se vestidos para senhoras e meninas e fatos para meninos pelos figurinos mais modernos e preços módicos – Rua 7D (antiga Rua do Sampaio) n° 73. (O Cearense, 05.02.1890).


Não durou muito. Em 1891, por determinação da câmara, todos os logradouros voltaram a ostentar seus antigos nomes. A intendência mandou colocar em ruas e praças as placas com os nomes pelos quais eram conhecidos. Fortaleza esteve assim oficialmente privada da nomenclatura de suas ruas, praças, travessas por cerca de seis meses.



Praça dos Voluntários, no centro, conhecida por Praça da Polícia 
 

Até hoje, Fortaleza ostenta alguns nomes de logradouros, principalmente praças, que são conhecidos da população por nomes não oficiais. 

Nomes de logradouros que “não pegaram”:

Praça do BNB no centro, nome oficial Praça Murilo Borges;

Praça da Estação, oficialmente Praça Casto Carreira;

Praça da Lagoinha, nome oficial Praça Capistrano de Abreu

Praça da Polícia, nome oficial Praça dos Voluntários;

Passeio Público tem nome oficial de Praça dos Mártires

Praça das Flores, na Aldeota, nome oficial Praça Carlos Alberto Studart

Praça do Liceu, chama-se oficialmente, Praça Gustavo Barroso

Praça dos Leões, o nome oficial é Praça General Tibúrcio

A Praça da Bandeira no centro, chama-se oficialmente Praça Clóvis Beviláqua

A Praça do Cristo Rei ou do Colégio Militar, na Aldeota, é a verdadeira Praça da Bandeira.



Fontes consultadas:   

Coisas que o Tempo Levou – crônicas históricas da Fortaleza antiga, de Raimundo de Menezes

Guia Turístico da Cidade – Prefeitura Municipal de Fortaleza – 1961

Fortaleza – Casas e Ruas Numeradas, de Ismael Pordeus    

Disponível em > https://institutodoceara.org.br/revista/Rev-apresentacao/RevPorAno/1963/1963-FortalezaCasaseRuasNumeradas.pdf> 

imagens Internet e Fortaleza em Fotos


quarta-feira, 16 de abril de 2014

Colégios de Fortaleza no Século XIX

Na Fortaleza do século XIX estudar além do curso primário era privilégio quase que exclusivo das elites.  Os colégios existentes à época, eram quase todos particulares e mesmo as poucas escolas públicas existentes - como o Liceu e a Escola Normal - eram inacessíveis aos mais pobres, dado o custo do material e da manutenção de um aluno em sala de aula. 

 escola pública de Fortaleza em foto de 1912

Havia 20 escolas públicas, sendo 4 para meninos, 7 para meninas e 11 mistas, todas dedicadas ao ensino das primeiras letras. A exceção eram  duas escolas públicas, dois pequenos prédios, atraentes pela forma elegante de suas construções e asseio, construídos, um no bairro do Outeiro da Prainha, na administração do governador Coronel Luís Antônio Ferraz, em 1890, e o outro no Boulevard Visconde do Rio Branco, na administração do Presidente Dr. José Freire Bezerril Fontenele, em 1893. As duas ministravam o curso primário. 
 
 O Bonde do Jacarecanga, repleto de alunos com a farda do Liceu do Ceará

Os filhos das famílias ricas eram educados nos melhores externatos da cidade, nos internatos religiosos da capital do país e muitas vezes, em instituições no exterior, como França, Inglaterra, Suíça, Alemanha e Bélgica. Algumas famílias optavam por matricular os filhos aqui mesmo, onde os pais podiam fazer um acompanhamento de perto; e a oferta de estabelecimentos de ensino era bem razoável.
 

 prédio do Liceu na Praça dos Voluntários

Berço da instrução pública de Fortaleza, o Liceu do Ceará iniciou a sistematização do ensino neste Estado a partir de 1845. Foi instalado no casarão na Praça dos Voluntários, onde hoje se encontra a Secretaria de Polícia e Segurança Pública. O Liceu  instituiu um curso equivalente ao do Ginásio Nacional, com duração de 7 anos, compreendendo as seguintes disciplinas: álgebra, geometria, trigonometria, mecânica, astronomia, física, química, meteorologia, mineralogia, geologia, zoologia, botânica, biologia, geografia, história universal, sociologia e moral, letras e artes,  e línguas: portuguesa, francesa, alemã, latina e grega; literatura nacional, desenho, música, ginástica, evoluções militares e esgrima. Ao aluno que obtivesse pelo menos as aprovações plenas, era conferido o título de Bacharel em Letras e Ciências. 

Ainda no século XIX, destacava-se o Ateneu Cearense, fundado em 1863 por João de Araújo Costa Mendes. Auxiliado pro seu irmão Manuel Teófilo Costa Mendes, transformou esse educandário particular num dos melhores da capital. 


 Seminário da Prainha, em 1905, na antiga Rua do Seminário, atual Avenida Monsenhor Tabosa

O Seminário Episcopal instalou-se em 1864, no Outeiro da Prainha, abrigando por gerações o cenáculo da cultura cearense. Lá o ensino era dividido em dois cursos, o Teológico e o Preparatório. No Curso Teológico os alunos eram submetidos às seguintes disciplinas: teologia oral, teologia dogmática, direito canônico, história eclesiástica, liturgia, cantochão, eloquência sagrada e escritura sagrada. No Curso Prepatório, estudava-se filosofia, física, retórica, matemática, história geral e do Brasil, geografia, francês, latim, gramática portuguesa, catecismo, história sagrada, civilidade e música vocal.


  Colégio da Imaculada Conceição, com um pavimento em 1905. Ao lado, a Igreja do Pequeno Grande

Dirigido pelas freiras francesas da Ordem das Filhas de Caridade de São Vicente de Paula, chegadas em Fortaleza em 1865, o Colégio da Imaculada Conceição funcionou a partir de 1867, num prédio construído para abrigar um hospital. Ocupava a área equivalente a um quarteirão quadrado, na parte setentrional da Praça Filgueiras de Melo. 

Ao longo do tempo, o Colégio Imaculada Conceição conquistou posição de destaque na educação das moças pertencentes a elite da cidade, que aprendiam as seguintes matérias: instrução religiosa, primeiras letras, gramática portuguesa, gramática francesa, aritmética, geografia, história sagrada, história do Brasil, civilidade. Além disso, aprendiam sobre costura, bordados, tecidos, flores, desenho, piano e música vocal. O colégio era dirigido por 19 irmãs de caridade, todas francesas. 

No início do século XX, nas dependências do Colégio da imaculada Conceição foi criado o externato São Rafael para meninos, onde estudou o futuro presidente Humberto de Alencar Castelo Branco.

Em 1876, o cônego Ananias Correia Amaral fundou o Colégio São José. Suas irmãs Júlia e Judith Correia do Amaral, auxiliadas pela prima Elvira Correia Pinho, dirigiram a partir de 1881, o Colégio Santa Rosa de Lima.

Em 1870 o professor Pedro da Silva Sena fundou o Panteon Cearense; o padre Bruno Rodrigues da Silva Figueiredo iniciou em 1879, o Instituto Cearense de Humanidades. 

 Escola Normal Pedro II em 1902. O prédio situado na Praça José de Alencar, com algumas modificações, atualmente abriga  o IPHAN.

A Escola Normal Pedro II, inaugurada em 1884 na Praça Marquês de Herval destinava-se a formação de professores para as  escolas do Estado.  O surgimento da Escola Normal provocou uma grande polêmica na sociedade, por causa da proposta de formar professoras profissionais, numa época em que as mulheres eram destinadas ao casamento e a criação de filhos. 

Lá os alunos (a escola aceitava alunos de ambos os sexos) cumpriam o seguinte programa escolar: um curso preparatório de 1 ano; e um curso normal de 3 anos. No preparatório, ensinava-se português, francês, aritmética,  sistema métrico, caligrafia, desenho linear, música vocal e prendas domésticas. No Curso Normal ensinava-se pedagogia, português, francês, aritmética, álgebra elementar, geometria, geografia geral e corografia do Brasil, ciências físicas e naturais, caligrafia e desenho, música vocal e prendas domésticas. 

Aos alunos que concluíam o curso, era expedido o diploma de habilitação para o magistério.
Durante o mandato da Irmã Clemence Therese Gagné de Dion, falecida em 1917, o Colégio da Imaculada Conceição foi equiparado à Escola Normal do Ceará, passando também a formar professoras. 

 prédio da Escola Militar do Ceará, atual Colégio Militar, na Avenida Santos Dumont

A Escola Militar do Ceará fundada em maio de 1889, instalou-se, no início nas dependências do Quartel da Força de Linha, junto à Fortaleza de N. S. de Assunção. Seu ensino correspondia ao de seus congêneres do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Posteriormente a escola Militar se estabeleceria no atual prédio que, construído pelo Barão de Ibiapaba, sediou por algum tempo, o Asilo de Mendicidade.

Outros colégios antigos podem ser citados como o Colégio Parthenon Cearense, fundado em 1892 por Lino de Souza da Encarnação, na esquina das Ruas 24 de maio e Guilherme Rocha.

A Escola Cristã do Padre Liberato criada em 1882 educou muitas personalidades do cenário social da cidade; outro colégio, o Ginásio Cearense de Anacleto de Queiroz Lima, fundado em 1887, comumente chamado de Colégio Anacleto, possuía alto conceito na época, firmando-se como principal estabelecimento particular de ensino do Estado.

O Externato Santa Clotilde da professora Francisca Clotilde Barbosa Lima, poeta e romancista, foi inaugurado em 1891. O Instituto de Humanidades do Cônego Salazar da Cunha e Antônio Augusto de Vasconcelos, iniciou suas atividades em 1892, na Rua Sena Madureira, em frente a antiga Igreja Presbiteriana, local hoje ocupado pelo Edifício Clóvis Rolim. 

 Colégio N. S. de Lourdes, de propriedade de Ana Bilhar, na Avenida Santos Dumont

Ana  Bilhar estabeleceu em 1896 o Colégio Nossa Senhora de Lourdes. O Colégio N.S. das Vitórias foi propriedade de Maria Mendes  e Emma Adélia Ruedin Gonthier, a notável Madame Gonthier, que fundaria em 1916 o afamado Colégio La Ruche.

De grande conceito também o Colégio Castelo Branco, iniciado em 1900, por Odorico Castelo Branco. Com a primeira denominação de Instituto Miguel Borges, instalou-se na Praça Coração de Jesus e posteriormente, na Avenida Dom Manuel. Mais tarde passou a ser chamado Colégio Castelo Branco a partir de 1921, com o falecimento de seu fundador.

 Colégio Castelo Branco, na Avenida Dom Manuel

Muitos desses estabelecimentos de ensino tiveram vida longa e formaram diversas gerações de profissionais que se destacaram no cenário cearense em inúmeras atividades. Outros, perduram até hoje, como o Liceu, a Escola Normal, o Imaculada Conceição, o Seminário da Prainha e a Escola Militar, hoje Colégio Militar de Fortaleza.. 

pesquisa:
Descrição da Cidade de Fortaleza, de Antônio Bezerra de Menezes, introdução e notas de Raimundo Girão
Ideal Clube, história de uma sociedade, de Vanius Meton Gadelha Vieira 
fotos do arquivo Nirez

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Estado Novo e a Criação da Central de Polícia do Ceará

Para confrontar com as lutas reivindicatórias, as críticas ao regime e a insatisfação do povo cearense que nascia e se ampliava a partir da  Praça do Ferreira, a interventoria de Menezes Pimentel (1937 a 1945 e 1946 a 1950), mandou construir na Praça dos Voluntários, um arremedo de bastilha, o atual prédio da Polícia Civil.


Antigo prédio do Liceu na Praça dos Voluntários. Foi demolido para dar lugar ao prédio da Central de Polícia. (Marciano Lopes)  

A edificação de pedra e cal foi erguida no local antes ocupado pelo Liceu do Ceará.  O prédio foi construído com trabalho escravo: a maior parte do operariado empregado na construção era constituída de presos correcionais, obrigados a trabalhar de graça, para o Estado. Tinham direito a apenas refeições de péssima qualidade,  o necessário à sobrevivência.  Quem se negava a trabalhar, apanhava. 

Edifício da Central de Polícia, atual secretaria de Segurança Pública, na Praça dos Voluntários (arquivo Marciano Lopes).

Estavam os operários sob o regime da lata, sistema de trabalho escravo imposto pelo então chefe de polícia, Capitão Cordeiro Neto, o mesmo que havia comandado a destruição do Caldeirão do beato José Lourenço e fundado no Arraial Moura Brasil o gueto das prostitutas, apelidado de Curral das Éguas.
Época de ditadura Getulista, do Estado Novo.  A figura do ditador Getúlio Vargas não podia ser esquecida, de modo que lhe levantaram na praça em frente um monumento de bronze, uma homenagem de Pimentel,  ao ditador e a ditadura. 

busto do Presidente Getúlio Vargas na Praça dos Voluntários, trabalho do escultor Agostinho Balmes Odisio. Inaugurado em 1° de maio de 1941. (foto de Fátima Garcia) 

A partir daí,  a praça, antes frequentada por alunos do Liceu, fervilhava de soldados.  Entre eles destacam-se uns brutamontes de farda cáqui, gorros vermelhos e debruns da mesma cor. Formavam a Polícia Especial, a Gestapo cabocla, responsável pela manutenção do terrorismo oficial no Ceará durante o estado Novo.
A Polícia Especial era  uma divisão uniformizada da Polícia Civil, fundada durante o Governo  Vargas. Era organizada como uma "força de choque", ou de intervenção, treinada e aparelhada para enfrentar distúrbios populares e manter a ordem pública, num período de grande efervescência política.

Praça do Ferreira, década de 1940

Nas dependências do prédio da Central de Polícia, funcionavam as diversas delegacias, sempre abarrotadas de presos de toda sorte. Os contraventores comuns, o "povão", depois de surrados eram encaminhados para o trabalho escravo do regime da lata.
O mesmo não acontecia com os infratores pertencentes à classe alta, desordeiros contumazes, ou especialistas na prática de quebra-quebra nos bares e nas pensões alegres. Estes, após algumas horas de detenção eram postos em liberdade, cabendo-lhes pagar os prejuízos ocasionados.
Havia em Fortaleza um médico chamado Amadeu Sá, o qual se tornara famoso devido a prática desse tipo de arruaça. Certa vez o médico comandou  um quebra-quebra no bar do Majestic, na Praça do Ferreira, tendo enfrentado todo um pelotão da Policia Especial. 


Bar no interior do Cine Majestic, na Praça do Ferreira (Ah, Fortaleza!)

Dominado e preso, foi libertado horas depois.  O mesmo, entretanto, não acontecia com os valentões pés de chinelos. Cacheado, um popular com fama de valente, morador do Campo do Pio e Barroso, residente no Coqueirinho (atual Parquelândia), foram ambos assassinados pela polícia sem qualquer motivo plausível. Simplesmente por gozarem da fama de desordeiros.
Muitos homens e mulheres estiveram presos ou detidos na bastilha da Praça dos Voluntários, muitos sofrendo torturas.  Apesar do rigor da censura oficial, houve casos que escaparam do controle das autoridades e chegaram ao conhecimento público.
Dentre estes casos figura o acontecido com Danilo Borges, um jovem de família distinta, mas que cometia desordens quando alcoolizado. Durante um confronto com a Policia Especial, Danilo deu e recebeu pancadas, sendo afinal subjugado e preso. No dia seguinte, o rapaz amanheceu morto por  enforcamento. Pela versão da polícia, Danilo teria cometido suicídio, mas para a família e amigos do morto, ele teria sido assassinado. 


manifestação na Praça do Ferreira, contra o fascismo (Ah, Fortaleza!)

Outro caso bastante comentado foi o que envolveu Fidélis Silva, ex-secretário do interventor Menezes Pimentel, acusado da autoria de um desfalque. Para confessar o delito, colocaram-no numa masmorra sob uma lâmpada de 500 watts durante várias horas. Ainda não eram conhecidas outras formas de tortura como o pau-de-arara, os choques elétricos e outras que chegaram aqui com a revolução dos generais. Em consequência do sofrimento, Fidélis adoeceu seriamente, tendo de ser hospitalizado. Tempos depois, levado a júri popular, foi absolvido por falta de provas.

Caso diferente e que virou piada na cidade, foi o de Asclepíades, chantagista interestadual que se fazia passar por emissário de Getúlio Vargas. Jornalista desempregado, bom de lábia, e conhecedor dos expedientes usados nos meios oficiais, o vigarista se dizia enviado pelo ditador a fim de auscultar a opinião dos interventores acerca da situação política, nacional e internacional.

Já havia percorrido várias capitais com a mesma conversa, extorquindo os interventores, ganhando hospedagem, dinheiro e passagens aéreas. Descoberta a fraude, Asclepíades foi preso e transferido do Excelsior Hotel – onde era hóspede às expensas dos cofres públicos – para um dos cárceres da Polícia Central. 
Foi colocado em uma das celas externas do presídio, a fim de que pudesse ser visto por todos.  Bem vestido, simpático, risonho e descontraído, o espertalhão não se deixava abater, cumprimentando cortesmente a quantos iam vê-lo. Os jornais publicavam suas fotos, acompanhadas de longas entrevistas. Até namoradas Asclepíades conseguiu, apesar da situação vexatória em que se achava.
A Polícia Especial foi extinta no dia 10 de abril de 1947 e seus integrantes foram incorporados à Guarda Civil. 


extraído do livro
de Alberto S. Galeno

domingo, 10 de abril de 2011

Praça dos Voluntários

Fortaleza - 285 anos 


A Praça dos Voluntários está localizada entre as Ruas do Rosário, Perboyre e Silva, General Bezerril e Monsenhor Luis Rocha, centro de Fortaleza, numa área de 2.572 m²


O nome é uma homenagem aos cearenses que se apresentaram voluntariamente para a Guerra do Paraguai. 
Nas décadas de 1930 a 50 o logradouro abrigou diversos circos que visitavam a capital. 


No centro da Praça encontra-se a estátua do Presidente Getúlio Vargas. Inaugurada em 1941, a estátua é um trabalho do escultor Agostinho Balmes Odísio.



A Praça dos Voluntários em tempos passados. Neste local na Rua do Rosário, o Liceu do Ceará inaugurou sua nova sede, no dia 15 de março de 1894. 
No mesmo local se ergue atualmente o Edifício da Policia Civil.
(arquivo Marciano Lopes)


  
O prédio onde funciona a Polícia Civil. Em estilo Art-Decò imita as construções que proliferaram nos Estados Unidos nos anos 1920/1930.
(arquivo Marciano Lopes)


O belo edifício encontra-se bem conservado
... e encoberto por árvores centenárias.

A Sede própria do Clube Iracema, foi inaugurada em 31 de dezembro de 1939, na Rua general Bezerril, 751, projeto do arquiteto Emilio Hinko. (arquivo Nirez)


 Hoje o Palacete Iracema abriga a Secretaria de Finanças da Prefeitura e passa por reformas. 
Outro imóvel ocupado pela Secretaria de Finanças 

A Praça dos Voluntários acolhe um público bastante eclético em razão da proximidade da Secretaria de Finanças da Prefeitura Municipal, e da sede da Polícia Civil. 
Tem um entorno mal cuidado, com água empoçada em razão das últimas chuvas. 
O acesso, mesmo para pedestres é dificultado pelo excesso de automóveis e motos estacionados irregularmente, além de grande número de vendedores e ambulantes que ocupam as calçadas e passeios.
Mas o interior da praça é surpreendentemente agradável. Possui bancos e jardins bem conservados, bastante arborizada e clima ameno. 
 

fotos de abril/2011 
acervo Fortaleza em Fotos