quarta-feira, 16 de abril de 2014

Colégios de Fortaleza no Século XIX

Na Fortaleza do século XIX estudar além do curso primário era privilégio quase que exclusivo das elites.  Os colégios existentes à época, eram quase todos particulares e mesmo as poucas escolas públicas existentes - como o Liceu e a Escola Normal - eram inacessíveis aos mais pobres, dado o custo do material e da manutenção de um aluno em sala de aula. 

 escola pública de Fortaleza em foto de 1912
Havia 20 escolas públicas, sendo 4 para meninos, 7 para meninas e 11 mistas, todas dedicadas ao ensino das primeiras letras. A exceção eram  duas escolas públicas, dois pequenos prédios, atraentes pela forma elegante de suas construções e asseio, construídos, um no bairro do Outeiro da Prainha, na administração do governador Coronel Luís Antônio Ferraz, em 1890, e o outro no Boulevard Visconde do Rio Branco, na administração do Presidente Dr. José Freire Bezerril Fontenele, em 1893. As duas ministravam o curso primário. 
 
 O Bonde do Jacarecanga, repleto de alunos com a farda do Liceu do Ceará
Os filhos das famílias ricas eram educados nos melhores externatos da cidade, nos internatos religiosos da capital do país e muitas vezes, em instituições no exterior, como França, Inglaterra, Suíça, Alemanha e Bélgica. Algumas famílias optavam por matricular os filhos aqui mesmo, onde os pais podiam fazer um acompanhamento de perto; e a oferta de estabelecimentos de ensino era bem razoável. 

 prédio do Liceu na Praça dos Voluntários
Berço da instrução pública de Fortaleza, o Liceu do Ceará iniciou a sistematização do ensino neste Estado a partir de 1845. Foi instalado no casarão na Praça dos Voluntários, onde hoje se encontra a Secretaria de Polícia e Segurança Pública. O Liceu  instituiu um curso equivalente ao do Ginásio Nacional, com duração de 7 anos, compreendendo as seguintes disciplinas: álgebra, geometria, trigonometria, mecânica, astronomia, física, química, meteorologia, mineralogia, geologia, zoologia, botânica, biologia, geografia, história universal, sociologia e moral, letras e artes,  e línguas: portuguesa, francesa, alemã, latina e grega; literatura nacional, desenho, música, ginástica, evoluções militares e esgrima. Ao aluno que obtivesse pelo menos as aprovações plenas, era conferido o título de Bacharel em Letras e Ciências. 
Ainda no século XIX, destacava-se o Ateneu Cearense, fundado em 1863 por João de Araújo Costa Mendes. Auxiliado pro seu irmão Manuel Teófilo Costa Mendes, transformou esse educandário particular num dos melhores da capital. 

 Seminário da Prainha, em 1905, na antiga Rua do Seminário, atual Avenida Monsenhor Tabosa
O Seminário Episcopal instalou-se em 1864, no Outeiro da Prainha, abrigando por gerações o cenáculo da cultura cearense. Lá o ensino era dividido em dois cursos, o Teológico e o Preparatório. No Curso Teológico os alunos eram submetidos às seguintes disciplinas: teologia oral, teologia dogmática, direito canônico, história eclesiástica, liturgia, cantochão, eloquência sagrada e escritura sagrada. No Curso Prepatório, estudava-se filosofia, física, retórica, matemática, história geral e do Brasil, geografia, francês, latim, gramática portuguesa, catecismo, história sagrada, civilidade e música vocal.

  Colégio da Imaculada Conceição, com um pavimento em 1905. Ao lado, a Igreja do Pequeno Grande
Dirigido pelas freiras francesas da Ordem das Filhas de Caridade de São Vicente de Paula, chegadas em Fortaleza em 1865, o Colégio da Imaculada Conceição funcionou a partir de 1867, num prédio construído para abrigar um hospital. Ocupava a área equivalente a um quarteirão quadrado, na parte setentrional da Praça Filgueiras de Melo. Ao longo do tempo, o Colégio Imaculada Conceição conquistou posição de destaque na educação das moças pertencentes a elite da cidade, que aprendiam as seguintes matérias: instrução religiosa, primeiras letras, gramática portuguesa, gramática francesa, aritmética, geografia, história sagrada, história do Brasil, civilidade. Além disso, aprendiam sobre costura, bordados, tecidos, flores, desenho, piano e música vocal. O colégio era dirigido por 19 irmãs de caridade, todas francesas. 
No início do século XX, nas dependências do Colégio da imaculada Conceição foi criado o externato São Rafael para meninos, onde estudou o futuro presidente Humberto de Alencar Castelo Branco.
Em 1876, o cônego Ananias Correia Amaral fundou o Colégio São José. Suas irmãs Júlia e Judith Correia do Amaral, auxiliadas pela prima Elvira Correia Pinho, dirigiram a partir de 1881, o Colégio Santa Rosa de Lima.
Em 1870 o professor Pedro da Silva Sena fundou o Panteon Cearense; o padre Bruno Rodrigues da Silva Figueiredo iniciou em 1879, o Instituto Cearense de Humanidades. 

 Escola Normal Pedro II em 1902. O prédio situado na Praça José de Alencar, com algumas modificações, atualmente abriga  o IPHAN.

A Escola Normal Pedro II, inaugurada em 1884 na Praça Marquês de Herval destinava-se a formação de professores para as  escolas do Estado.  O surgimento da Escola Normal provocou uma grande polêmica na sociedade, por causa da proposta de formar professoras profissionais, numa época em que as mulheres eram destinadas ao casamento e a criação de filhos. Lá os alunos (a escola aceitava alunos de ambos os sexos) cumpriam o seguinte programa escolar: um curso preparatório de 1 ano; e um curso normal de 3 anos. No prepatório, ensinava-se português, francês, aritmética,  sistema métrico, caligrafia, desenho linear, música vocal e prendas domésticas. No Curso Normal ensinava-se pedagogia, português, francês, aritmética, álgebra elementar, geometria, geografia geral e corografia do Brasil, ciências físicas e naturais, caligrafia e desenho, música vocal e prendas domésticas. Aos alunos que concluíam o curso, era expedido o diploma de habilitação para o magistério.
Durante o mandato da Irmã Clemence Therese Gagné de Dion, falecida em 1917, o Colégio da Imaculada Conceição foi equiparado à Escola Normal do Ceará, passando também a formar professoras. 

 prédio da Escola Militar do Ceará, atual Colégio Militar, na Avenida Santos Dumont
A Escola Militar do Ceará fundada em maio de 1889, instalou-se, no início nas dependências do Quartel da Força de Linha, junto à Fortaleza de N. S. de Assunção. Seu ensino correspondia ao de seus congêneres do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Posteriormente a escola Militar se estabeleceria no atual prédio que, construído pelo Barão de Ibiapaba, sediou por algum tempo, o Asilo de Mendicidade.
Outros colégios antigos podem ser citados como o Colégio Parthenon Cearense, fundado em 1892 por Lino de Souza da Encarnação, na esquina das Ruas 24 de maio e Guilherme Rocha.
A Escola Cristã do Padre Liberato criada em 1882 educou muitas personalidades do cenário social da cidade; outro colégio, o Ginásio Cearense de Anacleto de Queiroz Lima, fundado em 1887, comumente chamado de Colégio Anacleto, possuía alto conceito na época, firmando-se como principal estabelecimento particular de ensino do Estado.
O Externato Santa Clotilde da professora Francisca Clotilde Barbosa Lima, poeta e romancista, foi inaugurado em 1891. O Instituto de Humanidades do Cônego Salazar da Cunha e Antônio Augusto de Vasconcelos, iniciou suas atividades em 1892, na Rua Sena Madureira, em frente a antiga Igreja Presbiteriana, local hoje ocupado pelo Edifício Clóvis Rolim. 

 Colégio N. S. de Lourdes, de propriedade de Ana Bilhar, na Avenida Santos Dumont
Ana  Bilhar estabeleceu em 1896 o Colégio Nossa Senhora de Lourdes. O Colégio N.S. das Vitórias foi propriedade de Maria Mendes  e Emma Adélia Ruedin Gonthier, a notável Madame Gonthier, que fundaria em 1916 o afamado Colégio La Ruche.
De grande conceito também o Colégio Castelo Branco, iniciado em 1900, por Odorico Castelo Branco. Com a primeira denominação de Instituto Miguel Borges, instalou-se na Praça Coração de Jesus e posteriormente, na Avenida Dom Manuel. Mais tarde passou a ser chamado Colégio Castelo Branco a partir de 1921, com o falecimento de seu fundador.

 Colégio Castelo Branco, na Avenida Dom Manuel
Muitos desses estabelecimentos de ensino tiveram vida longa e formaram diversas gerações de profissionais que se destacaram no cenário cearense em inúmeras atividades. Outros, perduram até hoje, como o Liceu, a Escola Normal, o Imaculada Conceição, o Seminário da Prainha e a Escola Militar, hoje Colégio Militar de Fortaleza.. 

pesquisa:
Descrição da Cidade de Fortaleza, de Antônio Bezerra de Menezes, introdução e notas de Raimundo Girão
Ideal Clube, história de uma sociedade, de Vanius Meton Gadelha Vieira 
fotos do arquivo Nirez

12 comentários:

Vera Alves disse...

Foi um presente encontrar um blog tão interessante. Um abraço.

Fátima Garcia disse...

obrigada Vera Alves, volte sempre. abs

Juh Biscuit disse...

Belíssimo trabalho, me fez viajar no tempo e ver qao linda era minha cidade
Nos tempos de outrora.

leandro c.o.p disse...

Queria ver fotos antigas so Colégio Centenário Clóvis Beviláqua que fica situado na Avenida Dom Manuel, 511. Obrigado.

Márcio moreira disse...

Vale muito a pena dedicar um tempinho pra admirar essas histórias da nossa terra... Excelente pesquisa essa!

Márcio Moreira

Claudia Maria Mattos Brito de Goes disse...

É mto gratificante quando encontro pedaços da nossa história resgatada assim, mas faltou ainda alguns colégios tradicionais, como o das Dorotéias, o Colegio Juvenal de Carvalho e outros. Parabéns pelo Blog!

Fátima Garcia disse...

Juh Biscuit, obrigada pela visita e pelo amável comentário. Volte sempre

Fátima Garcia disse...

Vou se encontro alguma foto do colégio Clóvis Beviláqua, Leandro.
abs

Fátima Garcia disse...

Márcio Moreira, a terrinha tem histórias fascinantes, esperando serem descobertas e divulgadas.
abs

Fátima Garcia disse...

Cláudia Maria, por enquanto pesquisamos os estabelecimentos de ensino do século XIX, paramos em 1900. Mas vamos continuar com os colégios surgidos a partir daí, e vocêpoderá encontrar as Doroteias e o Juvenal de Carvalho.
abs

Marister disse...

Maravilha ver a história do nosso passado congelado no tempo através da fotografia. Muito gratificante e ainda por cima ter o relato histórico aqui contado.

Marília Leite Vilas Boas Calixto disse...

Maravilha as fotografias de antigos colégios de Fortaleza. Gostaria de ver outras fotos do Instituto de Humanidades fundado en 1892. Valdir Calixto.
01 de agosto de 2017.