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terça-feira, 1 de maio de 2018

Personagens da Fortaleza Antiga - O Inspetor Apolinário


Afilhado de Padre Cícero, filho de Exu criado no Juazeiro, o gigante negro aportou por estas plagas por volta da metade dos anos 40. Quase dois metros de altura, retilíneo, músculos de atleta, formas que a farda em permanente aprumo, delineava. Na mão enorme, a presença infalível de um rebenque, peça de caprichado labor artesanal, cuja bainha, segundo a lenda corrente, escondia uma enorme lâmina de punhal. Cercado de lendas, João Apolinário da Silva, inspetor da Guarda Civil de Fortaleza, impôs sua marca durante longo período naquela distante Fortaleza. 

Juazeiro do Norte, terra natal do Inspetor Apolinário

Dele falavam os que já haviam sentido o peso do famoso rebenque: o açoite queimava e deixava para sempre a lembrança da humilhação. Apolinário não era dado a bravatas, mas impunha-se pela fama de sua coragem pessoal, da violência de suas atitudes de policial, principalmente se estavam em jogo a segurança dos chefes e a ordem que representava.

Parecia possuir o dom da onipresença. De repente, despontava descomunal na paisagem calma da Praça do Ferreira, o olhar atento, percorrendo o horizonte na busca de algo que pudesse ameaçar aquela quietude. Tinha perfeita consciência dos limites de sua força, da dimensão de sua autoridade. Nem pensar em partir, de chicote em punho, contra os meninos ricos, que por aqueles dias costumavam produzir arruaças em pontos conhecidos. Pelo contrário. Se por acaso os encontrava em suas pândegas barulhentas, mostrava-se cordato, bom conselheiro, fechando os olhos àquelas “coisas de crianças” e ia em frente, que não iria se expor ao risco de magoar o filho de um dos protetores. Mas se era uma confusão na geral do Majestic, já chegava de relho pronto para acalmar os ânimos. 

Garbo absoluto, percebia-se o orgulho com que vestia o uniforme da célebre Policia Especial, os temíveis “quepes vermelhos”, instrumento aterrorizante da ditadura getulista, destinada a barrar qualquer movimento contestatório. Apolinário simbolizava a própria “Especial”, na elegância do uniforme, na expressão de terror e medo que espalhava.


[A Polícia Especial era  uma divisão uniformizada da Polícia Civil, fundada durante o Governo  Vargas. Era organizada como uma "força de choque", ou de intervenção, treinada e aparelhada para enfrentar distúrbios populares e manter a ordem pública, num período de grande efervescência política.]

Torcedor do Ferroviário, ostentava sua imponência nas arquibancadas do Presidente Vargas, onde também fazia valer sua presença nas habituais confusões entre torcedores. Poucos se aventuravam a cometer desatinos com o Apolinário por perto. Certa vez, em Quixadá, não se sabe se por mera coincidência ou porque seu faro policial antevira algum perigo, Apolinário apareceu à beira do campo, o indefectível rebenque a espancar a perna da calça. O jogo envolvia as seleções de Quixeramobim e Quixadá, rivalidade intensa, times parecidos, e valentes.

O pobre juiz, à parte aos interesses em choque, ia fazendo o possível para manter a casa em ordem. Aconteceu que, jogando em casa, o Quixadá acabou vencendo. O Quixeramobim que vencia, acabou perdendo de 2x1.

Foi o bastante para que os perdedores esquentassem a cabeça e partissem dispostos a acertar contas com o juiz. A saída do campo, a malta enfurecida partiu para a explosão de seus ódios e frustrações. Apolinário surgiu em defesa do árbitro, levando-o até o hotel onde estava hospedado, onde se pôs de guarda até que os ânimos se acalmassem.

campanha do Senador Olavo Oliveira no interior 
imagem: http://blogmarioangelo.blogspot.com.br

O inspetor era compadre e doublê de protegido e protetor do senador Olavo Oliveira. Tinha pelo velho senador uma verdadeira veneração. Os amigos de Olavo, notadamente os da política, gozavam de sua total simpatia e mereciam tratamento vip em matéria de segurança pessoal.

Apolinário tinha um filho, Crispim, também da Polícia Especial e soldado raso, como o pai. Um dia, em seu trabalho de ronda policial, Crispim entrou em confronto com um carroceiro, na Praça dos Leões. Atracaram-se os dois em violenta refrega pessoal, em que a vantagem pendia para o civil. Nessa ocasião, Apolinário, naquela onipresença habitual, apareceu no local e atirou-se sobre o adversário do filho. Não satisfeito, aplicou-lhe várias chicotadas e o expôs diante de dezenas de circunstantes à mais vexatória situação. Espancado e humilhado, o homem da carroça ainda foi recolhido ao xadrez, por desacato à autoridade.

Meses depois, era tempo de campanha eleitoral. Estava programado um comício no bairro Jardim América, na então Rua Moacir Weyne, hoje Major Weyne. Anunciava-se a presença de políticos como Raul Barbosa, Stênio Gomes, Olavo Oliveira e outros, a partir das 8 da noite. Às 7, Apolinário chegou para cuidar das medidas preventivas de segurança. Rondou o local do comício, revistou o palanque improvisado, e entrou em uma bodega próxima, onde pediu uma cerveja. Recostado no balcão de madeira, Apolinário se divertia amassando uma tampinha de garrafa entre as juntas dos dedos, numa prática que revelava força e habilidade.

bairro Jardim América, com o antigo matadouro ao fundo
Noite aparentemente tranquila, o bairro nem despertara ainda para a agitação do comício. De repente, escuridão total tomou conta da bodega. E num salto felino, com incrível rapidez, alguém atirou-se sobre o enorme policial, abrindo-lhe a garganta com um profundo golpe de faca. Em questão de minutos, o inspetor Apolinário estava morto. No chão do estabelecimento, vencido e destruído pela fúria vingativa e traiçoeira da vítima sobre o seu algoz naquele fato distante na Praça dos Leões, ficou aquele que fora o mais temido policial dos tempos da ditadura e dos anos seguintes.

No velório, a viúva cercada de muitos filhos, alguns ainda pequenos, faziam o último apelo ao político a quem o marido morto servira com inteira devoção e total subserviência: “douto Olavio! douto Olávio! Mande enterrar o meu marido no Juazeiro do Padim Ciço! Era o último desejo dele!”

Manchete de 1ª. Página, fotos tão grandes quanto o morto e no final, a informação: O Inspetor Apolinário será enterrado no Cemitério São João Batista, em Fortaleza.


Extraído do livro
Sessão das Quatro – cenas e atores de um tempo mais feliz, de Blanchard Girão
fotos do Arquivo Nirez e IBGE

      

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Estado Novo e a Criação da Central de Polícia do Ceará

Para confrontar com as lutas reivindicatórias, as críticas ao regime e a insatisfação do povo cearense que nascia e se ampliava a partir da  Praça do Ferreira, a interventoria de Menezes Pimentel (1937 a 1945 e 1946 a 1950), mandou construir na Praça dos Voluntários, um arremedo de bastilha, o atual prédio da Polícia Civil.


Antigo prédio do Liceu na Praça dos Voluntários. Foi demolido para dar lugar ao prédio da Central de Polícia. (Marciano Lopes)  

A edificação de pedra e cal foi erguida no local antes ocupado pelo Liceu do Ceará.  O prédio foi construído com trabalho escravo: a maior parte do operariado empregado na construção era constituída de presos correcionais, obrigados a trabalhar de graça, para o Estado. Tinham direito a apenas refeições de péssima qualidade,  o necessário à sobrevivência.  Quem se negava a trabalhar, apanhava. 

Edifício da Central de Polícia, atual secretaria de Segurança Pública, na Praça dos Voluntários (arquivo Marciano Lopes).

Estavam os operários sob o regime da lata, sistema de trabalho escravo imposto pelo então chefe de polícia, Capitão Cordeiro Neto, o mesmo que havia comandado a destruição do Caldeirão do beato José Lourenço e fundado no Arraial Moura Brasil o gueto das prostitutas, apelidado de Curral das Éguas.
Época de ditadura Getulista, do Estado Novo.  A figura do ditador Getúlio Vargas não podia ser esquecida, de modo que lhe levantaram na praça em frente um monumento de bronze, uma homenagem de Pimentel,  ao ditador e a ditadura. 

busto do Presidente Getúlio Vargas na Praça dos Voluntários, trabalho do escultor Agostinho Balmes Odisio. Inaugurado em 1° de maio de 1941. (foto de Fátima Garcia) 

A partir daí,  a praça, antes frequentada por alunos do Liceu, fervilhava de soldados.  Entre eles destacam-se uns brutamontes de farda cáqui, gorros vermelhos e debruns da mesma cor. Formavam a Polícia Especial, a Gestapo cabocla, responsável pela manutenção do terrorismo oficial no Ceará durante o estado Novo.
A Polícia Especial era  uma divisão uniformizada da Polícia Civil, fundada durante o Governo  Vargas. Era organizada como uma "força de choque", ou de intervenção, treinada e aparelhada para enfrentar distúrbios populares e manter a ordem pública, num período de grande efervescência política.

Praça do Ferreira, década de 1940

Nas dependências do prédio da Central de Polícia, funcionavam as diversas delegacias, sempre abarrotadas de presos de toda sorte. Os contraventores comuns, o "povão", depois de surrados eram encaminhados para o trabalho escravo do regime da lata.
O mesmo não acontecia com os infratores pertencentes à classe alta, desordeiros contumazes, ou especialistas na prática de quebra-quebra nos bares e nas pensões alegres. Estes, após algumas horas de detenção eram postos em liberdade, cabendo-lhes pagar os prejuízos ocasionados.
Havia em Fortaleza um médico chamado Amadeu Sá, o qual se tornara famoso devido a prática desse tipo de arruaça. Certa vez o médico comandou  um quebra-quebra no bar do Majestic, na Praça do Ferreira, tendo enfrentado todo um pelotão da Policia Especial. 


Bar no interior do Cine Majestic, na Praça do Ferreira (Ah, Fortaleza!)

Dominado e preso, foi libertado horas depois.  O mesmo, entretanto, não acontecia com os valentões pés de chinelos. Cacheado, um popular com fama de valente, morador do Campo do Pio e Barroso, residente no Coqueirinho (atual Parquelândia), foram ambos assassinados pela polícia sem qualquer motivo plausível. Simplesmente por gozarem da fama de desordeiros.
Muitos homens e mulheres estiveram presos ou detidos na bastilha da Praça dos Voluntários, muitos sofrendo torturas.  Apesar do rigor da censura oficial, houve casos que escaparam do controle das autoridades e chegaram ao conhecimento público.
Dentre estes casos figura o acontecido com Danilo Borges, um jovem de família distinta, mas que cometia desordens quando alcoolizado. Durante um confronto com a Policia Especial, Danilo deu e recebeu pancadas, sendo afinal subjugado e preso. No dia seguinte, o rapaz amanheceu morto por  enforcamento. Pela versão da polícia, Danilo teria cometido suicídio, mas para a família e amigos do morto, ele teria sido assassinado. 


manifestação na Praça do Ferreira, contra o fascismo (Ah, Fortaleza!)

Outro caso bastante comentado foi o que envolveu Fidélis Silva, ex-secretário do interventor Menezes Pimentel, acusado da autoria de um desfalque. Para confessar o delito, colocaram-no numa masmorra sob uma lâmpada de 500 watts durante várias horas. Ainda não eram conhecidas outras formas de tortura como o pau-de-arara, os choques elétricos e outras que chegaram aqui com a revolução dos generais. Em consequência do sofrimento, Fidélis adoeceu seriamente, tendo de ser hospitalizado. Tempos depois, levado a júri popular, foi absolvido por falta de provas.

Caso diferente e que virou piada na cidade, foi o de Asclepíades, chantagista interestadual que se fazia passar por emissário de Getúlio Vargas. Jornalista desempregado, bom de lábia, e conhecedor dos expedientes usados nos meios oficiais, o vigarista se dizia enviado pelo ditador a fim de auscultar a opinião dos interventores acerca da situação política, nacional e internacional.

Já havia percorrido várias capitais com a mesma conversa, extorquindo os interventores, ganhando hospedagem, dinheiro e passagens aéreas. Descoberta a fraude, Asclepíades foi preso e transferido do Excelsior Hotel – onde era hóspede às expensas dos cofres públicos – para um dos cárceres da Polícia Central. 
Foi colocado em uma das celas externas do presídio, a fim de que pudesse ser visto por todos.  Bem vestido, simpático, risonho e descontraído, o espertalhão não se deixava abater, cumprimentando cortesmente a quantos iam vê-lo. Os jornais publicavam suas fotos, acompanhadas de longas entrevistas. Até namoradas Asclepíades conseguiu, apesar da situação vexatória em que se achava.
A Polícia Especial foi extinta no dia 10 de abril de 1947 e seus integrantes foram incorporados à Guarda Civil. 


extraído do livro
de Alberto S. Galeno