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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Avenida Francisco Sá - o Primeiro Polo Industrial de Fortaleza

O nome da avenida homenageia o deputado provincial, ministro de Viação e Obras Públicas dos governos Nilo Peçanha e Artur Bernardes, e da Agricultura, Indústria e Comércio de Nilo Peçanha, deputado geral, deputado federal e senador de 1906 a 1927, Francisco Sá casado com Olga Nogueira Pinto Accioly, filha do presidente do Estado Antônio Pinto Nogueira Accioly. Começa na Avenida Filomeno Gomes, no Jacarecanga e termina na Avenida Coronel Carvalho, na Barra do Ceará, próxima ao limite Fortaleza/Caucaia. Tem aproximadamente 6,5 quilômetros de extensão e mais de 7 mil números.

Ponte sobre o riacho Jacarecanga - 1919

A Avenida Francisco Sá é hoje a continuação da Rua Guilherme Rocha, que termina na esquina com a Avenida Filomeno Gomes. Mas nem sempre foi assim. Até por volta de 1912, a Rua Guilherme Rocha acabava na então Praça Fernandes Vieira (atual Praça Gustavo Barroso a partir de 1960, mais conhecida como Praça do Liceu), e o caminho era interrompido devido a presença de várias casas, inclusive a do antigo intendente de Fortaleza, Coronel Guilherme Rocha.
 
Para além da Praça Fernandes Vieira havia um estreito caminho de terra que seguia até o ponto em que hoje se encontra a Avenida Dr. Theberg, onde havia um sítio denominado Santo Antônio da Floresta, de propriedade do Coronel Antônio Joaquim de Carvalho que assinalava o final da via. Com a revolta urbana de 1912, que depôs o presidente Nogueira Accioly, as residências do oligarca e de todos seus aliados e colaboradores foram incendiadas, inclusive a do intendente Guilherme Rocha, que fechava a Rua Guilherme Rocha. Removidos os escombros, a rua foi aberta, ligando-se ao caminho de areia.

Em 1926 uma lei municipal denominou a continuação da Rua Guilherme Rocha, a partir da Praça Fernandes Vieira, de Avenida Demóstenes Rockert, nome de um antigo diretor da Rede de Viação Cearense, que elaborou todo o projeto para a construção da nova oficina da RVC que seria construída na via.

A oficina foi construída em terras do Sítio Santo Antônio da Floresta, doadas pelo coronel Antônio Joaquim de Carvalho, que tinha interesse em valorizar suas terras. O empreendimento ficou conhecido como “Oficina do Urubu” porque havia nas proximidades um grande aterro de lixo, que atraía muitas aves da espécie. A própria avenida era chamada informalmente de “Estrada do Urubu”. Dois anos antes da conclusão das obras, já se discutia a necessidade de uma artéria mais moderna para a região. A reivindicação foi atendida em 1931, quando o então prefeito Antônio Urbano de Almeida, inaugurou a pavimentação da avenida Demóstenes Rockert, toda em pedra. Com 2600 metros, o novo acesso unia o bairro do Jacarecanga ao Hidroporto Condor, na Barra do Ceará.

Uma das mais belas residências daquela região, foi construída em 1924, planta copiada de um imóvel de Portugal, em estilo art-nouveau, para ser a moradia de Thomaz Pompeu Sobrinho. Com 38 cômodos em quatro andares feitos com materiais importados da Europa, tinha porão habitável, salão de festas, quartos e salas com as dimensões de alguns apartamentos atuais. Atualmente abriga a Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho. 

Por essa época, já havia muitos moradores no trecho inicial da avenida, a maioria egressos do centro da cidade, que começava a ganhar ares mais comercial. Esses novos moradores ocuparam os primeiros quarteirões da Avenida Demóstenes Rockert, com residências de alto padrão e chácaras de veraneio, todas em amplos terrenos e com dois pavimentos, muitas delas, réplicas de imóveis europeus. Muitos dos casarões, dos bangalôs e das antigas construções, ainda estão lá, com outros usos, alguns conservados, a maioria não. Contam a história de uma época em que o Jacarecanga era o espaço predileto das elites de Fortaleza. 

Residência de Pedro Philomeno Gomes, na esquina das avenidas Francisco Sá e Philomeno Gomes, com suas escadarias, seus terraços e seus portões de ferro batido. depois  foi reformada e perdeu todos os detalhes decorativos. Mais tarde, foi demolida e construído no local um prédio de apartamentos.

Com a melhoria da via de acesso, vieram as indústrias, como o empreendimento de Pedro Philomeno Ferreira Gomes e das famílias Frota e Siqueira, que depois passaria a se chamar Fábrica de Tecidos São José, que se mudou para a “estrada do urubu” em 1926. Logo depois, em 1927 veio a Indústria Têxtil José Pinto do Carmo. A existência da linha férrea, responsável pelo escoamento da produção agropecuária, que atraiu estabelecimentos fabris no período da crise nas exportações de algodão, foi um dos principais atrativos para a instalação de indústrias na região; também pesou a questão dos custos logísticos, que caíam consideravelmente com um número maior de empresas localizadas no mesmo corredor comercial. Por fim, outro fator motivador,  era a abundância de mão de obra disponível naquela parte da cidade.

 Fábrica Brasil Oiticica, que instalou-se na Francisco Sá em 1934

Instalada em 1926, a Fábrica de Tecidos São José,  foi durante muitos anos a maior fabricante de redes do Brasil. A empresa possuía um parque fabril que ocupava área de 26.000 metros quadrados, empregando mais de mil operários.

Aconteceu que o número de empresas instaladas aumentou exponencialmente, e a concentração de empresas atraiu a classe trabalhadora e vários serviços para a área, mais espantou as famílias ricas para a Aldeota, Praia de Iracema e Benfica. Com o passar do tempo muitas dessas empresas se mudaram da Francisco Sá em busca de melhores condições em outras zonas industriais, como a de Maracanaú, deixando grandes áreas vazias.

Ultimamente, pouco a pouco, novos comércios e empreendimentos começaram a movimentar a região dando um novo perfil a avenida, com a instalação bancos, lojas, supermercados, farmácias, condomínios e pequenas fábricas. Em 1936, a Avenida Demóstenes Rockert, a velha "Estrada do Urubú" passou a ser chamada oficialmente de Avenida Francisco Sá.

fotos: Fortaleza em Fotos, Arquivo Nirez, IBGE, Brasiliana Fotográfica   
   

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O Bairro do Jacarecanga que eu Conheci


 Francisco José Lustosa da Costa  

Adolescente solitário, nos fins de semana, à tarde, tomava o ônibus da empresa do Oscar Pedreira, na Barão do Rio Branco (ou ia a pé?), rumo da Praça do Liceu, no Jacarecanga. Fazer o que, não sei. Talvez turismo, para conhecer a cidade. Passava pela mansão Itapuca, de Alfredo Salgado, construída com material importado da Europa a que olhava, com olhos deslumbrados. Descia naquela leitaria, esquina com Guilherme Rocha, localizada próxima à casa do radialista Paulino Rocha, pois, a este tempo, bebia leite e coalhada. Ainda não se inventara o iogurte. Olhava a prontidão do quartel do Corpo de Bombeiros que interessava menos pela rotina dos soldados do fogo que pelo fato de ser o local onde se guardavam os doutores, gente importante – que não podia ir para a Cadeia Pública, feita só para os pobres – quando em prisão especial. O silêncio das salas do Liceu, que era ainda a grande instituição de ensino do Ceará, só iria acabar com a fundação da Universidade Federal, quando os seus professores viraram professores universitários e não tiveram substitutos. Seus alunos era rapaziada valente que tomava parte em manifestações políticas e quebrava os ônibus do Oscar Pedreira, quando a Câmara de Vereadores elevava o preço das passagens. Gostaria de conhecer o Bom Pastor que acolhia as moças que haviam perdido a virgindade e tentavam recompô-la através de preces e de recolhimento. Claro que era impossível. A Escola de Aprendizes de Marinheiros, com a brancura intocada de seus muros, não pichados nem mesmo nas campanhas eleitorais. O Asilo dos Velhos, encargo do Torres de Melo. 

 Casa de Thomaz Pompeu Sobrinho, na Avenida Francisco Sá


Prédio do Liceu do Ceará

Havia belas casas apalacetadas, as de Florival Seraine, Brasil Pinheiro, Thomaz Pompeu Sobrinho, Luiz Morais Correia, avô do deputado Carlos Virgílio, Pedro Sampaio e, principalmente, as da família de Pedro Philomeno Gomes, filhos e genros. O antigo fabricante de  cigarros de Sobral se tornara disparado o homem mais rico do Ceará. Dono da fábrica de tecidos e de redes São José, responsável pela plantação racional de caju e pela construção do primeiro hotel de praia, o Iracema Plaza Hotel, não ganhara tanto dinheiro, brincando. Ao contrário, tinha por ele muito respeito. Dele se contava que tomou uma vez, carro de praça no centro rumo da fábrica. Ao chegar, perguntou ao motorista qual o preço da corrida. Ao ouvir que custava  vinte e cinco cruzeiros, estrilou. O chofer, então, tentou desmontar sua choradeira, dizendo-lhe: – seu filho Chico Philomeno não acha caro. Porque me dá uma nota de cinquenta e me manda guardar o troco. Sem saber o que dizer, saiu-se com esta? “é que ele tem pai rico. Eu não”.

Residência de Pedro Philomeno Gomes, na esquina das Avenidas Francisco Sá e Coronel Philomeno Gomes. Este imóvel foi demolido.
 

Um dos seus operários encontrou, no pátio da fábrica, nota de quinhentos mil réis que, àquele tempo, equivalia a um bom dinheiro. Veio lhe entregar e ficou esperando a gorjeta. Nada. Despedindo-o rápido, Pedro disse: “Vá andar mais, para ver se o sô acha mais dinheiro. Isto é lá dinheiro que se ache. É muito pouco”.   

Um dos seus capatazes era chamado com frequência à Polícia, para  responder a acusações de defloramento. Pedro recriminou-o: “O sô está faltando muito. O sô está querendo mudar minha fábrica? Minha fábrica é de tecidos, não é de menino não”.

Doutra feita, para estimular os operários que trabalhavam numa obra de construção civil, na fábrica, disse-lhes naqueles tempos de guerra fria: “trabalhem direito, que quando o comunismo vier, tudo isto será de vocês”.

 Fábrica de tecidos São José na esquina das Avenidas  Philomeno Gomes com Tenente Lisboa

Viciado em trabalho, Pedro Philomeno Gomes tinha um genro, Acrisio Moreira da Rocha, duas vezes prefeito de Fortaleza, que não cultivava a mesma devoção. Até tentou sim, bem que tentou. Chegou mesmo a adquirir moderno consultório odontológico. Aconteceu-lhe comprar, ao mesmo tempo, possante motocicleta em que gastava os dias, passeando. Anos depois, feito alcaide, doou o consultório todo embalado à Casa do Estudante.

Mais tarde, Acrisio não deixava o fundo da rede quando ia à fazenda, por dinheiro nenhum do mundo. Adquirira moderno binóculo, através do qual observava o movimento do gado. Dizia-se que, com preguiça de contar as reses, negociava, vendia-as por minutos. Um comprador, certa vez, convidou-o a dar uma cavalgada para olhar as vacas, Acrisio recusou-se terminantemente a acompanha-lo: “se é você quem vai comprar, porque tenho de ver o gado?”.

Quando prefeito era acusado de passar meses, sem ir à sede da Prefeitura, sem despachar. Um secretário, Nilo Porfírio Sampaio, imitava, com perfeição, sua assinatura que deitava nos atos oficiais, poupando o prefeito do labor caligráfico. Voltemos, porém, a seu Pedro e ao folclore que inspirava. 

Praça Gustavo Barroso (Praça do Liceu)

Aquele tempo, a utopia comunista estava arrebanhando adeptos. Conta-se a propósito, que um botador d’água por ela se deixara seduzir e, nas folgas do seu trabalho de venda da mercadoria a domicilio, desenvolvia seu apostolado. Neste fim de tarde em que ocorreu a estória que ora conto, mais uma vez, tentava fazer a cabeça de um compadre, momentaneamente desempregado, enquanto seus três jumentos roíam a escassa grama das alamedas da Praça Fernandes Vieira. Olhando para a casa de Pedro Philomeno, dizia: “Seu Pedro possui centenas de casas. Pra quê? Pode morar em mais de uma? Quando o comunismo vier, fica com a sua e distribui as outras com os necessitados. O Oscar Pedreira iria aonde com tantos ônibus? Fica com o seu e dá os outros pros seus motoristas”.

Fez uma pausa. O compadre olhando cúpido, os três jegues que retouçavam a relva seca, pergunto de súbito: “E quem tem três jumentos? Distribui dois com os mais carecidos?”

O compadre teve bastante presença de espírito para liquidar, logo, a quimera distributivista do outro, dizendo-lhe: “compadre, nessa questão de comunismo, jumento não toma parte não...”


crônica de de Lustosa da Costa
extraída do livro "A Louvação de Fortaleza" (1995)
fotos do Arquivo Nirez, Marciano Lopes e Fortaleza em fotos

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O Surgimento das Vilas Operárias em Fortaleza

embarque de algodão na Estação Central, em fins do século XIX (foto O Povo)

As vilas Operárias estão ligadas a história do ciclo do algodão, produto responsável pela dinamização do comércio e pelo aparecimento das primeiras indústrias têxteis. O setor de fiação e tecelagem implantou-se no final do século XIX, mas as vilas operárias surgiram a partir de 1920.

As vantagens para os empresários, é que estando os operários próximos aos locais de trabalho, ficavam asseguradas a assiduidade, a pontualidade, a prontidão destes, bem como o envolvimento de toda a família, necessária ao tipo de trabalho que caracteriza a produção têxtil.  Ao mesmo tempo a ação do Estado se fez presente na forma de concessão de incentivos e isenções de impostos, propiciados pela legislação para o desenvolvimento dessa forma de habitação dos operários. Assim, vários empresários do ramo têxtil se empenharam na construção de casas de aluguel.

No Ceará esse padrão de construção está ligado à história do algodão. Entretanto o aparecimento dessas habitações em Fortaleza a partir de 1920 foi consequência de dois fatores: o rápido crescimento urbano da cidade e as novas necessidades do processo industrial.

Instalada em 1926, a Fábrica de Tecidos São José, que foi durante muitos anos a maior fabricante de redes do Brasil. A empresa possuía um parque fabril que ocupava área de 26.000 metros quadrados, empregando mais de mil operários. Em 1928 a empresa construiu a Vila São José, nos arredores da fábrica, no bairro Jacarecanga. (foto do arquivo Nirez)

Em outubro de 1922, quando a cidade sofre um processo mais intenso de crescimento urbano, e a indústria têxtil necessitava da proximidade domicilio/trabalho, foi sancionada a lei 2002, que concedia isenção de todos os impostos inclusive os municipais, a firma ou empresa que construísse para venda, casas populares, de sólida construção, com acomodações amplas e higiênicas.

A lei estabelece ainda suas implantações nos bairros menos habitados da cidade, empregando os meios apropriados para o saneamento e conveniente preparo dos terrenos baldios. A prioridade para ocupação dos imóveis seria dada aos operários, funcionários públicos e demais classes menos favorecidas.

Acima da foto fachada da Fábrica Santa Elisa que em 1928 contava com 350 operários que produziam diariamente, 1200 tubos de fios (para fabricação de redes) e 500 redes. Na 2a. foto, a Vila Diogo, para moradia dos empregados, composta de 66 casas.

Em 1915 os benefícios  foram ampliados e incluíram a isenção da décima urbana e de todos os impostos estaduais pelo prazo de 15 anos, para quem construísse vilas operárias com dez ou mais unidades, construídas de acordo com as normas de higiene e saneamento, e mediante planta devidamente aprovada  pela municipalidade.  Apesar das vantagens, somente duas vilas operárias ligadas à indústria têxtil foram construídas na década de 20: a Vila Diogo, fundada em 1922, do Grupo Diogo Siqueira, situada nas proximidades do centro e inserida na área urbanizada da época, e a Vila São José, fundada em 1928, do Grupo Philomeno Gomes,  implantada na extremidade do perímetro urbano,  no bairro do Jacarecanga.

O Almanaque do Ceará, de 1932 registra um total de 15 vilas operárias de aluguel isentas de impostos, com 293 casas, nas quais somente duas,  de Diogo e Pompeu são ligadas à indústria têxtil.  No entanto, em 1933, a Fábrica São José mantinha 80 casas alugadas com perspectiva de mais 70.

Fábrica de Cigarros Araken, de propriedade de Diogo Siqueira. Os operários tinham acesso a Vila Operária construída pelo empresário. (foto do Arquivo Nirez)

A construção de vilas operárias cresceu inda mais na década de 40. O Grupo Diogo Siqueira constrói a Vila Araken, nas proximidades do seu empório industrial. Mais uma vez ampliam-se as atividades imobiliárias desse grupo, na mesma área de seus primeiros investimentos.  

 Indústria Têxtil José Pinto do Carmo na década de 50 (foto IBGE)

O Grupo José Pinto do Carmo também cria um conjunto com 51 casas no bairro do Jacarecanga. A Vila São José cresce em unidades habitacionais, que atingem 247 casas ao final da década. Até 1945 oito vilas operárias foram criadas por empresários ligados à indústria têxtil em Fortaleza,  somando em torno de 500 unidades habitacionais.  Nota-se então que é depois de 1930 que o número de unidades habitacionais cresce, sendo que, enquanto alguns grupos criam novos conjuntos de vilas, outros aumentam o número de unidades de conjuntos já existentes.

Extraído do artigo de Margarida Andrade,
A Legislação no Campo da Habitação Popular em Fortaleza 
sites consultados:
http://www.fiec.org.br
e outros artigos consultados:
As múltiplas facetas de um marchante: a vida empresarial de Antônio Diogo de Siqueira 
de Carlos Negreiros Viana
 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A Economia dos Armazéns


O Comércio de Fortaleza se estabeleceu no centro. Armazéns, Alfândega e os prédios da receita estadual e a administração municipal foram erguidos próximos ao primeiro porto.  Com o desenvolvimento da indústria algodoeira, surgiram casas comerciais como a Fábrica Philomeno, nas avenidas Francisco Sá e Sargento Hermínio. 


Industrial Pedro Philomeno Gomes, um dos pioneiros da região, e a Fábrica São José marcaram o desenvolvimento da indústria do algodão no Ceará (foto Diário do Nordeste)

As ruas do centro adquiriam funções especializadas; determinada via concentrava o comércio de fios e linhas, outra, o comércio de peças para veículos automotores. Um modelo bastante evidente ainda hoje, para quem percorre ruas como a Pedro I e a Clarindo de Queiroz.
Desenvolvia-se também o comércio na Alberto Nepomuceno e Conde D’Eu. O Mercado São José coletava produtos do Interior e os armazéns da Rua Governador Sampaio formavam o polo especializado na movimentação portuária. A cidade crescia na perspectiva do Riacho Pajeú: Catedral, Palácio da Luz, Assembleia Provincial, o porto e o Parque da Liberdade  na saída da cidade.

Assembleia Provincial - década de 1930 (foto: O Nordeste)

O centro possuía territorialidades diferenciadas: na Praça do Ferreira acontecia a feira da elite, mais selecionada. Naquela porção do centro tinha-se a clara distinção entre lazer e trabalho.  O ócio era desfrutado no Passeio Público e os negócios eram feitos na Praça do Ferreira. A cidade se expandia, mas o centro ficou restrito ao que foi projetado por Adolfo Herbster na Planta Exacta do Ceará, de 1875. A feira popular ocorrida na Praça Carolina, junto ao Mercado de Ferro, na região onde hoje se encontra o Palácio do Comércio.

Praça Carolina, local da realização da feira popular. (arquivo Nirez)

A Praça do Ferreira exercia ainda uma função hoteleira, mas sem à atual perspectiva de  Fortaleza como cidade turística. Era a rota comercial que justificava a rede hoteleira. Hotéis como o  Savanah (inaugurado em 1964) recebiam os caixeiros viajantes responsáveis pelo abastecimento da cidade. Eles traziam artigos do Rio de Janeiro  e de Recife, que tornaram Fortaleza uma praça interessante, mas com uma sociedade de consumo limitado.

Hotel Savanah, na esquina da Rua Major Facundo com Travessa Pará, na Praça do Ferreira, foi inaugurado em 12 de abril de 1964, propriedade de Pedro Lazar. No térreo do edifício, funcionavam as Lojas Brasileiras - Lobrás, onde foi inaugurada a primeira escada rolante de Fortaleza (arquivo Nirez)

Até a década de 1940, a cidade dava as costas para o mar, os deslocamentos tinham a ver com visitas às famílias, idas à escola. Fortaleza tinha um formato estelar, com saídas para os eixos da Bezerra de Menezes,  Parangaba – através do Benfica; Estrada do Gado, pelo Montese; eixo Atapu, para Messejana e eixo Mucuripe, na região onde hoje fica o corredor comercial da avenida Monsenhor Tabosa.
Os recursos arrecadados com o crescimento do comércio em Fortaleza, foram utilizados para fazer melhoramentos na cidade, como a construção de chafarizes,  colocação de um novo sistema de iluminação pública e o calçamento de ruas.

Fonte: 
Revista Fortaleza, fascículo 3 – abril/2006.