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segunda-feira, 28 de julho de 2025

O Jardim Zoológico da Cidade da Criança

 


Em 1946 Onélio Porto mantinha um terreno particular, cedido pelo Colégio Cearense da Ordem dos Irmãos Maristas. Nesse local Onélio criava pássaros e outros animais. Em 1951, o vereador Lúcio Magalhães propôs a criação de um jardim zoológico, na área do Parque da Liberdade, para onde seriam transferidos os animais de Onélio Porto, juntamente com outros criados pelo sargento do Exército, conhecido por Prata.

Eram ao todo 565 animais, de diversas espécies, que ficariam sob a responsabilidade da Secretaria de Educação e Cultura do Município, e aos cuidados de Onélio Porto. O mini zoológico permaneceu por quase duas décadas na Cidade da Criança sempre com muitas dificuldades, com instalações inadequadas à maioria dos bichos e água sem tratamento e alimentação escassa. Também tiveram alguns problemas devido a interação entre animais e crianças do Jardim de Infância. Então Onélio Porto retirou seus animais como forma de protesto. A partir de 1979 o zoológico foi transferido para o Horto Florestal numa área do Parque Ecológico do Passaré.




Uma crônica de Blanchard Girão relata um incidente havido com um amigo quando o zoológico ainda estava no Parque da Liberdade.

O amigo ficou até altas horas bebericando com outros notívagos contumazes no bar localizado no Passeio Público, na Avenida Caio Prado. Encerrada a noitada etílica, os antigos companheiros de bancos da faculdade, tomaram cada qual o seu rumo. O amigo do cronista dirigiu-se à Praça do Ferreira, ponto habitual do local de encerramento das noitadas do bloco dos que ficavam na praça até muito depois da meia-noite e ponto de partida para os cabarés que funcionavam nas redondezas.

Tomou o rumo da praça, quando à altura da Rua Senador Alencar proximidades da Rua Major Facundo, avistou algo estranho, a poucos metros. Mas estranho ainda, porque na sua visão aquilo era uma onça... e vinha em sua direção. Uma onça em pleno centro da cidade! raciocinou que realmente devia estar muito bêbado, e o bicho vindo em sua direção! Aquilo era grande demais para ser confundido com um cachorro!  

Os efeitos do álcool não tinham lhe tirado todos os sentidos, especialmente o instinto de preservação. Com medo, recostou-se à parede, como a procurar um abrigo salvador. E a onça como se estivesse em seu ambiente, caminhava sem pressa, investigando. De repente, pelo olfato interessou-se por uma grande lata de lixo entreaberta na calçada. Para lá se dirigiu, faminta, à procura de algo que lhe aplacasse a fome.



Foi o chamado instante decisivo. Arrancando as últimas forças das pernas, o amigo fugiu em desabalada carreira em direção à praça. Lá encontrou alguns companheiros de boemia, a quem relatou a sua incrível visão: ninguém o levou a sério. Desacreditado, tonto pela cerveja consumida no bar do Passeio Público, resolveu ir embora, em direção a sua casa na Floriano Peixoto. De longe, ainda ouvia os gritos de gozação dos amigos: “olha a onça, nego véi” “cuidado com a onça”,” eta cachaça da peste, dá até pra ver onça na Praça do Ferreira

O susto ainda estampado no rosto, o rapaz se depara ao entrar em casa, com a avó, a quem transmite sua fantástica história. E a avó carinhosa foi preparar um café forte e amargo, servido junto com a reprimenda “você andou bebendo de novo, menino! deixe disso!”.  

Assim, desacreditado por todos o nosso boêmio notívago foi dormir; manhã cedo, ainda de ressaca, não tardou em ler nas bancas, as manchetes dos jornais em letras grandes: “Onça foge do Parque e é morta a tiros pelos bombeiros”.  Era a confirmação do episódio para desmoralizar a todos os incrédulos, se um dos seus companheiros que estivera na Praça do Ferreira na noite anterior, não tivesse espalhado um boato pela cidade: a de que o rapaz fora ao Parque da Liberdade, onde ficava o mini zoológico de Onélio Porto, soltar a onça para provar sua história”.

Na verdade, a onça escapara de sua jaula, perambulava pelas ruas centrais, quando esteve a poucos passos de nosso personagem. Horas depois, pôs em polvorosa os moradores do Pirambu, quando acabou abatida a tiros de fuzil pelos soldados do Corpo de Bombeiros.

    

Fontes: 

Caminhando por Fortaleza, Francisco Benedito. 1999

Sessão das Quatro, cenas e atores de um tempo mais feliz, de Blanchard Girão, 1998.

fotos do Parque da Liberdade: IBGE e postais antigos


 

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Bairro Centro

1933 (foto Diário do Nordeste)

2013

A região de Fortaleza que denominamos Centro, é o local mais antigo, onde a cidade surgiu, no rastro da ocupação holandesa e da edificação do forte Schoonenborch, no século XVI. Por muito tempo a cidade se restringiu a área central, chamada inicialmente de Povoado do Forte, depois Vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, nascida ao pé do forte que lhe emprestou o nome, às margens do riacho Pajeú.

A vila se desenvolveu primeiro na região ao redor do forte, que também foi responsável pela construção da primeira igreja, dedicada à Nossa Senhora da Assunção. Depois apareceu o quartel de linha, a Igreja de São José, e assim a cidade ganhou a sua primeira catedral. Junto ao forte ainda foi construído o Passeio Público, a Praça da Sé, a Casa dos Governadores.

Passeio Público

Início do século XX

2013

Depois o Centro começou a se expandir porque construíram uma igreja de escravos num lugar ermo, distante do aglomerado, e resolveram construir um Palácio para a Câmara e que acabou ficando virando sede do Governo naquele local. Mais tarde, chegou à cidade um boticário que virou administrador, e construiu a Praça do Ferreira, que desde então, tornou-se o coração da cidade e inaugurou uma nova centralidade. 

No centro foram construídos as primeiras igrejas, as primeiras praças, os primeiros arranha-céus, os primeiros hotéis, primeiros cinemas, e os primeiros casarões, de propriedades dos potentados sertanejos, que enriqueceram com a exportação de algodão, cera, couro e outros produtos da terra. No centro, o comércio floresceu pelas mãos de estrangeiros e nativos, que inauguraram linhas marítimas que se conectaram com a Europa e trouxeram à Fortaleza ainda provinciana, as maravilhas fabricadas em Londres e Paris.´

ainda estão lá


 

Até pelo fim da década de 70, o Centro era o endereço de tudo quanto era relevante para a cidade: A Assembleia Legislativa, o Governo Estadual e Municipal, O Fórum, o Palácio do Bispo, as Lojas, os Cinemas, os Hotéis, os Bancos e uma infinidade de estabelecimentos e prestadores de serviços que atraiam todo tipo de público. Os logradouros eram bem cuidados e havia transporte coletivo partindo do Centro para toda a cidade.

Mas quando a cidade começou a se expandir, primeiro para o Leste e depois para todos os quadrantes, o Centro foi quem pagou o maior preço, com um esvaziamento acentuado e progressivo, que acontece até os dias atuais. O abandono ficou patente nos inúmeros imóveis vazios, nas ruas esburacadas, nas praças com equipamentos quebrados e pichados, na insegurança das instalações e dos frequentadores, na desordem da ocupação dos espaços, no acúmulo de lixo, e no grande contingente de moradores de rua. De acordo com o Censo de 2022, o Centro conta com 24.096 moradores. Limita-se ao Norte: Oceano Atlântico; ao Sul: Benfica, José Bonifácio e Joaquim Távora; a Leste: Praia de Iracema, Meireles e Aldeota; e a Oeste: Jacarecanga, Otávio Bonfim e Moura Brasil.

por Fátima Garcia

fontes consultadas: IBGE (censo 2022), Prefeitura de Fortaleza

fotos Fortaleza em Fotos 



segunda-feira, 4 de novembro de 2024

A Praça dos Mártires (Passeio Público) e suas Histórias

 


É um dos logradouros mais antigos da cidade. No século XVII era o Largo da Fortaleza. Ali foi construído o Paiol da Pólvora, local da guarda de armamentos e munições da fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. O paiol ficava no ângulo da Santa Casa, próximo ao mar. Nessa época passou a ser chamado de Largo do Paiol. O Paiol do Passeio Público foi foi demolido em 1855. (1)

O local teve um passado sombrio. Antes da urbanização e até 1825, foi o espaço de execuções de condenados pela justiça, quando ainda havia a pena de morte no Brasil, que só foi abolida em 1889, com a Proclamação da República. Pelo menos dois desses eventos ficaram registrados na memória da cidade – a execução por fuzilamento dos revoltosos da Confederação do Equador (2) e a execução de 6 escravos maranhenses, autores de crimes de morte e roubo no Brigue-Escuna Laura II, quando navegava pela costa cearense próxima a Aquiraz. (3)

A praça foi idealizada pelo governador Fausto Augusto de Aguiar e foi iniciada em 1864 com a participação do comerciante Tito Antônio da Rocha que, entre os equipamentos da praça construiu um rinque de patinação, um tanque circular com repuxos, adornado com jarrões de louça chinesa, instalou a caixa d’água e um coreto, com elegante cobertura em forma de pirâmide, onde se apresentavam as bandas de música do 15º Batalhão de 1ª Linha, da Escola de Aprendizes Marinheiros e Batalhão de Segurança do Estado.  A área ia da atual Rua Dr. João Moreira até a praia chamada de Maceió, onde ficava o ancoradouro. Após a construção do primeiro plano, o restante do terreno foi cercado pela Câmara e arrendado para plantio de hortaliças.



A partir de 1879 houve uma grande remodelação com a criação de três planos, separados por paredões, denominados de avenidas. No primeiro plano, foi construída em 1888, a Avenida Caio Prado, em homenagem ao governador do Ceará, Antônio Caio da Silva Prado, falecido durante o mandato. (4). A avenida recebeu iluminação, novos bancos, e réplicas de esculturas clássicas adquiridas na Europa. Passou a ser o local preferido da elite da cidade.

O segundo plano, chamado de Rocha Lima, depois Carapinima, era bastante arborizado, possuía cascata artificial, um lago com a estátua de Diana, deusa da caça na mitologia romana, um cassino com bar e bilhares, chamado de Cassino Cearense, de propriedade de Júlio Pinto. Anos depois, esse segundo plano foi transformado em praça de esportes e depois cedido ao quartel da 10ª Região Militar, instalado na vizinhança do Passeio Público. Era frequentado pelas classes médias e populares.


 

O terceiro plano chamado Tito Rocha e depois Avenida Mororó, possuía um lago artificial alimentado por um braço do riacho Pajeú e no centro uma estátua de Netuno, além de um mini zoológico com animais soltos no ambiente: veados, emas, patos, cisnes... Era o espaço das classes pobres, de classe sociais mais baixas, prostitutas, desocupados e pessoas humildes. Com o abandono gradativo do terceiro plano, grande parte dos animais foram capturados e abatidos por populares e por alunos da Escola Militar, rapazes insubordinados e desordeiros, que tocavam o terror nas ruas da província.

Ao longo do tempo, com o surgimento de espaços mais atraentes, o passeio público foi perdendo o charme, deixou de ser atrativo. Passou por inúmeras reformas, em diversas administrações municipais, mas nunca recuperou o prestígio como espaço de lazer que atraía todas as classes sociais.



Fica numa região antiga e razoavelmente preservada da cidade, todos os equipamentos e imóveis instalados nas suas imediações são tão velhos quanto o velho passeio público. A árvore mais antiga, o Baobá, plantado pelo Senador Pompeu, o prédio do Clube Cearense (final do século XIX), a Santa Casa de Misericórdia (1857), o prédio da Associação Comercial (1870), a fortaleza de Nossa Senhora da Assunção (1649).

As belas estátuas de deuses trazidas da Europa, os jarros de faiança, as colunas artísticas, desapareceram. Restaram os pedestais vazios, a grama seca, os bancos velhos, com pinturas desbotados, e o tédio generalizado de um logradouro que já foi bem maior, bem mais cuidado, bem mais frequentado e muito festejado; mas ainda de pé, está o velho Baobá, uma das 45 árvores de Fortaleza classificadas pela prefeitura como imunes ao corte. Esses elementos fazem parte da mais pura história de Fortaleza.




(1) O Paiol da Pólvora

era um tipo de construção utilizada para armazenar pólvora, normalmente em barris de madeira, de forma segura. O do Passeio Público era uma construção rústica, de taipa e palha, localizada próximo ao forte de N.S. de Assunção, em frente ao canto esquerdo da Santa Casa de Misericórdia. Ficou no local de 1817 até 10 de maio de 1855, quando foi transferido para o Morro do Croatá. Durante muito tempo a área do entorno ficou desabitada por causa do risco de uma explosão. 


(2) A Confederação do Equador 

Os mártires que deram nome ao Passeio Público participaram do movimento revolucionário de caráter republicano e constitucionalista, chamado Confederação do Equador, que reivindicava, dentre outros objetivos, a independência do Nordeste. Entre os réus, estavam o padre Gonçalo Mororó, João de Andrade Pessoa Anta, Francisco Miguel Pereira Ibiapina, Feliciano José da Silva Carapinima e Luiz Ignácio de Azevedo, vulgo Azevedo Bolão. Foram condenados à morte, e executados em 1825, por pelotões de fuzilamento.


(3) A Revolta dos Negros do Laura II

Em 1839, o navio Laura II foi cenário de um levante de escravos que culminou com a morte de toda a tripulação da embarcação, que seguia de São Luís do Maranhão para o Rio de Janeiro. De passagem por Fortaleza, alguns escravos foram ao capitão queixar-se do mal que passavam e da pouca comida que lhes distribuíam. A resposta do comandante foi dura: que eles mereciam era muito açoite.

Humilhados, e sem esperança, os negros começaram a se rebelar contra as condições em que viajavam; planejaram uma vingança que foi consumada ao deixarem as águas de Fortaleza. Mal se aperceberam os oficiais e passageiros do navio.

O capitão foi atacado no seu camarote a golpes de faca; fugiu e se refugiou no lugar do leme, sendo lançado ao mar. O contramestre e o prático foram igualmente esfaqueados e jogados no mar. Os demais tripulantes e alguns passageiros foram assassinados a pauladas. O único que restava dos brancos foi posto a serviço dos revoltosos. Salvaram-se os que foram considerados inofensivos, como o cozinheiro do capitão, os negros passageiros, e os dois moleques. Os rebelados foram presos, submetidos ao júri, sendo que seis foram condenados à morte, trazidos para Fortaleza e executados na forca do Passeio Público, em 1839.


(4) O Governador Caio Prado

Antônio Caio da Silva Prado foi sem dúvida uma das figuras mais interessantes que apareceu na provinciana Fortaleza dos anos 1880. Filho de tradicional família paulista, irmão do escritor Eduardo Prado, rico, bonito, intelectual, educado na Europa, vivido e escolado no modus vivendi parisiense, depois de pouco mais de 7 meses a frente do governo de Alagoas, "caiu de paraquedas" no cargo de governador do Ceará, nomeado por Sua Alteza Imperial Dom Pedro II.

Nascido em 1853, chegou aqui aos 35 anos de idade. Assumiu o governo do Ceará em 21 de abril de 1888, cercado de admiradores e elogios de simpatizantes, mas com reservas da imprensa local. Ao tomar posse no cargo, logo se viu cercado de dificuldades de todos os tipos. Para começar, o Ceará enfrentava mais um período de seca, a chamada “seca dos três oitos”, com a capital invadida por retirantes, em busca de alimentos, abrigo, trabalho e assistência social; e mais uma vez, exposta ao risco de epidemias, que costumavam surgir nessas situações de caos.

Talvez pelo desconhecimento no trato de problemas com os quais nunca tivera contato, talvez por não saber distinguir as especificidades da terra que aceitara governar, o presidente Caio Prado permaneceu alheio e distanciado das graves crises que o Estado atravessava. Apesar das críticas que vinham de diversos setores da sociedade, e acusado de negligência em relação aos problemas locais, Caio Prado não se abalou, e entregou-se ao lazer dos passeios com os amigos e festas no Palácio da Luz, enquanto a população enfrentava os horrores da seca, da fome e do temor de uma epidemia.

E a tragédia não demorou. Proliferou no Ceará, uma violenta epidemia de febre amarela, espalhando de vez, o quadro de miséria e horror vivido na época. Com a epidemia instalada, inclusive em Fortaleza, o próprio presidente foi uma das vítimas; acometido de febre amarela, faleceu em 25 de março (ou maio) de 1889.


Consultados:

Caminhando por Fortaleza, de Francisco Benedito/ Coisas que o tempo levou – crônicas históricas da Fortaleza antiga, de Raimundo Menezes//GIRÃO, Raimundo. Geografia Estética de Fortaleza. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1959//GIRÃO, Valdelice Carneiro. A Emigração Cearense no Governo Caio Prado (1888-1889). Fortaleza: Revista do Instituto do Ceará, 1990. publicação Fortaleza em Fotos. Imagens: postais antigos, IPHAN e Fortaleza em Fotos.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Os Negócios realizados em Armazéns e Praças

Planta Exacta da Capital do Ceará, de Adolfo Herbster

O comércio de Fortaleza se estabelece no Centro. Armazéns, e prédios como os da Alfândega, Receita Estadual, e da administração municipal foram erguidos próximos ao porto. Com o desenvolvimento desta indústria exportadora, organizavam-se casas comerciais, como a Fábrica Philomeno Gomes nas Avenidas Francisco Sá e Sargento Hermínio. As ruas do centro adquiriram funções especializadas: determinada via concentrava o comércio de linhas e fios, outras de peças, um modelo evidente até hoje para quem percorre vias como as Ruas Pedro I e Castro e Silva.

Alfândega
O comércio se desenvolvia também na Avenida Alberto Nepomuceno e Rua Conde D’Eu. O Mercado São José coletava produtos do interior e os armazéns da Rua Governador Sampaio formavam o polo especializado na movimentação portuária. A cidade crescia na perspectiva do Riacho Pajeú: Catedral, Palácio da Luz, Assembleia Provincial, o porto e a produção de energia, e o Parque da Liberdade na saída da cidade.
Existiam territorialidades diferenciadas no centro da cidade: na Praça do Ferreira acontecia a feira da elite, mais selecionada. Naquela porção do centro tinha-se a distinção clara entre lazer e trabalho. O ócio era desfrutado no Passeio Público e os negócios eram feitos na Praça do Ferreira. A cidade se expandia, mas o Centro ficou restrito ao que foi projetado por Adolfo Herbster, na Planta Exacta do Ceará, em 1875.


Praça do Ferreira década de 1940


A feira popular acontecia na Praça Carolina, junto ao Mercado Central, na região onde hoje se encontra o Palácio do Comércio. A Praça do Ferreira exercia ainda uma função hoteleira, mas nada ligado a atual perspectiva de Fortaleza como cidade turística. Era a rota comercial que justificava a rede hoteleira. Hotéis como o Savanah recebiam os caixeiros viajantes, responsáveis pelo abastecimento da idade. Traziam artigos do Rio de Janeiro, Recife e de outras cidades maiores. Tornavam Fortaleza interessante, mas com uma sociedade de consumo limitado. Só com a abertura da Avenida Beira Mar nos anos 60, é que a cidade recebe equipamentos hoteleiros na praia com foco no turismo, hoje um dos  principais destinos turísticos do País.

 Até a década de 40 a cidade dava as costas para o mar e os deslocamentos tinham a ver com as visitas à familiares, idas às igrejas e as escolas. Fortaleza tinha formato estelar, com saídas para os eixos Bezerra de Menezes, Parangaba, através do Benfica, Estrada do Gado, pelo Montese; eixo Atapu, para Messejana e eixo Mucuripe, na região onde hoje fica o corredor comercial da Avenida Monsenhor Tabosa.

Outro fator interessante é que a parte do dinheiro arrecadado com o crescimento comercial foi utilizada para fazer melhorias na cidade, como a construção de chafarizes, colocação de um novo sistema de iluminação pública e o calçamento de ruas.



Extraído da revista Fortaleza – fascículo 3, de 23/04/2006 
fotos do IBGE e arquivo Nirez 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Expandindo a cidade

Do Passeio Público nasciam paralelas e em direção a Praça do Ferreira as três mais importantes ruas da cidade: Boa Vista, Palma e Formosa, hoje respectivamente,   Floriano Peixoto, Major Facundo e Barão do Rio Branco. Cortadas perpendicularmente por travessas – como eram chamadas as ruas que tinham seu desenvolvimento na direção Leste-Oeste – formavam quarteirões, identificados por suntuosos edifícios. 


Pelos velhos casarões alinharam-se as ruas, disciplinando assim, a expansão da cidade, iniciada por Silva Paulet.  A Rua Floriano Peixoto foi a primeira a ser retificada. Serviu como sua balizadora a direção que ia do forte à antiga residência dos Governadores. Ressaltando o seu início, frente ao Passeio Público, erguia-se o belo edifício que foi a sede própria do Clube Cearense e que abrigaria o Grande Hotel do Norte.

A primitiva Residência dos Governadores, que mais tarde pertenceria a Martinho de Borges, tinha seu pátio atravessado por esta rua. Nesta área atualmente encontram-se o Banco do Brasil, o Palácio do Comércio e o prédio dos Correios.  Da Rua Floriano Peixoto originaram-se importantes travessas. A partir do casarão do português  Manuel Nunes de Mello, o Barão de Santo Amaro, delineou-se a Travessa das Hortas, atual Rua Senador Alencar. Esta travessa prolongava-se até o primitivo matadouro da cidade, onde hoje se ergue o Palacete Guarani, na Rua Barão do Rio Branco, onde funcionou a partir de 1913, o Clube dos Diários.
 
No cruzamento sudoeste dessas ruas, Barão do Rio Branco e Senador Alencar, deparava-se com a esquina do Telles, assim chamada pela presença do grande sobrado do comendador Antônio Telles de Menezes, que se prestava ao alinhamento da Rua Barão do Rio Branco. No alto do casarão residia o Comendador Telles e no pavimento térreo distribuíam-se os conhecidos “quartos do Telles” servindo de armazéns de víveres, e de hospedarias, provavelmente as primeiras da cidade. Estes corriam ao longo de uma das chamadas “calçadas altas”, elevações formadas no desnível da rua, pela convergência de águas pluviais – até a Rua Amélia, hoje, Senador Pompeu. Atualmente esses quartos da antiga Fortaleza são ocupados por diversas lojas comerciais e pela sede do Instituto de Previdência do Estado (IPEC).

Rua Floriano Peixoto esquina com a Rua São Paulo -1929 

Em 1893, na esquina das ruas Floriano Peixoto e Senador Alencar, estabeleceu-se a firma Frota e Gentil, que em 1917 criou uma seção bancária, transformada em 1931 no Banco Frota e Gentil.

O capitão-mor Joaquim José Barbosa recepcionava em sua residência a elite de Fortaleza. De seu casarão, edificado na parte norte da atual  Praça General Tibúrcio, originou-se a travessa da Assembleia, hoje Rua São Paulo. Posteriormente funcionou neste sobrado “ A Central”, de Pedro Lazar.

No dia 25 de maio de 1940 inaugurou-se o Palácio do Comércio, projetado pelo renomado arquiteto francês George Henri Munier e construído por Omar O’Grady. Na parte térrea deste edifício passaria a funcionar, a partir de junho de 1940, a segunda sede do Banco União, tendo como endereço a Rua Floriano Peixoto, 397. Também em 1940, no térreo do Palácio do Comércio foi inaugurado o Restaurante Belas Artes, propriedade de Osvaldo José Azin e filhos. 

Sobrado do Comendador Machado, na esquina das Ruas Guilherme Rocha com Rua Major Facundo, demolido para dar lugar ao Excelsior Hotel

A residência de Francisco José Pacheco de Medeiros, abrigaria desde 1831, a Intendência Municipal e  a Câmara dos Vereadores. Daí, até o sobrado do Comendador Machado, onde hoje se encontra o Excelsior Hotel, estendia-se a Travessa Municipal, hoje Rua Guilherme Rocha . Este casarão alinhava também a Rua Major Facundo.

O Palacete dos Borges Telles iniciava a Rua Major Facundo em frente ao Passeio Público. Essa residência serviu de última sede ao aristocrático Clube Cearense e, a seguir, ao Hotel de France, sediando de 1927 a 1971 o Palace Hotel. A partir de 1977 passou a funcionar ali a sede da Associação Comercial do Ceará. O Palace Hotel teve seu tempo de brilho. Ali realizaram temporadas artísticas cantores famosos como Vicente Celestino, Augusto Calheiros e o regente Ercole Varet. 

 Rua Major Facundo, 1913

Nas baixadas da lagoinha e no antigo Campo da Amélia, ao lado do Morro do Croatá, sítios onde mais tarde seriam construídos o Hospital César Cals e a Estação Central da Estrada de Ferro Baturité, nascia um afluente do Pajeú. Corria pela quadra entre as ruas São Paulo e Castro e Silva, atravessando o centro da cidade, unindo-se a este principal riacho, no lado sul da Praça da Sé. No tempo das chuvas as águas corriam para seu antigo leito, inundando ruas e terrenos vizinhos. No antigo vale deste afluente, a colônia libanesa instalaria seus armazéns de fazendas e miudezas. Já em 1922 ali se encontravam: Elias Asfora & Cia; Jacob Elias e Irmão; Salomão Hissa, Salim Nasser e Irmão, Simão Jereissati, Jorge Honsy e Filho, Kalil Otoch e Filho, Jamil Rabay, Elias Bachá, e outros.


Dessa colônia surgiria a Sociedade União Síria, fundada em 17 de março de 1923, nos altos do Armazém Esplanada de Abraão Otoch, na Rua Major Facundo, n° 55. Posteriormente juntamente com a Colônia Libanesa formaria a União Sírio-Libanesa, instalando-se na Avenida Santos Dumont. Por essa época, foi fundado o Clube Líbano Brasileiro, que construiu sua sede na Rua Tibúrcio Cavalcante, até seu encerramento.

extraído do livro Ideal Clube - história de uma sociedade
de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos do Arquivo Nirez