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segunda-feira, 28 de julho de 2025

O Jardim Zoológico da Cidade da Criança

 


Em 1946 Onélio Porto mantinha um terreno particular, cedido pelo Colégio Cearense da Ordem dos Irmãos Maristas. Nesse local Onélio criava pássaros e outros animais. Em 1951, o vereador Lúcio Magalhães propôs a criação de um jardim zoológico, na área do Parque da Liberdade, para onde seriam transferidos os animais de Onélio Porto, juntamente com outros criados pelo sargento do Exército, conhecido por Prata.

Eram ao todo 565 animais, de diversas espécies, que ficariam sob a responsabilidade da Secretaria de Educação e Cultura do Município, e aos cuidados de Onélio Porto. O mini zoológico permaneceu por quase duas décadas na Cidade da Criança sempre com muitas dificuldades, com instalações inadequadas à maioria dos bichos e água sem tratamento e alimentação escassa. Também tiveram alguns problemas devido a interação entre animais e crianças do Jardim de Infância. Então Onélio Porto retirou seus animais como forma de protesto. A partir de 1979 o zoológico foi transferido para o Horto Florestal numa área do Parque Ecológico do Passaré.




Uma crônica de Blanchard Girão relata um incidente havido com um amigo quando o zoológico ainda estava no Parque da Liberdade.

O amigo ficou até altas horas bebericando com outros notívagos contumazes no bar localizado no Passeio Público, na Avenida Caio Prado. Encerrada a noitada etílica, os antigos companheiros de bancos da faculdade, tomaram cada qual o seu rumo. O amigo do cronista dirigiu-se à Praça do Ferreira, ponto habitual do local de encerramento das noitadas do bloco dos que ficavam na praça até muito depois da meia-noite e ponto de partida para os cabarés que funcionavam nas redondezas.

Tomou o rumo da praça, quando à altura da Rua Senador Alencar proximidades da Rua Major Facundo, avistou algo estranho, a poucos metros. Mas estranho ainda, porque na sua visão aquilo era uma onça... e vinha em sua direção. Uma onça em pleno centro da cidade! raciocinou que realmente devia estar muito bêbado, e o bicho vindo em sua direção! Aquilo era grande demais para ser confundido com um cachorro!  

Os efeitos do álcool não tinham lhe tirado todos os sentidos, especialmente o instinto de preservação. Com medo, recostou-se à parede, como a procurar um abrigo salvador. E a onça como se estivesse em seu ambiente, caminhava sem pressa, investigando. De repente, pelo olfato interessou-se por uma grande lata de lixo entreaberta na calçada. Para lá se dirigiu, faminta, à procura de algo que lhe aplacasse a fome.



Foi o chamado instante decisivo. Arrancando as últimas forças das pernas, o amigo fugiu em desabalada carreira em direção à praça. Lá encontrou alguns companheiros de boemia, a quem relatou a sua incrível visão: ninguém o levou a sério. Desacreditado, tonto pela cerveja consumida no bar do Passeio Público, resolveu ir embora, em direção a sua casa na Floriano Peixoto. De longe, ainda ouvia os gritos de gozação dos amigos: “olha a onça, nego véi” “cuidado com a onça”,” eta cachaça da peste, dá até pra ver onça na Praça do Ferreira”

O susto ainda estampado no rosto, o rapaz se depara ao entrar em casa, com a avó, a quem transmite sua fantástica história. E a avó carinhosa foi preparar um café forte e amargo, servido junto com a reprimenda “você andou bebendo de novo, menino! deixe disso!”.  

Assim, desacreditado por todos o nosso boêmio notívago foi dormir; manhã cedo, ainda de ressaca, não tardou em ler nas bancas, as manchetes dos jornais em letras grandes: “Onça foge do Parque e é morta a tiros pelos bombeiros”.  Era a confirmação do episódio para desmoralizar a todos os incrédulos, se um dos seus companheiros que estivera na Praça do Ferreira na noite anterior, não tivesse espalhado um boato pela cidade: a de que o rapaz fora ao Parque da Liberdade, onde ficava o mini zoológico de Onélio Porto, soltar a onça para provar sua história”.

Na verdade, a onça escapara de sua jaula, perambulava pelas ruas centrais, quando esteve a poucos passos de nosso personagem. Horas depois, pôs em polvorosa os moradores do Pirambu, quando acabou abatida a tiros de fuzil pelos soldados do Corpo de Bombeiros.

    

Fontes: 

Caminhando por Fortaleza, Francisco Benedito. 1999

Sessão das Quatro, cenas e atores de um tempo mais feliz, de Blanchard Girão, 1998.

fotos do Parque da Liberdade: IBGE e postais antigos


 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Antiga Praça Visconde de Pelotas

A Antiga Praça Visconde de Pelotas é a atual Praça Clóvis Beviláqua. O nome homenageava o Visconde de Pelotas e herói da Guerra do Paraguai, Marechal José Antônio Correa da Câmara. A praça tinha uma singularidade, pois ficava a 24,41 metros de altitude e se constituía uma das mais elevadas da cidade. 

Foi por isso, o local escolhido para se instalar os reservatórios de água potável da cidade. Em 1867, a "Ceará Water Work Co. Ltd" abasteceu a cidade a partir dali, por meio de chafarizes. Esta companhia inglesa, explorou o serviço de abastecimento até a grande seca de 1877-1879, quando deixou de funcionar por falta de água. 

Em 1911, na administração do presidente da Província Nogueira Accioly, foram instaladas as caixas d'água com material importado. Com a deposição de Accioly do governo do Estado, o serviço ficou paralisado. 


A partir de 1938, com a instalação da Faculdade de Direito em sua área, a Rua Meton de Alencar foi prolongada, dividindo a praça transversalmente. Como era comum nas antigas praças de Fortaleza, nela predominava o verde, primeira preocupação dos urbanistas da cidade. Os jardins eram bem cuidados, com as árvores contornadas por cercas vivas; a praça possuía um coreto com bancos para as retretas das bandas de música. 


Em frente à Faculdade de Direito erigiram um obelisco, em homenagem à participação brasileira na 2a. Guerra Mundial. Centralizando o lado poente da praça, localizava-se o palacete do Barão de Camocim, ladeado pelo jardim da Baronesa. Este importante casarão integrante do patrimônio histórico arquitetônico da cidade, revela um pouco da sociedade da época. 

Inaugurada no século XIX, o palacete foi construído com planta  adquirida em Paris por Geminiano Maia, o Barão de Camocim. A residência conservava preciosidades que ornamentavam a antiga residência do casal, em Paris, quando ele então gozava do convívio e amizade da família imperial brasileira, exilada na França, depois da Proclamação da República. 
 

O palacete era composto de cinco dormitórios na parte superior, vários aposentos na parte de baixo, além de um porão habitável. A vasta propriedade em seus primeiros tempos, compreendia o casarão e seu extenso jardim,  com pomar e a Ala da Baronesa - um recanto predileto da senhora de Camocim, na parte esquerda do edifício principal. Depois do  casamento de sua única filha e mais tarde, dos netos, os jardins foram cedendo espaço para a construção de seis casas residenciais da família. 


Em 1925 o palacete recebeu o casal D. Pedro de Alcântara e sua filha a Condessa de Paris. Ele era o primogênito da princesa Isabel e do Conde D'Eu. Outras recepções marcariam também a Vila de Camocim, como os casamentos e as festas de quinze anos das netas e bisnetas do Barão. 

O Barão de Camocim nasceu em Aracati - primeiro entreposto da civilização cearense - em 1847, filho de Cosme Afonso Maia e Teresa de Jesus Maia. Geminiano e seus irmãos José e Vicente fundaram em 1872, em Fortaleza, o conceituado estabelecimento denominado "Louvre", uma casa de modas, com artigos finos, importados de Paris. 


No lado nascente da Praça de Pelotas, quase esquina da rua Senador Pompeu com a Rua Clarindo de Queiroz, localizava-se a residência de Ernesto de Alencar Araripe  e sua mulher, Carolina Pereira de Alencar Araripe. 

Na esquina sudeste do logradouro, no cruzamento das Ruas Senador Pompeu  e Antônio Pompeu, erguia-se os fundos do prédio que foi o Cine Araçanga, e depois Cine Art. Esses cinemas tinham a frente voltada para a Rua Barão do Rio Branco.


Na face sul da Praça, esquina das Ruas Senador Pompeu e Antônio Pompeu, erguia-se a residência de Meton de Alencar Pinto, construída em 1931, com 3 pavimentos. Filho de Júlio Pinto do Carmo e Júlia de Alencar Pinto, Meton de Alencar e seus irmãos fundaram a Companhia Importadora de Máquinas e Acessórios Irmãos Pinto - Cimaipinto. Os jardins e os espaços externos foram destruídos, mas a casa continua lá.
 
Vizinho a residência de Meton de Alencar morava Raymundo de Alencar Araripe, que foi prefeito de Fortaleza por quase dez anos (18 de maio de 1936-30 de outubro de 1945). Durante seu governo, pavimentou as ruas de Fortaleza, construiu o Estádio Presidente Vargas e criou a Assistência Municipal, instalada na vizinhança de sua residência. 


Em seguida, convidou o médico Dr. José Frota para dirigir este posto médico. O nome de José Frota serviria posteriormente de referência para a rede de pronto-atendimento médico do Município de Fortaleza. O Serviço de Educação Infantil, mantido pela municipalidade, foi criado em 1938, por iniciativa deste prefeito, instalando sua sede no antigo Parque da Independência, que passou a ser chamado de Cidade da Criança. 

uma terceira caixa d'água foi instalada mais tarde.

Em 1926 a Praça Visconde de Pelotas teve o nome mudado para Praça do Encanamento, em razão da instalação do 1° sistema de abastecimento de água. Em 1937 passou a ser chamada de Praça da Bandeira. Por fim passou a ser Clóvis Beviláqua, em 10 de julho de 1959, na gestão do prefeito Cordeiro Neto (1959-1963). 

fontes: Ideal Clube - história de uma sociedade
fotos do arquivo Nirez, O Povo, Marciano Lopes e Fortaleza em Fotos 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Na Força das Águas

Nascido de olhos d’água, a menos de 5 quilômetros da praia e despejando-se no mar,  o riacho Pajeú dividia a vila em dois bairros. Na sua margem direita e em direção ao nascente, elevava-se o planalto do Outeiro da Prainha, com seus sítios carregados de coqueiros, de onde se descortinava, do alto e ladeira abaixo, a orla ensolarada da vila banhada pelas águas do  Atlântico. 

 Forte Schoonenborch, construído pelos holandeses e transformado em N. s. da Assunção pelos portugueses

Do outro lado do riacho ficava a Colina da Misericórdia, onde foi levantada a fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Ao seu redor, em terras ligeiramente acidentadas e protegidas pelos bastiões do forte, crescia o comércio, o centro administrativo e o primeiro bairro residencial de Fortaleza que, a partir de 1823 adquiria foros de cidade. 
Partiam da vila em diversas direções as Estradas do Cocó e de Jacarecanga, assim como os antigos caminhos que levavam aos aldeamentos indígenas: o de Soure (Caucaia), o de Paupina (Messejana) e aquele que se voltava para os sertões dirigindo-se para o Caminho de Arronches (Parangaba).
Logradouros e casarões contam a história de Fortaleza, desvelando famílias que por ali viveram e marcaram a crônica da cidade em diferentes épocas, pelo seu destaque na vida econômica, política e social. Dirigindo-se ao caminho de Arronches, através de crônicas antigas, velhos casarões evocam um caleidoscópio de imagens de pessoas e fatos que promoveram a construção da cidade. Dominando logradouros com suas imponentes fachadas, essas antigas moradas – registro de uma época – alinharam e deram nomes ás ruas. Em seus festivos salões, iniciou-se o cultivo da sociabilidade requintada, antecedendo a formação dos grandes clubes e a história elegante de Fortaleza. 


Praça Clóvis Beviláqua - anos 20/30 

A colina da Praça de Pelotas, hoje Clóvis Beviláqua marcava o início do Benfica. As águas deste elevado desciam e, juntando-se às mais volumosas que vinham da Lagoinha, formavam na atual Praça do Coração de Jesus, a Lagoa do Garrote.
Pelas encostas do Outeiro, ocupadas depois de um grande espaço de tempo, pelo bairro da Aldeota, baixavam córregos que se juntavam ao Pajeú. Acrescido dessas águas, corria o riacho livremente, deslizando por seu vale tortuoso com seu movimento regulado pelas forças vivas das lagoas do Garrote e da Lagoinha. 



O bairro do Garrote nasceu de aterros e construções na Lagoa do Garrote. Em homenagem à abolição da escravatura, as últimas águas dessa lagoa foram represadas, criando ali o Parque da Liberdade. Construído pelo engenheiro Romualdo de Carvalho Barros e auxiliado por Isaac Correia do Amaral, o parque mudou de nome no tempo do centenário da Independência, passando a se chamar de Parque da Independência, para mais tarde ser reconhecido pelo seu primeiro nome. Popularmente, no entanto, é chamado de Cidade da Criança, desde que ali se instalou em 1937, uma escola dirigida pela professora Alba Frota. O Largo do Garrote, agora Praça dos Voluntários, comunicava-se livremente com o Parque da Liberdade até 1939, quando se formaram dois logradouros distintos, depois da construção nesta passagem, da sede própria do Clube Iracema.  

casa onde residiu Maximiano Leite Barbosa, na Rua Solom Pinheiro ao lado do Parque da Liberdade. Ali funcionou a Biblioteca Pública do Estado, hoje é a sede da Associação Beneficente Cearense de Reabilitação - ABCR
 
Maximiano Leite Barbosa, pai do fundador do ideal Clube, residiu em um palacete que ladeava o Parque da Liberdade. Herdado por sua filha Maria Luiza, o imóvel já abrigou a Biblioteca Pública do Estado, e é ocupado atualmente pela Associação Beneficente Cearense de Reabilitação.  Outros membros da família ocupavam os casarões vizinhos, e alinhado a estes, está a casa onde nasceu o ex-presidente Humberto de Alencar Castelo Branco. 
 casa na Rua Solon Pinheiro em frente ao Parque da Liberdade onde nasceu o ex-presidente Humberto de Alencar Castelo Branco

No largo do garrote, circundado por  três alinhamentos de casas sombreadas por frondosas castanholeiras e mangueiras, encontrava-se uma das principais residências dos meados do século, o palacete de Vitoriano Augusto Borges. Em 1873 esta residência foi adquirida pelo Tesouro provincial para instalação do antigo Liceu do Ceará. Um pouco mais adiante, seguindo o movimento das águas, margeando o Pajeú na esquina do Beco do Pocinho, situava-se a chácara do português Manuel Caetano de Gouveia, que exerceu enorme influência econômica e social em Fortaleza. Nesta chácara localizava-se o famoso Cajueiro do Fagundes, que em tempos coloniais serviu de ponto de venda  do açougueiro Fagundes.  O Comendador Manuel Caetano de Gouveia deu origem á família Gouveia em Fortaleza.

 Igreja da Sé 1914

Descendo o riacho Pajeú, deparava-se com a cidade velha, sua Matriz no meio da Praça do Conselho, onde hoje se encontra a  Catedral Metropolitana, e em frente dessa, o pelourinho. Por ali passava a Rua da Matriz, que se seguia com o nome de Rua dos Mercadores, concentrando o comércio. Atualmente estas duas vias são as Ruas Conde D’Eu e Sena Madureira. 

Praça da Sé, 1915

Defronte a matriz havia um alinhamento de casas, antigas moradas dos capitães-mores. Com sua demolição surgiu o Largo da Matriz, hoje Praça da Sé, onde se ergue a estátua de bronze de Dom Pedro II, inaugurada em 1913. O traje envergado pela estátua, esculpida em Paris, pelo francês Mailard, utilizou como modelo a farda de gala do Almirante Alexandrino de Alencar, figura de relevo da Marinha Nacional, sobrinho-neto de Bárbara de Alencar.
Por trás desse monumento Pedro Augusto Borges ergueu sua residência, onde posteriormente seria instalada a Pensão Bitú. Nesta pensão se hospedariam os membros da Comissão da American Carnegie Institution, que vieram ao Ceará observar, na cidade de Sobral o eclipse solar de 29 de maio de 1919, de importância para o estudo da Teoria da Relatividade de Einstein. 


extraído do livro
 Ideal Clube, História de uma Sociedade, de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos antigas do Arquivo Nirez

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Um Par de Becos e Meia Dúzia de Ruas

Segundo Mozart Soriano Aderaldo, nossa capital, a exemplo de Roma, é construída sobre colinas. As elevações repartiam os cursos d’água que iam ter com o mar, o Pajeú ou o Cocó. O riacho que partia da Praça do Ferreira em direção ao Pajeú, alcançando-o na altura do Mercado Central, era um eles. Outro curso d’água se dirigia da Praça Clóvis  Beviláqua em demanda da lagoa do Garrote, passando nas proximidades da Praça do Livramento (atual Praça do Carmo). Esses riachos serpenteavam entre os outeiros.


Lagoa do Garrote, hoje um lago canalizado dentro da Cidade da Criança (Parque da Liberdade)
  
O caminho das águas foi interrompido pelas ruas. O forte, contíguo ao quartel da Guarda Nacional, serviu de parâmetro, daí surgindo a rua do Quartel, hoje General Bezerril, e a rua de Baixo, à margem esquerda do Pajeú ou dos Mercadores, ou Rua Direita (atuais Avenida Alberto Nepomuceno, e ruas Sena Madureira e Conde D’Eu. Os bairros apareciam identificando a cidade: do Outeiro, da Prainha e do Comércio, este último representando a cidade propriamente dita.


estrada Fortaleza-Parangaba, em 1929 (foto O Povo)

Sendo Fortaleza meia dúzia de ruas, duas praças e um par de becos (o Beco das Almas, que cresceu Rua São José e o Beco da Apertada Hora, renomeado Rua Governador Sampaio). Distantes as estradas de Messejana, Parangaba e Jacarecanga. Até a metade do século XIX, a cidade se via nas ruas: era a Rua da Amélia, Praça do Ferreira, Praça Carolina, Rua das Flores (Castro e Silva), pelo rastro dos mortos. Travessa da Municipalidade (Rua Guilherme Rocha), por ladear o prédio da Intendência Municipal; da Misericórdia (Dr. João Moreira), por conta da Santa Casa; São Bernardo (Pedro Pereira), devido a Igreja de São Bernardo; Rua do Cajueiro (Pedro Borges). As travessas da Assembleia (São Paulo) do Gasômetro (Senador Jaguaribe) e do Chafariz (José Avelino) são autoexplicativas.


Ladeira do Gasômetro, sentido praia/sertão com o prédio da Santa Casa no alto 

Em 1817 os vereadores determinaram o uso de placas com o nome dos logradouros. Mas o povo continuava a se orientar pelos nomes conhecidos e pelo cotidiano de flores, almas, trincheiras e chafarizes. O costume era tão arraigado entre a população que até os responsáveis pelas procissões davam ciência dos itinerários através de publicações na imprensa, comunicando que a procissão passaria em frente à casa de pessoas conhecidas da população.


Igreja de São José, a antiga Catedral de Fortaleza

Um exemplo desse hábito corrente na Capital é o anúncio publicado no jornal “A Constituição” pelo vigário interino da catedral sobre o percurso da procissão de encerramento do mês mariano de 1864:
Hoje às 4h da tarde sairá em procissão a imagem da Santíssima Virgem conduzida pelos fiéis, cuja direção será a seguinte:
Sairá da Catedral pela Rua de Baixo, entrará na Rua do Garrote pela travessa que existe diante da casa do Sr Cônsul Gouveia, e daí prosseguirá em direção à Praça da Municipalidade, passará na frente da casa do Sr. Feijó, em cuja travessa entrará em direção ao Palácio Episcopal, prolongando-se pela rua abaixo, voltará na quina do Senhor Cônsul Rocha Júnior, em procura da frente do Senhor Barbosa, e daí entrará na travessa mais próxima, que é a do Senhor Santos, encaminhando-se à casa da Carolina, passará na frente do Senhor Paes Pinto, onde voltará para a Catedral da Sé.
Assinado: João Leite de Oliveira – vigário interino.     

fontes:
Revista Fortaleza, fascículo 9
Fortaleza Velha, de João Nogueira
fotos do Arquivo Nirez

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A Igreja dos Albanos (Igreja do Coração de Jesus)


foto mais antiga da Igreja e do Parque, com a lagoa do Garrote e a caixa d'água em primeiro plano. Ano de 1892.  

A Igreja do Coração de Jesus foi inaugurada em 1886, em virtude de uma promessa do nosso primeiro bispo Dom Luís Antônio dos Santos, diante do quadro doloroso que se assistia em Fortaleza, quando num só dia morreram em Fortaleza 1004 pessoas, vítimas de uma epidemia de varíola.

O padre Xisto Albano, mais tarde sagrado bispo, foi o primeiro encarregado da Igreja. O seu pai o barão de Aratanha, muito ajudou na construção do templo, daí a denominação de Igreja dos Albanos. Hoje pouco conhecida como tal.

Foi portanto, para aliviar a pesada carga de sofrimento de milhares de retirantes famintos, que se deu inicio, em 25 de setembro de 1878, à construção do novo templo.  O ato de sagração correu na duna que existia defronte à Lagoa do Garrote, no trecho onde se construiu mais tarde, em 1890, a Cidade da Criança. Era conhecido como Morro do Pecado. Quanto a paisagem em torno, por aquele tempo, era deserto e cheio de mato. Abatia-se o gado debaixo das árvores e vendia-se a carne à sombra dos cajueiros.

Foto do início do século XX

Bezerra de Menezes oferece alguns dados sobre a Igreja recém-inaugurada:
Sentada sobre uma plataforma de dois metros de altura, domina pela sua composição grandiosa e singela. Seu campanário eleva-se fantasticamente, flechando os ares, e a  sua larga fachada, o respeito dos grandes templos católicos... Mede duzentos palmos de comprimento sobre cem de largura; o adro é cercado de uma grade de ferro, presa a colunas de alvenaria, onde se elevam as estátuas dos doze apóstolos, feitas de bronze, em tamanho natural. É também de bronze e mede  três metros de altura, a estátua de Jesus, que se acha colocada na fachada sobre o pórtico, que é de granito. Interiormente é o templo de três naves divididas por arcos sobre colunas dóricas.  Essa era a Igreja dos Albanos – a primeira, antes da reforma porque passou, depois que perdeu a aguda flecha da torre. 

A aparência da igreja depois da reforma. Lembrando que essa entrada principal era de frente para o Parque da liberdade, atual Cidade da Criança. foto da década de 1950.

Em 1952 ganhou mais um andar com enorme relógio, encimada por um terraço em balaustrada, na qual se colocou a pesada imagem do Sagrado Coração, que antes figurava no grande nicho frontal, além de outras transformações que acabaram por fazer ruir o antigo e venerado templo.

...e o triste cenário (1957)

Cinco anos depois, em 1957, a torre cedeu e soterrou a entrada da igreja. Não houve vítimas.

Ao invés de reconstruírem a igreja, pois apenas a torre fora afetada, os capuchinhos optaram por derrubar toda a igreja para construírem uma bem maior, com rampas para subida dos carros, uma torre vazada e uma grande cúpula sobre a nave principal.

fotos do Arquivo Nirez 
fontes:
Nirez

sábado, 29 de outubro de 2011

A Cacimba da Praça do Ferreira



Até meados do século XIX, a Praça do Ferreira, que já foi Rua do Cotovelo, Feira Nova, Largo das Trincheiras, Praça Pedro II, Praça Municipal até ganhar o nome atual,  era só um areal,  com um cacimbão no centro, rodeado de mangueiras, oitizeiros, algumas mongubeiras, pés de castanhola. Nos cantos do terreno, marcos de pedra para amarrar jumentos dos cargueiros ambulantes que vinham do interior.

Jardim 7 de Setembro na Praça do Ferreira. (acervo Marciano Lopes)

Quando ainda não havia iluminação de lampiões, quando não havia lua e a escuridão era total, os componentes do  Grupo Taliense de Teatro Amador, e outros rapazes que moravam nos arredores, saíam em grupo, para tomar banho nus no cacimbão da praça.

Em 1902, com a reforma promovida pelo Intendente Guilherme Rocha, a cacimba foi gradeada e colocado um catavento e uma grande caixa d’água pintada de roxo.

A Praça do Ferreira no início do século XX, com os frades de pedra e a caixa d'água (acervo Marciano Lopes)

A caixa d'água da Praça do Ferreira - construída pela empresa Hopkins, Causer & Hopkins - encontra-se atualmente na Cidade da Criança.

Durante a reforma de 1920, na gestão do prefeito Godofredo Maciel, que modificou quase todo o logradouro com a retirada dos quiosques dos cafés (Java, do Comércio, Iracema e Elegante) e a instalação do coreto, a caixa d’água foi retirada e a cacimba acabou soterrada.  

Por ocasião da última reforma, em 1991, quando era demolida a galeria de arte subterrânea foram encontradas as antigas fundações da primeira coluna da hora e o esquecido cacimbão do século XIX.



A descoberta influenciou numa adaptação ao desenho da reforma e a base da coluna que seria circundada pela fonte sofreu um corte onde hoje podem ver-se as grandes pedras que formam o corpo daquele poço antigo. 


Ao lado da velha cacimba, a cidade moderna prestou homenagem ao boticário Ferreira colocando ali uma placa com a efígie do político e uma frase de agradecimento ao idealizador da praça.