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segunda-feira, 28 de julho de 2025

O Jardim Zoológico da Cidade da Criança

 


Em 1946 Onélio Porto mantinha um terreno particular, cedido pelo Colégio Cearense da Ordem dos Irmãos Maristas. Nesse local Onélio criava pássaros e outros animais. Em 1951, o vereador Lúcio Magalhães propôs a criação de um jardim zoológico, na área do Parque da Liberdade, para onde seriam transferidos os animais de Onélio Porto, juntamente com outros criados pelo sargento do Exército, conhecido por Prata.

Eram ao todo 565 animais, de diversas espécies, que ficariam sob a responsabilidade da Secretaria de Educação e Cultura do Município, e aos cuidados de Onélio Porto. O mini zoológico permaneceu por quase duas décadas na Cidade da Criança sempre com muitas dificuldades, com instalações inadequadas à maioria dos bichos e água sem tratamento e alimentação escassa. Também tiveram alguns problemas devido a interação entre animais e crianças do Jardim de Infância. Então Onélio Porto retirou seus animais como forma de protesto. A partir de 1979 o zoológico foi transferido para o Horto Florestal numa área do Parque Ecológico do Passaré.




Uma crônica de Blanchard Girão relata um incidente havido com um amigo quando o zoológico ainda estava no Parque da Liberdade.

O amigo ficou até altas horas bebericando com outros notívagos contumazes no bar localizado no Passeio Público, na Avenida Caio Prado. Encerrada a noitada etílica, os antigos companheiros de bancos da faculdade, tomaram cada qual o seu rumo. O amigo do cronista dirigiu-se à Praça do Ferreira, ponto habitual do local de encerramento das noitadas do bloco dos que ficavam na praça até muito depois da meia-noite e ponto de partida para os cabarés que funcionavam nas redondezas.

Tomou o rumo da praça, quando à altura da Rua Senador Alencar proximidades da Rua Major Facundo, avistou algo estranho, a poucos metros. Mas estranho ainda, porque na sua visão aquilo era uma onça... e vinha em sua direção. Uma onça em pleno centro da cidade! raciocinou que realmente devia estar muito bêbado, e o bicho vindo em sua direção! Aquilo era grande demais para ser confundido com um cachorro!  

Os efeitos do álcool não tinham lhe tirado todos os sentidos, especialmente o instinto de preservação. Com medo, recostou-se à parede, como a procurar um abrigo salvador. E a onça como se estivesse em seu ambiente, caminhava sem pressa, investigando. De repente, pelo olfato interessou-se por uma grande lata de lixo entreaberta na calçada. Para lá se dirigiu, faminta, à procura de algo que lhe aplacasse a fome.



Foi o chamado instante decisivo. Arrancando as últimas forças das pernas, o amigo fugiu em desabalada carreira em direção à praça. Lá encontrou alguns companheiros de boemia, a quem relatou a sua incrível visão: ninguém o levou a sério. Desacreditado, tonto pela cerveja consumida no bar do Passeio Público, resolveu ir embora, em direção a sua casa na Floriano Peixoto. De longe, ainda ouvia os gritos de gozação dos amigos: “olha a onça, nego véi” “cuidado com a onça”,” eta cachaça da peste, dá até pra ver onça na Praça do Ferreira”

O susto ainda estampado no rosto, o rapaz se depara ao entrar em casa, com a avó, a quem transmite sua fantástica história. E a avó carinhosa foi preparar um café forte e amargo, servido junto com a reprimenda “você andou bebendo de novo, menino! deixe disso!”.  

Assim, desacreditado por todos o nosso boêmio notívago foi dormir; manhã cedo, ainda de ressaca, não tardou em ler nas bancas, as manchetes dos jornais em letras grandes: “Onça foge do Parque e é morta a tiros pelos bombeiros”.  Era a confirmação do episódio para desmoralizar a todos os incrédulos, se um dos seus companheiros que estivera na Praça do Ferreira na noite anterior, não tivesse espalhado um boato pela cidade: a de que o rapaz fora ao Parque da Liberdade, onde ficava o mini zoológico de Onélio Porto, soltar a onça para provar sua história”.

Na verdade, a onça escapara de sua jaula, perambulava pelas ruas centrais, quando esteve a poucos passos de nosso personagem. Horas depois, pôs em polvorosa os moradores do Pirambu, quando acabou abatida a tiros de fuzil pelos soldados do Corpo de Bombeiros.

    

Fontes: 

Caminhando por Fortaleza, Francisco Benedito. 1999

Sessão das Quatro, cenas e atores de um tempo mais feliz, de Blanchard Girão, 1998.

fotos do Parque da Liberdade: IBGE e postais antigos


 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

As Igrejas mais Antigas de Fortaleza

O catolicismo tem sido a principal religião do Brasil desde o descobrimento. Foi introduzido por missionários que acompanharam os exploradores e colonizadores portugueses desde os primórdios. Muitas cidades do interior surgiram a partir de aglomerados que cresceram em torno de uma capela.

A Igreja católica fez-se presente no Ceará desde as primeiras tentativas de conquistas da terra. A colonização portuguesa era legitimada pelo Papa e estava ligada a necessidade de expansão da fé católica. É sintomático que uma das tentativas de conquista do território cearense tenha sido encabeçada por dois jesuítas, Francisco Pinto e Luís Figueira, em 1607.

Em 1611, outro colonizador – Martim Soares Moreno – trouxe consigo o padre Baltasar João Correia, erguendo ao lado do forte de São Sebastião, na atual Barra do Ceará, uma pequena ermida de taipa, dedicada a Nossa Senhora do Amparo. Sem muito êxito na sua missão, o religioso retirou-se por volta de 1615.


Franciscanos e Jesuítas sempre marcaram presença em terras cearenses, catequizando índios e mantendo estreita convivência com fazendeiros e pessoas simples do campo. Não por coincidência, os templos mais antigos de Fortaleza são todos de fé cristã. Alguns desses templos foram construídos por irmandades.  No período colonial, as irmandades religiosas tinham uma grande influência na vida da população. Tendo origem nas confrarias da Europa medieval, consistiam em associações religiosas de leigos, cujo propósito era cultuar um santo através de procissões, festas, construção de templos, prática de caridade.

Estas são primeiras igreja de Fortaleza, que já foram fundadas nos mesmos locais onde se encontram até os dias atuais. Algumas foram reconstruídas com características totalmente diferentes dos modelos originais, como as Igrejas do Coração de Jesus e a de São José (Catedral Metropolitana); a maioria, no entanto, sofreram poucas modificações em relação a construção original. 

Igreja do Rosário –  1730 


A Igreja do Rosário foi construída pelos negros da Irmandade de Nossa Senhora dos Pretos, em uma época em que havia separação de raças e classes sociais em templos religiosos. Era uma pequena capela de taipa e palha, erguida com donativos ofertados pelos fiéis, num arrabalde da vila, que muitos anos mais tarde se tornaria a atual Praça General Tibúrcio.

Em 1753, a capela foi reconstruída com pedra e cal, porque ameaçava desabar. A capela mor ficou pronta em 1755. No período de 1821 a 1854, Igreja do Rosário serviu de matriz enquanto a Catedral Metropolitana passava por reformas. Construído em estilo barroco, é o mais antigo templo de Fortaleza, tombada pelo Estado em 1983. Fica na Rua do Rosário, s/n, Praça General Tibúrcio, Centro. 

Igreja de São José (Catedral Metropolitana) - 1795 


A construção da primeira capela mor de Fortaleza foi decidida em fevereiro de 1699, mas a autorização só ocorreu por Ordem Régia de 12 de fevereiro de 1746. Concluída em 1795, a igreja foi demolida em 1820, quando foi vistoriada e encontradas diversas rachaduras no arco, ficando resolvida sua demolição para a construção de um novo templo.

As peças sacras foram transferidas para a Igreja do Rosário, e só retornariam no dia da bênção da nova matriz, no dia 2 de abril de 1854, que recebeu o nome de Igreja de São José. A Igreja foi elevada à Catedral quando houve o desmembramento da Diocese de Pernambuco e foi criada a do Ceará.

Em 1938 novamente sob a alegação de que estava prestes a ruir, esta também foi demolida e a pedra fundamental da atual catedral foi lançada em 15 de agosto de 1939, à época do arcebispado de Dom Manuel da Silva Gomes. 

A construção da nova catedral demorou mais do que o esperado, em razão do início da Segunda Guerra, e da ocorrência das grandes secas, cujo socorro aos flagelados era sempre prioridade e demandava grande volume de recursos. Finalmente foi inaugurada no dia 22 de dezembro de 1978, tendo o padre Tito Guedes à frente de suas obras e como Arcebispo Metropolitano, Dom Aloísio Lorscheider. Localizada na Praça da Sé, s/n. 



Consta que em 26 de outubro de 1839, Antônio Joaquim Batista de Castro, morador no Outeiro da Prainha, requereu uma licença à Câmara Municipal, para que ele e outras pessoas pudessem construir uma capela de invocação a Nossa senhora da Conceição.  A licença foi concedida no dia 30 do mesmo mês.

Os fiéis resolveram então, organizar uma irmandade e escolher o lugar onde seria edificado o templo. Concordaram que o local seria sobre a colina fronteira à praia, ficando a capela de frente para o oriente. A planta do novo templo foi de autoria do arquiteto José Antônio Seifert.

A primeira missa foi celebrada no dia 8 de dezembro de 1841. Atrás da igreja havia o Cemitério da Prainha, que funcionou entre 1811 e 1847. A igreja foi utilizada pelo seminário durante o tempo em que funcionou no local, passou por ampliação e serviu aos ofícios realizados pelos padres e seminaristas.

A igreja da Prainha fica na confluência das avenidas D. Manuel e Monsenhor Tabosa, junto à Praça do Cristo Redentor, no antigo bairro Outeiro da Prainha. O prédio é contíguo ao Seminário da Prainha e os dois edifícios compõem um conjunto arquitetônico de interesse histórico e artístico na cidade. Tombamento Estadual de 2006. 



A pedra fundamental da Igreja do Patrocínio foi lançada em 02 de fevereiro de 1850, que ficaria pronta dois anos mais tarde. Em 1849 o cabo da esquadra Fortunato José da Rocha disparou um tiro contra o Capitão Jacarandá, mas acertou o joelho do Alferes Luís de França Carvalho, que estava ao lado do capitão. Vendo-se em risco de perder a vida, Luís de França fez voto a Nossa Senhora do Patrocínio, que se escapasse, faria uma igreja em sua devoção.

No ano seguinte, curado do ferimento, lançou a pedra fundamental da igreja, ao norte da atual Praça José de Alencar). O oficial teve que deixar Fortaleza e os trabalhos de construção passaram a ser muito lentos, apesar da ajuda de muitos fiéis que apoiaram a ideia do militar. A planta do templo foi feita pelo mestre Antônio de Rosa e Oliveira.

As obras iniciadas por França só foram concluídas devido aos esforços do cônego João Paulo Barbosa, que contou com o auxílio de particulares, das Assembleias Provinciais, da Sociedade Auxiliadora dos Templos, e dos materiais que de ordem do governo lhe foram doados no período da seca. Situada na Rua Guilherme Rocha, 536, Praça José de Alencar, Centro. 




Em 1854 o Tenente Bernardo José de Melo construiu uma pequena igreja de taipa em honra de Nossa Senhora do Bom Parto. No primeiro inverno, com a força das chuvas que caíram, a capela foi ao chão. Graças ao seu prestígio, o tenente Bernardo conseguiu um empréstimo do governo no valor de Oitocentos Mil Réis, para ser pago em parcelas de cinquenta mil Réis por ano. Com esse dinheiro construiu a atual Igreja de São Bernardo, a qual sofreu um único acréscimo em relação a construção original: a sacristia, feita por Monsenhor Quinderé, durante os 40 anos como Reitor da igreja.

Inicialmente o povo chamava a Igreja do Seu Bernardo, que com o tempo mudou de Seu para São. Ficou sendo a Igreja de São Bernardo, embora a devoção maior fosse em louvor a Nossa Senhora do Bom Parto. Para justificar o batismo da igreja o Tenente Bernardo mandou vir da Espanha uma bela imagem de São Bernardo, que passou a ser o titular da igreja.

A Igreja de São Bernardo conta com dois altares herdados da antiga Igreja da Sé, demolida em 1938: o Altar de São José e o de N. S. do Bom Parto.  Fica na esquina das ruas Senador Pompeu e Pedro Pereira, no centro. 

foto Panorâmio

A Igreja de N. S. da Conceição, fundada em 1871, instituída canonicamente em 1873, conforme provisão episcopal de D. Luís Antônio dos Santos, primeiro bispo do Ceará. A igreja foi construída inicialmente pelos jesuítas, que nesse mesmo local ergueram uma capela, em cuja base foi erigida a igreja atual. Localizada na Rua Joaquim Bezerra, em Messejana. 

Igreja de São Benedito – 1885 

 foto de Muhammad Said

A inauguração da Igreja de São Benedito ocorreu na manhã do dia 8 de abril de 1885.  Na tarde do mesmo dia acontece a transladação das imagens de São Benedito, Santa Tereza de Jesus, São Roque e São Caetano, da Igreja do Patrocínio para o novo templo. Era uma igrejinha pequena, original, com quatro frentes para os quatro pontos cardeais, com torre de madeira envidraçada, situada ao lado oriental do Boulevard  do Imperador.

No dia 27 de julho de 1938 foi instalado o Santuário da Adoração Perpétua, na Igreja de São Benedito. Depois foi construída uma nova igreja na Rua Clarindo de Queirós, que fica ao lado, e o antigo templo foi transformado em uma livraria, e mais tarde, demolido. 



Inaugurada em 25 de março de 1886, a construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus foi uma iniciativa do casal José Francisco da Silva Albano e Liberalina Angélica da Silva Albano (Barão e Baronesa de Aratanha), com o apoio do bispo Dom Luís Antônio dos Santos. Ficou conhecida como Igreja dos Albanos.

A grande seca de 1877-1879 deixou um grande número de flagelados em Fortaleza, para aproveitar essa mão-de-obra e dar emprego a essa gente é que foi construída a igreja, em frente a Lagoa do Garrote, no Parque da liberdade (atual Cidade da Criança), no Morro do Pecado, onde já existia uma capela em louvor a Nossa Senhora das Dores. O templo era simples, em linhas neoclássicas e neogóticas, se assemelhava à Igreja do Carmo.

Em 1952, os engenheiros Luciano Pamplona e Valdir Diogo aumentaram a altura da torre e colocaram um imenso relógio trazido de Roma na fachada. Cinco anos depois, em 1957, a torre cedeu e soterrou a entrada da igreja. Não houve vítimas. Ao invés de reconstruirem a igreja, pois apenas a torre fora afetada, os capuchinhos optaram por derrubar toda a igreja para construírem um templo maior, com rampas para subida dos carros, uma torre vazada e uma grande cúpula sobre a nave principal.  A nova igreja foi inaugurada em 1961. Localizada na Avenida Duque de Caxias,135, Centro. 



A história da Igreja do Pequeno Grande está intimamente ligada à história do Colégio da Imaculada Conceição.  A pedra fundamental foi lançada em 1898, pelo padre Chevalier, reitor do Seminário e capelão do Colégio da Imaculada.  As obras, mal iniciadas, sofreram paralisação no ano seguinte, sendo retomadas em 1898 até a sua conclusão em 1903, quando se verificou a benção do templo.

Para que o templo ficasse concluído, a Irmã Chambeaudrie doou à igreja uma herança de família. Por sua vez, os membros de diversas associações – Filhas de Maria, Senhoras de Caridade e as próprias freiras se dedicaram a missão de angariar recursos para a obra. Situada na Avenida Santos Dumont, 55, Centro. 

Igreja do Carmo – 1906 


A paróquia de Nossa Senhora do Carmo que domina a praça, foi a quarta paróquia a ser criada em Fortaleza. Originalmente ali era a capela de Nossa Senhora do Livramento, um pequeno templo erigido pela Irmandade dos Pardos, administrada pela Paróquia do Patrocínio.

A capela se erguia em área distante do centro, cercada de árvores, com uma lagoa nas proximidades. No início do século XX, foi decidida a construção de uma igreja em substituição à capela, que se encontrava em péssimas condições. Ainda na construção, a autoridade diocesana permitiu que fosse mudada a invocação para Nossa Senhora do Carmo.

O templo foi inaugurado em 25 de março de 1906, com muita solenidade, sendo o primeiro capelão monsenhor José Gurgel do Amaral. A imagem que ocupa o centro do altar-mor tem uma história de desencontro: o Padre Dantas tinha encomendado a imagem de Nossa Senhora do Carmo em Portugal. Quando a efígie da santa chegou a Fortaleza, ele foi avisado de que deveria pagar os direitos alfandegários para que pudesse recebê-la, o que ele não fez por esquecimento.

Então a imagem foi a leilão, tendo sido arrematada pelo Sr. José Rossas, que procurado pelo padre negou-se a cedê-la por qualquer preço. Dias depois José adoeceu gravemente, de paratifo, e fez uma promessa de entregar a imagem à Igreja caso ficasse curado. Alguns dias depois, mandou que sua esposa procurasse o Pe. Dantas para entregar-lhe a imagem da Virgem Maria, sem qualquer compensação.  A Igreja do Carmo fica na Avenida Duque de Caxias, s/n, Centro. 

obras consultadas:
FONTES, Eduardo. As Pouco Lembradas Igrejas Fortaleza: subsídio à história dos templos católicos de Fortaleza. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1983.
BEZERRA DE MENEZES, Antonio. Descrição da Cidade de Fortaleza. Introdução e notas de Raimundo Girão. Fortaleza: Edições UFC/Prefeitura Municipal de fortaleza, 1992 
AZEVEDO, Miguel Ângelo (NIREZ). Cronologia Ilustrada de Fortaleza. Roteiro para um turismo histórico e cultural. Fortaleza: banco do Nordeste, 2001.
Catedral Metropolitana de Fortaleza – Oficina de projetos S/S Disponível em
http://www.ofipro.com.br/preservando/catedral.htm
fotos do Arquivo Nirez e Fortaleza em Fotos





quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A Febre das Novidades

Casa Boris de Boris Frères e Cia. responsável pela publicação do Álbum de Vistas do Ceará-1908

Em 1908 um álbum com fotos de Fortaleza circulava pela Cidade. Para gáudio dos agentes locais da modernização urbana, o livro confeccionado em papel de luxo, trazia 160 estampas de tudo o que representava o aformoseamento e o progresso da capital no começo do século XX: praças recém-remodeladas, jardins públicos, ruas alinhadas com bondes, transeuntes, sobrados e estabelecimentos comerciais; Passeio Público e Parque da Liberdade e seus elegantes frequentadores; Estação Central Ferroviária, mansões e fachadas art-nouveau, cafés, templos, escolas, porto, praias e lagos.

Escritório da Estrada de Ferro Baturité

O Álbum de Vistas do Ceará, de 1908, editado pela Casa Boris Frères e Cia, a mais poderosa das firmas estrangeiras no Ceará, e impresso na França, significava formalmente uma homenagem à capital, um reconhecimento à sua beleza e ao seu desenvolvimento. Confeccionado na Europa por uma consagrada companhia francesa e distribuído em vários lugares, o Álbum não deixava de ter um desejo de divulgação de uma cidade que era, na leitura capitalista, um próspero mercado urbano. Considerando que a fotografia – devido a sua extraordinária capacidade de informação, vale por mil palavras – nada como divulgar Fortaleza através do elogio das imagens fotográficas. A ideia foi ainda mais feliz porque veio à luz no momento em que a fotografia configurava-se como uma verdadeira coqueluche na região, assim como no resto do Brasil.

Rua Major Facundo 


Paço Municipal

Desde o final do século XIX a Capital contava com alguns estúdios fotográficos – Lopes Brandão e Reckly em 1872, o dinamarquês Niels Olsen, a partir de 1895, Moura Quineau e M. Mello, de 1899 em diante.
 
O Álbum sobre Fortaleza-1908, nesta linha, combinava duas formas de sedução:  cidade, no auge de sua formosura, e a fotografia, um dos mais fascinantes produto da era moderna. Para uma sociedade urbana que então disseminava e incorporava valores como beleza, conforto, trabalho e saúde, a fotografia caiu como uma luva para consagrar em imagens duradouras, os melhores momentos da instauração de uma racionalidade urbana assentada no culto do belo, forte e saudável.

Na virada do século XX, a partir de 1902 teve início a remodelação das praças mais centrais, e em 1930, Fortaleza conheceu sua fase de maior esplendor em termos de uniformidade urbana. Depois dos anos 30, a  Capital passou a crescer desordenadamente, sem planos urbanísticos capazes de fornecer soluções racionais, mas com uma voraz especulação imobiliária que lhe foi destruindo o harmonioso perfil arquitetônico que ostentava anteriormente.

prédio do Liceu na Praça dos Voluntários


Café Java, na Praça do Ferreira

A cidade hoje se encontra inchada, com a maioria do seu patrimônio histórico destruído ou em estado de abandono, centenas de favelas e conjuntos habitacionais, além de arranha-céus, fachadas e monumentos urbanos de gosto duvidoso. No começo deste século, ao contrário, ela apresentava uma feição arquitetônica urbanística que se equilibrava bem entre singela arquitetura geral e deslumbrantes fachadas em algumas construções. 

As fotografias da época e o próprio álbum fotográfico de 1908 reforçam essa constatação, revelando um conjunto harmonioso em linhas e formas. As imagens insinuam que a Capital do Ceará tinha um estilo inteiramente agradável à visão, composição estética esta complementada pela predominância do uso de paletós, chapéus, vestidos longos e sombrinhas, neles prevalecendo os tons claros compatíveis com a intensa luminosidade solar, que banha a cidade o ano inteiro.


Passeio Público

A conformação estética que marcou a aparência de Fortaleza foi sendo construída aos poucos, tornando-se mais visível na segunda metade do século XIX, a partir do “boom” da exportação algodoeira em 1860. A partir dali, a cidade conheceu um inédito crescimento econômico e social. A concentração e acumulação de capitais em Fortaleza,  reforçou a constituição de grupos e estrangeiros ligados aos negócios de exportação-importação, conferindo-lhe grande poderio material e considerável prestígio político.

fotos do Álbum de Vistas do Ceará-1908
Arquivo Nirez
Extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque – reformas urbanas e controle social – 1860-1930

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A Igreja dos Albanos (Igreja do Coração de Jesus)


foto mais antiga da Igreja e do Parque, com a lagoa do Garrote e a caixa d'água em primeiro plano. Ano de 1892.  

A Igreja do Coração de Jesus foi inaugurada em 1886, em virtude de uma promessa do nosso primeiro bispo Dom Luís Antônio dos Santos, diante do quadro doloroso que se assistia em Fortaleza, quando num só dia morreram em Fortaleza 1004 pessoas, vítimas de uma epidemia de varíola.

O padre Xisto Albano, mais tarde sagrado bispo, foi o primeiro encarregado da Igreja. O seu pai o barão de Aratanha, muito ajudou na construção do templo, daí a denominação de Igreja dos Albanos. Hoje pouco conhecida como tal.

Foi portanto, para aliviar a pesada carga de sofrimento de milhares de retirantes famintos, que se deu inicio, em 25 de setembro de 1878, à construção do novo templo.  O ato de sagração correu na duna que existia defronte à Lagoa do Garrote, no trecho onde se construiu mais tarde, em 1890, a Cidade da Criança. Era conhecido como Morro do Pecado. Quanto a paisagem em torno, por aquele tempo, era deserto e cheio de mato. Abatia-se o gado debaixo das árvores e vendia-se a carne à sombra dos cajueiros.

Foto do início do século XX

Bezerra de Menezes oferece alguns dados sobre a Igreja recém-inaugurada:
Sentada sobre uma plataforma de dois metros de altura, domina pela sua composição grandiosa e singela. Seu campanário eleva-se fantasticamente, flechando os ares, e a  sua larga fachada, o respeito dos grandes templos católicos... Mede duzentos palmos de comprimento sobre cem de largura; o adro é cercado de uma grade de ferro, presa a colunas de alvenaria, onde se elevam as estátuas dos doze apóstolos, feitas de bronze, em tamanho natural. É também de bronze e mede  três metros de altura, a estátua de Jesus, que se acha colocada na fachada sobre o pórtico, que é de granito. Interiormente é o templo de três naves divididas por arcos sobre colunas dóricas.  Essa era a Igreja dos Albanos – a primeira, antes da reforma porque passou, depois que perdeu a aguda flecha da torre. 

A aparência da igreja depois da reforma. Lembrando que essa entrada principal era de frente para o Parque da liberdade, atual Cidade da Criança. foto da década de 1950.

Em 1952 ganhou mais um andar com enorme relógio, encimada por um terraço em balaustrada, na qual se colocou a pesada imagem do Sagrado Coração, que antes figurava no grande nicho frontal, além de outras transformações que acabaram por fazer ruir o antigo e venerado templo.

...e o triste cenário (1957)

Cinco anos depois, em 1957, a torre cedeu e soterrou a entrada da igreja. Não houve vítimas.

Ao invés de reconstruírem a igreja, pois apenas a torre fora afetada, os capuchinhos optaram por derrubar toda a igreja para construírem uma bem maior, com rampas para subida dos carros, uma torre vazada e uma grande cúpula sobre a nave principal.

fotos do Arquivo Nirez 
fontes:
Nirez

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Fortaleza e o Estado Novo (1937-1945)

Visita do presidente Getúlio Vargas à estação de psicultura do DNOCS, em 1940, local onde hoje funciona a Residência Universitária.  (arquivo Nirez)

Com a implantação do Estado Novo (1937-45) e a consolidação do modelo administrativo centralizador implantado pelo governo Vargas desde a Revolução de 30, Fortaleza continuou sofrendo mudanças pelos quais se percebia os ideais de ordem e progresso, defendidos nacionalmente pela ditadura getulista. 

As intervenções urbanas objetivavam a modernidade e a civilidade, e buscavam, a todo custo, ocultar as contradições sociais que se evidenciavam no próprio espaço urbano e na atuação dos governantes: áreas nobres priorizadas e áreas pobres esquecidas e controladas. 

Mascaravam-se as desigualdades sociais e atribuíam-se os problemas urbanos aos vícios e a preguiça dos pobres e ao constante êxodo rural, sobretudo nos períodos de seca. Cada vez mais se exaltava a racionalidade técnica, mas numa perspectiva autoritária, sem levar em conta as necessidades da população mais pobre. 

Os discursos sobre a cidade enfatizam a necessidade de um planejamento eficiente e de uma organização social em que todos colaborassem na solução das carências de moradia, saúde, educação, água, luz, saneamento e no disciplinamento da massa de ignorantes.

À época a prefeitura municipal não tinha diretrizes para elaboração de políticas públicas para as áreas sociais. A busca de solução para os problemas ficava a cargo de entidades beneficentes que, com subvenções do governo ou doação de particulares, tentavam resolver a questão da pobreza de forma assistencialista e caritativa.


Prédio da Sociedade de São Vicente de Paulo, na Rua Jaime Benévolo, na Praça do Coração de Jesus, em 1912 (arquivo Nirez)

Assim surgiram o Dispensário dos Pobres, Associação das Senhoras de Caridade, Asilo de Mendicidade, e alguns que já existiam como a Sociedade São Vicente de Paula, dentre outros.   Além do aspecto assistencialista, havia a intenção de tentar controlar aquele exército de mendigos, crianças abandonadas e  loucos, era necessário retirá-los das ruas, para que não travassem o progresso, nem manchasse a imagem de modernidade que as autoridades buscavam difundir. 


foto: http://www.pm.ce.gov.br

Dentre os problemas mais urgentes estavam o combate às doenças e a falta de hospitais – o prédio da chamada Assistência Municipal seria inaugurado em 1940, visando o atendimento médico popular de emergências – antes havia o Serviço de Pronto Socorro, inaugurado em 1932 na Santa Casa de Misericórdia e transferido em 1936, para o Hospital da Polícia Militar. A deficiência na educação era notória. 

Prédio do Assistência Municipal no dia da sua inauguração em 26 de maio de 1940, na esquina das Ruas Senador Pompeu com Antonio Pompeu, na antiga Praça de Pelotas.  (arquivo Nirez)

Em 1943 Fortaleza contava com apenas 43 escolas subvencionadas pela prefeitura e distribuídas pelos bairros pobres. A propaganda oficial, no entanto, dava grande destaque à Cidade da Criança, localizada no Parque da Liberdade e voltada para a educação infantil, com a mais moderna orientação pedagógica e avançados equipamentos em sala de aula e recreação. O público contemplado, porém, era ínfimo. 


Estádio Presidente Vargas em 1940 
foto http://www.skyscrapercity.com

No ano de 1941 foi inaugurado o Estádio Presidente Vargas. 
A ditadura getulista valorizava o esporte, especialmente o futebol, não só como uma maneira de aprimorar o físico, mas como ideário cívico e congraçamento de classes. Getúlio viu no futebol uma estratégia para se aproximar das massas, ofertando distrações e lazer à crescente população urbana, aliviando as tensões sociais e buscando legitimar-se no poder, afinal chegara ao governo através de um golpe de estado. 

O Estádio que ganhou o nome do presidente contava com instalações ultramodernas para a época. Era murado, tinha arquibancadas de madeira, iluminação para jogos noturnos, uma cerca de madeira separando o campo das torcidas, e a grande maravilha – um gramado! 
O PV era também um espaço para os desfiles comemorativos das festas cívicas da cidade. 

Em 1945, após a queda de Getúlio Vargas passou a ser chamado de Estádio Municipal e novamente PV com o retorno do pai dos pobres ao poder já nos anos 1950.
O trânsito continuava a ser um problema, pela limitada malha viária da cidade, pela precária pavimentação das ruas, pela desorganização do fluxo e pelos acidentes que se tornaram corriqueiros. 
 
Se no ano de 1929 Fortaleza contava com pouco mais de seiscentos veículos, entre automóveis, ônibus, motos, caminhões, e bondes, em 1944 o número saltara para 1287 veículos,  que representava um aumento substancial, levando-se em conta que durante a 2ª. Guerra mundial (1939-1945), a entrada de automóveis no Brasil sofreu uma redução, devido, principalmente, ao racionamento de combustíveis. 


Fonte: 
Fortaleza, uma breve história. Artur Bruno e Airton de Farias. Fortaleza. INESP, 2011