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segunda-feira, 2 de setembro de 2024

A Praça do Ferreira no Tempo do Café Java

 

Praça do Ferreira atual

Os cafés eram uma tradição do centro da cidade: ponto de encontro de intelectuais, poetas, seresteiros e da população masculina em geral. Não era um espaço destinado às mulheres. Nos cafés se debatiam os assuntos que impactavam a cidade, os acontecimentos políticos e sociais, os últimos lançamentos literários, e até assuntos menos nobres, como a vida alheia. As vezes se acertavam diferenças e se confrontava as divergências. Servia-se café, aluá, licor, cachaça, vinho, refresco, caldo de cana, e o que mais fosse procurado.

Os cafés da Praça do Ferreira foram uma espécie de precursores desse tipo de ambiente eclético. Eram quiosques de madeira artisticamente trabalhada, ocupavam os quatro cantos da Praça do Ferreira e foram construídos em fins do século XIX. 


Café Java, famoso pelo proprietário Mané Coco e pela Padaria Espiritual

O pioneiro foi o Café Java, localizado na esquina noroeste da praça, famoso por ter acolhido a Padaria Espiritual, grupo de intelectuais de caráter inovador, organizado sob o comando do poeta Antônio Sales em 1892. Seu primeiro proprietário foi Manuel Ferreira dos Santos, vulgo Mané Côco, aracatiense emigrado para a capital. Naquele tempo, Mané Côco era o tipo mais singular de Fortaleza, alvo de imensa popularidade. Antônio Sales dizia sobre o dono do Java que, se estivesse em Paris, ele estaria a frente de um dos famosos cafés excêntricos de Montmartre. O Java passou depois para a propriedade de Ovídio Leopoldino da Silva e esteve durante algum tempo aos cuidados de Antônio Silva Lima, pai do escritor cearense Herman Lima.

Decorridos em torno 5 anos da construção do Java, outros dois quiosques foram levantados na Praça do Ferreira com autorização da Câmara Municipal. Seu construtor o negociante Pedro Ribeiro Filho subsidiou as obras com a condição de explorar o comércio por 10 anos, sem isenção de impostos e com sua entrega, findo o prazo, ao patrimônio do município. Estes quiosques foram batizados de Café do Comércio, e Café Elegante.

O Café do Comércio era o maior deles e pertenceu inicialmente a José Brasil de Matos, e depois passou por inúmeros donos. O Café Elegante, assobradado como o do Comércio teve várias denominações e foi também propriedade de diversos. Havia ainda no canto sudeste da praça, o Café Iracema, o mais procurado como casa de pasto.  Pertenceu a Antônio Teles de Oliveira e também passou por diversas mãos.


Café do Comércio  


Café Elegante - ao fundo o Cine Majestic


Café Iracema


Esses quiosques foram preservados pelo intendente Guilherme Rocha quando, no início do século XX, em 1902, embelezou a praça do Ferreira convertendo o logradouro num jardim. A parte mais central do quadro cercado de gradis, e no interior, floridos e belos canteiros cercados de bancos. Ao redor do vasto piso de cimento róseo, nos quatro lados, uma série de frades de pedras de lio.

Os cafés ganharam vida e puderam estender suas mesas e cadeiras ocupando uma área maior. A essa área cercada e ajardinada recebeu o nome de Jardim 7 de Setembro, inaugurada solenemente na data comemorativa dos oitenta anos da Independência do Brasil. No lado sul, entre os Cafés Elegante e Iracema, erguia-se um belo chafariz com quatro torneiras. No centro, um catavento puxava água para um depósito que abastecia oito tanques destinados à manutenção dos canteiros, situados nas partes em que se dividia o trecho central, cercado de gradis, cortados por dois passeios em forma de cruz, em cujas extremidades havia quatro portões de ferro.


Jardim 7 de setembro, inaugurado em 1902

Vinte e oito lampiões a gás iluminavam o jardim interno, enquanto fora deste mais vinte combustores clareavam toda a praça. Os quiosques concorriam para melhorar a claridade do ambiente, e consequentemente uma maior circulação dos pedestres. Este movimento cresceria com a inauguração do Cine Polytheama em 1910, dos bondes elétricos em 1913 e do Cine Majestic, 1917. A Praça do Ferreira nesse período tornou-se o lugar mais frequentado da cidade, uma pequena amostra do que Fortaleza queria ser no futuro: um local público bonito, confortável e iluminado, com jardins, estátuas e colunas, cafés, cinemas, transporte fácil, frequentado por pessoas bonitas e bem-vestidas.

No entanto, no ano de 1920, o prefeito Godofredo Maciel em sua primeira administração, mandou demolir os quiosques. Quando ao sair de uma sessão de cinema, o escritor Antônio Sales notou que os cafés estavam sendo demolidos, inclusive o seu querido Café Java e escreveu: esta noite, ao sair do cinema, parei defronte dos destroços fúnebres do Café Java, sacrificado à estética da Praça do Ferreira, que é o centro vital de nossa urbe. E nessa contemplação, veio-me uma grande tristeza e uma grande saudade. Ali reinou Mané Coco, o fundador dessa instituição popular que era o café, hoje desaparecido.


     depois da reforma do prefeito Godofredo Maciel

Além dos cafés, o prefeito também retirou as grades do jardim 7 de Setembro e mandou construir um coreto; as laterais receberam recortes para estacionamento de automóveis e bondes, desafogando o trânsito nas Ruas Major Facundo e Floriano Peixoto.


Extraído do livro “A Praça” de Mozart Soriano Aderaldo/Tipogresso/Fortaleza,1989. E outros/publicação Fortaleza em Fotos/Fotos do Arquivo Nirez, postal antigo e Fortaleza em Fotos



terça-feira, 31 de maio de 2016

Fortaleza Belle Époque (As Transformações Urbanas e Sociais)

Belle Époque é o termo em francês que expressa a euforia de setores sociais urbanos com as invenções e descobertas científicas e tecnológicas decorrentes da Segunda Revolução Industrial (1850-1870) e demais novidades, modas e produções artístico-culturais ocorridas entre 1880 e 1918, ano que marcou o fim da Primeira Guerra na Europa; no Brasil, a belle époque se estendeu até os anos1920. 


O surgimento vertiginoso nesse período de máquinas e inovações fantásticas como o automóvel, o cinema, o telefone, a eletricidade e o avião, causou furor e o culto à ciência e ao progresso. Trata-se, portanto, de uma época de intensas transformações que afetaram a economia e a política, e alteraram de maneira profunda o modo de viver, perceber e sentir.

Inglaterra e França foram os principais centros produtores desses novos objetos, valores e padrões que irradiaram mundialmente atingindo sobretudo as cidades. Não escaparam a esse processo, os principais centros urbanos brasileiros, que respaldados pelo crescimento advindo da exportação de matérias primas e objetivado por uma nova geração de políticos e de agentes do saber, foram remodelados tendo como referência a modernização urbana da Europa.

Remodelar cidades e sociedades compreendia introduzir equipamentos e serviços urbanos modernos, introduzir noções de higiene, trabalho, beleza e progresso, eliminar os focos naturais de insalubridade e disciplinar o grande contingente de miseráveis, vadios, loucos – estigmatizados como a horda de bárbaros que colocavam em perigo a constituição de uma nova ordem social modernizante e excludente.Foi assim que Fortaleza foi preparada para viver a belle époque. A época, portanto, só foi bela para as elites e parcelas sociais médias; para os pobres foi um tempo de vigilância, controle de hábitos e confinamento de corpos. 


O processo remodelador que significou a inserção de Fortaleza, teve como base econômica as exportações de Algodão, através do seu porto a partir da década de 1860. Daí em diante Fortaleza acumulou capital, expandindo-se em todos os sentidos – comercial, populacional, espacial, cultural, etc – e tornou-se ainda no final do século XIX, o principal centro urbano do Ceará e um dos primeiros do Brasil. Empolgados com esse crescimento, a burguesia enriquecida com as vendas do algodão, negociantes estrangeiros radicados na cidade, médicos e demais elites políticas e intelectuais, procuraram modernizar a cidade por meio de reformas e empreendimentos que a alinhasse aos padrões materiais e estéticos de grandes metrópoles ocidentais.


Isso posto, Fortaleza inicia sua belle époque na década de 1880, absorvendo com rapidez algumas inovações que acabavam de despontar nos centros de referência, o que demonstra o estreito convívio que a capital tinha com a Europa. 

Dessa forma, ainda nos anos 80 foram instalados equipamentos nunca vistos na cidade e que causaram a maior sensação: bondes e Passeio Público (1880); fotografia, telégrafo submarino, ligando Fortaleza ao Sul do País e à Europa (1882); telefone (1883); e cafés afrancesados na Praça do Ferreira. Além disso surgiu o Clube Iracema (o segundo clube elegante da Cidade) e a abolição da escravatura (1884); o Asilo da Parangaba (1886), para confinar os loucos e o Asilo de Mendicidade, para enclausurar os idosos pobres.


Dos equipamentos cabe destacar o Passeio Público, por ter sido projetado por ser o lugar, por excelência, da fruição daqueles belos tempos da cidade. Nenhum outro logradouro de Fortaleza era tão belo, tão confortável, tão iluminado – tinha vista para o mar, bancos, coreto, jardins, lagos artificiais, estátuas de figuras mitológicas, árvores frondosas e grades. Era um éden a servir de passarela para o desfile de elegantes e palco para o exercício de uma sociabilidade europeizada. Não era à toa que o Passeio Público ficava lotado às quintas e domingos, dias em que as bandas tocavam.  Assim era o primeiro plano, inaugurado e logo ocupado pelas elites. Pouco depois construíram no declive da encosta o segundo e o terceiro planos, não tão ornamentados como o primeiro, e que acabaram sendo utilizados, respectivamente, pelas camadas médias e populares.

Na década seguinte, as fascinantes novidades continuaram a chegar, trazidas pelos quatro navios que vinham mensalmente da Europa: o fonógrafo, em 1891, o kinetoscópio (que fazia fotografia em movimento, precursor do cinema), e o Mercado de Ferro em 1897, todo em art-nouveau – estilo bastante enfeitado que reinou absoluto durante a belle époque. Enquanto isso as ruas se enchiam de sobrados, palacetes e mansões que completavam os adornos do novo perfil da então intitulada “princesa do Norte”.


Mal começou o tão aguardado século XX, as principais praças – a do Ferreira, a Marquês do Herval (atual José de Alencar) e a da Sé – sofreram intervenções estéticas entre 1902 e 1903, recebendo amplos jardins com gradis e adornos semelhantes ao Passeio Público. Por ser o coração da cidade, a Praça do Ferreira já vinha sendo aformoseada desde os anos 1880 com a construção de quatro cafés à feição de chalés franceses nos cantos do logradouro.



Boêmios e janotas deviam sentir-se como que em Paris enquanto sentavam nas mesas ao ar livre desses cafés e contemplavam fascinados o belo jardim do centro da praça e, no entorno, o surgimento na cidade da loja Maison Art-Nouveau, do Cinematógrafo Parisiense (1907) do automóvel (1909) e dos bondes, passando de tração animal a elétricos (1914).

Fonte: Fortaleza Belle Époque -1880-1925, de Tião Pontes
fotos Arquivo Nirez e do livro Ah, Fortaleza! 

terça-feira, 17 de junho de 2014

A Velha Nova Praça do Ferreira

Na primeira metade do século XIX, o local onde hoje se encontra a Praça do Ferreira era um imenso areal, com uma ruela denominado Beco do Cotovelo atravessando-a de Nordeste a Sudoeste. Em 1842, o intendente Manuel Teófilo Gaspar de Oliveira, mediante lei da Assembleia Provincial, autorizou a execução do plano da cidade na qual incluía a reforma do local, eliminando o Beco do Cotovelo. 


O Jardim 7 de setembro, foi construído em 1902 pelo intendente Guilherme Rocha

 
e foi desmontado em 1920, pelo Prefeito Godofredo Maciel 

Em 1902 a praça recebe sua primeira urbanização com pavimentação,  na gestão do Intendente Guilherme Rocha.  Era cercada de mongubeiras para amarrar os animais que traziam do interior as mercadorias para abastecer o comércio local. No centro, foi instalado o jardim 7 de setembro, ornamentado com colunas e estátuas à moda de Paris. Quatro avenidas cruzavam o jardim havendo um portão em cada extremidade, bancos de madeira e colunas com gradil cercando o centro da praça.


O prefeito Godofredo Maciel também mandou demolir os quiosques na mesma reforma 

A partir de 1886 foram instalados 4 quiosques (cafés/restaurantes) um em cada canto da praça, onde a sociedade se reunia para atividades de lazer. A cacimba cavada em 1877 e que servia à comunidade,  passou a fornecer água para o jardim. Em 1920 o Prefeito Godofredo Maciel mandou demolir os quiosques, retirou as grades do jardim 7 de Setembro e mandou construir um coreto; as laterais receberam recortes para estacionamento de automóveis e bondes, desafogando o trânsito nas Ruas Major Facundo e Floriano Peixoto. 

O Coreto foi construído pelo Prefeito Godofredo Maciel no início dos anos 20

Em 1933 o Prefeito Raimundo Girão mandou demolir o Coreto e construir a Coluna da Hora 

A praça passou por nova reforma em 1933: o prefeito Raimundo Girão mandou demolir o coreto e construiu a Coluna da Hora, um monumento de cimento e pó de pedra, projetado por Clóvis Janja, no estilo Art-Dèco medindo 13 metros de altura, com um relógio de 4 faces, adquirido nos Estados Unidos. Após sua inauguração, a Coluna da Hora transformou-se em cartão postal da cidade, sendo utilizada em campanhas publicitárias a nível local e nacional.


Em 1941, todo o quarteirão que ficava entre as Ruas Major Facundo, Pará, Floriano Peixoto e Guilherme Rocha, foi demolido, na gestão do prefeito Raimundo de Alencar Araripe, para a construção de um edifício que abrigaria a Prefeitura Municipal.

O Abrigo Central ou Abrigo 3 de Setembro foi construído em 15 de novembro de 1949, na administração municipal de Acrísio Moreira da Rocha, no lugar do quarteirão demolido em 1941

Em 1941 foi demolido todo o quarteirão da Intendência Municipal. No local, foi construído alguns anos depois, o Abrigo Central, inaugurado em 15 de novembro de 1949. Em 1967 o prefeito José Walter Cavalcante fez uma reforma radical: demoliu a praça e construiu outra completamente diferente: mudou os pontos de ônibus para a Praça José de Alencar, demoliu a Coluna da Hora e o Abrigo Central, prometendo construir um monumento a o Boticário Ferreira. 


Na segunda metade dos anos 60, o prefeito José Walter Cavalcante fez uma grande reforma na praça, quando foram demolidos o Abrigo Central e a Coluna da Hora.

A nova praça tinha canteiros elevados, uma galeria no subsolo a qual abrigou o salão Antônio Bandeira e a Fundação Cultural de Fortaleza.  O visual da praça causou indignação e protestos da população e durante muito tempo passou a reivindicar o retorno de uma praça com as características da tradicional. 
Em 1991 o prefeito Juraci Magalhães reconstruiu a Praça do Ferreira, resgatando, em parte, as características da antiga praça, com base em um projeto dos arquitetos Fausto Nilo e Delberg Ponce de Leon.


A Praça nos tempos da Ditadura


Conhecida como o Coração de Fortaleza, a Praça do Ferreira sempre abrigou diferentes tribos urbanas que habitam e dividem espaço na cidade: aposentados, desocupados, intelectuais, comerciantes, comerciários, estudantes, professores, e como diria o outro, o público em geral.  Os assuntos, todos: lançamentos literários, futebol, política, custo de vida, religião, vida alheia, quem é, quem deixou de ser, etc. Um dia, mandaram reformar a praça do povo. Desmancharam a Coluna da Hora, derrubaram o Abrigo Central, tiraram os bancos, retiraram as árvores, apagaram as luzes, mandaram o povo embora: ia surgiu uma nova praça.


A Praça entre fins dos anos 60 e início dos anos 90 

A Praça do Ferreira é um dos logradouros mais antigos da cidade, contando com 172 anos, desde o marco de sua fundação, a retirada do Beco do Cotovelo, em 1842. Mas não há elementos na Praça que ateste ou tenha sido testemunha dessa passagem do tempo. A compulsão de boa parte dos governantes em destruir, demolir, alterar a paisagem, movidos provavelmente pela vaidade desmedida, destruiu o patrimônio histórico e cultural de Fortaleza. Nada foi poupado, nem a Igreja da Sé oitocentista, nem as construções históricas no entorno da Praça da Sé, nem a Praça do Ferreira, feita e refeita inúmeras vezes, ao gosto do governante de plantão. 


Hoje, a praça é antiga mas tem cara de nova: monumentos, bancos pisos, árvores, tudo é recente, no máximo de 1991, exceto a velha cacimba atemporal, e alguns imóveis do entorno, milagrosamente preservados.
Em 2001 a Praça do Ferreira foi oficialmente declarada “Marco Histórico e Patrimonial de Fortaleza” (Lei Municipal 8605, de 20 de dezembro de 2001). Quem sabe assim, algum equipamento viva o suficiente para virar história.

fotos do Arquivo Nirez

sábado, 7 de dezembro de 2013

O Ceará Moleque e as Normas de Boa Conduta




 
 Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco) em 1910. Havia grande preocupação com a higienização da cidade e a (falta de) educação da população mais pobre. 
  
O fato de se afirmar que havia normas de conduta e disciplinamento em uma sociedade não significa dizer que existia obediência das mesmas pelas pessoas – ao contrário, no caso de Fortaleza, a massa reagia a essas normatizações, por vezes, abertamente, outras vezes usando táticas para burlar ou desprezar  ao que autoritariamente era imposto “de cima para baixo”, e limitava seu modo de ser.

Assim, era grande a reincidência e a consequente detenção por vadiagem, de pessoas  que haviam assinado o chamado Termo de Bem Viver (documento assinado em juízo pelo qual o acusado reconhecia sua má conduta e comprometia-se a não mais praticá-la, sob pena de ser preso em caso de repetição).

Outra forma de resistência pode ser identificada pela compulsão dos populares ao deboche, ironia e sátira. No final do século XIX e primeiras décadas do século XX ficaram famosos em Fortaleza os tipos populares, que riam e faziam rir de qualquer coisa jocosa que acontecesse nas ruas – daí tal comportamento, profundamente censurado pelas elites e classes médias, ter ganhado a alcunha de “Ceará Moleque”, expressão inclusive já existente à época.


 A Praça do Ferreira sempre foi o local preferido para as manifestações de desagrado da população. (foto do livro A Tela Prateada) 

O local preferido para as manifestações e “excentricidade” do povo era a Praça do Ferreira, por onde passavam bondes, gente com as últimas novidades, os sisudos senhores proprietários e onde se encontravam as lojas mais elegantes e os principais cafés. Qualquer pessoa ou episódio que quebrasse a rotina eram pretexto para a divertida molecada soltar vaias, gracejos, palavras ou bolar os apelidos e escárnios, os mais engraçados. 
 
Pode-se entender a irreverência popular – num momento de disciplina e higienização da cidade, como uma forma de alivio ante a pressão social representada pelas más condições de vida e trabalho daquela massa de pobres, bem como uma expressão de descontentamento perante a normatização urbana que as elites tentavam impor. 

Rua Major Facundo, início do século XX (foto do arquivo Nirez)

Por serem feios, sujos, anti-higiênicos, estranhos, exóticos ou diferentes,  os tipos populares e o comportamento jocoso do povo chocavam-se frontalmente e ofendiam os padrões civilizatórios que os grupos médios e dominantes se esforçavam em estabelecer para acompanhar os valores modernos da Belle Epoque. No fundo era uma tática de resistência popular.

  

  Passeio Público - Avenida Caio Prado -  Neste espaço privilegiado, foram introduzidas práticas sociais de educação e postura, normas de comportamento que eram antagônicas a balbúrdia e a irreverência típica das praças e seus frequentadores. Assim, apesar de público em seu momento de instauração, esse logradouro  representou um espaço segregado na cidade, construído por e para uma elite econômica e social, que estabeleceram  elegantes e comportados padrões para um grupo social diferenciado.

O humor também foi usado como forma de causar constrangimento, reprimir e censurar, forçando as pessoas a se adequarem à disciplina civilizatória desejada pelos setores dominantes da sociedade. Os pasquins de Fortaleza da virada do século, faziam uma verdadeira cruzada em defesa dos bons modos, tendo como arma a exposição e o vexame público. Para eles, era necessário combater a ignorância, a vulgaridade e a sem-vergonhice do povo. Dessa maneira, usando um humor ácido, ridicularizava-se a tudo que era considerado como grosseiro para as elites. Não por acaso, o alvo das pilhérias eram os escravos e pobres livres, pardos e negros. Estes tinham hábitos condenáveis: falavam alto, praticavam jogos de azar, bebiam cachaça, etc.

Os pasquins voltavam-se, sobretudo, para fofocar sobre a vida alheia e destinavam-se particularmente ao público feminino. A linguagem era direta, acessível a todos, ao contrário do estilo rebuscado dos jornais da época, havia uma ansiedade dos leitores: a curiosidade em saber de quem os jornalzinhos estavam falando e o cuidado de não cometer “as gafes” ali citadas e virar alvo de chacotas. A ridicularização dos comportamentos grosseiros gerava embaraços e vergonha, estimulando a adesão à conduta civilizada desejada pela classe dominante. 

extraído do livro 
História do Ceará, de Airton de Farias    
 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A Praça é o Parlamento do Povo


Comício na Praça do Ferreira - 1931 (foto do MIS)

Seu tablado, sua rinha, seu grito, sua filosofia, sua alma. Em muitas cidades do mundo existe uma praça-símbolo. Em Fortaleza, a Praça do Ferreira emblema os sentimentos e as emoções do povo. É o coração da cidade.

Praça do Ferreira, final da década de 1820, com o prédio do Ensino Mútuo, que ficava na esquina das Ruas Floriano Peixoto e Guilherme Rocha, onde hoje está o Palacete Ceará (Caixa Econômica Federal). Naquela época a praça não era urbanizada

Até que se chegasse à sua denominação definitiva, a Praça do Ferreira foi Feira Nova, Largo das trincheiras, Praça D. Pedro II e Praça da Municipalidade. Até 1902 a Praça do Ferreira era um imenso areal circundado por “frades de pedra”, tendo ao centro um cacimbão, aqui e ali uma touceira de capim, além de quatro quiosques, um em cada canto, que funcionavam como bares-cafés. 

A velha cacimba foi reencontrada na reforma de 1991 na gestão do prefeito Juraci Magalhães

Os quiosques  da praça eram construções de madeira com pequeno espaço para mesas, balcão e cozinha, seguindo um modelo francês utilizado em feiras e exposições. O primeiro foi o Café Java, erguido em 1886 no canto Nordeste da praça. Seu proprietário, Manuel Ferreira dos Santos, era conhecido como Mané Coco, um sujeito extremamente popular, que a todos saudava com estardalhaço e demonstração de alegria. Gorducho, rosto com marcas de bexiga, paletó branco, sem gravata, costumava recitar, aos brados, versos de Guerra Junqueira, cantarolava modinhas e repetia provérbios e sentenças de almanaque. 

Café Java, no canto Nordeste da Praça do Ferreira. Demolido em 1920


Seu jeito simpático atraía uma freguesia de jovens poetas e artistas. Foi ali no Café Java, que nasceu em 1892, o famoso e original grêmio literário conhecido como Padaria Espiritual. Depois foram surgindo os outros quiosques: o café do Comércio, de José Brasil de Matos, com dois pavimentos no canto noroeste; o Café Iracema, de Ludgero Garcia, no canto sudoeste; e o Café Elegante, de Arnaud Cavalcante Rocha, também com dois pavimentos, no canto sudeste.
A Praça do Ferreira sofreu várias reformas ao longo de sua história, foram várias praças no mesmo lugar. Sua formação se arrastou por muitos anos, até que por volta de 1843, o boticário Antônio Rodrigues Ferreira, presidente da Câmara Municipal, depois de ordenar demolições e alinhamentos, definiu o perímetro do logradouro.

retrato de Antônio Rodrigues Ferreira, o Boticário Ferreira, do acervo do Museu do Ceará

Quando o carioca Antônio Ferreira chegou a fortaleza, em 1825, o que é hoje a Praça do Ferreira era um terreno arenoso, cheio de mongubeiras, castanheiras e pés de oitis, com um cacimbão e um chafariz. Sem qualquer iluminação, de noite o lugar se fazia propício para o banho dos jovens, principalmente dos rapazes do teatro Concórdia na volta dos espetáculos. Todo mundo tomava banho nu e ali mesmo fazia as necessidades físicas que os feirantes encontravam no dia seguinte.

Jardim 7 de Setembro, construído pelo intendente Guilherme Rocha

O boticário fez-se político em Fortaleza, obtendo grande popularidade pelos favores prestados ao povo simples a quem receitava e curava. Presidiu a Câmara Municipal, posição que, na época correspondia ao posto de Intendente, e como tal, reformulou a cidade, aplicando o antigo planejamento urbano elaborado pelo engenheiro Silva Paulet ainda no tempo do Governador Sampaio, em 1813. Na praça em que tinha sua botica, esmerou-se mais. E tanto se identificou com ela que, ao morrer, em 1859, virou seu patrono. Em 1902 o intendente Guilherme Rocha cercou a praça com grades de ferro, calçou-a de cimento rosa e construiu um jardim, o Jardim 7 de setembro, ladeado de bancos. A inauguração contou com a presença do governador Pedro Borges e demais autoridades. 

Café do Comércio de José Brasil de Matos

Em 1920 o prefeito Godofredo Maciel manda retirar os quiosques e o gradil de fero. E em 1925, novamente prefeito, Maciel constrói um coreto, onde a filarmônica da Polícia Militar executava dobrados e allegros à noitinha.
Na reforma de 1920 foi abatido o célebre Cajueiro Botador, também chamado de Cajueiro da mentira. Esta árvore histórica, que ficava em frente ao número 591 da Rua Floriano Peixoto tinha uma particularidade: dava frutos o ano inteiro, bonitos cajus que os boêmios colhiam com um simples esticar de mão para usar como tira-gosto da Cachaça do Cumbe que bebiam nos botequins da época.  O cajueiro era um dos pontos prediletos dos conversadores de todas as tardes que, sob sua copa, se reuniam para tecer futricas. Poetas liam suas produções satíricas e, na semana Santa, o testamento de Judas. 

O Cajueiro da Mentira na Praça do Ferreira. Em 1920 o prefeito Godofredo Maciel mandou cortar a árvore
No Primeiro de abril, dia internacional da mentira, havia grande movimento na Praça. É quando se cumpria a tradição do Concurso de mentiras, quando a população escolhia o maior potoqueiro, o campeão da arte de surrupiar a verdade. Uma urna era colocada debaixo do cajueiro ou no Palacete Ceará e, durante todo o dia procedia-se a votação em meio a grande algazarra dos frequentadores, poetas, seresteiros, estudantes, comerciantes, caixeiros, filósofos de ocasião e vagabundos em geral. Enquanto a banda executava dobrados, marchas e polcas, era proclamado o resultado num grande cartaz afixado no tronco da árvore: o potoqueiro-Mor é fulano de Tal, com direito a retrato e tudo.

A Coluna da Hora foi construída na gestão do Prefeito Raimundo Girão e inaugurada à meia noite na passagem do ano 1933/1934

É impressionante a importância que os cronistas da época dão a esta brincadeira do cajueiro da mentira, escrevendo várias páginas sobre o evento. A capital do Ceará era ainda uma pequena vila de compadres, em que as coisas mais simples tinham imensa importância. O humor puro, direto, envolvia a comunidade que, com certeza tinha mais tempo para o ócio.
Em 1933 nova reforma, desta vez pelo prefeito Raimundo Girão que retira o coreto e ergue a Coluna da hora, com um relógio de quatro faces. Em 1946 o prefeito Acrísio Moreira da Rocha derruba o prédio da Intendência Municipal, na Travessa Pará, e constrói o Abrigo Central, um centro comercial e de lazer com lojinhas, bares e lanchonetes. 

A Praça foi totalmente modificada na década de 60 na gestão do prefeito José Walter Cavalcante. Nesta reforma o local ganhou instalações subterrâneas que abrigava a Galeria Antônio Bandeira.

 Em 1968 o prefeito José Walter Cavalcante faz a demolição completa da praça e ergue uma praça esquisita, com canteiros altos em forma de caixões, interceptando a vista horizontal de tal  modo que, quem estivesse de um lado não enxergava o outro lado.

A mais bela de todas as Praças do Ferreira, na opinião do professor Juarez Leitão


Em 1991 o prefeito Juraci Magalhães atendendo à voz das ruas, restaura a praça e a ressuscita em seu sentido social e político, reerguendo a Coluna da Hora, os bancos, o piso raso e plano e até o cacimbão do século passado. Criando, a que talvez seja, a mais bonita de todas as Praças do Ferreira.


fotos do Arquivo Nirez e do acervo do blog
Extraído do livro de Juarez Leitão
Sábado,  Estação de Viver