terça-feira, 17 de junho de 2014

A Velha Nova Praça do Ferreira

Na primeira metade do século XIX, o local onde hoje se encontra a Praça do Ferreira era um imenso areal, com uma ruela denominado Beco do Cotovelo atravessando-a de Nordeste a Sudoeste. Em 1842, o intendente Manuel Teófilo Gaspar de Oliveira, mediante lei da Assembleia Provincial, autorizou a execução do plano da cidade na qual incluía a reforma do local, eliminando o Beco do Cotovelo. 


O Jardim 7 de setembro, foi construído em 1902 pelo intendente Guilherme Rocha

 
e foi desmontado em 1920, pelo Prefeito Godofredo Maciel 

Em 1902 a praça recebe sua primeira urbanização com pavimentação,  na gestão do Intendente Guilherme Rocha.  Era cercada de mongubeiras para amarrar os animais que traziam do interior as mercadorias para abastecer o comércio local. No centro, foi instalado o jardim 7 de setembro, ornamentado com colunas e estátuas à moda de Paris. Quatro avenidas cruzavam o jardim havendo um portão em cada extremidade, bancos de madeira e colunas com gradil cercando o centro da praça.


O prefeito Godofredo Maciel também mandou demolir os quiosques na mesma reforma 

A partir de 1886 foram instalados 4 quiosques (cafés/restaurantes) um em cada canto da praça, onde a sociedade se reunia para atividades de lazer. A cacimba cavada em 1877 e que servia à comunidade,  passou a fornecer água para o jardim. Em 1920 o Prefeito Godofredo Maciel mandou demolir os quiosques, retirou as grades do jardim 7 de Setembro e mandou construir um coreto; as laterais receberam recortes para estacionamento de automóveis e bondes, desafogando o trânsito nas Ruas Major Facundo e Floriano Peixoto. 

O Coreto foi construído pelo Prefeito Godofredo Maciel no início dos anos 20

Em 1933 o Prefeito Raimundo Girão mandou demolir o Coreto e construir a Coluna da Hora 

A praça passou por nova reforma em 1933: o prefeito Raimundo Girão mandou demolir o coreto e construiu a Coluna da Hora, um monumento de cimento e pó de pedra, projetado por Clóvis Janja, no estilo Art-Dèco medindo 13 metros de altura, com um relógio de 4 faces, adquirido nos Estados Unidos. Após sua inauguração, a Coluna da Hora transformou-se em cartão postal da cidade, sendo utilizada em campanhas publicitárias a nível local e nacional.


Em 1941, todo o quarteirão que ficava entre as Ruas Major Facundo, Pará, Floriano Peixoto e Guilherme Rocha, foi demolido, na gestão do prefeito Raimundo de Alencar Araripe, para a construção de um edifício que abrigaria a Prefeitura Municipal.

O Abrigo Central ou Abrigo 3 de Setembro foi construído em 15 de novembro de 1949, na administração municipal de Acrísio Moreira da Rocha, no lugar do quarteirão demolido em 1941

Em 1941 foi demolido todo o quarteirão da Intendência Municipal. No local, foi construído alguns anos depois, o Abrigo Central, inaugurado em 15 de novembro de 1949. Em 1967 o prefeito José Walter Cavalcante fez uma reforma radical: demoliu a praça e construiu outra completamente diferente: mudou os pontos de ônibus para a Praça José de Alencar, demoliu a Coluna da Hora e o Abrigo Central, prometendo construir um monumento a o Boticário Ferreira. 


Na segunda metade dos anos 60, o prefeito José Walter Cavalcante fez uma grande reforma na praça, quando foram demolidos o Abrigo Central e a Coluna da Hora.

A nova praça tinha canteiros elevados, uma galeria no subsolo a qual abrigou o salão Antônio Bandeira e a Fundação Cultural de Fortaleza.  O visual da praça causou indignação e protestos da população e durante muito tempo passou a reivindicar o retorno de uma praça com as características da tradicional. 
Em 1991 o prefeito Juraci Magalhães reconstruiu a Praça do Ferreira, resgatando, em parte, as características da antiga praça, com base em um projeto dos arquitetos Fausto Nilo e Delberg Ponce de Leon.


A Praça nos tempos da Ditadura


Conhecida como o Coração de Fortaleza, a Praça do Ferreira sempre abrigou diferentes tribos urbanas que habitam e dividem espaço na cidade: aposentados, desocupados, intelectuais, comerciantes, comerciários, estudantes, professores, e como diria o outro, o público em geral.  Os assuntos, todos: lançamentos literários, futebol, política, custo de vida, religião, vida alheia, quem é, quem deixou de ser, etc. Um dia, mandaram reformar a praça do povo. Desmancharam a Coluna da Hora, derrubaram o Abrigo Central, tiraram os bancos, retiraram as árvores, apagaram as luzes, mandaram o povo embora: ia surgiu uma nova praça.


A Praça entre fins dos anos 60 e início dos anos 90 

A Praça do Ferreira é um dos logradouros mais antigos da cidade, contando com 172 anos, desde o marco de sua fundação, a retirada do Beco do Cotovelo, em 1842. Mas não há elementos na Praça que ateste ou tenha sido testemunha dessa passagem do tempo. A compulsão de boa parte dos governantes em destruir, demolir, alterar a paisagem, movidos provavelmente pela vaidade desmedida, destruiu o patrimônio histórico e cultural de Fortaleza. Nada foi poupado, nem a Igreja da Sé oitocentista, nem as construções históricas no entorno da Praça da Sé, nem a Praça do Ferreira, feita e refeita inúmeras vezes, ao gosto do governante de plantão. 


Hoje, a praça é antiga mas tem cara de nova: monumentos, bancos pisos, árvores, tudo é recente, no máximo de 1991, exceto a velha cacimba atemporal, e alguns imóveis do entorno, milagrosamente preservados.
Em 2001 a Praça do Ferreira foi oficialmente declarada “Marco Histórico e Patrimonial de Fortaleza” (Lei Municipal 8605, de 20 de dezembro de 2001). Quem sabe assim, algum equipamento viva o suficiente para virar história.

fotos do Arquivo Nirez

2 comentários:

Claymilton Malaquias disse...

Graça e paz a todos!

Ainda bem que os homens responsáveis pelos vários planos de demolição e reconstrução daquele querido logradouro público NÃO MUDARAM seu histórico nome de "PRAÇA DO FERREIRA". Podem até ter pensado em fazê-lo (no que acredito), mas tal coisa não tem registro nem é do conhecimento público. Não sei se a Lei que torna monumento histórico de Fortaleza aquela praça fala também na preservação do seu nome. Tome-se por exemplo a mudança do nome ou transferência de local como o ocorrido com a PRAÇA DA BANDEIRA, que antes foi praça do encanamento em alusão ao fato do encanamento de águas do Benfica até os chafarizes naquele logradouro, depois se chamou Visconde de Pelotas um herói da guerra do Paraguai. Em 1937 foi batizada com o nome de PRAÇA DA BANDEIRA. Todavia, em 1959 passou a se chamar PRAÇA CLÓVIS BEVILÁQUA e o nome PRAÇA DA BANDEIRA foi levado para a praça em frente ao colégio militar de Fortaleza na Santos Dumont. Outra mudança ocorreu recentemente com o nome de uma praça na praia do futuro. Antes era praça 31 de março e agora é praça da paz Don Hélder Câmara. Assim, objetivando a preservação histórica da PRAÇA DO FERREIRA em Fortaleza, algo precisa ser feito oficialmente para impedir que o nome daquele logradouro possa ser mudado a bel prazer no futuro.

Ana Paula disse...
Este comentário foi removido pelo autor.