quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Cinema no Ceará

Como em outros centros, o cinema no Ceará foi precedido de várias demonstrações de projeções luminosas, exibições primitivas de bioscópios, fantascópios, animatógrafos, etc. Mas cinema mesmo, quem o inaugurou no Estado foi o cidadão italiano Vittorio di Maio, que se tornou conhecido em Fortaleza, aonde chegara em 1907. Di Maio que , já no século XIX teria instalado o primeiro cinematógrafo no Rio, instala no ano de sua chegada à capital cearense seu animatógrafo na parte dos fundos da Maison Art Nouveau, na então Rua Municipal, depois 24 de Janeiro e atual Guilherme Rocha. De instalações modestas, o Cinema Di Maio foi a casa pioneira da arte cinematográfica no Ceará. 

 Rua Guilherme Rocha, onde no início do século XX foi instalado o primeiro cinema de Fortaleza:  o Cinema Di Maio

O salão de exibição era dividido ao meio por uma grade de madeira, que separava a primeira classe, mais distante, e a segunda, mais próxima da tela. Bancos duros na chamada “geral”. Havia enchentes aos domingos e por vezes alguns espectadores ficavam em pé, provocando gritos e reclamações para que tirassem os chapéus.
Os preços eram de mil reis a primeira classe e quinhentos reis a segunda, caros para a época. Os filmes exibidos eram franceses e italianos, de curta metragem. Havia sempre na programação um ou dois filmes naturais, muito panorâmicos e parados. Completava o programa umas poucas fitas de maior extensão e uma fita cômica. 

 Rua Barão do Rio Branco, antiga Rua Formosa em 1910. Ali, quase esquina com a Rua da Assembleia, um ano antes, o comerciante Henrique Messiano inaugurou o Cinema Rio Branco.

Em 1909 o comerciante Henrique Messiano inaugura na Rua Barão do Rio Branco, quase na esquina da Rua da Assembleia (atual rua São Paulo), o cinema Rio Branco. E logo a seguir, Júlio Pinto oferece ao público seu cinema Casino Cearense também chamado pelo nome do seu fundador.
Os filmes italianos e franceses eram dos produtores Ambrósio, de Torino e Cines de Roma. Apreciadíssimo era o Pathé-Jornal, que tinha o slogan “tudo vê, tudo sabe, tudo informa”.
No Cinema Rio Branco instalado com mais capricho, havia uma boa orquestra, por muito tempo dirigida pelo maestro Luigi Maria Smido. No programa distribuído aos frequentadores constavam os números a serem executados pela orquestra. As sessões noturnas eram duas e nos finais de semana, três.Por algum tempo o Rio Branco foi o mais prestigiado dos cinemas da capital.
O Casino Cearense (Cinema Júlio Pinto) era de instalação mais modesta, mas num salão amplo. A projeção era feita na parede. Nos seus primórdios o Casino Cearense teve orquestra. Depois passou a ter apenas um pianista na sala de projeção.  Foram seus pianistas Dona Judith, que viera do Rio Grande do Sul, depois  seu sobrinho Napoleão Pegado, José Sales, o popular Pilombeta figura popular e curiosa pela altura. Mas a última pianista do Casino foi a negra Ambrosina Teodorico, que tinha outras irmãs também pianistas.   
Tanto o Di Maio como o Rio Branco possuíam na fachada campainhas estridentes que anunciavam o início e o término das sessões.  Com a morte do seu proprietário, o Cinema Di Maio passaria por uma reforma e ganhou nova denominação: Cinema Riche, de Luiz Severiano Ribeiro e Alfredo Salgado. Marcava o modesto cinema de Fortaleza a entrada no mercado fonográfico de Luiz Severiano Ribeiro, que viria a ser um dos maiores exibidores do Brasil, chegando a possuir mais de 40 cinemas somente no Rio de Janeiro. 


A Praça do Ferreira na década de 1930, com os dois cinemas mais prestigiados da época: o Cine-teatro Majestic Palace e o Cine Moderno.

Em 1911 apareceu outra casa que marcaria época. Foi o Cine-teatro Politheama, da empresa Rola & Irmão. Casa montada com certo apuro, no coração da cidade, no meio do quarteirão mais importante de Fortaleza, na Praça do Ferreira. 
Quando surgiu o Politheama oferecendo maior conforto, logo se tornou o principal cinema da cidade.  Exibiu grandes filmes e lançou no Ceará os filmes norte-americanos da William Fox Corporation.
Os cinemas se mantinham heroica e milagrosamente com duas sessões de segunda a sábado e três aos domingos, contando com a vesperal infantil. Geralmente a última sessão era a mais concorrida mais por reunião de elegância do que pelo filme. Nesse período apareceu ainda outro cinema localizado na Rua Floriano Peixoto, esquina da Praça do Ferreira: denominava-se American-Kinema e teve vida efêmera.
Até 1930, ir ao cinema não era um hábito arraigado da população. Contava-se aos milhares as pessoas que, mesmo residindo no centro, jamais entraram num cinema. Nunca foi possível até então, os cinemas funcionarem às tardes. E mesmo as sessões noturnas só eram concorridas aos sábados, domingos e feriados, ou quando se tratava de filmes sacros, como  Paixão de Cristo.
Nos primeiros anos da década de 20 houve uma espécie de guerra dos cinemas, que determinou que alguns deles, como o Rio Branco e o Júlio Pinto baixassem os preços, que chegaram até 100 réis, isto é, 1 tostão. Mesmo assim, o cinema não se popularizou como era esperado numa cidade de 70 a 80 mil habitantes, sem muitas alternativas nos teatros,  e sem outra diversão, a não ser um ou outro circo, de qualidade discutível, que geralmente armava sua lona na Praça da Lagoinha ou na Praça da Estação. 
Depois do Politheama, que teve seus dias de glória, como teatro inclusive, surgiu o Majestic, em 1917, do empresário Luiz Severiano Ribeiro. 


 
A inauguração do Cine Teatro Majestic-Palace, em 1917,  causou furor na cidade, um equipamento moderno, e muito sofisticado. Foi instalado num imponente edifício de quatro andares, na Rua Major Facundo, na Praça do Ferreira. O cinema sofreu dois incêndios: o primeiro em 4 de abril de 1955, e o segundo, em 01 de janeiro de 1968, determinou o encerramento do estabelecimento, devido a destruição da sala de projeção.
   
Localizado na Praça do Ferreira, no prédio mais alto da cidade, e em posição privilegiada, o cinema-teatro era moderno, grande e confortável. Tiraria rapidamente da competição o Politheama e se tornaria o cinema preferido da cidade. 
  
Sala de projeção do Majestic, que também era teatro, era toda em ferro como no Teatro José de Alencar. Tinha 650 cadeiras no térreo e nos dois andares onde ficavam os camarotes e na geral.

Famosa era a orquestra do Majestic: dois excelentes pianistas – Barros Figueiredo e Raimundo Donizetti – os flautistas Antônio Moreira e Aristóteles, os violinistas Joaquim Nunes e Edgar Nunes, o contrabaixo Boanerges e vários outros.
O Majestic abrigou várias companhias teatrais e foi inaugurado pela transformista Fátima Miris, a 14 de julho de 1917. Na sua vasta sala de espera havia um grande quadro de Francesca Bertini, pintado pelo artista cearense Raimundo Siebra. 
 

Construído por iniciativa de Plácido Carvalho com o fim específico de uma casa exibidora de filmes, o Cine Moderno foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1922, na rua Major Facundo, 594, na Praça do Ferreira, dentro das comemorações do primeiro centenário da Independência  política do Brasil. A exploração do cinema ficou a cargo do Sr. Luiz Severiano Ribeiro. A sala de projeção ficava de frente para a rua, e tinha 709 poltronas de couro preto. Foi o primeiro cinema a adotar a sonorização, com o filme Broadway Melody, em 1930. O Cine Moderno foi fechado em 21.05.1968 e o prédio foi vendido para o grupo Edson Queiroz, que promoveu sua demolição.

Depois do Majestic, foi inaugurado o Cine Moderno, que logo se tornou o principal cinema do Estado. À sua última sessão, nas noites de domingo, acorria toda a sociedade de Fortaleza, que antes espairecia na retreta do Passeio Público. Antes das nove, o mundo elegante abandonava o velho logradouro e desembocava pela Rua major Facundo, desfilando pelas inúmeras rodas de calçada das residências dos sírios, rumo ao Moderno.
Por preguiça, comodidade ou até por motivo de ordem cultural ou econômica, o cinema, até pelo menos 1926, não chegou a ser diversão popular nem efetiva da cidade.



Extraído do livro
Fortaleza de ontem e anteontem, de Edigar de Alencar
fotos do Arquivo Nirez e do livre Tela Prateada, de Ary Bezerra Leite 


2 comentários:

Adauto Gouveia Motta Júnior disse...

Contemporâneo aos cines de Di Maio e Júlio Pinto, houve outro, de um certo Júnior; o que levou a população a falar, como figura de retórica, que em Fortaleza, os cinemas eram de Maio, Junho e Julho.

Flavia Soledade disse...

Muito rica a história de Fortaleza, gostaria de saber mais detalhes sobre a pianista Ambrosina Teodorico e suas irmas. Alguém sabe onde consigo alguma coisa sobre elas?