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sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Cinema era a Melhor Diversão

 

Por volta do ano de 1955 havia muitos cinemas espalhados pelos Centro e em alguns bairros de Fortaleza. Frequentá-los implicava em ter que aceitar algumas regras. Assistir filme no Cine Diogo, por exemplo, exigia pompa e circunstância. Para entrar no cinema tinha que estar de paletó e gravata, da mesma maneira que para comparecer à aula da Faculdade de Direito.

Por essa época vários estabelecimentos do Centro alugavam paletós. Um desses locais era o Café Cearazinho, que dispunha de meia dúzia de paletós surrados, para emprestar aos clientes da casa, que pretendiam ir assistir uma fita, mas viviam esquecendo tal formalidade. Numa das paredes do café, alguém escreveu um versinho à mão:

Estás desanimado?

Esmorecido, sem fé?

Põe o trabalho de lado.

Vem tomar um café...

Uma letrinha miúda, encabulada, completava o convite:

(“No Cearazinho”)

O Diogo pertencia, como o futuro Cine São Luiz, à cadeia nacional de cinemas, fundada por um cearense de Baturité, Luiz Severiano Ribeiro. Mas não era a única. Havia outra rede de casas exibidoras montada com capital cearense, pertencente a Amadeu de Barros Leal, Álvaro Melo, Pedro Coelho de Araújo e Rui Firmeza e possuía entre outros, o Cine Atapu, localizado na esquina da Avenida Pontes Vieira com Visconde do Rio Branco, no rumo de Messejana. Ficava ao lado da casa do Sr. Amadeu de Barros Leal, um bangalô branco, com placa na porta, como era moda então, anunciando seu nome e sua profissão. Foi o segundo cinema da rede Cinemar, e como era longe do centro, era assegurado aos frequentadores das sessões noturnas, que ao final destas, haveria um ônibus da empresa São Francisco, com destino ao Centro.



Cine Atapu, fachada original e depois da reforma

Numa época em que os filmes americanos ainda seguiam alguns critérios de censura, que proibia alguns deslizes de comportamento no campo da moral e dos bons costumes, o Atapu levou ao seu público o realismo do cinema francês. Assim, começou a exibir sessões clandestinas de filmes eróticos, em sessões noturnas às 22horas. O público ficava sabendo por avisos que se propagavam rapidamente em conversas informais da Praça do Ferreira. O fato é que esses festivais de filmes curtos de sexo explícito, despertavam interesse do público, simplesmente por se constituir em evento proibido. Como resposta, o Atapu sofreu denuncias de jornais como O Povo e censuras de publicações da Igreja Católica. O Cine Atapu se manteve por 11 anos, fechando em 1960.

 

Cine Samburá, onde depois funcionou o Cine Fortaleza

Outro cinema importante era o Cine Samburá, principal investimento da Cinemar e o quarto de sua propriedade, onde se dizia que, com os movimentos certos, podia-se namorar sem qualquer limitação. Era um cinema amplo, com 700 lugares, com endereço à Rua Major Facundo, 802, a dois quarteirões da Praça do Ferreira. Com uma inauguração festiva, a sessão de abertura no dia 15 de agosto de 1952, exibiu uma produção histórica italiana: “Pompeia, Cidade Maldita”. Nove anos depois, a 18 de maio de 1969, o cine Samburá fecha as portas com o filme “Aquele que Deve Morrer”.

Fazia parte da rede cearense o Toaçu, localizado à Rua General Sampaio, 927 – Praça José de Alencar. Era um cinema popular, inaugurado as 9 horas do dia 13 de março de 1956 em concorrida solenidade, que contou com a presença de autoridades e da imprensa. As instalações do Toaçu eram um forno e uma armadilha. O calor era intenso e a decoração toda feita de esteiras de palha de carnaúba, um perigo sempre presente. E não deve ter sido à toa que passou por um incêndio, tendo sido recuperado e equipado com tela panorâmica. O único cinema a se instalar na Praça José de Alencar teve duração de 8 anos, encerrando as atividades em 1963.

 

Cine Toaçu, fachada original e depois da reforma

Fora do perímetro central havia o Cine Ventura, o primeiro cinema da Aldeota, propriedade do português Júlio Ventura, que visando investir no segmento, construiu um imóvel destinado a exibição de filmes, que fosse um divertimento barato e acessível aos moradores. Ficava na Avenida Barão de Studart, 1521, esquina com a Rua João Carvalho. Foi inaugurado em 1941 e encerrou as atividades em 1973.  

Na Praça da Estação à rua General Sampaio, 526, havia o Cine Luz, com 800 lugares, status de cineteatro, propriedade de Luiz Severiano Ribeiro, Inaugurado em 1939, fechado em 1951.

O Cine Rex na Rua General Sampaio, 1263, empreendimento da empresa Clóvis Janja & Cia Ltda, foi entregue ao público no dia 10 de agosto de 1940. Era dotado de ampla sala de espera, extenso hall com cartazes e vasto salão com 640 cadeiras. O cinema fechou as portas pouco mais de um ano depois da inauguração, em 13 de setembro de 1941. Foi reaberto em 10 de maio de 1944, como sala secundária do Grupo Severiano Ribeiro.


Cine Rex, na Rua General Sampaio

O Cineteatro Centro Artístico Cearense funcionava na Rua Tristão Gonçalves, 1008, e esteve em atividade entre 1926 e 1956, quando foi fechado.  

Muitas outras salas de projeção  ofereciam a mais pura diversão com a oferta de grandes filmes, que despertavam diversão e bom entretenimento no público: o Cine Moderno, o Araçanga, o Majestic, o Nazaré, o Cristo Rei, o Popular, o  Benfica, o Merceeiros, o Navegantes, o Parangaba, e muitos outros.

 

Fontes:

A Tela Prateada, de Ary Bezerra Leite, 2011

Louvação de Fortaleza, de Lustosa da Costa. 1995  

terça-feira, 26 de março de 2024

A Extinção dos Cinemas Tradicionais

 

A chegada do cinema representou um grande passo em direção a modernidade que a cidade almejava. Chegou timidamente, na forma de bioscópio, despertou curiosidades e começou a tirar a população das rodas de calçadas costumeiras, maneira que o povo encontrava para ocupar as noites, sem luz elétrica, sem rádio, sem TV. A fase de prosperidade começou em 1908 com a chegada do Cinema Di Maio, seguido de diversos outros pequenos cinemas, que fizeram o deleite dos admiradores da sétima arte. 



Mas o cinema começou de fato a ganhar público e investimentos a partir de 1917 com a inauguração do Cine Teatro Majestic-Palace, um belo e luxuoso teatro, com 650 lugares, construído por Plácido de Carvalho. O mesmo empresário  inaugurou em 1921 o Cine Moderno, que desbancou o Majestic em termos de conforto das instalações e preferência do público de maior poder aquisitivo.  O novo cinema foi explorado por Luiz Severiano Ribeiro.

Depois surgiram diversas salas, ligadas a associações e entidades de classes, como o Cine Fênix, o Merceeiros, o Centro Artístico Cearense e outros; a próxima grande sala cinematográfica e ser inaugurada no centro foi o Cine Diogo, de Luiz Severiano Ribeiro que despontava como o grande exibidor que reinava sem concorrentes.   

Os cinemas de Luiz Severiano Ribeiro só conheceram concorrência de peso nos anos 50, quando o empresário Amadeu Barros Leal inaugurou o Cine Jangada, com a promessa de que seria a primeira de treze salas a serem implantadas pela Empresa Cinematográfica do Ceará – CINEMAR. Depois do Jangada foram inaugurados o Cine Araçanga, na esquina das ruas Barão do Rio Branco e Antônio Pompeu; o Cine Samburá, localizado na Rua Major Facundo, entre as Ruas Pedro Pereira e Pedro I; e o Cine Toaçu, na rua General Sampaio, na Praça José de Alencar, todos da CINEMAR.

O Cine Art ocupou o mesmo local do Cine Araçanga, depois que a sala de projeção Amadeu Barros Leal fechou, na esquina da Rua Barão do Rio Branco com Antônio Pompeu. Foi inaugurado no dia 24 de fevereiro de 1959. De vida curta também na rua General Sampaio teve o Cine Rex, abriu em 1940, fechou no ano seguinte.




Cine São Luiz, nos anos 1990 e no dia da inauguração 

Mas o grande acontecimento no mundo dos cinemas ocorreu em 1958 com a inauguração do Cine São Luiz, no dia 23 de março, mais um empreendimento bem-sucedido de Luiz Severiano Ribeiro

Assistir a uma sessão de cinema no São Luiz era acontecimento digno de nota. As sessões tornaram-se uma passarela de elegância, onde desfilavam as moças mais distintas da sociedade, as famílias mais importantes, todos caprichando nas indumentárias.   O São Luiz surgiu como um dos mais luxuosos do Brasil. Dispunha de auditório com área total de 2.653m², 1.300 lugares, palco com recursos para teatro, imponente hall e escadarias para o balcão, piso e revestimento em mármore de Carrara, lustres de cristal importados da Checoslováquia e ricos tapetes. Foi o primeiro a utilizar o então revolucionário Cinemascope, cuja tela era bem mais ampla do que a normal, a implantar o som estereofônico, a oferecer poltronas estofadas e ar-condicionado.

No momento da inauguração, o São Luiz contava com três gerentes, 55 empregados e 17 recepcionistas. O uso do paletó era obrigatório para os homens, e as mulheres espontaneamente, se vestiam com roupas de baile, com muitas joias e adereços como luvas e chapéus. Coisa chique, lugar de alto nível. Com o tempo, o São Luiz começou a se adaptar aos novos tempos. Começou por abolir a exigência do uso de paletó e gravata nos anos 60, a exemplo do que acontecera no Cine Diogo, alguns anos antes.     

Depois do São Luiz, mas sem pretensões de lhe fazer concorrência, surgiu o Cine Fortaleza, Inaugurado em 11 de agosto de 1974. Foi o primeiro cinema de lançamento no sistema em que o filme entrava em cartaz e só saía quando não tivesse mais público. O filme de estreia “Ritmo Quente", passou 189 dias em cartaz, ou seja, sete meses. Ficava na Rua Major Facundo, no local onde funcionou o Cine Samburá.

Uma série de fatores determinaram a decadência desses espaços que durante tantos anos divertiram a população e atraiu um público fiel para suas sessões, especialmente as noturnas. Alguns fecharam por se tornarem obsoletos, sendo substituídos por outras salas de exibição mais modernas, no mesmo endereço; mas a maioria teve seu fim decretado por conta do esvaziamento verificado no centro, determinado pelo aparecimento de novas centralidades, que tiraram do centro o local de convergência na procura por produtos, serviços e diversão. 



interior do Shopping Center Um e arredores do Shopping Iguatemi

A tendência apareceu ainda por volta da metade dos anos 70, com a inauguração do Shopping Center Um, em 1974, na Avenida Santos Dumont. No início dos anos 80 surgiu o Shopping Iguatemi, e consolidou a Aldeota como local de lazer e comércio; o surgimento dos shoppings centers nas regiões da Aldeota e no Cocó contribuíram para a decadência do centro. Esses novos empreendimentos ofereceram salas de projeção com capacidade para no máximo 100 a 400 poltronas. Os antigos cinemas com prédios especialmente projetados para esse fim, com suntuosas salas de espera e mais de mil lugares, são definitivamente coisas do passado. E os filmes atuais estão muito distantes dos charmosos e românticos enredos que eram exibidos nos velhos cinemas do centro.

Cine Majestic – encerrou as atividades em 1968, depois de um incêndio; Cine Moderno – encerrou em 1968 – o prédio foi demolido; Cine Diogo – fechado em 1997 – hoje funciona um centro comercial.

Cine São Luiz – atividades de cinema encerradas em 2005 pelos proprietários do grupo Luiz Severiano Ribeiro. Depois o espaço foi arrendado pelo grupo Fecomércio – Federação do Comércio do Ceará e funcionou até 2010. Atualmente funciona como equipamento cultural mantido pelo governo do Estado. Cine Fortaleza - fechado em 1999; Cine Jangada - fechado em 1996.  



fontes: Fortaleza: cultura e lazer (1945-1960) de Gisafran Nazareno Mota Jucá Os Dourados Anos, de Marciano Lopes Ary Bezerra Leite – A Tela Prateada - História do Ceará, de Airton de Farias. Jornais O Povo e Diário do Nordeste. Publicação www.fortalezaemfotos.com.br. Fotos: Arquivo Nirez, Anuário do Ceará, Jornais. 


  

  

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Histórias de Cinema


 
Desde a evolução do cinema como sétima arte até o apagar das luzes da década de 1940, o maior exibidor cinematográfico do país era o cearense Luiz Severiano Ribeiro, dono de uma poderosa cadeia de salas exibidoras espalhadas por todo o país, principalmente no Rio de Janeiro, então Capital Federal.

Em Fortaleza, à exceção de duas ou três salas pertencentes a irmandades religiosas, todos os cinemas eram monopólio da Empresa Ribeiro, que contava com mais de duas dezenas de cinemas em nossa capital; a Severiano Ribeiro reinava absoluta, sem concorrência que a incomodasse.
Pouco a pouco os seus concorrentes, inclusive os cinemas de bairros conhecidos como “poeiras” foram sendo eliminados pelo poder de expansão do grupo. A empresa de Clóvis Janja mantinha os cinemas Rex - que fechou e foi reaberto anos mais tarde pela Empresa Severiano Ribeiro - o Odeon, na Praça de Otávio Bonfim  e o Santos Dumont. O Cine Diogo que era considerado o mais luxuoso da cidade,  também foi adquirido pelo grupo Severiano Ribeiro. Antes, do Diogo, o Majestic fora a atração dos que buscavam diversão. Tornara-se conhecido como cinema popular e por isso, proporcionava boa renda. Era bastante quente, principalmente durante o dia, pois não dispunha de ventiladores. 

Cine Diogo na Rua Barão do Rio Branco

O Moderno, também pertencente ao grupo, inaugurado 4 anos depois do Majestic, também era bastante frequentado e dispunha de ventiladores, mas  em pequeno número. O Diogo na sua fase inicial dispunha de boa ventilação, mas posteriormente, só se fazia sentir no trecho próximo a tela, local que passou a ser disputado pelos espectadores.

Fora do centro, havia ainda alguns poucos cinemas que atendiam os bairros, como o Cine Familiar, no Otávio Bonfim, o Benfica, na Avenida Visconde de Cauipe e o América, com fundo correspondente ao Colégio Juvenal de Carvalho, no Jardim América.

A esperança de modernização dos cinemas de Fortaleza se concentrara na inauguração do Cine São Luiz, cujo edifício fora iniciado desde o final da década de 1930. A demora no andamento da obra repercutia nas discussões da Câmara Municipal, de onde partiam requerimentos solicitando aceleração das obras. A polêmica acerca da lentidão em se concluir o cinema ampliava-se através dos jornais. O prédio inacabado era tido como “o aleijão que enfeia a Praça do Ferreira”. A critica lembrava o contraste entre a exigência de concessão de licenças para que as residências fossem pintadas, enquanto o amontoado de material de construção permaneceu cercado, durante anos, no centro da cidade.

Cine Cristo-Rei na Avenida Santos Dumont 

No interior dos cinemas, a molecagem da plateia constituía-se motivo de preocupação frequente da Polícia, que chegou a organizar uma campanha de vigilância: “já se pode assistir a uma fita sem ouvir as piadas de mau-gosto, os gritos e assobios. Ontem, onze pessoas foram presas acusadas de promover anarquia”. A ação repressora da polícia também recebia apoio da Câmara Municipal, que se preocupava com a falta de decoro de ocorria nos cinemas da cidade, “onde atuam pessoas mal-educadas e moleques”. O vereador Manoel Lourenço solicitara ao secretário de Polícia para intensificar o policiamento dos chamados cinemas elegantes, a fim de por termo a molecagem que se observava principalmente aos domingos.  

O depoimento de frequentadores assíduos dos cinemas, revelava os problemas enfrentados por eles, alguns bastante curiosos, que ultrapassavam as costumeiras reclamações contra o calor ou condições inadequadas. Em 1951, um dos impasses enfrentados prendia-se ao final das projeções. A pressa da plateia inquieta, em retirar-se do cinema ao final da exibição: “ os mais apressados se levantavam, levando outros espectadores a fazerem o mesmo. Por isso, muitos fãs de Ingrid Bergman não puderam ver os momentos finais do filme “Sob o Signo de Capricórnio”. 

Rua Barão do Rio Branco com o edifício Digo em 1939

Em fevereiro de 1950, os alicerces da possante indústria foram abalados com a inauguração do Cine Jangada, que veio quebrar o monopólio do grupo já consolidado. Idealizado pelo  empresário Amadeu Barros Leal, o Cine Jangada era na verdade a primeira de treze salas de exibição  que deveriam ser implantadas em Fortaleza pela Empresa Cinematográfica do Ceará (CINEMAR).

Funcionando numa sala adaptada, estreita e comprida, o Cine Jangada não tinha decoração requintada nem os luxos dos concorrentes. A única originalidade ficava por conta da sala de espera, que ficava localizada nos fundos. Na verdade, nem era uma sala, era um terraço-jardim com bancos e palmeiras. Ali também ficavam os sanitários.

Sem hall para as bilheterias, estas foram montadas logo à frente, quase na rua, e os espectadores, tão logo entravam no cinema, já estavam dentro da sala de projeção, e de frente para o público. A tela, portanto, servia de fundo para as bilheterias e para o painel de cartazes. Era exigido aos homens, o uso de paletó e gravata, a exemplo do que já fazia o sofisticado Cine Diogo.

edificio São Luiz, em construção na Praça do Ferreira

Em 1957 o prédio do São Luiz ainda em construção era visita obrigatória de muitas pessoas que frequentavam o Centro. Em fase de acabamento, o prédio atraía curiosos que comentavam admirados sobre os detalhes da construção: a sala de projeção com pintura em alto relevo, tapetes, lustres, paredes e pias de mármore. O São Luiz foi finalmente inaugurado com grande solenidade e a presença muitos convidados, no dia 26 de março de 1958.

fontes:
Fortaleza: cultura e lazer (1945-1960) de Gisafran Nazareno Mota Jucá
Os Dourados Anos, de Marciano Lopes 
fotos do arquivo Nirez

terça-feira, 7 de março de 2017

Os Pioneiros do Comércio em Fortaleza

Fundada em 1821, a Farmácia Theodorico foi a primeira farmácia de Fortaleza

No meio do terceiro quarteirão da Rua Major Facundo, erguia-se um velho sobrado residencial, com muitas portas no pavio térreo e apenas duas ou três janelas no andar superior, de propriedade do português José Smith de Vasconcelos. Chegando ao Ceará em 1831, esse português fez fortuna como panificador em Fortaleza, foi proprietário de “O Barateiro”, a primeira padaria da cidade instalada na Rua Major Facundo esquina com a Castro e Silva. Ali se estabeleceria mais tarde, a Fábrica Iracema de Cigarros de Philomeno Gomes e Filho e a Empresa de J. Tomé de Saboia. 

Edificio J. Lopes, um dos primeiros do Centro
Alcunhado de “Zé Barateiro”, esse tio do Barão de Studart tornou-se o 1° barão de Vasconcellos. Voltou a residir na Europa e faleceu no Rio de Janeiro em 1903. No lugar do sobrado de sua residência encontra-se atualmente o Edifício J.Lopes. Antes da construção desse edifício funcionou o Restaurante Palhabote, de Antônio Dias Pinheiro, Pedro Muniz e Guilherme Moreira da Rocha. Tempos depois esse prédio foi ocupado pelo Cassino Cearense com o Cinema Júlio Pinto, uma das primeiras casas de espetáculo cinematográfico de Fortaleza. Num dos espaçosos salões desse Cassino, todo iluminado a luz elétrica, inaugurou-se o cinema, em 18 de setembro de 1909, com a presença de várias autoridades, entre outros pelo presidente Nogueira Accioly e todo seu secretariado.

Vizinha à residência do Barão de Vasconcellos localizava-se a casa comercial de José Gomes de Moura – cônsul do Paraguai – e a loja de tecidos de seu cunhado – cônsul da Bolívia – Maximiano Leite Barbosa. 
Nas proximidades encontrava-se ainda a moradia do português João Antônio Albernás do Amaral, casado com uma Correia de Mello, membro da família proprietária da Casa de Ferragem Amaral e Filhos. Dentre os seus descendentes destacam-se seus filhos José Correia do Amaral e Isaac Correia do Amaral, conhecidos abolicionistas e o cônego Ananias Correia do Amaral, um dos fundadores do Colégio São José em Fortaleza.

propaganda da firma Conrado Cabral & Cia, publicada no Almanaque Hénault-1912/13

Nessa residência instalou-se mais tarde, a Casa Contado Cabral, fundada em 1884, propriedade da família de Raul Conrado Cabral. Esse quarteirão abrigaria também o escritório de Joaquim Markan. Próxima loja de Ferragens de Conrado Cabral instalou-se a antiga Farmácia Teodorico, da família Eloy da Costa, na Rua Major Facundo. A Farmácia Teodorico era a casa comercial mais antiga da cidade, contemporânea do Brasil-reino, fundada pelo pai do velho Teodorico. Três gerações dessa família dirigiram a farmácia, a começar por Antônio Eloy da Costa, nascido em Recife em 1797, a quem foi concedida licença para abrir uma botica. A instalação da farmácia em Fortaleza ocorreu em 1821.

Na esquina das ruas Major Facundo e São Paulo, onde hoje funciona a Livraria Paulinas residiu o Major Facundo de Castro Menezes, covardemente assassinado em sua residência por adversários políticos. Depois a Casa Villar ocupou esse casarão durante 105 anos, até novembro de 1959. A família Villar é uma das treze famílias descritas por Raimundo Girão em seu livro “Famílias de Fortaleza”, junto com as famílias Albano, Amaral, Bastos, Borges, Brasil, Cals, Ellery, Gaspar de Oliveira, Teóphilo, Gouveia, Machado, Mamede e Salgado. A maior parte delas tem origem em portugueses que imigraram para Fortaleza em meados do século XIX e aqui desenvolveram o comércio da cidade.

Anúncio da Casa Ribeiro, de Luiz Severiano Ribeiro - Almanaque Hénault - 1912/13
fachada da loja Torre Eiffel, de Paulo Morais

No quarto quarteirão dessa rua sobressaía-se o sobradão de cinco portas térreas e cinco janelas avarandadas do cônsul de Portugal Manoel Caetano de Gouveia, rico e socialmente influente. Na sua vizinhança Fernando de Alencar Pinto instalaria os escritórios de sua empresa. Da sociedade dos Irmãos Pinto, surgiria a Companhia Importadora de Máquinas e Acessórios Irmãos Pinto – Cimaipinto. Em suas imediações ficava a Loja Torre Eiffel de Paulo Morais, adquirida de Antônio Fiuza Pequeno e Álvaro Mota; a Livraria Humberto, de Humberto Correia Ribeiro; a Casa Dummar; a Livraria Ribeiro, de Luiz Severiano Ribeiro.

prédio de propriedade de Plácido de Carvalho, onde funcionou a empresa de Adolpho Quixadá

Num prédio de Plácido de Carvalho, que por muito tempo apresentaria no alto da fachada uma estátua de bronze representando o deus Mercúrio em tamanho natural, funcionaria a Companhia Quixadá, fundada por Adolpho Quixadá; próximo a ela encontrava-se a sede da Livraria e Papelaria Comercial, de Meton Gadelha.

Fechando o quarteirão estava o sobrado do comendador Machado, com três portas para a Rua Major Facundo e quatro para a Rua Guilherme Rocha, onde hoje se ergue o Excelsior Hotel. No antigo casarão hospedou-se em 1859, a Comissão Científica que veio ao Ceará com a participação de Gonçalves Dias e outros. 

Ao final do século XIX, a firma Gradvohl e Fils ocupou seu andar térreo, com o proprietário residindo na parte superior. Os Gradvohl eram franceses originários da Alsácia-Lorena. Eram proprietários da Casa Gradvohl Frères. A exemplo da Casa Boris, a Gradvohl Frères teve grande duração no Ceará.
Mais tarde o térreo do sobrado do Comendador Machado foi ocupado pelo famoso Café Riche, de propriedade de Alfredo Salgado e Luiz Severiano Ribeiro, estabelecimento frequentado por literatos, escritores e poetas.

Extraído do livro: 
Ideal Clube – história de uma sociedade de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos do arquivo Nirez

   

domingo, 27 de dezembro de 2015

Os Velhos Cinemas de Fortaleza - 1908 a 1932

Primeiro chegaram os bioscópios, uma espécie de lanterna mágica que projetava na tela imagens estáticas. O introdutor da novidade foi um italiano chamado Pascoal, que instalou a máquina na Rua Barão do Rio Branco. Dado o êxito obtido, vários bioscópios foram instalados em diversos locais da cidade: um na Rua Major Facundo, outro na Praça do Ferreira, outro no antigo prédio do Clube Iracema e mais um no Beco das Trincheiras (atual Rua Liberato Barroso), esquina com a Rua Senador Pompeu. Tempos depois, apareceu o kinetofone, que era uma combinação do bioscópio com o gramofone. O novo equipamento foi armado no teatro José de Alencar, e fez um sucesso retumbante.

Cine Rio Branco, fundado por Henrique Mesiano

Em 1907 chegava a Fortaleza o italiano Vitor Di Maio, trazendo o animatógrafo, montando em 1908, o Cinema Di Maio  no prédio da Maison-Art-Nouveau, na Praça do Ferreira. A partir daí teve inicio a fase de prosperidade do cinema em Fortaleza. No caminho aberto por Di Maio, outros cinematógrafos surgiram: em 1909, Henrique Mesiano inaugurou o Cinema Rio Branco, na rua do mesmo nome; na mesma época Julio Pinto abriu o Cassino Cearense, na Rua Major Facundo. Eram exibidos filmes extraordinários como O Conde de Monte Cristo e a Dama das Camélias, este último, foi exibido quase trezentas vezes. Durante a apresentação dos filmes que eram mudos, um pianista tocava as músicas da moda. 


A pré-inauguração do Cine-Teatro Polytheama ocorreu em fevereiro de 1911, na Praça do Ferreira. A inauguração oficial ocorreu em julho daquele ano. em 1916 passou ao controle de Luiz Severiano Ribeiro. O Polytheama foi o silencioso que resistiu ao advento do som, permanecendo em funcionamento com seus filmes mudos até 20 de novembro de 1938, fechando quando o prédio que ocupava foi demolido para dar lugar a construção do edifício São Luiz.

O Amerikan Kinema foi inaugurado em fevereiro de 1915, na Praça do Ferreira; no dia 23 de dezembro de 1915, surge o Cinema Riche, também na Praça do Ferreira, no antigo local do Cine Di Maio, o primeiro empreendimento tendo como sócio Luiz Severiano Ribeiro em sociedade com Alfredo Salgado. Foi desativado em 1921. Henrique Mesiano inaugurou em 1917 o Cinema da Estação, no Boulevard Joaquim Távora, em frente a estação de bondes da Ceará Tramway Light and Power. Outro empreendimento de Henrique Mesiano foi o Cinema Tiro Cearense, inaugurado no Passeio Público, que funcionou por menos de um ano. Em 1917, por iniciativa do Circulo Operário e Trabalhadores Católicos, é instalado o Cinema São José, no teatro da agremiação na Praça Cristo Redentor. Foi o primeiro cinema criado pela Igreja Católica no Ceará e adotava o critério de separar homens e mulheres em duas alas. Funcionou até o início da década de 1940.  


     

Mas o ano de 1917 ainda veria a inauguração de uma bela e luxuosa casa de espetáculos: O Cine-Teatro Majestic Palace. Construído por Plácido de Carvalho, instalado em um imponente prédio na Praça do Ferreira, com a destinação para o cinema explorado por Luiz Severiano Ribeiro e Alfredo Salgado. O palco foi inaugurado no dia 14 de julho com o espetáculo da cantora lírica e transformista italiana Fátima Miris. 

 
Um incêndio no dia 1° de janeiro de 1968, determinou o fechamento definitivo do Cine-Teatro Majestic-Palace

O Majestic tinha uma sala de projeção que também era teatro, toda em ferro, como o Teatro José de Alencar. Tinha 650 cadeiras no distribuídas no térreo, nos dois andares, onde ficavam os camarotes e na geral. No bar com cadeiras de pés de ferro e pequena mesa e mármore, tinha música ao vivo a cargo do pianista Mozart Gondim Ribeiro. O lugar era frequentado por personalidades da cidade como Quintino Cunha, Dolor Barreira, Professor Raimundo Gomes de Matos, Lauro Maia, e outros. O Cine Majestic funcionou até 1968, quando foi consumido por um incêndio que destruiu a sala de projeção. 

Cine Moderno, na Praça do Ferreira

O próximo cinema a ser inaugurado em Fortaleza foi o Moderno, na Praça do Ferreira. Construído por iniciativa de Plácido Carvalho com o fim específico de uma casa exibidora de filmes, o Cine Moderno foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1922, dentro das comemorações do primeiro centenário da Independência  do Brasil. A exploração do cinema ficou a cargo do Sr. Luiz Severiano Ribeiro. A sala logo ganhou a preferência do público seleto da cidade e teve o privilégio de lançar o cinema sonoro, no dia 19 de junho de 1930, com a exibição do filme “Broadway Melody”, com Charles King e Bessie Love.  


Durante oito anos, o Moderno apresentou filmes mudos animados por um piano perto do palco. As sessões eram noturnas (duas por noite) e o preço do ingresso custava custa 1 mil reis.  O Cine Moderno liderou por 18 anos, a vida social noturna de Fortaleza. Suas soirées eram sempre frequentadas pela alta sociedade de nossa capital, todos com suas melhores roupas e vestidos num verdadeiro desfile de elegância. Sua supremacia acabou em 1940, com a inauguração do Cine Diogo. Em franca decadência, abandonado pelos seus antigos frequentadores, o Cine Moderno encerrou as atividades no dia 21 de maio de 1968, quando o prédio onde funcionava foi vendido ao Grupo Edson Queiroz e demolido para dar lugar a uma loja. 

Até 1925, vários pequenos cinemas são instalados em Fortaleza. Em 1922, surge o Cine-Teatro Pio X, mantido pela Ordem dos Capuchinhos, na Avenida Duque de Caxias com a Rua Barão de Aratanha. Um ano depois, em 1924, foi inaugurado um pequeno cinema na então Praia do Peixe - atual Praia de Iracema - denominado Cine Beira-Mar. Em 1925 o Centro Artístico Cearense, situado na Avenida Tristão Gonçalves, 338, começa suas atividades como cinema, e a 16 de dezembro de 1931, inaugura o palco para apresentações teatrais.

No dia 2 de dezembro de 1925, o Recreio Iracema, uma iniciativa da empresa de Diversões Artísticas, de Antônio Capibaribe, inaugura sua tela de cinema, já que como espaço teatral existia desde 1923. Localizado no Boulevard Visconde de Cauípe, passou a denominar-se Cine Benfica. Em 1927, a União de Moços Católicos, localizada na Rua Barão do Rio Branco, pôs em funcionamento o cinema que se popularizou como Cine União, no imponente prédio ainda hoje existente. No mesmo ano é inaugurado o Cine Grêmio Dramático Familiar, na Avenida Visconde do Rio Branco, como desdobramento do famoso espaço teatral em que foram lançadas as criações de Carlos Câmara. 

Em 1930, duas instituições de prestigio na cidade, a Associação dos Merceeiros e a Associação Fênix Caixeiral criam salas de cinemas em suas sedes. O Cine Fênix instala-se  no dia 26 de junho de 1930, na Rua Guilherme Rocha esquina com a Rua 24 de Maio. O Cine Merceeiros, localizado na Rua Major Facundo foi inaugurado a 1° de novembro de 1930. 

Cine Luz, na Praça da Estação 

Ainda em 1930, no dia 6 de setembro, ocorria a inauguração do Cine Parochial, de propriedade das associações religiosas da Catedral, instalado à Rua Coronel Ferraz no prédio da Escola Jesus, Maria e José. O Cine Luz iniciou as atividades no dia 23 de janeiro de 1931, na Rua General Sampaio, por iniciativa dos empresários Bernardino Proença Filho e José Bezerra da Silva. Ainda em 1931 aparece mais um cinema de bairro: o Cine São Gerardo. Surgem ainda em 1932, dois outros cinemas: o Cine Circo, na Praça de Otávio Bonfim e o Cine Popular, na Rua Senador Pompeu, na então Praça de Pelotas, hoje Clóvis Beviláqua. A inauguração do Cine Popular ocorreu ocorreu no dia 9 de julho de 1932, e o prédio onde funcionava foi demolido para ampliação da Assistência Municipal, atual Instituto Dr. José Frota. 

fontes:
A Tela Prateada, de Ary Bezerra Leite
Fortaleza Velha, de João Nogueira
Reportagem publicada no Jornal Correio do Ceará, edição de terça-feira, 21 de maio de 1968.  
fotos do livro A Tela Prateada e do Arquivo Nirez