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terça-feira, 26 de março de 2024

A Extinção dos Cinemas Tradicionais

 

A chegada do cinema representou um grande passo em direção a modernidade que a cidade almejava. Chegou timidamente, na forma de bioscópio, despertou curiosidades e começou a tirar a população das rodas de calçadas costumeiras, maneira que o povo encontrava para ocupar as noites, sem luz elétrica, sem rádio, sem TV. A fase de prosperidade começou em 1908 com a chegada do Cinema Di Maio, seguido de diversos outros pequenos cinemas, que fizeram o deleite dos admiradores da sétima arte. 



Mas o cinema começou de fato a ganhar público e investimentos a partir de 1917 com a inauguração do Cine Teatro Majestic-Palace, um belo e luxuoso teatro, com 650 lugares, construído por Plácido de Carvalho. O mesmo empresário  inaugurou em 1921 o Cine Moderno, que desbancou o Majestic em termos de conforto das instalações e preferência do público de maior poder aquisitivo.  O novo cinema foi explorado por Luiz Severiano Ribeiro.

Depois surgiram diversas salas, ligadas a associações e entidades de classes, como o Cine Fênix, o Merceeiros, o Centro Artístico Cearense e outros; a próxima grande sala cinematográfica e ser inaugurada no centro foi o Cine Diogo, de Luiz Severiano Ribeiro que despontava como o grande exibidor que reinava sem concorrentes.   

Os cinemas de Luiz Severiano Ribeiro só conheceram concorrência de peso nos anos 50, quando o empresário Amadeu Barros Leal inaugurou o Cine Jangada, com a promessa de que seria a primeira de treze salas a serem implantadas pela Empresa Cinematográfica do Ceará – CINEMAR. Depois do Jangada foram inaugurados o Cine Araçanga, na esquina das ruas Barão do Rio Branco e Antônio Pompeu; o Cine Samburá, localizado na Rua Major Facundo, entre as Ruas Pedro Pereira e Pedro I; e o Cine Toaçu, na rua General Sampaio, na Praça José de Alencar, todos da CINEMAR.

O Cine Art ocupou o mesmo local do Cine Araçanga, depois que a sala de projeção Amadeu Barros Leal fechou, na esquina da Rua Barão do Rio Branco com Antônio Pompeu. Foi inaugurado no dia 24 de fevereiro de 1959. De vida curta também na rua General Sampaio teve o Cine Rex, abriu em 1940, fechou no ano seguinte.




Cine São Luiz, nos anos 1990 e no dia da inauguração 

Mas o grande acontecimento no mundo dos cinemas ocorreu em 1958 com a inauguração do Cine São Luiz, no dia 23 de março, mais um empreendimento bem-sucedido de Luiz Severiano Ribeiro

Assistir a uma sessão de cinema no São Luiz era acontecimento digno de nota. As sessões tornaram-se uma passarela de elegância, onde desfilavam as moças mais distintas da sociedade, as famílias mais importantes, todos caprichando nas indumentárias.   O São Luiz surgiu como um dos mais luxuosos do Brasil. Dispunha de auditório com área total de 2.653m², 1.300 lugares, palco com recursos para teatro, imponente hall e escadarias para o balcão, piso e revestimento em mármore de Carrara, lustres de cristal importados da Checoslováquia e ricos tapetes. Foi o primeiro a utilizar o então revolucionário Cinemascope, cuja tela era bem mais ampla do que a normal, a implantar o som estereofônico, a oferecer poltronas estofadas e ar-condicionado.

No momento da inauguração, o São Luiz contava com três gerentes, 55 empregados e 17 recepcionistas. O uso do paletó era obrigatório para os homens, e as mulheres espontaneamente, se vestiam com roupas de baile, com muitas joias e adereços como luvas e chapéus. Coisa chique, lugar de alto nível. Com o tempo, o São Luiz começou a se adaptar aos novos tempos. Começou por abolir a exigência do uso de paletó e gravata nos anos 60, a exemplo do que acontecera no Cine Diogo, alguns anos antes.     

Depois do São Luiz, mas sem pretensões de lhe fazer concorrência, surgiu o Cine Fortaleza, Inaugurado em 11 de agosto de 1974. Foi o primeiro cinema de lançamento no sistema em que o filme entrava em cartaz e só saía quando não tivesse mais público. O filme de estreia “Ritmo Quente", passou 189 dias em cartaz, ou seja, sete meses. Ficava na Rua Major Facundo, no local onde funcionou o Cine Samburá.

Uma série de fatores determinaram a decadência desses espaços que durante tantos anos divertiram a população e atraiu um público fiel para suas sessões, especialmente as noturnas. Alguns fecharam por se tornarem obsoletos, sendo substituídos por outras salas de exibição mais modernas, no mesmo endereço; mas a maioria teve seu fim decretado por conta do esvaziamento verificado no centro, determinado pelo aparecimento de novas centralidades, que tiraram do centro o local de convergência na procura por produtos, serviços e diversão. 



interior do Shopping Center Um e arredores do Shopping Iguatemi

A tendência apareceu ainda por volta da metade dos anos 70, com a inauguração do Shopping Center Um, em 1974, na Avenida Santos Dumont. No início dos anos 80 surgiu o Shopping Iguatemi, e consolidou a Aldeota como local de lazer e comércio; o surgimento dos shoppings centers nas regiões da Aldeota e no Cocó contribuíram para a decadência do centro. Esses novos empreendimentos ofereceram salas de projeção com capacidade para no máximo 100 a 400 poltronas. Os antigos cinemas com prédios especialmente projetados para esse fim, com suntuosas salas de espera e mais de mil lugares, são definitivamente coisas do passado. E os filmes atuais estão muito distantes dos charmosos e românticos enredos que eram exibidos nos velhos cinemas do centro.

Cine Majestic – encerrou as atividades em 1968, depois de um incêndio; Cine Moderno – encerrou em 1968 – o prédio foi demolido; Cine Diogo – fechado em 1997 – hoje funciona um centro comercial.

Cine São Luiz – atividades de cinema encerradas em 2005 pelos proprietários do grupo Luiz Severiano Ribeiro. Depois o espaço foi arrendado pelo grupo Fecomércio – Federação do Comércio do Ceará e funcionou até 2010. Atualmente funciona como equipamento cultural mantido pelo governo do Estado. Cine Fortaleza - fechado em 1999; Cine Jangada - fechado em 1996.  



fontes: Fortaleza: cultura e lazer (1945-1960) de Gisafran Nazareno Mota Jucá Os Dourados Anos, de Marciano Lopes Ary Bezerra Leite – A Tela Prateada - História do Ceará, de Airton de Farias. Jornais O Povo e Diário do Nordeste. Publicação www.fortalezaemfotos.com.br. Fotos: Arquivo Nirez, Anuário do Ceará, Jornais. 


  

  

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Histórias de Cinema


 
Desde a evolução do cinema como sétima arte até o apagar das luzes da década de 1940, o maior exibidor cinematográfico do país era o cearense Luiz Severiano Ribeiro, dono de uma poderosa cadeia de salas exibidoras espalhadas por todo o país, principalmente no Rio de Janeiro, então Capital Federal.

Em Fortaleza, à exceção de duas ou três salas pertencentes a irmandades religiosas, todos os cinemas eram monopólio da Empresa Ribeiro, que contava com mais de duas dezenas de cinemas em nossa capital; a Severiano Ribeiro reinava absoluta, sem concorrência que a incomodasse.
Pouco a pouco os seus concorrentes, inclusive os cinemas de bairros conhecidos como “poeiras” foram sendo eliminados pelo poder de expansão do grupo. A empresa de Clóvis Janja mantinha os cinemas Rex - que fechou e foi reaberto anos mais tarde pela Empresa Severiano Ribeiro - o Odeon, na Praça de Otávio Bonfim  e o Santos Dumont. O Cine Diogo que era considerado o mais luxuoso da cidade,  também foi adquirido pelo grupo Severiano Ribeiro. Antes, do Diogo, o Majestic fora a atração dos que buscavam diversão. Tornara-se conhecido como cinema popular e por isso, proporcionava boa renda. Era bastante quente, principalmente durante o dia, pois não dispunha de ventiladores. 

Cine Diogo na Rua Barão do Rio Branco

O Moderno, também pertencente ao grupo, inaugurado 4 anos depois do Majestic, também era bastante frequentado e dispunha de ventiladores, mas  em pequeno número. O Diogo na sua fase inicial dispunha de boa ventilação, mas posteriormente, só se fazia sentir no trecho próximo a tela, local que passou a ser disputado pelos espectadores.

Fora do centro, havia ainda alguns poucos cinemas que atendiam os bairros, como o Cine Familiar, no Otávio Bonfim, o Benfica, na Avenida Visconde de Cauipe e o América, com fundo correspondente ao Colégio Juvenal de Carvalho, no Jardim América.

A esperança de modernização dos cinemas de Fortaleza se concentrara na inauguração do Cine São Luiz, cujo edifício fora iniciado desde o final da década de 1930. A demora no andamento da obra repercutia nas discussões da Câmara Municipal, de onde partiam requerimentos solicitando aceleração das obras. A polêmica acerca da lentidão em se concluir o cinema ampliava-se através dos jornais. O prédio inacabado era tido como “o aleijão que enfeia a Praça do Ferreira”. A critica lembrava o contraste entre a exigência de concessão de licenças para que as residências fossem pintadas, enquanto o amontoado de material de construção permaneceu cercado, durante anos, no centro da cidade.

Cine Cristo-Rei na Avenida Santos Dumont 

No interior dos cinemas, a molecagem da plateia constituía-se motivo de preocupação frequente da Polícia, que chegou a organizar uma campanha de vigilância: “já se pode assistir a uma fita sem ouvir as piadas de mau-gosto, os gritos e assobios. Ontem, onze pessoas foram presas acusadas de promover anarquia”. A ação repressora da polícia também recebia apoio da Câmara Municipal, que se preocupava com a falta de decoro de ocorria nos cinemas da cidade, “onde atuam pessoas mal-educadas e moleques”. O vereador Manoel Lourenço solicitara ao secretário de Polícia para intensificar o policiamento dos chamados cinemas elegantes, a fim de por termo a molecagem que se observava principalmente aos domingos.  

O depoimento de frequentadores assíduos dos cinemas, revelava os problemas enfrentados por eles, alguns bastante curiosos, que ultrapassavam as costumeiras reclamações contra o calor ou condições inadequadas. Em 1951, um dos impasses enfrentados prendia-se ao final das projeções. A pressa da plateia inquieta, em retirar-se do cinema ao final da exibição: “ os mais apressados se levantavam, levando outros espectadores a fazerem o mesmo. Por isso, muitos fãs de Ingrid Bergman não puderam ver os momentos finais do filme “Sob o Signo de Capricórnio”. 

Rua Barão do Rio Branco com o edifício Digo em 1939

Em fevereiro de 1950, os alicerces da possante indústria foram abalados com a inauguração do Cine Jangada, que veio quebrar o monopólio do grupo já consolidado. Idealizado pelo  empresário Amadeu Barros Leal, o Cine Jangada era na verdade a primeira de treze salas de exibição  que deveriam ser implantadas em Fortaleza pela Empresa Cinematográfica do Ceará (CINEMAR).

Funcionando numa sala adaptada, estreita e comprida, o Cine Jangada não tinha decoração requintada nem os luxos dos concorrentes. A única originalidade ficava por conta da sala de espera, que ficava localizada nos fundos. Na verdade, nem era uma sala, era um terraço-jardim com bancos e palmeiras. Ali também ficavam os sanitários.

Sem hall para as bilheterias, estas foram montadas logo à frente, quase na rua, e os espectadores, tão logo entravam no cinema, já estavam dentro da sala de projeção, e de frente para o público. A tela, portanto, servia de fundo para as bilheterias e para o painel de cartazes. Era exigido aos homens, o uso de paletó e gravata, a exemplo do que já fazia o sofisticado Cine Diogo.

edificio São Luiz, em construção na Praça do Ferreira

Em 1957 o prédio do São Luiz ainda em construção era visita obrigatória de muitas pessoas que frequentavam o Centro. Em fase de acabamento, o prédio atraía curiosos que comentavam admirados sobre os detalhes da construção: a sala de projeção com pintura em alto relevo, tapetes, lustres, paredes e pias de mármore. O São Luiz foi finalmente inaugurado com grande solenidade e a presença muitos convidados, no dia 26 de março de 1958.

fontes:
Fortaleza: cultura e lazer (1945-1960) de Gisafran Nazareno Mota Jucá
Os Dourados Anos, de Marciano Lopes 
fotos do arquivo Nirez

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

No escurinho do cinema (Memórias da Fortaleza dos anos 50)

O cine São Luiz completou 50 anos no dia 26 de março de 2008. Estava com 15 anos quando o São Luiz abriu suas portas. Grande expectativa. A construção durou 20 anos. Foi interrompida por causa da guerra. A obra foi retomada em 1952 e concluída em 1958.

O cinema, criado pelo arquiteto Humberto da Justa Menescal, surgiu no coração de Fortaleza todo em mármore e com lustres tchecos iluminando a sala de espera. A imensa sala de exibição, com mil e duzentas poltronas e uma decoração exuberante, ganhou logo um apelido do “Ceará moleque”: Bolo Confeitado.



Fortaleza, na época com 500 mil habitantes, parou. As pessoas saíram de casa, lotaram os ônibus, foram ver a festa de inauguração. O Pedão, no Abrigo Central, nunca vendeu tanto sanduíche de carne moída e coentro com abacatada. O Pega-Pinto do Mundico teve que colocar mais água no aluá para atender tanta gente. A Leão do Sul, do seu Dimas, pai do Pedro Jorge, não parou de vender caldo de cana com pastel à noite toda. Uma Banda de Música tocava em frente ao São Luiz. A rua, fechada para os automóveis, foi ocupada por uma multidão que queria ver a chegada dos mil e duzentos convidados. Era o sereno.


Na noite de gala foi exibido o filme "Anastácia, a Princesa Esquecida". Dirigido por Anatole Litvak, tinha como estrela a sueca Ingrid Bergman. O cinófilo Jose Augusto Lopes contou, em matéria no Diário do Nordeste, que o filme mostrava a história de uma sobrevivente do massacre de 1917 contra a família do Czar russo.

A praça do Ferreira, que já era famosa pelo seu ventinho que levantava a saia das meninas, ganhava nova atração graças a Luiz Severino Ribeiro. Este filho de Baturité era dono da maior rede de cinemas do país. Só no centro de Fortaleza ele tinha o Diogo, o Majestic, e o Moderno. Acho que o Rex, Nazaré e outros mais populares também pertenciam a ele.

O Majestic era imenso. Tinha o formato de um teatro, com vários andares e geral lá em cima. A entrada para a geral, que tinha o preço mais barato, era por uma porta independente. O pessoal era obrigado a deixar os tamancos na entrada para não fazer barulho no piso de madeira. Na volta, os mais sabidos trocavam seus tamancos velhos por pares mais novos. A grande confusão que se criava só parava com a chegada da polícia. O Moderno, tinha a tela virada para a entrada. O Diogo, na Barão do Rio Branco, até então era o melhor e passou a ser o segundo da cidade depois da abertura do São Luiz.


O jornalista Lustosa da Costa tinha por habito almoçar na Loja de Variedades, aquela que tinha entradas pelas ruas Major Facundo e Barão do Rio Branco. Era o primeiro “self-service” da cidade. Depois ia cochilar no cine Diogo, que tinha mil lugares. Muita gente passou a fazer a mesma coisa no São Luiz, que tinha um sistema de ar condicionado muito mais possante.

Geralmente, nos dias da semana, à tarde, os 1.200 lugares do cinema nunca estavam ocupados. Muitos jornalistas, que naquele tempo cobriam a Assembleia Legislativa, almoçavam no restaurante do Alfredo, que ficava entre a AL e a praça do Ferreira, e depois iam fazer a sesta no cinema. Alguns deputados também aderiam ao conforto das poltronas e roncavam, embalados pela música do filme que estivesse em cartaz. 


Com o paletó no braço, gravata no bolso, eu costumava pegar o Circular 24 ou 25 da empresa São Jorge. Naquele tempo, na minha rua, só o engenheiro José Lino da Silveira, o advogado Aldy Mentor e o médico Mário Mamede tinham automóveis. O ônibus passava em frente minha casa, na Avenida Padre Ibiapina e me deixava no Abrigo Central. Lá mesmo colocava a gravata, vestia o paletó e ia, animadamente, pegar a fila. Ninguém reclama da demora. Um dia, a namorada do Chico Moura, a Norma, desmaiou na fila.

Uma amiga ainda lembra a tensão que vivia nas filas do São Luiz. Era uma coisa tão marcante que chegou a ter pesadelos. Sonhava que estava na fila, sem calcinha maliciosa. Não era difícil se ouvir o grito de uma mulher reclamando de algum engraçadinho que se aproveitava da confusão da fila para tirar casquinha. Um dia prenderam um tarado que se exibia para uma freira que enfrentava a fila para assistir Marcelino, Pão e Vinho.

O Cine São Luiz tinha algo além do conforto. As superproduções como "Trapézio", "Nunca é Tarde para Esquecer", "Sansão e Dalila", eram exibidas em tela panorâmica. O som estereofônico eletrizava o ambiente, aproximando os casais de namorados e inspirando os gaiatos que faziam piadas em voz alta para alegria da galera. Faz lembrar a Rita Lee com a sua música “No escurinho do cinema....”

A exigência de paletó fez surgir um comércio de aluguel. Os caras guardavam o paletó no Café Cearazinho, na Guilherme Rocha. Reza a lenda da Praça do Ferreira que ganharam muita grana alugando paletó para quem decidia, de última hora, ir ao cinema.
Os lanterninhas do São Luiz estavam atentos para evitar excessos. Um dia, o jornalista Silvio Leite, assim que acabou o filme, resolveu tirar o paletó, os lanterninhas chegaram junto para obrigá-lo a vestir. Silvio, irreverente, perguntou o que eles fariam se ele não colocasse o paletó.
- Você será expulso do cinema - vociferaram.
- Então, me expulsem.

Ora, como todo mundo já estava de saída mesmo, teria sido apenas cômico se os lanternas não tivessem partido para obrigar o jornalista a vestir o paletó. E ele acabou saindo, sem vestir o paletó. Não esqueço a Polícia Estadual, na entrada do cinema, pedindo documento para descobrir falso estudante pagando meia ou menor de idade tentando ver filme impróprio. Sonhava em ser um deles para me exibir para as meninas.

O progresso sempre chega acabando com o tradicional. Descentralizou o comércio. Os bairros ganharam shoppings, os shoppings abriram praças de alimentação, salas de exibição. Ao mesmo tempo, a televisão foi conquistando cada vez mais espaço e tempo das pessoas, provocando uma mudança de habito que afetou a vida das cidades.


A sessão das 21h30, nas noites de domingo, verdadeiro desfile de moda parece coisa de ficção. Há cinquenta e oito anos, homens de terno, mulheres com os últimos lançamentos da moda, usavam a fila do São Luiz como passarela, O povão, em frente, elogiando, criticando, aplaudindo e vaiando. O São Luiz faz parte do patrimônio histórico do Ceará e suas histórias estão tombadas também, em nossa memória.


Memórias de autoria do jornalista Wilson Ibiapina
Disponível em http://www.casadoceara.org.br/index.php?arquivo=pages/blog/perfil_wilson/e0508.php
fotos do arquivo Nirez e do Anuário do Ceará


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A História do Cine São Luiz

Em 1938 quando as picaretas começaram a ser utilizadas na demolição do velho cinema Politheama, nasceu a expectativa de como seria o edifício a ser erguido no local. O projeto abrangia o prédio do Politheama – ultimo  reduto do cinema mudo na cidade – além de alguns imóveis vizinhos, antigos estabelecimentos comerciais, como a Casa Amadeu e a Casa Americana

As obras foram iniciadas em 1938, e por razões que nunca foram claramente explicadas, atravessa os anos 40 com um prédio inacabado, que provoca a admiração e curiosidade popular. Havia a promessa renovada de breve inauguração. No início de 1940, o esperado Cine teatro São Luiz parecia bem próximo, pois o edifício erguia-se imponente, para orgulho dos fortalezenses.  Passam os inesquecíveis anos de guerra, com a Praça do Ferreira ornamentada por um prédio inconcluso, a gerar expectativas e provocar as esperanças populares de um novo e moderno Cine Teatro. 


Nos anos 50 dizia-se acerca do edifício - periodicamente objeto de pequenos trabalhos  internos - que Luiz Severiano Ribeiro nunca o inaugurara porque uma cartomante previra sua morte logo após a abertura do novo cinema. Essa versão é contestada por pessoas de credibilidade, conhecedoras do empresário. A explicação para a demora na inauguração seria a opção feita pelo empresário em priorizar as atividades no Rio de Janeiro, sob forte pressão de concorrentes, e a inauguração relativamente recente do Cine Diogo, que demandara altos investimentos, e o empresário acreditava que, Fortaleza não comportaria um novo cinema de luxo na cidade em tão curto espaço de tempo.


Assim, um bom período transcorre até que a cidade recebesse o luxuoso presente. O Cine São Luiz seria teria sua inauguração solene a 26 de março de 1958, às 21h30min, apresentando a película "Anastácia". Para a imprensa e alguns convidados especiais, a Empresa Luiz Severiano Ribeiro concedera o privilégio, dois dias antes da abertura oficial, de conhecerem o cinema, quando foi exibido o filme “Suplício de uma Saudade”.



A inauguração do Cine São Luiz foi objeto de um documentário realizado pela Atlântida Cinematográfica, com narrativa do afamado repórter Heron Domingues. O filme faz um panorama da cidade, fala dos convidados e da festa de inauguração. à Noite, centenas de curiosos se aglomeram em frente ao São Luiz, para assistir à chegada dos convidados. 

O São Luiz surgia como um dos mais luxuosos do Brasil. Dispunha de auditório com área total de 2.653m², 1.300 lugares, palco com recursos para teatro, imponente hall e escadarias para o balcão, piso e revestimento em mármore de Carrara, lustres de cristal importados da Checoslováquia e ricos tapetes. Foi o primeiro a utilizar o então revolucionário Cinemascope, cuja tela era bem mais ampla do que a normal, a implantar o som estereofônico, a oferecer poltronas estofadas e ar condicionado impecável.

No momento da inauguração, o São Luiz contava com três gerentes, 55 empregados e 17 recepcionistas. O uso do paletó era obrigatório para os homens, e as mulheres espontaneamente, se vestiam com roupas de baile, com muitas joias e adereços como luvas e chapéus.  Durante anos, nas sessões noturnas, principalmente a de 21h30min, nas noites de domingo, populares e frequentadores da Praça do Ferreira, se juntavam na frente do cinema para assistir ao desfile de modas.

Em mensagem  distribuída em impresso no ato inaugural do Cinema, Luiz Severiano Ribeiro saudou os convidados com um breve discurso: 

Entregando o São Luiz ao público cearense, sinto-me feliz de ter podido realizar uma aspiração que sempre tive de dotar Fortaleza com uma casa de espetáculos à altura do seu progresso e do seu povo. O São Luiz está na vanguarda  dos melhores cinemas e com as mais modernas instalações, som e ar condicionado. Saudando o povo de minha terra, sentir-me-ei reconhecido se meus conterrâneos fizerem do São Luiz – o seu cinema.

Com a crescente popularidade da televisão, a fuga de empreendimentos do centro e o surgimento de cinemas nos shopping centers, o Cine São Luiz começou a perder seu público e iniciou um processo de decadência. O primeiro indicativo de que o cinema não era mais o mesmo, foi a abolição do uso de paletó, na tentativa de atingir uma faixa de público mais popular. Com isso, os antigos e tradicionais frequentadores se afastaram de vez.

Em determinada época, a queda de frequentadores se acentuou tanto, que o São Luiz passou a exibir filmes de Kung Fu e pornôs de quinta categoria, com a declarada intenção de aumentar a arrecadação. Tudo em vão: em 18 de agosto de 2005 o grupo Severiano Ribeiro anunciou o encerramento das atividades do Cinema.  O espaço foi arrendado pelo grupo Fecomércio na tentativa de continuar operando, mas o baixo rendimento da bilheteria determinou a inviabilidade de manter o São Luiz em funcionamento, em julho de 2010.

O prédio permaneceu fechado por quatro anos, até começar a ser reformado em dezembro de 2013, numa obra na qual foram gastos em torno de R$ 15 milhões, com foco na modernização das instalações, mantidas as características arquitetônicas originais. Finalmente, em 22 de dezembro de 2014, o equipamento totalmente recuperado, foi reinaugurado 56 anos depois de sua primeira inauguração, com quase toda sua lotação esgotada, uma vez que cerca de 1.100 pessoas compareceram ao evento. 


Pesquisa:

Ary Bezerra Leite – A Tela Prateada

Wikipedia

sábado, 11 de abril de 2015

Um Tal de Burra Preta

Praça do Ferreira nos anos 30

A cidade de Fortaleza, em sua expressão viva, isto é, a partir de pessoas que aqui viveram e que se inscreveram em nossa memória pelos motivos os mais diversos, sempre foi muito pródiga em tipos populares. Nesse sentido, iniciamos uma viagem pelas ruas e praças suspensas no tempo, em busca dessas personagens, resgatando-lhe atitudes, comportamentos, visando, assim, a um retrato o mais nítido possível de uma época que ainda permanece muito viva na memória de alguns. Dentre esses tipos, um obteve grande popularidade: o (a) Burra Preta.


charge do "O Nordeste

Era um homenzarrão exótico e espalhafatoso que vadiava por nossa Cidade. Corpulento, preto acinzentado, grande estatura, pesando em torno  de 120 quilos, quadris arredondados, cintura fina, rebolado feminino, andar apressado, pouco falava, diziam ser pernambucano. Para outros, no entanto, era identificado como natural da Bahia.

Percorria a Praça do Ferreira, alheio aos gracejos que lhe eram dirigidos. Era como se as palavras ou os insultos não lhe dissessem respeito, pois, a rigor, o que visava, antes de tudo, era o reconhecimento de seu sucesso diante do público. Apareceu em nossa Fortaleza, trabalhando em hotéis ou pensões familiares dos anos 50/60. 

Depois, entregou-se à ociosidade, passando a desfilar pelas ruas do centro nos começos e fins de expedientes nos horários mais movimentados. O que, evidentemente, provocava um certo movimento em termos das reações dos passantes, quer se dirigindo ao trabalho, ou mesmo deste retornando.

Os passeios de "Burra Preta" aconteciam durante as manhãs e a tarde depois das 17 horas. Passava defronte o Cine São Luiz, quando a vaia se expandia até a Garapeira da Leão do Sul. Caminhava a passos largos, na Praça do Ferreira, sem dar ou travar conversações com as pessoas; quando muito, pedia cigarro ou "merenda". Usava costumeiramente bermudão de tecido de "veludo", alternados por cores em tonalidade preta, azul marinho ou "Bordeaux", com suspensórios que seguravam a calça pelo cós. Era, por assim dizer, uma fantasia fora de época.

Quando adentrava a Praça, surgia inevitavelmente outra vaia prolongada com galhofadas em tom compassado. A multidão, então, altercava em ritmo bem sonoro: Bur-ra Pre-ta!!! Bur-ra Pre-ta!!! Bur-ra Pre-ta!!! Bur-ra Pre-ta-ta-ta!!! As vozes iam, aos gritos, de um lado para outro. E, mesmo que as pessoas - em especial, os jovens rapazes - estribilhassem com estrondo o Bur-ra Pre-ta!!!, a ele tal manifestação era absolutamente indiferente, não lhe causando, portanto, o menor incômodo.

Parece que, no íntimo, gozava o sucesso que fazia, via-se ovacionado. Sem dar a menor atenção ao que ouvia, colocava os dedos nas atacas das calças e dos suspensórios, balançando as ancas, freneticamente, andando serenamente por entre as árvores, passando, então, por entre os que se apinhavam em ruas ou praças. 

As risadas quebravam a monotonia de quem se apressava para apanhar condução em direção às suas residências, tornando hilariante e pitoresco aquele logradouro por momentos divertidos a todos quanto a essas cenas assistiam. Isso tornava o ambiente citadino mais festivo abrindo ânimo, sorriso dos vendedores de tecidos que se movimentava para mais uma jornada diária nas lojas da Praça do Ferreira, abrindo com alegria o dia de trabalho. Não se podia, em verdade, avaliar-lhe o humor, pois, consoante já afirmamos, praticamente não se comunicava com os outros.

Praça do Ferreira - 1969
A impressão que impunha, a partir de seus comportamentos, era a de quem se exibia a um público imenso, de um palco distante, mas que por sobre este pousassem olhos fixos, atentos. Causava, desse modo, um exuberante espetáculo circense. 


A cidade grande, densamente povoada, perdeu de vista estes tipos que se destacavam pelo comportamento bizarro, pela postura fora de padrão, pelas vestes originais. O Burra Preta foi provavelmente, o último exemplar de uma série, o último a ostentar sua excentricidade numa Fortaleza que já foi mais afetiva.
 

extraído da Crônica de Zenilo Almada
fotos do Arquivo Nirez


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A Primeira Sessão de Cinema

A primeira sessão cinematográfica no Brasil teria ocorrido em 1896, no Rio de Janeiro. Projeções itinerantes aconteceram por esse período país afora, inclusive em Fortaleza – os filmes eram exibidos como curiosidades nos intervalos das apresentações de circo ou em locais públicos, a exemplo de praças, cafés e parques de diversões. Depois, surgiram as salas fixas de exibições. 
O primeiro cinematógrafo de Fortaleza teria surgido em 1908, instalado pelo italiano Vitor di Maio, vindo do Rio de Janeiro – onde também inaugurara o primeiro cinema brasileiro. A seguir, outros cinematógrafos surgiram na capital cearense, como o Rio Branco, do italiano Henrique Mesiano, e o popular Cassino Cearense, de Júlio Pinto, ambos de 1909. 

Júlio Pinto, nascido em Icó, foi um comerciante e industrial dos mais ativos no Ceará no começo do século passado, parente de Nogueira Accioly. Em 1911 aparecia o Cine Polytheama, de José de Oliveira Rola. Havia outras pequenas salas de exibição pela periferia. 

Durante a apresentação dos filmes, que eram mudos, um pianista tocava. Em 1932 chegava à cidade o cinema falado. De início os filmes eram voltados para as camadas populares, como uma diversão barata. O público, sobretudo o masculino, lotava as pequenas salas de exibição. Depois a diversão tornou-se mais elitizada, direcionada para os setores abastados e com filmes dirigidos também para as mulheres. Deixou de ser mera curiosidade para virar um negócio lucrativo. Apesar das salas terem se tornado um espaço elitizado, eram comuns as reclamações quanto à gritaria e molecagens do público, além do forte cheiro de cigarro durante as sessões. 

Cine teatro Majestic Palace 
foi construído pelo comerciante Plácido de Carvalho, com endereço na Rua Major Facundo. Encerrou suas atividades em 1968, quando um grande incêndio destruiu a sala de projeção. 

Cine Moderno
Ficava na Rua Major Facundo vizinho ao Majestic. Foi construído por Plácido de Carvalho, inaugurado em 1922 e explorado comercialmente por Luiz Severiano Ribeiro. Também encerrou as atividades em 1968, em decorrência de um incêndio em suas instalações. 

Em 1917 surgiria o Majestic Palace, o primeiro grande e moderno cinema da capital, situado na Praça do Ferreira. Também ocorria ali a apresentação de peças teatrais, de artistas e até luta de boxe! No ano de 1921 apareceu o Cine Moderno. Somente em 1940 e 1958 surgiriam cinemas de igual porte, o Diogo e o São Luiz respectivamente. Eram prédios luxuosos, visando atender ao bom gosto das elites em seu lazer. Os citados cinemas e luxo foram criados por um dos negocistas mais conhecidos no País no ramo de exibições cinematográficas: Luiz Severiano Ribeiro.


Nascido em Baturité, no ano de 1895, Luiz Severiano Ribeiro conseguiu destaque no comércio de Fortaleza como proprietário de livrarias e papelarias. Buscando diversificar os negócios, entrou para a atividade de exibição de filmes – em 1915 inaugurava o Cine Riche, em parceria com Alfredo Salgado, rico comerciante local.

Cine Diogo 
Instalado no térreo do Edifício Diogo, foi inaugurado em 1940, na Rua Barão do Rio Branco. Era propriedade de Luiz Severiano Ribeiro.

 inaugurado em 26 de março de 1958, construído por Luiz Severiano Ribeiro. Foi o maior e o mais luxuoso cinema do centro.  

Fundou vários cinemas, especialmente os luxuosos, que eram uma tendência da época em outras cidades do mundo – com um público mais abonado. Os lucros também seriam maiores. Os cinemas concorrentes acabaram falindo e Severiano Ribeiro passou a monopolizar a atividade, não só de exibição, mas também de distribuição de filmes nos anos 1920. Chegava a pagar aos concorrentes para manterem suas salas fechadas. 

Logo expandiu os negócios e o monopólio para outros estados do País – mudou-se para o Rio de Janeiro em 1926. Em sociedade com empresas cinematográficas dos EUA, conseguiu o direito de exibir com exclusividade os lançamentos de filmes em seus cinemas (depois, as películas iriam para outras salas de exibições). Nesse lucrativo esquema, edificou um verdadeiro império de cinemas. Faleceu em 1971.

Extraído do livro 
História do Ceará, de Airton de Farias. 
fotos do Arquivo Nirez