sábado, 11 de abril de 2015

Um Tal de Burra Preta

Praça do Ferreira nos anos 30

A cidade de Fortaleza, em sua expressão viva, isto é, a partir de pessoas que aqui viveram e que se inscreveram em nossa memória pelos motivos os mais diversos, sempre foi muito pródiga em tipos populares. Nesse sentido, iniciamos uma viagem pelas ruas e praças suspensas no tempo, em busca dessas personagens, resgatando-lhe atitudes, comportamentos, visando, assim, a um retrato o mais nítido possível de uma época que ainda permanece muito viva na memória de alguns. Dentre esses tipos, um obteve grande popularidade: o (a) Burra Preta.


charge do "O Nordeste" 

Era um homenzarrão exótico e espalhafatoso que vadiava por nossa Cidade. Corpulento, preto acinzentado, grande estatura, pesando em torno  de 120 quilos, quadris arredondados, cintura fina, rebolado feminino, andar apressado, pouco falava, diziam ser pernambucano. Para outros, no entanto, era identificado como natural da Bahia.

Percorria a Praça do Ferreira, alheio aos gracejos que lhe eram dirigidos. Era como se as palavras ou os insultos não lhe dissessem respeito, pois, a rigor, o que visava, antes de tudo, era o reconhecimento de seu sucesso diante do público. Apareceu em nossa Fortaleza, trabalhando em hotéis ou pensões familiares dos anos 50/60. 

Depois, entregou-se à ociosidade, passando a desfilar pelas ruas do centro nos começos e fins de expedientes nos horários mais movimentados. O que, evidentemente, provocava um certo movimento em termos das reações dos passantes, quer se dirigindo ao trabalho, ou mesmo deste retornando.

Os passeios de "Burra Preta" aconteciam durante as manhãs e a tarde depois das 17 horas. Passava defronte o Cine São Luiz, quando a vaia se expandia até a Garapeira da Leão do Sul. Caminhava a passos largos, na Praça do Ferreira, sem dar ou travar conversações com as pessoas; quando muito, pedia cigarro ou "merenda". Usava costumeiramente bermudão de tecido de "veludo", alternados por cores em tonalidade preta, azul marinho ou "Bordeaux", com suspensórios que seguravam a calça pelo cós. Era, por assim dizer, uma fantasia fora de época.

Quando adentrava a Praça, surgia inevitavelmente outra vaia prolongada com galhofadas em tom compassado. A multidão, então, altercava em ritmo bem sonoro: Bur-ra Pre-ta!!! Bur-ra Pre-ta!!! Bur-ra Pre-ta!!! Bur-ra Pre-ta-ta-ta!!! As vozes iam, aos gritos, de um lado para outro. E, mesmo que as pessoas - em especial, os jovens rapazes - estribilhassem com estrondo o Bur-ra Pre-ta!!!, a ele tal manifestação era absolutamente indiferente, não lhe causando, portanto, o menor incômodo.

Parece que, no íntimo, gozava o sucesso que fazia, via-se ovacionado. Sem dar a menor atenção ao que ouvia, colocava os dedos nas atacas das calças e dos suspensórios, balançando as ancas, freneticamente, andando serenamente por entre as árvores, passando, então, por entre os que se apinhavam em ruas ou praças. 

As risadas quebravam a monotonia de quem se apressava para apanhar condução em direção às suas residências, tornando hilariante e pitoresco aquele logradouro por momentos divertidos a todos quanto a essas cenas assistiam. Isso tornava o ambiente citadino mais festivo abrindo ânimo, sorriso dos vendedores de tecidos que se movimentava para mais uma jornada diária nas lojas da Praça do Ferreira, abrindo com alegria o dia de trabalho. Não se podia, em verdade, avaliar-lhe o humor, pois, consoante já afirmamos, praticamente não se comunicava com os outros.

Praça do Ferreira - 1969
A impressão que impunha, a partir de seus comportamentos, era a de quem se exibia a um público imenso, de um palco distante, mas que por sobre este pousassem olhos fixos, atentos. Causava, desse modo, um exuberante espetáculo circense. 


A cidade grande, densamente povoada, perdeu de vista estes tipos que se destacavam pelo comportamento bizarro, pela postura fora de padrão, pelas vestes originais. O Burra Preta foi provavelmente, o último exemplar de uma série, o último a ostentar sua excentricidade numa Fortaleza que já foi mais afetiva.
 

extraído da Crônica de Zenilo Almada
fotos do Arquivo Nirez


Um comentário:

Unknown disse...

O Burra Preta nào era conto folclórico nào, era verdadeiro e real.Em 1979 tinha passado no vestibular e comecei a estudar na UNIFOR, eu morava na Caucaia, ia de ônibus para a universidade, um certo dia, vinha eu e um amigo também aluno da faculdade de nome Artemisio Conde Goes e como sempre descíamos no final da linha do ônibus na praça dos Leões e seguimos a pé até a praça da Lagoinha para pegar-mos o outro ônibus com destino a Caucaia. Era exatamente 12:15h quando começamos a atravessar a praça do Ferreira quando começou os gritos" burra Preta, uns fazia o som de tiro "pá " é vimos que o burra Preta vinha no sentido contrário em nossa direção. Eu era magrinho na epoca, mas o meu amigo Artemisio era um corpo atlético, de modelo, aliás nessa época ele fazia parte do grupo de modelo das lojas Ocapana, fazia desfiles, comerciais de TV da loja, etc, e o Artemisio quando viu o burra Preta vindo mesmo de frente com agente , vindo ao nosso encontro tirou a lapiseira do bolso, ficou com ela na mão e me disse , te prepara que o burra Preta tem mania de agarrar os homens aqui na praça é se esse fdp vir me agarrar eu pranto esse lapiseira na cara dele. Foi dito e feito , o burra Preta quando tava a uns 3m de distância da gente disse" quando eu vejo um homem bonito na minha frente nem que eu me lasquem mas faço o que me vem na cabeça ", é sabe o que aconteceu? Ele chegando de frente com agente , do Artemisio, agarrou no saco e no bola do Artemisio, daí a praça do Ferreira explodiu de gargalhadas, aquela turma que acompanhava mesmo de longe o burra Preta não perderam a oportunidade de sacanear, é o Artemisio ficou tão assombrado e envergonhado que até a lapiseira caiu da sua mão e nem reação ele teve de agredir o burra Preta.A gozação contra o Artemisio no dia seguinte na faculdade e até algo de um mês seguido por causa desse episódio foi inevitável, primeiro que eu não ia perder a oportunidade de contar esse fato para os colegas da turma, é também teve outros alunos mesmo não sendo da nossa mesma turma (classe) também presenciaram o fato é não perdiam a oportunidade de gozar com o Artemisio, chamado-o de " o Amor do burra Preta!".