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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Fortaleza no Pós-Guerra: de Francesa para Americana

Na segunda metade dos anos quarenta, terminada a Segunda Guerra Mundial, enquanto a Europa tentava recuperar-se dos estragos causados pelo conflito, os americanos emergiram como os novos heróis, os vencedores que derrubaram Hitler e seus aliados.

O Estoril na Praia de Iracema era o reduto dos soldados norte-americanos em Fortaleza durante a 2a. Guerra

Em toda América Latina os americanos viram aumentar o prestígio e a idolatria pelos bravos soldados do Tio Sam. Nada mais natural para essas populações, inclusive a do Brasil, do que aderir à emergente cultura proveniente da América do Norte, o que significava, dentre outras coisas, aceitar as grandes invenções americanas: os utensílios de plástico, o pirex, as meias de nylon, a caneta esferográfica, além é claro, da Coca-Cola e outras bugigangas. 

Fortaleza, que antes da guerra estivera sob jugo da moda francesa, de onde eram importados tecidos finos, chapéus, vestidos, sapatos e perfumes, de repente, encantou-se pelas quinquilharias americanas. Já não eram as sofisticadas vitrines da Casa Sloper e da Broadway que chamavam a atenção; antes da guerra, maravilhosa era a Alemanha, grande parceira econômica com seus gênios inventores, onde o Brasil comprava máquinas e carros, e vendia grãos, matéria-prima e até armas. 

Passeio Público no tempo da Belle Epoque: chapéus, ternos e belos vestidos inclusive para as crianças (1920) 

A França mandava a frescura na forma de moda, de hábitos culturais, de artes e no modelo de urbanização. Agora, porém, a coisa estava mudando, e Tio Sam com sua festiva cartola estrelada começava a exercer sua influência sobre os ingênuos habitantes do Terceiro Mundo. E não foram só as quinquilharias que causaram sensação por aqui: a música latina, bem alegre e vibrante, as danças sensuais, a moda, a gastronomia, e a arquitetura. Os filmes encontraram espaço nos salões e nos cinemas da cidade e os colégios católicos passaram a priorizar o inglês como segunda língua, em vez do francês. Os jovens mascavam chicletes, tomavam Coca-Cola e dançavam Fox. Os mais velhos dançavam ao som de Glenn Miller e dos ritmos caribenhos. 

Fortaleza antes e depois da 2a. Guerra

Em frente as lojas do centro se juntavam pequenas multidões para assistir as demonstrações das novas aquisições. Nas Lojas de Variedades na Praça do Ferreira, os vendedores mostravam as maravilhas do plástico – através de copos que não quebravam mesmo quando eram arremessados ao chão – e do pirex, o novo vidro miraculoso que podia ir ao forno sem quebrar, para uma plateia que assistia tudo de boca aberta, queixo caído, maravilhada diante de tantas novidades.


Lojas de variedades, no centro de Fortaleza 

Mas sucesso mesmo fizeram as meias de nylon: primeiro correu a notícia de que os americanos tinham inventado uma “meia de vidro”. Seria tão fina e transparente que podia ser lavada e usada em seguida, pois secava instantaneamente. Logo depois as meias de nylon chegaram às vitrines e causaram furor; as tradicionais meias de seda foram deixadas de lado, as mulheres tinham prazer em ostentar a novidade que mostrava até os poros das pernas. Uma sensação! As vitrines mostravam as raridades como se fossem joias preciosas.

O plástico aumentou a família na forma de bacias, baldes, tigelas, pratos e até penicos. Então lançaram a grande novidade: o plástico em forma de tecidos, em peças estampadas. As mulheres não perderam tempo. Fizeram vestidos e desfilavam na esquina da Broadway. Mas logo abandonaram o modismo porque o vento não levantava suas saias e por causa do calor que fazia. Jogaram os vestidos no lixo, para só depois descobrirem que a novidade servia era para fazer cortinas de banheiro. 

Assim se deu a transição da elegante Fortaleza à francesa para a cidade americanizada: uma cidade seduzida por plásticos, pirex, e meias de ”vidro”.


extraído do livro: 
Royal Briar - A Fortaleza dos anos 40, de Marciano Lopes 
fotos IBGE e arquivo Nirez

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

No escurinho do cinema (Memórias da Fortaleza dos anos 50)

O cine São Luiz completou 50 anos no dia 26 de março de 2008. Estava com 15 anos quando o São Luiz abriu suas portas. Grande expectativa. A construção durou 20 anos. Foi interrompida por causa da guerra. A obra foi retomada em 1952 e concluída em 1958.

O cinema, criado pelo arquiteto Humberto da Justa Menescal, surgiu no coração de Fortaleza todo em mármore e com lustres tchecos iluminando a sala de espera. A imensa sala de exibição, com mil e duzentas poltronas e uma decoração exuberante, ganhou logo um apelido do “Ceará moleque”: Bolo Confeitado.



Fortaleza, na época com 500 mil habitantes, parou. As pessoas saíram de casa, lotaram os ônibus, foram ver a festa de inauguração. O Pedão, no Abrigo Central, nunca vendeu tanto sanduíche de carne moída e coentro com abacatada. O Pega-Pinto do Mundico teve que colocar mais água no aluá para atender tanta gente. A Leão do Sul, do seu Dimas, pai do Pedro Jorge, não parou de vender caldo de cana com pastel à noite toda. Uma Banda de Música tocava em frente ao São Luiz. A rua, fechada para os automóveis, foi ocupada por uma multidão que queria ver a chegada dos mil e duzentos convidados. Era o sereno.


Na noite de gala foi exibido o filme "Anastácia, a Princesa Esquecida". Dirigido por Anatole Litvak, tinha como estrela a sueca Ingrid Bergman. O cinófilo Jose Augusto Lopes contou, em matéria no Diário do Nordeste, que o filme mostrava a história de uma sobrevivente do massacre de 1917 contra a família do Czar russo.

A praça do Ferreira, que já era famosa pelo seu ventinho que levantava a saia das meninas, ganhava nova atração graças a Luiz Severino Ribeiro. Este filho de Baturité era dono da maior rede de cinemas do país. Só no centro de Fortaleza ele tinha o Diogo, o Majestic, e o Moderno. Acho que o Rex, Nazaré e outros mais populares também pertenciam a ele.

O Majestic era imenso. Tinha o formato de um teatro, com vários andares e geral lá em cima. A entrada para a geral, que tinha o preço mais barato, era por uma porta independente. O pessoal era obrigado a deixar os tamancos na entrada para não fazer barulho no piso de madeira. Na volta, os mais sabidos trocavam seus tamancos velhos por pares mais novos. A grande confusão que se criava só parava com a chegada da polícia. O Moderno, tinha a tela virada para a entrada. O Diogo, na Barão do Rio Branco, até então era o melhor e passou a ser o segundo da cidade depois da abertura do São Luiz.


O jornalista Lustosa da Costa tinha por habito almoçar na Loja de Variedades, aquela que tinha entradas pelas ruas Major Facundo e Barão do Rio Branco. Era o primeiro “self-service” da cidade. Depois ia cochilar no cine Diogo, que tinha mil lugares. Muita gente passou a fazer a mesma coisa no São Luiz, que tinha um sistema de ar condicionado muito mais possante.

Geralmente, nos dias da semana, à tarde, os 1.200 lugares do cinema nunca estavam ocupados. Muitos jornalistas, que naquele tempo cobriam a Assembleia Legislativa, almoçavam no restaurante do Alfredo, que ficava entre a AL e a praça do Ferreira, e depois iam fazer a sesta no cinema. Alguns deputados também aderiam ao conforto das poltronas e roncavam, embalados pela música do filme que estivesse em cartaz. 


Com o paletó no braço, gravata no bolso, eu costumava pegar o Circular 24 ou 25 da empresa São Jorge. Naquele tempo, na minha rua, só o engenheiro José Lino da Silveira, o advogado Aldy Mentor e o médico Mário Mamede tinham automóveis. O ônibus passava em frente minha casa, na Avenida Padre Ibiapina e me deixava no Abrigo Central. Lá mesmo colocava a gravata, vestia o paletó e ia, animadamente, pegar a fila. Ninguém reclama da demora. Um dia, a namorada do Chico Moura, a Norma, desmaiou na fila.

Uma amiga ainda lembra a tensão que vivia nas filas do São Luiz. Era uma coisa tão marcante que chegou a ter pesadelos. Sonhava que estava na fila, sem calcinha maliciosa. Não era difícil se ouvir o grito de uma mulher reclamando de algum engraçadinho que se aproveitava da confusão da fila para tirar casquinha. Um dia prenderam um tarado que se exibia para uma freira que enfrentava a fila para assistir Marcelino, Pão e Vinho.

O Cine São Luiz tinha algo além do conforto. As superproduções como "Trapézio", "Nunca é Tarde para Esquecer", "Sansão e Dalila", eram exibidas em tela panorâmica. O som estereofônico eletrizava o ambiente, aproximando os casais de namorados e inspirando os gaiatos que faziam piadas em voz alta para alegria da galera. Faz lembrar a Rita Lee com a sua música “No escurinho do cinema....”

A exigência de paletó fez surgir um comércio de aluguel. Os caras guardavam o paletó no Café Cearazinho, na Guilherme Rocha. Reza a lenda da Praça do Ferreira que ganharam muita grana alugando paletó para quem decidia, de última hora, ir ao cinema.
Os lanterninhas do São Luiz estavam atentos para evitar excessos. Um dia, o jornalista Silvio Leite, assim que acabou o filme, resolveu tirar o paletó, os lanterninhas chegaram junto para obrigá-lo a vestir. Silvio, irreverente, perguntou o que eles fariam se ele não colocasse o paletó.
- Você será expulso do cinema - vociferaram.
- Então, me expulsem.

Ora, como todo mundo já estava de saída mesmo, teria sido apenas cômico se os lanternas não tivessem partido para obrigar o jornalista a vestir o paletó. E ele acabou saindo, sem vestir o paletó. Não esqueço a Polícia Estadual, na entrada do cinema, pedindo documento para descobrir falso estudante pagando meia ou menor de idade tentando ver filme impróprio. Sonhava em ser um deles para me exibir para as meninas.

O progresso sempre chega acabando com o tradicional. Descentralizou o comércio. Os bairros ganharam shoppings, os shoppings abriram praças de alimentação, salas de exibição. Ao mesmo tempo, a televisão foi conquistando cada vez mais espaço e tempo das pessoas, provocando uma mudança de habito que afetou a vida das cidades.


A sessão das 21h30, nas noites de domingo, verdadeiro desfile de moda parece coisa de ficção. Há cinquenta e oito anos, homens de terno, mulheres com os últimos lançamentos da moda, usavam a fila do São Luiz como passarela, O povão, em frente, elogiando, criticando, aplaudindo e vaiando. O São Luiz faz parte do patrimônio histórico do Ceará e suas histórias estão tombadas também, em nossa memória.


Memórias de autoria do jornalista Wilson Ibiapina
Disponível em http://www.casadoceara.org.br/index.php?arquivo=pages/blog/perfil_wilson/e0508.php
fotos do arquivo Nirez e do Anuário do Ceará


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Hoje Eu Quero Ser Menino Outra Vez

Crônica de Marciano Lopes

Passeio Público (Praça dos Mártires)

Hoje, eu quero aproveitar o sol da manhã e ir ao Passeio Público e andar entre as alamedas e brincar nos repuxos d’água e nas fontes e “venerar” os deuses olímpicos e sentar nos bancos e debruçar-me sobre o gradil tão antigo e olhar, lá embaixo, a Praia Formosa, cheia de banhistas. 
Porque hoje é domingo...

Bonde Elétrico

Hoje, eu quero embarcar no bonde da Praia de Iracema, para contemplar o luar e rever as ruas estreitas que lembram cada uma, nossas dizimadas tribos. Cadê os bélicos Tabajaras, os altivos Potiguaras, os Tremembés os Cariris, os Tigipiós, os Pacajus, os Ararius, os Guanacés, os Groaíras? Todos dormem o sono dos injustiçados. Só alguns espreitam nas tabuletas esmaltadas das esquinas. 
Porque é tempo de conferir remorsos...


Hoje, eu quero ir à Praça da Lagoinha e “viajar” em águas dançantes, com hipocampos e nereidas. E sentar, contemplativo, num banco e ver babás empurrando carrinhos de bebês e colher uma rosa num canteiro e ofertar à menininha de cachos. 
Porque é tempo de romantismo infantil...

 Praça da Lagoinha

Hoje, eu quero sair na madrugada e vagar, sem rumo, pela geografia da Aldeota e “ouvir” o silêncio e sentir a brisa no rosto e embriagar-me com o doce perfume dos cajueiros em flor. 
Porque é tempo de meditações...

Aldeota - Avenida Santos Dumont

Hoje, eu quero entrar no Cine Moderno e descobrir, fora da tela, dois castelos quase escondidos no emaranhado da floresta. E rever Sabu e Bibi Ferreira, viajando até o fim do Rio. 
Porque é tempo de atriz brasileira, no cinema inglês...

 prédio do Cine Moderno

Hoje, eu quero sair sem rumo, conferindo as coisas da cidade, vagar sem pressa, sem medo dos “muxicões” de Zelfa, nem dos “sermões” de Esaú. E encontrar o Lustosa da Costa, cantando loas à nossa amada Fortaleza e convidá-lo para um cafezinho amigo, no Café Sport, dos irmãos Emygdio. 
Porque é tempo de confraternização...

 Café Sport dos irmãos Emydgio final dos anos 30 (acervo particular)

Hoje, eu quero ver as vitrines da Rianil; os globos coloridos da Pharmacia Oswaldo Cruz; as manequins da Casa Sloper; o retrato da Cyres Braga no Foto Moderno; a grande estátua de  Mercúrio na Cia. Quixadá; o entalhado biombo na entrada do London Bank
Porque é tempo de rever o belo...


Casa onde funcionou o London Bank

Hoje, eu quero adentrar o Tarcísio Magazine e encontrar a Clarlene Girão, comprando produtos de maquilagem. 
Porque é tempo de encenações no Teatro Pio X...

Cine Diogo - bilheteria

Hoje, eu quero ir à alfaiataria do Mário Cunto, encomendar um terno de tropical inglês, azul-marinho, para poder entrar no Cine Diogo e ver Lawrence Olivier, brincando de ser “Hamlet”.   
Porque é tempo de ser ou não ser...

 Rua 24 de Maio

Hoje, eu quero encontrar a Celina Maria e leva-la à casa das irmãs Freire, na Rua 24 de maio. Lá estará a Leilah Carvalho e a Klébea Marinho, o Orlando Leite e o Álvaro Moreno, o Fernando Marinho e a Odete Araújo. E haverá sarau com cantos líricos e piano a quatro mãos. E terá guaraná e sequilhos.
Porque é tempo de reverenciar uma infanta morta...

 Itapuca Villa, a residência de Alfredo Salgado

Hoje, eu quero passar pela Rua Guilherme Rocha, no rumo do Jacarecanga e parar, respeitoso, defronte à Itapuca Villa e ficar olhando Alfredo Salgado, com sua longa casaca negra e os vastos cabelos brancos e a farta barba da cor de algodão, sentado na varanda de sua mansão, contemplando o imenso jardim. 
Porque é tempo de rever nossa história...

Praça do Coração de Jesus

Hoje, eu quero sentir a tranquilidade da Praça Coração de Jesus, deitar e rolar sobre a relva, mirar-me no translúcido espelho d’água, depois, gastar os fundilhos das calças, nos escorregadores da Cidade da Criança. Tudo sob a vigilância dos Doze Apóstolos e do próprio Cristo.  
Porque é tempo de despreocupação de criança...


Hoje, eu quero voltar ao Catecismo, na Igreja de São Benedito e escutar, enlevado, os ensinamentos de Dona Anete Aguiar.  
Porque é tempo de reconhecimento...

Hoje, eu quero acordar de madrugada e escutar o carrilhão da Igreja do Coração de Jesus, chamando para a Missa das quatro. E no silêncio daquela hora, os acordes da Ave Maria de Somma, chegarem aos meus ouvidos, como algo celestial. E imagino o céu e um coro de arcanjos. 
Porque é tempo de acreditar em coisas divinas...  

antiga fachada da Igreja do Coração de Jesus 

Hoje, eu quero brincar de bola, sob os oitizeiros da Avenida Imperador, com Zé Airton, com Leôncio e Leônidas, com Assis, com Zé do Carmo. 
Porque é tempo de sentir saudades dos folguedos infantis...

Avenida do Imperador - década de 1940

Hoje, eu quero adentrar o Cine Rex e encontrar o Oscarito, o Grande Otelo, o Modesto de Souza, o Catalano, a Eliana e o Alberto Ruschell, a Adelaide Chiozzo, a Horacina Correia, o Quitandinhas Serenaders, o Luiz Gonzaga, a Estelita Bell, a Nena Napoli. 
Porque é tempo de paz e o mundo se diverte... 

Praça e Teatro José de Alencar

Hoje, eu quero ir ao Bar Americano, do Salomão Benício na Praça José de Alencar e tomar um aluá bem geladinho. E comprar uma ficha e colocar naquela radiola cheia de luzes coloridas. Depois, a música no ar, ir até o centro da Praça, deitar-me num banco e cochilar, escutando cantos de pássaros e arrulhos de namorados.  
Porque é tempo de segurança...

Hoje, eu quero andar a esmo e encontrar a Patrícia Medina, a Maurren O’Hara, a Linda Darnell, a Maria Montez, a Dolores del Rio, a Arlene Dall, a Cyres Braga.
Porque é tempo de beleza plena...  

 Sorveteria da Lojas de Variedades

Hoje, eu quero levar a Tereza Moura, para merendar um cachorro-quente com guaraná Kacique na Sorveteria Variedades.  
Porque é tempo de fraternidade...

Hoje, eu quero encontrar Pedro Rossi para uma sessão nostálgica. Vamos recordar coisas dos anos dourados, entre móveis seculares, santos barrocos, biscouits franceses. 
Porque é tempo de muita saudade...
Neide Maia
Hoje, eu quero encontrar toda a gente que eu gosto, o José Augusto Lopes, a Neide Maia, o João Ramos, a Adísia Sá, a Maninha, a Sônia Pinheiro, a Ítala Márcia, a Ângela Borges, o Gilmar de Carvalho e mais um punhado de pessoas. E juntar todo mundo e levar para que todos vejam como é gostoso viver nos anos quarenta. 
Porque é tempo de dividir venturas. 

Do livro
Royal Briar, a Fortaleza dos anos quarenta.
fotos do Arquivo Nirez

 

domingo, 14 de outubro de 2012

As Elegantes Lojas do Centro

Lá pelos anos 40/50,  a loja mais importante de Fortaleza era a Casa Sloper, que integrava uma famosa rede nacional que tinha matriz no Rio de Janeiro. Era estabelecimento especializado  em alta moda: vestidos para todas ocasiões, lingerie, calçados, meias, luvas e chapéus, bijuterias, perfumaria e cosmética etc.  
A Casa Sloper era tão sofisticada que causava inibição a muita gente, salvo às senhoras muito elegantes, já habituadas à frequência a estabelecimentos comerciais de alto luxo, inclusive, às matrizes, na então Capital Federal, o Rio de Janeiro, onde o melhor acontecia.

Casa Sloper entre o edificio Granito e o Edificio São Luís, ainda em construção. No térreo do Ed. Granito funcionava a Broadway, loja de tecidos finos. Foto do arquivo Nirez)

Quando aconteceu o fechamento da Casa Sloper, o já sofisticado endereço não foi posto de lado, ao contrário, um comerciante de reconhecido bom gosto assumiu o local. Era Romeu Aldigheri, paulista de origem italiana que já era dono dos maiores magazines locais, as Lojas de Variedades, duas unidades, em pontos especiais, no Centro da cidade. 

A mesma esquina algum tempo depois, já com a loja Flama, no lugar da Sloper (arquivo Nirez)

Pois, no mesmo local da extinta Casa Sloper foi aberta uma loja do mesmo nível, a Flama, que marcou presença enquanto ficou em cena. A exemplo de sua antecessora ocupava local em plena Praça do Ferreira, entre a elegante Broadway, loja de tecidos finos e o futuro Cine São Luiz, ainda em obras para ser o mais luxuoso cinema do Brasil. Pois é, a Flama foi instalada naquele "point" tão aristocrático que marcou época no nosso mundo de elegância.

A Flama mudou comportamentos, impôs parâmetros e fez história na cidade, apoiada no slogan "Simbolo de Distinção" (foto do blog do Laprovitera)

Outro estabelecimento da maior importância que assinalou sua permanência em Fortaleza, foi A Cearense, loja especializada em tecidos finos, ocupando instalações amplas e luxuosas, no meio do quarteirão Sucesso, na Rua Barão do Rio Branco, entre as ruas Guilherme Rocha e Liberato Barroso. Seu proprietário, Aprígio Coelho de Araújo era reconhecido por seu notório bom gosto, haja vista a maneira como mantinha seu estabelecimento comercial. A loja era composta por vastos salões e as artísticas vitrines que eram uma grande marca da  casa.  
O alto nível e visível bom gosto de Aprígio Coelho era motivo para comentários generalizados. Daí, cada vez ele ampliava e melhorava sua big loja.

A Cearense investiu bastante na decoração da loja e era um dos espaços mais requintados de Fortaleza na década de 40. Tinha como slogan “a casa que cresce diminuindo os preços”


 A Casa Parente Foi inaugurada em 10 de junho de 1914 por Inácio Parente, no velho sobrado do Comendador Machado, onde hoje se localiza o edifício Excelsior. Em 1923 mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco esquina com Guilherme Rocha.(Arquivo Nirez)

Na esquina da mesma Rua Barão do Rio Branco com a Rua Guilherme Rocha, ficava a Casa Parente, loja de moderníssimas instalações que atendia tanto no setor de roupas feitas quanto no ramo da perfumaria e congêneres. Sem qualquer exagero, um mundo delicioso dos mais deliciosos aromas. Casa Parente, do também saudoso, Inacinho Parente.


texto reproduzido da coluna Tirada do Baú, de Marciano Lopes

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

As Sessões de Cinema na Fortaleza (nem tão) Antiga

Edifício Diogo, na Barão do Rio Branco onde funcionava o cinema

O Cine Diogo, aos domingos, na sessão das quatro, era a passarela do desfile de moda e elegância da cidade. As mulheres compareciam com seus vestidos mais caros, sapatos “carinha de bebê”, meias soquete. 

Em certa época passaram a usar “solidéu”, uma boininha moda nos anos 1950.  No tempo de “Gilda”, filme estrelado por Rita Hayworth, a moda era usar o mesmo modelo de blusa da atriz, estilo “tomara que caia”, com saia godê. 

o figurino usado pela atriz no filme Gilda ganhou adeptas em Fortaleza

Os homens, por sua vez, eram obrigados a usar paletó para ter acesso ao então luxuoso cinema. Mas a maioria, que não possuía a indumentária, recorria ao Osmar Damasceno, na Cabana, lanchonete da esquina da Rua Guilherme Rocha com Barão do Rio Branco. É que o Damasceno em questão, alugava um paletó que era mantido ao lado do caixa, com o compromisso de ser devolvido logo que terminasse a sessão. 

Lanchonete A Cabana, na esquina da Guilherme Rocha com Barão do Rio Branco

De modo que os rapazes não tinham a oportunidade de fazer o chamado “footing”, usando o paletó do Damasceno. O “footing” era o hábito de circular o quadrilátero entre as Ruas Barão do Rio Branco, Major Facundo, Liberato Barroso e Guilherme Rocha, com parada quase obrigatória na sorveteria das Lojas de Variedades.
Muitas histórias foram contadas no Cine Diogo, tanto na tela do cinema quanto fora dela.

A portaria e a entrada lateral do Cine Diogo

Um dos acontecimentos mais representativos da ingenuidade dominante e do espírito moleque que sempre animou a alma cearense, foi por ocasião da exibição do filme “E o Vento Levou”, que chegou por aqui com muitos anos de atraso, o mundo inteiro já tinha visto.

Diante da informação de que a fita teria nada menos de quatro horas de projeção, os frequentadores trataram de se prevenir: compareceram portando sacolinhas contendo merendas e guloseimas. 

Os mais abonados levaram sanduíches das “Lojas de Variedades”, enquanto os mais “quebrados” foram munidos dos famosos “cai-duro” acompanhados de garapa, manjares cuidadosamente preparados no Pega-pinto do Mundico, uma das referências da Praça do Ferreira.

Outro acontecimento diz respeito a uma das célebres sessões das quatro do Diogo.
Uma turma comandada por um certo “Pinduca”, morador da Rua 24 de maio, levou para dentro do cinema, alguns pombos. Num dos momentos mais emocionantes da fita, os pássaros foram soltos na sala escura, causando uma tremenda confusão. 

Luzes acesas, caçada difícil aos pombos assustados e indóceis, um rebuliço, até tudo voltar a normalidade. Os autores da brincadeira, (oficialmente), nunca foram descobertos. No Diogo, onde a frequência era na maioria de ricos, fatos assim ficavam por isso mesmo. 

Fosse no Majestic, já que era frequentado também pelo canelau, rapidamente, uma fila inteira da geral desceria sob as ordens e o rebenque do inspetor Apolinário, o carrasco da época.
Aliás, no Majestic, havia algo inusitado e nunca visto em nenhum outro lugar do mundo: era proibido entrar na geral usando tamancos. 

Quem chegasse calçado desse modo, teria de deixá-los na portaria e apanhá-los na saída, porque os donos dos tamancos seriam os responsáveis pela insuportável barulheira nos momentos mais emocionantes da série “A Sombra do Escorpião”, dentre outros seriados.



Outra ocorrência inesquecível foi o dia em que o ator Orson Welles foi barrado no Diogo. Nesse dia a Rua Guilherme Rocha foi palco de uma aglomeração invulgar, que logo se esclareceria. 

O Ator e diretor de Hollywood, Orson Welles, hospedado no Excelsior Hotel, viera a Fortaleza para filmar a história dos jangadeiros cearensesSaiu do hotel usando uma espalhafatosa camisa multicolorida, por fora das calças e exibindo um penteado revolto. Dirigiu-se para o Diogo, certamente para conhecer a principal casa exibidora da cidade. Uma multidão seguia seus passos. O que aconteceu a seguir, só aqui mesmo, e em mais nenhum outro lugar, em se tratando de um famoso diretor de cinema. 

Naquela época o Cine Diogo exigia o uso de paletó para ingresso em suas dependências. E Orson Welles estava esportiva e desalinhadamente trajado. Foi o bastante para ter sua entrada impedida no cinema. Gritos e confusões marcaram o evento: Orson Welles, um dos mais aplaudidos atores de Hollywood, hóspede ilustre que a cidade recebia, passou pelo vexame de não poder conhecer o cinema em cuja tela tantas vezes despontou como astro. Seu "Cidadão Kane" foi escolhido, reiteradas vezes, em diversos países, como o melhor filme já realizado.
Nem por isso teve direito a entrar sem paletó no Cine Diogo.
  

extraído do livro
Sessão das Quatro, cenas e atores de um tempo mais feliz  
de Blanchard Girão  
fotos antigas: arquivo Nirez
foto Orson Welles: Blanchard Girão (imagem do livro)