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terça-feira, 7 de março de 2017

Os Pioneiros do Comércio em Fortaleza

Fundada em 1821, a Farmácia Theodorico foi a primeira farmácia de Fortaleza

No meio do terceiro quarteirão da Rua Major Facundo, erguia-se um velho sobrado residencial, com muitas portas no pavio térreo e apenas duas ou três janelas no andar superior, de propriedade do português José Smith de Vasconcelos. Chegando ao Ceará em 1831, esse português fez fortuna como panificador em Fortaleza, foi proprietário de “O Barateiro”, a primeira padaria da cidade instalada na Rua Major Facundo esquina com a Castro e Silva. Ali se estabeleceria mais tarde, a Fábrica Iracema de Cigarros de Philomeno Gomes e Filho e a Empresa de J. Tomé de Saboia. 

Edificio J. Lopes, um dos primeiros do Centro
Alcunhado de “Zé Barateiro”, esse tio do Barão de Studart tornou-se o 1° barão de Vasconcellos. Voltou a residir na Europa e faleceu no Rio de Janeiro em 1903. No lugar do sobrado de sua residência encontra-se atualmente o Edifício J.Lopes. Antes da construção desse edifício funcionou o Restaurante Palhabote, de Antônio Dias Pinheiro, Pedro Muniz e Guilherme Moreira da Rocha. Tempos depois esse prédio foi ocupado pelo Cassino Cearense com o Cinema Júlio Pinto, uma das primeiras casas de espetáculo cinematográfico de Fortaleza. Num dos espaçosos salões desse Cassino, todo iluminado a luz elétrica, inaugurou-se o cinema, em 18 de setembro de 1909, com a presença de várias autoridades, entre outros pelo presidente Nogueira Accioly e todo seu secretariado.

Vizinha à residência do Barão de Vasconcellos localizava-se a casa comercial de José Gomes de Moura – cônsul do Paraguai – e a loja de tecidos de seu cunhado – cônsul da Bolívia – Maximiano Leite Barbosa. 
Nas proximidades encontrava-se ainda a moradia do português João Antônio Albernás do Amaral, casado com uma Correia de Mello, membro da família proprietária da Casa de Ferragem Amaral e Filhos. Dentre os seus descendentes destacam-se seus filhos José Correia do Amaral e Isaac Correia do Amaral, conhecidos abolicionistas e o cônego Ananias Correia do Amaral, um dos fundadores do Colégio São José em Fortaleza.

propaganda da firma Conrado Cabral & Cia, publicada no Almanaque Hénault-1912/13

Nessa residência instalou-se mais tarde, a Casa Contado Cabral, fundada em 1884, propriedade da família de Raul Conrado Cabral. Esse quarteirão abrigaria também o escritório de Joaquim Markan. Próxima loja de Ferragens de Conrado Cabral instalou-se a antiga Farmácia Teodorico, da família Eloy da Costa, na Rua Major Facundo. A Farmácia Teodorico era a casa comercial mais antiga da cidade, contemporânea do Brasil-reino, fundada pelo pai do velho Teodorico. Três gerações dessa família dirigiram a farmácia, a começar por Antônio Eloy da Costa, nascido em Recife em 1797, a quem foi concedida licença para abrir uma botica. A instalação da farmácia em Fortaleza ocorreu em 1821.

Na esquina das ruas Major Facundo e São Paulo, onde hoje funciona a Livraria Paulinas residiu o Major Facundo de Castro Menezes, covardemente assassinado em sua residência por adversários políticos. Depois a Casa Villar ocupou esse casarão durante 105 anos, até novembro de 1959. A família Villar é uma das treze famílias descritas por Raimundo Girão em seu livro “Famílias de Fortaleza”, junto com as famílias Albano, Amaral, Bastos, Borges, Brasil, Cals, Ellery, Gaspar de Oliveira, Teóphilo, Gouveia, Machado, Mamede e Salgado. A maior parte delas tem origem em portugueses que imigraram para Fortaleza em meados do século XIX e aqui desenvolveram o comércio da cidade.

Anúncio da Casa Ribeiro, de Luiz Severiano Ribeiro - Almanaque Hénault - 1912/13
fachada da loja Torre Eiffel, de Paulo Morais

No quarto quarteirão dessa rua sobressaía-se o sobradão de cinco portas térreas e cinco janelas avarandadas do cônsul de Portugal Manoel Caetano de Gouveia, rico e socialmente influente. Na sua vizinhança Fernando de Alencar Pinto instalaria os escritórios de sua empresa. Da sociedade dos Irmãos Pinto, surgiria a Companhia Importadora de Máquinas e Acessórios Irmãos Pinto – Cimaipinto. Em suas imediações ficava a Loja Torre Eiffel de Paulo Morais, adquirida de Antônio Fiuza Pequeno e Álvaro Mota; a Livraria Humberto, de Humberto Correia Ribeiro; a Casa Dummar; a Livraria Ribeiro, de Luiz Severiano Ribeiro.

prédio de propriedade de Plácido de Carvalho, onde funcionou a empresa de Adolpho Quixadá

Num prédio de Plácido de Carvalho, que por muito tempo apresentaria no alto da fachada uma estátua de bronze representando o deus Mercúrio em tamanho natural, funcionaria a Companhia Quixadá, fundada por Adolpho Quixadá; próximo a ela encontrava-se a sede da Livraria e Papelaria Comercial, de Meton Gadelha.

Fechando o quarteirão estava o sobrado do comendador Machado, com três portas para a Rua Major Facundo e quatro para a Rua Guilherme Rocha, onde hoje se ergue o Excelsior Hotel. No antigo casarão hospedou-se em 1859, a Comissão Científica que veio ao Ceará com a participação de Gonçalves Dias e outros. 

Ao final do século XIX, a firma Gradvohl e Fils ocupou seu andar térreo, com o proprietário residindo na parte superior. Os Gradvohl eram franceses originários da Alsácia-Lorena. Eram proprietários da Casa Gradvohl Frères. A exemplo da Casa Boris, a Gradvohl Frères teve grande duração no Ceará.
Mais tarde o térreo do sobrado do Comendador Machado foi ocupado pelo famoso Café Riche, de propriedade de Alfredo Salgado e Luiz Severiano Ribeiro, estabelecimento frequentado por literatos, escritores e poetas.

Extraído do livro: 
Ideal Clube – história de uma sociedade de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos do arquivo Nirez

   

sábado, 30 de abril de 2011

Amor à Fortaleza

Fortaleza - 285 anos


Tempos bons aqueles em que ...

Boneca era calunga
A revista era Fon-Fon
Calcinha era sunga 
E soutien, califon 
Da circunspecta ceroula 
Da rapadura com feijão, 
Da paçoca com cebola 
E do sunga de cordão. 
Tempos bons. 
Dos velhos bondes da light, 
Da goiabada cascão, 
Em que o ditado era all-right 
Da anágua e da combinação. 
Da velha praia de Iracema, 
Das soirés do São Luís 
Do canto da seriema
E das bolinhas de aniz.
Do gostoso doce gelado 
De abacaxi, cajá e nata. 
Do amendoim bem torrado 
E do fino doce de lata. 
Tempos bons em que... 
O chic era usar gravata
Sapato de bom verniz, 
O relógio era de prata 
E o homem era feliz.
O pó de arroz era Dorly 
Cafona era canelau. 
E ladrão era Lalau... 

Do velho abrigo central, 
Dos pastéis do Marechal 
Da Praça da Escola Normal, 
Do Ginásio Municipal. 
Da Igreja de São Benedito 
Do Pastoril da Imperador, 
Onde se cantava Bendito...
Do Narcélio e do Bianor !
  Do saudoso Majestic 
Cine Centro, cine Rex. 
Do Moderno, um cine chic, 
Do  tropical Super-Pitex 
Tempos saudosos aqueles em que... 
Empregada era pirão frio 
Resfriado era defluxo, 
Só se viajava de navio. 
Pro pulmão era mastruço. 
Tempos bons . 

Onde havia uma distinção: 
No centro, as moças de linha, 
Por fora, as chofer de fogão. 

Do pegapinto do Mundico, 
Com pão doce ou tapioca 
Do caldo de cana caiana 
Moída ali na engenhoca.
 
Tempos bons... 
Em que não havia assalto, 
Violência ou trombadinha, 
E o único sobressalto 
Era o ladrão de galinha. 
Do penico de porcelana, 
Da escarradeira na sala, 
Em que cílio era pestana 
E o guarda-roupa era a mala

Do jaquetão tipo saco, 
Da calça boca de sino 
Colarinho indeformável,
Sapato salto argentino.
  Tempos bons aqueles...
Da cabeleira bem penteada
Oleada para brilhar,
Com óleo Glostora e perfumada
Com brilhantina Royal Briar
Em que... 
A gente brincava de pião, 
A dança da moda era bolero 
E não existia sapatão...
Moça fina usava pastinha, 
Saia godê, blusa rendada, 
E quando caía a noitinha, 
Se sentava na calçada. 
Tempos saudosos em que...
Bromil era expectorante,
Capivarol, fortificante, 
Chá de goma pra diarréia...
Tempos saudosos aqueles... 
Do galo cantando no quintal 
Em que se jogava bola de meia. 
Das frutas do Mercado Central 
E em que surra era peia...  
Do papagaio sineiro da Sé. 
Em que fofoca era fuxico 
E charrete cabriolé.
Do terno de linho acetinado
Da Irlanda ou Inglaterra importado
Sempre impecavelmente engomado,
Botão do colarinho dourado.
Do sapato esporte fanabor, 
Da roupa do melhor rayon, 
Do gostoso café de coador 
E do sapato branco e marron.  
Da esquina do pecado famosa,
Onde a rapaziada, às tardinhas, 
Ficava pra ver o vento subir 
A saia rodada das menininhas...

Recordação e muitas saudades
Do sortido Bazar Alemão,
Da antiga Loja de Variedades, 
Da Espingarda do Damião. 
Da Loja O Gabriel, sortida, 
Que vendia artigos sagrados, 
Com a porta garantida
Por vinte e dois cadeados...
Da famosa Casa Elefante, 
Que vendia tudo barato, 
Ao pobre ou ao mais pedante, 
Penico, xícara ou prato.

"Casa Sloper, Ceará Chic,
casa das jóias Meziano, 
do fino chocolate Gardano.
Do embarque na ponte metálica,
Aos vagalhões do mar azul,
Nos velhos navios da Costeira,
Única via de acesso ao sul.
Tempos bons em que... 
Murro chamava-se bofete, 
O homem de posses ia a Roma 
E, em vez do nocivo chiclete, 
Mascava-se bombom de goma.

Tomava-se água de quartinha, 
Merendava-se um bom chibé, 
Na sobremesa, rapadurinha 
E, pras visitas, era café.
  Saudades... 
Potente e todo valvulado, 
Modelo moderno quadrado, 
Com o dial todo iluminado.
Da famosa cama Patente, 
Da legítima Faixa Azul, 
Que era luxo pra pouca gente, 
Importada lá do sul...
Da coluna da hora imponente, 
Testemunha de emoção do povo, 
Com seu badalar estridente, 
Anunciando a entrada do Ano Novo. 
Do conhecido Posto Mazine, 
Da esquina do "Rotisserie", 
Das finas calças de gabardine 
E dos frondosos pés de oiti.  

Da famosa bolacha Fogosa, 
Do fino biscoito Facão, 
Em que a praia chic era a "Formosa" 
E saia rodada era balão...
Da "A Cearense" do Aprígio, 
Loja Chic, em grande progresso, 
Ditando a moda, com prestígio, 
Ali, no Quarteirão Sucesso". 

Do magazine "A Cruzeiro", 
Líder de roupa masculina, 
Que , durante o ano inteiro, 
Ditava a moda mais grã-fina.
Guardando, nas horas diurnas,
O sempre asseado penico,
Pras necessidades noturnas. 
Da tabuada na palmatória, 
Método reputado imperfeito 
Crestomatia na compulsória 
Mas, aprendia-se e havia respeito.
Lembranças dos tipos pitorescos... 
A Teresa do "puxa-puxa",
Zé Tatá, Siri, Raimundão, 
Casaca Preta, Bode Iôiô, 
Jararaca, Chica Pilão.
Feijão Sem Banha, Chico Dudu, 
Zé Guela, Chico da Mãe Isa, 
O "Mamãe Dorme Só, o Napu, 
O "Pedão da Bananada".

Na Fortaleza antiga... 
Rádio Patrulha era Madalena, 
Avião era aeroplano, 
Pobre só tinha rádio a galena, 
E moça tocava piano. 
Aparecia o Cão da Itaoca, 
Assombrando a população, 
Tomava-se café com tapioca, 
Como primeira refeição.  

Saudades... 
Da Rua Franco Rabelo, 
Do velho curral da praia, 
Do Matadouro Modelo, 
Das brincadeiras de arraia... 
Dos Prefect do Posto Cinco, 
Dos automóveis Citroen, 
Dos prédios de teto de zinco 
E dos cigarros Araken.
Piqueniques em Messejana 
Cada qual levando farnel, 
Frito de galinha, banana, 
Farofa de carne e pastel. 

Do beco do rasga sunga, 
Escuro que nem breu! 
Onde se ouvia um funga-funga, 
Ali, pertinho do Liceu. 
Dos programas de rádio gostosos 
"Divertimentos em Seqüência",
Novelas, cantores famosos, 
"Bazar de Músicas"... Que audiência

Do animado carnaval de rua, 
Com muito confete e serpentinas, 
Maracatus, "Bando da Lua", 
O corso com muitas meninas.  
Do cloretil, muito perfumado, 
Infalível no flirt inocente, 
Com seu jato muito gelado, 
Deixando um odor envolvente...

Das retretas do Passeio Público, 
Desfiles na praia ao luar, 
Sereno no Cine Diogo, 
Banhos na ponta do quebramar... 
 Tempos bons aqueles em que  
Morim era mandapulão, 
Cachaça,  cascorobil, 
Toda casa tinha oitão, 
Pra lombriga, Ferrovermil.
Presepada era marmota,
Confusão, inguirisia,
Em que mentira era lorota, 
E perder missa era heresia.

 Sabonete fino era de sândalo, 
Pra dar sorte, pé de coelho, 
E considerado grande escândalo 
Moça mostrar o joelho.

Casamento era coisa séria,
Não havia separação,
Em que Quitéria era Quitéria,
Em que João era João...
Em que não havia fila,
Muito menos inflação,
Bola de gude era bila
E bermuda era calção. 
Saudades... 
Do carrossel, que era óla, 
Da gostosa mariola, 
Do sapato de crepe sola, 
E da música de vitrola.

Do namoro na janela,
Singelo e sem nenhum sarro,
Sob as vistas da mãe dela,
Que, foi não foi, dava um pigarro... 

Das serenatas românticas, 
Músicas apaixonadas, 
Violões e bandolins, 
Nas noites enluaradas.

Do feijão com carne velha, 
Cozido em panela de barro, 
Do refresco de groselha, 
servido na mesa em jarro.

Do paletó de casimira, 
Calça de fina flanela, 
Camisa de seda palha, 
Botão de rosa na lapela.

Da cambica de murici,
Do mocororó de caju,
Do aluá de abacaxi,
Das bolinhas de comaru.
Da Ladeira da Prainha,
Do velho Poço da Draga ,
Da Rua do Seminário,
Do Monsenhor Tabosa Braga.

Eu sou do tempo em que... 
Rede se chamava fianga, 
Havia fartura de manga, 
Todo jardim tinha pitanga, 
Usava-se ouro e não miçanga...

Da Cera do Doutor Lustosa,
Do Chá de Sena com maná,
Pílula de Matos famosa,
Do Lambedor de Jatobá...
Do Elixir de Inhame, 
Do chá de folha de mamão, 
Do depurador de velame, 
Do gargarejo de agrião.

Do pote no pé da janela,
Da tina dágua no banheiro,
Do arroz doce com canela,
E da caneta de tinteiro. 
Da braguilha de botão, 
Calça de seis bolsos e bainha, 
Suspensório e cinturão. 
Da tinta de escrever "Sardinha".

Em que era uma tradição,
Cultivada por inteiro,
Na primeira comunhão,
Usar roupa de marinheiro. 
Da rua da Conceição, 
Outeiro, Praça de Pelotas, 
Prado, Campo de Aviação, 
Beco dos Pocinhos, Varjota.
Soares Moreno, Prainha,
Praça da Sé, Hotel Bitu,
Pajeú, Rua da Escadinha,
Alagadiço, Guajiru.

Em que era obra do Satanás,
O homem sério e de linha,
Usar paletó lascado atrás,
Capanga, brinco e pulseirinha.
Eu sinto saudades do tempo em que...
Havia muito mais recato, 
Mais sinceridade e pudor, 
Muito mais respeito no trato. 
Mais fidelidade no amor.
Saudades imensas...
Da nossa Fortaleza Antiga,
Sem asfalto e poluição,
Muito mais humana e amiga
E com muito mais coração


Tudo isso, "Coisas Que O Tempo Levou", como diria o saudoso José Lima Verde,

um dos maiores cultores da memória da nossa querida cidade


fonte: http://www.aman62.com/temposbons.htm