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terça-feira, 7 de março de 2017

Os Pioneiros do Comércio em Fortaleza

Fundada em 1821, a Farmácia Theodorico foi a primeira farmácia de Fortaleza

No meio do terceiro quarteirão da Rua Major Facundo, erguia-se um velho sobrado residencial, com muitas portas no pavio térreo e apenas duas ou três janelas no andar superior, de propriedade do português José Smith de Vasconcelos. Chegando ao Ceará em 1831, esse português fez fortuna como panificador em Fortaleza, foi proprietário de “O Barateiro”, a primeira padaria da cidade instalada na Rua Major Facundo esquina com a Castro e Silva. Ali se estabeleceria mais tarde, a Fábrica Iracema de Cigarros de Philomeno Gomes e Filho e a Empresa de J. Tomé de Saboia. 

Edificio J. Lopes, um dos primeiros do Centro
Alcunhado de “Zé Barateiro”, esse tio do Barão de Studart tornou-se o 1° barão de Vasconcellos. Voltou a residir na Europa e faleceu no Rio de Janeiro em 1903. No lugar do sobrado de sua residência encontra-se atualmente o Edifício J.Lopes. Antes da construção desse edifício funcionou o Restaurante Palhabote, de Antônio Dias Pinheiro, Pedro Muniz e Guilherme Moreira da Rocha. Tempos depois esse prédio foi ocupado pelo Cassino Cearense com o Cinema Júlio Pinto, uma das primeiras casas de espetáculo cinematográfico de Fortaleza. Num dos espaçosos salões desse Cassino, todo iluminado a luz elétrica, inaugurou-se o cinema, em 18 de setembro de 1909, com a presença de várias autoridades, entre outros pelo presidente Nogueira Accioly e todo seu secretariado.

Vizinha à residência do Barão de Vasconcellos localizava-se a casa comercial de José Gomes de Moura – cônsul do Paraguai – e a loja de tecidos de seu cunhado – cônsul da Bolívia – Maximiano Leite Barbosa. 
Nas proximidades encontrava-se ainda a moradia do português João Antônio Albernás do Amaral, casado com uma Correia de Mello, membro da família proprietária da Casa de Ferragem Amaral e Filhos. Dentre os seus descendentes destacam-se seus filhos José Correia do Amaral e Isaac Correia do Amaral, conhecidos abolicionistas e o cônego Ananias Correia do Amaral, um dos fundadores do Colégio São José em Fortaleza.

propaganda da firma Conrado Cabral & Cia, publicada no Almanaque Hénault-1912/13

Nessa residência instalou-se mais tarde, a Casa Contado Cabral, fundada em 1884, propriedade da família de Raul Conrado Cabral. Esse quarteirão abrigaria também o escritório de Joaquim Markan. Próxima loja de Ferragens de Conrado Cabral instalou-se a antiga Farmácia Teodorico, da família Eloy da Costa, na Rua Major Facundo. A Farmácia Teodorico era a casa comercial mais antiga da cidade, contemporânea do Brasil-reino, fundada pelo pai do velho Teodorico. Três gerações dessa família dirigiram a farmácia, a começar por Antônio Eloy da Costa, nascido em Recife em 1797, a quem foi concedida licença para abrir uma botica. A instalação da farmácia em Fortaleza ocorreu em 1821.

Na esquina das ruas Major Facundo e São Paulo, onde hoje funciona a Livraria Paulinas residiu o Major Facundo de Castro Menezes, covardemente assassinado em sua residência por adversários políticos. Depois a Casa Villar ocupou esse casarão durante 105 anos, até novembro de 1959. A família Villar é uma das treze famílias descritas por Raimundo Girão em seu livro “Famílias de Fortaleza”, junto com as famílias Albano, Amaral, Bastos, Borges, Brasil, Cals, Ellery, Gaspar de Oliveira, Teóphilo, Gouveia, Machado, Mamede e Salgado. A maior parte delas tem origem em portugueses que imigraram para Fortaleza em meados do século XIX e aqui desenvolveram o comércio da cidade.

Anúncio da Casa Ribeiro, de Luiz Severiano Ribeiro - Almanaque Hénault - 1912/13
fachada da loja Torre Eiffel, de Paulo Morais

No quarto quarteirão dessa rua sobressaía-se o sobradão de cinco portas térreas e cinco janelas avarandadas do cônsul de Portugal Manoel Caetano de Gouveia, rico e socialmente influente. Na sua vizinhança Fernando de Alencar Pinto instalaria os escritórios de sua empresa. Da sociedade dos Irmãos Pinto, surgiria a Companhia Importadora de Máquinas e Acessórios Irmãos Pinto – Cimaipinto. Em suas imediações ficava a Loja Torre Eiffel de Paulo Morais, adquirida de Antônio Fiuza Pequeno e Álvaro Mota; a Livraria Humberto, de Humberto Correia Ribeiro; a Casa Dummar; a Livraria Ribeiro, de Luiz Severiano Ribeiro.

prédio de propriedade de Plácido de Carvalho, onde funcionou a empresa de Adolpho Quixadá

Num prédio de Plácido de Carvalho, que por muito tempo apresentaria no alto da fachada uma estátua de bronze representando o deus Mercúrio em tamanho natural, funcionaria a Companhia Quixadá, fundada por Adolpho Quixadá; próximo a ela encontrava-se a sede da Livraria e Papelaria Comercial, de Meton Gadelha.

Fechando o quarteirão estava o sobrado do comendador Machado, com três portas para a Rua Major Facundo e quatro para a Rua Guilherme Rocha, onde hoje se ergue o Excelsior Hotel. No antigo casarão hospedou-se em 1859, a Comissão Científica que veio ao Ceará com a participação de Gonçalves Dias e outros. 

Ao final do século XIX, a firma Gradvohl e Fils ocupou seu andar térreo, com o proprietário residindo na parte superior. Os Gradvohl eram franceses originários da Alsácia-Lorena. Eram proprietários da Casa Gradvohl Frères. A exemplo da Casa Boris, a Gradvohl Frères teve grande duração no Ceará.
Mais tarde o térreo do sobrado do Comendador Machado foi ocupado pelo famoso Café Riche, de propriedade de Alfredo Salgado e Luiz Severiano Ribeiro, estabelecimento frequentado por literatos, escritores e poetas.

Extraído do livro: 
Ideal Clube – história de uma sociedade de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos do arquivo Nirez

   

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Major Facundo - O Assassinato na Rua da Palma

No dia 8 de dezembro de 1841, dia consagrado a Nossa Senhora da Conceição, a província do Ceará vivia momentos de festa e religiosidade, com grande aglomeração popular na igreja da Prainha, que fora inaugurada naquele dia com a celebração da primeira missa no local.

Depois de participar com a família das comemorações e visitar alguns amigos, o Major Facundo descansava na sua casa, a antiga Rua da Palma n° 72. Aproximadamente às 20 horas, dirige-se até a porta principal para atender um portador de Sobral, levantando a trava da janela.


Igreja de N.S. da Conceição da Prainha, inaugurada em 8 de dezembro de 1841
Antiga Rua da Palma, atual Rua Major Facundo, postal dos anos 20

De repente, três grandes estrondos ecoam na noite. De um casebre em frente, partem os tiros certeiros de bacamarte que estraçalham a cabeça do chefe político liberal. Alguns estilhaços ferem a mão de sua mulher e abrem buracos nas paredes da casa. Estabelecido o pânico nas redondezas, o pior finalmente tinha acontecido: major Facundo estava morto. As ameaças contra sua vida se concretizaram de forma trágica.

O crime abala toda a cidade, tendo repercussão no país através de discursos inflamados dos políticos da época. Considerado pelo historiador Barão de Studart como “a influência mais legitima e real que teve a província do Ceará”, major Facundo foi sepultado na capela do Rosário, então matriz e mais antiga de Fortaleza, onde ainda hoje se encontra.

Casa onde viveu e foi assassinado o Major Facundo. Depois foi ocupada pela Casa Villar. 

Barão de Studart relata as consequências dos dramáticos episódios ocorridos no dia do assassinato. “Por toda parte surgiam gritos de vingança, protestos de energia indescritível. A Polícia não permitia que se fizessem ajuntamentos de mais de três pessoas e trazia a vista os membros mais exaltados da família perseguida e seus mais dedicados amigos, e se em altas vozes os homens do governo prometiam prêmios a quem descobrisse os matadores, cerravam ouvidos aos nomes, que o clamor público apontava e mais tarde, protegiam abertamente os mandantes do atroz delito".

A mulher do então presidente da província, que participava do movimento de hostilidade a Facundo, foi denunciada como mandante do crime, mas nada sofreu. Antônio Manoel Abrahão e Pedro José das Chagas, os executores, foram condenados, alguns anos depois a galés perpétuas pelo júri de Fortaleza. Joaquim Ferreira de Sousa Jacarandá, intermediário que contratou os criminosos, foi julgado três vezes e absolvido nos três julgamentos.

  
 Igreja do Rosário onde o Major Facundo foi sepultado, de pé, voltado para o Palácio da Luz

Lápide do túmulo do major Facundo, localizado numa das paredes laterais do templo, com a seguinte inscrição: 
Aqui jazem os restos mortaes do major João Facundo de Castro Menezes vice presidente da Província. Assassinado a 8 de dezembro de 1841. Sendo presidente José Joaquim Coelho. Nasceo aos 12 de julho de 1787. Tributo d'amisade da sua infeliz esposa  D. Florência D'Andrade Bezerra e Castro. A 8 de dezembro de 1842.
A morte do major Facundo já era esperada pelas lideranças locais. A política tinha chegado a extremos de violência e ameaças. Facundo, um dos principais chefes do Partido Liberal (os chimangos), que era a união de antigos imperialistas e republicanos moderados, tinha por adversário o Partido Conservador, conhecido também por caranguejo. Enquanto as paixões políticas se acentuavam, ocorriam saques em propriedades e crimes no interior do Ceará.

O senador José Martiniano de Alencar era a figura política proeminente dos liberais. Nomeado presidente da província do Ceará em 1834, tinha o Major Facundo como primeiro vice, que o substituía em suas ausências. Em março de 1841, o senador Alencar é exonerado, tendo Facundo assumido novamente a presidência. O motivo foi a queda dos liberais no Rio de Janeiro, quando então subiu ao poder os conservadores. 

No dia 9 de maio foi nomeado o novo presidente do Ceará o brigadeiro José Joaquim Coelho, barão da Vitória, opositor ferrenho de Facundo. O fato de se ter um presidente ligado ao Partido Conservador com um vice Liberal, tornou a situação política do Estado bastante delicada e contribuiu para o tráfico fim do vice-governador.

João Facundo de Castro Menezes nasceu em Aracati, no dia 12 de junho de 1787, filho do capitão-mor José de Castro Silva e Joana Maria Bezerra. Em 1818 se transfere para Fortaleza. Defensor das ideias políticas de sua família, opõe-se à junta governativa liderada por Tristão Gonçalves, Pereira Filgueiras e Padre Mororó. Preso, deportado para o Rio de Janeiro, é solto por ordem do Imperador D. Pedro I. Em 1824, durante a Confederação do Equador, deixa novamente o Ceará por divergências com os revolucionários.

Presidente da Assembleia Provincial, depois da derrota da Confederação do Equador participa ativamente da movimentação política da província. Devido ao ato da maioridade, recebe interinamente o cargo de Presidente da Província. É considerado por este fato, o primeiro a governar o Ceará, depois de D. Pedro II assumir o trono do Brasil.

Major Facundo nunca levou a sério as ameaças que recebia quase que diariamente. E quando a família e os amigos o alertavam para que se cuidasse, respondia-lhes perfeitamente calmo que não tinha inimigos e sim adversários políticos, e estes não lhe votavam ódio a ponto de querer assassiná-lo. A morte do major Facundo foi apenas um dos atos praticados pela violência política, numa época em que o Brasil vivia tumultuada agitação interna.  

Extraído do livro
A História do Ceará passa por esta Rua, de Rogaciano Leite Filho.
fotos Arquivo Nirez e Fortaleza em fotos.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Os Enterros realizados nas Igrejas

Até meados do Século XIX os enterros de religiosos e pessoas com alguma relevância na vida social da cidade, eram realizados nas igrejas ou nas suas imediações. Após dois anos a sepultura era aberta, e os ossos recolhidos em urnas que eram enterrados novamente. Os pobres, e os menos afortunados eram enterrados nos arrabaldes, nas areias. A prática só desapareceu quando em 1848, foi inaugurado o primeiro cemitério de Fortaleza, o São Casimiro, também chamado de Croatá, localizado no lado leste da atual Praça Castro Carreira.

Praça Castro Carreira, em fins do século XIX,  com o terreno repleto de materiais que seriam utilizados na construção da ferrovia. O prédio da estação central foi construído no local antes ocupado pelo Cemitério de São Casimiro.
 
A construção foi iniciada em 1844. Pelo regulamento de 16 de março de 1848, o presidente Casimiro José de Morais Sarmento – que emprestou o nome ao cemitério – ordenou que a partir dia 1° de maio daquele ano, os cadáveres dos indivíduos falecidos na cidade e seus subúrbios só poderiam ser sepultados no Cemitério de São Casimiro, e aquele que infringisse as normas, sofreria multa de 25$000 reis. Outra Lei, a de n° 660, de 29 de setembro de 1854, proibiu expressamente inumações de corpos em todas as igrejas da Província. 

A proibição de se sepultar cadáveres no interior dos templos estava associada à questão da higienização e da saúde pública. Segundo teorias, o ar poluído pela decomposição dos corpos poderia disseminar doenças entre os fiéis.

Em 1840 a Igreja do Rosário – a única da capital – era caracterizada como estreita. E nesse estreito recinto, sepultavam-se vários cadáveres,  de modo que os fiéis que costumavam lotar a igreja, acabavam convivendo com um ambiente insalubre e altamente contaminado. 

Templo mais antigo de Fortaleza, construído por volta de 1730, a Igreja do Rosário, passou por uma reforma em 2001, quando  foi descoberto que, debaixo do piso principal havia um outro piso com diversas divisórias. Essas divisórias correspondiam a túmulos de pessoas que ali foram sepultadas em tempos passados. Os 54 corpos foram deixados no mesmo local, anonimamente, sem qualquer indicação de que repousam sob os pés dos fiéis frequentadores do templo. 


O piso de madeira da Igreja do Rosário, sob o qual foram encontrados 54 corpos que ali foram sepultados até 1848, e o túmulo do Major Facundo, sepultado na parede da Igreja.

Um único túmulo permanece identificado: o do Major Facundo, assassinado em 1841, em decorrência de intrigas políticas, num crime atribuído à esposa do então presidente da província. O major foi sepultado na parede lateral, em pé, voltado para o Palácio da Luz, à época sede do governo do Estado.

Mesmo depois da existência dos cemitérios, a Igreja Católica conservou sua influência na “hora da morte”. No São Casimiro havia uma área reservada e marginal para os que não professavam a fé católica ou atentassem contra os princípios desta (judeus, suicidas, etc). Foi também construído um cemitério dos ingleses (para protestantes) vizinho ao São Casimiro, que era mantido pela firma de importação e exportação Singlehust  and Co, de Henrich Brocklehurst.

Capela do Cristo Ressuscitado, localizada na Cripta da Catedral de Fortaleza 

Os sepultamentos nas igrejas ainda acontecem de modo restrito e exclusivo para religiosos. Na Cripta da Catedral de Fortaleza, encontra-se a Capela do Cristo Ressuscitado, onde estão sepultadas algumas personalidades ligadas à Igreja Católica como Monsenhor Tito Guedes, Monsenhor José Quinderé  e outros, falecidos antes mesmo da inauguração da Catedral, como D. Manuel da Silva Gomes (1950) e D. Antônio de Almeida Lustosa (1974).

Mausoléu dos Religiosos Sacramentinos, na Igreja de São Benedito. 

No interior da Igreja de São Benedito, localizado na Rua Clarindo de Queirós, encontra-se o mausoléu dos Religiosos Sacramentinos, separado do corpo da nave por uma grade, onde estão sepultados padres da Ordem.


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Pelas Ruas da Cidade –- Parte VI -- Rua Major Facundo



 

 A Rua major Facundo já foi a Rua Nova Del Rei, por volta de 1828 e, em 1856, teve dois nomes: do início até a Praça do Ferreira, chamava-se Rua da Palma e da praça até o final, Rua do Fogo, devido o episódio acontecido no lado sul da Praça do Ferreira, que deu origem ao nome de Rua das Trincheiras.
Em 1888, a Rua recebeu o nome de Major Facundo. Em 1890, todas as ruas e avenidas de Fortaleza passaram a ter números no lugar dos nomes, e a Major Facundo passou a denominar-se n° 3, que durou pouco e voltou ao seu nome atual logo depois. 

 A Estrela do Oriente era um dos vários comércios existentes na rua

Sendo uma das mais centrais ruas da cidade, na Major Facundo existiram casas famosas como a loja Estrela do Oriente, a Casa Villar, a Livraria Gualter, a Libro-Papelaria Bivar, a Casa Mesiano, a Torre Eiffel, o sobrado do Barão de Ibiapaba, a Casa Albano, a Farmácia e Drogaria Mamede, o Sobrado do Comendador Machado, a Maison Art-Nouveau, o Café Riche, O Povo, o café do Comércio, o Cine-teatro Majestic-Palace, o Cine Moderno,  a Pharmácia Galeno, e muitos outros estabelecimentos comerciais que marcaram época em Fortaleza.

A Major Facundo dos anos 1970

A Rua Major Facundo foi uma das que primeiro recebeu os melhoramentos da cidade, por sua localização. Recebeu água encanada e esgoto em 1926; calçamento em 1857, o paralelepípedo em 1933, o concreto no ano seguinte, o meio-fio em 1921 e o asfalto em 1963. A luz elétrica para sua iluminação pública foi colocada em 1935 e por ela passou, até 1947, a linha de bondes José Bonifácio.  
A Rua Major Facundo começa na Rua Dr. João Moreira, no Passeio Público, e termina no Bairro de Fátima, a cerca de dois quarteirões da Avenida 13 de Maio. 

-- Quem Era --


José Facundo de Castro Menezes nasceu em Aracati (CE), em 12 de junho de 1787, filho do capitão-mor José de Castro Silva e Joana Maria Bezerra. Até 1818, quando Facundo se transfere para Fortaleza, nada tinha acontecido de marcante em sua vida. Defensor das ideias políticas de sua família, opõe-se a junta governativa liderada por Tristão Gonçalves, Pereira Filgueiras e Padre Mororó. Preso, deportado para o Rio de janeiro, é solto por ordem de D. Pedro I. 

Em 1824, durante a Confederação do equador, deixa novamente o Ceará por divergências com os revolucionários.  Presidente da Assembleia Provincial depois da derrota da Confederação participa ativamente da movimentação política e social. Devido ao ato de maioridade, recebe interinamente o cargo de Presidente da Província. É considerado, por este fato, o primeiro a governar o Ceará depois que D. Pedro II foi declarado maior.

Além de chefe do Partido Liberal, Major Facundo foi comandante do Batalhão dos Nobres de Fortaleza e exerceu o cargo de Inspetor da Alfândega. Sua posição na liderança liberal sempre foi combatida pelos conservadores, que lutavam a todo custo para a manutenção do poder. As formas de intimidação ao Major eram as mais diversas, desde a censura em suas cartas até mensagens com ameaças de morte. 

 Rua Major Facundo
 Casa em que residiu e foi assassinado o Major Facundo. De 1854 a 1959 funcionou no local a Casa Villar. Ficava na esquina da Rua da Palma com a Rua das Belas (atual Rua São Paulo)

No dia 8 de dezembro de 1841, consagrado a Nossa Senhora da Conceição na província do Ceará vivia momentos de festa e religiosidade com grande aglomeração popular na Capela da Prainha. Depois de participar com a família das comemorações e visitar alguns amigos, major Facundo descansava em sua casa na antiga Rua da palma, n° 72. Aproximadamente às 20 horas, dirige-se a sala principal para atender um portador de Sobral. De repente três grandes estrondos ecoam na noite. 

 De um casebre em frente, partem os tiros certeiros de bacamarte que estraçalham a cabeça do chefe político liberal. Alguns estilhaços ferem a mão de sua mulher e abrem buracos nas paredes da casa.  O Major Facundo estava morto aos 54 anos de idade.  As ameaças contra sua vida se concretizaram de forma trágica.  

fontes:
A História do Ceará passa por esta rua, de Rogaciano Leite Filho
Guia Turistico da Cidade, organizado pela Prefeitura Municipal de Fortaleza - administração do General Manuel Cordeiro Neto, 1961
  

domingo, 29 de janeiro de 2012

Ornamentos da Vida e da Morte

adereços da vida...

Praça Marquês do Herval, atual José de Alencar (foto do Álbum de Vistas do Ceará, 1908)


Algumas fotografias antigas que reportam ao início do século XX são testemunhos eloquentes da grande importância da iluminação a gás na paisagem de Fortaleza, especialmente nas alamedas do Passeio Público, considerada a mais elegante área de lazer urbano do período. Concebido de forma a incentivar novas formas de sociabilidade e mundanismo na capital do Ceará, o Passeio estava dividido em três planos topográficos, dos quais o primeiro e mais seletivo – a Avenida Caio Prado – foi inaugurado em 1880.

 Avenida Caio Prado - ao fundo, a Santa Casa antes da ampliação de 1914 (álbum de vistas do Ceará, 1908)

Cercado por um belo gradil e portões de ferro (projetados por Adolfo Herbster), dotado de jardim bem arborizado, ornado com bancos, colunas, canteiros, postes e combustores de gás, vasos de louça e estatuária de estilo neoclássico retratando divindades da mitologia grega, o logradouro estava situado no antigo Campo da Pólvora, local que em princípios do século XIX era usado para a execuções de condenados pela justiça. 
Alguns participantes da Confederação do Equador foram mortos ali, que depois passou a ser denominada Praça dos Mártires. Às quintas e domingos se organizavam retretas, ao som da banda de música do 15° Batalhão do Exército – momento principal de reunião e encontro das altas camadas urbanas, retratado por uma das fotografias antigas. Esses eventos costumavam entrar pela noite, com a presença indispensável dos lampiões de gás.

Cartão Postal do Passeio Público, década de 1920

Tamanha era a influência do Passeio Público no lazer da cidade, que logo se tornou um dos mais conhecidos cartões-postais da cidade. 
Embora destinado ao lazer, O Passeio Público mantinha normas que disciplinavam seus frequentadores, como a exigência de belos trajes e boas maneiras. Sua própria constituição espacial significava um permanente exercício de discriminação simbólica, pois as diferentes classes sociais ocupavam planos separados do jardim: Avenida Caio Prado, olhando para o mar; a do centro, denominada Carapinima, fronteiriça à porta principal da Santa Casa;  e a Avenida Mororó, mais próxima do calçamento da Rua Dr. João Moreira (antiga Rua da Misericórdia). 

Avenida Carapinima - à direita o catavento e a cobertura do Cassino (arquivo Nirez) 

Nelas se observava uma separação voluntária das classes sociais: na primeira avenida, a grã-finagem; na outra, a classe média e na terceira, as domésticas, os operários, os desempregados, etc. Cronistas e estudiosos da história de Fortaleza costumam insistir nessa perfeita e espontânea separação de classes.


Avenida Caio Prado em dois momentos (1914 e 1908) e seus elegantes frequentadores (arquivo Nirez e Álbum de Vista do Ceará)

Havia na verdade, um código imposto pelo qual se instituíam limites, na observância de gestos moderados, conversações educadas, vestimentas elegantes. Na constituição dos valores ligados à ordem social e ao progresso econômico, é indispensável o pôr-se no seu lugar, respeitar as convenções e hierarquias, que repelem o diferente, transformando-o em estranho e intruso.
O Passeio Público atraía habitantes de culturas diferenciadas, sem descuidar dos lugares específicos que cabia a cada um. Mesmo nos espaços de lazer, o ar descontraído e o entretenimento não ameaçava, antes fortalecia as distinções sociais, direcionando  as elites ao primeiro plano do logradouro, as camadas médias no segundo patamar e os segmentos populares no terceiro nível, junto a beira mar.

Avenida Mororó (à direita, Ceres). Em fins do século XIX costumava-se designar por avenida (mais tarde alameda) um corredor ou via calçada que ladeasse ou cruzasse uma determinada praça. No caso do Passeio Público, cada uma das avenidas corresponde a um respectivo plano do logradouro. (foto do Álbum de Vistas do Ceará, 1908)


Por outro lado, as estratégias de poder não tinham alcance ilimitado. Numa foto do início do século XX, a Avenida Caio Prado recebe uma clientela pouco atenta às etiquetas sociais, com roupas simples e posturas corporais irreverentes, num misto de preguiça e desleixo. 
Sinal de que os espaços de lazer, pelo menos em dias comuns, não eram tão delimitados como atestava a crônica histórica. Nestes momentos, de menor vigilância policial, os pobres ocupavam a seu modo os lugares destinados à elite, questionando com sutileza as hierarquias sociais e a ambição de superioridades dos ricos.

... e da morte
Esculturas no S. João Batista (foto Garcia Breson)

Quando o Passeio Público foi inaugurado, a cidade já contava com outro importante equipamento urbano: um cemitério. O primeiro, de 1848, chamava-se São Casemiro e estava ao lado do antigo morro do Croatá, na área hoje ocupada pela Estação João Felipe, na Praça Castro Carrera. 
Antes disso, os enterros se davam no interior ou nas proximidades das igrejas, um exemplo disso é a Igreja do Rosário (construída no século XVIII), onde até pouco tempo, podiam ser vistos, cobertos pelo assoalho, os compartimentos retangulares que serviam de sepultura.

Túmulo do Major Facundo, assassinado em 08 de dezembro de 1841 e sepultado na Igreja do Rosário. Hoje, é o único túmulo que ainda tem identificação dentro do templo. 

Em meados do século XIX ocorreu uma importante mudança no trato com a morte – a cidade dos vivos deveria enviar seus mortos para fora do perímetro urbano, a fim de evitar infecções e epidemias causadas pelo contato prolongado com os cadáveres. Por conta de  um procedimento burocrático,  uma medida de salubridade pública, a morte começava a distanciar-se da vida diária, e os entes queridos ganhavam um lugar específico para o repouso eterno.
Em 1865, um outro cemitério – o São João Batista – sucedeu ao São Casimiro, já inserido no espaço urbano pela expansão de Fortaleza. A velha necrópole foi abandonado também, em razão do grande número de vítimas do cólera ali sepultados, representando um risco de contaminação para os moradores locais. 

Alameda do Cemitério São João Batista (foto Garcia Breson)

O Cemitério São João Batista acolheu os mortos de Fortaleza por cerca de um século, quando nos anos 1960 começou a perder espaço para o Parque da Paz. Durante esse longo período, acolheu a mais rica expressão de arte fúnebre local, através de túmulos, lápides, esculturas, cruzes e alegorias edificadas em materiais nobres, como o mármore e o granito. 
Tanto investimento, atesta um requinte estético favorecido, em parte, pelo desenvolvimento comercial e o incremento da cultura algodoeira de exportação em fins do século XIX.

Esculturas no Cemitério São João Batista 
foto http://olhares.uol.com.br/cemiterio-sao-joao-batista-fortaleza-foto4302723.html


A exemplo do Passeio Público, a organização espacial do São João Batista, apresenta uma segregação social, com os mausoléus das elites situados na sua entrada, tendo ao fundo os túmulos mais humildes, dos segmentos populares.
A beleza e o luxo da cidade dos mortos, em que se empenharam os grupos sociais dominantes, traduzem uma preocupação maior: fazer daquele espaço um testemunho de grandeza e superioridade para as gerações futuras, tornar o lugar da morte um motivo de culto ao passado, respeito à memória e orgulho familiar.

Fontes:
Fortaleza – imagens da cidade, de Antônio Luiz Macedo e Silva Filho
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão
Passeio Público, espaços, estatuária e lazer, de José Liberal de Castro, publicado na Revista do Instituto do Ceará, 2009.