domingo, 29 de janeiro de 2012

Ornamentos da Vida e da Morte

adereços da vida...

Baigneuse
Praça Marquês do Herval, atual José de Alencar (foto do Álbum de Vistas do Ceará, 1908)


Algumas fotografias antigas que reportam ao início do século XX são testemunhos eloquentes da grande importância da iluminação a gás na paisagem de Fortaleza, especialmente nas alamedas do Passeio Público, considerada a mais elegante área de lazer urbano do período. Concebido de forma a incentivar novas formas de sociabilidade e mundanismo na capital do Ceará, o Passeio estava dividido em três planos topográficos, dos quais o primeiro e mais seletivo – a Avenida Caio Prado – foi inaugurado em 1880.

 Avenida Caio Prado - ao fundo, a Santa Casa antes da ampliação de 1914 (álbum de vistas do Ceará, 1908)

Cercado por um belo gradil e portões de ferro (projetados por Adolfo Herbster), dotado de jardim bem arborizado, ornado com bancos, colunas, canteiros, postes e combustores de gás, vasos de louça e estatuária de estilo neoclássico retratando divindades da mitologia grega, o logradouro estava situado no antigo Campo da Pólvora, local que em princípios do século XIX era usado para a execuções de condenados pela justiça. 
Alguns participantes da Confederação do Equador foram mortos ali, que depois passou a ser denominada Praça dos Mártires. Às quintas e domingos se organizavam retretas, ao som da banda de música do 15° Batalhão do Exército – momento principal de reunião e encontro das altas camadas urbanas, retratado por uma das fotografias antigas. Esses eventos costumavam entrar pela noite, com a presença indispensável dos lampiões de gás.

Cartão Postal do Passeio Público, década de 1920

Tamanha era a influência do Passeio Público no lazer da cidade, que logo se tornou um dos mais conhecidos cartões-postais da cidade. 
Embora destinado ao lazer, O Passeio Público mantinha normas que disciplinavam seus frequentadores, como a exigência de belos trajes e boas maneiras. Sua própria constituição espacial significava um permanente exercício de discriminação simbólica, pois as diferentes classes sociais ocupavam planos separados do jardim: Avenida Caio Prado, olhando para o mar; a do centro, denominada Carapinima, fronteiriça à porta principal da Santa Casa;  e a Avenida Mororó, mais próxima do calçamento da Rua Dr. João Moreira (antiga Rua da Misericórdia). 

Avenida Carapinima - à direita o catavento e a cobertura do Cassino (arquivo Nirez) 

Nelas se observava uma separação voluntária das classes sociais: na primeira avenida, a grã-finagem; na outra, a classe média e na terceira, as domésticas, os operários, os desempregados, etc. Cronistas e estudiosos da história de Fortaleza costumam insistir nessa perfeita e espontânea separação de classes.


Avenida Caio Prado em dois momentos (1914 e 1908) e seus elegantes frequentadores (arquivo Nirez e Álbum de Vista do Ceará)

Havia na verdade, um código imposto pelo qual se instituíam limites, na observância de gestos moderados, conversações educadas, vestimentas elegantes. Na constituição dos valores ligados à ordem social e ao progresso econômico, é indispensável o pôr-se no seu lugar, respeitar as convenções e hierarquias, que repelem o diferente, transformando-o em estranho e intruso.
O Passeio Público atraía habitantes de culturas diferenciadas, sem descuidar dos lugares específicos que cabia a cada um. Mesmo nos espaços de lazer, o ar descontraído e o entretenimento não ameaçava, antes fortalecia as distinções sociais, direcionando  as elites ao primeiro plano do logradouro, as camadas médias no segundo patamar e os segmentos populares no terceiro nível, junto a beira mar.

Avenida Mororó (à direita, Ceres). Em fins do século XIX costumava-se designar por avenida (mais tarde alameda) um corredor ou via calçada que ladeasse ou cruzasse uma determinada praça. No caso do Passeio Público, cada uma das avenidas corresponde a um respectivo plano do logradouro. (foto do Álbum de Vistas do Ceará, 1908)


Por outro lado, as estratégias de poder não tinham alcance ilimitado. Numa foto do início do século XX, a Avenida Caio Prado recebe uma clientela pouco atenta às etiquetas sociais, com roupas simples e posturas corporais irreverentes, num misto de preguiça e desleixo. 
Sinal de que os espaços de lazer, pelo menos em dias comuns, não eram tão delimitados como atestava a crônica histórica. Nestes momentos, de menor vigilância policial, os pobres ocupavam a seu modo os lugares destinados à elite, questionando com sutileza as hierarquias sociais e a ambição de superioridades dos ricos.


... e da morte
Esculturas no S. João Batista (foto Garcia Breson)

Quando o Passeio Público foi inaugurado, a cidade já contava com outro importante equipamento urbano: um cemitério. O primeiro, de 1848, chamava-se São Casemiro e estava ao lado do antigo morro do Croatá, na área hoje ocupada pela Estação João Felipe, na Praça Castro Carrera. 
Antes disso, os enterros se davam no interior ou nas proximidades das igrejas, um exemplo disso é a Igreja do Rosário (construída no século XVIII), onde até pouco tempo, podiam ser vistos, cobertos pelo assoalho, os compartimentos retangulares que serviam de sepultura.

Túmulo do Major Facundo, assassinado em 08 de dezembro de 1841 e sepultado na Igreja do Rosário. Hoje, é o único túmulo que ainda tem identificação dentro do templo. 

Em meados do século XIX ocorreu uma importante mudança no trato com a morte – a cidade dos vivos deveria enviar seus mortos para fora do perímetro urbano, a fim de evitar infecções e epidemias causadas pelo contato prolongado com os cadáveres. Por conta de  um procedimento burocrático,  uma medida de salubridade pública, a morte começava a distanciar-se da vida diária, e os entes queridos ganhavam um lugar específico para o repouso eterno.
Em 1865, um outro cemitério – o São João Batista – sucedeu ao São Casimiro, já inserido no espaço urbano pela expansão de Fortaleza. A velha necrópole foi abandonado também, em razão do grande número de vítimas do cólera ali sepultados, representando um risco de contaminação para os moradores locais. 


Alameda do Cemitério São João Batista (foto Garcia Breson)

O Cemitério São João Batista acolheu os mortos de Fortaleza por cerca de um século, quando nos anos 1960 começou a perder espaço para o Parque da Paz. Durante esse longo período, acolheu a mais rica expressão de arte fúnebre local, através de túmulos, lápides, esculturas, cruzes e alegorias edificadas em materiais nobres, como o mármore e o granito. 
Tanto investimento, atesta um requinte estético favorecido, em parte, pelo desenvolvimento comercial e o incremento da cultura algodoeira de exportação em fins do século XIX.

Esculturas no Cemitério São João Batista 
foto http://olhares.uol.com.br/cemiterio-sao-joao-batista-fortaleza-foto4302723.html


A exemplo do Passeio Público, a organização espacial do São João Batista, apresenta uma segregação social, com os mausoléus das elites situados na sua entrada, tendo ao fundo os túmulos mais humildes, dos segmentos populares.
A beleza e o luxo da cidade dos mortos, em que se empenharam os grupos sociais dominantes, traduzem uma preocupação maior: fazer daquele espaço um testemunho de grandeza e superioridade para as gerações futuras, tornar o lugar da morte um motivo de culto ao passado, respeito à memória e orgulho familiar.

Fontes:
Fortaleza – imagens da cidade, de Antônio Luiz Macedo e Silva Filho
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão
Passeio Público, espaços, estatuária e lazer, de José Liberal de Castro, publicado na Revista do Instituto do Ceará, 2009.
    

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