terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Jáder de Carvalho e o jornalismo idealista


O sonho do jornalista Jáder de Carvalho foi realizado em 1947 com a fundação do Diário do Povo. Ele já havia participado da criação de outros dois jornais: O Combate (1921) e Esquerda (1928). Mas é no Diário do Povo que exerce com idealismo e vigor a defesa dos oprimidos e a liberdade de expressão do pensamento.  
Em pouco tempo, Jáder já tinha um inimigo de peso, o então governador do Estado, Faustino Albuquerque, com quem trava embates de 1947 a 1948. Anti-integralista foi vítima de ataques, tiros e agressões. Quatro anos antes da fundação do jornal, havia sido denunciado como comunista e condenado a 27 anos de prisão, sendo o primeiro cearense a ser conduzido ao cárcere por sentença do Tribunal de Segurança do Estado, a justiça de exceção do Estado Novo. Depois de quase um ano de prisão no quartel do Corpo de Bombeiros, no bairro Jacarecanga, foi solto pela anistia concedida aos presos políticos (no mesmo quartel, esteve presa a escritora Rachel de Queiroz).

 Quartel do Corpo de Bombeiros, onde Jáder de Carvalho cumpriu quase um ano de prisão sob acusação de divulgar ideias marxistas. (arquivo Nirez) 
O Diário do Povo era escrito por alunos do Jáder, recrutados no Liceu do Ceará. Para ser selecionado, o candidato tinha que atender a três critérios: ser um bom aluno de história, ter paixão jornalística e ser de briga. Além dos estudantes trabalhavam na redação a esposa de Jáder, Margarida Sabóia, cronista de destaque e os filhos do casal.
O jornal tinha tiragem irregular, circulação restrita a alguns assinantes, em algumas bancas e com poucos gazeteiros, além de enfrentar algumas dificuldades operacionais. Apesar de tudo, tinha um bom número de anunciantes.
Vale ressaltar que o jornal aproveitava suas próprias páginas para criticar a censura do Estado Novo. Na edição do dia 1º de novembro de 1947, o editorial falava sobre a prisão dos originais de sua primeira edição:
"O Diário do Povo, antes mesmo de circular, teve os originais de sua edição de estreia apreendidos pela polícia, e presos o seu secretário e dois revisores, num atentado inominável à Constituição e à consciência democrática do povo cearense. Confortou-nos, entretanto, o protesto geral dos democratas brasileiros, que em todo o País, pela imprensa, pelo rádio, da tribuna do Congresso e da praça pública exteriorizavam a repulsa à atitude nazifascista do governo do desembargador sem leu, sem luz e sem inteligência...".

Depois de 14 anos, o Diário do Povo deixou de circular por problemas financeiros, deixando como legado uma época marcante do jornalista cearense. Segundo o próprio Jáder de Carvalho, em entrevista concedida ao um grupo de estudantes em 1967, essa teria sido a  melhor  fase de sua vida. “Escrevo por necessidade de desabafar. Para servir de porta-voz aos oprimidos e humilhados, que nem sempre têm uma voz fiel, exata, leal e sincera, de que eles se possam servir”.

Equívoco 

O professor Heribaldo Costa, jurista, cearense ilustre, era inimigo de Jáder Carvalho, então  diretor do Diário do Povo. Heribaldo foi à Europa, voltou. O Diário do Povo noticiou: 
Chegou da Europa o ilustre professor Hericaldo Bosta
O professor, indignado, entrou na Justiça contra o jornal. O DP perdeu a questão e foi condenado a se retratar na primeira página. Jáder de Carvalho escreveu uma nota grande, se desculpando:

Esse jornal, sem querer, por equívoco gráfico, cometeu um erro imperdoável. Chamou de Hericaldo Bosta o ilustre professor de nossa Faculdade de Direito. Sabem os leitores que jamais este jornal poderia chamar de Hericaldo Bosta um intelectual do nível e do renome do ilustre professor da Faculdade de Direito. Até porque jamais soubemos que o ilustre mestre se chamasse Hericaldo Bosta.
Mas, errar o nome de personalidades ocorre em todos os jornais do mundo. Acabamos chamando de Hericaldo Bosta o venerando catedrático da Faculdade de Direito. Cumprindo determinação judicial, estamos nos desculpando e informando aos leitores que, em vez de Hericaldo Bosta, o verdadeiro nome do distinto professor é Heribosta Caldo.

O professor Heribaldo Costa pegou um revólver e foi ao jornal matar o diretor Jáder Carvalho. Não deixaram.


Casa na Rua Agapito dos Santos, 389, onde residiu com a familia (arquivo Nirez) 
Jáder Moreira de Carvalho nasceu em Quixadá, Ceará, em 29 de dezembro de 1901 e faleceu em Fortaleza no dia 7 de agosto de 1985, aos 83 anos de idade. Bacharel pela Faculdade de Direito do Ceará em 1931, foi professor de História do Colégio Estadual do Ceará e assessor jurídico do Conselho de Assistência Técnica aos Municípios. 
Jornalista brilhante e polêmico fundou os jornais Diário do Povo e A Esquerda. Poeta telúrico de grande sensibilidade, tinha uma poesia arrebatada e comovedora. Foi um dos iniciadores do movimento modernista no Ceará, em 1927, com o livro O canto novo da raça, publicado em conjunto com Franklin Nascimento, Sidney Neto e Mozart Firmeza.

Obras poéticas: 
O canto novo da raça, 1927; 
Terra de ninguém, 1931; 
Água da fonte, 1966; 
Toda a poesia, 1973;
Alma em trova, 1974; e
Terra bárbara, publicada pelo Programa Editorial da Casa José de Alencar em 1998.

Foi também ensaísta e romancista de cunho social, inaugurando no Ceará o chamado “romance da classe média”, de fundo reivindicante.

Além de ensaios sociológicos publicou os romances: 
Classe média, 1937; 
Doutor Geraldo, 1937; 
A criança vive, 1945; 
Eu quero o sol, 1946; 
Sua majestade o juiz, 1962; e 
Aldeota, 1963. 

Foi agraciado com a Medalha da Abolição – a mais alta condecoração do estado – em maio de 1982.
Ingressou na Academia Cearense de Letras no dia 21 de maio de 1930 por ocasião da segunda reorganização do sodalício.
Ocupou a cadeira 15 (posteriormente número 14), cujo patrono é João Brígido.
Pertenceu ao Instituto do Nordeste e à Sociedade Brasileira de Sociologia.


Terra Bárbara

Na minha terra,
as estradas são tortuosas e tristes
como o destino de seu povo errante.
Viajor, 
se ardes em sede, 
se acaso a noite te alcançou, 
bate sem susto no primeiro pouso:
— terás água fresca para sua sede,
— rede cheirosa e branca para o teu sono.
   

Na minha terra,
o cangaceiro é leal e valente:
jura que vai matar e mata.
Jura que morre por alguém — e morre.

(Brasil, onde mais energia:
na água, que tem num só destino
do teu Salto das Sete Quedas
ou na vida, que tem mil destinos, 
do teu jagunço aventureiro e nômade?)
Ah, eu sou da terra do seringueiro,
— o intruso
que foi surpreender a puberdade da Amazônia.
 

Eu sou da terra onde o homem, seminu, 
planta de sol a sol o algodão para vestir o Brasil.
Eu nasci nos tabuleiros mansos de Quixadá
e fui crescer nos canaviais do Cariri,
entre caboclos belicosos e ágeis.  


Filho de gleba, fruto em sazão ao sol dos trópicos, 
eu sou o índice do meu povo:
se o homem é bom — eu o respeito.
Se gosta de mim — morro por ele.
Se, porque é forte, entender de humilhar-me, 
— ai, sertão!
Eu viveria o teu drama selvagem,
eu te acordaria ao tropel do meu cavalo errante,
como antes te acordava ao choro da viola...
pesquisa: 
Revista Fortaleza
Jornal Diário do Nordeste
Jáder de Carvalho disponível em 
http://www.ceara.pro.br/ACL/Academicosanteriores/JaderCarvalho.html


2 comentários:

Valter Bitencourt Júnior disse...

É um poeta que escreve com a alma, e mostra o sofrimento que se passa diante da seca, diante do sertão, e do povo, e toda sua dificuldade!

Fátima Garcia disse...

É isso mesmo Walter Bitencourt,
e como todos os poetas da terra, é muito pouco conhecido, e sua obra pouco divulgada.