sábado, 28 de janeiro de 2012

Nos Trilhos da Exploração da Miséria

antiga Estação Fortaleza da EFB (arquivo Nirez)

A Estação de Fortaleza da Estrada de Ferro de Baturité, foi projetada e construída pelo engenheiro Henrique Foglare, no local do antigo cemitério de São Casemiro praticamente com mão-de-obra dos retirantes da seca de 1877 em terreno que pertencia à sesmaria de Jacarecanga, de procedência da família Torres que fez doação a uma sociedade de oficiais do exército. A Confraria de São José declarou-se dona da região e mais tarde a aforou à via férrea de Baturité. A obra teve sua pedra fundamental lançada em 30 de novembro de 1873, mas somente foram iniciadas as obras em 1879, sendo, assim, inaugurada em 9 de junho de 1880, em frente ao antigo Campo da Amélia, atual Praça Castro Carreira (Praça da Estação). Mantém-se praticamente inalterada até os dias de hoje. 

antiga Estação de Maracanaú (foto do site Estações Ferroviárias do Brasil) 

Diante do cenário de caos decorrente da grande seca de 1877-79 – fome, migrações e desatinos provocados pelos flagelados  (saques, mendicâncias, furtos, prostituição, etc) – as autoridades imperiais decidiram utilizar a mão-de-obra dos retirantes na construção de diversas obras. Uma destas foi a Estrada de Ferro Baturité. 
O discurso oficial visava transformar a ferrovia em socorro público, ou seja, estava-se dando empregos aos retirantes, que se achavam ociosos, para assegurar-lhes meios de subsistência e atenuar a miséria. Na realidade, o governo buscava aliviar a tremenda pressão social vinda com a seca, aproveitar a explorar aquela mão-de-obra disponível, barata e impor certo controle sobre os flagelados.  Nas obras, os retirantes eram divididos em turmas e submetidos a severa disciplina. 


Administração da Estrada de Ferro Baturité

A expansão da via férrea entre Pacatuba e Baturité utilizou mais de dez mil operários, que junto com seus dependentes perfazia em torno de 50 mil pessoas. O uso da mão-de-obra dos flagelados não teve o resultado esperado, pois os sertanejos, vitimados pela desnutrição e pela miséria, pouco produziam, para o que também contribuíam os baixos salários, quase sempre pagos com atrasos.

retirantes da seca de 1878 (imagem do blog
 http://gerson-franca.blogspot.com)

Não raras vezes, os atrasos dos pagamentos ou na distribuição de alimentos e a disciplina rígida que se tentava impor nos trabalhos, levavam os sertanejos a se revoltar.  Em Baturité, no mês de outubro de 1877, de três a quatro mil pessoas se reuniram em frente ao depósito do governo, esperando a distribuição das rações. O agente de distribuição, no entanto, como já estava tarde, não quis realizar a distribuição dos alimentos.  Os trabalhadores se rebelaram e saquearam o armazém. Forças Públicas de Fortaleza se deslocaram para manter a ordem na cidade. Na capital, também ocorreram tumultos semelhantes, e o governo chegou a pedir um navio de guerra em frente à cidade para impor respeito.

fontes:
História do Ceará, de Airton de Farias
Site As Estações Ferroviárias do Brasil, disponível em
http://www.estacoesferroviarias.com.br

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