Mostrando postagens com marcador igreja do rosario. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador igreja do rosario. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Bens Relevantes e Desprotegidos


Fortaleza é uma cidade sem memória, que não preserva, não sente saudades nem faz questão de conservar sua história.  Oficialmente completou em 2015, 289 anos, desde a sua elevação à categoria de Vila, em 13 de abril de 1726. Mas o povoado, nascido à sombra do forte, é muito mais antigo. 

Mas, ao se analisar as construções ou monumentos da cidade, constata-se que há no máximo, duas edificações que atestam esse passar dos anos: O Forte de Nossa Senhora de Assunção (1649), e a Igreja do Rosário (1730).  No mais, se depender do testemunho do seu patrimônio edificado, Fortaleza tem pouco  mais de cem anos. O  resto foi destruído. 


De acordo com definição da SECULT, "tombamento é o reconhecimento de um bem material, de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e/ou simbólico para uma comunidade, protegendo-o de descaracterização ou de destruição através da aplicação de legislação específica. Finalizado o processo de Tombamento, o bem é inscrito no Livro de Tombo". 

O processo não garante a preservação – é só olhar os casos da Escola Jesus, Maria, José, o Teatro São José, e outros, que são tombados, mas estão em ruínas. Não garante nem mesmo a sua sobrevivência, haja vista o que aconteceu com o prédio do Centro Artístico Cearense, na Avenida Tristão Gonçalves, que era tombado, mas foi demolido em razão do péssimo estado de conservação. E Essa vem sendo a tática empregada: deixar arruinar até que a recuperação fique inviável, quer pelo alto custo, quer pela ausência de prioridade. O Teatro São José está passando por esse processo. 


E é considerando essa cultura da demolição, que várias edificações e equipamentos deveriam ser protegidos por meio de tombamento, por serem de reconhecida  relevância no aspecto arquitetônico, histórico, artístico e cultural. Esses bens correm sérios riscos de desaparecerem de cena, de forma sumaria, arbitrária e definitiva.  Apesar de assinalado, o número de anos não é primordial para o tombamento.

Ponte Metálica – Localizada na Praia de Iracema – 109 anos.


Inaugurada em 1906, a ponte serviu como porto de Fortaleza por mais de vinte anos. Era dotada de escada móvel para subida e descida de passageiros – que não oferecia a menor segurança – e de guindastes para as cargas. Os navios ficavam ao largo, enquanto botes e lanchas faziam o percurso entre as embarcações e a ponte. Desgastada pelo uso e pela ação da maresia, foi reconstruída na década de 1920, sendo inaugurada em 1928, com o nome de Viaduto Moreira da Rocha, já em concreto armado. Atualmente, encontra-se em péssimo estado de conservação e corre sério risco de desabamento.

Castelinhos da Avenida Santos Dumont - localizados na Praça Luiza Távora, na Aldeota  – 77 anos 


Os castelinhos, em número de seis, foram construídos em 1938, pelo arquiteto Emilio Hinko, em estilo eclético, a pedido de sua mulher Pierina, viúva do comerciante Plácido de Carvalho. Pierina e Plácido ficaram casados até a morte deste, em 1935.  Mais tarde Pierina contraiu núpcias com o arquiteto húngaro Emilio Hinko, que construiu uma série de casas para aluguel em torno do palacete principal. O casal Pierina e Hinko morou em diversas casas em Fortaleza, inclusive em duas das que compunham o complexo do castelo, sem jamais ocuparem a edificação central, demolido na primeira metade dos anos 70. Atualmente os castelinhos abrigam alguns órgãos da Administração Estadual.

Sobrado do Pastor - Localização: Praça do Ferreira esquina das ruas Floriano Peixoto e Guilherme Rocha – 101 anos


Projeto do desenhista José Moreira concluído em 1914. Dois anos mais tarde passou a ser ocupado pela Chefatura de Polícia. Desde 1993 funciona no local o restaurante L’ Escale. O proprietário Eduardo Pastor, proveniente do Pará, investiu na obra como uma alternativa de negócio, uma vez que a borracha estava em decadência. Em estilo art-nouveau, o edifício teve ao longo dos anos vários usos, sendo ocupado por órgãos públicos e casas comerciais, perdendo parte das características arquitetônicas, principalmente na parte térrea da fachada.

Palacete Guarani – localização: esquina das Ruas Barão do Rio Branco com Senador Alencar – 107 anos


Erguido em terreno adquirido pelo Barão de Camocim, que construiu o palácio, em 1908. Foi ocupado sucessivamente pelo Bank of London, (1910) Banco dos Importadores (1925) a Boate Guarani, o Clube dos Diários, o Banco do Estado do Ceará, e uma empresa de telecomunicações. Cópia de um imóvel europeu, passou por diversas reformas, inclusive no telhado de ardósia original, que era fortemente inclinado, que servia para escorrer neve. 

Prédio da Escola Pio X – localização: Avenida Duque de Caxias com a Rua Barão de Aratanha – 107 anos


Fundada por Frei Mansueto em 1908. O prédio foi construído em terreno doado pelo padre João Augusto da Frota, na esquina sudeste do Boulevard do Livramento (atual Avenida Duque de Caxias) com a Rua Pero Coelho (atual Barão de Aratanha). Na outra esquina estava o convento dos capuchinhos. Os recursos para construção foram obtidos através de campanhas movidas pelas várias confrarias religiosas. Foi inaugurado em 5 de julho de 1908, mantido e dirigido pelos frades capuchinhos; era uma obra das vocações missionárias, mista e gratuita.  O prédio passou por reforma e ampliação em 1924, quando foi construído o segundo pavimento. Atualmente o imóvel está alugado a uma faculdade. Lá funcionou o Cinema Pio X, instalado no prédio da Escola em 3 de fevereiro de 1923, era frequentado pelos moradores das redondezas e exibia filmes lançados no Cine Moderno. Cinema mudo, instalado graças aos esforços dos capuchinhos, funcionou no andar térreo até 1937, enquanto no andar superior funcionava a escola para meninos pobres. 

Praça Portugal – localização: confluências das avenidas Dom Luiz e Desembargador Moreira, na Aldeota – 47 anos


foto de Muhammad Said

A criação da Praça Portugal foi autorizada na administração do procurador fiscal Jorge Moreira da Rocha à frente da Prefeitura de Fortaleza entre abril e dezembro de 1947. A oficialização do ato se deu pelo Decreto-lei n° 202, de 23 de maio de 1947. Mas a Praça Portugal só foi inaugurada no dia 6 de abril de 1968, na gestão do prefeito José Walter Cavalcante, ocupando uma área de 13.440m². Foi construída pela SUMOV (Superintendência Municipal de Obras e Viação), ostentando um lago artificial e um grande obelisco. A praça contava ainda com uma fonte, uma ponte, postes e bancos. Durante a construção, empresários portugueses aqui estabelecidos doaram material para a obra e contribuíram financeiramente para sua construção. Atualmente corre grande risco de demolição porque a prefeitura de Fortaleza tem novos projetos para a área, e deseja suprimir a Praça Portugal com a alegação de que o espaço atrapalha o trânsito de veículos da região. 


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Fortaleza tinha tudo para não dar certo

A crônica histórica de Fortaleza se iniciou, de maneira mais precisa, com o filho de inglês Henry Koster, ao escrever o livro Travels in Brazil, publicado em Londres em 1916 e traduzido por Luís da Câmara Cascudo, em 1942, com o título Viagens ao Nordeste do Brasil. Nascido em Portugal, veio por motivo de saúde fixar-se no Recife, por sugestão de amigos e da família.
Em 1810, a 3 de novembro, inicia uma viagem maluca – cerca de 156 léguas a cavalo, em tempo de seca, varando agreste, praia, caatinga, tabuleiro e sertão, até Fortaleza. Viaja anotando tudo, os homens, as raças, as paisagens, os animais, a natureza dos terrenos, crianças, tarefas agrícolas, produtos, indumentárias, ferramentas de trabalho, crenças, usos e costumes.

 A Igreja do Rosário é a mais antiga de Fortaleza (construída por escravos em 1730)  e foi uma das avistadas por Henry Koster

Koster demorou em Fortaleza de 16 de dezembro de 1810 a 8 de janeiro de 1811, e consignou no seu diário de viagem, valiosas informações sobre a capital da Colônia do Siará Grande, à época governada por Luis Barba Alardo de Menezes (junho de 1808 a março de 1812).
“A Vila de Fortaleza do Ceará – escreve o luso-inglês – é edificada sobre terra arenosa, em formato quadrangular, com quatro ruas partindo da praça (Praça do Conselho, hoje Praça da Sé) e mais outra, bem longa, do lado norte desse quadro, correndo paralelamente, mas sem conexão”. 

  residência do governador das Armas do Ceará em 1824. Ficava na Praça da Sé na atual Rua Sobral, em frente ao Paço Municipal. 
Um governador das armas constituía cada um dos comandantes territoriais do Exército Português, entre 1641 e 1836. Cada governador das armas tinha a seu cargo um governo das armas, sendo responsável pelas tropas estacionadas numa província

“As casas têm apenas o pavimento térreo e as ruas não possuem calçamento,  mas em algumas residências, há uma calçadas de tijolos diante. Tem três igrejas, o Palácio do Governador, a Casa da Câmara e Prisão, Alfândega e Tesouraria. Os moradores devem ser uns mil e duzentos. A fortaleza de onde a vila recebe a denominação fica sobre uma colina de areia, próxima às moradas e consiste num baluarte de areia ou terra, do lado do mar, e uma paliçada enterrada no solo, para o lado da Vila (somente em 1812, no governo de Manuel Sampaio a fortaleza foi reconstruída em alvenaria), contém quatro peças de canhão, de vários calibres, apontadas para muitas direções. Notei que a peça de maior força estava voltada para a Vila. A que estava montada para o mar não tinha calibre suficiente para atingir um navio no ancoradouro comum. O armazém da pólvora está noutro ponto e é visto do porto”. 


“Não é muito para compreender-se a razão da preferência dada a este local.  Não há rio nem cais e as praias são más e de acesso difícil. O porto é exposto e mau. Os ventos são sempre do sul e do leste. Fossem mais variados, e seria raro um navio chegar à costa. Os edifícios públicos são pequenos e baixos, mais limpos e caiados, e perfeitamente adaptados aos fins a que se propõem. Não obstante a má impressão geral, pela pobreza do solo em que a Vila está situada, confesso ter ela boa aparência, embora escassamente possa este ser o estado real dessa terra. A dificuldade de transporte terrestre, particularmente nessa região, a falta dum porto, as terríveis secas, afastam algumas ousadas esperanças no desenvolvimento, não tomará grandes impulsos. Os longos créditos que se é obrigado a conceder aos negócios locais, fecham os cálculos de rápidos pagamentos como estão habituados os comerciantes ingleses”.

 prédio da Tesouraria Provincial em 1842

A capital do Siará Grande, a julgar por essas impressões de Koster, não passava de uma pobre aldeia, sem melhor vitalidade e sem esperança de se desenvolver. Pobreza sobre pobreza: sem calçamento, sem iluminação pública, sem transportes, senão no lombo de cavalos. Naquele areal, nem os carros de bois podiam trafegar. O viajante francês L.F. Tollenare quase cobriu o roteiro de Koster, alguns anos mais tarde, em 1817, quando administrava a Colônia do Siara Grande, o governador Manuel Inácio de Sampaio (março de 1812-janeiro de 1820). A capital cearense é chamada de Cidade do Ceará, e o viajante calcula de 1.000 a 1.200 o número de seus moradores, enfatizando ainda a precariedade do porto.

prédio da Assembleia Provincial
 
Essa pobreza da capital do Ceará continuaria por longo tempo, mesmo depois de promovida à categoria de cidade, por decreto imperial de 17 de março de 1823, as ruas sem pavimentação, às escuras durante à noite, todos andando à pé, pois não havia ainda qualquer espécie de veículos. As casas não apresentavam nenhuma estética em suas fachadas e o conforto interno era quase rudimentar, sem serviço de água e com iluminação mortiça a azeite de peixe.


Centro de Fortaleza, anos 70

Mesmo depois do início do seu povoamento, de se transformar em cidade, a capital do Ceará tinha tudo para não dar certo, conforme previa Koster. Das dificuldades geográficas e naturais que impunha a seus exploradores, ao desinteresse econômico e político por parte da Coroa Portuguesa em relação ao seu território, muitos foram os fatores que fizeram o povoado atravessar mais de três séculos em total ostracismo.

Avenida Barão de Studart (foto Fátima Garcia)

Tanto que, historiadores, cronistas e geógrafos, até hoje não sabem explicar com precisão, o que levou aquele povoado ermo e abandonado à própria sorte - fincado numa planície arenosa, sem grandes potenciais agrícolas, sujeita à secas periódicas, sem baías aportáveis e sem uma foz de rio navegável - se transformar numa das maiores metrópoles do País. Fortaleza tinha tudo para não dar certo. E deu.     


fotos do Arquivo Nirez
fontes:
Fortaleza e a Crônica Histórica, de Raimundo Girão
Revista Fortaleza, fascículo 2, de 13/04/2006 
Wikipédia
 

domingo, 29 de janeiro de 2012

Ornamentos da Vida e da Morte

adereços da vida...

Praça Marquês do Herval, atual José de Alencar (foto do Álbum de Vistas do Ceará, 1908)


Algumas fotografias antigas que reportam ao início do século XX são testemunhos eloquentes da grande importância da iluminação a gás na paisagem de Fortaleza, especialmente nas alamedas do Passeio Público, considerada a mais elegante área de lazer urbano do período. Concebido de forma a incentivar novas formas de sociabilidade e mundanismo na capital do Ceará, o Passeio estava dividido em três planos topográficos, dos quais o primeiro e mais seletivo – a Avenida Caio Prado – foi inaugurado em 1880.

 Avenida Caio Prado - ao fundo, a Santa Casa antes da ampliação de 1914 (álbum de vistas do Ceará, 1908)

Cercado por um belo gradil e portões de ferro (projetados por Adolfo Herbster), dotado de jardim bem arborizado, ornado com bancos, colunas, canteiros, postes e combustores de gás, vasos de louça e estatuária de estilo neoclássico retratando divindades da mitologia grega, o logradouro estava situado no antigo Campo da Pólvora, local que em princípios do século XIX era usado para a execuções de condenados pela justiça. 
Alguns participantes da Confederação do Equador foram mortos ali, que depois passou a ser denominada Praça dos Mártires. Às quintas e domingos se organizavam retretas, ao som da banda de música do 15° Batalhão do Exército – momento principal de reunião e encontro das altas camadas urbanas, retratado por uma das fotografias antigas. Esses eventos costumavam entrar pela noite, com a presença indispensável dos lampiões de gás.

Cartão Postal do Passeio Público, década de 1920

Tamanha era a influência do Passeio Público no lazer da cidade, que logo se tornou um dos mais conhecidos cartões-postais da cidade. 
Embora destinado ao lazer, O Passeio Público mantinha normas que disciplinavam seus frequentadores, como a exigência de belos trajes e boas maneiras. Sua própria constituição espacial significava um permanente exercício de discriminação simbólica, pois as diferentes classes sociais ocupavam planos separados do jardim: Avenida Caio Prado, olhando para o mar; a do centro, denominada Carapinima, fronteiriça à porta principal da Santa Casa;  e a Avenida Mororó, mais próxima do calçamento da Rua Dr. João Moreira (antiga Rua da Misericórdia). 

Avenida Carapinima - à direita o catavento e a cobertura do Cassino (arquivo Nirez) 

Nelas se observava uma separação voluntária das classes sociais: na primeira avenida, a grã-finagem; na outra, a classe média e na terceira, as domésticas, os operários, os desempregados, etc. Cronistas e estudiosos da história de Fortaleza costumam insistir nessa perfeita e espontânea separação de classes.


Avenida Caio Prado em dois momentos (1914 e 1908) e seus elegantes frequentadores (arquivo Nirez e Álbum de Vista do Ceará)

Havia na verdade, um código imposto pelo qual se instituíam limites, na observância de gestos moderados, conversações educadas, vestimentas elegantes. Na constituição dos valores ligados à ordem social e ao progresso econômico, é indispensável o pôr-se no seu lugar, respeitar as convenções e hierarquias, que repelem o diferente, transformando-o em estranho e intruso.
O Passeio Público atraía habitantes de culturas diferenciadas, sem descuidar dos lugares específicos que cabia a cada um. Mesmo nos espaços de lazer, o ar descontraído e o entretenimento não ameaçava, antes fortalecia as distinções sociais, direcionando  as elites ao primeiro plano do logradouro, as camadas médias no segundo patamar e os segmentos populares no terceiro nível, junto a beira mar.

Avenida Mororó (à direita, Ceres). Em fins do século XIX costumava-se designar por avenida (mais tarde alameda) um corredor ou via calçada que ladeasse ou cruzasse uma determinada praça. No caso do Passeio Público, cada uma das avenidas corresponde a um respectivo plano do logradouro. (foto do Álbum de Vistas do Ceará, 1908)


Por outro lado, as estratégias de poder não tinham alcance ilimitado. Numa foto do início do século XX, a Avenida Caio Prado recebe uma clientela pouco atenta às etiquetas sociais, com roupas simples e posturas corporais irreverentes, num misto de preguiça e desleixo. 
Sinal de que os espaços de lazer, pelo menos em dias comuns, não eram tão delimitados como atestava a crônica histórica. Nestes momentos, de menor vigilância policial, os pobres ocupavam a seu modo os lugares destinados à elite, questionando com sutileza as hierarquias sociais e a ambição de superioridades dos ricos.

... e da morte
Esculturas no S. João Batista (foto Garcia Breson)

Quando o Passeio Público foi inaugurado, a cidade já contava com outro importante equipamento urbano: um cemitério. O primeiro, de 1848, chamava-se São Casemiro e estava ao lado do antigo morro do Croatá, na área hoje ocupada pela Estação João Felipe, na Praça Castro Carrera. 
Antes disso, os enterros se davam no interior ou nas proximidades das igrejas, um exemplo disso é a Igreja do Rosário (construída no século XVIII), onde até pouco tempo, podiam ser vistos, cobertos pelo assoalho, os compartimentos retangulares que serviam de sepultura.

Túmulo do Major Facundo, assassinado em 08 de dezembro de 1841 e sepultado na Igreja do Rosário. Hoje, é o único túmulo que ainda tem identificação dentro do templo. 

Em meados do século XIX ocorreu uma importante mudança no trato com a morte – a cidade dos vivos deveria enviar seus mortos para fora do perímetro urbano, a fim de evitar infecções e epidemias causadas pelo contato prolongado com os cadáveres. Por conta de  um procedimento burocrático,  uma medida de salubridade pública, a morte começava a distanciar-se da vida diária, e os entes queridos ganhavam um lugar específico para o repouso eterno.
Em 1865, um outro cemitério – o São João Batista – sucedeu ao São Casimiro, já inserido no espaço urbano pela expansão de Fortaleza. A velha necrópole foi abandonado também, em razão do grande número de vítimas do cólera ali sepultados, representando um risco de contaminação para os moradores locais. 

Alameda do Cemitério São João Batista (foto Garcia Breson)

O Cemitério São João Batista acolheu os mortos de Fortaleza por cerca de um século, quando nos anos 1960 começou a perder espaço para o Parque da Paz. Durante esse longo período, acolheu a mais rica expressão de arte fúnebre local, através de túmulos, lápides, esculturas, cruzes e alegorias edificadas em materiais nobres, como o mármore e o granito. 
Tanto investimento, atesta um requinte estético favorecido, em parte, pelo desenvolvimento comercial e o incremento da cultura algodoeira de exportação em fins do século XIX.

Esculturas no Cemitério São João Batista 
foto http://olhares.uol.com.br/cemiterio-sao-joao-batista-fortaleza-foto4302723.html


A exemplo do Passeio Público, a organização espacial do São João Batista, apresenta uma segregação social, com os mausoléus das elites situados na sua entrada, tendo ao fundo os túmulos mais humildes, dos segmentos populares.
A beleza e o luxo da cidade dos mortos, em que se empenharam os grupos sociais dominantes, traduzem uma preocupação maior: fazer daquele espaço um testemunho de grandeza e superioridade para as gerações futuras, tornar o lugar da morte um motivo de culto ao passado, respeito à memória e orgulho familiar.

Fontes:
Fortaleza – imagens da cidade, de Antônio Luiz Macedo e Silva Filho
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão
Passeio Público, espaços, estatuária e lazer, de José Liberal de Castro, publicado na Revista do Instituto do Ceará, 2009.